Gabriel delanne o fenômeno espírita



Baixar 1,15 Mb.
Encontro09.09.2017
Tamanho1,15 Mb.


GABRIEL DELANNE

O FENÔMENO ESPÍRITA




Salvador Dali

PARTE PRIMEIRA
HISTÓRICO
A ANTIGÜIDADE

CAPITULO I – ANTIGUIDADE
O Espiritismo é tão velho quanto o mundo. - Provas tiradas dos Vedas. - A iniciação antiga. - Fenômenos de evocação entre os egípcios e entre os hebreus. - Na Grécia: as pitonisas. – As mesas giratórias entre os romanos. - As feiticeiras da Idade Média. - Perpetuidade da tradição através dos séculos

CAPITULO II - OS TEMPOS MODERNOS
Na América: A família Fox; o primeiro Espírito batedor. - As perseguições em Rochester. - Desenvolvimento considerável do fe­nômeno; seus múltiplos aspectos. - Os sábios. - O professor Mapes. - O juiz Edmonds. - Robert Hare; suas experiências. - Robert Dale Owen. - O Espiritismo atualmente. - Na Inglaterra. - As investigações de Crookes. - A Sociedade Dialética de Londres. - Os testemunhos de Alfred Wallace, Varley, Morgan, Oxon, Dr. Sexton, Dr. Chambers, Dr. Gully. - Na França. - Tra­balhos do Barão de Guldenstubbé. - A obra de Allan Kardec. - Os adversários do Espiritismo. - Agénor de Gasparin, Thury, Des Mousseaux, Chevillard, etc. - Adesões de homens célebres. - Estado atual. - Na Alemanha. - As pesquisas do Dr. Kerner; os fatos de Mottlingen; as experiências de Zollner, Fechner e Ulrici. - Enumeração dos espíritas ilustres no resto da Europa. - Os principais jornais que tratam da Doutrina. - Importância do movimento. - Resumo.

PARTE SEGUNDA
OS FATOS

CAPITULO I - A FORÇA PSÍQUICA

O Espiritismo em casa de Victor Hugo. - Primeiras objeções. - Erguimento da mesa sem contacto. - Sociedade Dialética de Lon­dres. - Medição da força psíquica. - A mediunidade. - A levitação humana.
CAPÍTULO II - A INTELIGÊNCIA DA FORÇA PSÍQUICA
Os fenômenos não são devidos a uma força cega. - Algumas expe­riências provam-no. - As objeções dos incrédulos. - A transmis­são do pensamento. - Investigações da Sociedade Psíquica de Londres. - Discussão. - Prova absoluta da existência dos Es­píritos. - As crianças mortas na India. - Um telegrafísta de além-túmulo. - As pranchetas clarividentes. - O caso Abraham Florentine. - O alfaiate esmagado. - O Capitão Wheatcroft.
CAPITULO III - MEDIUNIDADES DIVERSAS
Os médiuns escreventes. - Algumas comunicações notáveis. - Fábulas, versos e música. - Incorporação ou encarnação. - Um caixeiro. - A filha do juiz Edmonds. - Anestesia durante o transe. - As objeções. - O Sr. Binet. - As experiências do Sr. Janet. - Me­diunidade vidente. - Mediunidade auditiva. - Escrita direta e psicografia. - Experiências de Wallace. - Oxon. - Zollner. - O Dr. Gibier. - Na América do Norte. - Observações.
CAPITULO IV - O ESPIRITISMO TRANSCENDENTAL

O Espiritismo transcendental. - Ação dos Espíritos. - Desagregação da matéria. - Experiências de Crookes e de Zollner. - O fenô­meno de transportes. - Aparições luminosas na obscuridade. - Aparições de mãos luminosas por si mesmas, ou visíveis à luz ordinária. - Formas e figuras de fantasmas. - As materializa­ções. - Experiências de Crookes com Katie King. - Formação lenta de uma materialização. - A fotografia espirita. - Fotogra­fias de Espíritos reconhecidos por parentes. - Mediunidade vidente e fotografias de Espíritos. - As experiências de Aksakof. - Fotografias transcendentais em pleno dia. - Fotografia do médium e de uma forma materializada à luz do magnésio. - Observações do Sr. Aksakof. - Impressões e moldagens de formas materializadas. - Experiências em Nápoles, na América e na In­glaterra. - O Espiritismo e a Psiquiatria. - Experiências de Lombroso em Nápoles. - A explicação do célebre professor. - Refutação. - Resumo.


PARTE TERCEIRA

CONSELHOS AOS MÉDIUNS E AOS EXPERIMENTADORES
Recolhimento. - Homogeneidade de pensamentos. - Regularidade. - Paciência. - Circunspeção em relação aos Espíritos que se ma­nifestam. - Identidade dos Espíritos. - Desconfiar dos grandes nomes. - Razão pela qual os Espíritos chamados não se mani­festam.

PARTE QUARTA
A DOUTRINA ESPIRITA
Materialismo e Espiritismo. - O Espírito no Espaço. - As vidas su­cessivas. - Provas da reencarnação. - Conclusão.

Notas de Rodapé





PREFÁCIO

O Espiritismo é uma ciência cujo fim é a demonstração experimental da existência da alma e sua imortalidade, por meio de comunicações com aqueles aos quais impropriamente têm sido chamados mortos.

Há quase meio século foram empreendidas as primei­ras investigações sobre esse assunto; homens de ciência da mais alta notoriedade consagraram longos anos de estudos para certificar os fatos que formam a base desta doutrina, e foram unânimes em afirmar a autenticidade dos fenômenos que pa­reciam produto da superstição e do fanatismo.

Na França, conheciam-se imperfeitamente essas pesquisas, de sorte que, aos olhos do grande público, o Espiritismo não passava de farsa de mesas girantes.

Contudo, o tempo desempenhou o seu papel, e essa doutrina apresenta hoje ao experimentador imparcial uma série de expe­riências rigorosas, metodicamente conduzidas, que provam, com segurança, a sobrevivência do eu humano à desagregação corporal.

São esses fatos que queremos expor, a fim de que eles im­plantem em todas as consciências a convicção da imortalidade, não mais baseada somente na fé ou no raciocínio, mas solida­mente firmada na Ciência e no seu método severo e positivo.

A geração atual está fatigada de especulações metafísicas; recusa crer naquilo que não está absolutamente demonstrado, e, se o movimento espírita, que já conta milhões de adeptos no mundo inteiro, não ocupou ainda o primeiro lugar, deve-se isso a que seus adeptos negligenciaram, até então, pôr sob os olhos do público fatos bem averiguados.

A maior parte das publicações periódicas contém comuni­cações de Espíritos, as quais podem ser interessantes sob certos pontos de vista; todavia, como sua autenticidade não está absolutamente provada, não produzem o efeito desejado.

As obras francesas aparecidas desde Allan Kardec sobre este assunto são repetições, com exceção dos livros de Eugène Nus, Louis Gardy e Doutor Gibier, ou, então, não apresentam origi­nalidade alguma sobre a questão, de modo que o movimento tem sido retardado. É preciso que se lhe dê novo impulso.

Para tal, é mister caminhar com o século e saber curvar-se às necessidades da época.

O materialismo triunfa por toda parte, mas já se pressente ser de pouca duração o seu reinado; basta servirmo-nos de suas próprias armas e combatê-lo em seu próprio terreno.

A escola positivista encerra-se na experimentação; imite­mo-la: nenhuma necessidade temos de apelar para outros mé­todos, porque os fatos são obstinados, como diz o sábio Alfred Russell Wallace, e deles não é fácil desembaraçar-se.

Em vez de apresentar aos incrédulos toda a doutrina formu­lada pelos Espíritos e codificada por Allan Kardec, demos-lhes, simplesmente, a ler os trabalhos de mestre, como Robert Hare, Crookes, Wallace, Oxon, Zollner, Aksakof, pois que não pode­rão recusar os testemunhos desses grandes homens, que são, por títulos diversos, sumidades intelectuais no vasto domínio das ciências.

Não esqueçamos que Crookes fez a Física dar um passo gigantesco com a demonstração do estado radiante. Wallace é, com certeza, neste momento, o primeiro naturalista do mundo, pois, ao mesmo tempo que Darwin, achou e formulou a lei da evolução. Os trabalhos de Zollner, em Astronomia, são univer­salmente conhecidos; os de Fechner, sobre a sensibilidade, são ensinados em toda parte; e, quanto aos professores Mapes, Robert Hare, temos a dizer que eles gozam de indiscutível auto­ridade na América do Norte.

Eis aí os principais campeões do Espiritismo; mas o leitor encontrará, no fim deste volume, uma lista de numerosas no­tabilidades que afirmam categoricamente a realidade dos seus fenômenos.

E tempo de reagir contra os bonzos oficiais que tentam abafar as verdades novas, afetando uma desdenhosa indiferen­ça. Se temos respeito e admiração pela Ciência sem prevenções, pela que imparcialmente encara todos os fenômenos, estuda-os e explica-os friamente, fornecendo boas razões, também nos sentimos cheios de indignação contra a falsa ciência, rebelde a todas as novidades, encerrada em convicções adquiridas e crendo, orgulhosamente, ter atingido a meta do saber humano.

Foram homens desta classe, diremos como Wallace, que fizeram oposição a Galileu, a Harvey, a Jenner. Foram esses ridículos teimosos que repeliram a maravilhosa teoria das on­dulações luminosas de Young; que zombaram de Stephenson, quando este quis fazer correr locomotivas sobre as linhas férreas de Liverpool e Manchester. Atiraram todos os sarcasmos possíveis contra a iluminação a gás, e repeliram Arago no pró­prio seio da Academia, quando este quis discutir a telegrafia; seres ignaros que classificaram o magnetismo como embuste e charlatanice, e que, ainda ultimamente, qualificaram de grande peta a descoberta do telefone.

Não foi por vão prazer de mostrar quanto o espírito huma­no, mesmo nas classes mais esclarecidas, está sujeito ao erro, que citamos alguns dos mais frisantes exemplos de obstinação nas corporações sábias e o seu horror pelas novidades. Nosso intuito é suscitar um sério movimento em prol dessas investi­gações, que têm considerável alcance, tanto no domínio mate­rial quanto no domínio psicológico.

Se realmente a alma não morre e pode agir sobre a ma­téria, achamo-nos em face de forças desconhecidas, cujo estudo é interessante; pela mesma forma verificaremos modos novos de energia, que podem conduzir-nos a resultados grandiosos; o mesmo sucede com a personalidade, que, conservando-se de­pois da morte, nos pôs em presença de um outro problema: a produção do pensamento sem os órgãos materiais do cérebro.

Deixemos de parte os rotineiros obstinadamente encerrados em seus sistemas, abramos bem os nossos olhos quando homens probos, sábios e imparciais nos falem de recentes descobertas, e fechemos os ouvidos ao alarido de todos os eunucos do pen­samento, impotentes para saírem da órbita das idéias preconcebidas.

Diremos, como um sábio que não teme desviar-se dos ca­minhos trilhados, o Sr. Charles Richet, que uma boa e com­pleta experiência vale por cem observações, e acrescentaremos:

Vale dez mil negações, ainda mesmo quando essas negações emanassem de sumidades da maior notoriedade, se estas não se dignassem repetir as experiências e demonstrar-lhes a falsidade.

Este simples resumo não tem outras pretensões além da de expor aos olhos do público as experiências feitas por ho­mens eminentes, por mestres nesta arte tão difícil da observação exata; resultará disso a prova evidente da imortalidade do ser pensante, porque ela afirmar-se-á cada vez mais nítida, cada vez mais evidente, à medida que se desenvolver o magní­fico encadeamento dos fenômenos, desde o movimento das mesas até as aparições visíveis, tangíveis e fotografadas dos Espíritos.

Tal é o nosso fim escrevendo esta pequena obra de pro­paganda.

Depois de um histórico sucinto das origens do Espiritismo, passaremos em revista os trabalhos dos sábios, salientando o que eles têm de convincente e incontestável. Em seguida, consagraremos um capítulo à exposição dos métodos pelos quais se podem evocar os Espíritos; enfim, terminaremos pelas conse­qüências filosóficas que resultam dessas pesquisas.

Esperamos que este demonstrativo consciencioso e imparcial produza a convicção no espírito de todos os que souberem desprender-se dos preconceitos vulgares e das idéias preconcebidas, para friamente encararem esta ciência nova, cujos frutos são muito importantes para a Humanidade. É em nome do livre pensamento que convidamos os investigadores a se ocuparem com os nossos trabalhos; é com instância que lhes pedimos não repelirem sem exame esses fatos, tão novos e tão imperfeitamente conhecidos, pois estamos persuadidos de que a ,luz bri­lhará a seus olhos, como brilhou para os homens de boa-fé que, há cinqüenta anos, quis estudar os problemas do Além, tão perturbadores e tão misteriosos antes dessas descobertas.


GABRIEL DELANNE


PARTE PRIMEIRA
HISTÓRICO
CAPITULO I
A ANTIGÜIDADE

O Espiritismo é tão velho quanto o mundo. - Provas tiradas dos Vedas. - A iniciação antiga. - Fenômenos de evocação entre os egípcios e entre os hebreus. - Na Grécia: as pitonisas. – As mesas giratórias entre os romanos. - As feiticeiras da Idade Média. - Perpetuidade da tradição através dos séculos.

As crenças na imortalidade da alma e nas comunicações entre os vivos e os mortos eram gerais entre os povos da Antigüidade.

Mas, ao contrário do que acontece hoje, as práticas pelas quais se conseguia entrar em relação com as almas desencar­nadas, eram o apanágio exclusivo dos padres, que tinham cuidadosamente monopolizado essas cerimônias, não só para fazerem delas uma renda lucrativa e manterem o povo em absoluta ignorância quanto ao verdadeiro estado da alma depois da morte como também para revestirem, a seus olhos, um caráter sagrado, pois que só eles podiam revelar os segredos da morte.

Encontramos nos mais antigos arquivos religiosos a prova do que avançamos.

Os anais de todas as nações mostram que, desde épocas remotíssimas da História, a evocação dos Espíritos era praticada por certos homens que tinham feito disso uma especialidade.

O mais antigo código religioso que se conhece, os Vedas, aparecido milhares de anos antes de Jesus-Cristo, afirma a existência dos Espíritos. Eis como o grande legislador Manu se exprime a respeito: Os Espíritos dos antepassados, no esta­do invisível, acompanham certos brâmanes, convidados para as cerimônias em comemoração dos mortos, sob uma forma aérea; seguem-nos e tomam lugar ao seu lado quando eles se assen­tam. (1)

Um outro autor hindu declara: Muito tempo antes de se despojarem do envoltório mortal, as almas que só praticaram o bem como as que habitam o corpo dos sannyassis e dos vayzaprastha (anacoretas e cenobitas) adquirem a faculdade de conversar com as almas que as precederam no Swarga; é sinal que, para essas almas, a série de suas transmigrações sobre a Terra terminou. (2)

Desde tempos imemoriais, os padres iniciados nos mistérios preparam indivíduos chamados faquires para a evocação dos Espíritos e para a obtenção dos mais notáveis fenômenos do magnetismo. Louis Jacolliot, em sua obra - Le Spiritisme dans le monde - expõe amplamente a teoria dos hindus sobre os Pitris, isto é, Espíritos que vivem no Espaço depois da morte do corpo. Resulta das investigações deste autor que o segredo da evocação era reservado àqueles que pudessem ter quarenta anos de noviciado e obediência passiva.

A iniciação comportava três graus: No primeiro, eram formados todos os brâmanes do culto vulgar e os ecônomos dos pagodes encarregados de explorar a credulidade da multidão.

Ensinava-se-lhes a comentar os três primeiros livros dos Vedas, a dirigir as cerimônias e a cumprir os sacrifícios; os brâmanes do primeiro grau estavam em comunicação constante com o povo: eram seus diretores imediatos. O segundo grau era composto dos exorcistas, adivinhos, profetas evocadores de Es­píritos que, em certos momentos difíceis, eram encarregados de atuar sobre a imaginação das massas, por meio de fenômenos sobrenaturais.

Eles liam e comentavam o Atharva-Veda, repositório de con­jurações mágicas.

No terceiro grau, os brâmanes não tinham mais relações diretas com a multidão; o estudo de todas as forças físicas e naturais do Universo era a sua única ocupação, e, quando se manifestavam exteriormente, faziam-no sempre por meio de fenômenos aterrorizadores, e de longe.

Desde tempos imemoriais, o povo da China entrega-se à evocação dos Espíritos dos avoengos. O missionário Huc refere grande número de experiências, cujo fim era a comunicação dos vivos com os mortos, sendo que, em nossos dias, essas práti­cas estão ainda em uso em todas as classes da sociedade. Com o tempo e em conseqüência das guerras que forçaram parte da população hindu a emigrar, o segredo das evocações espalhou-se em toda a Ásia, encontrando-se ainda entre os egípcios e entre os hebreus a tradição que veio da índia.

Todos os historiadores estão de acordo em atribuir aos padres do antigo Egito poderes que pareciam sobrenaturais e misteriosos. Os magos dos faraós realizavam estes prodígios que são referidos na Bíblia; mas, deixando de parte o que pode haver de legendário nessas narrações, é bem certo que eles evocavam os mortos, pois Moisés, seu discípulo, proibiu formal­mente que os hebreus se entregassem a essas práticas: Que entre nós ninguém use de sortilégio e de encantamentos, nem interrogue os mortos para saber a verdade. (3)

A despeito dessa proibição, vemos Saul ir consultar a pito­nisa de Endor e, por seu intermédio, comunicar-se com a sombra de Samuel. É o que em nossos dias denomina-se mate­rialização. Veremos, mais adiante, como se podem obter essas manifestações superiores.

Apesar da proibição de Moisés, houve sempre investigado­res que foram tentados por essas evocações misteriosas; insti­tuíam uma doutrina secreta a que chamavam Cabala, mas cercando-se de precauções e fazendo o adepto jurar inviolável segredo para o vulgo. Qualquer pessoa que - diz o Tamuld -, sendo instruída nesse segredo (a evocação dos mortos), o guarda com vigilância em um coração puro pode contar com o amor de Deus e o favor dos homens; seu nome inspira respei­to, sua ciência não teme o olvido, e torna-se ele herdeiro de dois mundos: aquele em que vivemos agora e o mundo futuro.

Na Grécia, a crença nas evocações era geral. Todos os tem­plos possuíam mulheres chamadas pitonisas encarregadas de proferir oráculos, evocando os deuses; mas, às vezes, o consul­tante queria, ele próprio, ver e falar à sombra desejada, e, como na Judéia, conseguia-se pô-lo em comunicação com o ser ao qual desejava, interrogar.

Homero, na Odisséia, descreve, minuciosamente, por meio de que cerimônias Ulisses pôde conversar com a sombra do divino Tirésias. Este caso não é isolado; tais práticas eram freqüentemente empregadas por aqueles que desejavam entrar em relação com as almas dos parentes ou amigos que tinham perdido. Apolônio de Tiana, sábio filósofo pitagórico e tauma­turgo de grande poder, possuía vastos conhecimentos referentes às ciências ocultas; em sua vida, há abundância de fatos ex­traordinários; ele acreditava firmemente nos Espíritos e em suas comunicações com os encarnados. As sibilas romanas, evocando os mortos, interrogando os Espíritos, são continuamente consultadas pelos generais, e nenhuma empresa importante foi deci­dida sem se receber previamente aviso dessas sacerdotisas.

Na Itália sucede o mesmo que na índia, no Egito e entre os hebreus. O privilégio de evocar os Espíritos, primitivamente reservado aos membros da classe sacerdotal, espalhou-se pouco a pouco entre o povo e, se crermos em Tertuliano, o Espiritismo era exercido entre os antigos pelos mesmos meios que, hoje, entre nós.

Se é dado - diz ele - aos magos fazer aparecer fantas­mas, evocar as almas dos mortos, poder forçar a boca das crianças a proferir oráculos; se eles realizam grande número de milagres, se explicam sonhos, se têm às suas ordens Espíritos mensageiros e demônios, em virtude dos quais as mesas que profetizam são um fato vulgar, com que redobrado zelo esses Espíritos poderosos não se esforçarão por fazer em próprio pro­veito o que eles fazem em serviço de outrem?(4)

Em apoio das afirmações de Tertuliano, pode-se citar uma passagem de Amiano Marcelino sobre Patrício e Hilário, leva­dos perante o tribunal romano por crime de magia, acusação esta de que eles se defenderam referindo que tinham fabrica­do, com pedaços de loureiro, uma mesinha (mensulam) sobre a qual colocaram uma bacia circular feita de vários metais, tendo um alfabeto gravado nas bordas. Em seguida, um homem ves­tido de linho, depois de ter recitado uma fórmula e feito uma evocação ao deus da profecia, tinha suspendido por cima da bacia um anel preso a um fio de linho muito fino e consagrado por meios misteriosos. O anel, saltando sucessivamente, mas sem confusão, sobre várias letras gravadas, e parando sobre cada uma, formava versos perfeitamente regulares, em resposta às questões propostas.

Hilário acrescentou:

Um dia, ele tinha perguntado quem sucederia ao impera­dor atual, e o anel, designando as letras, deu a sílaba: Theo. Nada mais inquiriram, persuadidos de que se tratava da pala­vra Theodoro.

Os fatos, diz Amiano Marcelino, desmentiram os magos, mais tarde, porém não a predição, porque esta foi Theodósio. A interdição de evocar os mortos, que vemos estabelecida por Moisés, foi geral na antigüidade.

O poder teocrático e o poder civil estavam muito intima­mente ligados para que esta prescrição fosse severamente obser­vada. Não convinha que as almas dos mortos viessem contra­ dizer o ensinamento oficial dos padres e lançar a perturbação entre os homens, fazendo-os conhecer a verdade.

A Igreja Católica, mais do que qualquer outra, tinha ne­cessidade de combater essas práticas, para si detestáveis, e, portanto, durante a Idade Média, milhares de vitimas foram queimadas sem piedade, sob o nome de feiticeiros e mágicos, por terem evocado os Espíritos. Que sombria época essa em que os Bondin, os Delancre, os Del-Rio assanhavam-se sobre as carnes palpitantes das vítimas para aí encontrarem o ves­tígio do diabo! Quantos miseráveis alucinados pereceram no meio das torturas, cuja narração causa arrepios de horror e desgosto, e isto para maior glória de um Deus de amor e de misericórdia!

A heróica e casta figura de Joana d'Arc, a grande lorena, mostra como as comunicações com os Espíritos podem dar re­sultados tão grandiosos quão inesperados. A história dessa pastora expulsando o estrangeiro de seu país, guiada pelas potên­cias espirituais, pareceria maravilhosa ficção, se a História não a tivesse recolhido sob seu pálio inatacável.

Apesar de todas as perseguições, a tradição conservou-se; é possível segui-Ia na História com os nomes de Paracelso, Cor­nelius Agripa, Swedenborg, Jacob Bcehm, Martinez Pascalis, Conde de Saint-Germain, Saint-Martin, etc. Às vezes, as ma­nifestações eram públicas e atingiam desenvolvimento extraor­dinário. Não é sem terror que se lêem as narrações relativas aos possessos de Loudun, os fatos estranhos atribuídos aos convulsionários de Cevenas e aos visionários do cemitério de Saint­-Médard, mas essa demonstração levar-nos-ia muito longe.

É suficiente termos demonstrado que, em todos os tempos, a evocação dos mortos foi praticada universalmente, e que todos esses fenômenos, na realidade, são tão velhos quanto o mundo.

Chegamos agora, por conseguinte, ao estudo do movimento es­pírita contemporâneo e vamos mostrar a importância consi­derável que ele conquistou em nossa época.

CAPITULO II

OS TEMPOS MODERNOS

Na América: A família Fox; o primeiro Espírito batedor. - As perseguições em Rochester. - Desenvolvimento considerável do fe­nômeno; seus múltiplos aspectos. - Os sábios. - O professor Mapes. - O juiz Edmonds. - Robert Hare; suas experiências. - Robert Dale Owen. - O Espiritismo atualmente. - Na Inglaterra. - As investigações de Crookes. - A Sociedade Dialética de Londres. - Os testemunhos de Alfred Wallace, Varley, Morgan, Oxon, Dr. Sexton, Dr. Chambers, Dr. Gully. - Na França. - Tra­balhos do Barão de Guldenstubbé. - A obra de Allan Kardec. - Os adversários do Espiritismo. - Agénor de Gasparin, Thury, Des Mousseaux, Chevillard, etc. - Adesões de homens célebres. - Estado atual. - Na Alemanha. - As pesquisas do Dr. Kerner; os fatos de Mottlingen; as experiências de Zollner, Fechner e Ulrici. - Enumeração dos espíritas ilustres no resto da Europa. - Os principais jornais que tratam da Doutrina. - Importância do movimento. - Resumo.
Na América

Em 1847, a casa de um certo John Fox, residente em Hydes­ville, pequena cidade do Estado de New York, foi perturbada por estranhas manifestações; ruídos inexplicáveis faziam-se ouvir com tal intensidade que essa família não pôde mais repousar.

Apesar das mais numerosas pesquisas, não se pôde encon­trar o autor dessa bulha insólita; logo, porém, se notou que a causa produtora parecia ser inteligente. A mais jovem das filhas do Sr. Fox, chamada Kate, familiarizada com o invisível batedor, disse: Faça como eu, e bateu com as suas mãozinhas um certo número de pancadas, as quais o agente misterioso repetiu. A Sra Fox disse-lhe: Conte dez. O agente bateu dez vezes. Que idade tem a nossa filha? A resposta foi correta.

A esta pergunta: Sois um homem, vós que bateis?, nenhuma resposta se obteve; mas, a esta outra: Sois um Espírito?, houve resposta com pancadas rápidas e nítidas.

Chamados os vizinhos, estes foram testemunhas dos mes­mos fenômenos. Todos os meios de vigilância foram postos em ação para a descoberta do invisível batedor, mas o inquérito da família e o de toda a vizinhança foi inútil. Não se pôde descobrir a causa real daquelas singulares manifestações.

As experiências seguiram-se, numerosas e precisas. Os curio­sos, atraídos por esses fenômenos novos, não se contentaram mais com perguntas e respostas. Um deles, chamado Isaac Post, teve a idéia de nomear em voz alta as letras do alfabeto, pe­dindo ao Espírito para bater uma pancada quando a letra en­trasse na composição das palavras que quisesse fazer compreen­der. Desde esse dia ficou descoberta a telegrafia espiritual; este processo é o que vemos aplicado nas mesas girantes.

Eis aí, em toda a sua simplicidade, os preliminares do fe­nômeno que devia revolucionar o mundo inteiro. Negado pelos sábios oficiais, escarnecido pela imprensa dos dois mundos, pos­to no índex pelas religiões medrosas e ciumentas, suspeito à jus­tiça, explorado por charlatães, o Espiritismo devia continuar seu caminho e conquistar adeptos, pois que o número destes se eleva, hoje, a muitos milhões, em virtude de o Espiritismo pos­suir a mais poderosa força: a verdade.

Os investigadores notaram que o fenômeno só se produzia, em presença da jovem Fox; atribuía-se-lhe um certo poder chamado mediunidade.

O Espírito que se manifestava às jovens Fox declarou cha­mar-se Joseph Ryan e ter sido mascate durante a sua vida terrestre. Convidou as jovens para dar sessões públicas, nas quais ele convenceria os incrédulos de sua existência. A famí­lia Fox foi fixar-se em Rochester e, conforme os conselhos de seu amigo do Espaço, as jovens missionárias não hesitaram em afrontar o fanatismo protestante, propondo submeterem-se ao mais rigoroso exame. (5)

Acusadas de impostura e intimadas pelos ministros de sua confissão a renunciarem a essas práticas, o senhor e a senhora Fox, compenetrados do dever supremo de propagar o conheci­mento dos fenômenos, que consideravam como grande e conso­ladora verdade, útil a todos, recusaram submeter-se, e foram expulsos de sua igreja. Os adeptos que se reuniam ao seu redor foram vítimas da mesma reprovação.

Sabe-se que o espírito clerical é o mesmo, seja qual for a latitude em que reine. Intolerância e fanatismo, eis a sua divisa, e, se o braço secular não está mais em seu poder, restam­-lhe ainda mil meios para perseguir aqueles que não querem inclinar-se ao seu jugo.

Os conservadores fanáticos da fé dos avós sublevaram a multidão contra a família Fox. Os apóstolos da nova fé ofere­ceram-se, então, para fazer a prova pública da realidade das manifestações, diante da população reunida no Corynthian­-Hall, o maior salão da cidade. Começou-se por uma conferên­cia, onde foram expostos os progressos do fenômeno desde os primeiros dias.

Esta comunicação foi acolhida por uma vaia, mas, não obstante isso, terminou pela nomeação de uma Comissão encar­regada de examinar os fatos. Contra a expectativa geral e contra a sua própria convicção, a Comissão viu-se forçada a declarar que, depois de minucioso exame, não tinha podido descobrir vestígio de fraude.

Nomeou-se uma segunda Comissão, que recorreu a processos de investigação mais rigorosos; fez esquadrinhar e mesmo despir as médiuns, por senhoras, bem entendido; ouviram-se sempre os estalidos ou pancadas na mesa, viram-se móveis em movimento; respostas foram obtidas sobre todas as questões, mesmo mentais; nada havia nisso de ventriloquia, de subter­fúgios; nenhuma fraude foi possível encontrar. Essa Comissão apresentou um laudo mais favorável ainda que a primeira sobre a perfeita boa-fé dos espíritas e sobre a realidade do incrível fenômeno. É impossível, diz a Sra Hardinge (6), des­crever-se a indignação que se manifestou ante esta segunda decepção.

Uma terceira Comissão foi escolhida entre os mais incrédu­los e mais motejadores. O resultado desta investigação, ainda mais vexatória para as duas pobres jovens que as anteriores, confundiu mais do que nunca os seus detratores.

O ruído do insucesso deste exame supremo espalhou-se pela cidade.

A população, exasperada, julgando ter havido traição dos comissários e conivência destes com os impostores, declarou que, se o laudo lhes fosse favorável, lincharia as médiuns e seus advogados. As jovens, apesar do terror, escoltadas por sua fa­mília e por alguns amigos, não deixaram de apresentar-se na reunião, e pediram lugar no estrado da grande sala, decididos todos a perecer, se isso fosse necessário, mártires de uma im­popular, mas incontestável verdade.

A leitura do relatório foi feita, por um membro da Comis­são que havia jurado descobrir a tramóia; ele, porém, viu-se obrigado a confessar que a causa das pancadas, apesar das mais minuciosas pesquisas, era-lhe desconhecida.

Imediatamente, produziu-se um tumulto medonho; a popu­laça quis linchar as jovens, e o teria feito, se não fosse a intervenção de um americano chamado Georges Villets, que fez do seu corpo um escudo e induziu a multidão a sentimentos mais humanos.

Vê-se, por esta narração, que o Espiritismo, desde o seu início, foi severamente estudado. Não foram somente os vizi­nhas, mais ou menos ignorantes, que certificaram o fato, então inexplicável; foram Comissões regularmente nomeadas que, após minuciosos inquéritos, viram-se obrigadas a reconhecer a autenticidade absoluta do fenômeno.

A perseguição faz, como conseqüência, angariar adeptos para as idéias que combate. Eis por que, poucos anos depois, em 1850, contavam-se já alguns milhares de espíritas nos Es­tados Unidos.

A imprensa, como sempre, não encontrou número suficien­te de sarcasmos para vomitar contra a nova doutrina. Ridi­cularizava as mesas girantes e os Espíritos batedores, e não havia nenhum escrevinhador de jornais e nenhum sorumbático amanuense que não se desse por autorizado a criticar esses alucinados que acreditavam sinceramente que a alma do seu próximo pudesse erguer o pé de um móvel.

É necessário dizer-se que o fenômeno tomou, em seguida, outro aspecto. As pancadas, em vez de se produzirem sobre as paredes e sobre o soalho, faziam-se ouvir na mesa, em torno da qual estavam reunidos os experimentadores. Este modo de proceder fora indicado pelos próprios Espíritos.

Observou-se também que, pondo-se as mãos sobre a mesa, esta última era animada por certos movimentos de balanço, e descobriu-se neste fato um novo meio de comunicação. Bastava nomear as letras do alfabeto, para que o móvel indicasse, por uma pancada, aquelas que entravam na composição da pala­vra que o Espírito queria ditar.

A mania de fazer girar as mesas propagou-se rapidamente. Dificilmente se pode, hoje, figurar a predileção de que essas experiências foram objeto durante os anos de 1850 e 1851. Todas essas investigações conduziram à nova crença homens de reco­nhecida autoridade moral e intelectual.

Escritores, oradores, magistrados, prelados ilustres aceita­ram o fato e a causa da doutrina escarnecida; missionários eloqüentes puseram-se em viagem; escritores fundaram jornais, editaram brochuras que, espalhadas em profusão, impressiona­ram a opinião pública e abalaram as prevenções.

O movimento acelerou-se tanto que, em 1854, uma petição, apoiada por quinze mil assinaturas, foi dirigida ao congresso legislativo de Washington; seu escopo era fazer que esse congres­so nomeasse uma Comissão encarregada de estudar os novos fenômenos e descobrir-lhes as leis.

Essa petição foi posta de lado, mas o impulso não foi obsta­do, porque os fatos tornavam-se mais numerosos e variados à medida que o estudo prosseguia com perseverança.

O fenômeno das mesas girantes foi logo conhecido em todas as suas particularidades. O modo de conversação, por meio de pancadas e movimentos da mesa, era longo e incômo­do. Apesar da habilidade dos assistentes, era necessário muito tempo, muita paciência para obter-se uma comunicação de importância.

A própria mesa ensinou um processo mais rápido. Confor­me suas indicações, adaptou-se a uma prancheta triangular três pernas munidas de rodinhas, e a uma delas prendeu-se um lápis; em seguida, colocou-se o aparelho sobre uma folha de papel; o médium colocou as mãos sobre o centro dessa pequena mesa. Viu-se, então, o lápis traçar letras, depois frases, e, daí a pouco, essa prancheta escrevia com rapidez e dava mensagens.

Mais tarde, percebeu-se que a prancheta era completamen­te inútil, e que bastava o médium colocar a mão, munida de um lápis, sobre uma folha de papel, para o Espírito movê-la automaticamente. Essa espécie de comunicação foi chamada escrita mecânica ou automática, porque o indivíduo, neste estado, não tinha consciência daquilo que a mão traçava no papel.

Outros médiuns obtiveram por esse meio desenhos curiosos, música, ditados acima do alcance da sua inteligência e, às vezes mesmo, comunicações em línguas estrangeiras que lhes eram absolutamente desconhecidas.

O estudo cada vez mais aprofundado dessas manifestações novas conduziu os investigadores a exames ainda mais rigo­rosos e a resultados mais inesperados para os cépticos.

O raciocínio levara os primeiros investigadores a dizer de si para si que, desde que os Espíritos podiam atuar sobre as mesas, sobre os médiuns, não lhes devia ser impossível fazerem mover diretamente um lápis e escreverem sem o auxílio de aparelhos. Foi o que se realizou. Folhas de papel em branco, encerradas em caixas hermeticamente seladas, foram encon­tradas, em seguida, cobertas de caracteres. Ardósias, entre as quais se achava um pequeno pedaço de lápis, continham, após a aposição das mãos, comunicações inteligentes, desenhos, etc.

O fenômeno reservava ainda outras surpresas: luzes de formas e cores variadas e em diversos graus de intensidade, apareciam em aposentos sombrios, onde não existia nenhuma substância capaz de desenvolver ação fosforescente, e isso na ausência de todos-os instrumentos por intermédio dos quais a eletricidade e a combustão podem ser produzidas.

Esses clarões tomavam, às vezes, a aparência de mãos hu­inanas, de figuras envolvidas por uma névoa luminosa. Paula­tinamente, as aparições adquiriam maior consistência, tornando-se possível não somente ver, mas também tocar fantasmas que apareciam em tão singulares circunstâncias.

Fez-se melhor: pôde-se fotografá-los, como veremos mais adiante.

As narrações dessas experiências eram acolhidas com gran­de incredulidade; porém, como os fatos se produzissem em avul­tado número e os espíritas não recuassem diante de nenhum meio de propagar a sua fé, a atenção do público sábio e letrado era atraída para esse estudo e, em pouco tempo, conduzia a uma adesão pública homens altamente colocados e muito com­petentes.

Negligenciamos, voluntariamente, mencionar as inumerá­veis declarações feitas por publicistas, médicos, advogados, a fim de reservarmos todo o apelo à atenção do leitor para os testemunhos autênticos dos homens notáveis de ciência que se têm ocupado com esta questão.

Os sábios

Em primeiro lugar, podemos citar uma das personagens mais célebres da magistratura, o juiz Edmonds, primeiro ma­gistrado do Supremo Tribunal do Distrito de New York, onde foi eleito membro do corpo legislativo e nomeado presidente do Senado. Sua conversão ao novo espiritualismo fez grande rumor na União, e atraiu contra si uma multidão de invectivas das folhas evangélicas e dos jornais profanos. O juiz Edmonds res­pondeu-lhes com um livro intitulado: Spirit Manifestation, que produziu nos Estados Unidos profunda sensação, e, graças ao auxílio de alguns homens de ciência, cujas experiências vieram confirmar suas asserções, os quinze mil signatários da petição dirigida ao Congresso viram o seu número elevar-se a alguns milhões.

Eis como a convicção nasceu na alma do grande jurista americano:

Em 23 de abril de 1851, diz ele, eu era uma das nove pessoas que se assentavam em torno de uma mesa colocada no meio de um aposento, e sobre a qual estava uma lâmpada acesa.

Uma outra lâmpada tinha sido colocada na chaminé. Em pouco tempo, à vista de todos, a mesa foi elevada cerca de um pé acima do soalho e sacudida para diante ou para trás, tão facilmente como eu poderia agitar uma laranja em minhas mãos. Alguns de nós tentaram fazê-la parar, empregando todas as nossas forças, mas isso foi inútil. Então, retiramo-nos todos para longe da mesa e, à luz das duas lâmpadas, vimos esse pesado móvel de mogno suspenso no ar.

Resolvi prosseguir essas experiências, julgando tratar-se de uma fraude, e decidido a esclarecer o público; porém, minhas pesquisas conduziram-me a conclusão oposta.

O que cumpre observar nos testemunhos concedidos pelos sábios é que todos os que empreenderam investigações sobre o Modern Spiritualism (nome norte-americano do Espiritismo) fizeram-no com a firme convicção de que se tratava de uma fraude e com o desejo de salvarem os seus contemporâneos dessa loucura contagiosa.

Eu havia, a princípio, repelido desdenhosamente essas coisas - diz o professor Mapes (que ensinava Química na Academia Nacional dos Estados Unidos) -, mas, quando vi que alguns de meus amigos estavam empolgadissimos pela magia moderna, resolvi aplicar minha atenção a essa matéria, para salvar homens que, respeitáveis e esclarecidos sob tantos outros pontos, neste, corriam vertiginosamente para um abismo.

O resultado das investigações do professor Mapes foi, como para o juiz Edmonds, uma imersão completa nas águas do Espiritismo.

Aconteceu exatamente o mesmo com um dos sábios mais eminentes da América, o célebre Robert Hare, professor na Universidade da Pennsylvania. Ele começou suas pesquisas em 1853, época em que, como por um dever para com seus seme­lhantes, resolveu empregar o que possuía de sua influência para embargar a carreira da onda crescente de demência po­pular, que, a despeito da ciência e da razão, se pronunciava tão obstinadamente a favor daquela grosseira ilusão chamada Espiritismo.

Robert Hare teve conhecimento dos trabalhos de Faraday sobre as mesas girantes (pesquisas que assinalaremos mais adiante) e acreditou que o sábio químico localizara a verdadeira explicação; mas, repetindo suas experiências, reconheceu que elas eram insuficientes e mandou fabricar, para completá-las, aparelhos novos.

Tomou esferas de cobre, colocou-as sobre uma chapa de zinco e fez o médium pôr as mãos sobre as esferas; com grande espanto, observou que a mesa moveu-se. Em seguida, mergulhou as mãos do médium em água, de modo que ele não tivesse comunicação alguma com a prancha sobre a qual estava colo­cado o vaso que continha o líquido; com grande surpresa sua, uma pressão de dezoito libras foi exercida sobre a prancha. Não convencido ainda, ensaiou um outro processo: a extremidade de uma grande alavanca foi colocada numa balança de espiral, com um indicador móvel e o peso marcado. A mão do médium era colocada na outra extremidade da alavanca, de modo que não lhe fosse possível fazer pressão para baixo e que, muito ao contrário, sua pressão, se fosse exercida, produzisse efeito oposto, isto é, a suspensão da outra extremidade. Qual não foi o espanto do célebre professor quando verificou, pela balança, que o peso havia aumentado de algumas libras!

Veremos, mais adiante, como em semelhante conjetura William Crookes, para se pôr ao abrigo de uma ilusão dos sen­tidos, construiu um aparelho que registrava automaticamente todas as variações do peso na balança.

Robert Hare, convencido da existência de uma nova força física exercendo-se em condições ainda pouco conhecidas, quis certificar-se da hipótese de que uma inteligência dirigia a ma­nifestação.

Adaptou à mesa um disco em que se viam as letras do al­fabeto e o dispôs de forma que o médium não pudesse ver as letras; o quadrante em que elas estavam gravadas mostrava a face aos espectadores instalados a alguma distância da mesa; na outra extremidade desta, mantinha-se o médium, que só podia ver o disco por detrás.

Uma agulha móvel, fixada no centro do quadrante, devia, sucessivamente, indicar as letras das palavras ditadas, comple­tamente ignoradas do médium.

Todos estes pormenores encontram-se no livro publicado, em 1856, pelo Dr. Hare, sob o título - Experimental Investiga­tion of the Spirit Manifestation, o qual obteve ruidoso êxito e cujo efeito foi mais considerável ainda que o do juiz Edmonds. Não mais se tratava aí de algumas jovens obscuras ou de char­latães tentando explorar a boa-fé pública; era a ciência oficial que se pronunciava pela boca de um dos seus mais autorizados membros. Desde esse momento, a polêmica empenhou-se furio­sa. Houve lutas apaixonadas.

Sábios movimentaram-se contra a feitiçaria moderna, mas nenhuma prova apresentavam de que as experiências tivessem sido malfeitas; a vitória coube, portanto, aos espíritas.

Em suma, vê-se que os mais importantes recrutas do Espi­ritismo foram forjados entre os homens que tencionavam com­batê-lo. Não temos necessidade de insistir neste ponto, porque o mesmo sucedeu na Inglaterra. Os homens de ciência desses países, ciosos de sua dignidade, não quiseram recusar sua cooperação diante daquilo que consideravam superstição popu­lar. Puseram-se corajosamente a estudar, e, quando, contra a sua expectativa, foram forçados a reconhecer a realidade dos fenômenos, proclamaram lealmente a verdade, sem temor do ridículo ou do sarcasmo, arma habitual da ignorância e da prevenção.

Um dos últimos convertidos, entre os grandes nomes ame­ricanos, foi Robert Dale Owen, que goza simultaneamente da reputação de sábio e da celebridade especial de escritor na língua inglesa. Seu livro, impresso na Filadélfia, no ano de 1877, sob o título: Footfalls on the Boundary of Another World (Região em Litígio entre este Mundo e o Outro), está pleno de elevadas idéias, de lógicas apreciações e de instrutivas particularidades históricas.

O movimento espírita está, neste momento, mais vivaz do que nunca nos Estados Unidos. Em quase todas as suas grandes cidades existem Sociedades que têm por objeto o estudo e a demonstração do Espiritismo.

Vinte e dois jornais e revistas expõem ao público os tra­balhos empreendidos.

O Banner of Light, que se publica em Boston, há mais de vinte anos, é, de alguma sorte, o líder do Modern Spiritualism.

O que demonstra o vigor e a intensidade do movimento espirita são os meetings, isto é, as reuniões que se realizam todos os anos nas margens do lago de Cassadaga.

Os espíritas construíram, nessa região, habitações que podem abrigar mais de dez mil pessoas, mas a afluência é tal que centenas de famílias são obrigadas a acampar nas ime­diações da cidade.

Esses fatos provam a importância do moderno Espiritua­lismo, pois que acampamentos semelhantes existem no litoral do oceano Atlântico, do Oceano Pacífico e em todas as praias dos grandes e soberbos lagos americanos.

Acrescentamos, terminando, que todas as grandes cidades da União têm Sociedades espíritas regularmente organizadas. Em 1870, já se contavam vinte Centros e. cento e cinco Socie­dades espíritas, duzentas e sete casas para conferências e pouco mais ou menos de vinte e dois médiuns públicos. O número total dos espíritas é, segundo Russell Wallace, calculado em onze milhões, só nos Estados Unidos.


Na Inglaterra


É sobretudo na Inglaterra que encontramos uma plêiade de grandes homens entregues a esses estudos. Queremos citar, em primeiro lugar, um testemunho eminente, o de William

Crookes. Acreditamos ser inútil recordar ao leitor os títulos pelos quais esse sábio tornou-se merecedor da gratidão pública. É-nos suficiente dizer que a ele se deve a descoberta do tálio e a demonstração experimental da existência da matéria ra­diante entrevista por Faraday. Esta nova estrada, aberta às investigações científicas, rasgou imenso e grandioso horizonte à Ciência contemporânea, e pode-se dizer que é uma das maio­res descobertas do século.

Um espírito tão eminente não se aventura em terreno des­conhecido sem tomar todas as precauções imagináveis contra o erro ou contra a fraude.

Escutemos o que ele diz sobre o Espiritismo, em um artigo publicado em julho de 1870, no Quaterly Review, órgão da Academia de Ciências da Inglaterra:

O espiritualista fala de corpos pesando 50 ou 100 libras que são elevados no ar, sem intervenção de forças conhecidas; mas o químico está acostumado a fazer uso de uma balança sensível a um peso tão diminuto que seriam necessários dez mil deles para pesar um grão (7). É, por conseguinte, bem fundado pedir-se que esse poder, que se diz guiado por uma Inteligência e eleva até ao teto um corpo pesado, faça mover, em condições determinadas, sua balança tão delicadamente equilibrada.

O espiritualista fala de pancadas em diferentes partes de um aposento, enquanto duas ou mais pessoas estão tranqüila­mente sentadas em volta de uma mesa. O experimentador científico tem o direito de pedir que essas pancadas sejam produzidas no tubo do seu fonógrafo.

O espiritualista fala de aposentos e casas atormentados e, mesmo, danificados por um poder sobre-humano. O homem de ciência pede, simplesmente, que um pêndulo, colocado sob uma campânula de vidro e repousando em sólida alvenaria, seja posto em oscilação.

O espiritualista fala de objetos de mobília a se moverem de um aposento para outro, sem a ação do homem; mas o sábio constrói instrumentos que dividem uma polegada em um milhão de partes, e lhe é lícito duvidar da exatidão das obser­vações efetuadas, se a mesma força for impotente para fazer mover de um simples grau o indicador do instrumento.

O espiritualista fala de flores salpicadas com um fresco rocio, de frutos e, mesmo, de seres viventes transportados através de sólidas muralhas de tijolo. O investigador científico pede, naturalmente, que um peso adicional (que fosse a milési­ma parte de um grão) seja depositado em uma das conchas de sua balança, quando ela está no mostrador fechado a chave; e o químico pede que se introduza a milésima parte de um grão de arsênico através das paredes de um tubo de vidro no qual se encontra água pura, hermeticamente encerrada.

O espiritualista fala de manifestações de um poder equi­valente a milhares de libras, que se produz sem causa conhe­cida. O homem de ciência, que crê firmemente na conservação da força e que pensa que ela jamais se produz sem o esgota­mento de alguma coisa para substituí-Ia, pede que as ditas manifestações sejam produzidas em seu laboratório, onde ele poderá pesá-las, medi-ias, submetê-las. às suas próprias expe­riências. (8)

Vê-se com que desconfiança, com que precaução o sábio químico começa as suas experiências. Ele não quer conceder a sua confiança senão com a condição expressa de que o fe­nômeno se produza em seu laboratório, de alguma sorte sob seu controle, a fim de estar bem certo de que nenhuma fraude, nenhuma ilusão influiria nos resultados que pudessem produ­zir-se: eis a verdadeira sabedoria. Quantos de nossos sábios, que negam a priori, estão longe de seguir-lhe o exemplo! As linhas que acima citamos foram escritas em 1870, mas, em 1876, após quatro anos de perseverantes investigações, o grande físi­co escreveu: Não digo que isso seja possível, mas sim que isso é real.

Veremos adiante as experiências que serviram para forta­lecer a opinião do sábio inglês.

A Sociedade Dialética de Londres, fundada em 1867 sob a presidência de Sir John Lubbock, e contando entre os seus vice-presidentes Thomas-Henry Huxley, um dos professores mais sábios da Inglaterra, o Sr. Georges-Henry Lewes, fisiolo­gista eminente, decidiu, em sua sessão de 6 de janeiro de 1869, que uma Comissão seria nomeada para estudar os pretendidos fenômenos espíritas, dando conta deles à Sociedade.

O debate suscitado por essa decisão mostrou que a maior parte dos seus membros não acreditava no Espiritismo, e os jornais ingleses acolheram, com júbilo, a nomeação dessa Comis­são que, pensava-se, cortaria pela raiz o Modern Spiritualism.

Com profunda surpresa do público inglês, a Comissão, de­pois de dezoito meses de estudo, concluiu a favor da realidade das manifestações. Daremos o texto do seu relatório no mo­mento em que expusermos as experiências espíritas.

Entre os membros que tomaram parte nesse inquérito, es­tava o grande naturalista inglês Alfred Russell Wallace, êmulo e colaborador de Darwin, já convencido da realidade dos fe­nômenos.

Como Mapes, como Hare e tantos outros, o Sr. Wallace, vencido pela evidência, fez corajosamente a sua profissão de fé, em um livro: Miracles and Modern Spiritualism, que apai­xona ainda os espíritos na Inglaterra.

No número das testemunhas ouvidas pela Comissão da So­ciedade Dialética de Londres, figuravam o professor Auguste de Morgan, presidente da Sociedade Matemática de Londres, secretário da Sociedade Real Astronômica, e o Sr. Varley, en­genheiro-chefe das companhias de telegrafia internacional e transatlântica, inventor do condensador elétrico, que resolveu definitivamente o problema da telegrafia submarina.

O Morgan afirmou alto e bom som a realidade dos fe­nômenos, pelo seu livro: From Matter to Spirit; e, mais adian­te, veremos uma carta onde o Sr. Varley rende, publicamente, homenagem aos Espíritos.

Semelhante concurso de nomes eminentes poderia parecer suficiente para estabelecer solidamente a teoria espírita, mas, em assuntos tão debatidos, convém não deixar de apresentar as afirmações autorizadas. Eis ainda outros testemunhos:

O Sr. Oxon, professor da Universidade de Oxford, estudou durante cinco anos o fenômeno da escrita direta, isto é, da escrita produzida sem a intervenção de pessoa vivente. Publicou um livro intitulado Spirit Teachings, que terá a sua utili­dade na discussão que adiante vamos apresentar.

Somos assaz escrupulosos para não deixar passar em silên­cio o testemunho de outro homem eminente, Sergent Cox, jurisconsulto filósofo, escritor que também se convenceu pelo exame.

Igualmente, lembramos que o Sr. Barkas, membro da So­ciedade de Geologia de Newcastle, narrou suas experiências em um livro muito interessante, intitulado Outlines of Investiga­tion finto Modern Spiritualism. Convidamos as pessoas que se queiram convencer a lerem esta obra.

A luta na Inglaterra não foi menos vivaz que nos Estados Unidos: os adversários do Espiritismo deviam, ai também, fazer todos os esforços para destruir a verdade nascente; mas, nesses países de livre discussão, onde o receio do ridículo é menos vivo que entre nós, os convertidos não recearam dar afirmação nítida e franca de sua mudança de idéias.

Entre os cépticos mais tenazes, achava-se o Dr. George Sexton, célebre conferencista que fizera grande campanha contra a nova doutrina. O estudo dos fatos conduziu-o, depor de quinze anos de investigações, à convicção.

Obtive, diz ele, em minha própria casa, na ausência de todos os médiuns públicos, mas no seio dos membros de minha família e dos meus amigos particulares e íntimos, nos quais o poder mediúnico tinha sido desenvolvido, a prova irrefutável, de natureza a impressionar a fria razão, de que as comunica­ções recebidas vinham de parentes e amigos falecidos.(9)

Um outro sábio, o Dr. Chambers, durante muito tempo adversário declarado do Espiritismo, foi obrigado a render-se à evidência, e, lealmente, confessou o seu passado erro, no Spiritual Magazine.

Citamos também, terminando, entre os espíritas ilustres, o Dr. James Gully, autor da Névropathie et Névrose e da Hygiène dans les maladies chroniques, acatada autoridade na Inglaterra.

Como se observa, o Espiritismo tem recrutado seus adeptos entre os homens de ciência. O lado fenomenal foi estudado com todo o rigor de que são capazes os sábios, e ele saiu triun­fante das provas múltiplas a que foi submetido.

Há dez anos, uma agremiação intitulada Society for Psychical Research, abriu um grande inquérito sobre as aparições. Publicou regularmente o relatório de seus tra­balhos, nos Proceedings, e fez editar um livro: Phantasms of the Living (Fantasmas dos Vivos) que relata mais de duzentos casos de aparições bem averiguadas. Os Srs. Myers, Gurney e Podmore, os autores, atribuem esses fenômenos ao que eles chamam Telepatia, isto é, ação a distância de um es­pírito humano sobre outro; a aparição chama-se, então, aluci­nação verídica. Eis aí uma tentativa científica para fazer o fenômeno entrar no quadro das leis conhecidas. Essa investi­gação teve como conseqüência dar ao Espiritismo uma feição de atualidade, e vemos sábios como Lodge, cognominado o Darwin da Física, conjurar, na Academia Britânica para o adianta­mento das ciências, seus colegas a caminhar para diante e a verificar resolutamente esses estudos tão cativantes e ainda tão novos. Mencionaremos, entre os numerosos jornais ingleses, o Light, fundado pelo Sr. Oxon, e The Medium and Day­break. Vejamos agora o que se passa na França.

Na França


A notícia dos fenômenos misteriosos que se produziam na América, suscitou na França viva curiosidade e, em pouco tempo, a experiência das mesas girantes atingiu grau extraor­dinário.

Nos salões, a moda era interrogá-las sobre as mais fúteis questões. Era um passatempo de nova espécie e que fez furor. Durante os anos de 1851 e 1852, ninguém viu nessas prá­ticas senão um agradável divertimento; não se tomava o fe­nômeno a sério, e, como fossem ignorados os notáveis traba­lhos dos quais esse estudo era objeto do outro lado do Oceano, não se tardou a abandonar as mesas girantes, que só tinham tido para as massas o atrativo da novidade e a singularidade dos processos.

Todavia, literatos como Eugène Nus, homens do mundo diplomático, como o Conde d'Ourches e o Barão de Guldenstubbé, tinham sido impressionados pelo caráter inteligente que reves­tia o movimento da mesa, e este último publicou, em 1857, um livro intitulado La Réalité des Esprits. Encontram-se neste li­vro relatadas as primeiras experiências da escrita direta que foram obtidas na França.

Esta publicação não fez rumor de importância. A imprensa, segundo o seu antigo costume, ridicularizou livremente alguns fiéis que tinham perseverado nesses interessantes estudos, e tudo parecia ter sido esquecido, quando surgiu, em 1857, O Livro dos Espiritos, por Allan Kardec. Essa publicação atiçou a guerra. O público soube, com espanto, que aquilo que tinha sido considerado até então como distração encerrava as mais profundas deduções filosóficas; admirou-se de que, do movi­mento das mesas girantes, se deduzisse a prova da imortali­dade do ser pensante, e achava-se em face de uma nova teoria sobre o futuro da alma depois da morte.

Semelhantes afirmações não podiam ser aceitas sem con­testações. De todas as partes elevou-se uma gritaria contra o desventurado autor. Os jornais, as revistas, as academias pro­testaram, mas, honra seja feita à França, não se viram aí re­produzidas as cenas de violência que tinham acolhido o Espi­ritismo na América.

Retomou-se o estudo sobre o fenômeno das mesas girantes e duas correntes de opiniões desenharam-se nitidamente. Para uns, o fenômeno não tinha nenhuma realidade; as pancadas, os movimentos das mesas, eram produzidos pela fraude ou, antes, por movimentos inconscientes da parte dos operadores.

Tal foi a opinião da Academia e a dos Srs. Babinet e Chevreul. Veremos mais adiante o que induziu esses cientistas a essa forma de ver.

Para outros, os deslocamentos da mesa e suas respostas eram devidas a uma ação magnética, exercendo-se de um modo ainda indeterminado. Pode-se contar entre os partidários desta dou­trina o Conde Agénor de Gasparin, que fez numerosas pesqui­sas sobre o assunto e publicou um volume sob o título Des tables tournantes, du Surnaturel en général et des Esprits.

Tal interpretação foi adotada por um certo número de es­critores, como o Sr. Chevillard. O professor Thury, de Genebra, deu como causa do fenômeno um agente especial, que ele chama psicode, fluido que atravessa os nervos e todas as substancias orgânicas e inorgânicas, como o éter luminoso dos sábios.

Um escritor americano, o Sr. Roggers (10), admitira, desde a origem, as manifestações, mas explicava-as pela ação automá­tica dos centros nervosos: o cérebro, a matéria ativa da medula alongada, o cordão espinhal e as inúmeras glândulas dos nervos espalhados no abdômen; esses centros diversos agiriam por meio do fluido universal e imponderável, descoberto por Rei­chenbach, que o denominou od ou odilo.

Todas essas pesquisas, todas essas controvérsias conduzi­ram grande número daqueles que se ocupavam do assunto a concluir que, nos movimentos das mesas girantes, havia alguma coisa mais que pura ação física.

Admitiu-se a existência de forças psíquicas que poderiam agir sobre a matéria, em certas condições; mas, ainda dois horizontes se descortinaram. Os filósofos espiritualistas con­cluíram a favor das comunicações das almas de pessoas faleci­das, enquanto os escritores religiosos se esforçavam por demonstrar que esses fatos eram produzidos pelo espírito do mal, denominado Satanás. Pode-se classificar nesta última classe o Marquês de Mirville, que, em seu livro Des Esprits et de leurs manifestations fluidiques, cita grande número de ob­servações, atribuindo-as ao demônio. Na mesma ordem de idéias acha-se o Sr. Gougenot des Mousseaux, que intitula o Espiri­tismo de magia moderna, e, como o padre Ventura, arrisca-se, com os textos na mão, a demonstrar que as manifestações dos anjos maus estão assinaladas nos Evangelhos e pelos padres da Igreja.

Enfim, citaremos também os livros do Sr. Abade Poussin, de Nice, e do Abade Marousseau, que concluem no mesmo sentido.

A diversidade das opiniões que acabamos de assinalar nada tem de singular.

Em face de um fenômeno ainda mal conhecido, é natural a divergência em sua explicação conforme a escola à qual se per­tence, mas estamos bem certos de que ninguém jamais se lembrará, como a Academia de Medicina de Paris, em 1859, de atribuir o fenômeno a um certo músculo rangedor da perna.

Essa Academia descobriu que as pancadas produzidas na mesa eram devidas a um músculo rangedor da perna, que, de tempos a tempos, se entregava a facécias, sendo que as pes­soas ingênuas tomavam isso por manifestações de Espíritos.

Certo dia, um Sr. Jobert de Lamballe foi iluminado por essa descoberta genial, e a Academia apressou-se em louvar o perspicaz sábio que tinha encontrado nos músculos humanos propriedades tão inesperadas.

O público não adotou, tão facilmente como essas sumida­des médicas, a explicação dos músculos sonoros, e podemos citar bom número de homens ilustres que aderiram inteira­mente ao Espiritismo.

Com o seu estilo nervoso e poético, Auguste Vacquerie conta, nas Miettes de 1'Histoire, as experiências que fez em com­panhia da Sra de Girardin, em casa de Victor Hugo, em Jersey;leremos mais adiante essa instrutiva narração. O célebre lite­rato escreveu esta frase original: Creio nos Espíritos batedores da América, atestados por quinze mil assinaturas.

O maior dos nossos poetas modernos, Victor Hugo, diz: A mesa girante e falante foi muito ridicularizada. Essa zombaria é sem alcance. - Estimaríamos que fosse um dever estrito da ciência sondar todos os fenômenos. Negar a atenção a que tem direito o Espiritismo é desviar a atenção da ver­dade.

O Sr. Victorien Sardou converteu-se ao Espiritismo e tor­nou-se excelente médium desenhista.

A Revue Spirite, de Paris, publicou desenhos mediúnicos obtidos por ele, que são obras-primas, de execução delicada e de uma fantasia verdadeiramente espiritual.

O historiador Eugène Bonnemère escreveu:

Como todo o mundo, eu também me ri do Espiritismo, mas, o que pensava ser o riso de Voltaire não era mais que o riso do idiota, muito mais comum que o primeiro.

O ilustre astrônomo Camille Flammarion também, por muito tempo, estudou esses fenômenos e popularizou, em seu estilo maravilhoso, as doutrinas filosóficas do Espiritismo.

Théophile Gautíer, o mavioso poeta, intitula Espírita. uma de suas novelas mais cativantes, e, em suas obras, encon­tram-se, a cada passo, traços de suas crenças na nova doutrina.

Maurice Lachâtre, o autor do grande dicionário, é também partidário convicto dessas idéias. O Dr. Paul Gibier, laureado pela Academia de Medicina, encarregado de diversas missões científicas, reuniu suas experiências sobre o Espiritismo em dois volumes: Le Spiritisme ou Fakirisme occidental e Ana­lyse des Choses.

Encontram-se, nesses livros, fatos bem observados e con­firmações de trabalhos anteriores sobre o mesmo assunto.

Não podemos dar aqui uma bibliografia completa das obras espíritas; falta-nos espaço para tal e, além disso, preferimos citar sábios notoriamente conhecidos, a fim de dar, aos documentos que apresentamos toda a sua autoridade. Ser-nos-ia muito fácil citar bastantes nomes de médicos, advogados, enge­nheiros, homens de letras, como prova incontestável de que o Espiritismo penetrou principalmente nas classes instruídas da sociedade.

O movimento atual está mais florescente do que nunca. Por instâncias da Sociedade de Investigações Psíquicas de Londres, formou-se em Paris uma Sociedade de Psicologia Fisiológica, cujo fim é estudar os fenômenos telepáticos, isto é, de aparições.

Esta Sociedade nomeou uma Comissão cujo papel é de analisar os fatos apresentados. Eis os nomes dos comissiona­dos: Srs. Sully Prudhomme (da Academia Francesa), presidente; G. Ballet, professor adido à Academia de Medicina; Beau­nis, professor na Faculdade de Medicina de Nancy; Charles Richet, professor na Faculdade de Medicina de Paris; Coronel de Rochas, diretor da Escola Politécnica; Marillíer, diretor de conferências na Escola de Altos Estudos, este último como secretário.

Um jornal mensal: Les Annales Psychiques, sob a dire­ção do Sr. Dariex, relata os trabalhos da Sociedade.

De alguma sorte, tal Sociedade é um princípio de consa­gração oficial desses estudos, porém os espíritas não têm esperado por esses estímulos e, há muito tempo, formaram grupos de estudos em número considerável, em todas as partes da França.

Em Paris, existe regular quantidade de pequenos Centros onde se realizam evocações. Duas Sociedades abrem suas portas ao público: a Fédération Spirite, 55 rue du Château-d'Eau, e a ,Société du Spiritisme Scientifique, Boulevard Enselman, 40. Entre as associações mais importantes da província, mencio­naremos: La Fédération Spirite Lyonnaise, em Lyon, da qual é órgão La Paix Universelle; em seguida, a Union Spirite de Reims e a Union Spiritualiste de Rouen, cujos trabalhos aparecem mensalmente em um jornal intitulado La Pensée des Morts.

As cidades de Marseille, Avignon, Tolouse, Bordaux, Nan­tes, Tours, Le Mans, Orléans, Lille, Bar-le-Duc, Nancy, Besançon têm uma organização de propaganda bem estabelecida, assim como o número de adeptos vai sempre aumentando. Os princi­pais jornais espíritas são: Revoe Spirite, Revoe Scientifique et Morale du Spiritisme, Le Progres Spirite, La Lumière, La Relígion Laïque, Revoe des Etudiants Swedenborgiens, e Le Phare de Normandie.

A recrudescência do movimento espiritualista é devida ao Congresso Espírita que se reuniu em Paris, no ano de 1889.

O relatório dos trabalhos (11) mostra que esse Congresso contava 40.000 aderentes. Os grupos espíritas do mundo inteiro nele se fizeram representar.

Vamos ver como o movimento espírita, começado nos Es­tados Unidos, espalhou-se não somente na Europa, mas tam­bém por todas as partes do mundo.

Na Alemanha


O Dr. Kerner, uma das celebridades da Alemanha contem­porânea, foi levado a constatar fenômenos espíritas, em 1840, ao ministrar seus cuidados à Sra Hauffe, mais conhecida sob o nome de Vidente de Prévorst, denominação de uma aldeia de Wurtemberg, onde ela nasceu, no princípio do século XIX.

O doutor conta que ela era, multas vezes, atormentada por aparições de fantasmas, as quais ele não podia considerar como alucinações, porque pessoas que estavam presentes ouviam, tanto quanto ela, as pancadas produzidas pelos Espíritos ou viam certos objetos, existentes no aposento, mudarem de lugar.

Seu nome de vidente vem do fato de ela pressentir os pe­rigos que ameaçavam os seus; ela prevenia-os, então, e os acontecimentos justificavam sempre suas previsões.

Em 1840, produziram-se manifestações em Mottlingen (Wurtemberg) e, desde essa época, verificaram-se fenômenos de visão, de audição, de comunicação provindos, incontestavelmente, da ação dos Espíritos. Estes fatos, posto que significati­vos, nenhum alcance tiveram, quando a notícia dos aconteci­mentos na América produziu, na Alemanha, o mesmo ruído que na França e determinou um grande movimento de opinião. Não podemos estudar minuciosamente os fatos; bastar-nos-á assinalar os homens de ciência que foram convencidos e que publicaram suas pesquisas.

Em primeiro lugar citaremos o célebre astrônomo Zollner, professor na Universidade de Leipzig. Este sábio narra, em suas notas científicas (Wissenschaftliche Abhandlungen), as experiências que fez em companhia do médium Slade. Ele declara que, muito desconfiado diante dessas novidades, não emprestava grande crédito à sua possibilidade, mas que o inquérito ao qual se entregou convenceu-o perfeitamente. Veremos, mais adiante, como ele foi testemunha de fenômenos novos, tais como a penetração de uma matéria por outra matéria, sem que fosse possível distinguir a solução de continuidade entre um e outro corpo: por exemplo - um anel inteiriço cingindo a perna de uma mesa, sem que se possa notar alguma fratura.

Ele admite a ação de inteligências desencarnadas na pro­dução desses fatos, e, para explicar-lhe a ação, imagina uma quarta dimensão da matéria. Seu testemunho é confirmado pelos de Weber, o eminente fisiologista, de Fechner, cujas in­vestigações sobre as leis da sensibilidade são clássicas, e pelo professor Ulrici.

Eis, por conseguinte, uma plêiade de sábios célebres que afirmam, mais uma vez, a veracidade dos fatos.

Uma observação bem digna de atenção é que os fenômenos espíritas foram, desde a origem, submetidos as análises mais severas, mais variadas, e por pesquisadores tão esclarecidos quão perspicazes; entretanto, esses investigadores, cépticos a princípio, convenceram-se e tornaram-se defensores dessas doutrinas. Não é essa, porventura, a melhor prova que se pode fornecer para demonstrar que o Espiritismo é bem uma ver­dade, e que os fatos sobre os quais repousa são inatacáveis?

A imprensa alemã é representada pelas revistas Psychis­che-Studien, Die Uebersinnliche Welt e Neu Spiritualistis­che Blatter, a primeira em Leipzig, as outras em Berlim.

No resto da Europa


Na Rússia, devemos citar, entre as sumidades espíritas, o professor Butlerof, que, em companhia de Home, reproduziu a maior parte das experiências de Crookes. O Conselheiro Alexander Aksakof é um sábio cujas investigações foram até às aparições materializadas. Teremos ocasião de citar seus traba­lhos que confirmam absolutamente os do ilustre físico inglês, quanto à objetividade das aparições.

A imprensa espírita é aí representada por Le Rebus, edi­tado em Petersburgo.

A Itália foi teatro de uma demonstração brilhante sobre a veracidade das experiências espíritas. O professor Ercole Chiaia, de Nápoles, obteve, com a médium de nome Eusápia Paladino, a repetição de todos os fenômenos importantes do Espiritismo: transportes, materializações, levitações, etc.

Publicou suas investigações e estas foram objeto de crítica. por parte do professor Lombroso, o grande criminalista.

O Sr. Chiaia fez reproduzir essas experiências diante do seu ilustre contraditor, nos fins do ano 1891. O resultado, na Itália, foi o mesmo que na América, que na Inglaterra e que na França. Assistido pelos professores Tamburini, Virgílio, Bianchi, Vizioli, Lombroso pôde verificar, por diversas vezes, que as afirmações espíritas eram absolutamente exatas. Quanto à sua explicação, deve-se dizer, ele não admitiu a presença dos Espíritos, e veremos adiante como a teoria que ele imagina, para demonstrar o que viu, é notavelmente insuficiente.

Quando Lombroso tiver estudado tanto tempo quanto Wallace, Crookes ou Oxon, mudará certamente de opinião, porque seus predecessores, nessas pesquisas, tinham começado, como ele, por crer em uma ação inconsciente do médium; po­rém, um exame mais atento dos fatos convenceu-os da exis­tência dos Espíritos. (12)

A imprensa que menciona os trabalhos espíritas, na Itália, é representada pela revista mensal Lux, pela Revista di Studi Psichici, em Milão, sob a direção do Dr. Giorgio Finzi, pela re­vista La Sfinge, sob a direção do Sr. Ungher e pelo Vessilo Spiritista, de Vercelli, cujo diretor é o Cav Ernesto Volpi. Na Holanda, os jornais que defendem essas idéias intitu­lam-se Op. de Gresen e Het Foekomstig Leven, aquele de Haia, e este de Utrecht.

Na Bélgica, o movimento é tão ardente e tão bem organi­zado, como em França.

Liège e Bruxelas são centros de ativa propaganda; fe­derações regionais centralizam os trabalhos dos grupos, e os órgãos - Le Messager e Le Moniteur Spirite - registram os resultados obtidos.

Conferências realizam-se freqüentemente, e brochuras, dis­tribuídas gratuitamente, têm vulgarizado aí o conhecimento do Espiritismo.

A Suécia e a Noruega têm por órgão o jornal Morgen­dcemringen, cuja redação tem sua sede em Christiania.

A Espanha é, incontestavelmente, o país onde o número dos espíritas é proporcionalmente maior que em qualquer outra parte. Todas as suas cidades importantes têm jornais, órgãos de Sociedades bem organizadas.

Citemos, entre as publicações mais notáveis: La Union Espiritista e a Revista de Estudios Psicológicos, em Barcelo­na; Lumen, em Tarrasa; e La Revelación, em Alicante.

Na Austria, há poucos anos, o Espiritismo era desconheci­do; mas as experiências feitas pelo falecido arquiduque Rodol­fo, em companhia de Bastian, médium de materializações, experiências nas quais uma fraude teria sido desmascarada, chamaram a atenção do público para esses fenômenos, e, hoje, o número de partidários da nova doutrina cresceu considera­velmente. Citemos, entre os seus jornais, o Reformidende Blaetter, que se publica em Budapeste.

Portugal é representado pelo jornal O Psiquismo, que se edita em Lisboa.


No mundo inteiro


Pode dizer-se, sem temor de desmentido, que o Espiritismo tem partidários convictos em todo o mundo.

A fim de não alongar desmedidamente este histórico, con­tentar-nos-emos em citar simplesmente os países nos quais se editam jornais ou revistas espíritas.

E claro que essa publicidade vai especialmente endereçada aos adeptos da doutrina dos Espíritos.

Poder-se-á julgar, pelo número de órgãos, a importância desse movimento iniciado há cinqüenta anos. (13)

A República Argentina conta dois órgãos, em Buenos Aires: Constancia e La Fraternidad. Em Mendoza, um jornal: La Perseverancia; em Rosário, La Verdad.

No Brasil edita-se no Rio de Janeiro: Reformador. Três órgãos no Estado do Paraná: A Luz, O Regenerador, Re­vista Espírita. Finalmente, Verdade e Luz, em São Paulo.

O Chile é representado por El Pan dei Espiritu, em Santiago.

O Peru, por El Sol, em Lima.

A República de S. Salvador, por El Espiritismo, em Chal­chuapa.

A Venezuela, pela Revista Espiritista.

No México, citamos: La Ilustración Espirita, na cidade do México, e El Precursor, de Cisiola, Estado de Mazatlan.

As Antilhas possuem quatro órgãos: La Alborada, de Santiago; La Buena Nueva, em Porto Rico; La Revista Es­piritista, em Havana; La Nueva Alianza, em Cienfuegos. Nas Ilhas Canárias, em Santa Cruz de Tenerife, publica­-se La Caridad.

Na Austrália, edita-se, em Melbourne, The Harbinger of Light.

Acrescentamos, para terminar, que o periódico La Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, do qual somos diretor, tem por correspondentes chefes de grupos espíritas, no Ca­nadá, Suez, Cairo, Ilha Maurícia e em Bornéu.


Resumo


Ficou estabelecido, pela breve enumeração que precede, que milhões de pessoas adotam, hoje, as crenças espíritas. O movi­mento, nascido na América, propagou-se com inaudita rapidez. Cento e cinqüenta jornais ou revistas instruem o público sobre as teorias novas. Os trabalhos dos sábios que temos citado foram traduzidos em quase todas as línguas do globo e se­mearam aos quatro ventos a boa-nova da imortalidade do ser pensante.

Debalde, a ciência oficial e as academias têm cercado esses fenômenos com a conspiração do silêncio:. a verdade é mais potente que todas elas reunidas.

Esses fatos têm invadido o mundo inteiro, têm recrutado e recrutam, continuamente, adeptos. Nem o ridículo da im­prensa nem os clamores dos padres nem as objurgatórias dos materialistas terá o poder de obstar esse impulso que atrai o homem para as descobertas de noções exatas sobre a vida futura.

Apesar da má-vontade de alguns sábios que passam como príncipes da ciência, aos quais o Espiritismo destrói as teorias niilistas, ao pensamento do homem realmente douto por certo não virá à idéia de que essas manifestações sejam indignas de atenção; a questão que elas elucidam é grave, pois inquieta os grandes pensadores.

Muitas teorias têm sido formuladas, muitos sistemas têm sido arquitetados, sem trazerem maior certeza quanto à imortali­dade da alma, e eis que, hoje, temos os meios de cientificamen­te estudar o estado da alma depois da morte.

Este fato é devido à intervenção dos Espíritos no mundo, e vamos agora observar como os fatos sobre que repousa a teoria espírita são a mais evidente e melhor prova estabele­cida da sobrevivência do eu consciente.

Ao terminar, diremos que é impossível que esses fatos sejam resultado de fraude ou de grosseira ilusão:

1 - Porque eles têm sido estudados por sábios eminentes, e esses químicos, esses físicos, esses naturalistas são os mais aptos, com conhecimento de causa, para se pronunciarem sobre a validade das experiências;

2 - Porque as experiências têm sido analisadas, grande número de vezes, por observadores independentes, cépticos a princípio, e o resultado desses inquéritos tem sido idêntico em todos os países;

3 - Porque esses fenômenos oferecem, em todas as latitu­des, os mesmos caracteres fundamentais, donde resulta que são devidos à mesma causa;

4 - Enfim, pensamos que esses testemunhos e a sua au­tenticidade são tais que é impossível negá-los sem um exame aprofundado.

Eis o que vamos fazer: Passaremos, meticulosamente, em revista os fenômenos; perscrutá-los-emos sob todas as faces; analisaremos fielmente todas as hipóteses formuladas para ex­plicá-los, e desejamos que o leitor fique convencido de que só a Doutrina Espírita lança luz sobre todos esses fatos aparen­temente estranhos e sobrenaturais.


PARTE SEGUNDA
OS FATOS
CAPITULO I
A FORÇA PSÍQUICA
O Espiritismo em casa de Victor Hugo. - Primeiras objeções. - Erguimento da mesa sem contacto. - Sociedade Dialética de Lon­dres. - Medição da força psíquica. - A mediunidade. - A levitação humana.
Vimos, na primeira parte, que os fenômenos espíritas co­meçaram por pancadas em paredes e em soalhos, e que, em pouco tempo, os próprios Espíritos indicaram um meio mais fácil e mais rápido de comunicação. Esse meio foi a mesa. Os investigadores sentavam-se em torno da mesa; colocavam as mãos sobre ela e, dentro em pouco, pancadas no móvel ou movimentos de um dos pés da mesa serviam de meio de corres­pondência com a entidade que se manifestava.

Eis uma narrativa que fará compreender de que forma se realizam os fatos habitualmente; ela é devida a Auguste Vac­querie e tirada do seu belo livro: Les Miettes de 'Histoire.


Espiritismo em casa de Victor Hugo


A Sra de Girardin fez uma visita a Victor Hugo, então exila­do em Jersey, e falou-lhe do fenômeno ultimamente importado da América; ela acreditava firmemente nos Espíritos e em suas manifestações. No próprio dia de sua chegada, teve-se muito trabalho em fazé-la esperar para o fim do jantar; levantou-se depois da sobremesa e levou um dos convivas para uma conver­sadeira, onde interrogaram os Espíritos por meio de uma mesa, mas sem resultado. A Sr? de Girardin imputou a falta à mesa, cuja forma quadrada contrariava o fluido. No dia se­guinte, ela própria foi comprar, em um armazém de brinquedos para crianças, uma mesa redonda, com uma única perna termi­nando por três pés, que ela colocou sobre a mesa grande e que foi tão animada quanto esta última. Não desanimou; disse que os Espíritos não eram animais de fiacre que esperam paciente­mente os burgueses, e, sim, seres livres e de vontade própria, que somente vinham quando queriam. No dia seguinte, quando se fez a mesma experiência, sucedeu igual silêncio. Ela perseverou, mas a mesa obstinou-se em nada dizer. A Sra de Girardin acalentava tal ardor de propaganda que, um dia, jantando em casa do Sr. Jersiais, fê-lo interrogar uma estante, que provou sua inteligência não lhe respondendo. Esses repetidos insucessos não a abateram; ficou calma, confiante, sorridente, indulgente para com a incredulidade; na antevéspera de sua partida, pe­diu-nos para lhe concedermos, em despedida, uma tentativa. Eu não tinha assistido às experiências precedentes; não acreditava no fenômeno e não tinha vontade alguma de que ele se produzisse. Não sou daqueles que fazem cara feia às novi­dades, mas tal experiência vinha em má ocasião, e desvia­va de Paris pensamentos que eu reputava, pelo menos, mais ur­gentes. Desta vez não pude recusar ir à última prova, se bem que o fiz com a resolução firme de não acreditar senão no que fosse bem evidente.

A Sra de Girardin e um dos assistentes puseram as mãos sobre a pequena mesa. Durante um quarto de hora, nada suce­deu, mas tínhamos prometido ser pacientes; cinco minutos de­pois, ouviram-se ligeiros estalidos; isto podia ser o efeito involun­tário das mãos fatigadas; mas, em pouco tempo, os estalidos repetiram-se, e sobreveio uma espécie de estremecimento elétri­co, sentindo-se, em seguida, uma agitação febril.

De repente, uma das garras dos pés levantou-se.

A Sra de Girardin disse: - Está aí alguém? Se está aí al­guém, que fale conosco, peço-lhe para bater uma pancada. O pé caiu, produzindo um ruído seco. - Está aí um Espírito! - exclamou a Sra de Girardin; formulai as vossas perguntas.

Fizeram-se perguntas e a mesa a elas respondeu. As res­postas eram breves: uma ou duas palavras no máximo, hesi­tantes, indecisas, algumas vezes ininteligíveis. Seríamos nós que a não compreendíamos? O modo de traduzir as respostas pres­tava-se ao erro. Eis como se procedia: pronunciava-se uma letra do abecedário a cada pancada do pé da mesa, e, quando a mesa parava, marcava-se a última letra indicada. Mas, muitas vezes, a mesa não parava claramente sobre a letra; dava-se um engano; anotava-se a precedente letra ou a seguinte; os inexperientes atrapalhavam-se; a Sra de Girardin intervinha o menos possível para que o resultado fosse o menos suspeito, e tudo se tumultuava. Em Paris, a Sra de Girardin empregava, disse-nos, um processo mais seguro e mais expedito: ela tinha mandado expressamente fazer uma mesa com um alfabeto que designava a letra. Apesar da imperfeição dos meios, algu­mas das respostas impressionaram-me bastante.

Eu apenas tinha sido testemunha, e convinha que, por meu turno, fosse ator.

Disse, então, à mesa: - Adivinha a palavra que eu penso. Para melhor observar a resposta, tomei lugar à mesa, com a Sra de Girardin.

A mesa disse uma palavra, e essa era a que havia sido pensada.

Não parou aí a minha curiosidade.

Pensei comigo mesmo que o acaso podia ter inspirado a Sra de Girardin e que esta houvesse transmitido à mesa a pala­vra, pois que comigo mesmo havia acontecido, no baile da ópera, dizer a uma senhora de dominó que eu a conhecia, e, como me perguntasse ela o seu nome de batismo, eu proferi ao acaso um nome, que se reconheceu ser o verdadeiro. Sem mesmo invocar o acaso, eu poderia, na passagem das letras da palavra, ter, a despeito meu, nos dedos ou nos olhos, um estremecimento que as tivesse denunciado. Reconheci, portanto, a experiência; mas, para estar certo de que não iria trair a passagem das letras por uma pressão maquinal ou por um olhar involuntário, deixei a mesa e perguntei-lhe, não a palavra que pensara, mas a sua tradução.

Disse ela: - Tu queres dizer sofrimento. Eu pensara em amor. Não fiquei ainda persuadido. Supondo que, se auxi­liasse a mesa, o sofrimento é por forma tal o fundo de todas as coisas que a tradução podia ser aplicada fosse qual fosse a palavra que eu tivesse pensado.

Sofrimento tanto teria traduzido grandeza, maternidade, poesia, patriotismo, etc., como amor. Eu podia, por conseguinte, estar certo de que a Sra de Girardin, tão séria, tão generosa, tão amiga e adoentada, não teria atravessado o mar para mistifi­car proscritos.

Inúmeras impossibilidades seriam críveis antes dessa, mas eu estava resolvido a duvidar de tudo.

Outros interrogaram a mesa e fizeram-lhe determinar seu pensamento ou incidentes conhecidos de si unicamente; de re­pente, a mesa pareceu impacientar-se com essas questões pueris; recusou responder; entretanto, continuou a agitar-se como se tivesse alguma coisa a dizer. Seu movimento tornou-se brusco e voluntário como uma ordem.

- É ainda o mesmo Espírito que está aí? - perguntou a Sra de Girardin.

A mesa deu duas pancadas, o que, na linguagem conven­cionada, significava não.

- Quem está aí?

A mesa respondeu o nome de uma morta, conhecida de todos os que ali se achavam.

Só então desapareceu a desconfiança; ninguém teria tido a coragem ou a audácia de se fazer, diante de nós, um repre­sentante de além-túmulo.

Uma mistificação era já bastante difícil de admitir-se, muito menos uma infâmia. Semelhante suspeita seria desprezí­vel. O irmão falava com a irmã, que saía da região da morte para consolá-lo no exílio; a mãe chorava; inexprimível emo­ção comprimia todos os peitos; eu sentia distintamente a presença daquela que a adversidade tinha afastado.

Onde estava ela? Amar-nos-ia sempre? Era feliz? Ela res­pondia a todas as questões, mas, às vezes, declarava que nem tudo lhe era permitido dizer.

A noite corria, e ficamos ali com a alma presa ao invi­sível fantasma. Enfim, disse-nos: - Adeus! E a mesa não se moveu mais.

Rompia a madrugada. Subi ao meu quarto e, antes de dei­tar-me, escrevi o que acabava de passar-se, como se essas coisas pudessem ser esquecidas. No dia seguinte, a Sra de Girardin não teve mais necessidade de convidar-me; fui eu quem a levou para junto da mesa. A noite passou-se como na véspera.

A Sra de Girardin partiu no dia imediato; acompanhei-a a bordo, e, quando se largaram às amarras, ela exclamou para ruim: - Até à volta.

Não a vi mais, porém penso que tornarei a vê-la. Ela voltou à França para cumprir o resto de sua vida terrestre.

Há alguns anos, seu salão era muito diferente do que tinha sido. Não mais estavam aí os seus amigos. Uns foram para fora da França, como Victor Hugo, outros foram para mais longe, como Balzac; outros, para mais longe ainda, como Lamartine; ela, porém, tinha todos os duques e embaixadores de que gos­tasse, mas a revolução de fevereiro havia enfraquecido toda a sua fé na importância dos títulos e das funções, e os príncipes não a consolavam da falta dos escritores. Substituía os ausentes conversando com um ou dois amigos e com a sua mesa. Os mortos afluíam à sua evocação. Tinha, assim, sessões que valiam mais que os seus melhores amigos de outrora, e onde os gênios eram supridos pelos Espíritos. Seus convidados de então eram os Espíritos de Sedaine, Sévigné, Sapho, Molière, Shakespeare, e foi no meio destes que ela morreu.

Partiu para o outro mundo sem resistência e sem tristeza: essa vida da morte tinha-lhe apagado a inquietação. Coisa to­cante: para adoçar a vida dessa nobre mulher, esses grandes mortos vieram procurá-la.

A morte da Sra de Girardin não me arrefeceu o atrativo pelas mesas. Precipitei-me apaixonadamente para essa grande curiosidade da vida ultraterrena.

Não esperava mais a noite: começava desde o meio-dia, e não acabava senão no dia seguinte, de manhã; só me inter­rompia para jantar. Pessoalmente, nenhuma ação eu tinha sobre a mesa; eu não a tocava; porém, interrogava-a.

O modo de comunicação era sempre o mesmo; eu já estava a isso acostumado.

A Sra de Girardin, tempos antes da sua morte, enviara-me de Paris duas mesas: uma, pequena, em cujo pé estava fixo um lápis que devia escrever e desenhar. Esse móvel foi experimenta­do uma ou duas vezes; desenhou mediocremente e escreveu mal; a outra era maior; era uma mesa com um quadrante e com um alfabeto, no qual uma agulha marcava as letras. Ela foi igualmente rejeitada depois de um ensaio que não deu resul­tado, e mantive-me exclusivamente com o primitivo processo, o qual, simplificado pelo hábito e por algumas abreviações con­vencionadas, deu-me, dentro em pouco, todo o êxito desejável. Eu conversava correntemente com a mesa; o marulhar do mar misturava-se com o ruído dos diálogos, cujo mistério aumenta­va com a noite, com a tempestade, com o isolamento. Não mais eram palavras simples as que respondia a mesa, mas, sim, frases e páginas inteiras.

Ela era, na maior parte das vezes, grave e magistral; mas, por momentos, era espiritual e mesmo cômica. Tinha acessos de cólera. Insultou-me mais de uma vez, por lhe haver falado com irreverência, e confesso que eu não ficaria tranqüilo, se deixasse de obter antes o meu perdão. Fazia exigências: escolhia seu interlocutor, queria ser interrogada em verso; obe­decia-se-lhe, e, então, ela também respondia em verso. Todas essas conversações foram recebidas não ao sair da sessão, mas no próprio local, sob o ditado da mesa; elas serão publicadas um dia, e proporão um problema imperioso a todas as inteli­gências ávidas de verdades novas.

Esta narração é interessante sob muitos pontos de vista; mostra que os Espíritos não estão às ordens dos evocadores que eles vêm quando e como bem lhes parece. As hesitações, os desfalecimentos que o fenômeno apresenta não devem pôr embaraços aos investigadores; estes precisam armar-se de paciência e saber perseverar, se quiserem obter resultados.

Notemos, aqui, que Vacquerie estava em casa de Victor Hugo e que assistiu a essas manifestações; ora, esses escritores, bons juizes em matéria de estilo, às vezes qualificam de magistrais os ditados da mesa; e bem se vê que os Espíritos não se deleitam sempre em banalidades, como tantas vezes se lhes tem censurado.


Primeiras objeções


Os movimentos das mesas foram acolhidos com universais suspeitas; a explicação mais geral era que as pessoas reputadas médiuns apoiavam-se simplesmente sobre a mesa, e que as respostas eram devidas ao acaso; quanto às pancadas, atri­buíam-nas a um jogo dos pés.

Porém, quando foi verificado que pessoas de uma honora­bilidade acima de toda suspeita obtinham movimentos da mesa, tornou-se indispensável achar alguma coisa que expli­casse os fatos, banindo a hipótese de fraude voluntária.

Foi então que apareceram as teorias, segundo as quais os movimentos produzidos eram o resultado de uma ação muscular inconsciente. Faraday pretendeu que, uma vez estabelecida a aderência dos dedos na mesa, a trepidação muscular era assaz forte para imprimir num móvel certa rotação. Chevreul, impressionado por essa idéia, publicou, no seu livro intitulado La Baguette Divinatoire et les Tables Tournantes, a sua experiência com o pêndulo, donde resultava que as impulsões múltiplas e repetidas, em um sentido, podem abalar um corpo cuja massa está em desproporção com a causa motriz: é o que o Sr. Babinet chama movimentos nascentes e inconscientes.

Parecia, pois, que a Ciência tinha descoberto a verdadeira causa desses fatos que maravilhavam os imbecis; mas o fenô­meno revestiu-se de um caráter novo: a mesa elevava-se agora e movia-se sem qualquer contacto da parte dos operadores!

Por esse modo, a pretensa explicação científica caiu por terra. Nova força parecia divertir-se com as mais engenhosas teorias.


Erguimento da mesa, sem contacto


Parece-nos que certos sábios são afetados de cegueira para todos os fatos que deslocam seus sistemas. A levitação da mesa, sem contacto, foi observada desde a sua origem, mas, é preciso crer, não chegou ao conhecimento dos Srs. Faraday, Chevreul e Babinet.

Eis o que, com efeito, relata Robert Dale Owen (14), ho­mem muito instruído, lógico e extremamente circunspecto, no dizer de Wallace:

No salão de um titular francês, o Conde d'Ourches, que residia num arrabalde de Paris, em 10 de outubro de 1858, à bela claridade do dia, no fim do almoço, viu uma mesa, em torno da qual haviam tomado lugar sete pessoas, elevar-se carregada de frutas e vinhos, e manter-se suspensa no ar, enquanto os con­vivas estiveram sentados em roda sem a tocarem. Todos os assistentes viram a mesma coisa.

O Sr. de Morgan, professor de matemáticas na Universidade de Londres, homem refletido e metódico, relata a seguinte ex­periência (15)

O fato mais admirável de mesas movendo-se com deter­minado objetivo que tem vindo ao meu conhecimento apresen­tou-se em casa de um amigo, cuja família, assim como a nossa, residia no litoral.

A família do meu amigo era composta de seis pessoas e de um cavalheiro que lhe esposara uma das filhas. Pelo meu lado, tinha-me feito acompanhar por um membro da minha própria família. Nenhuma pessoa assalariada estava presente. Um cavalheiro, que se tinha exprimido de uma forma muito céptica não só quanto às manifestações espíritas, mas, igualmente, sobre a questão do Espírito em geral, ficara sentado em um sofá, a dois ou três pés de uma mesa de jantar, em redor da qual estávamos colocados. Depois de nos termos conservado imóveis algum tempo, fomos convidados, por meio de pancadas, a unir as nossas mãos e a mantermo-nos sentados em torno da mesa, sem tocá-la.

Isso durou um quarto de hora; a nós mesmos perguntáva­mos se produziria alguma coisa ou se éramos mistificados pelo poder invisível. E, como um ou dois da companhia pedissem paciência, a velha mesa, que era suficientemente grande para comportar oito ou dez pessoas, deslocou-se inteiramente por si mesma e, sem que cessássemos de cercá-la e de segui-Ia, com as mãos unidas, saiu fora do círculo e, tocando esse cavalheiro, empurrou-o contra o espaldar do sofá, até que ele gritou: - Detei-vos, basta!

O movimento dos objetos inertes, sem contacto humano, exerce-se diariamente nas experiências espíritas.

Os cépticos mais endurecidos estão em condições de cons­tatá-lo tantas vezes quantas quiserem. Por isso, Lombroso publicou, em 7 de fevereiro de 1892, na Vie Moderne, a nar­rativa dos fatos numerosos de que foi testemunha em Nápoles; extraímos os seguintes trechos:

Tendo-se feito a obscuridade, começamos a ouvir panca­das mais fortes no meio da mesa; em seguida, uma campainha, colocada numa estante, afastada mais de um metro de Eusápia (a médium), pôs-se a tocar, volteando por cima de nossas ca­beças; pousou em nossa mesa e, alguns instantes depois, caiu sobre uma cama, distante dois metros da médium.

Enquanto se ouvia a campainha no ar, o Dr. Ascenti, indu­zido por um de nós, tendo-se colocado por trás de Eusápia, acendeu um fósforo e pôde ver a campainha vibrar sozinha no ar e ir cair sobre o leito, à retaguarda de Eusápia.

O célebre fisiologista acrescenta: Logo que a luz foi acesa e a cadeia rompida, viu-se um grande móvel, que se achava no fundo da alcova, a dois metros de distância, mover-se lenta­mente para nós, como se fosse impelido por alguém; asseme­lhava-se bem a um enorme paquiderme, movendo-se lentamen­te ao nosso lado.

Tratando das suas experiências em companhia de Slade, o astrônomo Zollner (16), depois da relação de diferentes fe­nômenos, acrescenta:

Inopinadamente, uma cama, colocada no quarto (o de Zollner), por trás de um biombo, transportou-se a dois pés da parede, empurrando o biombo para fora.

Slade conservara-se afastado do leito, ao qual voltava às costas; suas pernas estavam cruzadas e ele era visível a todos.

Estas narrativas mostram-nos como os fenômenos de mo­vimentos de objetos, sem contacto, é há muito tempo obser­vados em todos os países pelos mais eminentes homens. As vezes, as manifestações dessa força, que mantém no ar ou des­loca objetos pesados sem intervenção humana, revestem-se de um caráter de grande poder. Citemos ainda o sábio alemão:

Uma segunda sessão organizou-se imediatamente, em mi­nha casa, com os professores Weber, Schreibner e eu. Uma crepitação violenta, tal como a descarga de uma forte bateria de pilhas de Leyde, ouviu-se; voltando-nos bastante alarmados, o biombo acima mencionado separou-se em duas peças; os ba­tentes de madeira, de meia polegada de espessura, estavam partidos de alto a baixo, sem que houvesse contacto visível de Slade com o biombo.

Os pedaços quebrados jaziam a dois pés do médium, e este estava com as costas voltadas para o biombo.

Ficamos todos espantados com esta manifestação inespe­rada de tão grande força mecânica, e perguntei a Slade o que significava tudo aquilo. Ele respondeu-me que tal fenômeno acontecia às vezes em sua presença.

Eis ainda, sob outra forma, uma verificação dessa mesma força, pelo mesmo investigador:

Uma esfera de metal foi suspensa, por um fio de seda, no interior de um globo de vidro; estando este colocado sobre a mesa, a luz foi projetada de cima, por meio de velas dispostas para esse efeito, e, enquanto os professores Weber, Schreibner e Zollner observavam atentamente, a esfera começou a oscilar e a bater, com intervalos regulares, contra a superfície interior do globo de vidro.

Notemos bem que todas as são feitas por homens de ciência, precauções mais extremas foram toda fraude.

Pode-se ler, no n° 2 dos Annales Psychiques, de 1892, a narrativa do Dr. Dariex sobre movimentos de objetos, sem contacto, que se operaram em seu próprio aposento e em condições do mais rigoroso exame.

Ver-se-á como, em um quarto fechado, cujas portas esta­vam seladas e onde ninguém podia introduzir-se, móveis foram deslocados sem que se pudesse dar alguma razão física a este fenômeno.

Porém, se os testemunhos tão importantes que acabamos de enumerar não bastarem para lançar a convicção na alma do leitor, estamos certos de que o trabalho que mais adiante reproduzimos não encontrará incrédulos, dada a notoriedade e o número dos investigadores.

Eis, com efeito, uma confirmação quase oficial dessa força ainda pouco conhecida; é-nos fornecida pela Sociedade Dialética de Londres (17), cujo relatório passamos a transcrever.

SOCIEDADE DIALÉTICA DE LONDRES

Relatório que lhe foi apresentado pela Comissão por ela nomeada para o estudo dos fenômenos espíritas.

Desde a sua criação, isto é, desde o dia 16 de fevereiro de 1869, a nossa Comissão realizou quarenta sessões, com o fim de fazer experiências e provas rigorosas.

Todas essas reuniões efetuaram-se nas residências par­ticulares dos membros da Comissão, a fim de excluir toda possibilidade de maquinismos previamente dispostos ou qual­quer artifício.

A mobília dos compartimentos nos quais se fizeram expe­riências foi, em todas as circunstâncias, a mobília do costume.

As mesas empregadas foram sempre às mesas de jantar, pesadas, que necessitavam de considerável esforço para serem postas em movimento. A menor tinha 5 pés e 9 polegadas de comprimento por 4 pés de largura, e a maior, 9 pés e 3 polega­das de comprimento por 41/2 pés de largura; o peso delas esta­va na mesma proporção.

Antes de começarem os fenômenos, os aposentos, as mesas e todos os móveis foram cuidadosamente examinados repetidas vezes, a fim de haver plena certeza de que não existia algum ardiloso instrumento ou aparelho qualquer, com o auxílio dos quais os sons e os movimentos, adiante mencionados, pudessem ser produzidos.

As experiências foram feitas à luz do gás, exceto em algu­mas ocasiões, especialmente anotadas no relatório.

Evitamos servir-nos de médiuns profissionais ou médiuns pagos. O nosso médium era um dos membros da Comissão, pessoa colocada em boa posição social e de integridade perfeita, não tendo, portanto, nenhum objetivo pecuniário e, mesmo, ne­nhum proveito poderia tirar de uma fraude.

Realizamos também algumas reuniões sem a presença de médium (está bem entendido que neste relatório a palavra médium é simplesmente empregada para designar um indivíduo sem a presença do qual os fenômenos descritos não se efetuam, ou se produzem com menos intensidade e menos freqüência), para tentar obter, por algum meio, efeitos semelhan­tes aos que se observa quando um médium está presente.

Por essa forma, nada foi possível obter-se semelhante às manifestações que se produziam com a sua presença.

Cada uma das provas que a inteligência combinada dos membros da Comissão podia imaginar foi feita com paciência e perseverança. As experiências foram dirigidas sob grande variedade de condições, e todo o engenho possível foi posto em ação para inventar meios que nos permitissem verificar as observações e desviar toda possibilidade de impostura ou de ilusão.

Límitamo-nos aos fatos dos quais fomos coletivamente tes­temunhas, fatos que foram palpáveis aos sentidos e cuja rea­lidade é suscetível de uma prova demonstrativa.

Cerca de quatro quintas partes dos membros principiaram as investigações com o mais completo cepticismo no tocante à realidade dos fenômenos anunciados, e com a firme crença de que eles eram o resultado, quer da impostura quer da ilusão quer de uma ação involuntária dos músculos. Foi somente depois de irresistível evidência, em condições que excluíam essas hipóteses e após experiências e provas rigorosas, muitas vezes repetidas, que os mais cépticos foram, com o correr do tempo e a seu despeito, convencidos de que eram verdadeiros fatos os fenômenos que tinham sido produzidos durante esse inquérito prolongado.

O resultado de nossas experiências, por muito tempo prosse­guidas e dirigidas com cuidado, induz-nos, depois das provas analisadas sob todas as formas, a estabelecer o seguinte:

Primeiro: Em certas condições de corpo e de espírito em que se achem uma ou mais pessoas presentes, produz-se uma força suficiente para pôr em movimento objetos pesados, sem o emprego de nenhum esforço muscular, sem contacto nem conexão material de qualquer natureza entre esses objetos e o corpo de alguma pessoa presente.

Segundo: Essa força pode fazer produzir sons, que cada qual ouve distintamente em objetos sólidos que não têm ne­nhum contacto entre si nem conexão visível ou material com o corpo de alguma pessoa presente; está, portanto, provado que esses sons provêm desses objetos por vibrações que são perceptíveis pelo tato.

Terceiro: Essa força é freqüentemente aplicada com inte­ligência.

Alguns desses fenômenos produziram-se em trinta e qua­tro sessões das quarenta que realizamos. A descrição de uma dessas sessões, bem como a maneira pela qual ela foi aplicada, melhor mostrará o cuidado e a circunspeção com que prosse­guimos as investigações.

Quando havia contacto ou possibilidade de contacto pelas mãos, pelos pés ou pelas vestes de uma das pessoas que esta­vam no quarto com o objeto em movimento ou emitindo sons, podia-se ficar perfeitamente certo de que esses movimentos ou sons não eram produzidos pela pessoa que aí estava.

Fizemos a seguinte experiência:

Onze membros da Comissão sentaram-se, durante quarenta minutos, em torno de uma das mesas da sala de jantar, prece­dentemente descritas; e, quando se produziram movimentos e sons variados, voltaram (com o fim de mais rigorosa investiga­ção) o espaldar das cadeiras para a mesa, cerca de nove polega­das desta; depois, ajoelharam-se sobre as cadeiras, colocando os braços no espaldar das mesmas.

Nesta posição, seus pés estavam necessariamente virados para trás, longe da mesa e, por conseqüência, não podiam ser colocados por baixo nem tocar no soalho.

As mãos de cada um estavam estendidas por cima da mesa, cerca de quatro polegadas de sua superfície. Nenhum contacto com uma parte qualquer da mesa podia, conseguintemente, operar-se sem que fosse observado.

Em menos de um minuto, a mesa, sem ter sido tocada, des­locou-se quatro vezes: a primeira vez, cerca de cinco polegadas para um lado; depois, doze polegadas para o lado oposto; e, em seguida, deslocou-se quatro e seis polegadas.

As mãos de todas as pessoas presentes foram, então, postas no espaldar das cadeiras, a um pé mais ou menos distante da mesa, a qual foi, como antes, posta em movimento com um deslocamento variando entre quatro e seis polegadas.

Enfim, todas as cadeiras foram afastadas da mesa na dis­tância de doze polegadas e cada uma das pessoas se ajoelhou em sua cadeira, como precedentemente, mas desta vez tendo as mãos atrás das costas, e, por conseqüência, com o corpo colocado pouco mais ou menos a dezoito polegadas da mesa, achando-se, assim, o espaldar da cadeira entre o experimenta­dor e a mesa. Esta deslocou-se quatro vezes, em várias direções.

Durante essa experiência decisiva, e em menos de meia hora, a mesa moveu-se treze vezes sem contacto ou possibili­dade de contacto com alguma pessoa presente, efetuando-se os movimentos em direções diferentes, e alguns destes respon­dendo a perguntas de diversos membros da Comissão.

A mesa foi examinada com cuidado, virada para cima e para baixo, e peça por peça; porém, nada se descobriu que pudesse elucidar os fenômenos. A experimentação foi feita em plena luz do gás colocada por cima da mesa.

Em resumo, a Comissão foi testemunha, mais de cinqüenta vezes, de semelhantes movimentos sem contacto, em oito sessões diferentes e nas casas dos seus membros; as provas foram as mais concludentes.

Em todas essas experiências, a hipótese de um movimento mecânico, ou outra qualquer, foi completamente banida, pelo fato de serem os movimentos realizados em várias direções, ora para um lado, ora para outro, quer subindo no aposento quer descendo; movimentos esses que teriam exigido a cooperação de grande número de mãos e de pés, e que, devido ao volume considerável e ao peso das mesas, não poderia produzir-se sem o emprego visível de um esforço muscular.

Todas as mãos e todos os pés estavam perfeitamente à vista e nenhum deles poderia mover-se sem que imediatamente fosse percebido. A hipótese de uma ilusão também foi posta de lado.

Os movimentos operaram-se em diferentes direções, e fo­ram simultaneamente testemunhados por todas as pessoas presentes.

Existe nisto uma questão de fato e não de opinião ou de imaginação.

Esses movimentos reproduziram-se tantas vezes, em con­dições tão numerosas, tão diversas, com tantas garantias contra o erro ou contra a fraude, e com resultados tão constantes, que os membros da Comissão que tentaram essas experiências, de­pois de terem sido, anteriormente, na maior parte, cépticos, convenceram-se de que existe uma força capaz de mover corpos pesados sem contacto material, força essa que depende, de um modo desconhecido, da presença de seres humanos.

A Comissão não pôde coletivamente certificar-se a respeito da natureza e da origem dessa força, mas adquiriu a prova da realidade de sua existência.

A Comissão pensa que não existe fundamento na crença de que a presença de pessoas cépticas contraria a produção ou a ação dessa força.

Em resumo, a Comissão unicamente exprime a opinião de que a existência de um fato físico importante acha-se assim demonstrada, a saber: que movimentos podem produzir-se em corpos sólidos, sem contacto material, por uma força desconhe­cida até o presente, agindo a uma distância indeterminada do organismo humano e completamente independente da ação muscular, força essa que deve ser submetida a um exame cien­tífico mais aprofundado, no intuito de conhecer-se a sua ver­dadeira origem, a sua natureza e o seu poder.


Medição da força psíquica


Essa força, cuja existência não é mais negável, conside­rando-se o número e a importância dos testemunhos que a atestam, foi submetida a medições.

Os observadores já citados contentaram-se em avaliá-la aproximativamente, mas Robert Hare, na América do Norte, e William Crookes, na Inglaterra, submeteram-na a um exame rigorosamente científico.

Transcrevamos agora o que Eugène Nus colheu da obra de Robert Hare, professor na Universidade de Pennsylvania, a res­peito das experiências deste (18)

Ele tomou esferas de cobre; colocou-as numa placa de zinco, fez que os médiuns pusessem as mãos sobre as esferas, e, com grande espanto seu, a mesa moveu-se. O intuito de tal processo era evitar a aderência das mãos e os famosos movimentos nascentes e inconscientes, segundo as teorias de Faraday, Chevreul e Babinet.

Ensaiou outro processo: A longa extremidade de uma prancha foi presa a uma balança de espiral, com um indicador fixo para marcar o peso. A mão do médium foi colocada sobre a outra extremidade da prancha, de modo que, qualquer pres­são que houvesse, não pudesse ser exercida para baixo; mas, pelo contrário, produzisse efeito oposto, isto é, suspendesse a outra extremidade. Com grande surpresa sua, esta extremidade desceu aumentando assim o peso de algumas libras na ba­lança.

Em seguida, fez mergulhar na água as mãos do médium, de modo a não haver comunicação com a prancha sobre a qual estava colocado o vaso que continha o liquido; e, ainda com grande surpresa, uma força de dezoito libras foi exercida sobre a prancha.

Esses resultados, assaz notáveis, estabelecem e medem niti­damente a força psíquica que emana do médium. William Crookes (19) repetiu as experiências do sábio americano e obteve os mesmos resultados; demais, ele empregou um apa­relho muito simples, porém bastante exato, em uso nos laboratórios para conservar os traços dessa força. Consiste esse instrumento em um vidro enegrecido, movido por um maquinis­mo de relógio que o obriga a deslocar-se horizontalmente dian­te do indicador da balança. Quando nenhuma força se exerce, a linha traçada é reta; se, ao contrário, uma força manifes­ta-se, a linha traçada é curva, e pode-se facilmente medir a todo o instante a energia exercida, ou, por outra, a intensidade da força psíquica.

Consegue-se ainda obter curvas por um outro processo: sobre um quadro de madeira estende-se uma folha de perga­minho. A extremidade mais baixa da prancha deve ficar equi­librada de modo a acompanhar com rapidez os movimentos do centro do disco de pergaminho. Na outra extremidade da pran­cha está uma agulha, de modo que, movendo-se horizontal­mente, possa tocar na lâmina de vidro enfumaçada, a qual um mecanismo de relógio faz deslocar lateralmente.

Crookes certificou-se primeiramente de que nenhuma sa­cudidela ou vibração da mesa podia perturbar os resultados; depois, sem explicar a ninguém a utilidade do instrumento, introduziu no gabinete um médium e pediu-lhe que colocasse suas mãos não sobre o aparelho, mas sobre a mesa que o su­portava. Em seguida, colocou suas mãos sobre as desse médium, a fim de evitar qualquer movimento consciente ou inconsciente da sua parte. Dentro de pouco tempo, ouviram-se choques no pergaminho, semelhantes aos que poderiam ser produzidos por grãos de areia que fossem atirados sobre a sua superfície. A cada choque, um fragmento de grafite, colocado sobre o pergaminho, era projetado para o ar, e a extremidade da prancha movia-se ligeiramente e descia. Algumas vezes, esses sons se sucediam tão rapidamente como os de uma máquina de indu­ção; porém, outras vezes, eles tinham um intervalo de mais de um minuto. Cinco ou seis curvas foram assim obtidas no vidro enfumaçado, e sempre se viu o movimento da agulha coincidir com as vibrações do pergaminho.

Tendo obtido esses resultados na ausência do médium Home, diz o sábio químico, eu estava impaciente para certifi­car-me da ação que sua presença produziria sobre o instru­mento.

Em conseqüência disso, solicitei-lhe uma experiência, mas sem lhe dar a explicação do aparelho.

Agarrei o braço do Senhor Home acima do pulso e mantive sua mão acima do pergaminho, cerca de dez polegadas distante da superfície deste. Um amigo segurava-lhe a outra mão. De­pois de nos conservarmos nesta posição cerca de meio minuto, o Sr. Home disse que sentia o fluido passar. Então, fiz mover o maquinismo, e todos vimos que o indicador subia e descia. Os movimentos produziam-se muito mais lentos que nos casos pre­cedentes, e não eram absolutamente acompanhados dos choques vibrantes de que há pouco falei.

Várias foram as curvas gravadas pelo aparelho.

Como se vê, a força emanada de certos organismos huma­nos, chamados médiuns pelos espíritas, está cientificamente analisada e medida por uma forma rigorosamente exata.


A mediunidade


Em nosso exame, chegamos a uma constatação absoluta­mente contrária às teorias do Sr. Faraday e seus companhei­ros. A força que move as mesas não é devida a movimentos musculares inconscientes: é produzida por certos seres cujo organismo nervoso esteja apto para emitir essa força. Essa faculdade foi qualificada, pelos espíritas, com o nome de me­diunidade, e os que a possuíam são médiuns.

Citemos ainda o testemunho de Crookes, o ilustre inventor do radiômetro.

Essas experiências põem fora de dúvida (20) as conclu­sões a que cheguei em minha precedente memória, a saber: a existência de uma força associada, de um modo ainda inexplicado, no organismo humano, força essa pela qual a adição de peso pode ser feita em corpos sólidos, sem contacto efetivo. No caso do Senhor Home, o desenvolvimento dessa força varia enormemente não só de semana em semana, mas de uma hora para outra; em algumas ocasiões, essa força não pôde ser acusada por meio dos meus aparelhos durante uma hora ou mesmo mais, e, em seguida, reapareceu, subitamente, com uma grande energia. Ela é capaz de agir a uma certa, distância do Senhor Home (e não é raro que essa distância seja de 2 ou 3 pés) ; todavia, é sempre mais poderosa junto dele.

Na firme convicção em que estou de que nenhuma força pode manifestar-se sem o esgotamento correspondente de algu­ma outra força, debalde tenho procurado, durante muito tempo, a natureza da força ou do poder empregado para produzir esses resultados.

Mas, atualmente, tenho podido observar melhor o Sr. Home, e acredito ter descoberto o tempo que essa força física emprega para desenvolver-se.

Servindo-me das palavras força vital, energia nervosa, sei que emprego termos aos quais muitos investigadores dão signi­ficações diferentes; mas, depois de ter sido testemunha do estado penoso de prostração nervosa e corporal em que algu­mas dessas experiências deixaram o Senhor Home, depois de tê-lo visto em estado de desfalecimento quase completo, estendido no soalho, pálido e sem voz, não posso duvidar de que a emissão da força física seja acompanhada de um esgotamento corres­pondente da força vital.

Essa força é, provavelmente, possuída por todos os seres humanos, embora os indivíduos dotados de uma energia ex­traordinária sejam, sem dúvida, raros. No ano que acaba de findar, encontrei, na intimidade de algumas famílias, cinco ou seis pessoas que possuíam essa força de um modo assaz pode­roso para inspirar-me plena confiança de que, por seu inter­médio, se poderiam obter resultados semelhantes aos que acabam de ser descritos, caso os experimentadores operassem com ins­trumentos mais delicados e suscetíveis de marcar uma pequena fração, em vez de indicar somente libras e onças.

O Senhor de Rochas acaba de publicar (janeiro de 1897) uma obra intitulada: Les Effluves Odiques, que contém notável sé­rie de conferências, feitas em 1866, pelo Barão de Reichenbach, diante da Academia de Ciências de Viena. As investigações do sábio alemão estabelecem a existência dessa força psíquica. Na noticia histórica que precede o texto dessas conferências, o Sr. de Rochas relata grande número de experiências, feitas com um pêndulo especial, pelo Sr. Dr. Léger e verificadas pelo Sr. Ch. Bué. Resulta desses trabalhos: 1.0 que o organismo hu­mano pode exteriorizar a força psíquica; 2 - que a vontade humana pode enviar essa força numa determinada direção.

A mediunidade não é um dom providencial, uma proprie­dade anormal, mas, simplesmente, um estado fisiológico que se apresenta em todos os seres, porém, somente em alguns é que ele está muito desenvolvido. Eis o que os Espíritos têm ensinado sempre. (21)


A levitação de corpos humanos


Folheando as obras que tratam da vida dos santos e os anais dos processos de feitiçaria, poderíamos citar casos nume­rosos, atestados por grande número de testemunhas a respeito da levitação de certas personagens. (22)

Mas, fiel ao nosso método, vamos dar a palavra aos sábios modernos.

Essa força psíquica não age somente sobre os objetos ina­nimados: ela se exerce, muitas vezes, sobre o próprio médium.

Vejamos o que nos diz o grande naturalista Wallace. (23)

Vou narrar uma sessão da qual conservo notas. Estáva­mos sentados, em casa de um amigo, em volta de uma mesinha e debaixo de um lustre. Um de meus amigos, que era comple­tamente desconhecido para as outras pessoas, conservava-se junto da Srta. Nichol (a médium) e segurava-lhe as duas mãos. Uma outra pessoa, com uma caixa de fósforos, estava pronta a riscá-los a uma ordem dada. Ora, eis o que sucedeu:

Primeiramente, a cadeira em que estava sentada a Srta. Ni­chol foi retirada, e ela foi obrigada a manter-se de pé e com as suas mãos sempre seguras pelo meu amigo. Um ou dois minutos depois, ouviu-se ligeiro ruído, tal como o que pudesse ser produzido ao colocar-se um copo dágua sobre a mesa, e, ao mesmo tempo, um leve farfalhar de estofos e o tilintar dos pingentes de vidro do lustre.

Imediatamente, o meu amigo disse-me: -Ela escapou-me.

Um fósforo foi então riscado, e encontramos a Srta. Nichol tranqüilamente sentada em sua cadeira no meio da mesa; sua cabeça não atingia o lustre. O meu amigo declarou que a Srta. Nichol se tinha subtraído, sem ruído, de suas mãos. Ela era muito forte e pesada; que a Srta. Nichol tivesse colocado a sua cadeira sobre a mesa, e que aí tivesse trepado, na obscuri­dade, sem ruído, quase instantaneamente, estando reunidas em volta dela cinco ou seis pessoas, pareceu-me, e parece-me ainda, a mim, que intimamente a conhecia, fisicamente impossível.

Os cépticos poderão objetar que na obscuridade não é fácil explicar-se fatos e, sobretudo, o modo pelo qual eles se produ­zem; que, seja qual for a confiança que se possa ter no médium, esses fatos extraordinários têm necessidade de um exame ainda mais rigoroso.

Para satisfazer essa exigência, eis aqui outros atestados referidos por Crookes:

Em uma ocasião, vi uma cadeira, na qual uma senhora estava sentada, elevar-se várias polegadas acima do solo. Outra vez, para desviar toda suspeita de que essa suspensão fosse produzida por essa senhora, ela ajoelhou-se na cadeira, de forma tal que os quatro pés eram visíveis para nós. Então, ela elevou-se cerca de três polegadas, conservou-se suspensa du­rante dez segundos, pouco mais ou menos, e, em seguida, desceu lentamente. Ainda em outra ocasião, duas crianças em dois casos diferentes, elevaram-se do solo com sua cadeira, em pleno dia e nas mais satisfatórias condições (para mim), porque eu estava de joelhos, e não perdia de vista os pés da cadeira, notando bem que ninguém podia tocá-los.

Os casos de levitação mais frisantes de que tenho sido tes­temunha realizaram-se com Home. Em três circunstâncias diferentes, vi esse médium elevar-se completamente acima do soalho do aposento. A primeira vez, ele estava sentado numa espreguiçadeira; a segunda, estava de joelhos na cadeira; e, a terceira, estava de pé. Em todas as ocasiões, tive o maior cuida­do de observar o fato no momento em que ele se produzia.

O mesmo autor narra que o Conde de Duraven, Lord Lindsay e o Capitão C. Wyne afirmaram-lhe que foram, muitas e repetidas vezes, testemunhas de fatos semelhantes; podíamos, por conseguinte, inscrever esse gênero de fenômeno no ativo da força psíquica.

O Sr. de Rochas, diretor da Escola Politécnica de Paris, cita ainda muitos exemplos de levitação em sua notável obra: Les Forces non Définies.

Em virtude de todas essas precauções contra a fraude, de­vemos concluir que, se a mesa se move ou se um médium se eleva no ar é isso devido à ação de uma força ainda pouco conhecida. Essa força é originada dos movimentos musculares conscientes ou inconscientes: ela emana do organismo do mé­dium, mas não está submetida à sua vontade.

Um estudo mais atento vai revelar-nos propriedades novas dessa força.


CAPÍTULO II
A INTELIGÊNCIA DA FORÇA PSÍQUICA


Os fenômenos não são devidos a uma força cega. - Algumas expe­riências provam-no. - As objeções dos incrédulos. - A transmis­são do pensamento. - Investigações da Sociedade Psíquica de Londres. - Discussão. - Prova absoluta da existência dos Es­píritos. - As crianças mortas na India. - Um telegrafísta de além-túmulo. - As pranchetas clarividentes. - O caso Abraham Florentine. - O alfaiate esmagado. - O Capitão Wheatcroft.
Vimos, na sessão descrita por Auguste Vacquerie, que o fenômeno é dirigido por uma inteligência; se negligenciamos cientemente o lado intelectual, foi para que se estabelecesse, de um modo nítido, a existência da força psíquica. Agora, que ela não pode mais ser seriamente contestada, entremos no estudo da inteligência que assim se manifesta.

O que se observa, em primeiro lugar, é que os movimentos da mesa são muitas vezes produzidos intencionalmente, e que as pancadas que se ouvem não são devidas ao acaso, e, sim, dadas com a intenção evidente de manifestarem uma vontade. Recorremos ainda aos observadores rigorosos e sem preven­ções. Eis o que lemos na obra Recherches Expérimentales sur le Spiritualisme, de William Crookes:

Desde o começo de minhas pesquisas verifiquei que o poder produtor desses fenômenos não era simplesmente uma força cega, mas, sim, uma inteligência que o dirigia ou, pelo menos, que lhe era associada; assim, as pancadas de que acabo de falar foram repetidas um número de vezes determinado: elas tornavam-se fortes ou fracas, e, a meu pedido, foram dadas em lugares diferentes; por meio de um vocabulário de sinais, previamente convencionados, foram obtidas respostas a certas questões e bem assim algumas mensagens, com uma exatidão mais ou menos notável.

A inteligência que governa esses fenômenos é, algumas vezes, manifestamente inferior à do médium e está quase sem­pre em oposição direta aos seus desejos.

Quando ela me determinava alguma coisa que não podia ser considerada como muito razoável, eu ia solicitar-lhe novos conselhos, convidando-a a refletir de novo. Essa inteligência é, algumas vezes, de um caráter tal que se é forçado a crer que ela não emana de nenhuma das pessoas que estão presentes.


Algumas experiências


Para confirmar as asserções do sábio inglês, eis o teste­munho do juiz Edmonds:

Preparando-me para assistir a uma reunião, fechava-me só em meu quarto e escrevia cuidadosamente a série das ques­tões que devia propor. Por isso, eu ficava admirado de receber respostas a essas minhas questões, exatamente na ordem em que as havia escrito, sem que eu retirasse o meu memorando do bolso.

Nenhuma das pessoas presentes sabia que eu tinha formu­lado um questionário e, por conseqüência, ignoravam o assunto. Os meus pensamentos mais íntimos, aqueles que nunca segredei ao ouvido de quem quer que fosse, foram livremente discutidos, como se eu os tivesse expressado; reconheci, mais tarde, que os meus menores pensamentos eram assim conhecidos e que podiam ser descobertos pela inteligência que se manifestava.

Para abreviar o sistema de comunicação por meio de pan­cadas, que é assaz longo, emprega-se, às vezes, um alfabeto impresso sobre o qual se vai passando lentamente um lápis, a fim de que a mesa dê uma pancada no momento em que o lápis esteja em frente da letra que se quer fazer conhecer. Os incrédulos não deixam de afirmar que esses fenômenos depen­dem simplesmente da finura e da habilidade do médium em adivinhar as letras que combinam o nome, e conforme o modo pelo qual os consultantes apóiam ou passam o lápis sobre esses caracteres.

Eis algumas experiências de Wallace, que demonstram quanto este modo de ver carece de fundamento:

Quando recebi pela primeira vez uma comunicação, tive particular cuidado em evitar fornecer qualquer indício ao mé­dium: percorri as letras com regularidade constante.

Não obstante, foram corretamente ditados: primeiramente, o lugar em que meu irmão morreu - Pará, depois o seu nome de batismo - Herbert, e, enfim, o nome de um amigo que foi o último a vê-lo - Henry Walter Bates. As seis pessoas presen­tes visitavam a Senhora Marshall (a médium) pela primeira vez, e o meu nome, tanto como os dos assistentes, eram desconhe­cidos a essa senhora, salvo o de minha irmã casada, cujo nome não podia servir de guia para chegar-se ao conhecimento do meu.

Na mesma ocasião, uma jovem presente foi avisada de que uma comunicação ia ser-lhe feita. Ela tomou o alfabeto e, em vez de apontar as letras uma a uma, moveu o lápis docemente ao longo das linhas, com a mais perfeita continuidade.

Eu a seguia, e escrevia à medida que as letras eram indi­cadas pelas pancadas. O nome obtido era extraordinário; as letras diziam: Thomas Doe Tacker, o nome do pai da jovem, tudo era completamente exato.

Alguns outros nomes, lugares e datas foram ditados nessa ocasião com uma justeza igual. Dou somente esses dois casos, porque estou absolutamente certo de que nenhum indício havia sido dado pelo qual se pudesse adivinhar os nomes, ainda mes­mo que o fosse pela inteligência mais arguta.

Em outra ocasião, eu acompanhava à casa da Sra Marshall minha irmã e uma senhora que nunca tinha ido ali, e foi-nos dada curiosíssima demonstração do absurdo que existe em imputar a decifração dos nomes à hesitação do consultante e à finura do médium.

Essa senhora desejou que lhe fosse dado o nome de um amigo particular falecido, e apontou as letras do alfabeto, se­gundo o processo usual, enquanto eu as escrevia à proporção que eram indicadas. Os três primeiros caracteres foram YRN. - Oh, disse a senhora, isto não tem sentido; temos obtido coisas melhores até hoje. Justamente nessa ocasião veio um E, e, refletindo comigo mesmo, percebi o que isso era. - Se vos apraz, disse eu, continuai; eu compreendo isso. A comunicação inteira foi, em seguida, dada por este modo: YRNEHKCOEFFEJ. A senhora não compreendera essas letras tanto como a prin­cípio, até que separei dessa forma o ditado: YRNEH KCOEFFEJ, ou Henry Jeffeock, o nome do amigo que ela desejava, ditado às avessas.

As comunicações pela mesa são muito comuns, e acredita­mos ser pelo estudo desses fenômenos que a maior parte dos incrédulos se tornou espírita. Existe grande número de testemunhos relativos à obtenção de nomes de parentes, de amigos falecidos que vêm instruir os que ficaram na Terra, dizendo que nem tudo morre com o corpo e que eles estão no mundo espiritual tão vivos como estavam aqui na Terra.

As revistas e os jornais espíritas abundam em exemplos de manifestações semelhantes; não julgamos, portanto, útil.nos estendermos mais amplamente sobre esse assunto.

Terminaremos essas citações, reproduzindo as declarações feitas por Cromwell Varley, então engenheiro-chefe das linhas telegráficas da Inglaterra, perante a Comissão da Sociedade Dialética. (24)

Empreguei o termo Espíritos, embora não ignore que a possibilidade da comunicação com os nossos amigos que dei­xaram seu corpo material não esteja geralmente admitida. Os motivos que me induzem a afirmar que os Espíritos de nossos semelhantes vêm realmente visitar são os seguintes:

1 - Eu os tenho visto distintamente em diversas ocasiões; (25) ,

2 - Coisas que não eram conhecidas senão de mim mes­mo e da pessoa falecida a quem era dado comunicar-se, e cuja exatidão reconheci, foram-me divulgadas mais de uma vez, posto que a médium não tivesse disso o menor conhecimento;

3 - Por vezes repetidas, coisas que eram conhecidas so­mente por mim e das quais eu me tinha esquecido completa­mente foram-me lembradas pelo Espírito que se comunicava, não podia existir ai transmissão de pensamento;

4 - Quando me aconteceu obter comunicações desse gê­nero, propus, em ocasiões diversas, questões mentais, às quais só a médium, senhora de posição muito independente, respondia por escrito, ficando completamente inconsciente do sentido das comunicações;

5 - A época e o gênero de certos acontecimentos impre­vistos, desconhecidos, quer de mim próprio quer da médium, foram-me anunciados mais de uma vez alguns dias antes e realizaram-se perfeitamente. Como aqueles que me forneciam essas instruções, dizendo-se Espíritos, expunham a verdade quanto aos acontecimentos futuros, e como nenhum mortal presente podia ter conhecimento do que eles comunicavam, não sei que razão possa haver para não se crer neles.

Eis o que é raciocinar, e estamos plenamente de acordo com o Sr. Varley, pois iremos relatar as teorias apresentadas pelos adversários do Espiritismo, a fim de demonstrarmos que, para esses fenômenos, eles são impossíveis ou não elucidam senão um número muito restrito de fatos, ou se apóiam sobre hipóteses mais difíceis de admitir-se que a da intervenção dos Espíritos.


As objeções


Em primeiro lugar, temos a do clero, que nos diz:

Credes conversar com as almas de vossos parentes ou amigos falecidos: que erro! E Satanás que se reveste de múlti­plas formas, para enganar-vos e desviar-vos da Igreja, fora da qual não existe a verdade.

A isso responderemos simplesmente que a existência de um Espírito do mal é puramente hipotética e que, se devemos escolher entre duas crenças, é mais racional admitir-se, após uma verificação, que são os Espíritos humanos sobreviventes que se manifestam, pois que eles nos dão provas da sua existência.

Além disso, se acredita na existência do diabo, faremos notar que ele age de um modo ilógico, conduzindo materialistas à crença em uma vida futura. Enfim, como as comunicações espíritas ensinam o amor ao próximo, o desprendimento das coisas deste mundo, a repressão dos vícios e a prática das vir­tudes, o anjo do mal se combate a si mesmo, donde resulta, em boa lógica, que também não se pode atribuir a eles essas ma­nifestações.


A transmissão do pensamento


O Espiritismo, assim como o magnetismo, é uma ciência nova que teve o grande desazo de nascer fora do santuário dos sábios, de sorte que o seu acesso é disputado com um encarni­çamento sem igual.

Constatamos como o fenômeno físico, abstraindo-se qual­quer consideração, era atribuído pelos cépticos a movimentos inconscientes dos operadores; foi necessária uma soma consi­derável de experiências, realizadas diante de testemunhas dignas de conceito, para se estabelecer à ação à distância dos médiuns sobre os objetos inanimados.

Quando não era mais possível negar esses fatos sem pôr em evidência uma prevenção sem quilate, foi-se obrigado a admitir que uma inteligência estava associada ao fenômeno e que o dirigia; porém, que inteligência era essa?

A primeira idéia que veio foi, incontestavelmente, a de que essa inteligência era a de um ou mais dos assistentes, ope­rava de um modo ainda desconhecido e produzia os resultados referidos mais atrás.

É também possível, acrescentam os incrédulos, que o pen­samento do operador se transmita ao médium e que este, desde então, agindo sobre a mesa, possa fazê-la ditar nomes próprios, indicar datas, etc.; na opinião deles, não se deve atribuir ao Espírito de um morto as respostas, pois que elas são simples­mente o reflexo do pensamento das pessoas presentes. Para reforçarem o seu argumento, dizem que experiências muito exatas têm sido feitas sobre o assunto, e que hoje está quase universalmente reconhecido que a transmissão do pensamento é verdadeiramente um fenômeno incontestável. Eis, portanto, segundo eles, a origem dessas manifestações, que, no seu enten­der, não devem ser atribuídas aos Espíritos, mas que convêm consideradas como de uma faculdade nova, que se revela em certos indivíduos e que nada têm de sobrenatural.

Vejamos, pois, os trabalhos empreendidos sobre a questão da transmissão do pensamento, e procuremos saber como eles podem explicar os fenômenos espíritas.

Há dez anos existe na Inglaterra uma agremiação conhe­cida sob o título: Society for Psychical Research, cuja fim é compilar e examinar minuciosamente os fatos que são de­signados com o nome de telepáticos. Compreendem-se sob esta denominação as ações psíquicas à distância, isto é, certas ações ou impressões que podem ser transmitidas de uma pessoa a outra, sem o auxílio dos sentidos.

Nos relatórios dessa Sociedade, que se publicam todos os semestres, sob o título Proceedings, pode-se contar mil, seis­centas e cinqüenta e três experiências de transmissão de pen­samentos.

Eis como se procede: O agente fica separado do percipiente por uma determinada distância; este deve voltar-lhe as costas e ser colocado de maneira a que nenhum movimento, nenhum ruído possa perturbá-lo ou informá-lo.

Nessas condições, o agente concentra seu pensamento nos nomes ou algarismos e o percipiente deve repetir os nomes ou algarismos em que aquele pensa. Em todas as experiências cita­das nos Proceedings, o número de respostas exatas foi sempre muito superior ao que indica o cálculo das probabilidades. Existe, portanto, a transmissão do pensamento.

Procurou-se variar o fenômeno: em vez de nomes, alga­rismos ou números, imaginou-se fazer produzir, pelo perci­piente, desenhos vistos ou feitos pelo agente: ainda assim os resultados foram satisfatórios (26). No Congresso de Psicologia, em 1889, esses fenômenos deram motivo a discussão entre os Srs. Marillier, Charles Richet, Ochorowicz, Janet, representan­do a França; e os Srs. Sidgwick, Myers, pela Inglaterra; Riley, pela América; e Delboeuf, pela Bélgica.

Resulta, das provas fornecidas, que a transmissão do pen­samento é um fato incontestável. Hipnotizadores célebres, como os Srs. Beaunis e Liébaut, de Nancy, haviam já constatado isso em percipientes adormecidos, confirmando, assim, as experiên­cias do Barão du Potet.

Lombroso repetiu com Pickmann as experiências dos sábios ingleses. Com os olhos vendados, com os ouvidos tapados, sem contacto algum, Pickmann adivinhou com exatidão, nove vezes sobre dez, as cartas tocadas por Lombroso. (27)

Na América do Norte, uma Sociedade de investigações psí­quicas foi igualmente fundada em 1885, e o resultado de seus trabalhos confirma o fato da transmissão do pensamento. Re­lembremos, entretanto, esta sua conclusão importante:

Resulta das experiências feitas pela Comissão que o estado céptico do agente (o operador) é desfavorável à trans­missão, porque esse estado de espírito impede a participação intensiva na atividade da concepção.


Discussão


Examinemos agora uma experiência espírita e vejamos se a transmissão do pensamento pode explicar os fatos que têm sido verificados.

Analisemos as três sessões referidas por Russell Wallace, pág. 75, a fim de raciocinarmos sobre fatos positivos.

Na primeira experiência, ele obteve o nome de seu irmão falecido, o lugar em que este acontecimento se passou e, enfim, um outro nome próprio, o de um amigo seu.

Para que a transmissão do pensamento se admitisse como causa efetiva desses resultados seria necessário:

1 - Que a médium, a Sra Marshall, fosse uma percipien­te sensível a esse gênero de manifestações, o que não está abso­lutamente estabelecido;

2 - Seria indispensável ver no Sr. Wallace um experi­mentador procurando, pela concentração do pensamento, impor um nome à médium.

Foi precisamente o contrário que sucedeu, pois o ilustre naturalista aplicou simplesmente sua atenção em percorrer o alfabeto com uma constante regularidade, e, por conseguinte, não se pode atribuir-lhe o papel de um operador querendo impor um pensamento qualquer, visto que ele mesmo ignorava o que ia acontecer.

3 - Suponhamos, entretanto, apesar de toda a evidência, que o nome Herbert Wallace fosse transmitido mentalmente a sra Marshall, e vejamos se é possível explicar esse fato sem o conhecimento antecipado da médium, pois que ela igno­rava completamente, assim como as demais pessoas, o nome que ia ser ditado.

Vejamos também se é possível explicar-se como se produ­zem pancadas na mesa correspondentes a cada uma das letras que compõem a palavra.

Notemos que as pancadas são inteiramente independentes da vontade dos operadores, pois que isto está averiguado por todos aqueles que estudara.. o fenômeno. Não sendo possíveis semelhantes explicações, é licito, sem receio de sermos desmen­tidos, afirmar que, neste caso, a transmissão do pensamento não toma parte na experiência.

Mas, onde essa demonstração adquire um valor absoluto é na terceira experiência em que o nome de Henry Jef feock foi ditado às avessas.

A senhora que evocava, bem longe de impor seus pensa­mentos, depois das três primeiras letras y, r, n, declara que isso não tem significação! Vê-se que, neste caso, a transmissão do pensamento em nada absolutamente influi para essa men­sagem.

Poderíamos submeter ao mesmo raciocínio todas as expe­riências por nós mencionadas, e dessa análise resultaria a convicção de que é indispensável procurar outra causa para explicar o fenômeno, pois que a inteligência que se manifesta não emana dos operadores, visto declarar ser aquela cujo nome apresenta.

Não há, portanto, motivo para que se negue a existência dos seres ultraterrenos.

Além disso, ainda não apresentamos todos os fatos; apenas mencionamos alguns pelos quais se pode reconhecer a sua rea­lidade.

De agora em diante, o grande número de provas da existên­cia dos Espíritos vai-se revestindo de um caráter cada vez mais evidente, e nenhuma negação será capaz de combater a evi­dência da sua intervenção nesses fenômenos.


Prova absoluta da existência dos Espíritos


A fim de não restar dúvida alguma de que os Espíritos são os autores das manifestações espíritas, vamos apresentar outras provas nas quais se reconhecerá ser impossível que a inteli­gência que se manifesta seja a dos assistentes.

Se as mensagens recebidas pela mesa não são reflexos do pensamento dos assistentes, se essas comunicações relatam acontecimentos reais, absolutamente desconhecidos dos opera­dores, será indispensável admitir que esses ditados provêm das inteligências desencarnadas que, voluntariamente, se manifes­tam, pois que é possível verificar as suas afirmações e analisar a sua identidade.

Poderíamos, ainda, fornecer um número considerável de exemplos, mas a nossa tarefa não permite que nos estendamos longamente sobre esses fatos, porque temos outros a estudar.

Limitar-nos-emos a escolher experiências feitas por observa­dores competentes, que tomaram todas as precauções necessá­rias para produzir um testemunho ao abrigo de qualquer crítica.

Passamos a transcrever os seguintes trechos do Spirit Identity, livro do Sr. Oxon, eminente professor de Oxford.


As crianças mortas na índia


Em 10 de fevereiro de 1874, fomos atraídos por uma tríplice pancada, nova e muito particular, sobre a mesa, e recebemos uma narração longa e circunstanciada da morte, da idade e mesmo das datas e nomes de três pequenos seres, filhos do mesmo pai, e que tinham sido subitamente vitimados pela morte. Nenhum de nós conhecia esses nomes pouco comuns. Tinham morrido em país longínquo, a índia, e, quando a men­sagem nos foi dada, não tínhamos meio algum de verificação. Essa manifestação foi, entretanto, confirmada pouco tempo depois, e de um modo singular.

No dia 28 de março do mesmo ano, encontrei, pela primeira vez, o Sr. e a Sra A. Watts, na casa do Sr. Cowper-Temple, doutor em Medicina. A nossa conversação tratou especialmente da evidência dos fenômenos psíquicos. Contei diversos fatos, entre outros o das três crianças. A Sra Watts impressionou-se muito com essa narrativa, que correspondia, em sua semelhan­ça, a uma triste história que ouvira recentemente.

Uma semana antes, o Sr. e a Sra Watts haviam jantado em casa de uma velha amiga, a Sra Leaf, e souberam dela a história de uma perda dolorosa que tinha sofrido o parente de uma pessoa conhecida da Sra Leaf.

Esse cavalheiro, residente na índia, tinha, num curto es­paço de tempo, perdido sua esposa e três filhos. A Sra Leaf entrara em grandes e tristes minúcias, mas não havia feito menção alguma dos nomes nem do lugar desse doloroso acon­tecimento. Referindo o incidente das três crianças que se me tinham comunicado, dei os nomes e o lugar, exatamente como haviam sido fornecidos pela mensagem. A Sr.B Watts encarre­gou-se de tomar informação da Sra Leaf a respeito das par­ticularidades da narrativa que esta lhe tinha feito; tratou-se disso no dia seguinte e reconheceu-se que os nomes dos falecidos eram os mesmos.

Devo à gentileza da Sra Watts o ter travado relações com a Sra Leaf, e fiquei muito impressionado pela concordância exata de cada pormenor que ela me dava sobre os fatos em questão.

Aqui, a teoria da transmissão do pensamento não pode ser admitida, pois nenhum dos operadores conhecia os Espíritos que acabavam de dar os seus nomes.

Perguntamos agora: se não se admite a existência dos Espíritos, a que inteligência deve ser atribuída essa revelação?

Eis um caso narrado por Willíam Crookes, demonstrando claramente que a inteligência manifestada é completamente estranha aos assistentes.


Um telegrafista de além-túmulo


Durante uma sessão com o médium Home, a minha pe­quena régua atravessou a mesa para vir a mim, em plena luz, e deu-me uma comunicação, batendo em minha mão. Eu ditava e a régua batia no momento preciso.

A outra extremidade da régua repousava na mesa, a certa distância das mãos do Sr. Home.

As pancadas eram tão nítidas, tão exatas e a régua estava tão evidentemente sob a influência de uma potência invisível que perguntei: A inteligência desta régua poderá, porventura, mudar o caráter de seus movimentos e dar-me, por meio de pan­cadas em minha mão, uma mensagem telegráfica com o alfabe­to de Morse?

Tenho todas as razões para crer que o alfabeto de Morse era completamente desconhecido às pessoas presentes, pois que mesmo eu somente o conhecia imperfeitamente. Tinha apenas pronunciado essas palavras, quando o caráter das pancadas mudou, e a mensagem foi continuada pela maneira que eu tinha pedido. As letras foram indicadas com muita rapidez, de modo que só se pôde apanhar palavras destacadas; por conse­qüência, essa mensagem perdeu-se; porém, vi o suficiente para convencer-me de que, na outra extremidade da régua, havia um bom operador de Morse, quem quer que ele fosse.


A prancheta clarividente


Ainda um outro exemplo, do mesmo autor:

Uma senhora escrevia automaticamente, por meio da prancheta. Tentei descobrir o meio de provar que o que ela escrevia era devido à ação inconsciente do cérebro. A pranche­ta, pelo mesmo processo, afirmou que, embora fosse posta em movimento pela mão e pelo braço dessa senhora, a inteligência que a dirigia era a de um ser invisível que tocava no cérebro da senhora como num instrumento de música, fazendo, assim, mo­ver seus músculos.

Eu disse, então, a essa inteligência: - Vedes o que existe neste aposento? - Sim, escreveu a prancheta. - Vedes este jornal e podeis lê-lo? - acrescentei eu, pondo o meu dedo no número do Times, que estava numa mesa por trás de mim, mas sem olhá-lo. - Sim! respondeu a prancheta. - Bom, disse eu, se podeis vê-lo, escrevei a palavra que está neste momento coberta pelo meu dedo, e eu crerei em vós. A prancheta come­çou a mover-se lentamente, e com muita dificuldade escreveu a palavra honour. Voltei-me e vi que a palavra honour estava coberta pela extremidade de meu dedo.

Quando fiz essa experiência, evitei olhar o jornal, e era impossível à senhora, embora o tentasse, ver uma única das palavras impressas, porque ela estava sentada em uma mesa, o jornal estava em outra mesa por trás de mim e o meu corpo ocultava-lhe a vista.

Esse fato demonstra ainda que, quando se analisarem um pouco mais as objeções feitas pelos incrédulos aos fenômenos espíritas, ficar-se-á surpreso da pouca consistência que elas apre­sentam.

A transmissão do pensamento, que é o cavalo de batalha dos contraditores, é invocada muitas vezes para explicar a res­posta que o médium dá a uma questão mental. Um pouco de reflexão basta para fazer compreender quanto essa hipótese é pouco fundada.

E bem evidente que ela não explica todos os fenômenos, porque, quando a comunicação revela acontecimentos comple­tamente desconhecidos dos assistentes, não se pode atribuir isso a uma transmissão qualquer do pensamento. Já vimos o caso das crianças mortas na índia, referido pelo Sr. Oxon, fato esse completamente original. Eis um segundo, igualmente verificado pelo mesmo autor.


O caso Abraham Florentine


O Sr. Oxon (28), residindo em Shanklin, ilha de Wight, no mês de agosto de 1874, tinha organizado, com o Dr. Spur e sua esposa, sessões bastante regulares. Um Espírito veio em certa ocasião comunicar-se sob o nome de Abraham Florentine. A mesa que servia nas experiências parecia estar, diz o narrador, em estado de verdadeira superexcitação; seus pés batiam com violência, de sorte que o processo da conversação diferia daquele que anteriormente se empregava, por meio de pancadas na madeira. Esse Espírito declarou ter falecido em Brooklyn (New York), em 5 de agosto de 1874, com a idade de 83 anos, 1 mês e 17 dias, e ter tomado parte na guerra de 1812.

O Sr. Epes Sargent, a quem foi comunicado esse incidente, enviou-o ao Banner of Light, que, no dia 12 de dezembro, perguntou se alguém poderia fornecer informações sobre esse assunto.

Apenas tinha aparecido esse número do jornal, quando o editor recebeu do Sr. Wilson Millar, de Washington, o aviso de que o nome de Abraham Florentine existia na lista dos sol­dados que, em 1812, tinham reclamações a fazer, e que, se alguém se dirigisse à Secretaria do Ajudante-General do Estado de New York, poderia obter mais amplas informações.

Escrevendo-se sobre o assunto ao Ajudante-General, rece­beu-se dele a seguinte resposta:
ESTADO DE NEW YORK

Quartel-General de Ajudante-General.

Albany, 25 de janeiro de 1875. Repartição
Em resposta à vossa missiva de 22 de janeiro, venho dar­-vos as informações seguintes, extraídas dos arquivos desta repartição:

Abraham Florentine, simples soldado da companhia do Capitão Nicole, no primeiro regimento da milícia de New York, cujo comandante era o Coronel Dodge, alistou-se no dia 3 de setembro 1812, pouco mais ou menos, e, depois de ter servido durante três meses, obteve uma baixa honrosa.

Fez-se-lhe uma concessão do terreno número 63.365. Este último detalhe foi extraído das declarações feitas, sob jura­mento, pelo soldado, e não dos registros oficiais.

Saúdo-vos.
Franklin Townsend Ajudante-General.
Tendo sido publicada esta nota, o Dr. Crowel, que conhecia o Sr. Oxon, teve a gentileza de dar os passos necessários a fim de obter pormenores suplementares. Consultando o indicador de Brooklyn, encontrou aí o nome de Abraham Florentine, do­miciliado no número 119, rua Kosciusko, e, dirigindo-se a esse lugar, foi recebido pela Sra Florentine, que, sobre as questões propostas, disse que seu marido tinha falecido em 5 de agosto passado e que, se fosse vivo, teria 83 anos em 8 de junho; que, em vida, tinha bom comportamento, que durante cerca de um ano tinha guardado o leito e que muito sofrera.

Tudo que tinha sido dito pelo médium era portanto rigoro­samente exato, à exceção do único detalhe no qual a Sra Flo­rentine dava a seu marido 83 anos, 1 mês e 27 dias, enquanto que o Espírito dizia ter tido menos dez dias de existência. Mas esta pequena diferença em nada afeta o resultado das outras informações, perfeitamente confirmadas.

Eis as conclusões do Sr. Oxon quanto a esse fato e a impor­tância que lhe atribui:

No que me diz pessoalmente respeito, senti-me muito feliz em ver minhas investigações coroadas de êxito. Jamais pus em dúvida que chegássemos a esclarecer o assunto, como tantas vezes tínhamos feito em outras ocasiões; porém, para mim, o principal foi poder constatar a justeza das deduções que tinha tirado da maneira insólita pela qual essa comuni­cação havia sido feita.

A veemência das pancadas, o modo de correspondência em­pregado, que, para nós, era inteiramente novo, a seriedade in­contestável do Espírito e a obstinação que ele mostrava em comunicar-se eram ainda mais notáveis.

Há no caráter da prova singularmente significativa que obtivemos nessa ocasião uma demonstração tão evidente da volta daqueles que nos deixaram que ela não pudesse deixar de fornecer matéria às mais sérias reflexões. Um fato positivo é que ninguém dentre nós tinha ouvido falar de Abraham Florentine; não tínhamos amigos na América do Norte encarre­gados de dar as notícias do que se passava lá, e, mesmo que os tivéssemos, eles certamente não falariam de uma circunstân­cia que em nada nos interessava.

Terminando, afirmo de novo, no interesse da verdade, que o nome, tanto como os fatos, era inteiramente desconhecido de nós três.

Não existe teoria, fora do Espiritismo, que possa explicar tais fenômenos; eles são a prova absoluta da imortalidade da alma e das comunicações daqueles aos quais se teima em cha­mar mortos, mas que continuam a viver.

A Inglaterra não teve o monopólio desses fatos bem cons­tatados: em 11 de janeiro de 1883, o Neu Spiritualistische Blat­ter, de Berlim, publicava o artigo seguinte, narrando um fenô­meno tão autêntico quanto o precedente (29)


O alfaiate esmagado


Devemos ao Sr. Conselheiro S..., de quem recebemos re­centemente a visita, a interessante narrativa que ele teve a gentileza de fazer-nos, e consideramo-nos felizes em pô-la sob os olhos de nossos leitores; eles encontrarão aí uma prova de identidade que, em razão da sua simplicidade, da sua clareza e dos testemunhos nos quais se apóia, pode ser considerada como uma das melhores demonstrações que se têm obtido na Alemanha, a respeito da possibilidade das comunicações diretas com os Espíritos.

Circunstâncias que, infelizmente, ainda tantas vezes se apresentam, nos impedem de dar publicidade aos nomes; aias, para obviar este inconveniente, submetemos à apreciação de quatro pessoas a ata da sessão, as informações das autoridades e alguns outros documentos, e essas pessoas dignaram-se atestar, com suas assinaturas, a autenticidade da revelação se­guinte:

Na pequena cidade de G..., três senhores sentaram-se, na noite de 3 de agosto de 1882, em volta de uma mesa, para verem se obtinham os fenômenos de deslocamento ou de pancadas.

Estiveram à espera muito tempo; de repente, a mesa pôs-se em movimento, e compreendeu-se, depois de perguntas, que Espíritos desejavam manifestar-se; entabulou-se, então, a se­guinte conversação, por meio do alfabeto:

- Quem está aí? - Um alfaiate esmagado. - Como, es­magado? - Um trem passou-me por cima. - Quando? - Há três anos. - Onde? - Unterbarmen. - Em que dia? - 29 de agosto de 1879. - Teu nome? - Siegwart Lekebusch. - Teu domicílio? - Barmen. - Teus pais vivem ainda? - Sim. - Eras patrão ou operário? - Aprendiz. - Com que idade morres­te? - Dezessete anos. - És feliz? - Oh! Sim. - Devemos fazer esta comunicação aos teus pais? - Não. - Por quê? - Não acreditam na sobrevivência depois da morte. - Talvez isso os convencesse. - Só conseguireis que eles zombem de vós. - Como se deu o acidente? - Eu queria fazer uma visita a uns paren­tes na Rua Auer, em Unterbarmen; seguia pela via férrea, e, tendo a vista curta, não vi chegar o trem; era noite, e fui esmagado. - Em que te ocupas atualmente? - Não posso des­crever-vos o meu trabalho...

Essa conversação prolongou-se por muito tempo, porém nenhum interesse positivo oferecia, e a ata não mencionava a sua continuação.

Esses senhores, muito surpresos com tal comunicação, re­solveram tomar informações a fim de esclarecerem o mistério. Com este intuito, um membro da maçonaria, o Sr. K..., escre­veu, no dia seguinte, (prefeitura de Polícia) de Barmen, e, em data de 17 de agosto de 1882, o Inspetor de Polícia en­viou-lhe- esta resposta:

Atendendo ao pedido que me fizestes em vossa carta de 8 do corrente, tenho a honra de informar-vos que, em con­formidade com os registros aqui depositados, o aprendiz de alfaiate Siegwart Lekebusch, de 17 anos de idade, foi apanhado, em 26 de agosto de 1879, às 11 horas e 14 minutos da noite, por um trem da linha de Marche, e esmagado nas proximidades da estação Unterbarmen. A causa do acidente foi atribuída a ter o falecido transitado indevidamente pela linha.

As informações oficiais coincidiam, portanto, perfeitamente com a comunicação que nos tinha sido feita; restava ainda um ponto a verificar, isto é: a existência da Rua Auer.

O Sr. E... dirigiu-se com este fim, no dia 18 de agosto, ao escritório do Reinisch Westhal Post, em Barmen, pedindo que se dignassem fornecer-lhe todos os detalhes possíveis a esse respeito. A resposta foi:

Nada mais podemos acrescentar ao que declaramos em 28 de agosto de 1879, a não ser que existe em Unterbarmen a Rua Auer.

Este fato, como os precedentes, reúne todas as circunstân­cias necessárias para demonstrar a existência dos Espíritos, porque nenhum desses senhores conhecia Unterbarmen; eles ignoravam, por conseguinte, e com mais forte razão, que hou­vesse uma rua chamada Auer e, sobretudo, que tinha sido, três anos antes, esmagado um aprendiz de alfaiate. A diminuta di­ferença de dias que existe entre a data indicada pelo Espírito, como época da morte, e a que lhe é atribuída pelo documento da mería, em nada destrói o valor desse fato como prova da sobrevivência da alma.

O mesmo jornal contínua:

Desejando o Sr. S... que os fatos fossem aqui insertos e que não se publicassem os nomes das pessoas que tomaram parte nessa sessão, nós, abaixo assinados, sob garantia da redação do Neu Spirítualistische Blàtter, depois de termos exa­minado, quer a ata que designa o nome das testemunhas e das localidades quer os documentos oficiais, atestamos com as nossas assinaturas a exatidão da narrativa supra.
A. W. Seliin; Ludw, Tischer; Carl Baumann; C.-E. Nassler.
Esta narrativa mostra que não é preciso ser-se um sábio para fazer constatações científicas. Este documento tem um grande valor, não só porque a ata da sessão foi imediatamente lavrada, mas também porque as afirmações do Espírito foram reconhecidas verdadeiras por um documento oficial, e porque investigadores verificaram a existência de uma cidade, e, nessa cidade, uma rua com o nome indicado pelo Espírito.

Convidamos os investigadores a procederem sempre assim, porque dessa forma amontoam-se documentos para o futuro, e cada um concorre com a sua pedra para o edifício da ciência do porvir.

Terminaremos estas citações pelo fato seguinte, referido pelo Sr. Robert Dale Owen, em seu livro intitulado: Footfalls on the Boundary of Another World.

O Capitão Wheatcroft


Na noite de 14 para 15 de novembro de 1857, a esposa do Capitão G. Wheatcroft, residente em Cambridge, sonhou que via seu marido, então na índia. Acordou imediatamente e, le­vantando os olhos, avistou a mesma figura de pé junto ao seu leito. O Capitão aparecia com o seu uniforme, com as mãos cruzadas no peito, cabelos em desordem e a face muito pálida. Seus grandes olhos negros estavam fixos nela; sua expressão era a de grande emoção, e havia uma contração especial da boca, habitual nesse oficial quando estava perturbado. Ela o viu, mesmo em cada detalhe particular do seu trajo, tão distintamente como jamais o vira durante a sua vida. A figura parecia estar inclinada para frente, como se sofresse, e pa­recia fazer um esforço para falar; mas, nenhum som se ouviu. Esteve visível por algum tempo e, em seguida, desapareceu. A Sra Wheatcroft não pôde mais adormecer nessa noite.

No dia seguinte, contou tudo à sua mãe, externando a sua crença de que o Capitão tinha sido morto ou ferido.

Após o tempo necessário, recebeu-se um telegrama anun­ciando que esse oficial tinha sido morto em frente a Lucknow, no dia 15 de novembro. A viúva informou ao Sr. Wílkinson, advogado de seu marido, que estava inteiramente preparada
para a fatal notícia, mas que tinha certeza de que havia erro de um dia na data da morte. O Sr. Wilkinson obteve, então, do Ministério da Guerra um certificado assim concebido:
MINISTÉRIO DA GUERRA

N° 9.579

30 de janeiro de 1858.

Segundo os arquivos do Ministério, parece que o Capitão G. Wheatcroft, do 6.0 regimento de dragões, foi morto na ação de 15 de novembro de 1857.
B. Hawes.
Ora, um notável incidente apresentou-se: O Sr. Wilkinson estava de passeio em Londres e morava na casa de um amigo que era médium e cuja esposa tinha tido, durante toda a sua vida, a percepção de aparições. Contava-lhe a visão da viúva do Capitão e descrevia como a figura tinha aparecido, quando a Sra V..., esposa do seu amigo, disse subitamente: Deve ser a mesma pessoa que eu vi quando falávamos da índia, hoje à tarde. Em resposta às questões do Sr. Wilkinson, ela disse que tinha obtido, por intermédio de seu marido, uma comuni­cação dessa pessoa, anunciando-lhe que acabava de ser morto na índia, de tarde, devido a um ferimento no peito. Eram cerca de nove horas da noite; ela não tinha tomado nota da data, mas, pensando bem, lembrou-se de ter sido interrompida por um fornecedor e de ter, então, saldado uma conta.

Submetendo o recibo ao exame do Sr. Wilkinson, consta­tou-se que ele trazia a data de 14 de novembro.

Em março de 1858, a família do Capitão Wheatcroft rece­beu do Capitão G. C. uma carta procedente de Lucknow com data de 29 de dezembro de 1857, na qual este oficial dizia que se achava ao lado do Capitão Wheatcroft quando este caiu, e que isso sucedera no dia 14 de novembro à tarde e não em quinze como dizia o despacho do Ministério. O finado tinha sido ferido no peito por um estilhaço de bomba.

Havia sido enterrado em Dilkaosha, e, numa cruz de ma­deira fincada no túmulo, tinham sido gravadas as iniciais C,. W. e a data da morte, 14 de novembro.

O Ministério da Guerra corrigiu o seu erro. O Sr. Wilkinson obteve, em abril de 1859, uma outra cópia do certificado e achou-o concebido nos mesmos termos que o precedente, salvo o dia 15 de novembro, que tinha sido substituído por 14.

O Sr. Owen tem em seu poder as provas do fato, comple­tadas diretamente pelas próprias partes. A viúva do Capitão Wheatcroft examinou, corrigiu o manuscrito e mostrou-lhe a carta do Capitão C. o Sr. Wilkinson fez o mesmo, e a Sra V... contou-lhe pessoalmente os fatos que tinha presencia­do. O Sr. V . referiu também essas circunstâncias, antes das informações que o Sr. Owen dirigiu ao Sr. Howit, como é teste­munhado por este em sua Histoire du Surnaturel, pág. 225, volume 2 - . O Sr. Owen declara, além disso, que tem em seu poder os dois certificados do Ministério da Guerra; o primeiro com a data errada, o segundo com a data corrigida.

Nesse caso, temos a mesma aparição apresentando-se na mesma noite a duas senhoras desconhecidas entre si e distan­tes uma da outra, bem como a comunicação obtida por uma terceira pessoa, designando o momento e o gênero da morte, coincidindo tudo exatamente com o que se sucedia a milhares de léguas de distância. Pensamos, como o Sr. Wallace, que fatos como estes, tão bem certificados, não podem ser discutidos, e que, para atribuí-los a uma coincidência, seria preciso grande esforço de incredulidade.

Resulta, pois, das experiências precedentes, a prova rigo­rosa da comunicação dos Espíritos. Averiguamos também que a transmissão do pensamento não pode ser invocada nessas experiências, e que somente a Doutrina Espírita oferece uma solução simples e racional, atribuindo essas comunicações às almas desencarnadas.

Vamos ver como se pode chegar aos mesmos resultados, seguindo outros caminhos.


CAPITULO III

MEDIUNIDADES DIVERSAS

Os médiuns escreventes. - Algumas comunicações notáveis. - Fábulas, versos e música. - Incorporação ou encarnação. - Um caixeiro. - A filha do juiz Edmonds. - Anestesia durante o transe. - As objeções. - O Sr. Binet. - As experiências do Sr. Janet. - Me­diunidade vidente. - Mediunidade auditiva. - Escrita direta e psicografia. - Experiências de Wallace. - Oxon. - Zollner. - O Dr. Gibier. - Na América do Norte. - Observações.

Os médiuns escreventes


Já vimos, no histórico, como os próprios Espíritos indica­ram um meio de comunicação mais rápido que pela mesa. Esse meio é o de tomar um lápis e deixar a mão completamente passiva; se o experimentador é médium, no fim de algum tempo sua mão traçará automaticamente sinais, linhas e, finalmente, caracteres que podem ser lidos e que constituem a mensagem espiritual.

Eis como a mediunidade escrevente se desenvolveu no Dr. B. Cyriax, diretor do Neu Spiritualistische Blatter, de Ber­lim. Esta narrativa foi extraída de sua obra Wie ich ein Spiri­tualist geworden bin.

O autor conta que, resolvido a estudar o fenômeno, dese­java fazer pesquisas em sua própria casa, no seio de sua fa­mília, a fim de estar plenamente convencido de que nenhuma fraude produzir-se-ia.

Durante dezenove sessões, nenhum resultado obteve; foi somente na vigésima que movimentos da mesa vieram animá-lo a prosseguir esse inquérito, que ele estava a ponto de aban­donar.

Cedamos-lhe a palavra:

Nessa vigésima sessão, senti, de repente, uma sensação muito particular: ora de calor, ora de frio; percebi, em seguida, uma espécie de corrente de ar frio que passava pelo meu rosto e pelas minhas mãos; depois, pareceu-me que meu braço es­querdo estava, como se costuma dizer, dormente; mas a impressão era completamente diferente da de fadiga, que eu sentia nas outras sessões e que podia fazer cessar, quer mudando de posição quer mexendo os braços, as mãos ou os dedos. Nessa ocasião, meu braço estava, por assim dizer, paralisado, e minha vontade era impotente para fazê-lo mover, e muito menos aos meus dedos; tive, em seguida, o sentimento de que alguém punha meu braço em movimento, e, tal foi à rapidez com que ele se agitou que não consegui retê-lo.

Como esses movimentos eram análogos aos que fazemos para escrever, minha esposa foi buscar papel e um lápis, e colocou-os na mesa; de um salto, minha mão esquerda apoderasse do lápis e, durante alguns minutos, traça sinais no ar com incrível rapidez, de sorte que meus dois vizinhos eram forçados a inclinar-se para trás a fim de não serem atingi­dos; após isso, minha mão abaixa-se bruscamente para o papel, fere-o violentamente, e quebra a ponta do lápis. Neste momen­to, com a mão repousada docemente na mesa, compreendi per­feitamente que a minha vontade tinha sido inteiramente neutra nos movimentos executados; compreendi também que eu não a dominava na fase atual de repouso. O fato é que não pude reter meus gestos, e que, no momento do repouso, não me foi possível mover o braço, que estava insensível e como se não me pertencesse.

Logo que o lápis, aparado de novo, foi posto outra vez ao meu alcance, minha mão tomou-o e começou a estragar algu­mas folhas de papel cobrindo-as de traços grossos e de rasgões; depois, acalmou-se e, com profundo espanto nosso, pôs-se a fazer exercícios de escrita, tais como costumam fazer as crianças: primeiro traços, pauzinhos; depois N, M, A, C, etc.; e final­mente o O, sobre o qual fiquei muito tempo, até que a força que animava o meu braço conseguiu fazê-lo mover em círculo, sempre o mesmo, com grande rapidez. Depois disso, a força, como que exausta, deixou de agitar-me o braço; senti uma nova corrente de ar frio passar através e sobre minha mão, e, em pouco tempo, toda a fadiga e toda a dor havia desapa­recido.

A calma restabeleceu-se e levantamos a sessão, felizes por havermos verificado a manifestação de uma força independente da nossa própria vontade, e à qual nos era impossível resistir; que esta força fosse magnética ou espírita, ou tivesse origem na atividade inconsciente do cérebro, eis uma questão reser­vada para outra ocasião.

Embora fosse medíocre o resultado obtido, não ficamos tranqüilos enquanto não tentamos outras experiências. No dia seguinte, à noite, empenhamo-nos outra vez na questão; desta vez, a espera não foi longa.

Apenas tinham decorrido cinco minutos, já eu sentia ar frio, e a mesma sensação era experimentada pelos meus com­panheiros; em seguida, sobrevieram os movimentos bruscos e, muitas vezes, dolorosos da mão esquerda, que batia, sem inter­rupção, durante alguns minutos, na superfície da mesa, com pancadas precipitadas e com tal violência que acreditei dever estar escoriado; surpreso, não descobri ferimento algum, e todo o vestígio de dor desaparecera como por encanto.

Desse dia em diante, minha mediunidade desenvolveu-se mais rapidamente, e, seguindo os conselhos de meus amigos da América do Norte, a reunião era composta de duas damas e um cavalheiro. Comecei a escrever com a mão esquerda, pri­meiro como exercício; depois, vieram comunicações de diferen­tes Espíritos e, certa noite, desenhei uma cesta de flores.

Devo dizer que sou muito desajeitado da mão esquerda no estado normal, não sabendo sequer servir-me dela para comer, quanto mais para escrever; no que diz respeito ao desenho, entendo muito pouco dessa arte, mesmo com a mão direita.

Adquiri a mais absoluta convicção de que a força que es­crevia e desenhava por meu intermédio era independente de mim, e que devia residir em outra inteligência que não a mi­nha, porque, durante essas manifestações, eu conservava toda a minha lucidez; não sentia nenhum inconveniente, salvo no que era concernente ao meu braço esquerdo, pois, durante toda a sessão, parecia não me pertencer, e dava-me a impressão de que era usado por alguma outra pessoa, sem minha participa­ção e contra a minha vontade.

Meu espírito era tão alheio a isso que, enquanto minha mão escrevia, eu podia perfeitamente conversar com as outras pessoas presentes. Um colega, que, em certa ocasião, assistia à sessão, querendo reter o movimento de minha mão, e tendo paia isso colocado suas mãos de modo que a minha suportasse todo o peso de seu corpo, nenhum resultado tirou; minha mão prosseguiu seu trabalho com força e regularidade, enquanto eu apenas sentia o peso das mãos colocadas sobre a minha.

Reproduzimos inteiramente as declarações do Dr. Cyriax, por serem originais; elas mostram bem as fases diversas pelas quais passam o maior número de experimentadores e, além de tudo, apresenta a vantagem de ser relatada por um homem competente, que só pôde ser levado a acreditar nos Espíritos pelos fenômenos produzidos em si próprio.

Eis ainda uma outra experiência de William Crookes, sobre a escrita automática (30)

Em minha presença, diversos fenômenos produziram-se ao mesmo tempo, e o médium não os conhecia a todos. Aconteceu que a jovem Fox escrevia automaticamente uma comunicação para um dos assistentes, enquanto outra comunicação, so­bre outro assunto, lhe era dada para uma pessoa diferente, por meio do alfabeto e por pancadas. Durante todo esse tempo, o médium conversava com uma terceira pessoa, sem o menor embaraço, sobre assunto completamente diferente dos outros.


Algumas comunicações


O caráter automático da escrita, obtida nas condições acima indicadas, é, sem dúvida, muito importante para julgar-se da boa-fé do médium; mas, convém não esquecer que, neste caso, como em todos os outros, o verdadeiro característico da mediunidade está nas provas de identidade fornecidas pelo Espírito que se manifesta. Quando esse invisível fala de aconte­cimentos dos quais só ele e vós tendes sido testemunhas, tereis já uma probabilidade de ser ele perfeitamente a personalidade que conhecestes na Terra. Neste caso, convém não recear fa­zer-lhe perguntas múltiplas e reiteradas, até que vossa convic­ção seja plena e completa.

Pode acontecer que, sem se obterem nomes conhecidos do evocador, tenha a comunicação um caráter comprobativo; isto sucede quando ela revela ser de uma inteligência notoriamente superior à do médium ou quando é escrita com uma esponta­neidade ou presteza tais que não se pode atribuí-la ao médium.

Mas, essas comunicações são, às vezes, verdadeiras farsas literárias. Vamos ver diferentes exemplos desses casos:

Eis primeiramente uma fábula que o Sr. Timoléon Jaubert, antigo vice-presidente do Tribunal Civil de Carcassonne, obteve por intermédio da mesa; ela foi extraída de sua obra Les Deux Commandements du Christ, e obteve o prêmio nos Jogos florais de Toulouse:
LA CHENILLE ET LE PAPILLON
D'un bosquet de jasmin, labourant les contours, Tremblante, une chenille, au déclin de ses jours, Se disait: Je suis bien malade;

Je ne digère plus les feuilles de salade; A peine si le chou tente mon appétit, Je me meurs petit à petit.

C'est triste de mourir... Mieux vaudrait ne pas naltre Sans murmure, 11 faut se soumettre.

A d'autres, après moí, de tracer leur sillon.

Mais tu ne mourras pas, lui dit un papillon; Naguère, 11 m'en souvient, sur Ia méme charmille, Avec toi, j'ai rampé; je suis de ta famille.

Si tu trames ce corps lourd, débile et poudreux, L'avenir te réserve un destin plus heureux. Espere!... Du sommeil le passage est rapide; Tout comme je le fus, tu seras chrysalide; Comme moi tu pourras, brillante de couleurs,

Respirer le parfum des fleurs. La vieille répondit: Imposture! imposture! Rien ne saurait changer les lois de Ia nature; L'aubépine jamais ne deviendra jasmin.

A mes anneaux brisés, à des ressorts si fréles, Quel habile ouvrier viendrait fixer des ai1es? Jeune fou, passe ton chemin.

Chenílle, bien touché! le possible a ses bornes, Reprit un escargot triomphant sous ses cornes.

Un crapaud applaudit. - De son dard un frelon Insulta le beau papillon.

Non, ce n'est pas toujours Ia vérité qui brille. Niez ame des morts, aveugles obstinés. Prenez Barde!... Vous raisonnez

A peu près comme Ia chenille.

Eis uma outra poesia obtida por uma senhora, com o auxí­lio da escrita automática; foi ditada no momento em que apareceu a novela intitulada Spirite, de Théophile Gautier:

Me vo!ci revenu. Pourtant, j'avais, Madame, Juré sur mes grands Dieux de ne jamais rímer. C'est un triste métier que de faire imprimer Les ceuvres d'un auteur réduit à 1'état d'ãme.

J'avaís fui loin de vous, mais un esprit charmant Risque en parlant de nous d'exciter le sourire!

Je pense qu'il en sait bien plus qu'il n'en veut dire, Et qu'il a, quelque part, trouvé son revenant.

Un revenant! vralment cela paralt étrange, Moí-méme j'en ai ri quand j'étais lei-bas, Mais, lorsque j'aflirmais que je n'y croyais pas, J'surais, comme un sauveur, accueilli mon bon ange.

Que je 1'aurais aimé, lorsque, le front jauni, Appuyé sur ma main, Ia nu!t, dans Ia fenétre, Mon esprit, en pleurant, sondait le grand peut-étre, En parcourant au loin les champs de 1'Infini!

Amis, qu'espérez-vous d'un siècle sans croyance? Quand vous aurez pressé votre fruit le plus beau, L'homme trébuchera toujours sur un tombeau, SI, pour le soutenir, 11 n'a plus 1'espérance.

Mais ces vers, dira-t-on, lls ne sont pas de lui. Que m'importe, après tout, le blàme du vulgalre: Lorsque j'étais vivant, 11 ne m'occupait guère,

A plus forte raison, en rirais-je aujourd'hul.
A. DE MUSSET.
Esses versos, publicados pela Revue Spirite, produziram sensação, mormente no mundo das letras, porque era difícil, fosse qual fosse o médium, não reconhecer a verve do poeta.

Albéric Second, a quem eles foram enviados, escreveu, em 7 de junho de 1866, no Grand Journal, que então dirigia, o seguinte:

Era difícil deixar de interrogar Théophile Gautier sobre os versos em questão, e, justamente, tendo tido o prazer de encontrá-lo em casa da Sra Binskz-Korsakoff, cedi à minha bem natural tentação.

Eis sua resposta: Uma senhora que jamais fizera uma simples composição em sua vida enviou-me esses versos, que o Espírito Alfred de Musset ditou por seu intermédio.

Tenho lido páginas atribuídas a Balzac e a Sra de Girar­din, canções atribuídas a Béranger, máximas atribuídas a Roche­foucauld que são verdadeiras aberrações.

Antes de ler os versos de Alfred de Musset, cuja remessa me tinha sido anunciada, supus que seriam do mesmo jaez, mas, feita a leitura, tive de modificar a minha opinião.

Posto de parte o autor do Spectacle dans un fauteuil, não conheço ninguém, absolutamente ninguém que seja capaz de escrever esses versos.

Confesso que a origem dessa poesia é um mistério que não posso decifrar.

A crítica de Théophile Gautier, quando se refere aos mortos ilustres, aos quais se atribui às vezes uma linguagem ridícula nas comunicações, é perfeitamente justificável.

Sucede encontrarem-se, em certos grupos de investigado­res pouco esclarecidos, médiuns que, com ufania, produzem elucubrações em versos de dezessete pés atribuídas a Victor Hugo, sem dúvida para agradar aos decadentes, obras literá­rias onde Bossuet estropia a língua francesa com um impudor notável, onde Lamennais, Chateaubriand, de Maistre falam como teria podido fazer um seu porteiro de outrora; comuni­cações de santos, e mesmo de Jesus e da Virgem Maria, que, com uma ênfase grotesca, prodigalizam conselhos morais de uma banalidade incoerente.

É preciso não se ficar admirado com essas anomalias, mas concluir que houve uma grosseira mistificação; ela, evidente­mente, existe, mas não do lado dos médiuns, porque os Espíri­tos que ditam essas comunicações sabem a que pessoas se diri­gem; são, portanto, estes os verdadeiros culpados. Mas o investigador imparcial não se deterá ante esses resultados, senão para constatar que os Espíritos são, com exceção do corpo, entes humanos, isto é, a sua esfera intelectual é tão elevada como a que tinham na Terra, pois o número dos mistificadores e dos imbecis não diminui na erraticidade.

Tornaremos a este assunto na parte terceira desta obra. Em seu livro Choses de 1'Autre Monde, Eugène Nus fornece uma prova evidente da inteligência do fenômeno, porque ele e seus amigos pediram à mesa para formular suas definições em frases de doze palavras.

Nossa tripeça não se embaraçava com tão pouca coisa, diz ele. Desafio todas as academias literárias a formularem rapidamente, instantaneamente, sem preparativo e sem refle­xão alguma, definições circunscritas em doze palavras, tão completas e, muitas vezes, tão elegantes como as improvisadas pela nossa mesa, à qual, no máximo, concedíamos, e a muito custo, a faculdade de formar uma palavra composta por meio de um traço de união.

Eis algumas dessas definições:
INFINITO - Abstração puramente ideal, acima e abaixo do que é concebido pelos sentidos.

FISICA - Conhecimento das forças materiais que produzem a vida e o organismo dos mundos.

QUIMICA - Estudo das diversas propriedades da matéria no estado simples e composto.

MATEMÁTICA - Propriedade das forças e dos números imanentes das leis da ordem universal.

HARMONIA - Equilíbrio perfeito do todo com as partes e das partes entre si.

TEOLOGIA - Dissertação dos dogmas fundamentais nos quais repousa a concepção duma religião humana.

FORCA DIVINA - Força universal que liga os mundos e abraça todas as outras forças.

CORACAO - Espontaneidade do sentimento nos nossos atos, nas idéias e em sua expressão

ESPIRITO - Suntuosidade do pensamento. Galanteria harmoniosa das relações, das comparações e das analogias.

IMAGINACAO - Fonte dos desejos, idealização do real por um justo senti­mento do belo.

Limitamos aí, com bastante pesar nosso, essas citações, porque queremos falar de uma produção nova e curiosa da mesa; ela ditou música. Eis como foi conseguida:

Uma pancada significava dó, duas, ré, três, mi, quatro, fá, e assim por diante.

Ordinariamente, a tripeça começava por dizer-nos de quan­tas notas se compunha à melodia, quase sempre trinta e duas, seu número favorito para a frase musical, assim como de doze para a frase falada.

Preenchida essa formalidade, ela ditava consecutivamente as notas, que escrevíamos em cifras; depois, dividia os com­passos, designando, uma após outra, a quantidade de notas que cada compasso devia conter; feito isto, dava-nos o valor da semibreve, da colcheia, e, sucessivamente; o valor de cada nota que indicava, marcando o compasso com o pé da tripeça sobre o soalho.

Vinha, em seguida, a indicação dos acidentes, dos susteni­dos, dos bemóis, em tal ou tal nota do compasso; depois, o tom; e, enfim, o título do trecho; porém, quanto a este, o Espírito tinha o cuidado de não o revelar senão depois de tudo completo.

Findo o ditado, Bureau executava a melodia em um órgão que tínhamos alugado para esse fim.

A tripeça, sobre a qual as nossas mãos se mantinham co­locadas, indicava o movimento, batendo o compasso e retifi­cando os erros quando eles existiam; depois do que o nosso amigo metia o trecho em um bolso e compunha o acompanha­mento, que submetia, em seguida, à aprovação da tripeça, sem­pre animada, bem entendido, pelo fluido das nossas mãos.

Terminada a audição,, se a inteligência estava satisfeita com o trabalho do seu cooperador, manifestava sua aprovação dando várias pancadas no soalho; se não estava, erguia a tripeça e a deixava imóvel: sinal habitual para indicar um erro; então, Bureau recomeçava, e a tripeça assinalava, levan­tando-se, os acordes que lhe desagradavam. Quando era o acom­panhamento inteiro que a inteligência rejeitava, ela deixava executá-lo ainda uma vez até ao fim, sem dar nenhum sinal, e levantava-se em seguida. Compreendia-se, então, que tal trecho devia ser recomeçado, e obtinha-se a música.

Os leitores encontrarão as melodias, assim obtidas, no livro já citado.

As vezes, os Espíritos escrevem eles mesmos a música, em lugar de ditá-la.

Eis o que conta Crookes de suas experiências a este respei­to, em companhia do célebre médium Home (31)

Entre os notáveis fenômenos que se produzem sob a in­fluência de Home, os mais frisantes e os que melhor se prestam ao exame científico são: 1 - a alteração do peso dos corpos; 2 - a execução de árias por instrumentos de música (geralmen­te pelo acordeão, devido à sua facilidade de transporte), sem intervenção direta do homem e em condições que tornam im­possível todo contacto ou manejo das chaves.

Somente depois de eu ter sido freqüentes vezes testemunha desses fatos e de tê-los investigado com toda a profundeza e rigor foi que me convenci da sua realidade.

O Sr. Crookes construiu uma gaiola, cuja altura foi calcula­da de forma a poder ser introduzida debaixo da mesa do re­feitório.

O acordeão foi comprado pelo sábio químico, e Home não o viu nem o tocou antes da experiência. Continuemos a nossa citação:

Os investigadores presentes, na ocasião dessa experiência, eram: um eminente físico, altamente colocado na Sociedade Real de Londres, a quem eu chamarei Dr. A. B., um doutor em direito meu conhecido, a quem chamarei C. D. (32), meu irmão e o meu ajudante.

O Sr. Home sentou-se ao lado da mesa, numa cadeira; defronte dele, por baixo da mesa, estava a gaiola acima men­cionada; suas pernas achavam-se uma de cada lado da mesma gaiola. Sentei-me perto dele, à sua esquerda; um observador foi também colocado à sua direita; o resto dos assistentes sen­tou-se distante da mesa, como lhes convinha...

Com a minha mão, tirei a gaiola de sob a mesa, justamente o bastante para permitir que aí se introduzisse o acordeão com suas teclas viradas para baixo. Em seguida, empurrou-se a gaiola para baixo da mesa, tanto quanto permitiu o braço do Sr. Home, mas sem ocultar sua mão àqueles que estavam perto de si.

Dentro em pouco, quem estava de seu lado viu o acordeão balançar-se de um modo curioso; em seguida, sons foram emi­tidos e, enfim, produziram-se, sucessivamente, diversas notas.

Enquanto isso se passava, meu ajudante introduziu-se debaixo da mesa e disse-nos que o acordeão abria-se e fechava; verifi­cou-se, ao mesmo tempo, que a mão do Sr. Home, que sustinha o acordeão, estava completamente invisível, e que a outra re­pousava sobre a mesa.

O Sr. Home tinha ainda o instrumento na gaiola acima des­crita.. Seus pés estavam seguros pelos que se assentavam perto dele; sua outra mão repousava na mesa, e ouvimos notas dis­tintas e separadas soar sucessivamente, sendo, em seguida, executada uma simples ária. Como tal resultado não poderia ser produzido senão pelas diferentes teclas do instrumento, postas em ação de um modo harmonioso, todos os que estavam presentes consideraram a experiência como decisiva.

Vamos expor agora uma fase ainda desconhecida do fe­nômeno.


Incorporação ou encarnação


A mediunidade, pela pena, abrevia e simplifica as comu­nicações com os Espíritos; porém, há outro modo ainda mais expedito, por meio do qual o Espírito se apodera dos órgãos do médium e conversa por sua boca, como o poderia fazer se ele próprio estivesse encarnado. Os ingleses e norte-americanos dizem que, nesse caso, o médium está em transe.

Essas manifestações são as mais fáceis de dissimular; mas, nesse caso ainda, só convém admitir o fenômeno como real quando o médium dá provas certas de que um ser desencarnado se manifesta por seu intermédio. Essas provas podem ser de diferentes naturezas; vamos referir três exemplos dessa me­diunidade e ver-se-á, por essas narrações, como elas trazem um irresistível cunho de evidência.

Eis o que conta o Sr. Sergent Cox, jurisconsulto eminente, escritor distintíssimo, bom juiz, diz Wallace, em matéria de estilo:


Um caixeiro


Vi um caixeiro, sem educação, sustentar, quando estava em transe, conversação com uma plêiade de filósofos sobre a razão e a presciência, a vontade e a fatalidade, e fazer-lhes frente com vantagem.

Propus-lhe as mais difíceis questões de psicologia e recebi respostas sempre sensatas, sempre cheias de energia e, inva­riavelmente, em linguagem escolhida e elegante. Entretanto, um quarto de hora depois, quando ele ficou em seu estado normal, era incapaz de responder às mais simples questões sobre assun­to filosófico, e sempre costumava procurar muito para encon­trar uma linguagem suficiente a fim de explicar as idéias mais vulgares.

Nessa experiência, a desproporção entre o estado normal e o transe é tão manifesta que, incontestavelmente, há uma ação estranha agindo sobre o sensitivo. Eis um segundo exemplo em que a ação dos Espíritos é ainda mais bem apreciada e abso­lutamente inegável.

Wallace, referindo-se aos trabalhos do juiz Edmonds sobre o Espiritismo, escreveu:


A filha do juiz Edmonds


Temos ainda a acrescentar um relatório que será, talvez, para muitas pessoas a prova mais convincente de todas as experiências desse magistrado. Sua própria filha tornou-se médium e pôs-se a falar línguas estrangeiras que lhe eram totalmente desconhecidas. Ele exprime-se do seguinte modo sobre o assunto:

Ela não dominava outro idioma além do seu, salvo ligeiro conhecimento de francês, aprendido na escola. Não obstante isso, tem conversado freqüentemente em nove ou dez línguas di­ferentes, muitas vezes durante uma hora, com a segurança e a facilidade de uma pessoa falando sua própria língua. Não é raro que estrangeiros se entretenham, por seu intermédio, com seus amigos espirituais e em seu próprio idioma. Cumpre-nos dizer como se passou tal fato em uma dessas circunstâncias.

Uma noite, em que doze ou catorze pessoas se achavam em meu pequeno salão, o Sr. E.-D. Green, artista desta cidade, foi introduzido em companhia de um cavalheiro que se apre­sentou como sendo Evan Gelides, natural da Grécia. Pouco depois, um Espírito falou-lhe em língua inglesa, por intermé­dio de Laura, e tantas coisas lhe disse que ele reconheceu estar por seu intermédio em relação com um amigo que falecera em sua casa, alguns anos antes, mas de quem ninguém tinha ouvido falar. Nessa ocasião, por intermédio de Laura, o Espírito disse algumas palavras e pronunciou diversas máximas gregas, até que, enfim, o Sr. E. perguntou se ele poderia ser compreendido quando falasse grego? O resto da conversação foi, durante mais de uma hora, da parte do Sr. E., inteiramente em língua grega; Laura também falava em grego e, algumas vezes, em inglês. Em certos momentos, Laura não compreendia a idéia sobre a qual ela ou o Sr. Gelides falavam; mas, em outras ocasiões, a com­preendia, posto que falasse em grego e ela própria se servisse de termos gregos.

Vários outros casos são conhecidos e está averiguado que essa jovem tem falado as línguas espanhola, francesa, grega, italiana, portuguesa, latina, húngara, hindu, assim como outras que eram desconhecidas de todas as pessoas presentes.

Isto não é de forma alguma um caso isolado: apóia-se numa autoridade e em testemunho absolutamente irrecusável. Um pai deve saber ou não se a sua própria filha aprendeu a falar cor­retamente oito idiomas além da sua língua natal.

Os que tomaram parte na conversação devem saber se as línguas de que se trata eram faladas ou não; em muitos casos, por exemplo, quando se conversava nos dialetos espanhóis ou indianos, o juiz Edmonds reconhecia-os. O fenômeno produzido faz parte do Espiritismo, porque essas línguas eram faladas em nome e por conta de pessoas falecidas, e porque estava no cará­ter delas o assunto de que se tratava. Este fenômeno, que há dezesseis anos foi dado à publicidade, deveria merecer uma discussão ou uma explicação por parte daqueles que fazem pro­fissão de esclarecer o público sobre os assuntos espíritas.


Anestesia durante o transe


Eis uma observação médica do Dr. Gibier (33) a respeito do célebre médium Slade:

Tínhamos de operar Slade com o fim de extirpar-lhe um cisto sebáceo do couro cabeludo. Por ser ele muito sensível à dor e, além disso, de uma pusilanimidade excessiva, não podíamos recorrer ao bisturi para operá-lo. Lançamos mão de cáusticos cujo princípio básico era o óxido de potássio. A aplicação do medicamento foi, desde o começo, muito dolorosa para Slade e, depois de alguns minutos, o seu sofrimento pareceu-nos into­lerável; o paciente suava excessivamente; todos os seus mem­bros agitavam-se com estremecimento. Sugerimos-lhe a idéia de chamar Ovasso (34), o qual não se fez esperar, caindo logo Slade em estado de êxtase, de transe, e, com a voz modificada, entreteve-se alegremente conosco e com o Sr. A. F., que assistia à operação em meu gabinete de trabalho. A dor tinha de tor­nar-se cada vez mais intensa, pois a potassa mordia as cama­das sensíveis do derma, mas Slade não parecia ocupar-se com isso, como se fosse um outro o paciente. No começo da operação, dava o seu pulso oitenta e cinco pulsações por minuto; três minutos depois, tinha esse número baixado a sessenta; a pele, que pouco antes era quente, resfriara quase subitamente, e Slade-Ovasso ria-se e conversava conosco.

Beliscamos-lhe com força a parte dorsal da mão, e o paciente, que se sobressalta ao menor contacto, tão grande é a sua hiperestesia no estado normal, nem deu mostras, nesse momento, de aperceber-se da pequena tortura que lhe infli­gíamos.

Ao cabo de um quarto de hora, tiramos o cáustico; Slade teve uma nova convulsão e tornou ao seu estado normal depois de nos ter apertado a mão e dito, como quem se despede, good­-bye. A dor então reapareceu, mas muito suportável, e Slade queixou-se de sofrer principalmente na parte em que o tínha­mos beliscado.

É forçoso confessar que tudo isso é bastante estranho. Objetarão que tudo foi uma simulação? Mas, como explicar as modificações da temperatura e das pulsações do coração? Isso não pode ser simulado.

Ainda uma nova observação sobre esse ponto: Dissemos acima que Slade tinha tido dois ataques de hemiplegia, da qual ainda não está curado. Fizemos, sem comunicar-lhe o nosso intento, o exame comparado de sua força no dinamômetro. Depois de havermos verificado que, em suas mãos, o dinamômetro marcava 27 quilos à direita e 35 à esquerda, aproveita­mo-nos de um acesso de transe, que se seguiu, em conseqüência dos esforços que ele tinha feito, apertando o instrumento, e verificamos, de uma vez, que o dinamômetro marcava à direita 55 em vez de 27 quilos, e à esquerda 60 em vez de 35, e, em outra ocasião, à direita 63 e à esquerda 50.

Nenhuma das três pessoas presentes pôde fazer chegar à mesma indicação a agulha do dinamoscópio.

Como é fácil de verificar, a encarnação ou incorporação é um fenômeno que não se pode simular, se os investigadores souberem tomar as precauções necessárias.

Nos casos supramencionados, a intervenção dos Espíritos é absolutamente manifesta.


As objeções


Depois de havermos mostrado que os Espíritos dão, muitas vezes, ensinamentos ignorados por qualquer dos assistentes, mas, em seguida, reconhecidos como escrupulosamente exatos, o leitor talvez julgue que nada se pode objetar a esse fenômeno. Pois bem! Apareceram incrédulos que tentaram demonstrar que a escrita automática era perfeitamente explicável; porém, esque­ceram-se de citar os casos embaraçosos; passaram por eles em silêncio e triunfaram facilmente, declarando que também podem obter a escrita automática por meio de indivíduos hip­notizados.

Além disso, os nossos críticos abstêm-se de sair desse ter­reno tão estreito, circunscrito à escrita automática; tudo o mais deixa para eles de existir.

Ouçamos o que diz o Sr. Binet:

Quanto às mesas que giram, há muito j á está demonstrado que isso se opera somente sob o impulso das mãos!!!

As mais exatas experiências têm justamente demonstrado o contrário, e, para prova disso, convidamos o Sr. Binet a ler o relatório da Comissão da Sociedade Dialética e das experiências supracitadas. Entretanto, não podemos acusar de má-fé o autor, porque ele está convencido do fato da escrita automática e da sinceridade dos médiuns:

Por muito tempo se acreditou que esses movimentos de­viam simplesmente ser atribuídos ao embuste, e, realmente, há casos em que nada seria mais fácil que uma simulação. Fazendo ligeira pressão sobre uma mesa, o pé desta poderá levantar-se e, assim, um médium escreverá perfeitamente, afirmando que não sabe o que fez. Devemos, porém, abandonar essa grosseira explicação, porque há um número considerável de pessoas dignas de fé que afirmam ter sido os autores do fenômeno, ter posto a mão sobre as mesas que giravam, ter segurado as penas que escreviam, sem que a sua própria vontade para isso in­fluísse.

Retenhamos a sua seguinte declaração:

Eis aí provas bastantes para uma doutrina que, como o Espiritismo, está revolucionando o mundo inteiro e fazendo milhares de crentes. Os que pedem provas materiais de fenômenos que não compreendem correm o risco de ignorar o que todo o mundo sabe e de sustentar opiniões contrárias à verdade mais evidente.

Na opinião do Sr. Binet, qual é, então, a causa dessa escri­ta singular? A desagregação mental. Mas, que é essa desa­gregação? Eis o que ele diz a esse respeito:

O estudo acurado dos fenômenos indica que a escrita automática procede de um pensamento diverso do pensamento consciente do médium. Tem ele, em certos momentos, dois pen­samentos que se ignoram um ao outro e que não se comunicam senão pelos movimentos automáticos da escrita; ou, melhor, há duas personalidades coexistentes, pois o pensamento que dirige a escrita automática não é isolado e sem nexo; ele tem caráter próprio e mesmo um nome, que é o do Espírito cuja presença foi invocada.

Não disputaremos com o Sr. Binet acerca da segunda per­sonalidade coexistente com a primeira, apesar de sua realidade não estar demonstrada nos médiuns. Diremos simplesmente que essa segunda personalidade, se existe, é formada de uma certa parte do fundo psíquico do médium, ou, por outra, que essa segunda personalidade não pode ter conhecimentos diver­sos ou superiores aos do médium; mas, então, como pôde, no caso Wheatcroft, já citado, o marido da Sra N... ver o capitão que acabava de ser morto na Índia, naquela mesma tarde, ferido no peito? Onde foi essa segunda personalidade colher tal co­nhecimento?

Foi também essa segunda personalidade quem descobriu a palavra oculta sob o dedo de William Crookes? Se assim é, como pôde ler essa palavra?

A explicação do Sr. Binet seria aceitável se o médium só citasse fatos por ele conhecidos; ora, é o contrário que diaria­mente acontece; por conseqüência, a hipótese de uma dupla personalidade, agindo independentemente da primeira, podendo existir em certos histéricos, é manifestamente incapaz de ex­plicar os fatos espíritas.

Um outro observador, o Sr. Pierre Janet, professor de filo­sofia e doutor em letras, quis também ocupar-se conosco e tentou estudar o fenômeno experimentalmente, por um mé­todo seu.

Esquecemos de dizer que o Sr. Binet, do mesmo modo que o Sr. Janet, estabeleceu um paralelo entre os médiuns e os histéricos. Segundo eles, não é raro ver-se médiuns caírem em crise durante as sessões, como o fazem os indivíduos histéricos quando submetidos às práticas hipnóticas. Tínhamos curiosi­dade de ver esses senhores apresentarem tais provas, porque, nos quinze anos de nossas experiências, nunca conseguimos verificar esse caso. Talvez que esses observadores chamem crises às incorporações, mas, então, observaremos que estes são fenômenos totalmente diversos, e que os médiuns mecânicos não são ordinariamente médiuns de incorporação ou vice-versa.

Suponhamos, por momentos, que um médium esteja em estado de êxtase; esse médium está geralmente bom de saúde: anda durante todo o dia, trata das suas ocupações; em uma palavra, nada denota nele uma enfermidade qualquer; não será forçar a analogia, além dos limites permitidos, compará-lo a um enfermo sobre o qual no hospital operam os hipnotizadores?

Outra afirmação para causar surpresa é aquela que afirma serem os sonâmbulos geralmente bons médiuns e vice-versa; aqui também faltam as provas. Mas, supondo-se mesmo todos esses pontos bem comprovados, esses cientistas não conseguirão ex­plicar por que um médium escreve sobre assuntos que não co­nhece. (35)


As experiências do Sr. Janet


Este psicologista recorda um estudo do Sr. Camille Chaig­neau, publicado na Revue Spirite (1879), sobre a Sra Hugo d'Alezy. Eis um ligeiro resumo dessa narrativa:

A Sra d'Alezy é médium escrevente mecânica, e por sua pena manifestam-se diferentes personalidades que se fazem co­nhecer com os nomes de Filipe, Gustavo, Eliane, etc. Essas personagens são reconhecidas não só por suas assinaturas, como também por conservarem sempre seus estilos particulares. Apenas a médium adormece magneticamente, as mesmas personalidades manifestam-se, e, então, pode-se conversar com Filipe, Gustavo, Eliane, etc., conservando cada manifestante o seu caráter, seja quando escreve seja quando conversa.

Para nós, aí está uma prova evidente da comunicação dos Espíritos; o Sr. Janet, porém, não vê nisso senão puro fenôme­no de sugestão, complicado com uma lembrança inconsciente ao despertar.

Para justificar a sua teoria, ele recorda que o Sr. Richet descreveu também as mudanças de personalidades ou objetiva­ção dos tipos (36). Disseram a uma mulher adormecida: Sois um general. Imediatamente, ela toma uma atitude marcial, dá ordens, passa em revista, etc.

Disseram-lhe, depois, que ela era um sacerdote. Instanta­neamente seu rosto se transformou; ela tomou uma atitude concentrada e melíflua, falando mansamente, dando bons con­selhos, sorrindo beatamente, etc. Do mesmo modo sucedeu com outras sugestões.

O Sr. Janet crê que as personagens Filipe, Gustavo, Elia­ne, etc. são sugestões e, como em alguns dos seus sensitivos, verificou durante a vigília a persistência do simples sonam­bulismo, pretende então, e isso conduz-nos ao caso do Sr. Binet, que, quando a Sra d'Alezy escreve automaticamente, é simples­mente uma das personalidades produzidas durante o sonambu­lismo que persiste, inconsciente, durante o estado normal, e que se manifesta pela escrita automática. A fim de bem de­monstrar que assim é, o Sr. Janet imagina a seguinte expe­riência:

Enquanto Lúcia se acha no estado sonambúlico, sugiro­-lhe o pensamento de que ela não é mais ela própria, porém, sim, um rapaz de sete anos, chamado José. Sem desfazer a alucinação, desperto-a bruscamente, e ei-la sem se lembrar de coisa alguma, parecendo achar-se em seu estado normal; algum tempo depois, entrego-lhe um lápis e procuro distraí-la falan­do-lhe de outras coisas. Sua mão escreve lenta e penosamente, sem que ela se aperceba disso, e, quando lhe tomei o papel, nele li a seguinte carta: Caro avô, hoje, no dia de Ano-Bom, desejo que gozes de perfeita saúde e te prometo ter muito juízo. Teu neto, José. Não estávamos no dia de Ano-Bom, e não sei por que ela escreveu isso (talvez porque, em seu pensamento, uma carta de um menino de sete anos despertava-lhe a idéia das festas do Ano-Bom) ; não é, porém, manifesto que a alucinação se conservou na segunda personalidade?

Em outro dia, fi-la cair novamente em sonambulismo, com o fim de observar transformações de caráter e de aproveitar-me da sua erudição literária. Transformei-a na Agnès, de Molière, e fiz com que ela representasse o papel da ingênua; pedi-lhe, então, que escrevesse uma carta sobre um assunto por mim indicado; mas, antes que começasse, despertei-a. A carta, foi por ela escrita inconscientemente depois de acordada, manifestando o mesmo caráter e sendo assinada com o nome de Agnès. Ainda um exemplo: Transformei-a, desta vez, em Napoleão, e em seguida, despertei-a: a mão escreveu depois, automatica­mente, uma ordem a um general qualquer para dispor as tropas para uma grande batalha, e assinou com grandes rabiscos Na­poleão. Pergunto ainda que diferença existe entre a história da Sra Hugo d'Alezy e a de Lúcia? Até que me provem o contrário, estou disposto a crer que os dois fenômenos são absolutamente idênticos, e que, por conseqüência, devem ser explicados do mesmo modo pela desagregação da percepção pessoal e pela formação de várias personalidades que ora se sucedem e ora se desenvolvem simultaneamente.

Para responder à interrogação do Sr. Janet, diremos:

A vossa experiência em nada se assemelha à experiência espírita supracitada; eis por quê:

1 - A escrita automática de Lúcia dá-se logo depois do seu despertar, quando se acha ainda sob o império da su­gestão que lhe impusestes, porém, ela, em tal estado, nunca tem espontaneamente a escrita automática de José, Agnès ou Napoleão. O fenômeno é simplesmente devido ao cumpri­mento da vossa vontade, manifestada durante o estado de semi­-sonambulismo que sucede ao do sono. Na Sra Hugo d'Alezy, ao contrário, as comunicações são obtidas com longos inter­valos, sem sugestão de espécie alguma por parte de seres hu­manos e sem prévio sono.

2 - Para que a vossa experiência possa comparar-se a um fenômeno espírita, é preciso que o vosso sensitivo, por si mesmo, sem qualquer intervenção estranha, escreva automatica­mente as comunicações, e que cada uma das personalidades, assim manifestadas, conserve o seu estilo, de modo a distin­guir-se bastante dos outros.

3 - Talvez digais que o fenômeno espírita é devido a uma auto-sugestão. Este caso não é idêntico ao de Lúcia, pois seria preciso mostrar como é que o médium, apesar de con­versar com os assistentes e de gozar de todas as suas faculda­des, está sonambulizado; mas, mesmo nessa hipótese, não se compreende como o fenômeno pode operar-se, porque, se a segunda personalidade conhece a pessoa normal, a recíproca não é verdadeira. Não existe ponto de contacto entre uma e outra. Como se operará então essa auto-sugestão?

4 - Finalmente, a suposição de estar o médium em fase sonambúlica qualquer não explica de modo algum as conver­sações em língua estrangeira ou as comunicações obtidas em um idioma totalmente desconhecido do médium.

E preciso estar-se evidentemente sob o domínio de idéias preconcebidas, para igualar uma escrita automática, feita por uma pessoa histérica sugestionada, a uma comunicação obtida por um médium, pois os espíritas não reconhecem o caráter mediúnico senão nas pessoas que, escrevendo, revelam coisas que lhes são desconhecidas. É o critério por excelência, e tanto é assim que o Sr. Janet não poderá dizer que ele fez o seu sensitivo escrever ou falar em uma língua por este igno­rada; enquanto não nos mostrar que o hipnotismo desenvolve nele faculdades novas, temos o direito de recusar completa­mente as suas experiências, como explicação da mediunidade.

Outro sábio, o Sr. Myers, um dos fundadores da Society for Psychical Research, estudou também a escrita mecâ­nica. Resulta de seus trabalhos, publicados nos Proceedings, sob os títulos: Multiplex personnality e Automatic Writing, que esse gênero de escrita procede de uma ação do hemisfério direito do cérebro. A escrita automática parece, diz ele, uma ação obscura do hemisfério menos utilizado; no caso de Luís V, é a alternância do hemisfério direito e do esquerdo que produz as variações motrizes e sensoriais.

Não nos demoraremos na refutação dessa teoria, porque, do mesmo modo que as outras, não explica todos os fatos; o fato de ser o hemisfério direito ou esquerdo o agente nessa expe­riência nada nos adianta sobre a natureza das personalidades que revelam fatos desconhecidos e que falam línguas estranhas.

Os sábios, que não observaram senão ínfima parte dos fenômenos espíritas, são verdadeiramente extravagantes em suas críticas; afigura-se-lhes que seus colegas não tiveram prova­velmente as mesmas dúvidas, não recorreram a todas as causas possíveis antes de chegarem à crença nos Espíritos. Foi, entretanto, o que se deu, notavelmente com Varley, com Oxon, Hare e o juiz Edmonds. Eis uma citação deste último sobre o assunto:

Uma questão levantava-se ainda. Tudo isso (trata-se dos ditados e fenômenos inteligentes da mesa) não poderá ser o produto de uma operação misteriosa, um simples efeito do re­flexo da inteligência de alguma das pessoas presentes? A res­posta a isso pode ser colhida em grande número de fatos, a princípio desconhecidos, porém que, mais tarde, foram reconhe­cidos como verdadeiros, tais como o seguinte:

Quando, no último inverno, parti para a América Central, os meus amigos da cidade receberam muitas vezes informações espirituais sobre as localidades em que eu me achava, assim como sobre o estado da minha saúde; e, quando voltei, compa­rando-as com as minhas notas de viagem, reconheci que aquelas eram invariavelmente verdadeiras. Do mesmo modo, vi pensamentos expressos sobre assuntos que não me ocupavam então o espírito e completamente diferentes das minhas idéias. Isso sucedeu muitas vezes comigo e com outros, como que para esta­belecer plenamente o fato da não interferência dos nossos pen­samentos nas comunicações.

Desta observação imparcial podemos concluir que certos sábios apenas estudaram superficialmente os fenômenos espí­ritas, e que a prova da existência da alma depois da morte ressalta do exame aprofundado dos fatos. Esta conclusão vai-se acentuando à medida que nos aprofundamos no assunto espí­rita, como vamos verificar.


A mediunidade vidente


Em todas as manifestações até aqui registradas por nós, os Espíritos merecem sempre o qualificativo de invisíveis. Sua ação foi indiretamente constatada, mas não se pôde ainda vê-los. Eis agora fatos provando que, em certos casos, pode-se diretamente verificar a sua existência pelo testemunho dos sentidos.

A Society for Psychical Research reuniu considerável número de documentos a respeito das aparições. Os espíritas possuem também grande porção desses testemunhos, mas, para dar maior valor à nossa demonstração, citaremos alguns fatos colhidos, tanto nos Proceedings da Sociedade acima mencio­nada, como no livro Phantasms of the Living, nos quais a ação dos Espíritos é manifesta.

Os Srs. Myers, Gurney e Podmore, que publicaram esta obra, abrangendo a narração de 700 casos, dão a essas visões o nome de Alucinações Telepáticas ou verídicas. Sem quere­rem saber se essas aparições são reais, objetivas ou internas, subjetivas e produzidas por uma ação espiritual ainda desco­nhecida, operada sem a intervenção dos sentidos, eles estabe­lecem a realidade dos fatos com um rigor verdadeiramente científico. Pela leitura dessas narrativas, fica-se convencido de que esses sábios verificaram tudo quanto era possível para es­tabelecer a autenticidade desses fenômenos.

Citemos um exemplo dessas curiosas manifestações. (37)

O Sr. M. F. G. D. Boston, residente, neste momento, em São Luís, achava-se em seu gabinete de trabalho, quando viu o fantasma de sua única irmã, falecida nove anos antes. Era meio-dia, e, enquanto ele escrevia, ela conservou-se junto de si, com tal aparência de vida que ele acreditou ser realmente sua irmã, e chamou-a por seu nome.

M. F. G. D. Boston pôde examinar-lhe todos os detalhes do vestuário e do porte e notar, particularmente, um traço ou arranhadura, de um vermelho vivo, no lado direito do rosto.

Essa visão impressionou-o tanto que ele tomou o primeiro trem para ir ver seus pais e contar-lhes o que havia visto. Seu pai buscou ridicularizar essa crença no sobrenatural; mas, ao ouvir falar na arranhadura, sua mãe ia quase desmaiando, e disse­-lhe, vertendo lágrimas: Fui eu quem, depois da sua morte, por um descuido, fiz essa arranhadura no rosto da minha que­rida filha, arranhadura essa que eu cuidadosamente ocultei com pó, não comunicando tal fato a pessoa alguma, de modo que ninguém podia sabê-lo.

Pedimos aos contraditores das manifestações dos Espíritos que nos expliquem essa aparição. Temos curiosidade de saber que papel desempenhou o hemisfério direito na formação da segunda personalidade.

Poderíamos ainda citar vários casos; mas os leitores po­derão recorrer à tradução francesa dos Phantasms of the Living, publicada sob o título: Les Hallucinations Télépa­thiques.


A mediunidade auditiva


Vamos agora observar que os Espíritos não se limitam às aparições e a escrever por intermédio dos médiuns; muitas vezes conversam e fazem-se ouvir distintamente. Eis um caso, tirado também dos Phantasms of the Living, onde todos os atestados que o certificam estão expostos profusamente:

Um jovem Vigário de Yorkshire, de dezenove anos de idade, achava-se em Invercaxde, na Nova Zelândia. No navio que para ai o levou, ele encontrara um rapaz, a quem conhecia como marinheiro, e então ajustou para ir com este e alguns outros fazer uma excursão à ilha de Ruapuke, demorando-se nela um ou dois dias a fim de pescar e caçar. Todos deviam seguir às quatro horas da manhã seguinte, de modo a poderem transpor os recifes com o auxílio da maré; e os marinheiros prometeram vir a tempo chamar o Vigário, que se recolheu cedo ao leito, com a firme intenção de fazer a viagem.

Ao subir a escada, o Vigário acreditou ouvir uma voz que lhe dizia: Não partais com esses homens. Ninguém ali se achava; contudo, ele perguntou: Por quê? A voz, que pare­cia vir do interior do quarto, respondeu-lhe com firmeza: Não deveis ir, palavras que ainda lhe foram repeti as depois de uma segunda pergunta: Então, perguntou como poderei esquivar-me, quando me vierem buscar? Distintamente, e ainda com mais força, a voz respondeu: Fecha a porta a chave. Chegando ao seu quarto, descobriu que a porta tinha uma forte fechadura, que não se recordava de haver visto anteriormente; ainda que resolvido a fazer a sua excursão (era seu hábito entregar-se ao acaso), sentiu-se abalado com o pressentimento de um perigo misterioso, e, depois de muitas hesitações, fechou a porta com a chave e foi deitar-se.

No dia seguinte, às três horas, a porta foi violentamente abalada a pontapés; apesar de estar acordado, ele não disse palavra, e, afinal, sentiu que os marinheiros retiraram-se en­raivecidos e praguejando. As nove horas da manhã, levantan­do-se para almoçar, o hoteleiro perguntou ao Vigário se sabia o que acabava de suceder; contou-lhe que o barco que partira para Ruapuke tinha soçobrado de encontro aos recifes, afo­gando-se todos os passageiros; alguns dos cadáveres foram lançados à praia no mesmo dia e os outros, nos dois dias mais tarde. O narrador termina assim: Se eu tivesse ido com eles, desprezando o aviso que recebera, sem dúvida alguma teria perecido com os meus companheiros de caça e pesca.

Não se acredite que isso seja um exemplo isolado: pode­ríamos citar muitos outros igualmente notáveis, mas os estrei­tos limites desta obra forçam-nos a dizer aos leitores que recor­ram ao Phantasms of the Living, ao Proceedings da Society for Psychicai Research e às obras espíritas, que os apresen­tam em grande número. (38)


A escrita direta ou psicografia


Se os espíritas tivessem o poder de inventar demonstrações para uso dos incrédulos, naturalmente não teriam imaginado provas tão concludentes como as que os próprios Espíritos for­neceram. Vejamos, com efeito, como se responde imediatamente à crítica por fatos que derrocam as teorias laboriosamente arqui­tetadas pelos sábios.

Aos movimentos nascentes e inconscientes a mesa opõe a levitação sem contacto. A teoria da transmissão do pensamento fica aniquilada pela revelação de fatos a princípio desconhe­cidos de todos os assistentes, porém cuja realidade se verifica em seguida. A segunda personalidade dos histéricos contra­põem-se fenômenos em língua estrangeira. Entretanto, vamos observar uma variante da escrita automática, mas desta vez feita diretamente pelos Espíritos. Essa ausência de intervenção humana atira para muito longe, ao campo das hipóteses impro­váveis, as teorias do hemisfério direito e da multiplex personna­lity do Sr. Myers, assim como as das personalidades histéricas elaboradas pelos doutos Srs. Janet e Binet.

Já o dissemos, o Barão de Guldenstubbé foi o primeiro que obteve, na França, a escrita direta. Eis como ele relata o fato (39) :

Em um belo dia (1 de agosto de 1856), veio-lhe o pen­samento de experimentar se os Espíritos podiam escrever dire­tamente, sem o auxílio de um médium. Conhecendo a escrita direta misteriosa do Decálogo, segundo Moisés, a escrita igual­mente direta e misteriosa na sala do festim do Rei Baltasar, segundo Daniel, e tendo também ouvido falar dos mistérios modernos de Straford, na América, onde se acharam certos caracteres ilegíveis e estranhos traçados num pedaço de papel e que não pareciam provir dos médiuns; o autor quis certifi­car-se da realidade de um fenômeno cujo alcance seria imenso, se fosse verdadeiro.

Colocou, portanto, uma folha de papel em branco e um lápis aparado dentro de uma caixinha fechada a chave, guardando sempre essa chave consigo e a ninguém dando parte da sua experiência. Durante doze dias esperou inutilmente, sem obser­var o menor traço de lápis no papel; mas, a 13 de agosto de 1856, o seu espanto foi grande quando notou certos caracteres mis­teriosos no papel; apenas sucedeu tal fato, ele repetiu por dez vezes a experiência no mesmo dia, para sempre memorável, colocando, no fim de cada meia hora, uma nova folha de papel em branco na caixinha. A experiência foi ,coroada de êxito completo.

No dia imediato, 14 de agosto, fez de novo umas vinte expe­riências, deixando a caixinha aberta e não a perdendo de vista; viu, então, que caracteres e palavras na língua estônia forma­vam-se ou eram gravados no papel, sem que o lápis se mo­vesse. Desde então, vendo a inutilidade do lápis, cessou de pô-lo sobre o papel; e, colocando simplesmente uma folha de papel dentro de uma gaveta, em sua casa, obteve também comunica­ções (40)

O Barão de Guldenstubbé repetiu a experiência em presen­ça do Conde d'Ourches, e este obteve uma comunicação de sua mãe, cuja assinatura e letra foram reconhecidas como autên­ticas, quando comparadas com as dos autógrafos que o Conde possuía.

Esses primeiros ensaios foram seguidos de muitos outros, e o autor adquiriu a certeza de não ser ele quem escrevia em estado sonambúlico, como julgou a princípio.


Wallace


Na Inglaterra, Wallace constatou a escrita direta, em casa da Sra Marshall, médium (41)

Tendo sido a mesa previamente examinada, uma folha de papel de carta foi, em segredo, marcada por mim e colocada com um lápis de chumbo sob o pé central do móvel, conservando todos os assistentes as suas mãos sobre a mesa. Passados alguns minutos, ouviram-se alguns ruídos e, retirado o papel, achei nele traçada, com leves caracteres, a palavra William. Em outra ocasião, um amigo provinciano, totalmente estranho ao médium e cujo nome não tinha sido mencionado, acompanhava-me; quando se recebeu o que foi dado como uma comunicação de seu filho, um papel foi colocado embaixo da mesa e, depois de poucos minutos, nele achamos escrito Charley T. Dood, exata­mente o seu nome. Em tal caso, é certo que não havia maqui­nismo algum sob o móvel, e só nos resta perguntar se era possível que a Sra Marshall tirasse as suas botinas, segurasse o papel e o lápis com os dedos do pé, escrevesse um nome que lhe era preciso adivinhar e recalçasse as botinas, sem afastar as mãos de cima da mesa e sem dar indício do trabalho que executava, operando desse modo.


Oxon


O Sr. Oxon estudou por muito tempo essas manifestações. Leiamos o seu testemunho:

Há cinco anos que estou familiarizado com o fenômeno da psicografia. Observei-o em grande número de casos, seja com psiquistas conhecidos do público seja com senhoras ou cavalheiros que possuíam o dom de produzi-lo.

No curso das minhas observações, vi psicografias obtidas dentro de caixas fechadas - escrita direta -, num papel escrupulosamente marcado e colocado embaixo da mesa, na sombra, num papel seguro debaixo do meu cotovelo ou coberto pela minha mão, num papel encerrado em um invólucro lacra­do e sobre lousas presas umas às outras.

O eminente professor da Faculdade de Oxford confirma a observação do Barão de Guldenstubbé, no que se refere ao em­prego do lápis, que não é sempre utilizado pelos Espíritos.

Achava-me na casa de um amigo íntimo, com mais três pessoas. O papel, cuidadosamente marcado com as minhas ini­ciais, foi posto no chão com um lápis preto comum. Um de nós, sentindo o lápis junto de seus sapatos, assentou o pé sobre ele e assim o conservou preso até ao fim da sessão Entretanto, a escrita apareceu no papel, e procuramos como isso se fizera, certos de que o lápis não fora utilizado. O papel continha os sinais e não havia sido afastado do lugar. Repetimos a ex­periência na mesma semana, e secretamente concebi um meio de esclarecer a coisa. Levei um lápis verde brilhante e, sem que os outros o vissem, coloquei-o em substituição ao lápis preto, conservando meu pé sobre ele durante todo o tempo. Quando examinamos o papel, vimos que a escrita, composta de ligei­ras garatujas, era de uma cor verde. O lápis tinha, pois, sido utilizado de um modo para mim desconhecido. Creio que esse caso é freqüente e que as escritas são produzidas por alguma outra substância que não seja a do lápis.


Zollner


Eis duas observações de Zollner sobre o mesmo assunto:

Na tarde seguinte (sexta-feira, 16 de novembro de 1877), co­loquei uma mesa de jogo e quatro cadeiras em uma sala onde Slade ainda não havia entrado. Depois que Fechner, o professor

Braune, Slade (o médium) e eu colocamos nossas mãos entre­laçadas sobre a mesa, ouviram-se pancadas no móvel. Eu tinha comprado uma lousa, que marcamos: um fragmento de lápis foi sobre ela colocado, e Slade pôs a lousa parcialmente sob a beira da mesa; minha faca foi subitamente projetada à altura de um pé, e depois caiu sobre a mesa... Repetindo-se a expe­riência, verificamos que o fragmento de lápis, cuja posição havia sido assinalada, estava no mesmo lugar. A lousa dupla, depois de bem limpa e munida internamente de um pedaço de lápis, foi, então, por Slade sustentada sobre a cabeça do profes­sor Braune. Ouviu-se o ruído do lápis e, quando se abriu a lousa, nela foram encontradas diversas linhas de escrita.

Vimos que, em casa de Zollner, um forte biombo de ma­deira foi despedaçado pelos Espíritos. O ilustre astrônomo per­guntou a Slade o que isso significava: Slade respondeu que esse fenômeno às vezes se dava em sua presença. Enquanto este falava, conservando-se de pé, colocou um pedaço de lápis na superfície polida da mesa; cobriu-o com uma lousa e, quando Slade a virou, aí se puderam ler as seguintes palavras em inglês: Não era nossa intenção causar-vos prejuízo; perdoai-nos o que sucedeu. A produção da escrita, nessas condições, fez-se enquanto as duas mãos de Slade estavam imóveis.


O Dr. Gibier


O estudo da escrita direta foi recomeçado na França por um sábio, o Dr. Gibier (42), e aí encontramos o mesmo médium Slade servindo de intermediário dos Espíritos. Eis o testemunho do Dr. Gibier:

Vimos, por mais de cem vezes, caracteres, desenhos, linhas e mesmo frases inteiras produzirem-se, por meio de leve con­tacto de mãos, em lousas que Slade segurava, e mesmo entre duas lousas com as quais ele não tinha contacto algum, e que tínhamos comprado em uma papelaria de Paris e marcado com a nossa assinatura.

Em todas as nossas experiências de escrita, examinamos atentamente as lousas antes da operação e, na maioria dos casos, estas eram de nossa propriedade. Quando a escrita se produzia numa única lousa, era, geralmente, sob a superfície da mesa, junto à qual nos achávamos; não perdíamos de vista nem a lousa nem os dedos de Slade, e nós mesmos éramos, muitas vezes, que sobre ela colocávamos o lápis; nunca, po­rém, conseguimos ver este mover-se. Víamos a lousa ondular ligeiramente, como que sob a pressão do escrevente invisível, mas, desde que olhávamos para o espaço que a separava da parte inferior da mesa, o lápis caía sobre a lousa, e o ruído da escrita cessava; logo, porém, que a lousa era aplicada contra a mesa, ouvíamos de novo o ranger do lápis traçando a es­crita.

Citemos um dos fatos observados por esse doutor:

Esta experiência efetuou-se em minha casa,na sala de jan­tar, onde Slade entrava pela primeira vez, a 1 de maio de 1886, às vinte e uma horas. Achavam-se ao todo presentes cinco pessoas, sendo duas da minha família, um amigo, Slade e eu...

Tomando uma das minhas lousas, bem limpa de um e outro lado, perguntei a Slade se ele poderia obter uma palavra que eu escrevesse sem conhecimento seu. A vista da sua resposta afirmativa, escrevi na minha lousa, evitando completamente a vista de Slade, e este, sem olhar para ela, colocou-a sob o beiral da mesa, de modo a deixar que, em parte, ela fosse visível, vendo nós, portanto, toda a mão direita de Slade, enquanto a esquerda estava juntamente com as nossas sobre a mesa. Dez segundos não se tinham ainda passado, e a lousa me foi restituída com estas palavras: Louis is not here (Luís não está aqui). No lado oposto eu tinha escrito a palavra Luís.


Na América


O que o Dr. Gibier não viu, isto é, o lápis escrever por si só, o professor Elliott Coues verificou com grande admiração (43)

Há pouco tempo ainda, disse ele, ser-me-ia difícil acre­ditar que eu pudesse ser o autor de tal história. Entretanto, eu não poderia ser infiel às minhas convicções sem destruir a minha integridade intelectual, e não posso calar-me diante de tais fatos, sem dar motivo a que me acusem de covardia moral.

Esse professor conta que, achando-se na cidade de São Francisco, em outubro de 1891, foi, em companhia de sua mu­lher, na sexta-feira, 6 de outubro, à casa de um médium, a Sra Mena Francis.

Logo que ela despachou um visitante que nos tinha prece­dido, fez-nos entrar em um quarto dos fundos, exposto à clari­dade, onde o sol entrava abundantemente por uma única janela, junto à qual nos assentamos. A Sra Francis tomou uma cadeira baixa e confortável; minha mulher assentou-se em frente dela, e eu perto, entre as duas damas, à direita da médium; diante de nós achava-se uma pequena mesa de jogo com uma coberta ordinária, de pano. Sobre essa mesa, estavam duas lousas del­gadas, sem moldura, com 4 polegadas de comprimento e 6 de largura, um copo com água e uma esponja para limpar a lousa. A Sra Francis convidou-nos a examinar a vontade a mesa e seus acessórios. Nós o fizemos, e vimos que as coisas achavam-se como acabo de dizer. Tomou uma das lousas, pôs sobre ela um pedaço de lápis, de cerca de um terço de polegada de compri­mento, e fê-la docemente passar para baixo da mesa, fora da nossa vista, agarrando-a por um canto com a mão, como o faria qualquer pessoa que segurasse uma lousa ou outro objeto semelhante. A outra mão da médium achava-se sobre a mesa. Balançou-se um pouco na sua cadeira, enquanto os nossos olhos nela se fixavam, e perguntou com voz calma: - Os queridos Espíritos quererão escrever?

Estas palavras impressionaram desagradavelmente a mi­nha consciência científica, porque, se havia coisa em que eu não acreditasse era realmente nos Espíritos. Entretanto, não dei isso a perceber, e bem depressa ouvimos um ruído debaixo da mesa, semelhante ao de um lápis que escrevia.

Era, com efeito, o que se estava passando; e podem julgar do meu assombro, quando a Sra Francis, como o ruído conti­nuasse, retirou lentamente a lousa de debaixo da mesa, e, então, ali, a descoberto, em plena vista, pude ver distintamente o lápis escrever por si só e acabar a última ou as duas últimas pala­vras de uma comunicação em muitas linhas, cobrindo quase toda a lousa. Minha mulher não viu isso, exatamente porque a mesa lhe interceptava a vista. E porém verdadeira a descri­ção que faço. Para abreviar a minha narrativa, direi que o mesmo fato repetiu-se, pelo menos durante uma hora. Muitas vezes, as frases foram escritas por esse meio, e tanto eu quanto minha mulher observamos que algumas eram produzidas sem ninguém tocar no lápis. Muitas vezes, a Sra Francis fez variar a experiência, conservando a lousa erguida no ar, acima da mesa, coberta por um lenço ou por um livro aberto, a fim de abrigá-la dos raios do sol, porém a estrige o ruído produ­ziam-se do mesmo modo.

Posso garantir que as palavras não eram escritas ao acaso, pois formavam respostas claras e inteligentes às diversas per­guntas que se formularam, constituindo, de certo modo, uma conversação ininterrupta e racional. Essas respostas referiam­-se também, em parte, a pessoas, lugares e coisas acerca das quais, francamente falando, a Sra Francis achava-se numa ignorância completa. Além disso, essas respostas eram dadas como séries de comunicações vindas de Espíritos de pessoas vivas ou mortas; elas vinham realmente, e a Sra Francis assim o acreditava. Entre essas personagens, a Sr. Coues e eu veri­ficamos que algumas eram nossas conhecidas, quando vivas, etc.

Como se vê, os fatos verificam-se uns pelos outros; suce­dem-se por toda parte e, apesar das observações mais minu­ciosas, não podem ser explorados nem pelo embuste nem pela trapaça.


Observações


Até hoje, e veremos que sempre assim foi, as inteligências que se manifestam dizem ser as almas daqueles que viveram na Terra. Seja por meio da mesa, seja pela escrita, pela incor­poração ou pela psicografia a inteligência que se manifesta diz, invariavelmente, que foi um habitante do nosso mundo. Por que, pois, certos homens se obstinam em contestar essa afirmação?

Supondo-se que os espíritas estejam em erro atribuindo essas manifestações aos Espíritos, não será digno de nota que esse fenômeno se realize na América, na Inglaterra, na Ale­manha, na França ou na Itália, que se apresente por toda parte como tendo a mesma causa, quaisquer que sejam os médiuns e os evocadores?

Donde procederá essa unanimidade, se os Espíritos não exis­tem? Geralmente, admite-se que efeitos semelhantes tenham causas semelhantes; por conseqüência, julgamos estar com a verdade atribuindo os fenômenos àqueles que se dizem seus autores, e isso é melhor que formularmos hipóteses, apoiando-nos sobre fatos não demonstrados e que nem mesmo têm o mérito de explicar todos os casos.

Vimos o Conde d'Ourches obter, pela escrita direta, uma comunicação de sua mãe; o talhe era semelhante aos autógra­fos deixados pela Condessa. Que objeção apresentarão a esse fato? Que dirão, para darem uma explicação plausível, quando virem a escrita produzir-se sem o concurso do lápis? Sempre, e por toda parte, a inteligência manifesta-se com caracte­res que não podem ser postos em dúvida! Quantos investigado­res cuja consciência científica, de início desagradavelmente impressionada por um apelo feito aos Espíritos, são depois aba­lados e transformados quando esses Espíritos lhes dão testemu­nhos da sua presença! Prossigamos, pois, na nossa exposição, tratando de fenômenos ainda mais ostensivos, mais evidentes e tão afirmados e verificados como os precedentes, pois estamos certos de que, se a crença nos Espíritos não se produzir com esses fatos, nunca será possível estabelecer-se à convicção com o testemunho de outrem.


CAPITULO IV

O ESPIRITISMO TRANSCENDENTAL


O Espiritismo transcendental. - Ação dos Espíritos. - Desagregação da matéria. - Experiências de Crookes e de Zollner. - O fenô­meno de transportes. - Aparições luminosas na obscuridade. - Aparições de mãos luminosas por si mesmas, ou visíveis à luz ordinária. - Formas e figuras de fantasmas. - As materializa­ções. - Experiências de Crookes com Katie King. - Formação lenta de uma materialização. - A fotografia espirita. - Fotogra­fias de Espíritos reconhecidos por parentes. - Mediunidade vidente e fotografias de Espíritos. - As experiências de Aksakof. - Fotografias transcendentais em pleno dia. - Fotografia do médium e de uma forma materializada à luz do magnésio. - Observações do Sr. Aksakof. - Impressões e moldagens de formas materializadas. - Experiências em Nápoles, na América e na In­glaterra. - O Espiritismo e a Psiquiatria. - Experiências de Lombroso em Nápoles. - A explicação do célebre professor. - Refutação. - Resumo.


Vamos assistir agora a experiências que estabelecem posi­tivamente a existência real e objetiva dos Espíritos, demons­trando que, em certas circunstâncias, pode-se constatar a sua presença com tanto rigor e pelos mesmos processos que vulgar­mente são empregados quando se trata de uma pessoa viva. Podemos vê-los, tocá-los, fotografá-los, ouvi-los falar; em uma palavra, nos certificarmos por todos os meios possíveis de que, temporariamente, eles são tão vivos como os observadores. Esses fenômenos são chamados materializações.

Ainda que as narrações dessas experiências percam alguma coisa do seu caráter, por serem muito surpreendentes, é ne­cessário que demonstremos até onde vai a ação dos Espíritos sobre a matéria, a fim de fazermos saber que, em certas casos, eles têm o poder de agregá-la e desagregá-la por processos que ainda nos são desconhecidos e com uma rapidez quase elétrica.


Desagregação da matéria


Apresentemos os fatos. Eles são mais eloqüentes e persua­sivos que a nossa humilde demonstração. Eis a narrativa de uma sessão em casa cio Sr. Crookes:

A Srta. Fox havia prometido dar uma sessão em minha casa. Enquanto eu a esperava, uma das minhas parentas e meus dois filhos mais velhos, um de catorze, e outro de onze anos de idade, achavam-se na sala de jantar, onde se efetua­ram sempre as sessões, ao passo que eu escrevia na minha biblioteca. Ouvindo soar a campainha, abri a porta à Srta. Fox e conduzi-a logo à sala de jantar, porque ela me disse que, não podendo demorar-se muito, não subiria. Depôs sobre uma cadeira seu chapéu e seu xale. Dirigi-me, então, a meus filhos e disse-lhes que fossem para a biblioteca estudar as suas lições; fechei sobre eles a porta a chave e, segundo o meu costume durante as sessões, pus a chave em meu bolso.

Assentamo-nos, ficando a Srta. Fox à minha direita e a minha parenta à esquerda. Bem depressa, recebemos uma men­sagem alfabética pedindo-nos que apagássemos o gás; isso feito, ficamos em completa obscuridade, durante a qual segurei com a minha mão as da Srta. Fox. Logo após, uma comunicação foi-nos dada, nos seguintes termos: Vamos produzir uma mani­festação que vos provará o nosso poder. Imediatamente de­pois, ouvimos o tinir de uma campainha, não estacionária, porém que ia e vinha por todos os pontos da sala, ora junto à parede, ou num canto afastado, ora me tocando na cabeça e, depois, batendo no chão. Depois de assim se fazer ouvir, pelo menos durante cinco minutos, a campainha caiu sobre a mesa, perto das minhas mãos.

Durante todo esse tempo nenhum de nós se moveu e as mãos da Srta. Fox conservaram-se perfeitamente tranqüilas. Eu julgava que a campainha, que então tocara, não podia ser a minha, visto eu tê-la deixado na biblioteca.

Pouco tempo antes da chegada da Srta. Fox, eu tinha pre­cisado de um livro que se achava colocado num aparador, na biblioteca, e, encontrando a campainha sobre o livro, pu-la de lado; esse incidente assegurou-me que ela estava na biblioteca.

O gás iluminava bastante o corredor para o qual dava a porta da sala de jantar, de modo que não se podia abrir essa porta sem que a luz penetrasse na sala em que nos achá­vamos.

Demais, para abri-Ia, só existia uma chave, e essa, eu a conservara em meu bolso.

Acendi uma vela. Não podia haver dúvida de que diante de mim, na mesa, estava uma campainha. Fui logo à biblioteca, e vi que a minha campainha não estava onde eu a deixara. Perguntei a meu filho mais velho: - Sabes onde está a minha campainha? - Sim, papai, ei-la; e apo ou para o lugar onde eu a pusera. Pronunciando essas p ras, ergueu os olhos e continuou: - Não; não está mais ai, porem ainda há pouco es­tava. - Como é isso? Alguém veio buscá-la? - Não, disse ele, ninguém entrou aqui; e sei que ela aí se achava, porque, quan­do nos fizeste vir para cá, J. (o menor dos meus dois filhos) começou a tocá-la com tanta força que não pude estudar as minhas lições, e por isso lhe disse que parasse. J. confirmou o fato, e acrescentou que havia posto a campainha no lugar onde a achara.

Vemos, pois, que os Espíritos precisaram fazer passar essa campainha através da parede, a fim de levá-la da biblio­teca para a sala de jantar. O fenômeno não pode ser compreen­dido senão pela suposição de poder a matéria passar através da matéria, o que não é impossível, quando vemos a água, sob uma pressão, violenta, filtrar-se pelos poros de uma esfera de ouro, ou o hidrogênio passar pelas paredes de um tubo de ferro su­jeito a temperatura elevadíssima, e, mais usualmente, o petróleo atravessar a porcelana. O que é estranho, no nosso caso, é a desagregação e a reconstituição da campainha, sem que esta se avariasse. Eis uma outra narrativa do mesmo ilustre químico, que, de alguma sorte, põe em evidência o fato da desagregação.

O segundo caso que vou narrar realizou-se em plena luz, num domingo à tarde, em presença do Sr. Home e de alguns membros da minha família. Minha mulher e eu tínhamos pas­sado o dia no campo e daí trazido algumas flores. Chegados a casa, entregamo-las a uma criada para que as pusesse dentro dágua. O Sr. Home chegou pouco depois, e todos reunimo-nos na sala de jantar. Quando estávamos assentados, a criada trouxe as flores que havia acomodado num vaso, coloquei-o no centro da mesa, cuja coberta havia sido retirada. Era a pri­meira vez que o Sr. Home via essas flores.

Depois de termos obtido muitas manifestações, a conver­sação veio a cair sobre certos fatos que só podiam ser explica­dos admitindo-se a passagem real da matéria através de uma substância sólida. A este respeito, veio alfabeticamente a se­guinte comunicação: É impossível a matéria passar através da matéria, mas vamos mostrar-vos o que podemos fazer.

Esperamos em silêncio. Bem depressa descobrimos uma aparição luminosa pairando sobre o ramalhete de flores; depois, à vista de todos, uma haste de erva da China, de 15 polegadas de comprimento, que adornava o centro do ramalhete, elevou-se lentamente do meio das outras flores e, depois, desceu até à mesa, pela frente do vaso, entre este e o Sr. Home. Chegando à mesa, a haste não se deteve aí, passando-lhe através, como foi observado por todos.

Depois da desaparição da erva, minha mulher, que estava assentada ao lado do Sr. Home, viu, entre ela e o médium, uma mão vinda debaixo da mesa e empunhando a planta, com a qual lhe bateu no ombro, por duas ou três vezes, fazendo um ruído que todos ouviram, e, em seguida, depois de largá-la no chão, desapareceu. Só duas pessoas viram essa mão, mas todos os assistentes observaram o movimento da planta. Enquanto isso sucedia, todos puderam ver as mãos do Sr. Home tranqüila­mente pousadas na mesa. O lugar onde a planta desapareceu, estava a dezoito polegadas de suas mãos. A mesa era de dobra­diça, deixando entre as duas partes uma estreita fenda. Foi através dessa fenda que a planta passou. Tirei a medida, e vi que ela tinha apenas a largura de um oitavo de polegada. A planta possuía um diâmetro muito maior e não podia passar através dessa fenda sem se quebrar, e, no entanto, todos a viram por aí se introduzir sem dificuldade e docemente. Exami­nando-a, depois, não encontramos nela o menor sinal de com­pressão.

A afirmativa desse Espírito, sobre a desagregação da ma­téria, não nos parece absolutamente exata, pois as experiências de Zollner provam que, em realidade, opera-se a desagregação.


As experiências de Zollner (44)


Uma experiência verdadeiramente concludente foi a deste notável homem de ciência. Em uma corda lisa, cujas extremi­dades estavam fixas, lacradas e marcadas sobre a mesa, com o sinete do Sr. Zollner, formaram-se alguns nós, minutos depois da imposição das mãos de Slade, conservando-se intactos os selos.

Em seguida, duas tiras de couro, juntas somente pelas ex­tremidades, e, igualmente, lacradas, também se achavam liga­das uma à outra quando o Sr. Zollner daí retirou as mãos.

Eu tinha as mãos pousadas nas tiras de couro, diz o Sr. Zollner; Slade, que se achava à minha esquerda, colocou sua mão direita sobre as minhas. Findos alguns minutos, senti um movimento das tiras sob as minhas mãos. Três pancadas fizeram-se ouvir na mesa e, quando retirei as minhas mãos, as duas tiras de couro estavam amarradas uma à outra.

O sábio alemão fez variar a experiência: tomou dois anéis de madeira, torneados, feitos cada um de uma só peça, com um diâmetro de 74 milímetros, prendeu-os nas extremidades de uma corda de violão, fixou o centro desta na mesa, com lacre marcado com o seu sinete, e deixou-as pender aos lados da mesa. Seu desejo era ver se os anéis se entrelaçavam. Em seguida, assentou-se com Slade, colocando suas duas mãos sobre a corda selada. Perto deles estava uma mesa pequena, de uma só perna, terminada por três pés.

Depois de alguns minutos de espera, escreve ele, ouvimos, na pequena mesa redonda colocada diante de nós, um ruído semelhante ao que produziriam duas peças de madeira batendo uma contra a outra. Levantamo-nos para nos certificarmos do que era, e, com grande assombro, achamos os dois anéis de madeira, que cerca de seis minutos antes estavam presos à corda de violão, enfiados na perna da mesa e em perfeito estado. Assim, acrescenta o Sr. Zollner, a experiência que eu projetava não deu o resultado previsto; os anéis não se entrelaçaram, mas, em vez disso, foram transportados da corda de violão para a perna da mesa.


Experiências de Wallace. Os transportes


Vimos a campainha do Sr. Crookes ser transportada de uma sala para a outra. Se essa campainha não lhe pertencesse, se ela tivesse vindo de uma casa vizinha, teríamos aí o que chamamos um fenômeno de transporte. Eis um fato garantido pelo Sr. Wallace (45)

O que há de mais notável na mediunidade da Srta. Nicholl (hoje Sra Guppy) é o transporte de flores e frutos para um quarto fechado. A primeira vez que esse fato se deu foi em minha casa, na época em que suas faculdades estavam ainda pouco desenvolvidas. Todos os assistentes eram meus amigos íntimos. A médium tinha vindo para a ceia; estávamos em pleno inverno, e, antes que as flores aparecessem, ela tinha ficado conosco durante quatro horas em um quarto muito quente e iluminado a gás. O certo é que, sobre uma mesa nua, em pe­queno compartimento, fechado e escuro (a sala vizinha e o corredor estavam bem iluminados), apareceu uma quantidade de flores que não se achavam aí quando apagamos o gás, alguns minutos antes. Eram anêmonas, tulipas, crisântemos, primave­ras da China e muitas espécies de fetos. Todas pareciam ter sido colhidas de fresco e estavam cobertas de fino orvalho. Nenhuma pétala estava quebrada ou machucada, nenhuma das mais delicadas pontas dos fetos se achava afetada.

Sequei e conservei tudo, juntamente com o atestado que obtive dos assistentes, garantindo não haverem eles, de modo algum, contribuído, tanto quanto podiam sabê-lo, para o apa­recimento das flores. Acreditei, então, e ainda acredito, que era absolutamente impossível à Srta. Nicholl conservá-las ocultas por tanto tempo, tão perfeitas e, mais que tudo, tê-las coberto inteiramente de tão bela camada de orvalho, igual à que se produz no exterior de um copo, quando, em um dia quente, ele está cheio de água gelada.

A competência particular de Alfred Wallace torna essa observação uma das mais preciosas, porque é difícil que uma jovem senhora, nas condições indicadas, tenha podido iludir o sagaz e ilustre naturalista. Prossigamos: Fenômenos seme­lhantes operaram-se centenas de vezes, em muitas casas, e em condições variadas. Quase sempre as flores amontoavam-se em quantidade sobre as mesas; em outras ocasiões, foram trazidos os frutos e as flores especiais que haviam sido pedidos. Um amigo meu solicitou uma vez um girassol, e uma dessas flores, alta, de 6 pés, caiu sobre a mesa, com as raízes envoltas em sólida massa de terra. Uma das provas mais importantes rea­lizou-se em Florença, na presença do Sr. F. Adolphus Trollope, da Srta. Blagden e do Coronel Harvey.

A sala foi examinada pelos cavalheiros, a Sra Guppy foi despida e de novo vestida pela Sra Trollope, que examinou cada uma das peças do seu vestuário, e, em seguida, o Sr. e a Sra Gup­py foram solidamente amarrados em torno da mesa.

Depois de dez minutos, todos declararam que sentiam o aroma de flores, e, quando se acendeu uma vela, viu-se que os braços da Sra Guppy e do Sr. Trollope estavam cobertos dos junquilhos que inundavam a sala com o seu perfume. Os Srs. Guppy e Trollope narram esse fato em termos substancial­mente idênticos. Relatório da Sociedade Dialética de Londres, sobre o Espiritualismo.


Aparições luminosas


Estando confirmado o princípio de poderem os Espíritos manipular a matéria viva sem destruí-Ia, mostremos o que eles podem fazer sobre si mesmos.

Voltemos ao Sr. Crookes, que assim resume as suas obser­vações:

Essas manifestações, por serem algo fracas, exigem, geral­mente, que a sala não esteja iluminada. Pouca necessidade tenho de lembrar aos meus leitores que, em tais condições, adotei todas as precauções convenientes para evitar que me iludissem, pois empreguei o óleo fosforado e outros meios. Ainda mais, muitas dessas aparições luminosas eram de tal natureza que não consegui imitá-las por meios artificiais.

Ainda temos um testemunho importante vindo desse notá­vel físico, a quem devemos a descoberta da matéria radiante, pois que ele se entregou a longas e rigorosas experiências sobre todos os gêneros de luzes devidas aos eflúvios elétricos e à fosforescência:

Nas condições próprias para o mais rigoroso exame, vi um corpo sólido, luminoso por si mesmo, e mais ou menos da gran­deza e da forma de um ovo de perua, flutuar silenciosamente pela sala, elevar-se mais alto do que teria podido fazê-lo qual­quer dos assistentes colocando-se nas pontas dos pés, e, depois, descer lentamente até o chão. Esse objeto conservou-se visível por mais de dez minutos e, antes de desaparecer, deu três pan­cadas na mesa, com um ruído semelhante ao que produziria um corpo sólido e duro.

Durante esse tempo, o médium esteve assentado em uma espreguiçadeira e parecia totalmente insensível.

Vi pontos luminosos saírem de lugares diferentes e pousa­rem sobre a cabeça de diversas pessoas; obtive, a pedido meu, relâmpagos de luz brilhante, produzidos diante do meu rosto e no número de vezes por mim fixado. Vi faíscas saltarem da mesa até ao teto, e depois caírem na mesa com um ruído muito distinto. Mantive uma conversação alfabética por meio de relâm­pagos luminosos, produzidos no ar diante de mim, e por entre os quais eu passava a minha mão. Vi uma nuvem luminosa flutuar sobre um quadro. Sempre nas condições apropriadas ao mais rigoroso exame, aconteceu, por mais de uma vez, que um corpo sólido, fosforescente, cristalino fosse colocado em minha mão por outra mão que não pertencia a nenhum dos assistentes. Em plena luz, vi uma nuvem luminosa pairar sobre uma he­liotrópia colocada em uma mesa ao nosso lado, quebrar-lhe um raminho e oferecê-lo a uma dama; e, em outras ocasiões, vi uma nuvem semelhante condensar-se sob as nossas vistas, to­mando a forma de mão, e transportar pequenos objetos. Isso, porém, pertence à classe dos fenômenos seguintes:


Aparições de mãos luminosas por si mesmas, ou visíveis à luz ordinária


Muitas vezes sentimos o contacto de mãos durante as sessões em escuridão ou em condições de não se poder vê-las. Raramente tenho visto essas mãos. Não darei exemplos dos ca­sos em que o fenômeno se produziu na obscuridade, mas esco­lherei simplesmente alguns dos casos numerosos em que essas mãos foram vistas em plena luz.

Uma pequena mão, de forma muito bela, elevou-se de uma mesa da sala de jantar e deu-me uma flor; apareceu e desa­pareceu por três vezes, dando-me toda a facilidade de con­vencer-me de que ela era tão real quanto a minha própria mão. Isso se passou em plena luz, na minha própria sala, quando os pés e as mãos do médium estavam seguros por mim.

Em outra ocasião, mão e braço pequenos, semelhantes aos de uma criança, apareceram movendo-se sobre uma dama que estava sentada perto de mim. Depois, dirigindo-se para mim, bateram-me no ombro e, por muitas vezes, puxaram-me pela sobrecasaca.

Um dedo e um polegar foram vistos arrancando as péta­las de uma flor que se achava no peito do Sr. Home, e deposi­tando-as diante das muitas pessoas ali presentes.

Muitas vezes, eu e outras pessoas vimos certa mão calcando as teclas de um harmonium, ao mesmo tempo que observáva­mos estarem as duas mãos do médium seguras por aqueles que se achavam perto.

As mãos e os dedos da aparição nem sempre me pareceram sólidos e vivos. Algumas vezes, convém dizê-lo, guardavam, antes, a aparência de uma nuvem, condensada parcialmente sob a forma de mão. Nem todos os presentes viam isso igualmen­te bem (46). Por exemplo, move-se uma flor ou algum outro pequeno objeto: um dos assistentes verá um vapor luminoso pairar acima, outro descobrirá a mão de aparência nebulosa, ao passo que outros não notarão mais que o movimento do objeto. Vi, por mais de uma vez, um objeto mover-se, depois, uma nuvem luminosa envolvê-lo, e, finalmente, a nuvem con­densar-se, tomar uma forma e transformar-se em mão per­feita. Nesse momento, todas as pessoas presentes podiam vê-la. Essa mão nem sempre é uma simples forma, pois, às vezes, parece perfeitamente animada e muito graciosa; os dedos mo­vem-se e a carne parece ser tão humana quanto a das pessoas presentes. No punho ou no braço, torna-se vaporosa e perde-se em uma nuvem luminosa.

Ao tato, essas mãos, em certas ocasiões, parecem frias como o gelo e mortas; outras vezes, pareceram quentes e vivas, e apertaram a minha própria com a firme pressão de um velho amigo.

Conservei uma dessas mãos na minha, bem resolvido a não deixá-la escapar. Nenhuma tentativa e nenhum esforço foram feitos para que eu a soltasse, mas, aos poucos, ela pareceu dis­solver-se em vapor e, assim, desembaraçou-se de mim.

Verificaremos daqui a pouco que é desse mesmo modo que as mãos desapareceram dos moldes da parafina, onde deixaram um testemunho da sua existência momentânea.

Eis-nos longe das hipóteses do automatismo ou da segunda personalidade; aqui, não há meio de negar os Espíritos. Mas os cépticos não se embaraçam com tão pouco; não podendo con­testar os fatos nem atribuí-los ao embuste, procuraram expli­cá-los pela alucinação. O Sr. Crookes e os seus companheiros serão por isso alucinados?

Sim, respondem imperturbavelmente aqueles que nada viram, nada experimentaram, porém que, apesar da evidência, tudo negam. Sim, os que pretendem ter visto isso são uns alucinados. Paciência; entretanto, vamos mostrar-lhes que o fato é positivo, pois deixa traços materiais da sua realidade. Enquanto não damos essa prova decisiva, eis algumas experiên­cias provando que os fantasmas não existem somente na ima­ginação das pessoas crédulas:


Formas e figuras de fantasmas


Esses fenômenos são os mais raros de todos os que teste­munhei. As condições necessárias para a sua apresentação pa­recem ser tão delicadas, e, para contrariar a sua manifestação, é preciso tão pouca coisa que só tive raras ocasiões de vê-los em condições de exame, satisfatórias. Mencionarei dois desses casos:

Ao declinar do dia, durante uma sessão do Sr. Home em minha casa, vi agitarem-se as cortinas de uma janela, distante cerca de 8 pés do Sr. Home. Uma forma sombria, obscura, semi­ transparente, semelhante a uma forma humana, foi observada por todos os assistentes perto da janela, em pé, e essa forma agitava a cortina com a mão.

Enquanto a examinávamos, ela esvaiu-se, e as cortinas cessaram de mover.

O caso seguinte é ainda mais importante. Nele, como no precedente, o médium foi o Sr. Home:

Uma forma de fantasma avançou do fundo da sala, foi buscar um harmonium e, depois, deslizou pela frente de to­dos, tocando o instrumento. Essa forma foi visível para todas as pessoas presentes, ao mesmo tempo em que era visto o Sr. Home. O fantasma aproximou-se de uma dama que se achava assen­tada a alguma distância dos outros assistentes; esta deu um pequeno grito; depois, a sombra desapareceu.

Nessas duas narrativas, todos os assistentes vêem o Espírito, que está assaz materializado para agitar cortinas, mover e tocar o harmonium. Se ai se operou uma alucinação, é preciso con­fessar que esta é bem complicada. Se tais fatos não se passas­sem no século décimo nono, no gabinete de um sábio, crer-se-ia estar diante de uma lenda.

Os homens da época atual são pouco inclinados ao mara­vilhoso, e, por isso, vamos ver as precauções que foram adotadas para se certificarem de que as aparições não eram simples ilusões do espírito, e, sim, realidades objetivas, autênticas e inegáveis.


As materializações


Chamamos materialização ao fenômeno pelo qual um Es­pírito se mostra com um corpo físico, tendo todas as aparên­cias da vida normal. A seguinte narrativa foi publicada pelo Sr. Crookes em diferentes jornais espiritualistas, em 1874.

Se transcrevemos constantemente os escritos do grande químico, não é por falta de documentos, pois as revistas espíri­tas contêm grande número de bons testemunhos, e, sim, para que o leitor fique bem convencido de que os fatos citados foram observados com todo o método e rigor que os sábios empregam em suas investigações.

Em resposta às acusações de fraude feitas contra a mé­dium, uma jovem de quinze anos, chamada Florence Cook, o Sr. Crookes deu publicidade às suas experiências, e por estas se vê que a tal respeito não pode haver a menor suspeita. Damos, antes de tudo, uma idéia geral dessas sessões: Os assis­tentes, assentados em círculo, formam uma cadeia, isto é, dão-se mutuamente as mãos. A luz, muito fraca, não permite ler, mas é suficiente para que os experimentadores se vejam uns aos outros. A médium, as mais das vezes, acha-se separada da sala da reunião por um biombo ou por cortinas. Em outras ocasiões, a médium fica em um canto da sala, separado apenas por uma cortina. Se o biombo é empregado, fica entendido que não dispõe de outra saída senão pela sala, onde se acham os assistentes. Quando a médium está em êxtase, no fim de um tempo mais ou menos longo vê-se a cortina agitar-se e dar passagem a uma forma de homem ou de mulher, que vem passear pela frente de todos, conversar com os assis­tentes, fazer-se, muitas vezes, reconhecer por um deles, voltar, depois, para junto da médium e, finalmente, desaparecer. bem certo que esse compartimento especial para a médium, essa semi-obscuridade são condições que se prestam perfeitamente a uma legítima suspeita, visto a estranheza dos fatos produzi­dos, mas vamos ver que um homem frio, metódico, como o Sr. Crookes, sabe, por experiência, abrigar-se de toda fraude. Escutemos o que ele diz:

O Local. - As experiências realizaram-se em minha casa. A minha biblioteca, que serviu de gabinete escuro, tinha duas meias portas dando para o laboratório; uma dessas portas foi retirada dos gonzos e, em seu lugar, suspendeu-se uma cortina, para permitir que Katie (o Espírito materializado) entrasse e saísse facilmente... Preparei e dispus a minha biblioteca, assim como esse gabinete escuro, e, segundo o costume, a Srta. Cook, depois de jantar e conversar conosco por algum tempo, dirigia-se para o gabinete e, a seu pedido, eu fechava a segunda porta a chave, guardando esta comigo durante a sessão; então, abaixava-se o gás e deixava-se a Srta. Cook na obscuridade.

Entrando no gabinete, ela estendia-se no chão, com a cabeça num travesseiro, e caía bem depressa em letargia.

A MÉDIUM - Durante estes seis últimos meses, a Srta. Cook fez-me numerosas visitas, permanecendo, muitas vezes, uma se­mana inteira em minha casa. Não trazia consigo senão um pe­queno saco de viagem, sem chave; durante o dia, estava constan­temente em minha companhia, na de minha mulher ou na de algum outro membro da minha família e, como não dormisse em quarto separado do de minha mulher, faltava-lhe absolu­tamente a ocasião de preparar alguma coisa, mesmo de caráter menos perfeito, que a habilitasse a desempenhar o papel de Katie King.

A convicção do Sr. Crookes sobre a sinceridade da médium e sobre a impossibilidade de a Srta. Cook simular alguma coisa do que foi por si verificado mostra-se nas linhas seguintes:

A médium aceitou e submeteu-se com a melhor boa-von­tade a todas as provas que propus; sua palavra é franca e vai direto ao fim a que se propõe; nunca lhe notei coisa alguma que manifestasse a mais ligeira aparência do desejo de enga­nar. Realmente, não creio que ela pudesse planejar uma fraude e levá-la ao fim desejado, caso a tentasse; seria prontamente descoberta, porque tal modo de proceder é inteiramente con­trário à sua natureza. Quanto a imaginar-se que uma inocente colegial de quinze anos fosse capaz de conceber e pôr em prática, durante três anos, tão gigantesca impostura, sujeitando-se, durante todo esse tempo, às condições que se exigiu, consentindo nas mais minuciosas inspeções, em ser examinada a todo momento, antes e depois das sessões, e que obtivesse ainda maior êxito na minha casa que na de seus pais, sabendo que aqui vinha expressamente para sujeitar-se a rigorosos exames cien­tíficos; quanto a imaginar-se, digo, que a Katie King aparecida nos três últimos anos foi obra de uma impostura é violentar mais a razão e o bom senso do que acreditar que ela seja, real­mente, o que afirma ser.

Como era esse Espírito que, durante três anos, se mostrou em inumeráveis circunstâncias?

KATIE - A fotografia é tão impotente para pintar a be­leza perfeita do rosto de Katie como as palavras o são para descrever o encanto das suas maneiras. A fotografia pode, é certo, dar um desenho dos seus traços; mas, como poderia reproduzir a pureza admirável de sua tez ou a expressão variada de suas feições, ora veladas pela tristeza, quando contava algum acontecimento desagradável da sua vida passada, ora sorrindo com toda a inocência de uma jovem, quando reunia em torno de si meus filhos e divertia-os, contando-lhes episódios de suas aventuras na índia.

Mas, essa Katie era uma aparência, uma sombra animada, um reflexo vivo e pensante? Eis o que escreveu o Sr. Crookes no dia imediato ao de uma sessão efetuada em Hackney:

Jamais Katie se mostrou com tanta perfeição; durante cerca de duas horas, ela passeou na sala, conversando familiar­mente com as pessoas presentes. Muitas vezes, tomou-me o braço, caminhando, e a impressão produzida em mim era a de achar-se ao meu lado uma mulher viva, não um visi­tante do outro mundo. Essa impressão foi tão forte, que a ten­tação de repetir uma recente e curiosa experiência tornou-se para mim quase Irresistivel. Pensando, portanto, que, se na minha presença não se achava um Espírito, pelo menos estava uma dama, pedi-lhe a permissão de tomá-la em meus braços, a fim de fazer o exame que um audaz experimentador tinha recentemente insinuado. Sendo essa permissão graciosamente concedida, procedi convenientemente, como em tais circuns­tâncias o faria qualquer homem de boa educação. O Sr. Volck­man (esse experimentador) folgará em saber que posso corroborar a sua asserção de que o fantasma (que, aliás, não fez re­sistência alguma) era um ente tão material quanto a Srta. Cook. Essa Katie não podia ser a Srta. Cook disfarçada, pelo seguinte motivo:

Como Katie dissesse que era capaz de mostrar-se ao mesmo tempo que a Srta. Cook, abaixei o gás e, depois, com a minha lâmpada de óleo fosforado, penetrei no gabinete onde estava a médium. Previamente, porém, eu havia convidado um dos meus amigos, taquígrafo hábil, para tomar nota de toda a observação que eu fizesse enquanto me achasse no gabinete, pois, conhecendo eu o valor das primeiras impressões, não queria confiá-las somente à minha memória. Suas notas estão, neste momento, diante de mim.

Entrei no gabinete com precaução; estava escuro, e foi tateando que encontrei a Srta. Cook. Ela estava encolhida no chão.

Ajoelhando-me, deixei penetrar ar na minha lâmpada e, à sua claridade, vi essa jovem, vestida de veludo negro, como se achava no começo da sessão, e com toda a aparência de com­pleta insensibilidade. Não se moveu quando lhe tomei a mão, aproximando a lâmpada do seu rosto, e continuou a respirar calmamente.

Erguendo eu a lâmpada, olhei em torno de mim, e vi Katie de pé, perto e por trás da Srta. Cook. Suas roupas eram brancas e flutuantes, como tínhamos visto durante a sessão. Segurando na minha uma das mãos da Srta. Cook, e ajoelhando-me ainda, fiz subir e descer a lâmpada, tanto para clarear a figura inteira de Katie como para convencer-me plenamente de que eu via realmente a verdadeira Katie, que alguns minutos antes aper­tara-a em meus braços, e não a criação fantástica de um cérebro enfermo. Ela não falou, mas moveu a cabeça para se fazer re­conhecer. Por três vezes, examinei cuidadosamente a Srta. Cook ali deitada, para certificar-me de que a mão que eu segurava era a de uma mulher viva, e, por outras tantas vezes, voltei a lâmpada para Katie a fim de examiná-la com firme atenção, até perder qualquer dúvida a seu respeito. Afinal, a Srta. Cook fez um ligeiro movimento, e logo Katie, por um sinal, deu-me a entender que me afastasse. Retirei-me para outra parte do gabinete e cessei, então, de ver Katie, porém só fui embora quando a Srta. Cook despertou e depois que dois dos assistentes ai penetraram com luzes.

Dirão ainda os obstinados incrédulos, eis uma alucinação de todos os sentidos, experimentada pelo Sr. Crookes. Para destruir este último argumento, é necessário falarmos da foto­ grafia dessa aparição, pois ninguém suporá, como cremos, que uma placa sensível possa ficar alucinada. E isso um testemu­nho ininteligente, mas irrecusável. Essa prova absoluta foi obtida grande número de vezes.

Tendo eu tomado parte muito ativa nas últimas sessões da Srta. Cook e obtido numerosas fotografias de Katie King, à luz elétrica, julguei que a publicação de alguns pormenores seria interessante para os espiritualistas.

Durante a semana que precedeu a partida de Katie (o Es­pirito havia anunciado que a sua missão estava terminada), ela deu sessões em minha casa quase todas as noites, a fim de me permitir fotografá-la à luz artificial. Cinco aparelhos completos de fotografia foram, portanto, preparados. Compunham-se de cinco máquinas, sendo uma do tamanho de chapa inteira, uma de meia chapa, uma de um quarto de chapa, e as outras duas eram estereoscópicas binoculares, devendo todas ser dirigidas ao mesmo tempo para Katie, cada vez que ela tomasse posição para ser fotografada. Cinco banhos sensibilizadores e fixadores foram empregados, e muitas placas limpas e dispostas para servir, a fim de não haver hesitação nem demora durante as operações fotográficas, que eu mesmo executei com um aju­dante.

Estando os meus amigos assentados no laboratório, diante da cortina, as objetivas foram colocadas um pouco atrás deles, prestes a fotografar Katie quando ela saísse, e mesmo no inte­rior do gabinete, cada vez que se levantasse a cortina. Em cada noite, houve quatro ou cinco exposições de chapas nas cinco câmaras, pelo que nos dava o máximo de quinze provas por sessão. Algumas se inutilizaram na revelação, outras na regu­lagem da luz. Apesar de tudo, tenho quarenta e quatro nega­tivos: uns medíocres, alguns nem bons nem maus, outros, porém, excelentes. Freqüentemente, levantei um pedaço da cortina, quando Katie se achava perto dela; as sete ou oito pessoas que estavam no laboratório podiam ver, ao mesmo tempo, a Srta. Cook e Katie (47), ao pleno brilho da luz elé­trica. Não podíamos, então, ver o rosto da médium, por causa do xale com que Katie cobria-o a fim de impedir que a luz a incomodasse, mas, descobrindo suas mãos e seus pés, vimos que a médium estorcia-se penosamente sob os raios dessa luz in­tensa, e, de quando em vez, ouvíamos suas queixas. Obtive uma prova de Katie e de sua médium fotografadas juntamente, mas Katie está colocada diante da cabeça da Srta. Cook.

Acreditamos não mais ser possível a dúvida: Katie e Cook são, positivamente, duas personalidades distintas, e a objeção de embuste ou de alucinação coletiva, atingindo o Sr. Crookes e os demais assistentes, deve ser reprimida. Existe realmente um Espírito que aparece e desaparece, mas nada prova ainda, dizem os cépticos, que ele seja um habitante do outro mundo. Com efeito, sabemos, agora, de um modo quase certo, que o indivíduo humano pode desdobrar-se, e que, enquanto seu corpo está em determinado lugar, pode-se constatar a presen­ça do seu duplo em outro lugar, às vezes muito distante do primeiro. As atas da Society for Psychical Research mencio­nam grande número de casos pelos quais se vê que esses duplos de pessoas vivas falam, deslocam objetos materiais, podendo-se mesmo admitir que eles têm uma existência objetiva. Aplique­mos essas observações à Srta. Cook; quem nos diz que Katie King não seja simples desdobramento da Srta. Cook? Deixemos ainda a palavra aos fatos; eles vão destruir essa última obje­ção, supremo recurso dos negadores:

Uma das fotografias mais interessantes é aquela em que me acho de pé, ao lado de Katie; ela tem seu pé descalço pousado num ponto do soalho. Fiz depois a Srta. Cook vestir-se como Katie; ela e eu nos colocamos exatamente na mesma posição e fomos fotografados pelas mesmas objetivas, coloca­dos como na anterior experiência e iluminados pela mesma luz. Quando os dois retratos foram comparados, as duas foto­grafias coincidiram exatamente quanto às dimensões, etc., mas a de Katie excedia à da Srta. Cook, na altura da cabeça; junto desta, Katie parece uma mulher gorda. Em muitas pro­vas, o tamanho do seu rosto e a grossura do seu corpo diferen­ciam-na da médium, fazendo também notar muitas outras desse­melhanças...

Vi Katie recentemente, de um modo tão nítido, quando era iluminada pela luz elétrica, que se me torna possível acres­centar mais algumas notas quanto as diferenças que, num precedente artigo, estabeleci como existentes entre ela e sua médium. Tenho a mais absoluta certeza de que a Srta. Cook e Katie são duas individualidades distintas, ao menos no que se refere aos seus corpos. Pequenos sinais que existem no rosto da Srta. Cook não aparecem no de Katie. Os cabelos da pri­meira são de um castanho-escuro, aproximando-se ao negro; uma mecha dos cabelos de Katie, que eu tenho à vista, e que, com a sua permissão, cortei de suas bastas tranças, depois de acompanhá-las com meus dedos até o alto de sua cabeça, a fim de certificar-me de que aí tinham nascido, é de um belo castanho-dourado. Certa noite, contei as pulsações de Katie: Seu pulso batia regularmente 75 pulsações, ao passo que o da Srta. Cook, poucos instantes depois, atingia 90, seu número habitual. Apoiando o meu ouvido no peito de Katie, pude per­ceber-lhe as pancadas do coração, mais regulares que as , do da Srta. Cook, como esta me permitiu observar depois da sessão. Experimentados do mesmo modo, os pulmões de Katie mostra­ram-se mais sãos que os da sua médium, que então se estava tratando de forte defluxo.

Verificou-se, em todos os casos de telepatia, que a apari­ção reproduz absolutamente a forma do corpo e as feições da­quele que produz esse fenômeno; é esse um característico nunca desmentido de tais fatos. Entretanto, vemos que Katie difere notavelmente da Srta. Cook, tanto no talhe, quanto no rosto e nos caracteres fisiológicos; logo, Katie e a Srta. Cook são duas personalidades diferentes, tanto física como psiquicamen­te. Uma última citação vai estabelecer sobre esse ponto uma convicção absoluta:

Tendo terminado suas instruções, Katie convidou-me a entrar com ela no gabinete, e permitiu que ai me conservasse até ao fim.

Em seguida, tendo levantado a cortina, conversou comigo durante algum tempo e, depois, atravessou a sala para ir ter com a Srta. Cook, que jazia inanimada no chão. Inclinando-se sobre ela, tocou-a e disse-lhe: - Desperta, Florente; desper­ta! É preciso que eu te deixe.

A Srta. Cook acordou, banhada em lágrimas, e suplicou a Katie que se demorasse ainda algum tempo: Minha cara, não posso fazê-lo; minha missão está cumprida; que Deus te aben­çoe!, respondeu Katie, e continuou a falar com a Srta. Cook. Durante alguns minutos, elas conversaram, até que as lágrimas da Srta. Cook impediram-na de falar. Segundo as instruções de Katie, avancei para amparar a Srta. Cook, que ia caindo no chão, soluçando convulsamente. Olhei, então, ao redor de mim; mas Katie e o seu vestido branco haviam desaparecido. Logo que a Srta. Cook se acalmou, trouxeram uma luz e eu a conduzi para fora do gabinete.

Não mais pode haver dúvida de que a Srta. Cook conversou, acordada, com Katie e o Sr. Crookes. São três personalidades bem distintas, em três corpos diferentes. A existência dos Es­píritos está irrefutavelmente estabelecida. É tão real esse fato que os sábios que empreenderam explicar o fenômeno espírita, sem recurso à intervenção dos desencarnados, nunca ousaram tocar nesses notáveis trabalhos. Neles, é impossível negar-se a incomparável competência do observador, sua lógica rigorosa, seu espírito frio e imparcial. Nessas experiências tão pormeno­rizadas, tão bem dirigidas, sente-se a mão de um homem que vai em busca do desconhecido, sem hesitação, mas rodeando-se de todas as precauções possíveis. É o mesmo investigador do começo ao fim, não entusiasta do fenômeno maravilhoso, mas resolvido a fazer conhecer todas as suas fases, por mais inve­rossimeis que pareçam aos seus doutos colegas. Seus trabalhos são para nós, espíritas, um apoio inabalável, um refúgio seguro contra todos os sofismas dos que, não tendo experimentado por si mesmos e não conhecendo senão pequeno número de fatos, pronunciam, ex cathedra, que o Espiritismo não é mais que um disparate.

Deixemos esses retardatários, e continuemos a nossa ex­posição.


Um outro caso


Já dissemos que existem muitas outras experiências assaz rigorosas e que as deixávamos em silêncio para ceder a palavra ao mestre em tal assunto. Vamos, entretanto, abrir uma exce­ção em favor de uma narrativa aparecida no Light, e que também se encontra na obra Cherchons, do Sr. Gardy. Vere­mos, nessa experiência, pormenores curiosos sobre o modo pelo qual se forma a aparição. Esta narrativa está confirmada pelo Sr. Oxon, que viu sessões absolutamente semelhantes; te­mos, pois, uma boa garantia científica a respeito da sua exatidão.

O Sr. J.-H. Mitchiner descreve, de um modo muito circuns­tanciado, uma materialização operada em sua presença. Eis como ele se exprime:

Revendo os meus velhos documentos, encontrei o seguinte fato, ocorrido em 11 de fevereiro de 1885, e que pode interessar aos nossos leitores. Sei que esse fenômeno, ao qual dei o nome de parto astral, foi observado em mais de uma ocasião com o mesmo sensitivo. O círculo compunha-se de quatro damas e quatro cavalheiros, além do médium.

A sala estava iluminada durante toda a sessão por um bico de gás, dando luz suficiente para permitir que cada um dos assistentes visse os móveis que ali se achavam. Entretanto, não seria possível ler um livro ou o mostrador de um relógio.

Depois da aparição e da desaparição de quatro formas di­ferentes e dos dois sexos, vindas da antecâmara para o círculo, o Sr. Eglinton, o sensitivo, caiu em estado de êxtase, e começou a passear de um para outro lado, mas pela nossa frente. Notei, então, um objeto semelhante a um lenço branco de algibeira, pendente do seu quadril direito. Esse objeto, da extensão de cerca de um pé, foi, durante alguns segundos, agitado pelos mo­vimentos do médium, que passeava vacilante.

Como eu estava colocado em uma das extremidades da cadeia, minha mão esquerda ficava livre. Parando diante de mim, o Sr. Eglinton segurou-me, de repente, na mão, de um modo convulso e tão violento que me magoou. A substância suspensa no seu quadril começou então a descer para o chão e a acumular-se a seus pés, envolvendo suas pernas em espesso vapor branco, que comparei a algodão cardado.

Durante esse tempo, o médium fazia ouvir gemidos lamen­tosos, e suas contorções podiam fazer crer que ele se achava em verdadeiro estado de agonia. Quando o vapor cessou, se tal nome se lhe pode dar, congregou-se em coluna e tomou o as­pecto de um corpo humano. Viu-se, então, a condensação dessa coluna e, antes que os assistentes tivessem tempo de compreen­der o que se passava, uma forma completa de carne e osso, um grande e belo homem, vestido de branco, achava-se diante de todos.

A personagem trazia barba cerrada, de cor escura, e tinha de altura algumas polegadas mais que o médium, o que era fácil de se verificar, visto que se achavam ao lado um do outro. O Espírito e o médium ficaram assim diante de nós por um momento, parecendo que o último estava sustentado pelo braço do primeiro, que o segurava pela cintura. O Sr. Eglinton, então, soltou-me a mão, afastando-se um pouco de mim com um passo mal seguro, e pôde-se, assim, distinguir uma espécie de fita branca, de cerca de 4 polegadas de largura, prendendo o quadril do médium ao do Espírito. Vi essa fita de geração astral destacar-se subitamente, e, logo que se recolheu ao corpo do Sr. Eglinton, este deixou-se cair numa cadeira, enquanto o Espírito permanecia sozinho no meio do círculo, passeando e apertando a minha mão e as de duas outras pessoas. Depois da sua partida, encontramos o sensitivo em tal estado de exaus­tão, que a sessão teve logo de ser suspensa.


A fotografia espírita


A fotografia de uma forma espiritual é, indubitavelmente, uma das melhores provas da existência dos Espíritos; nenhu­ma teoria pode dar explicação desse fenômeno sem o recurso da ciência espírita. Acabamos de ver um sábio eminente cons­tatar, por este meio, a realidade objetiva da aparição de Katie; citaremos um certo número de outros testemunhos emanados também de observadores instruídos, experimentados e sinceros, porque nunca será demais o que se possa fazer para libertar esse fenômeno do descrédito em que caiu depois do processo movido contra o fotógrafo Buguet, em 1875.

Esse industrial, que não era espírita, depois de haver obtido, acidentalmente, fotografias de Espíritos rigorosamente autên­ticas (48), como qualquer pessoa poderá convencer-se pelos testemunhos de muitos homens bem qualificados, buscou lançar mão da fraude para aumentar os seus lucros. Foi condenado e imenso descrédito estendeu-se sobre os espíritas, sendo eles, assim, injustamente envolvidos nessa reprovação.

A fim de indicar como devem proceder os espíritas sérios não só para não serem enganados, mas também para adqui­rirem a certeza da realidade do fenômeno, eis o que diz o Sr. Alfred Wallace:

1 - Se uma pessoa conhecedora da fotografia tomar suas próprias chapas de vidro, examinar a câmara empregada e todos os seus acessórios, vigiar todo o processo para obter a prova, e encontrar na prova negativa uma forma bem definida junto da figura da pessoa que tomou posição: há ai uma prova da existência de um objeto, suscetível de refletir-se ou de emitir raios actínicos, apesar de invisível às pessoas presentes;

2 - Se evidenciar semelhança incontestável com uma pessoa falecida, totalmente desconhecida do fotógrafo;

3 - Se aparecerem, na prova negativa, imagens em rela­ções definidas com a figura daquele que vem retratar-se e escolhe a sua própria posição, sua atitude, seus acessórios:

Tem-se aí uma prova de que formas invisíveis se achavam real­mente no campo da objetiva;

4 - Se aparecer uma forma vestida de branco atras do corpo opaco de quem se retrata, sem se estender sobre ele: há uma prova de que a figura de branco ai se achava ao mesmo tempo, porque as partes sombrias da prova negativa são trans­parentes, e toda a imagem branca, de qualquer modo que seja, devia aparecer através;

5 - Quando não se possa recorrer a alguma dessas de­monstrações, se um médium, inteiramente distinto e indepen­dente do fotógrafo, vir e descrever uma forma durante a opera­ção, e, na placa, aparecer uma imagem semelhante à descrita: há uma prova de que essa forma ai se achava e no campo da objetiva.

Cada uma dessas indicações tem sido sucessivamente em­pregada por aqueles que fazem essas experiências; citemos alguns casos:


Fotografias de Espíritos, reconhecidas por seus parentes


O Dr. Thomson, de Clifton, obteve uma fotografia em que, ao lado da sua imagem, se achava a de uma pessoa desco­nhecida. Enviou essa fotografia para a Escócia, ao seu tio, perguntando-lhe simplesmente se ele notava semelhança entre essa dama e alguma pessoa da família, já falecida. A resposta foi que essa imagem era a da própria mãe do Dr. Thomson, assemelhando-se muito às feições que ela tinha quando este nascera; como a falecida não havia deixado retrato, o doutor não podia ter a idéia dessa parecença. O tio naturalmente observou que não podia compreender como o fato se tinha dado. (Spiritual Magazine, outubro de 1873.)

Eis a afirmação de Wallace acerca de uma fotografia espí­rita representando sua mãe, falecida muito tempo antes: Em 14 de março de 1874, fui à casa do Sr. Hadson, convidado a fazê-lo pela primeira e única vez, em companhia da Sra Guppy, como médium. Eu esperava que, se obtivéssemos algum re­trato espírita, seria o de meu irmão mais velho, com o nome do qual as comunicações eram constantemente recebidas pela Sr .8 Guppy. Antes de ir à casa de Hadson, tive uma sessão com a Sra Guppy, e obtive uma comunicação, por golpes, par­ticipando-me que minha mãe apareceria na placa, se isto lhe fosse permitido. Em três ocasiões, tomei posição, escolhendo-a eu próprio. De cada vez, na prova negativa, apareceu com a minha uma outra figura. A primeira, representava um homem com uma espada curta; a segunda, uma pessoa de pé, colocada, aparentemente, a alguma distância ao lado e um pouco atrás de mim, olhando-me e segurando um ramalhete de flores. Na terceira vez, depois de eu ter tomado posição e quando a placa preparada estava colocada na máquina, pedi que a aparição viesse para perto de mim, revelando, então, a placa uma figura de mulher, encostada e um pouco adiante de mim, de modo que seu vestido escondia a parte inferior do meu corpo. Vi todas as placas reveladas, e, em cada um dos casos, a figura suple­mentar mostrou-se no momento em que o líquido da revelação molhou a chapa, ao passo que o meu retrato não se tornou visível senão cerca de 20 segundos mais tarde. Não reconheci nenhuma dessas figuras nas chapas negativas; no momento, porém, em que obtive as provas, o primeiro golpe de vista mos­trou-me que a terceira placa continha um retrato incontestá­vel de minha mãe, assaz semelhante nos traços e na expressão. Não era uma semelhança como a que se nota num retrato tirado em vida, mas semelhança algum tanto idealizada, apresentando­-se sempre a mim de modo a não poder eu ser enganado. (49)

O Sr. Wallace conta que a Sra Guppy, a médium, viu, de cada uma das vezes, uma aparição trazendo flores, o que é con­firmado pelo aparecimento dessas flores na fotografia. A apa­rição na fotografia foi reconhecida pelo irmão do Sr. Wallace, morador na Califórnia, como sendo a de sua mãe; é um caso totalmente comprobativo, e não se pode explicar isso por outro modo, a não ser pela manifestação dos Espíritos. Essa causa é inegável, porque muitas vezes o médium descreve exatamente a aparição que vai ser fotografada. Eis um exemplo:


Mediunidade vidente e fotografias de Espíritos


O Sr. Beattie, fotógrafo já afastado do serviço, homem res­peitável, fez experiências em companhia do Dr. Thomson, de quem já falamos. Entre as numerosas provas que obtiveram, duas são particularmente dignas de nota, por causa das condi­ções especiais em que se produziram.

Há duas outras provas como as que se obtiveram em 1872, e nas quais o médium descreveu todas as fases durante a expo­sição da chapa.

A primeira aparição, diz ele, era um espesso nevoeiro branco; a prova saiu cheia de manchas brancas, sem traços de imagem. A outra prova foi descrita com antecedência, como devendo apresentar um nevoeiro envolvendo uma pessoa, mas na chapa não se vê mais que uma figura humana no meio de uma superfície quase uniformemente nebulosa.

Durante as experiências feitas em 1873, o médium, em cada um dos casos, descreveu, minuciosa e corretamente, as aparições que deviam mostrar-se nas chapas. Em uma delas há uma estrela luminosa irradiante, de grande dimensão, apresentando no centro um rosto humano assaz visível. >; a última das três sobre as quais se manifestou uma estrela, e tudo havia sido cuidadosamente anunciado pelo médium.

Essas experiências são uma prova da mediunidade vidente e da realidade objetiva das aparições. Nenhuma negação pre­valecerá contra esses fatos autênticos. Vamos assistir agora a uma manifestação ainda mais caracterizada do poder do Espírito sobre a matéria tangível.


Experiências do Sr. Aksakof


Eis a narrativa resumida das investigações do sábio russo; elas foram suscitadas por uma discussão com o filósofo Von Hart­mann, acerca da objetividade das aparições. Como esses estu­dos não foram ainda publicados na França (50), julgamos dever reproduzi-los com algum desenvolvimento, porque não somente confirmam as experiências precedentemente citadas, mas ainda porque revelam um fenômeno completamente des­conhecido: o da fotografia na mais absoluta obscuridade.

Antes de expor os fatos, recordemos brevemente a objeção feita por Von Hartmann contra a realidade das fotografias espíritas.

Este filósofo não nega que fossem obtidas provas fotográfi­cas, mas acredita que aquilo a que chamamos Espírito não é mais que o desdobramento do médium. Ele diz: È questão do mais alto interesse teórico saber se um médium pode não so­mente excitar em outrem a alucinação de uma figura, mas também produzir de alguma sorte uma imagem real, de um modo atenuado, no espaço real, objetivo, da câmara comum a todos os experimentadores, projetando fora de seu próprio or­ganismo a matéria necessária a essa formação, depois cons­truindo a forma. Se a esfera de ação de um médium tivesse um limite intransponível, a prova da realidade objetiva do fenômeno de materialização poderia ser fornecida por produ­ções materiais duráveis e além da esfera da ação do médium.

Não sendo esse o caso, e o fenômeno de materialização parecendo, além disso, produzir-se fora da esfera de ação física, não precisamos mais que a prova fotográfica para estabelecer que o fenômeno da materialização apresenta uma superfície capaz de refletir a luz no espaço objetivo. Uma vez que o ma­terial fornecido por um médium não apresenta segurança, uma fotografia simultânea do médium e do fantasma deveria ser produzida antes que a objetividade pudesse ser concedida às aparições percebidas simplesmente pela vista dos espectadores.

De outro lado, para que uma fotografia de Espírito seja comprobatória são precisas muitas condições:

1 - Que nenhum fotógrafo de profissão e que nenhum médium sejam admitidos nas manipulações ou no manusea­mento do aparelho e das placas, de modo que toda a preparação de caixilhos e placas (antes da recepção do colódio), bem assim qualquer manipulação subseqüente, sejam excluídas;

2 - Para que a aparição seja bem a de um ser real, e não um desdobramento do médium, é necessárid que a imagem fotográfica diferencie-se da do médium.

Vê-se quanta importância os críticos ligam à prova foto­gráfica; é que ela, com efeito, estabelece irresistivelmente a certeza de que se está assistindo a um fenômeno objetivo, e que a alucinação não influi para a visão do Espírito materializado.

As experiências de Crookes satisfizeram todas essas condi­ções, e por esse motivo os sábios evitam criticar-lhe os traba­lhos; guardam a respeito um silêncio prudente, mas, como temos excelentes razões para não imitá-los, vamos citar as notáveis experiências de Aksakof, a fim de mostrarmos que elas confirmam absolutamente as do ilustre físico inglês.


Fotografia transcendental em plena obscuridade


As experiências seguintes efetuaram-se em Londres, duran­te o ano de 1886, em uma casa absolutamente ao abrigo de qualquer suspeita. Os assistentes eram: o dono da casa, homem nobre e muito rico, cujo nome o Sr. Aksakof não quis declarar, sua mulher, um amigo da família, o médium Eglinton e o sábio russo.

As sessões realizaram-se duas vezes por semana, em uma saleta de terceiro andar, de 10,5 pés de comprimento por 9,5 de largura, não tendo mais que uma janela dando para um beco, e uma porta comunicando com um corredor. As aberturas foram fechadas e cobertas por dois pedaços de estofo de lã, pregados na parede; além disso, duas cortinas foram suspensas diante dessa janela assim tapada.

A primeira experiência foi em 21 de junho, mas não deu resultado. Na segunda sessão, em 23 de junho, apesar do apa­recimento de muitos pontos luminosos na obscuridade, o mé­dium, em êxtase, anunciou que nesse dia não se obteria a fotografia, porém que, na próxima ocasião, deviam colocar a objetiva a 2 pés de distância do médium. A fim de bem preci­sar o seu intuito e evitar qualquer mal-entendido, o Sr. Aksakof declarou que o seu intento era provar, de um modo objetivo, a materialização dos Espíritos, desejando, por isso, que o Espí­rito se fizesse ver, iluminando-se a si mesmo por uma semi­luminosidade, e que pudesse, depois, quando cessasse a visibi­lidade, ser fotografado. Pelo médium foi respondido que era isso exatamente o que os seus guias queriam fazer.

A terceira sessão, em 28 de junho, não produziu ainda re­sultado decisivo. Os operadores viram diante do médium uma luz contínua, mas sem contorno algum determinado; duas ex­posições da câmara escura foram feitas com chapas compradas pelo Sr. Aksakof. Numa delas nada apareceu; na outra, podia­-se distinguir uma forma sombria, com um turbante; infeliz­mente, o dono da casa, por inexperiência, apressou-se demais em fazer a impressão, e a gelatina, não tendo ainda tido tempo de secar, colou-se ao papel, inutilizando o negativo.

Um insucesso absoluto caracterizou a quarta sessão, em 30 de junho. Reproduzimos intencionalmente a narrativa dessas experiências nulas, a fim de mostrar quanta paciência é ne­cessária nessas investigações; porque, ignorando as condições exigidas para o bom resultado, não devemos desanimar com os repetidos insucessos, e, sim, perseverar com paciência até con­seguir o que se deseja. Entretanto, essa sessão não foi de todo inútil, pois ela deu ao Sr. Aksakof a prova da clarividência dos Espíritos. Sentindo-se um pouco fatigado, o sábio russo apoiou­-se num armário, fechando os olhos, quando, bem depressa, Joey, o Espírito-guia do médium em êxtase, disse, por seu intermédio: Sr. Aksakof! Parece-me que estais dormindo. Ora, a obscuri­dade era absoluta, e ninguém lhe poderia ver a atitude.

Eis agora a narração completa da quinta sessão, que foi assinalada por um sucesso. Damos a palavra ao Sr. Aksakof:

Em 5 de julho, realizou-se a nossa quinta sessão. As quatro horas da tarde tomamos os nossos lugares na sala para isso disposta, e na qual, durante o dia, fizemos completa obscuridade. O aparelho fotográfico foi acomodado à luz do gás, e, sendo ele afastado, acendemos a lanterna vermelha. Desembrulhei de um guardanapo duas chapas compradas por mim e mar­quei-as; o dono da casa pôs uma no caixilho e outra na má­quina. Eglinton assentou-se diante da janela, cobrindo-a com as cortinas. Tomamos os nossos lugares, apagamos a lâmpada, e a sala ficou em completa obscuridade.

Eglinton caiu prontamente em êxtase e começou a respi­rar dificilmente, sinal precursor do fenômeno. A sua direita, entre ele e mim, uma luz estranha começou a emergir ao longo da janela, que, entretanto, estava inteiramente coberta de panos pregados à madeira e pelas cortinas. A luz, que parecia vir das cortinas, tinha cerca de um pé de comprimento e estava a 5 ou 6 pés acima do solo; não era fragmentada, pois irradiava através das dobras das cortinas. Os que se assentavam em frente ao médium viam não somente essa simples luz, mas ainda outra semelhante, à esquerda do médium; e as duas co­lunas luminosas pareciam unir-se acima de Eglinton, forman­do uma espécie de arco.

No fim de alguns segundos, essas luzes desapareceram, e Eglinton, sonambulizado por um dos seus guias, pediu-nos que juntássemos nossas mãos a fim de reforçar o fenômeno. A cadeia não devia ser interrompida enquanto as lentes fotográ­ficas estivessem a descoberto. Logo que juntamos as mãos, apareceu uma grande luz diante do médium. Olhando-a aten­tamente, distinguia-se um corpo oval, luminoso, do tamanho de um ovo de cinco polegadas de comprimento, brilhando com uma fraca luz amarela e iluminando alguma coisa semelhante a um montão de véus, brilhante como a neve ou a prata. O ovo parecia achar-se diante do médium, sem se ver a mão que o segurava.

A luz desapareceu; quatro pancadas foram ouvidas para que se descobrissem as lentes; e outras quatro, mandando tapá­-las, soaram depois de uma exposição de dez segundos. Sempre na obscuridade, o dono da casa trouxe um novo caixilho e expôs a outra chapa. Uma luz viva apareceu no mesmo lugar: era uma massa branca, luminosa, de um pé de comprimento por 10 de largura, e, sobre um fundo luminoso, vimos a figura apagada de uma mão, cujos dedos se moviam; depois, tudo desapareceu. Uma segunda exposição realizou-se e as pancadas repetiram-se.

Supúnhamos estar tudo acabado; mas, em vez disso, foi­-nos dito pelo médium, em êxtase, que era preciso preparar pla­cas, com a maior brevidade possível, porque havia ainda muita força e os diretores invisíveis da experiência não sabiam se a exposição tinha tido uma duração suficiente. Durante esse tem­po, o médium devia conservar-se atrás da cortina. Acendemos ainda a lanterna vermelha. Tirei duas outras chapas e mar­quei-as. Neste caso, não só o médium não pôde tocar nas chapas, mas também não conseguiu vê-las.

Quando elas foram colocadas nos lugares convenientes, apagamos a lanterna. A princípio, apareceu, durante alguns segundos, a luz estranha já vista, no meio e através das cor­tinas, à direita e à esquerda de Eglinton, e, em seguida, ela desapareceu de novo. Vimos, então, uma massa luminosa, seme­lhante a véus em grandes rolos e, no meio, a configuração de uma mão, cujos dedos se moviam. Depois, tudo imergiu em profunda obscuridade; as pancadas fizeram-se ouvir. Houve uma nova exposição, duas vezes mais longa que a primeira. Terminada essa exposição, de novo se produziu o fenômeno luminoso; depois, a escuridão tornou-se completa, ouviram-se golpes para a quarta exposição, tão longa quanto a última e, enfim, outras pancadas anunciaram o termo da experiência.

Quando o médium tornou a si, acendemos a lanterna ver­melha e fomos revelar as chapas. Começamos pelas duas pri­meiras, que tinham sido retiradas do caixilho e postas de lado. Na primeira, nada achamos, bem como na segunda e na ter­ceira; com a quarta, obteve-se um resultado. Vimos, a prin­cipio, uma mancha negra no meio; em seguida, começou a aparecer ao redor dela um desenho, que se foi tornando cada vez mais definido: era uma figura de mão com um véu. Houve uma satisfação geral, em que tomou parte o diretor invisível, dando fortes pancadas no soalho. A sessão terminou às dez horas.

Alguns dias depois, o dono da casa tirou uma prova e saiu-se perfeitamente. Representava uma mão nua, sustentan­do sob o braço um véu, que o cobria e pendia até o chão. Sobre esse braço e essa mão vê-se a sombra produzida pelas sombras do véu, ferido provavelmente por uma luz vinda do lado. Essa claridade, porém, não tocava senão a mão e o véu, pois, no fundo escuro da fotografia, não se pôde descobrir o médium nem as cortinas nem algum dos objetos que se achavam na sala, junto ao médium. No ângulo direito da chapa, vê-se a minha marca.

Eis-nos, pois, diante de uma nova fase do fenômeno espí­rita: a fotografia de objetos invisíveis, obtida na mais absoluta obscuridade. Quão interessantes estudos essas experiências notá­veis sugerirão aos sábios do futuro! Novos modos de manifesta­ção da matéria revelam-se de maneira apreciável à observação; mas, ao invés de estudarem esses fenômenos que lhes oferecem tão vasto e maravilhoso campo, alguns sábios da atualidade preferem chamar-nos vítimas e alucinados. A verdade, porém, não podia ficar abafada por muito tempo: apesar da má-von­tade de alguns, as investigações continuam; sabemos que em Bordeaux e em Rouen existem grupos que se dedicam a essas experiências, e brevemente esperamos poder reproduzi-las e submetê-las à apreciação do público.

Voltemos ao Sr. Aksakof:


Fotografia transcendental de um Espirito, na obscuridade (51)


Obtido esse resultado, anunciei a todos que considerava provado o fato da fotografia na obscuridade, e que eu desejava passar, então, a outras experiências. Ao mesmo tempo, exprimi o desejo de fazer experiências de fotografia transcendental do gênero daquela que tinha sido produzida anteriormente. (52)

Durante uma precedente visita a Londres, há muito tempo, eu fui à casa de um fotógrafo, espírita profissional, para obter uma fotografia semelhante.

Nada conhecendo da arte fotográfica, naturalmente eu não podia por mim mesmo certificar-me da realidade do fenômeno; entretanto, fui obrigado a concluir que aí havia fraude, porque, depois de ter examinado a chapa que me fora apresentada, a fim de certificar-me de que ela estava perfeitamente limpa, não reconheci essa chapa no negativo que me foi mostrado como resultado da mediunidade. Ela fora substituída.

Entretanto, eu havia tido ocasião de fazer uma experiência em condições que, em caso de êxito, teriam garantido a natu­reza do fenômeno. Foi-me dito, em nome dos diretores invisí­veis, que eles queriam primeiro fazer a experiência na obscuri­dade, fotografando uma forma inteira, e que depois procurariam dar-me uma fotografia transcendental da mesma figura com o médium e à luz do magnésio, não devendo eu abandonar Londres sem haver obtido séries completas de fotografias. Outro não era o meu desejo; e, pois, a sessão seguinte, destinada à foto­grafia na obscuridade, foi fixada para 7 de julho; essa sessão, porém, não deu resultado algum, nem mesmo se projetou o foco da câmara. Disseram-me, então, que, na primeira sessão, eu devia apresentar novas chapas. A sensibilidade dessas chapas era tão delicada que todas as precauções seriam poucas para garantir o êxito da operação.

A sétima sessão realizou-se em 12 de julho. O tempo estava chuvoso e dava pouca esperança de êxito.

Felizmente, a sessão estava marcada para a noite, às 7 ho­ras, e, depois de ter jantado com o dono da casa, vi o tempo clarear e a luz aparecer. Um incidente assaz interessante so­breveio, então. Devo observar, relativamente à experiência com a luz do magnésio, que aprendi e pratiquei primeiramente esse processo, de modo que, em caso de insucesso, não pudéssemos lamentar-nos da nossa falta de experiência.

Lembrando-me das nossas preparações em São Petersburgo, levara comigo tudo o que era necessário, e nos propúnhamos, depois do encerramento da sessão, a fotografar um de nós pela luz do magnésio. Depois do jantar, durante uma conversação em que Eglinton tomou parte muito ativa, ele fez, de súbito, um movimento, concentrou-se e disse: Que coisa estranha: sinto agora em mim uma influência poderosa. A conversação continuou, mas foi interrompida com pancadas na mesa, pelas quais ficamos sabendo que os diretores invisíveis das experiên­cias tinham alguma coisa a comunicar-nos.

A conversação reatou-se, mas bem depressa Eglinton recuou para esfregar os olhos e cerrá-los; depois, caiu em êxtase e, voltando-se para mim, disse em voz baixa:

Victor (o nome do diretor invisível da fotografia transcen­dental) diz que, em vista da condição desfavorável do tempo, que agora melhora um pouco, é necessário que a sessão se efetue o mais tarde possível, pois nessas experiências muito influem as condições atmosféricas. Ocupai-vos, pois, com a fotografia prática, e reuni-vos em sessão o mais tarde possível.

Assim o fizemos. Até às dez horas trabalhamos na fotogra­fia à luz do magnésio, e esse não era o primeiro ensaio. Nesse ínterim, o tempo melhorou totalmente e a lua cheia iluminou a amplidão. As duas horas da madrugada começamos a nossa sessão; arranjamos o aparelho, acendemos a lanterna vermelha e apagamos o gás. Da minha pasta, que sempre conservei co­migo, retirei uma nova caixa de chapas, como haviam pedido; abri-a e dela tirei duas, marcando-as, escrevendo em uma o meu nome em caracteres russos, e, na outra, 30 de junho de 1886, em letras antigas. O dono da casa colocou-as nos competentes lugares. Eglinton assentou-se atrás das cortinas descidas da janela. Apagamos a luz e formamos a cadeia com as mãos; Eglinton caiu, logo depois, em êxtase, respirando dificilmente e movendo-se incomodado na sua cadeira; afinal, aquietou-se.

No meio da sala, apareceu uma luz a três ou quatro pés acima do soalho e a igual distância de mim. Aproximando-se de mim, olhei-a com atenção e distingui os traços de uma figura completa envolta num véu, iluminada por uma luz vinda de baixo, parecendo provir da mão da forma, que se apoiava em seu peito e estava também velada. Distingui perfeitamente uma longa barba negra. Como que flutuando no ar, essa forma aproximou-se de cada um de nós e desapareceu na obscuridade. Algum tempo depois, apareceu nova e fraca luz azulada, pro­veniente de um ponto no qual parecia estar concentrada, e vi bastantes vezes a mesma forma, mas desta vez muito perto, movendo uma coisa branca, vivamente iluminada.

A principio, julguei que isso fosse um dedo, mas outros acreditavam ser uma flor que, voltando-se de diversos modos, se conservava acima do ponto luminoso, parecendo ser a palma da mão direita; entretanto, eu não podia distinguir nem essa mão nem o objeto do qual procedia a luz. Extinguiu-se a luz dois minutos depois e pancadas fizeram-se ouvir.

A exposição da placa durou muito tempo, cerca de quaren­ta segundos. Depois de tapada a lente, o dono da casa, sempre na obscuridade, expôs a outra chapa. Esperávamos ver reapa­recer a antiga forma, mas não se deu isso; uma segunda exposição, da mesma duração, realizou-se; depois, Eglinton tornou a si, e desta vez, acendemos o gás, abrimos a porta para deixar o ar penetrar livremente, e demos-lhe alguma coisa a beber. Levantamo-nos e procedemos à revelação das chapas, à luz da lanterna vermelha. Na última chapa nada havia, mas, na primeira, começou logo a aparecer uma mancha sombria, e o contorno da figura que tínhamos visto, com uma flor na mão, foi gradualmente definindo-se.

A sessão terminou às dez e meia horas da manhã. Quanto à flor, devo acrescentar que, depois da primeira exposição, quando estávamos ainda na obscuridade, a mulher do dono da casa disse-nos que acabava de receber em sua mão uma flor, que se viu, depois, perfeitamente, ser um lírio branco colhido há pouco; provavelmente ele foi, pelos maravilhosos operado­res, trazido da sala vizinha, onde havia uma porção dessas flores. Não julgo inútil acrescentar que, durante essas grandes manifestações de luz, não foi sentido o menor cheiro de fósforo.

Na primeira chapa preparada pelo dono da casa, via-se dis­tintamente uma figura completa, com espessas sobrancelhas, nariz grande e direito, barba longa, e a testa e a cabeça cober­tas por um véu pendente dos dois lados. Da mão esquerda, cujos dedos são perfeitamente visíveis, eleva-se um lírio branco, cuja alvura contrasta com o fundo sombrio da fotografia; a mão direita, da qual não se vê senão o polegar, segura um pano, onde se acha um pequeno corpo oval. Esse corpo parece ser o ponto de emanação da luz que iluminava a figura, quando a vimos. No fundo dessa fotografia, como no da primeira, não se vê mais nada que a figura. No alto, no canto direito da chapa, via­-se o meu nome, em letras russas, e a data de 30 de junho de 1886.

(Essas notáveis fotografias estão em poder do Edictorial Secretary, em Leipzig.)

Tendo assim chegado a uma conclusão satisfatória nas minhas experiências fotográficas em completa obscuridade, devo contudo observar que o fim particular, a que eu me pro­punha, não tinha sido alcançado. As fotografias por mim obtidas servem de prova a um fato físico muito interessante: a possibilidade de se obterem resultados fotográficos numa obscuridade completa. Mas, quanto ao fato da materialização, ele não fica provado pelas minhas duas fotografias, porque não posso negar a semelhança que existe entre o médium e a forma que apareceu nas fotografias, semelhança esta confirmada por aqueles que conhecem particularmente o médium. Quanto mão, é difícil afirmar se é de homem ou de mulher. É, porém, justamente nessa semelhança que, a meu ver, está a garantia da veracidade do fenômeno da fotografia da obscuridade, pois, certamente, nada seria mais fácil que evitar essa semelhança, apesar de o Dr. Von Hartmann ficar com o direito de dizer que a fotografia representa o próprio médium, agindo em estado de sonambulismo; que a roupa, a barba e a flor são fenômenos de transporte e, mesmo, que a fotografia na obscuridade é o resultado de uma força do médium, conversível, segundo esse doutor, em uma outra força física, e que, por conseqüência, não há materialização. Quando declarei aos guias do médium que eram insuficientes as nossas experiências fotográficas nesse sentido e que uma fotografia, como as que tínhamos con­seguido, somente poderia provar a materialização se represen­tasse uma forma absolutamente sem semelhança alguma, seja com o médium seja com qualquer outra pessoa do círculo, res­ponderam-me que, no caso de um insucesso da fotografia de uma forma materializada com o médium à luz do magnésio, devíamos de novo experimentar na obscuridade, e que eles procurariam desenvolver uma forma feminina; como, porém, a experiência com a luz do magnésio deu perfeito resultado, a necessidade de experiências ulteriores na obscuridade não se fez sentir, e para isso faltava-nos o tempo.

A possibilidade de fotografar na obscuridade não só uma for­ma viva, seja o próprio médium seja o seu duplo ou uma forma materializada, mas também um objeto inanimado, como um lírio, fez-me crer que esse modo de fotografar na obscuri­dade seria o mais fácil para dar-nos a fotografia do próprio médium juntamente com a da forma materializada, e que assim ficaria absolutamente provada a materialização, pois a luz do magnésio oferece muitas dificuldades, tanto para o médium quanto para o fenômeno. Responderam-me que se poderia ten­tar isso mais tarde, porém que, naquele momento, havia um programa de experiências já traçado.

Se, porém, as minhas fotografias na obscuridade não atin­giram totalmente o fim que eu visava, oferecem, ao menos, um novo objetivo e uma prova permanente da realidade e da independência das forças da mediunidade. Não possuo conhe­cimento profissional de fotografia, mas, segundo os especia­listas, compreendo que a fotografia na obscuridade é uma im­possibilidade prática, ainda que ela possa ser explicada pela ação dos raios ultravioleta do espectro, que nos são invisíveis, porém que podem influenciar a chapa sensível como os outros raios; entretanto, para recolhê-los. e aplicá-los, os nossos físicos são incompetentes, e nisso reside a impossibilidade dos fatos em questão.

Os nossos difamadores quererão atribuí-los, como o fazem relativamente aos outros fatos mediúnicos, a uma fraude; po­rém, sem nos incomodarmos para explicar a possibilidade de tal caso, se alguém, admitindo que eu não seja embusteiro, quiser indicar-me em que consiste a falha das precauções por mim tomadas, onde e como, sob as condições dadas, a fraude pôde ser cometida, aceitarei essas indicações com uma sincera gra­tidão, de modo que por outra vez eu possa prosseguir nas mes­mas experiências com precauções ainda mais rigorosas.


Fotografia transcendental, em plena luz do dia


Em uma sessão, realizada a 14 de julho, não foi possível obter-se resultado, visto não serem favoráveis as condições atmosféricas. Em outra, porém, a 19 de julho, chegou-se, não sem dificuldades, a constatar no clichê a forma de Eglinton juntamente com a de um Espírito. Eis os detalhes dessa ex­periência.

Não havendo mais necessidade de uma sala escura, pois a fotografia devia ser tirada nas condições ordinárias, o dono da casa tinha escolhido, para lugar da reunião, a sala de jantar, bem clara, e, em uma alcova apenas separada por um corredor, foi instalado o gabinete escuro para a revelação das provas.

O tempo, a princípio chuvoso, tinha clareado; tomamos lugar na sala e o médium, que se achava em seu estado normal, assentou-se à frente da objetiva. Pancadas fracas, apenas audíveis, foram dadas pelos Espíritos; o dono da casa descobriu a lente e a exposição durou cerca de 40 segundos. Depois desse tempo, novas pancadas indicaram que a experiência fora con­cluída. O médium declarou ter estado sob a ação de uma influência poderosa, e que lhe parecia que o resultado era bom. Qual foi, porém, o desapontamento dos operadores, quando, na revelação, nada apareceu na chapa, nem mesmo o retrato de Eglinton. Certamente, as chapas eram defeituosas.

Felizmente, nem todas as chapas eram de tão má quali­dade, e, tendo colocado duas no aparelho, obtivemos, em cada uma delas, o retrato de Eglinton; esse resultado animou os experimentadores a continuarem na experiência, depois de um intervalo em que nos ocupamos com a ceia.

Tornamos bem depressa a recomeçar os nossos trabalhos. Tirei outro par de chapas e marquei-as; de repente, Eglinton começou a falar em estado de êxtase e, em nome do seu guia, exprimiu-nos o seu pesar pelo nosso insucesso, que não lhe podia ser imputado, porque era nas primeiras chapas que se devia dar o resultado. As que tendes na mão, diz o Espírito, são tão más quanto as primeiras; é necessário usar outras. Então, tirei um quinto par de chapas, rasguei o papel que as envolvia, e as pancadas avisaram-nos que elas eram boas. Mar­quei-as e a experiência prosseguiu.

A exposição foi longa; de cada vez, contei até trinta se­gundos. Alguns momentos antes da primeira, Eglinton excla­mou: Oh! Desta vez vem alguma coisa, eu bem o sinto. Quando fomos revelá-las, ele estava tranqüilo. Começamos pela primeira chapa, na qual, sem dúvida, se mostrava algum resultado, pois toda ela estava coberta de manchas; mas, não era isso o que esperávamos. Na segunda, apareceu somente, a princípio, a forma de Eglinton; quando, porém, levamos a chapa à luz, descobrimos, justamente no meio do peito do mé­dium, uma figura representando um busto velado, mas com a cabeça para baixo. Houve surpresa geral, em virtude de um resultado tão inesperado sobre todos os pontos de vista. Em um ângulo da chapa estava o seguinte, em caracteres russos: A. N. N. Aksakof, 7 de julho de 1886. O Sr. Aksakof declara que esse pacote de chapas defeituosas, por ele comprado, não pro­vinha da casa Marion, onde tinha o hábito de comprá-las, pois se servia sempre de chapas compradas e trazidas por si próprio. Esse detalhe tem sua importância porque, se fosse admissível uma mistificação, ela só se daria com a suposição de que, tendo algum dos membros do círculo resolvido iludir o sábio russo, fosse entender-se com a casa Marion para fornecer chapas de antemão preparadas.

Ora, nesse dia, o Sr. Aksakof, tendo ido à casa Marion comprar chapas, soube que do modelo pedido não havia. Foi, portanto, comprá-las em outra parte, e, para não perturbar os membros do círculo, não lhes falou dessa circunstância. A prova era, pois, completa, absolutamente, e nenhuma suspeita de fraude podia macular essas experiências.


Fotografia do médium e de uma forma materializada à luz do magnésio

Resolvido a prosseguir em suas investigações sobre todos os gêneros possíveis de fotografia transcendental, o Sr. Aksakof, conhecedor dos trabalhos de Crookes e de suas experiências com a Srta. Cook, tentou obter fotografias nas quais aparecesse a figura do Espírito materializado ao lado da do médium.

O sábio russo continua:

Reunimo-nos, para a nossa primeira experiência, às 7 ho­ras da noite de 22 de julho, e, depois de jantarmos com o dono da casa, começamos os nossos preparativos. Para essa sessão tivemos uma sala, na qual, com cortinas, preparou-se um ga­binete. Era a sala de visitas, cuja entrada foi coberta por uma cortina de pelúcia presa por grosso cordão de seda, e dava para uma saleta onde, além dessa porta, havia uma janela dando para a casa vizinha. Para obter-se a obscuridade, as portas da janela foram fechadas e, depois, cobertas por um oleado e um pano de lã, seguros por pequenos pregos. Aí havia algumas cadeiras, um aparador e um piano, e a sala era semelhante aos outros compartimentos do terceiro andar, em que, anterior­mente, nos tínhamos reunido.

Antes que o dono da casa houvesse disposto o seu apare­lho, Eglinton assentou-se junto à abertura da cortina, e o foco da lente estava a tal distância que a forma inteira podia apa­recer na chapa. A quatro ou cinco passos da cortina, em frente à abertura, colocou-se uma mesinha redonda, à esquerda da qual estava o aparelho, e, para retirar a lâmpada da ação direta da luz do magnésio, pus na mesa uma pasta como an­teparo, prendendo na sua frente um refletor côncavo, metálico, de 7 polegadas de diâmetro.

Por mais de uma vez nos consultamos a fim de sabermos como clarearíamos a nossa sala suficientemente para vermos o que ia produzir-se e para atenuarmos o magnésio. Delibera­mos, afinal, aproveitar-nos de uma pequena lâmpada de álcool, com grosso pavio de algodão; depois de experimentá-la, acha­mos que essa luz era suficiente. Essa lâmpada foi colocada na mesinha, perto do refletor. Junto dela, pus algumas mechas e três tiras de magnésio de 7 ou 8 polegadas de comprimento, por mim mesmo preparadas. Elas estavam ligadas, por um fio de metal, a copos de vidro, e o Sr. N... (o amigo da família) ficou encarregado de acender, com a lâmpada, a tira do mag­nésio, logo que se desse o sinal, e de segurar esse cordão ardente diante do refletor, tendo o cuidado de fazer que os objetos que deviam ser fotografados ficassem dentro do espaço iluminado. Em experiências anteriores, que já mencionei, tínhamos certi­ficado por nós mesmos que, com o refletor, três tiras de magnésio davam luz bastante para obter-se bom resultado fotográfico.

Quando tudo ficou pronto, retirei-me com o dono da casa à saleta escolhida para servir de gabinete escuro. Aí, à clari­dade da lanterna vermelha, tirei duas chapas e marquei-as; o dono da casa colocou-as nos lugares convenientes e vol­-tamos ao salão, fechando atrás de nós a porta de entrada. Em seguida, entregou-me a chave, e eu guardei-a no bolso.

Tomamos os nossos lugares em semicírculo diante da cor­tina, a cinco ou seis passos de distância.

Acendemos a lâmpada de álcool e apagamos o gás. Eram dez horas da noite. Eglinton tomou o seu lugar; primeiro, numa cadeira diante da cortina; depois, retirou-se para trás da cortina, onde havia outra cadeira para si. Ali se conservou por mais de meia hora. Nada se produziu; afinal, ele saiu e começou a falar, em estado de êxtase, sob a influência de um de seus guias, que exprimiu o seu pesar pelo insucesso, acres­centando que seria necessária uma dúzia de sessões para obter o resultado desejado, e que eles duvidavam se realmente lhes assistia o direito de impor ao médium tal esgotamento de forças. Contudo, na próxima vez, fariam os maiores esforços; e, se alguém aparecesse, seria Ernesto, o principal guia do médium. isso disseram porque, conversando antes da sessão, eu tinha emitido a opinião de que, provavelmente, nessa espécie de prova, outra forma apareceria. Eglinton tornou a si alguns instantes depois e a sessão terminou.

A segunda sessão da série, a última de todas, foi fixada para 26 de julho de 1886. O resultado negativo das precedentes confirmou as minhas apreensões; fiquei totalmente convencido de que nada se produziria nessa nova ocasião. Reunimo-nos à mesma hora e, depois de todos os preparativos, fui, com o dono da casa, ao gabinete escuro; tirei do guardanapo duas novas chapas, marquei-as em russo - A. Aksakof - 14 de julho de 1886 -, e o dono da casa colocou-as como convinha. Tornando à sala, fechamos a porta e assentamo-nos na mesma ordem. Acen­demos a pequena lâmpada de álcool e apagamos o gás. Eglinton acomodou-se na cadeira diante da cortina e, bem depressa, caiu em êxtase e começou a falar. Nossos preparativos estavam ter­minados. Haviam prometido que todos os esforços seriam feitos para obter-se êxito, sem que, entretanto, o garantissem. Quando chegasse a ocasião de acender o magnésio, deviam, por sugestão, avisar o Sr. N..., o qual pronunciaria a palavra agora. Se a primeira experiência falhasse, devíamos ir ao gabinete escuro para a fotografia, e, então, esforçar-se-iam para dar-nos uma sombra feminina. Desejando aproveitar-me dessa última ocasião, dirigi ao médium a seguinte pergunta: Por que, na última reunião, obtivemos a apresentação de uma cabeça em atitude tão estranha? Responderam que o momento não era próprio para se tratar disso; depois o saberíamos.

As 21h55m, mais ou menos, Eglinton retirou-se para trás da cortina; eu podia ver a hora à luz da pequena lâmpada. Daí a pouco, Eglinton saiu; começou a concentrar suas forças, apro­ximando-se de nós e como se nos retirasse fluidos. Retirou-se de novo para trás da cortina e assentou-se na cadeira que correspondia à abertura da mesma, com a frente completamente vol­tada para nós. Movia-se muito, erguendo e abaixando as mãos. Vimos alguma coisa branca sobre a sua cabeça. Pancadas foram ouvidas: ficamos incertos, e elas fizeram-se ouvir de novo... De­vemos acender?... - Sim, responderam por pancadas. O mag­nésio foi aceso, o dono da casa descobriu as lentes, e vi, sob essa luz ofuscante, a forma de Eglinton parecendo dormir tranqüila­mente, com os braços cruzados. Em seu ombro esquerdo estava uma terceira mão, com um pedaço de véu branco, e, em sua cabeça, perto da testa, vimos uma quarta mão, que parecia completamente viva. Terminada a exposição, essas mãos não desapareceram, mas seguraram Eglinton pelas costas, e este de­sapareceu atrás da cortina. O dono da casa correu ao caixilho, e descobriu a outra chapa.

Eu tinha suposto que a sessão estava terminada, que se havia feito tudo o que era possível; mas, apenas o dono da casa se assentou, emergiu de detrás da cortina e avançou três ou quatro passos uma grande forma masculina, vestida de branco, com barba negra e turbante na cabeça. - É Abdulhah, notei eu. - Não, replicou o dono da casa, porque esta figura tem duas mãos. A forma de Abdulhah, que apareceu nas sessões de Eglinton, em S. Petersburgo, só tinha metade do braço es­querdo. Em conseqüência disso, a forma fez um sinal de assen­timento, movendo os seus dois braços; em seguida, cruzando-os sobre o peito e fazendo uma saudação de reconhecimento, desa­pareceu atrás da cortina. Alguns segundos depois, Eglinton apareceu. Ele deteve-se fora da cortina, e, atrás dele, mostrou­-se outra forma branca, a mesma que já tínhamos visto. Ambos se colocaram diante da cortina e uma voz disse: Luz! Pela segunda vez, o magnésio brilhou, e vi com espanto a grande forma abraçando e sustentando Eglinton com o seu braço esquerdo. Eglinton estava em profundo êxtase e mal podia conservar-se de pé. Eu estava assentado a cinco passos e, com a ofuscante luz do magnésio, pude ver perfeitamente o estranho visitante. Era um homem cheio de vida. Vi exatamente a pele viva do seu rosto, sua barba negra natural, suas espessas so­brancelhas e seus olhos brilhantes, com os quais olhava ardente e fixamente para a chama, que brilhou durante quinze segundos.

A figura vestia branco, dos pés à cabeça, estando esta coberta por um turbante. Com o seu braço esquerdo segurava Eglinton, e com a mão direita, o seu véu. Quando o Sr. N... bradou agora, para se tapar as lentes, a forma desapareceu atrás da cortina, mas não teve tempo para levar Eglinton, que caiu como um morto diante da cortina. A situação era crítica, mas não nos movemos, conhecendo que os médiuns estão sob um poder o qual não temos meios de dirigir. Bem depressa, a cortina abriu-se de novo, e a mesma forma apareceu pela terceira vez. Aproximou-se de Eglinton, ficando de pé, e, depois, inclinando-se um pouco sobre ele, começou a fazer passes sobre esse corpo imóvel. Contemplávamos em silêncio esse estranho espetáculo. Eglinton começou a erguer-se lentamente e, afinal, pôs-se em pé. A forma passou-lhe o braço ao redor da cintura e conduziu-o para trás da cortina. Daí a pouco, ouvimos uma voz muito fraca, a de Joey, um dos guias do médium, aconselhando-nos a expô-lo imediatamente ao ar e a dar-lhe aguardente e água. Eram 22h25m quando a sessão terminou: tinha durado trinta e cinco minutos. A dona da casa apressou-se em ir buscar água e, como a porta se achasse fechada, tive de ir abri-Ia. Eglinton permanecia estendido numa cadeira, em profundo êxtase, sendo absolutamente impossível tê-lo em pé. Conduzimo-lo para a sala de jantar, onde o colocamos em uma cadeira, perto de uma porta aberta; porém, ele rolou para o solo e foi agitado por convulsões. Tinha sangue nos lábios. Friccionamo-lo vigorosamente, demos-lhe sais a respirar, etc. Em um quarto de hora, ele, que se achava tão mal, voltou a si, respirou profundamente e abriu os olhos.

Nesse estado, confiei-o aos cuidados do dono da casa e da sua senhora e fui com o Sr. N... ao gabinete escuro para revelar as chapas. Logo que em uma delas o contorno das duas formas começou a aparecer, dirigi-me à sala de jantar para dar a Eglinton a boa nova, pois ele não podia vir conosco, mas, impacientemente, esperava notícias do resultado. Quando compreendeu que este era perfeito, suas primeiras palavras foram: Será isso bastante para a convicção do Sr. Von Hartmann? Respondi-lhe: Agora, acabaram-se as alucinações. Eglinton, porém, pagou caro o seu triunfo. Foi-lhe preciso uma hora para que ele estivesse apto de arrastar-se até à estação do metrô.

As fotografias preparadas apressadamente saíram perfeitas, sobretudo aquela em que se viam as quatro mãos. Eglinton havia feito em Londres o mesmo que fizera em S. Petersburgo: tinha suportado a ofuscante luz do magnésio com a maior tranqüilidade. As mãos pousadas sobre ele estão perfeitamente distintas na fotografia. A mão que descansa em seu ombro, mostra-nos uma particularidade estranha: parece que lhe falta a metade da frente e os dedos do meio. O mesmo defeito mos­trou-se na materialização.

A segunda fotografia é, infelizmente, menos distinta. As duas formas em pé destacam-se um pouco, ainda que não sejam totalmente perceptíveis à vista. Entretanto, para o fim pro­posto, o resultado é inteiramente satisfatório.


Observação do Sr. Aksakof


Assim, meus esforços em Londres foram coroados de êxito; obtive séries completas das fotografias prometidas e devo to­talmente esse êxito ao círculo que teve a bondade de prestar-se a auxiliar-me nas experiências. Eu sabia que a primeira con­dição para obter-se bons fenômenos- mediúnicos é o grupo; sabia que tudo dele depende, porém ainda não tinha tido a ocasião de convencer-me dessa verdade de um modo tão seguro. A facilidade, a pontualidade, a força e a exatidão com que se deram os fenômenos excederam tudo o que havíamos visto em S. Petersburgo.

Além disso, à disposição harmoniosa desse círculo aliavam­-se as circunstâncias importantes de já eu ter obtido nele o fenômeno de fotografia transcendental, e de existir aí o ele­mento mediúnico necessário para o êxito das experiências que eu ia fazer. Não me devo estender mais sobre a importância e a vantagem de se fazerem essas experiências em uma casa particular. Não é fácil a um estrangeiro achar, para esse fim, um lugar conveniente. Se nos tivéssemos acomodado em uma casa onde já se fizessem experiências, as nossas teriam perdido metade do seu valor. De modo que os excelentes serviços que de tão boa-vontade me foram prestados tiveram para mim grande importância, e eu lanço mão desta ocasião para expri­mir a essas pessoas a minha profunda e sincera gratidão, e isso não só em meu nome, mas no de todos aqueles que desejam o progresso do Espiritismo.

É necessário acrescentar que ninguém em Londres, com exceção dos imediatamente interessados, sabia coisa alguma a respeito dessas fotografias, que foram obtidas na casa do Sr. X... Essas sessões foram totalmente privadas, e nenhuma no­tícia delas foi comunicada à imprensa inglesa. Quando fui admi­tido nesse círculo, foi sob a condição de não publicar os nomes dos seus membros. Quando terminamos as nossas sessões, o Sr. X... disse-me que, à vista dos magníficos resultados obtidos, se eu julgasse necessário mencionar seu nome, ele dispensava o seu incógnito por mais tempo. Respondi que, certamente, o nome do dono da casa em que as nossas experiências se tinham efetuado seria algo desejável para completar a narrativa, mas que eu lhe dispensaria o sacrifício, pois que o era no estado atual da questão, quando se via que Crookes e Wallace não tinham atraído a crença pública para os fenômenos. Exprimi ao Sr. X... a minha profunda convicção de que a publicação do seu nome e da sua morada não teria utilidade, pois ninguém nisso acreditaria, a não ser aqueles que já eram crentes ou que o conhecessem pessoalmente; e que, além disso, ele ia sujeitar­-se às importunações dos zombadores e dos curiosos de toda espécie. Contudo, sugeri que talvez fosse melhor eu poder dizer, sem publicar-lhe o nome, que tinha a sua autorização para comunicá-lo em particular às pessoas interessadas na matéria e que eu julgasse dignas de confiança. Ficamos de acordo a este respeito. Quanto aos incrédulos, é seu hábito suspeitar de fraude os médiuns profissionais, como tendo no fato um inte­resse material. É claro que, nas minhas experiências, Eglinton não podia fazer o que era necessário para pôr em prática uma fraude. Pode alguém querer supor que ele estivesse de combi­nação com os membros do círculo e mesmo com o negociante que vendeu as preparações para a fotografia; mas, o Sr. X... é um homem muito rico, independente e da mesma posição que eu. A possibilidade de uma fraude de sua parte, teria sido de difícil execução e arrastaria complicações, motivo bastante para fazê-la descobrir. Não se podia aí tratar de um interesse ma­terial. Que interesse, pois, podia ter ele em me enganar? difícil conhecê-lo. Por que quereria iludir-me? Era mais fácil e lógico supor que o fraudulento fosse eu, e o motivo é evidente: tendo-me devotado ao Espiritismo, eu deveria defendê-lo a todo custo. Havia ido a Londres, tinha obtido todas essas fotogra­fias com Eglinton e agora publicava os nossos trabalhos.

A incredulidade, todavia, nem me surpreende nem me con­funde. Ela é inteiramente natural e escusável. As convicções não são devidas ao acaso, e, sim, ao resultado do trabalho de uma vida, de uma época inteira. A crença nos fenômenos da natureza não se adquire com a razão e a lógica, mas pela força do hábito, e a força desse hábito faz que o maravilhoso deixe de ser maravilha.

Devo, sobretudo, dizer que o meu objetivo imediato, em­preendendo as experiências que acabo de descrever, era res­ponder a um homem que respeita o testemunho dos outros, reconhece-lhes o valor e incita os que se interessam pelos fenômenos mediúnicos a fazer experiências semelhantes. Re­cordarei as palavras seguintes do Dr. Von Hartmann, no Psy­chische Studien, número de 1885, pág. 50:

É, certamente, uma questão do mais alto interesse teórico saber se um médium é ou não capaz de excitar em outrem a alucinação de uma figura e bem assim representar, de qualquer maneira que seja, uma materialização rarefeita, de um modo objetivo, no espaço real de uma reunião comum a todos os assistentes, projetando, para essa formação, a matéria do seu próprio organismo, depois construindo a sua forma. Se a esfera máxima da ação de um médium tiver um limite intransponível, a prova da realidade objetiva dos fenômenos de materialização poderia ser fornecida pelas produções mecânicas de um efeito durável e colocadas fora dos limites da ação do médium. Como este, porém, não é o caso, e como, além disso, nunca se vê os fenômenos de materialização produzirem-se além da esfera física de ação, só a prova fotográfica poderá estabelecer o fato de que tal fenômeno apresenta superfície capaz de refletir a luz num espaço objetivo.

Uma vez que o material restrito do médium não nos oferece segurança, deve-se procurar obter na fotografia as figuras reunidas do médium e do fantasma, antes de se poder admitir a objetividade das aparições percebidas somente pela vista dos espectadores. (Spiritisme, pelo Dr. Von Hartmann.)

Era esse o propósito que eu tinha em vista e que, enfim, foi obtido nas próprias condições impostas a nós pelo Dr. Von Hartmann. Acredito que ele próprio, apreciando as condições fí­sicas e morais que a prova fotográfica reclama, e que foram fornecidas, acha-las-á suficientes para reconhecer a realidade objetiva da materialização. Para evitar qualquer erro de inter­pretação, citarei as suas palavras:

Para essa prova fotográfica, entendo não se dever admitir que algum fotógrafo de profissão ou algum médium trabalhe no aparelho com as chapas ou com o caixilho, de modo que toda suspeita de uma preparação antecipadamente feita no caixilho ou na chapa, antes de ser nesta estendido o colódio, ou de qualquer outro artifício, não possa ser admitida. Essas precauções, ao que eu saiba, ainda não foram tomadas; em todo caso, elas não têm sido mencionadas nos relatórios aparecidos, nem a sua importância tem sido reconhecida pelos escritores.

Sem elas, porém, uma chapa negativa em que o médium e a aparição sejam visíveis simultaneamente não guarda o me­nor valor. As cópias positivas de tais placas, por mais que as multipliquem, não podem, naturalmente, ser aceitas como evi­dência.

Essas condições, entretanto, como se vê, referem-se à foto­grafia transcendental, que é a fotografia da materialização invisível para os assistentes. Elas são supérfluas para a foto­grafia ordinária de uma materialização visível para todos os espectadores da sessão. As narrativas a respeito das fotografias transcendentais, nas quais o médium e as aparições foram vi­siveis simultaneamente, são numerosas; mas, relativamente às da segunda ordem, a minha narrativa parece ser a mais com­pleta que até hoje apareceu.

Essas experiências tão criteriosamente dirigidas, tão hones­tas e demonstrativas estabelecem com a máxima evidência o fato da fotografia espírita.

Não só os trabalhos de Aksakof confirmam todas as inves­tigações anteriores sobre o assunto, mas também nos oferecem a prova absoluta da possibilidade de se fotografar em plena obscuridade. Pois bem! Esses notáveis trabalhos passaram em silêncio: nenhuma voz se ergueu na ciência oficial para discutir esses fatos ou dar-lhes uma explicação plausível; todos os pontífices do saber recuaram diante desses fenômenos impre­vistos, que vinham destruir suas teorias materialistas, espe­rando, sem dúvida, que jamais a opinião pública julgasse o seu procedimento.

Entretanto, chegou o dia em que é preciso se expliquem. Ou todas as narrativas precedentes são falsas, e todos os gran­des homens citados não passam de pobres iludidos, vítimas dos charlatães, ou esses homens de ciência viram e é tempo de expelir esse torpor dos que estão satisfeitos com o seu saber, de abandonar suas teorias caducas, substituindo-as por ensi­nos mais verdadeiros, mais justos, mais em harmonia com as descobertas contemporâneas.

Eis, agora, uma outra ordem de fenômenos que apóiam e confirmam toda a série de manifestações espíritas que até aqui expusemos.


Impressões e moldagens de formas materializadas

Depois das numerosas fotografias de Espíritos obtidas em todos os países, não é mais plausível a dúvida quanto à sua existência objetiva, resultando desses fenômenos a certeza de que a alma, depois da morte do corpo, não é essa entidade que as religiões e as filosofias nos tinham habituado a considerar.

O Espiritismo ensina, há muito tempo, que o eu consciente ou alma está envolvido em um corpo sutil chamado perispí­rito. (53)

Esse perispírito é o molde fluídico no qual se incorpora a matéria durante a vida; é ele que, sob o impulso da força vital, mantém o tipo específico e individual, porque é invariável no meio do fluxo incessante da matéria orgânica. Esse perispírito não se destrói na morte, mas se conserva intacto em plena desorganização da matéria; é nele que se acham gravadas as conquistas da alma, de modo que esta possa recordar-se do passado.

O Espírito é capaz, em certas condições, de acumular em seu perispírito a força vital suficiente para dar uma vida mo­mentânea ao organismo fluídico, o qual, com a matéria que retira do médium, adquire a tangibilidade de um corpo qual­quer; é uma criação verdadeira, mas que só tem uma duração efêmera, visto ter sido executada fora dos processos habituais da natureza. (54)

Esse perispirito, concretando-se, pode deixar impressões em moldes de parafina, na argila ou em folhas de papel ene­grecido. Vamos apresentar exemplos dessas diversas manifes­tações.

Antes de obter moldes de formas materializadas, verificou­-se que os Espíritos podiam deixar impressões provando a sua tangibilidade. Eis o testemunho de Zollner (55)

Em um vaso cheio de farinha finíssima, achou-se a im­pressão de uma mão, com todas as sinuosidades da epiderme distintamente visíveis; ao mesmo tempo, uma porção da fari­nha, com os traços de uma grande e forte mão, foi deixada na calça do Sr. Zollner, na altura do joelho, onde ele se tinha sentido seguro um minuto antes. As mãos de Slade estavam constantemente sobre a mesa e, examinadas, não tinham traço algum de farinha. A impressão era a de uma mão maior que a de Slade.

Obteve-se uma impressão mais durável com o papel ene­grecido à luz de uma lâmpada de petróleo, pregado numa pran­cheta e sobre o qual apareceu o sinal de um pé descalço; a pedido dos experimentadores, Slade levantou-se, tirou seus sa­patos e mostrou seus pés, mas nenhum traço negro de fumo ali se encontrou. Seu pé, que foi medido, tinha quatro centíme­tros menos que a impressão. Slade e Zollner repetiram a expe­riência, empregando uma lousa em vez da prancheta, e a impressão recebida foi fotografada e reproduzida.

Zollner chama a atenção para o fato de a impressão ser, evidentemente, a de um pé que foi comprimido pelas botinas, estando um dedo tão coberto pelo outro que se tornava indistin­to. Essa impressão não podia ter sido produzida pelo pé de Slade...

Uma tentativa para obter impressões do pé foi bem suce­dida sem o contacto de Slade, ainda que ele tivesse declarado que a coisa parecia-lhe impossível; o Sr. Zollner colocou folhas enegrecidas com fumaça da lâmpada no interior de uma lousa, e esta foi posta em seus joelhos, a fim de se a ter à vista. Cinco minutos depois, em uma sala bem clara, todas as mãos estando sobre a mesa, o Sr. Zollner notou que, por duas vezes, se fez uma pressão na lousa depositada em seus joelhos. Após três pancadas na mesa, anunciando que tudo estava acabado, abriu­-se a lousa, e duas impressões, uma de pé direito e outra de um pé esquerdo, foram encontradas no papel disposto de cada lado.


Em Nápoles


Eis, agora, impressões deixadas em farinha e em argila. (56)

O professor Chiaia, de Nápoles, também obteve materiali­zações de Espíritos por meio da médium Eusápia Paladino. Não satisfeito de fotografar Espíritos, quis conservar uma lem­brança ainda mais comprobativa: a própria forma da apari­ção. Para isso, imaginou a disposição seguinte: Tomando um prato cheio de farinha, pediu que o Espírito aí imprimisse o seu rosto, a sua mão: o resultado foi conseguido, mas um tanto confuso por causa da friabilidade da substância empre­gada. Então, teve ele a idéia de utilizar-se da argila dos escultores, e perguntou se o Espírito poderia ali moldar uma cabeça. A vista da resposta afirmativa, a argila foi posta numa mesa coberta com um véu. A sala achava-se em obscuridade quase completa; mas, as cinco pessoas que assistiam à experiência seguraram as mãos uma às outras e, por acréscimo de prudência, tocaram também mutuamente os pés. Assinalan­do o Espírito a sua presença, pediu-se-lhe que produzisse o efeito desejado, no que ele consentiu, e, depois de três minutos, declarou que estava terminado.

Abriram-se as janelas e viu-se, então, a massa de argila cavada ou, melhor, comprimida e prestes a receber o gesso. A moldagem apresentou uma bela cabeça de homem sem barba, com expressão de grande melancolia. Um escultor, a quem a mostraram, declarou que lhe seria preciso um dia de trabalho para reproduzir em relevo tal obra. A figura estava coberta por um véu, cujas malhas se viam distintamente no gesso e que ti­nham grande analogia com um tecido de fio. Não correspondia a nenhuma das fazendas que se achavam, então, na sala ou que algumas das pessoas presentes trouxessem em seu vestuário.

Essas experiências reproduziram-se muitas vezes e a mol­dagem deu sempre resultado análogo ao pedido feito, com maior ou menor grau de exatidão e nitidez. Pedia-se ora a frente ou o perfil de um rosto, ora a mão de um homem ou de uma criança, e, em quase todas as vezes, isso foi satisfeito. (57)


Na América


Vamos fornecer provas de que o perispírito é bem o molde fluídico do corpo e verificaremos que, no espaço, ele não perdeu nenhuma das suas propriedades plásticas; basta forne­cer-lhe a força vital e a matéria para que o corpo material se reproduza total ou parcialmente. (58)

Recorremos ainda ao Sr. Aksakof, que garante a autentici­dade dos fenômenos seguintes, assim como a perfeita honora­bilidade e a capacidade científica dos observadores. Veremos ainda uma vez que, como todos os outros fatos espíritas, estes também se produziram em todos os países.

Eis o modo de operar, vulgarmente utilizado nessas circuns­tâncias:

Duas vasilhas, uma com água fria e outra com água quente, são colocadas na sala onde se faz a experiência; na superfície da água quente flutua uma camada de parafina fundida. Se se quiser obter, por exemplo, um molde de mão materializada, pede-se ao Espírito que mergulhe a sua mão na parafina fluida e, imediatamente após, na água fria, e que repita por muitas vezes essa operação. Desse modo se forma na superfície da mão uma luva de parafina, de uma certa espessura. Quando a mão do Espírito se desmaterializa, deixa um molde perfeito que se enche de gesso. Basta, depois, mergulhar tudo em água fervendo para que, fundindo-se a parafina, reste uma impres­são exata e fiel do membro materializado. Tal experiência, de­senvolvida com as precauções necessárias, dar-nos-á, de um modo absolutamente demonstrativo, a cópia durável e minuciosa do fenômeno temporário de uma aparição tangível.

A idéia da obtenção desses moldes é devida ao Sr. Denton, professor de geologia assaz conhecido na América. Foi em 1875 que esse experimentador obteve, pela primeira vez, o molde de um dedo. Eis como ele descreveu o fenômeno em carta dirigida ao Banner of Light, e reproduzida pelo periódico The Medium, em 1875, pág. 17.

Eu soube, há algum tempo, que, quando o dedo é mergu­lhado na parafina derretida, sendo esta em seguida resfriada, pode-se destacá-la e, no molde assim formado, deitar gesso, obtendo-se, dessa maneira, uma perfeita reprodução do dedo. Dirigi ao Sr. J. Hardy uma carta, informando-o de que eu conhe­cia um bom processo de obter moldes e pedindo-lhe autorização para assistir às sessões da Sra Hardy, a fim de tentar obter o molde das mãos do Espírito que ali, com tanta freqüência, se manifestava. Convidado, compareci em sua residência, munido de parafina e gesso, e, tomadas as convenientes disposições, co­meçamos as experiências.

Não sabendo o gênero de experiência que o professor Den­ton queria tentar, não se pode acusar o médium de haver, com antecedência, preparado as coisas.

Colocou-se no centro da sala uma grande mesa, que foi coberta com um pano acolchoado e com a capa do piano, de modo a evitar-lhe a luz tanto quanto possível. Debaixo da mesa colocou-se um balde de água quente, em cuja superfície flutua­va a parafina derretida. O Sr. e a Sra Hardy e eu assentamo­-nos ao redor da mesa e, em plena luz, pousamos as mãos sobre ela; ninguém mais se achava presente.

No fim de pouco tempo, percebemos um movimento na água e, de conformidade com uma comunicação recebida por pancadas, a Sra Hardy pôs suas mãos a algumas polegadas da mesa, entre o pano acolchoado e a capa do piano; assim se recebeu, com intervalos variados, moldes de quinze ou vinte dedos, cujas dimensões variavam, desde as de uma criança até as de um gigante; mais da metade desses dedos era de dimen­sões maiores que os da médium.

Foram reproduzidos todos os traços da pele, os sulcos das falanges, de um modo muito distinto. Disseram-nos que o maior era o polegar de Big Dick; este apresentava justamente a dupla grossura do mPu no começo da unha, ao passo que o menor, com a unha perfeitamente definida, era um dedinho gordo que, aparentemente, só podia pertencer a uma criança de um ano de idade.

Estou perfeitamente certo de que, enquanto esses moldes eram obtidos, a mão da médium achava-se distante cerca de 2 pés da parafina. Muitos moldes estavam ainda quentes no momento em que a Sr. Hardy retirava-os das mãos que se apresentavam; muitas vezes, a parafina tinha tão pouca con­sistência que o molde ficava inutilizado.

Desejo chamar a atenção dos Eddys, dos Allan Boy e de outros médiuns de efeitos físicos para este processo pelo qual os cépticos quanto à realidade das formas apresentadas podem convencer-se, visto ficar demonstrado que elas são distintas das do médium. Se moldagens de mãos maiores que as de qualquer homem podem ser assim obtidas, como acredito, podem também ser produzidas a distância, fornecendo, desse modo, uma evi­dência irresistível.
Wellesley, Mass. William Denton.
Operando do modo acima descrito, obtiveram-se moldes de mãos inteiras e de pés, com a maior variedade de conforma­ções, em grande número de sessões.

As condições observadas nas experiências e os resultados obtidos foram integralmente satisfatórios; a crítica, todavia, esforçou-se em descobrir aí a fraude, porque acreditava por força haver fraude.

Em primeiro lugar, sugeriu-se que a médium podia ter 'anteriormente preparado os moldes, trazendo-os às sessões e fazendo com que eles passassem por ser ali obtidos.

Para afastar essa suposição, o professor Denton recorreu à prova seguinte: pesou a massa de parafina antes e depois da sessão, achando o mesmo peso nos dois casos. Esta expe­riência foi repetida por três vezes publicamente, diante de gran­de número de pessoas, em Boston, em Charlestown, Portland, Baltimore, Washington, etc.; sempre com êxito completo.

Então, surgiu uma outra objeção: a médium podia ter sub­traído a quantidade de parafina necessária, com os pés ou as mãos, e escondê-la em algum lugar; exigiram que ela fosse encerrada num saco; assim se fez. Nas vinte sessões públicas seguintes, a médium foi encerrada num saco, fortemente amar­rado ao seu pescoço, e sempre sob as vistas da Comissão esco­lhida. Bem depressa, essa medida foi julgada insuficiente; insinuaram que a médium podia ter desfeito uma parte na costura do saco e tornado a fazê-la, depois de se haver utili­zado de suas mãos, apesar de a Comissão nada de semelhante ter observado. Para afastar essa objeção, inventou-se uma nova condição que devia fornecer a mais absoluta prova da reali­dade do fenômeno: o molde devia ser produzido dentro de uma caixa fechada. Efetivamente, como essa prova deve ser consi­derada a mais correta e concludente, daremos a descrição da caixa que foi preparada para as experiências, segundo as indi­cações do Dr. Gardner. Eis o testemunho do professor Denton:

Essa caixa, de forma retangular, mede 30 polegadas de comprimento e 24 de largura. Os quatro montantes da estrutu­ra são de madeira, do mesmo modo que o fundo e a tampa; a parte compreendida entre a tampa e o gradeamento metálico é de madeira, e mede 8,5 polegadas de altura.

Essa parte apresenta orifícios afastados cerca de uma po­legada um do outro, e a cada um deles se deu, no começo, um diâmetro de 3/4 de polegada, sendo, depois, esse diâmetro redu­zido de 1/4 por meio de um forro interior. O fio metálico, que cerca a caixa, é inteiriço, tendo as suas extremidades presas no mesmo canto, coberto por forte peça de madeira solidamen­te pregada. A tampa tem duas portas: uma fixada por dois parafusos; a outra por uma corrediça.

O gradeamento é de malha forte, medindo 3/8 de polegada. Depois de muitas experiências coroadas de êxito, a atenção foi atraída para certos defeitos da caixa, que foram reparados de modo a evitar-se objeções. As tampas foram munidas de duas fechaduras, garantindo um fechamento perfeito e seguro. Os orifícios da madeira foram reduzidos, como dissemos acima, e nenhum defeito ficou sem correção. Fomos minuciosos na des­crição da caixa, porque a consideramos como instrumento de uma prova inteiramente inatacável quanto à boa-fé do mé­dium. Seguem os detalhes da experiência.

Na segunda-feira, 1 de maio de 1876, reuniram-se na resi­dência do Sr. Hardy, Concord Square n.° 4, o Coronel Frederick A. Pope, Boston, John Wetherbee, J. S. Drapper, Epes Sargent, as Sras. Dora Brigham e Hardy. A caixa foi cuidadosamente examinada. O Coronel Pope, experiente em marcenaria, vol­tou-a e examinou-a por todos os lados, interior e exterior­mente, os outros observadores fazendo a mesma coisa. Teve-se o especial cuidado de verificar até que ponto, empregando-se um instrumento de ferro, era possível alargar a malha do gra­deamento metálico e aproximá-lo de novo, de modo a permitir a introdução de um objeto, cujo diâmetro era maior meia po­legada que o da malha. Isso foi julgado impossível. O alarga­mento da malha, para a introdução de uma mão, não podia ser feito sem se desviar e separar-se, de modo reconhecível, os fios da malha.

Satisfazendo a todos a construção da caixa, o Sr. Wetherbee encheu um balde de água fria e clara, o qual foi posto dentro da caixa, depois de ter sido examinado. O Coronel Pope levan­tou o balde que continha água quente, sobre a qual flutuava uma camada de parafina, e colocou-o, depois do exame, na caixa; tínhamos, igualmente, examinado a parafina pelo tato: agitamo-la e achamo-la em fusão e bem quente. As duas portas da tampa foram, então, abaixadas, parafusadas e fechadas; para maior segurança, ainda que a precaução fosse inútil, pois a médium estaria sempre diante de nós, lacramos os orifícios das fechaduras e as junturas da tampa. Estando clara a sala, po­díamos ver, e vimos realmente, através do gradeamento metáli­co, que, com exceção dos baldes e do seu conteúdo, nada mais havia na caixa. Com o fim de produzir-se a obscuridade neces­sária para a operação, lançou-se um véu sobre a caixa, ao passo que a luz que iluminava a câmara foi moderada, mas somente até ser possível distinguir a hora nos nossos relógios, as nossas fisionomias e os nossos movimentos, bem como os da médium. A Sra Hardy tomou uma cadeira e colocou-se em frente do círculo, justamente por detrás da caixa.

O Sr. Hardy conservou-se afastado de todos, e sua liberdade de ação não foi sujeita a restrições. Não houve cântico nem ruídos, mas, durante todo o tempo, se conversou em voz baixa. A Sr? Hardy estava em seu estado normal, alegre e sem preo­cupações; a harmonia do círculo era perfeita, e todos os olhos observavam a médium. Na ocasião, se fizéssemos uma pergunta à força operante, a resposta teria vindo por pancadas.

Afinal, depois de quarenta minutos de espera, uma série rápida de alegres pancadinhas anunciou-nos a obtenção de alguma coisa. Levantamo-nos todos, erguemos o véu e, através do gradeamento metálico, descobrimos, flutuando no balde dágua, o molde perfeito de uma grande mão. Examinamos, então, os baldes e achamo-los intactos. A caixa foi ainda sujeita a rigorosa observação, mas tudo se achava em perfeito estado. Tiramos o lacre das fechaduras, abrimos a tampa, retira­mos os baldes e, de um deles, o molde. Era exatamente um molde, e cremos que não há meio de fugir-se à convicção de que ele foi formado ali mesmo por uma força capaz de mate­rializar os membros de um organismo inteiramente distinto do corpo físico da médium. (59)


Na Inglaterra


O Dr. Nichols, servindo Eglinton de médium, fez uma ex­periência em condições idênticas. Nesta experiência não só as mãos e os pés do médium estiveram visíveis, mas também se obteve um resultado cuja importância está no fato de as moldagens obtidas na sessão representarem mãos que foram reconhecidas.

Eis o artigo do Dr. Nichols, no Spiritual Record, de de­zembro de 1883.

Durante a estada do Sr. Eglinton em minha casa, em South Kensington, tentamos a experiência para obter moldes de mãos dos Espíritos. Minha filha, Willie, cujos desenhos e escrita j á apresentei, prometeu tentar a experiência e apre­sentar-nos um molde da sua mão. Fizemos, para isso, os prepa­rativos necessários. Compramos 2 quilos da melhor parafina, como a empregam na iluminação, substância branca, cerosa, porém um pouco mais quebradiça que a cera; fundi-a e derra­mei-a em um balde meio cheio de água quente para conservá-la no estado fluido. Enchi, depois, um outro balde de água fria.

Tínhamos reunido um círculo escolhido de cerca de doze pessoas; o único estrangeiro era um médico alemão, o r. Friese, que se interessava pelas investigações espíritas. Uma cortina isolava um canto da nossa sala de sessões. O Sr. Eglinton assen­tou-se atrás dela, no meio, no ponto de junção das cortinas, tendo, à sua frente, colocado o Dr. Friese, que lhe segurava as mãos. A luz do gás era brilhante a ponto de nos vermos perfeitamente. Quando tudo ficou pronto, eu trouxe do meu gabinete os dois baldes e coloquei-os no canto da sala, por trás da cortina, distante 6 pés de Eglinton, cujas mãos, como acima dissemos, foram seguras pelo Dr. Friese. As pessoas e os objetos estavam colocados na ordem seguinte:

Os dois baldes. O Sr. Eglinton. A cortina

O Dr. Friese

Os assistentes ficaram sentados o mais longe possível des­ta última. Todos estavam distintamente visíveis; ninguém se aproximava nem podia aproximar-se dos baldes. Ao fim de alguns segundos, ouvimos vozes no canto da sala, junto dos baldes, e barulho na água. Depois, feitos os sinais por meio de golpes, corri e retirei os baldes que estavam atrás da cortina. Na água fria boiavam duas mãos de parafina solidificada. Uma delas assemelhava-se a uma espessa luva branca de alabastro; a outra era semelhante, porém menor. Quando levantei a maior, verifiquei que ela estava oca e que apresentava uma forma de mão humana; a menor era um molde de mão de criança. Uma dama presente reconheceu nesta uma particularidade de for­mação que assinalava a mão de sua filha, afogada na Africa austral com a idade de cinco anos. Conduzi os dois baldes para o meu gabinete, repondo os moldes na água; fechei a porta e pus a chave no meu bolso.

No dia seguinte pela manhã, o gesso fino que mandamos vir de Paris foi diluído e introduzido no molde grande. Para obter a moldagem, o molde tinha de ser sacrificado. Um molde de mão humana com todos os seus dedos separados exigiria muitos predicados, a fim de serem visíveis na moldagem obtida. O que eu fiz, consistiu apenas em introduzir o gesso liqüefeito no molde, deixá-lo endurecer e sacrificar o molde, fazendo-o derreter na água quente. Esse belo molde da mão de minha falecida filha Willie, com seus dedos delicados e artísticos e seu ar gracioso, justamente como os tinha ela em vida, acha-se hoje dentro de uma redoma, sobre a minha mesa. Quando coloco a minha mão na mesma posição, a semelhança da moldada, ainda que menor um terço, torna-se logo evidente; não se asse­melha às mãos de convenção feitas pelos escultores: é mão verdadeira, natural, anatômica, com cada um dos seus ossos e tendões, apresentando claramente marcados os mais finos traços da pele. Era a mesma mão que eu conhecera durante a sua vida mortal e que tantas vezes eu tinha visto e sentido quando se materializava.

Cumpre lembrar que o Espiritismo não inventou nenhuma teoria para explicar os fatos: foram os próprios Espíritos que descreveram o seu estado no espaço e que, pelas experiências a que prestavam seu concurso, estabeleceram as condições em que vivem, depois de terem abandonado a Terra.

Verificamos como Katie King, o Espírito materializado, era verdadeiramente uma mulher: soubemos que ela respirava, que seu coração batia, em uma palavra: que tinha todos os caracteres fisiológicos de um ser vivo. Agora, vemos os moldes de parafina reproduzirem membros do corpo, com seus ossos, ten­dões e mesmo os menores traços da pele; igual observação é aplicável às impressões deixadas pelo pé descalço, na experiên­eia de Zollner com Slade.

Que se concluir desses fatos, a não ser que o perispírito, isto é, o invólucro fluídico da alma, é o molde em que se incor­pora a matéria terrena durante a encarnação? Na morte, os elementos que formavam o corpo humano voltam à natureza, mas o invólucro indefectível do Espírito subsiste e conserva todas as aptidões e propriedades que tinha na Terra. Forneça­-se-lhe matéria e força vital, e logo esse organismo entra em função e reproduz o indivíduo; essa vida, porém, é momentâ­nea, temporária, porque é anormal; sua duração é também muito reduzida, e raramente o fenômeno atinge a intensidade que vimos em casa de William Crookes.

Em outra obra, intitulada A Evolução Anímica, estuda­mos minudentemente todos esses fenômenos, mostrando a ação do perispírito durante a vida. Indicamos ali como esse peris­pirito pôde adquirir suas propriedades funcionais e, ao mesmo tempo, estabelecemos suas relações com o Espírito, do qual ele constitui o que chamamos o inconsciente.

Em relação à explicação espírita, não é inútil mostrar como os sábios incrédulos, obrigados a se dobrarem à evidência dos fatos, tentam forjar teorias para explicar esses fenômenos, tão estranhos às suas idéias sobre a força e a matéria. Eis a narra­tiva das experiências do professor Lombroso, feita por ele mesmo.


O Espiritismo e a Psiquiatria

Explicação psiquiátrica de certos fatos espíritas, pelo professor C. Lombroso


Poucos homens de ciência foram, mais do que eu, incrédu­los acerca do Espiritismo. Para se convencerem disso, basta que consultem a minha obra Pazzi ed Anomali (Loucos e Anormais), e bem assim os meus Studi sul Ipnotismo (Estu­dos sobre o Hipnotismo), nos quais me deixei empolgar até insultar os espíritas. Achava e ainda acho completamente inadmissíveis muitas asserções dos espíritas, tais como a pos­sibilidade de se fazer conversar e agir os mortos. Nada mais sendo os mortos que um acúmulo de substâncias inorgânicas, dizer-se isso equivale a pretender que as pedras pensem ou possam falar.

Uma outra razão da minha incredulidade era a obscurida­de em que se efetuam, quase sempre, tais experiências, pois um fisiologista não admite senão os fatos que pode observar em plena luz.

Mas, depois de ter ouvido alguns sábios negarem os fatos do hipnotismo, como a transmissão do pensamento ou a trans­posição dos sentidos, que, pelo fato da sua raridade, não deixam, por isso, de ser positivos, e que por mim foram constatados de visu, fui levado a perguntar a mim mesmo se o meu cepti­cismo em relação aos fenômenos espíritas não era da mesma espécie que o dos outros sábios relativamente aos fenômenos hipnóticos.

Tendo eu sido convidado para examinar os fatos produzi­dos em presença de uma médium realmente extraordinária, a Sra Eusápia, aquiesci com todo o empenho, pois que assim podia estudá-los com o concurso de alienistas distintos (Tam­burini, Virgilio, Bianchi, Vizioli), que eram quase tão cépticos quanto eu nessa matéria e que poderiam auxiliar-me na veri­ficação dos fenômenos.

Tomamos as maiores precauções. Tendo nós examinado a médium segundo o processo da psiquiatria moderna, constata­mos nela uma notável obtusidade do tato (3, 6), perturbações histéricas, talvez mesmo epilépticas, e traços de uma lesão profunda no parietal esquerdo.

Os pés e as mãos da Sra Eusápia foram imobilizados pelo Dr. Tamburini e eu, por meio dos nossos pés e das nossas mãos.

Começamos e terminamos as nossas experiências com a lâmpada acesa e, de tempos a tempos, um de nós riscava, de improviso, um fósforo, para evitar qualquer embuste.

Os fatos observados foram assaz singulares; pudemos veri­ficar, em plena luz, o levantamento de uma mesa e das nossas cadeiras, e achamos que o esforço necessário para fazer isso equivalia a um peso de 5 a 6 quilos. A pedido de um dos assis­tentes, o Sr. Ciolfi, que já conhecia a médium de longa data, fizeram-se ouvir pancadas no interior da mesa. As pancadas (na linguagem convencional entre os espíritas) respondiam perfeitamente às perguntas que se faziam a respeito da idade das pessoas presentes e dos fatos que deviam acontecer, e que aconteceram efetivamente, dizendo que eles eram produzidos por um Espírito.

Feita a obscuridade, começamos a ouvir pancadas mais fortes no meio da mesa e, pouco depois, uma campainha, colo­cada num aparador distante a mais de um metro de Eusápia, começou a tocar no ar e por cima das cabeças dos assistentes, descendo, depois, sobre a mesa. Passados alguns momentos, ela foi colocar-se num leito situado a 2 metros da médium. Nesse tempo, a pedido dos assistentes, enquanto soava a campainha, o Dr. Aseenti foi colocar-se por trás da Sra Eusápia e riscou um fósforo, de modo que pôde ver a campainha suspensa no ar e indo cair atrás da médium.

Depois, ainda na obscuridade, vimos uma mesa mover-se e, enquanto as mãos da médium estavam sempre bem seguras pelo Dr. Tamburini e por mim, o professor Vizioli sentia que lhe puxavam o bigode, que lhe batiam nos joelhos, contactos estes que lhe pareciam provir de uma mão pequena e fria.

Ao mesmo tempo, senti puxarem a cadeira em que eu es­tava sentado e, em seguida, deixarem-na.

Uma pesada colcha, saindo da alcova, distante a mais de um metro da médium, veio a mim, de súbito, como que impelida pelo vento, e envolveu-me completamente. Busquei desem­baraçar-me dela, mas só com dificuldade consegui isso.

Os outros assistentes observaram, na altura de 10 centíme­tros, acima da minha cabeça e da do professor Tamburini, pequenas chamas amareladas. O que mais me admirou foi o transporte de um prato cheio de farinha, efetuado de modo que esta ficou coagulada como gelatina. Esse prato tinha sido posto na alcova, afastado mais de um. metro e meio de nós; a médium tinha pensado no deslocamento do prato, mas para lan­çar-nos ao rosto a farinha.

No meio de suas convulsões, a Sra Eusápia tinha dito: Cuidado, vou lançar aos vossos rostos a farinha que aqui se acha.

Reacendendo a lâmpada, rompemos a cadeia que formáva­mos ao redor da mesa e verificamos o transporte do prato e da farinha.

Pouco depois, vimos um grande móvel, que se achava a 2 metros de nós, aproximar-se, lentamente, como se alguém o conduzisse. Parecia um gigantesco paquiderme que avançava para nós.

Ultimamente, repetindo eu essas experiências com os pro­fessores de Amicis, Chiaia, Verdinois, vi uma cadeira saltar do solo para cima da mesa e, depois, voltar ao seu lugar. Eu tinha feito a Sra Eusápia segurar dois dinamômetros: eles marca­ram 37 e 36 quilos.

Durante a sessão e enquanto segurávamos as mãos da médium, esta nos disse: Agora estão forçando os aparelhos. Acendemos a luz, e os dois dinamômetros, que estavam a meio metro distantes dela, marcavam 42 quilos.

Experiências análogas foram executadas pelos Drs. Barth e Defiosa, que me escreveram terem visto e ouvido, por muitas vezes, uma campainha soar no ar, sem ser agitada por pessoa alguma. O banqueiro Hirsch, que se achava com eles, tendo pedido para conversar com uma pessoa amiga já falecida, viu sua imagem e ouviu-a falar em francês (essa pessoa era fran­cesa e tinha falecido vinte anos antes).

Do mesmo modo, o Dr. Barth viu seu pai também falecido, e sentiu-se por duas vezes abraçado por ele. Todos viram pe­quenas chamas na cabeça da Sr? Eusápia.

A explicação


Nenhum desses fatos (que convém, entretanto, admitir, porque ninguém pode negar fatos verificados) são de natureza a fazer supor, para explicá-los, um mundo diferente do admi­tido pelos neuropatologistas.

Antes de tudo, não se deve perder de vista que a Sra Eusá­pia é neuropata; que ela, em sua infância, recebeu um golpe no parietal esquerdo, produzindo uma cavidade assaz profunda para se poder aí introduzir um dedo; que, depois, ficou sujeita a acessos de epilepsia, de catalepsia e de histeria, que se pro­duzem sobretudo durante os fenômenos mediúnicos; que, enfim, apresenta, notável obtusidade do tato.

Também eram neuropatas os médiuns admiráveis, tais como Home, Slade, etc.

Pois bem! Nada vejo de inadmissível em que, nos histéricos e hipnóticos, a excitação de certos centros, que se torna pode­rosa em conseqüência da paralisia de todos os outros e provoca, então, uma transposição e uma transmissão das forças físicas, possa também produzir uma transformação em força luminosa ou em força motriz. Compreende-se que a força, a que eu chamarei cortical ou cerebral, de um médium, pode, por exemplo, levantar uma mesa, puxar a barba de alguém, bater-lhe, acari­ciá-lo, fenômenos assaz freqüentes nesses casos.

Durante a transposição dos sentidos devido ao histerismo, quando, por exemplo, o nariz e o queixo vêem (é o fato que eu próprio observei), no momento em que todos os outros sentidos estão paralisados, o centro cortical da visão, que tem sua sede no cérebro, adquire tal energia que se substitui ao olho. Foi o que verificamos, eu e Ottolenghi, em três hipnotizados, servindo-nos de lentes e de um prisma.

Quando o indivíduo hipnotizado vê um objeto sugerido, Principalmente. quando se lhe sugere que não veja uma coisa existente (sugestão negativa), apesar de estar ela sob seus olhos, o centro visual cortical substitui então os olhos: ele vê quando os olhos não vêem o que deviam ver.

As imagens provenientes de excitações interiores, tais as alucinações sugeridas (como, por exemplo, quando se faz ver ao indivíduo uma mosca imaginária sobre um papel branco), apresentam-se a alguns hipnotizados como se fossem reais. Deve-se, pois, admitir que elas vão do cérebro à periferia, isto é, em sentido contrário das imagens verdadeiras, que vão da pe­riferia ao centro. Com efeito, elas sofrem as modificações que podem provir dos meios interpostos.

Assim, tentamos fazer ver uma mosca imaginária a um indivíduo hipnotizado. Fizemos avançar e retrogradar essa imagem no espaço, e a pupila variava como se a imagem fosse real; ainda mais, por meio da lente, a mosca imaginária crescia ou decrescia conforme os movimentos daquela. Conseguimos mesmo obter do sugestionado o emprego de um prisma imagi­nário, como se existisse realmente. Para que, porém, isso acon­teça, é necessário que o centro cerebral da visão seja substituí­do ao órgão natural da visão, isto é, que o cérebro veja como os olhos.

Examinemos agora o que se dá quando há transmissão do pensamento. Em certas condições, muito raras, o movimento cerebral a que chamamos pensamento transmite-se a uma dis­tância pequena ou considerável. Ora, do mesmo modo que essa força se transmite, ela pode também transformar-se, e a força psíquica torna-se força motriz; há no cérebro aglomerações de substância nervosa (centros motores) que presidem precisa­mente aos movimentos e que, sendo irritadas, como nos epilép­ticos, provocam movimentos muito violentos nos órgãos motores.

Objetar-me-ão que esses movimentos não têm como inter­mediário o músculo, que é o meio mais comum de transmissão dos movimentos; mas, tampouco o pensamento, nos casos de transmissão, se serve de seus meios ordinários de comuni­cação, que são a mão e o laringe. Nesses casos, portanto, o meio de comunicação é o que serve a todas as energias, e a que po­demos chamar, servindo-nos de uma hipótese constantemente admitida, o éter, pelo qual se transmitem a luz, a eletrici­dade.

Não vemos o ímã fazer mover o ferro, sem intermediário visível?

Nos fatos espíritas, o movimento toma uma forma, apro­ximando-se mais da volitiva, porque parte de um motor que é, ao mesmo tempo, um centro psíquico: o córtex cerebral.

A grande dificuldade consiste em admitir o cérebro como órgão do pensamento e o pensamento como um movimento; porque, em física, não há dificuldade em se admitir que as energias transformam-se e que uma energia motriz pode tor­nar-se luminosa ou calorífica.

Depois da obra do Sr. Janet sobre o automatismo incons­ciente, não se tem mais que buscar explicar o caso dos médiuns escreventes.

Esse médium, que acredita escrever sob o ditado de Tasso ou de Ariosto e que compõe versos indignos de um colegial, age em estado de semi-sonambulismo, no qual, graças à ação preponderante do hemisfério direito durante a inatividade do esquerdo, ele não tem consciência do que faz e acredita escre­ver sob o ditado de um outro.

Esse estado de atividade inconsciente explica os movimen­tos e os gestos que a mão pode fazer, sem que participem disso o resto do corpo e o indivíduo, e que parecem ser o efeito de uma intervenção estranha.

Muitos fatos espíritas são apenas o efeito da transmissão do pensamento dos assistentes, colocados junto ao médium, ao redor da mesa, que, até certo ponto, favorece essa transmissão, pois, como observei outrora, as transmissões chegam mais facil­mente quando se está a pequena distância do hipnotizado e melhor para as pessoas que estão em maior contacto com ele. A mesa ao redor da qual se forma a cadeia é uma causa de fácil contacto e uma causa certa de aproximação.

Sempre vi os fatos espíritas (puxamento de barba, con­tacto de mãos) darem-se mais freqüentemente com as pessoas que estão mais perto do médium.

Quando a mesa dá uma resposta exata (por exemplo, quan­do ela diz a idade de uma pessoa só por esta conhecida), quando cita um verso em língua que o médium não conhece, o que assombra os profanos, isso sucede porque um dos assistentes conhece essa idade, esse nome, esse verso, e neles fixa o seu pensamento vivamente concentrado na ocasião da sessão e trans­mite, depois, o seu pensamento ao médium, que o exprime por seus atos ou o reflete, algumas vezes, sobre um dos assistentes.

Justamente por ser o pensamento um movimento, não só ele se transmite, como também se reflete. Observei casos de hipnotismo em que o pensamento não só se transmitia, mas

também se refletia sobre uma terceira pessoa, que não era o agente nem o percipiente, e que não tinha sido hipnotizada. É o que acontece com a luz e a onda sonora.

Se, no círculo formado ao redor da mesa misteriosa, não houver pessoa que saiba o latim, a mesa não fala latim. O grande público, porém, que não raciocina assim, acredita. logo que o médium fala o latim por inspiração dos Espíritos e crê também que pode conversar com os mortos.

Assim se explicam os casos dos Srs. Hirsch e Barth, que viram seus parentes mortos e ouviram suas vozes: O pensa­mento da mulher, transmitido ao médium, irradiou sobre eles e, como o pensamento toma em todos os homens a forma de imagem fugitiva, por causa da rapidez com que se associam as idéias, eles viram a imagem de seus parentes, cuja lembrança conservavam inteiramente viva.

Quanto às fotografias espíritas, tenho visto muitas, mas em nenhuma tenho confiança. Enquanto eu mesmo não tiver obtido uma, não poderei emitir juízo sobre o assunto.

A objeção, pela maioria apresentada, é a seguinte: Por que a médium, a Sra Eusápia, por exemplo, tem um poder que falta aos outros?

Dessa diferença surge a suspeita de uma fraude, suspeita natural, sobretudo nas pessoas vulgares, e que é a explicação mais simples e mais do gosto da multidão que evita refletir e estudar.

Essa suspeita, porém, desaparece do espírito do psicologista prático no exame dos histéricos e dos simuladores.

Aqui, trata-se de fatos muito simples e assaz vulgares (pu­xar a barba, suspender a mesa), sempre mais ou menos os mes­mos e repetidos com invariável monotonia, ao passo que um simulador os variaria, inventaria outros mais divertidos e ma­ravilhosos.

Além disso, os charlatães são numerosos e os médiuns, bastante raros. Na Itália somente conheci dois, ao passo que tenho encontrado e tratado de uma centena de histéricos simu­ladores.

Se os fatos espíritas fossem sempre simulados, deveriam ser * numerosos, não excepcionais.

Repito, devemos buscar a causa dos fenômenos nas condi­ções patológicas do médium, precisamente como o demonstrei para os fenômenos hipnóticos.

O grande erro da maioria dos observadores consiste em es­tudarem o fenômeno hipnótico e não a pessoa em que ele se produz; ora, a médium, a Sra Eusápia, apresenta anomalias cerebrais bastante graves, das quais procede, sem dúvida, a in­terrupção das funções de alguns centros cerebrais, ao mesmo tempo que o crescimento da atividade de outros centros, espe­cialmente os dos centros motores. Eis a causa dos singulares fenômenos mediúnicos. Algumas vezes, os fenômenos, especiais aos hipnotizados e aos médiuns, operam-se, é certo, em indiví­duos no estado normal; mas, isso sucede no momento de pro­funda emoção, nos moribundos, por exemplo, que pensam na pessoa querida com toda a energia do período pré-agônico.

O pensamento transmite-se, pois, sob a forma de imagem, e aí temos o fantasma a que chamam, hoje, alucinação verídica ou telepática.

Justamente por ser um fenômeno patológico e extraordi­nário, só se encontra em circunstâncias graves e em indivíduos que não dispõem de grande inteligência, ao menos no instante do acesso mediúnico.

É provável que, em tempos já muito remotos, quando a lin­guagem se achava no estado embrionário, a transmissão do pensamento fosse muito mais freqüente, como os fenômenos mediúnicos então chamados magia, profecia, etc. Porém, com o progresso, com o aperfeiçoamento da escrita e da lingua­gem, o modo da transmissão direta do pensamento foi desa­parecendo pouco a pouco, tornando-se ele inútil, nocivo e mes­mo pouco cômodo, porque traía os segredos e comunicava as idéias com uma exatidão insuficiente.

Quando, enfim, se compreendeu que essas formas neuropá­ticas não tinham a importância que lhes queriam atribuir e que eram patológicas, não divinas, viu-se diminuírem e desa­parecerem as magias, os fantasmas, os intitulados milagres, que eram, quase todos, fenômenos reais, mas mediúnicos.

Nos povos civilizados não se mostraram essas manifesta­ções senão em casos raros, ao passo que continuam em vasta escala entre os povos selvagens e nos indivíduos neuropatas.

Estudemos, observemos, pois, como na neurose, as convul­sões, o hipnotismo, o indivíduo mais que o fenômeno, e achare­mos uma explicação mais completa e menos maravilhosa do que parecia a princípio. Por ora, desconfiemos dessa pretendida finura de espírito que consiste em ver por toda parte simula­dores e em crer que só nós somos os sábios, quando precisamen­te essa pretensão pode mergulhar-nos no erro.
Turim, 12 de março de 1892.

Lombroso.


Observações sobre a teoria do professor Lombroso


Os cientistas, em geral, são muito circunspectos quando se acham diante de um fenômeno pouco conhecido ou ainda insu­ficientemente estudado. Em fisiologia, eles abster-se-iam de for­mular hipóteses para explicar um fato, antes de haverem longa­mente experimentado e reunido considerável número de evidén­cias para apoiarem o seu modo de ver. Quando, porém, se trata do Espiritismo, toda essa prudência desaparece e o sábio arro­ja-se a construir sistemas, cada qual mais inverossimil.

Precedentemente, vimos as teorias de Babinet, de Faraday, de Chevreul, sobre as mesas girantes. Sabemos o que resta agora de todas elas, depois das experiências de Crookes e da Sociedade Dialética de Londres. Eis, portanto, o professor hom­broso caindo no mesmo engano e, depois de assistir apenas a duas sessões, buscando uma explicação do fato exteriormente à Doutrina Espírita. Viu ele todos os fenômenos produzidos pelos Espíritos? Viu a escrita direta, a fotografia dos Espíritos mate­rializados e as moldagens? Não, Lombroso não verificou a rea­lidade senão de pequena parte do domínio espírita e, apesar dessa pequena bagagem de observações, não teme proclamar urbi et orbi que conhece a causa desses fenômenos. Vimo-lo, em sua demonstração, fazer um mea culpa acerca da realidade dos fatos que, como bom materialista, negou por tanto tempo. Es­tamos certos de que, se o professor Lombroso quiser prosseguir nesses estudos, retratar-se-á também, a exemplo dos seus sábios colegas Wallace, Mapes, Robert Hare, Varley, Fechner, etc. (60)

Estes, a principio, também haviam acreditado na ação in­consciente do médium; um estudo mais atento, porém, conven­ceu-os de que essa hipótese não era aceitável e, por isso, só adotaram as afirmações espíritas quando lhes não foi possível achar outras mais racionais.

Examinemos a teoria psiquiátrica do célebre criminalista e veremos que ela não prova coisa alguma; nem mesmo é nova. Aí acharemos reunidos estes velhos conhecidos dos espíritas, chamados transmissão do pensamento, personalidade inconsciente ou segunda personalidade; mas o professor ligou-os todos pela teoria da transformação da força, de modo que, juntando-lhes a alucinação, que ele não podia decentemente esquecer, temos a coleção quase completa dessas objeções, sem fundamento, contra a nossa doutrina, e que há vinte anos rastejam por toda parte.

Essa ressurreição, menos maravilhosa que a de Lázaro, seria necessária? Ah! não, porque todas essas hipóteses não adquiriram, envelhecendo, uma nova virtude, e os fatos, sempre mais numerosos e melhor estudados, lhes imporão desmentidos tão flagrantes que quase nos parece inútil prosseguir nesta discussão. Basta, simplesmente, pedir ao professor Lombroso que estude. Isso, no entanto, pode parecer pouco respeitoso; por essa razão vamos examinar rapidamente as peças do processo.

Eusápia é neuropata e histérica, está entendido; suponha­mos mesmo que ela carregue todas as anomalias imagináveis do sistema nervoso. Explicará isso: 1 - O passeio da campainha pelo espaço? 2 - O deslocamento de um grande móvel, como se fosse um paquiderme? 3 - O puxamento, por muitas vezes, da barba de um dos respeitáveis professores? 4 - O transporte do prato de farinha?

Evidentemente não, porque a força que emana do médium não possui, que o saibamos, mãos. Ora, como pode agir essa força sem intermediário? Que essa força seja capaz de produzir clarões já é de difícil compreensão, mas poderá isso, a rigor, ser explicado por uma transformação da energia que se escapa do médium; porém, que ela atue de modo a acariciar alguém, eis o que é absolutamente incompreensível.

Que o éter seja o veículo da força, estamos de acordo, mas essa força não dispõe de órgãos. A vontade do indivíduo (outra dificuldade, porque é preciso admitir-se uma vontade incons­ciente) não pode substituir as mãos. Suponhamos ter um sopro assaz poderoso para poder deslocar um móvel: esse sopro será, se o quiserem, a imagem da força que emana do médium; o so­pro que pode, a rigor, suspender uma mesa ou arrastar um apa­rador pela sala poderá fazer uma campainha passear pelo es­paço ou puxar a barba de um assistente? Certamente que não, e a explicação do professor deixa muito a desejar, e de tal modo que é inadmissível.

O professor Vizioli sentia um contacto de mão pequena e fria. Como a força do médium se havia transformado em mão? O professor Lombroso reconhece que o cérebro vê sem o auxílio dos olhos.

Perguntar-lhe-emos, respeitosamente, quem vê? Serão as camadas corticais, os centros ópticos? Porém, estas não são mais que simples aglomerações de matéria fosfórica, e ainda não foram dotadas da faculdade de ver! Só a câmara escura, a que chamamos olhos, é capaz de armazenar os raios luminosos e dar-nos a sensação da luz. Entretanto, reconheceis, sábio Doutor, que a vista se exerce pelo cérebro, sem aparelho óptico; logo, a alma existe; é ela quem vê, como lhe acontece depois da morte, quando não mais dispõe de um corpo material.

Ela existe, pois, durante a vida, e a prova é-nos fornecida por vós mesmo.

Vimos o que se deve julgar da explicação do Sr. Janet acerca da escrita, automática dos histéricos; contentar-nos-emos, pois, em lembrar que nada há de comum entre essas experiên­cias e os fenômenos espíritas.

O professor Lombroso não insiste sobre as fotografias, que são, no entanto, uma prova decisiva, contentando-se em dizer que ainda as não obteve.

E lamentável que o eminente fisiologista despreze os fatos que destroem totalmente a teoria da alucinação, porque as visões do Dr. Barth e do Sr. Hirsch, se fossem irradiações do seu pensamento, poderiam ser fotografadas, pois estavam tão mate­rializadas que falaram. As palavras pronunciadas por essas aparições não são reflexos do pensamento, pois os operadores ignoravam o que o Espírito ia dizer; tendo sido ouvidas por todos os assistentes, não existiam nos cérebros dos Srs. Hirsch e Barth: logo, a teoria de Lombroso é manifestamente insufi­ciente e, além disso, totalmente inexata para explicar tais fe­nômenos.

O célebre fisiologista procede fazendo afirmações acerca da transmissão do pensamento. Diz ele: assim, e não pode ser de outro modo, o pensamento irradia, reflete-se no cérebro do médium. Quando, porém, o médium dá nomes inteiramente desconhecidos dos assistentes, será isso um reflexo de quem ou de quê? Dos Espíritos que a fazem mover.

Outra coisa: Quando a mesa se expressa em uma língua es­tranha, é, diz Umbroso, porque algum dos assistentes conhece essa língua. Admitimos o fato de um dos experimentadores conhecer essa língua, porque, sem isso, não se poderia constatar que uma língua estranha era empregada; mas, como é que esse conhecimento tem influência bastante para agir sobre o cérebro do médium e ditar-lhe discursos? O fato de eu saber o latim não fará que um médium escreva nessa língua, sobretudo quando ignoro o que o médium está escrevendo e não tenho vontade de influenciá-lo.

Que resta, pois, dessa famosa teoria? Absolutamente nada. Não só ela não explica racionalmente os fatos para os quais foi imaginada, mas também deixa de parte grande número de outros. Nessas condições, só temos de regozijar-nos vendo os sábios reduzidos a imaginar hipóteses inverossímeis e a nega­rem a existência dos Espíritos, por quererem explicar os fenô­menos a seu modo.

Que o professor Lombroso estude mais e, talvez, melhor instruído, encontre enfim uma explicação menos banal e mais adequada aos fatos, tais são os nossos votos.

Resumo


Acabamos de ver, rapidamente, desenrolar-se diante de nós o encadeamento dos fatos, desde as mesas giratórias até as aparições materializadas. Verificamos que cada uma das fases do fenômeno foi estudada no mundo inteiro pelos sábios de maior competência. Vimos em ação os incrédulos negando obstinadamente os fatos, até que estes fossem mais bem demons­trados, e que alguns, sendo forçados a admitir-lhes veracidade, encastelaram-se em teorias que julgaram inatacáveis. Bem depressa, porém, essas teorias tornaram-se insuficientes, à vista do desenvolvimento cada vez mais característico das experiências. A mesa girante, à escrita automática seguiram-se os altos fenômenos do Espiritismo transcendental, e vemos o cepticismo tentar seus esforços com as hipóteses do Dr. Von Hart­mann e do professor Lombroso, tão extemporâneas e lastimá­veis. A última palavra ficou para o Espiritismo, que, mais forte, mais vivaz, mais convincente que nunca, dirige-se para a con­quista do mundo.

Poderia ser de outro modo?

Sem idéia preconcebida, sem espírito de sistema, essas maravilhosas manifestações não trazem em si próprias a sua certeza? Que se poderia objetar contra a sua autenticidade ou contra o seu valor?

No mundo inteiro, fenômenos, desde os mais simples até os mais complexos, são reproduzidos em abundância diante de observadores, incrédulos, a princípio, e que os estudaram com uma desconfiança quase injuriosa, até o momento em que foram convencidos da sua realidade.

Entre essa inumerável quantidade de testemunhos, escolhe­mos, propositalmente, aqueles cuja autoridade era maior, tanto pelo valor científico dos observadores quanto pela honorabili­dade de seus autores. Discutimos imparcialmente as teorias opostas pelos negadores; vimos que os fatos desmentem por si mesmos essas hipóteses e que não foi com argumentos lógicos, com artifícios de raciocínio que a sua falsidade se demonstrou, mas, simplesmente, com outros fatos que destruíram essas pre­tendidas explicações.

Todos aqueles que têm um nome no domínio das ciências foram chamados a se pronunciarem; os mestres mais compe­tentes, quando aplicaram tempo suficiente a essas investiga­ções, proclamaram a incontestável realidade das manifestações espíritas. Os Espíritos, não se contentando em falar pela mesa e pela escrita, não satisfeitos em se fazerem ver ou ouvir pelos médiuns, escrevem diretamente, aparecem aos olhos de toda uma assembléia, deixam-se fotografar e, como lembrança da sua passagem, legaram-nos reproduções de seus membros materializados. São as mais cabais e as menos contestáveis provas da existência da alma depois da morte do corpo; ne­nhuma negação, nenhum anátema será capaz de desenraizar de nossos corações a sublime e inabalável certeza da imorta­lidade do ser pensante.

As teorias materialistas não são mais que orgulhosas decla­mações, sem apoio real. As religiões sentem desabar a sua andaimaria de dogmas e de mistérios, e, sobre essas ruínas amontoadas, paira a alta e serena doutrina da imortalidade, perpetuando a vida inesgotável através do infinito dos tempos e das extensões.

É pelo estudo do mundo de além-túmulo, como veremos adiante, que se explicam as dificuldades da vida terrena. É na erraticidade que se verifica a execução dessa justiça, tantas vezes desfalecente no nosso mundo; é aí que se encontra, enfim, essa felicidade, em cuja procura aqui se gasta a vida; é aí que o Espírito, desembaraçado dos cuidados materiais, pode entre­ver, de outro modo que não seja através de uma vã fraseologia, a verdadeira fraternidade: o amor sem limites de cada um por todos e de todos por cada um.

Espalhemos profusamente estas idéias, elevemos o coração até essas alturas serenas donde o egoísmo é banido, e teremos feito uma obra de bons cidadãos, e teremos preparado o advento do reinado da verdade, que é concórdia e fraternidade.

PARTE TERCEIRA
CONSELHOS AOS MÉDIUNS E AOS EXPERIMENTADORES

Recolhimento. - Homogeneidade de pensamentos. - Regularidade. - Paciência. - Circunspeção em relação aos Espíritos que se ma­nifestam. - Identidade dos Espíritos. - Desconfiar dos grandes nomes. - Razão pela qual os Espíritos chamados não se mani­festam.

O Espiritismo não é uma religião: não tem dogmas nem mistérios nem ritual. É uma ciência de experimentação, da qual emanam conseqüências morais e filosóficas cuja impor­tância é considerável. O estudo da alma depois da morte, das condições de sua vida no espaço pode ser feito rigorosa e metodicamente, como uma indagação sobre um país desconhe­cido. Allan Kardec devotou-se pacientemente a esse trabalho e suas obras encerram os dados mais completos que possuímos acerca do mundo de além. Há trinta e cinco anos que vemos diariamente verificados todos os seus ensinos, podendo julgar­-se de seu valor por não terem sido contraditados. Nada pode­mos fazer de melhor que convidar os investigadores a se aprofundarem no estudo das obras desse eminente homem: nelas encontrarão resposta a todas as questões embaraçantes e, seja qual for o assunto, vê-lo-ão elucidado de um modo claro e lógico. O nosso trabalho aqui é resumir, abreviar as instruções relativas à evocação dos Espíritos; fá-lo-emos, pois, o mais sucintamente possível, convidando todos a ler O Livro dos Médiuns, para os desenvolvimentos que os limites deste nosso volume não nos permitem dar.

Uma das primeiras condições, quando se pretende evocar os mortos, é a concentração. É necessário, tanto quanto possí­vel, que os assistentes evitem as discussões calorosas ou fúteis que perturbam os médiuns e alteram a harmonia do grupo. Sem dúvida, não há necessidade de preces, porque evocamos seres como nós, que só por sua invisibilidade diferem dos humanos; mas, a comunhão dos pensamentos, o desejo sincero de instruir­-se devem guiar os experimentadores e inspirar-lhes o mesmo respeito que guardariam no seio de uma assembléia de que fizessem parte os seus progenitores. As zombarias, as conversas frívolas geralmente não atraem Espíritos de ordem intelectual elevada, e as comunicações assim recebidas ressentem-se da vulgaridade de seus autores. Portanto, aconselharemos aos investigadores a calma e o recolhimento, como condições indis­pensáveis para a obtenção de fenômenos espíritas, sérios.

A prática fez notar também que a regularidade nas sessões é uma das causas de êxito. Tanto quanto possível, é necessário que a reunião se dê no mesmo local, nos mesmos dias da semana e às mesmas horas. Sem dúvida, esta recomendação não tem valor absoluto; quando um médium está muito desenvolvido, pode obter efeitos físicos ou comunicações a qualquer hora do dia ou da noite; mas, quando se procura desenvolver faculdades mediúnicas, o melhor modo de proceder é, incontestavelmente, fazer-se as reuniões com regularidade.

As pessoas que se iniciam nessas investigações acreditam, na maioria das vezes, que as sessões espíritas exigem aparato especial ou preparativos particulares; nada é mais falso. Quan­do quiserdes certificar-vos da realidade dos fenômenos espíri­tas, reuni-vos, em família ou com alguns amigos, e aí, na inti­midade, tomai a primeira mesa que encontrardes, e sobre ela pousai as vossas mãos. No fim de um tempo mais ou menos lon­go, observareis estremecimentos na madeira, estalidos ou panca­dinhas secas far-se-ão ouvir, ou, então, deslocamentos do móvel indicar-vos-ão a presença dos Espíritos. Citamos as experiências da Sra de Girardin em casa de Victor Hugo, a fim de mostrar­mos quanta paciência e tenacidade são muitas vezes necessárias para obter-se resultado. Lembraremos também que o Dr. Cyrias não sentiu a ação dos Espíritos senão na vigésima sessão. Nas experiências de Aksakof, em companhia de Eglinton, grande número de experiências foi infrutífero; e as mais das vezes acontece isso porque, não o devemos dissimular, ainda Ignora­mos as leis que regem esses fenômenos. O nosso único recurso é recomeçar com infatigável perseverança, até que um resultado venha compensar os nossos esforços.

Vimos que os mais poderosos médiuns podem permanecer por muito tempo sem emitir essa indispensável força psíquica, sem a qual nada se produz.

Crookes conta que a mediunidade do célebre Home era sujeita a suspensões que duravam mais ou menos longo tempo; durante esse intervalo, nada era possível obter-se por esse mé­dium. Bem compreendido isso, é fácil de ver-se que, quando se experimenta, o círculo pode não apresentar as condições exigi­das para a exteriorização da força psíquica, e os Espíritos, que não podem agir sobre a matéria senão por intermédio dessa força, ficam na impossibilidade absoluta de se manifestarem. Ficam na posição de um homem cujo braço está momentanea­mente paralisado. Apesar de toda a vontade que esse homem empregue, não lhe será possível utilizar-se do membro enfermo.

Acontece também que os Espíritos evocados nem sempre podem responder ao apelo que lhes é feito, e isso por muitas razões: Supondo que esses Espíritos não estejam reencarnados, isto é, que não tenham voltado à Terra, pode suceder que eles estejam ocupados no espaço em investigações ou em trabalhos que não lhes seja possível abandonar de repente, como acon­tece aqui na Terra, ou que estejam pouco dispostos a se incomo­darem por causa de um estranho, principalmente se a evoca­ção não tiver um motivo muito ponderoso. Em segundo lugar, nem todos os Espíritos que vivem na erraticidade estão no mes­mo grau de adiantamento moral. Há grande número deles que não conhece o seu estado. Têm vida análoga à do sonho: vão e vêm, têm consciência de que existem, mas os acontecimentos desfilam diante deles sem que lhes seja possível classificá-los metodicamente. Experimentam sensações às vezes muito vivas, sem poder explicá-las. As causas disso lhes são estranhas, e a sua vontade é totalmente impotente para modificar-lhes a vida psíquica. Uns não se acreditam mortos, e vivem da nossa exis­tência, admirando-se de que não mais se responda às suas per­guntas, ou de que aqueles a quem eles amaram pareçam não mais vê-los ou ouvi-los. Outros acham-se em obscuridade profunda e buscam, inutilmente, conhecer o lugar em que estão: erram em silêncio e no seio de trevas espessas, as quais nenhum ruído, nenhuma claridade pode romper. Para esses, a evocação é um benefício, porque o nosso pensamento vai arrancá-los desse estado infeliz, a fim de abrir-lhes a porta do túmulo espiritual em que se acham encerrados; mas, o seu estado não permite, as mais das vezes, que eles respondam, apesar de terem vontade de fazê-lo.

Enfim, muitos Espíritos não sabem como devem manifes­tar-se; é necessário dar-lhes o competente ensino, que pode ser assaz longo e que exige muita paciência, tanto da sua parte como da nossa. Se a todas essas razões juntarmos as condições exteriores, como o calor, a luz, o estado elétrico ou magnético, cuja influência deve ser muito importante, compreenderemos que é necessária muita tenacidade e perseverança para se obter bom resultado.

Um escolho contra o qual se deve estar prevenido consiste no fato de se ligar exagerada importância às comunicações dos Espíritos e em se acreditar cegamente em tudo o que eles con­tam. Nunca se deve pôr de parte a nossa razão e o nosso livre­-arbítrio; cumpre discutir cuidadosamente com os desencarnados o que parece duvidoso ou contrário à justiça e à razão. Mui­tos espíritas eram, antes de se convencerem, perfeitos materia­listas: não acreditavam em coisa alguma espiritual, e o mundo para eles limitava-se ao que existe na Terra; a sua convicção a esse respeito era tão profunda que não podiam mesmo com­preender outra vida. Quando, porém, os fatos vieram radical­mente destruir essa crença, eles caíram no extremo oposto e acreditaram cegamente que os Espíritos eram seres dotados de virtudes especiais, e que se devia seguir todos os seus conselhos, sem discernimento. As idéias religiosas, que formam ainda o fundo das nossas convicções, inclinam-nos involuntariamente a dotar os seres que estão no espaço de poderes superiores aos da Humanidade, parecendo que eles devem exceder-nos muito em ciência e em moralidade, e que nada do desconhecido lhes é oculto.

A realidade está longe de assemelhar-se a esse ideal. O mundo espiritual é como o nosso: nele há inteligências em todos os graus de adiantamento. Os Espíritos nada mais são que os homens que viveram na Terra; a morte não lhes determinou outra mudança que não fosse a de criar-lhes condições físicas diferentes; mas sua ciência ou sua moralidade em nada ficaram aumentadas. Um ser bestial e grosseiro conserva-se o mesmo na erraticidade; um sábio fica com sua ciência; um literato ou um músico mantém o sentimento de sua arte; porém, nenhum fica possuindo faculdades diversas das que adquiriu na vida terrena. Existem, pois, entre os Espíritos, seres ignorantes, sis­temáticos e paradoxais, religiosos ou ateus; em uma palavra, o mundo espiritual é a reprodução do nosso, e as comunicações não têm outro valor senão o que resulta da elevação das idéias e da beleza dos ensinos.

Mais do que nunca a palavra de Buffon é aplicável: é bem aí que o estilo é o homem. Não podendo ver o interlocutor, fi­camos reduzidos a julgá-lo por seus discursos; e, se devemos receber com reconhecimento os bons conselhos, as exortações para o bem, as teorias científicas que nos pareçam racionais ou bem firmadas, do mesmo modo cumpre-nos rejeitar as comu­nicações frívolas, tolas e insípidas, vindas de Espíritos pouco elevados.

Na vida comum, buscamos as pessoas instruídas e bem edu­cadas; façamos o mesmo a respeito dos nossos visitantes do espaço, e não demos ao primeiro que vier a honra de ser rece­bido entre nós.

Isso nos conduz à identidade dos Espíritos. Vós que expe­rimentais, nunca temais pedir muitas informações aos Espíritos que se manifestam. Exigi que vos digam seus nomes e sobre­nomes, a idade que tinham quando deixaram a Terra, o lugar em que viveram, as circunstâncias em que se relacionaram convosco; em uma palavra, certificai-vos, por todos os meios possíveis, de que aquele que se manifesta é bem a individualida­de que conhecestes em vida. Se o Espírito responder que lhe é proibido dar essas informações, ficai convencidos de que ele não diz a verdade, de que procura enganar-vos, e, neste caso, cessai de interrogá-lo; ele não mais virá, quando perceber que não vos pode enganar.

Uma das causas do descrédito do Espiritismo em certos Centros é o fato de, muitas vezes, as comunicações espíritas serem assinadas por nomes pomposos, próprios para entonte­cerem os ignorantes ou atraírem a consideração dos papalvos. Infelizmente, é exato que, em certos Centros Espíritas, Napo­leão I mostra-se ao lado de Maria Stuart; é exato que Semiramis, Zoroastro, Sócrates e Jesus desfilam ditando comunicações de repugnante frivolidade; em outros, vêm os oradores da Revo­lução pregando disparates pela boca de mulheres velhas; em outros, enfim, sábios, como Lavoisier ou Berthollet, Laplace ou Mesmer, formulam sistemas que fariam sorrir de dó o mais fraco dos colegiais preguiçosos.

É necessário reagir fortemente contra essa facilidade de acreditar em assinaturas. Não evoqueis senão Espíritos que conhecestes, com os quais estivestes em relação. O Espírito do vosso conhecido, desde que se manifesta, é tão interessante quanto o de Confúcio, e talvez ainda mais, porque o conhecestes, ao passo que o do filósofo chinês precisa sujeitar-se às maiores dificuldades para estabelecer a sua identidade.

E entretanto, bastante evidente que os Espíritos elevados também se podem manifestar; não chegamos até ao ponto de contestar-lhes esse poder, que pertence ao primeiro que vier do espaço, porém o fazem muito menos vezes do que se pode crer, considerando como válida a sua assinatura em todos os casos em que ela é dada. Em um meio instruído, inteligente, ar­tístico, necessariamente aparecerão poetas, literatos e, mesmo, sábios; porém, ainda uma vez sua personalidade deverá ser bem patente, para que a dúvida não seja permitida.

Quão preferível é, para todos aqueles a quem a perda de um ser amado feriu, conversar com esse seu afeiçoado! Com que satisfação uma mãe verá o seu filho! Com que prazer se verá uma bem-amada ou um esposo! Em vez de arrebicadas páginas de filosofia, dar-se-ão diálogos comoventes, ternos, de dois seres que se amam, que se revêem e que conversam através do túmulo! Evocai, pois, os vossos afeiçoados, aqueles cuja vida vos foi familiar, cujas circunstâncias vos são conhecidas: e, quando estiverdes bem certos de que eles não estão mortos, que vivem convosco, que só o corpo desapareceu aos vossos olhos, pedi-lhes detalhes da sua situação, do modo de existência, de suas ocupações.

Instruí-vos acerca do mundo espiritual para o qual temos todos de ir e, então, verificareis, por vós mesmos, que o Espiri­tismo é uma grande verdade, uma imensa consolação e que ele se baseia na mais alta e interessante ciência: a do ser humano em todas as suas manifestações anímicas, tanto na Terra quanto no Espaço.

PARTE QUARTA
A DOUTRINA ESPIRITA
CAPITULO ÚNICO

Materialismo e Espiritismo. - O Espírito no Espaço. - As vidas su­cessivas. - Provas da reencarnação. - Conclusão.

O movimento cientifico que caracteriza o século XIX é o da investigação positiva. Longe de quererem, como outrora, firmar hipóteses admitidas a priori e fazer que os fenômenos da natureza concordem com as suas idéias preconcebidas, os sábios buscaram, no estudo meticuloso dos fatos, sua norma de conduta e chegaram, seguindo este método, aos maravilhosos resultados que diariamente estamos verificando. Mas se, dei­xando o domínio material, os homens de ciência quiserem aplicar o positivismo às realidades espirituais, esbarrarão em dificuldades invencíveis ou, pelo menos, por eles supostas como tais.

A escola alemã, com Büchner e Moleschott, declara, posi­tivamente, que as velhas concepções de Deus e da alma já estão fora do seu tempo e que a Ciência reduziu a nada essas crenças fabulosas. Moleschott aplicou-se, sobretudo, a demonstrar que a idéia é o produto direto de um trabalho molecular do cérebro, e Karl Vogt não teme dizer que o cérebro segrega o pensamento, mais ou menos como a urina é segregada pelos rins. Em nossa época, Haeckel desenvolveu teorias análogas; nada há de novo em seu sistema, a não ser as palavras: o mecanismo e a adap­tação patológica, que, no fundo, significam: materialismo.

Pois bem! Nós, espíritas, vimos dizer aos positivistas: Somos vossos discípulos; adotamos o vosso método e só aceitamos como reais as verdades demonstradas pela análise, pelos sentidos e pela observação. Longe de nos conduzirem aos resultados a que chegastes, esses instrumentos de investigação fizeram-nos des­cobrir um novo modo de vida e esclareceram-nos sobre os pontos controversos.

As grandes vozes dos Crookes, dos Wallace, dos Zollner proclamam que, do exame positivo dos fenômenos espíritas, resulta claramente a convicção de que a alma é imortal e que não só ela não morre, mas também pode manifestar-se aos humanos, por meio de leis ainda pouco conhecidas que regem a matéria imponderável. Todo efeito tem uma causa e todo efeito inteligente faz supor uma causa inteligente: tais são os princípios, os axiomas inabaláveis sobre os quais repousam as nossas demonstrações.

Os materialistas podiam, há pouco ainda, repelir os argu­mentos favoráveis aos fenômenos, dizendo que eles não obede­cem ao verdadeiro método que conduz à verdade; mas nada de semelhante dever-se-á temer. Não viemos dizer: Precisa-se de fé para compreender a nossa revelação. Não tolhemos o livre exame; mas, ao contrário, dizemos: Vinde instruir-vos, fazei experiências, buscai compreender todos os fenômenos, sede observadores meticulosos, não aceiteis uma experiência senão quando puderdes repeti-la muitas vezes e nas mais variadas circunstâncias; em uma palavra, caminhai prudentemente em busca do desconhecido, porque, avançando-se à procura de novos princípios, é fácil cair-se em erro. Quando tiverdes sufi­cientemente estudado, o próprio fenômeno vos instruirá acerca da sua natureza e do seu poder. Não será essa uma conduta positiva por excelência? Que poderão os mais decididos mate­rialistas responder a Robert Hare, ao professor Mapes, ao Sr. Oxon? Servimo-nos das armas dos nossos inimigos para vencê-los: é em nome do seu método que proclamamos a imor­talidade da alma mesmo depois da morte do corpo.

Todas as teorias que querem fazer do homem um autôma­to, todos os sábios que fizeram da ciência um escudo para proclamarem a materialidade do ser humano encontram o mais formal desmentido no testemunho dos fatos. Não é verdade que sejamos só matéria; não é justo pensar-se que, pela morte do corpo, sendo reduzidos a pó os elementos que o constituíam, nada restará daquilo que foi o ser pensante. A experiência de­monstra-nos que, assim como a borboleta sai da crisálida, assim a alma deixa o seu vestuário grosseiro de carne para atirar-se, radiante, no éter, sua pátria eterna. Nada morre neste mundo, porque nada se perde. O átomo de matéria que se escapa de uma combinação entra no grande laboratório da natureza, e a alma, que se torna livre pela dissolução de seus laços corpo­rais, volta ao seu ponto de partida. A gélida noite do túmulo não mais nos aterroriza, porque possuímos a prova certa de que os mausoléus não encerram senão cinzas inertes e que o ser pensante não desaparece.

E sobretudo para os miseráveis, para os deserdados deste mundo que esta sublime prova da imortalidade é doce e conso­ladora. A certeza absoluta de uma vida melhor anima o tra­balhador na luta encarniçada que, diariamente, ele sustenta contra a necessidade. A morte não lhe aparece mais brutal e triste, como o aniquilamento supremo, mas, ao contrário, a porta que se abre para um mundo melhor, a aurora brilhante de um dia novo, mais compensador de seus sofrimentos que esta triste terra sobre a qual vegeta.

Que todos aqueles a quem a perda de um ser ternamente querido deixou abatidos, desanimados levantem a cabeça, por­que as vozes dos Espíritos bradam-nos que essa dor os atinge, que eles vivem ao redor de nós, que nos envolvem em sua ter­nura e que de seus corações elevam-se constantes preces pe­dindo ao Eterno que nos proteja contra os perigos da existência. Eis as claridades sublimes que se desprendem da ciência espírita, eis as venturosas certezas que não podiam dar-nos as religiões nem as filosofias, porque seus dogmas e suas :'outrinas, não estando mais em harmonia com os progressos do século, deixam o homem a braços com a dúvida, esse verme roedor da sociedade moderna.

Não nos iludamos: o tempo da fé cega passou; hoje, é ne­cessário, para que uma teoria filosófica moral ou religiosa seja aceita, que ela repouse no fundamento inabalável da demons­tração científica. Outros tempos, outros costumes. O mundo antigo apoiou-se na revelação; o de hoje precisa da certeza lentamente adquirida. A fé, por si só, não basta; é indispensá­vel que a razão sancione o que se pretende fazer-nos aceitar como verdades.

A grande força do Espiritismo consiste na liberdade de exame que ele deixa ao cuidado dos seus adeptos. Todos os seus princípios podem ser discutidos e submetidos ao estudo. Cada vez que essa experiência foi feita, ele surgiu mais forte e mais robusto que nunca dessa prova temível. As religiões, na hora atual, assemelham-se a essas andadeiras que são indispensá­veis à criança para aprender a caminhar, porém que se tornam inúteis, e mesmo prejudiciais, quando ela adquire o desenvol­vimento preciso para se dirigir por si só. Encerrado em um dogmatismo estreito, o homem do século décimo nono sente que esse ensino caduco não mais está em harmonia com os seus conhecimentos, e, forçado a escolher entre as certezas da ciên­cia e a fé imposta, atira-se de corpo e alma para o materia­lismo. Se, porém, esse homem encontrar uma doutrina que concilie as exigências da ciência com as necessidades que a sua alma tem de crer em alguma coisa, ele não hesitará: ado­tará essa fé nova, que satisfaz plenamente a todas as suas as­pirações. Estas considerações sumárias explicam a enorme aceitação do Espiritismo. Não devemos, contudo, crer que o Espiritismo seja inimigo das religiões: ele não combate senão os seus abusos; dirige-se mais particularmente aos materialis­tas e àqueles que, sem serem completamente ateus, estão inde­cisos acerca da vida futura.

Em vez de ser ridiculizada e combatida, esta doutrina de­veria achar-se na base de todo o ensino moral ou religioso. Dando ao homem a prova evidente de que a sua passagem pela Terra é temporária, de que terá de responder, depois, pelo bem ou mal que fez, impõe um paradeiro aos seus maus instintos, que, em nossos dias principalmente, ameaçam corromper a so­ciedade. O Espiritismo faz conhecer, com efeito, as condições em que se acha a alma depois da morte do corpo. Em vez de considerar o Espírito de um modo abstrato, nossa doutrina demonstra que ele é, depois da morte, uma individualidade verdadeira, que não tem menos realidade que o homem; somente a natureza do corpo mudou, quando as condições da existência deixaram de ser as mesmas.


O Espírito no Espaço


O Espírito está revestido de um invólucro a que chamamos perispírito. Esse corpo é formado pelo fluido universal terrestre, isto é, pela matéria sob a sua forma primordial. A união entre o corpo e a alma pode ser comparada a uma combinação. Quan­do essa combinação se desfaz, o que sucede na ocasião da morte, a alma desprende-se com o seu invólucro espiritual, que é inde­componível, pois que é composto pela matéria em sua forma inicial, e conserva as suas propriedades, como o oxigênio que, saindo de uma combinação, nada perdeu de suas afinidades. Nesse estado, o corpo espiritual, segundo a expressão de São Paulo, tem sensações que nos são desconhecidas na Terra e que lhe devem propiciar gozos muito superiores aos que experimen­tamos aqui.

A Ciência ensina-nos que os nossos sentidos apenas nos fazem conhecer ínfima parte da natureza, porém que, além e aquém dos limites impostos às nossas sensações, existem vibra­ções sutis, em número infinito, que constituem modos de exis­tência de que não podemos formar idéia, por falta de palavras para exprimi-la.

A alma assiste, pois, a espetáculos que não temos meios de descrever: ouve harmonias que nenhum ouvido humano tem apreciado, move-se em completa oposição às condições de viabi­lidade terrestre. O Espírito libertado das cadeias do corpo não tem mais necessidade de alimentar-se, não se arrasta mais pelo solo: a matéria imponderável de que é formado permite-lhe transportar-se para os mais longínquos lugares com a rapidez do relâmpago, e, segundo o grau do seu adiantamento moral, suas ocupações espirituais afastam-se mais ou menos das preocupações que nutria na Terra. Não se pode mais negar a existência do corpo espiritual, porque experiências diretas permitiram-nos estudar a sua natureza e o seu modo de conden­sação.

Vimos, nas experiências de Crookes e de Aksakof, esse corpo espiritual ir revestindo aos poucos os caracteres da ma­téria, e as moldagens mostram-nos que ele é rigorosamente idêntico ao que o Espírito tinha na Terra.

Uma simples analogia pode, senão explicar, ao menos ajudar a compreender o que se dá em tal caso:

O perispírito pode ser comparado a um eletroímã; o corpo, ao espectro magnético; a vida, à eletricidade.

Enquanto o fluido elétrico não circula, não há espectro, o eletroímã fica indiferente: eis um estado análogo ao do pe­rispírito no espaço; ele contém, virtualmente, em si, todas as linhas que formam o organismo, mas não as dispõe. Logo que a corrente circula no eletroímã, a limalha acomoda-se, seguindo uma certa ordem, e forma esse desenho a que chamamos espectro magnético; do mesmo modo sucede com o perispírito: sob a influência do fluido vital subtraído ao médium, ele aco­moda a matéria, conforme o desenho do organismo, e reproduz o corpo humano, como este era na vida terrena.

O perispirito, se bem que formado de matéria primitiva, é mais ou menos livre de misturas, conforme o mundo habitado pelo Espírito. Essa observação nos conduz ao assinalamento do verdadeiro lugar que ocupamos no Universo.

Uma verdade que a Astronomia hoje tornou vulgar é a de não ser o nosso mundo o centro do Universo; segundo ela, a nossa pequena Terra é um dos planetas mais pobremente dota­dos do sistema solar. Nada, em seu volume ou na posição da sua eclíptica, da qual resultam as estações, lhe dá o direito de orgulhar-se do lugar que ocupa, e, não muito longe de nós, o planeta Júpiter oferece-nos o exemplo de condições de habita­bilidade preferíveis às nossas.

Com esses conhecimentos que fazem das estrelas sóis como o nosso, em cujo redor circulam planetas, caíram os erros se­culares dos nossos avós, segundo os quais o inferno achava-se colocado no centro da Terra, e o terceiro céu, aquele aonde foi elevado São Paulo, distava nos confins da criação. Esses dados cosmológicos baseavam-se na ignorância dos teólogos a respeito das verdadeiras proporções do Universo.

Quando a Ciência, com a inexorável lógica dos fatos, abriu aos nossos olhos atônitos e deslumbrados as perspectivas ilimi­tadas do Infinito, quando a Astronomia projetou o seu telescó­pio para os espaços siderais, as velhas lendas evaporaram-se ao sopro da realidade. Os mundos que povoam o Universo são terras como a nossa, sobre as quais palpita a vida universal, e o homem moderno ri das pretensões infantis dos nossos ante­passados, que quiseram limitar a este imperceptível grão de areia, chamado Terra, as manifestações da força infinita, incriada e eterna, a que se dá o nome de Deus.

Se, porém, o céu não existe no lugar em que o indicavam, para onde foi ele transportado? Em que região do imenso Uni­verso devemos colocar o éden de delícias prometido às almas que cumpriram aqui dignamente a sua missão? Eis o que ne­nhuma religião indica, e somente o Espiritismo, demonstrando o verdadeiro destino do homem, põe-nos no estado de compreen­der o progresso indefinito do Espírito, por transmigrações su­cessivas. Tomando por ponto de partida os atributos de Deus e a natureza do homem, Allan Kardec mostrou qual devia ser o nosso futuro espiritual. Vamos, resumindo, expor-lhe a teoria.

O homem é composto de corpo e Espírito; o Espírito é o ser principal, o ser racional e inteligente; o corpo é o invólucro material que o Espírito reveste temporariamente para o cum­primento da sua missão na Terra e para a execução do traba­lho necessário ao seu adiantamento. O corpo, quando gasto, é destruído, mas a alma sobrevive a essa destruição. Em suma, o Espírito é tudo, e a matéria não é mais que um acessório, de modo que a alma, libertada dos laços corporais, entra no espaço, que é a sua verdadeira pátria.

Há, pois, o mundo corporal, composto de Espíritos encarna­dos, e o mundo espiritual, formado pelos Espíritos desencar­nados. Os seres do mundo corporal, em virtude do seu invólucro material, estão presos à Terra ou a outro globo qualquer; o mundo espiritual está por toda parte, ao redor de nós e no espaço; ele é ilimitado. Como o dissemos, em razão da sua natureza fluídica, os seres que o compõem têm um modo de vida particular, dependente do seu organismo imponderável.

Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas com aptidão para adquirirem tudo e progredirem em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso, adquirem novos conhecimentos, novas faculdades e, por conseqüência, novos gozos desconheci­dos aos Espíritos inferiores; vêem, ouvem, sentem e compreen­dem o que os Espíritos atrasados não podem ver, ouvir, sentir e compreender. A felicidade está na razão direta do progresso feito; de modo que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o outro, unicamente por não ser tão adiantado intelec­tual e moralmente, sem que tenham necessidade de achar-se cada um em lugar diferente.

Achando-se mesmo ao lado um do outro, pode um estar em trevas, quando tudo é resplandecente ao redor do outro, exata­mente como se dá com um cego caminhando ao lado de uma pessoa que vê perfeitamente; um percebe a luz, ao passo que o outro nenhuma impressão tem a esse respeito. Sendo a feli­cidade dos Espíritos inerente às qualidades que possuem, eles a gozam onde quer que estejam: na superfície da Terra, no meio dos encarnados ou no Espaço.

E fácil compreender que o organismo fluídico seja mais ou menos apto para perceber as sensações, conforme o Espírito for mais ou menos grosseiro. Sabemos que as paixões más viciam o invólucro perispiritual, do mesmo modo que as enfermidades corrompem a carne terrena; visto isso, existe para os seres desencarnados uma recompensa proporcional à soma de virtude que eles adquiriram. Na Terra, acontece, muitas vezes, ficarmos cheios de admiração à vista das maravilhosas perspectivas de um radiante ocaso do Sol ou de uma aurora esplêndida; mas, que são esses matizes de luz ao lado das inumeráveis vibrações fluídicas que, sem cessar, se cruzam no espaço e que dão àqueles que as testemunham os mais inefáveis gozos! Uma comparação vulgar fará melhor compreender essa situação:

Se num concerto se acharem dois homens, um deles bom músico, de ouvido educado, o outro sem conhecimentos musi­cais e de ouvido pouco delicado: o primeiro experimenta uma sensação de agrado, ao passo que o outro fica insensível; porque um compreende e percebe o que nenhuma impressão causa ao outro. O mesmo se dá em relação a todos os gozos dos Espíritos; eles são proporcionais à aptidão que estes têm para senti-los.

O mundo da erraticidade tem por toda parte esplendores e harmonias que os Espíritos inferiores, ainda dominados pela matéria, nem mesmo entrevêem, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.

O Espiritismo ensina que a nossa situação, na vida de além-túmulo, é a resultante do nosso estado moral e dos esfor­ços que fizermos para nos elevarmos no caminho do bem. Po­demos trabalhar em nosso adiantamento espiritual, com ativida­de ou negligência, segundo o nosso desejo, mas também os nossos progressos são apressados ou retardados, e, por conse­qüência, a nossa felicidade aproxima-se ou afasta-se segundo a nossa vontade.

Os Espíritos são os próprios construtores do seu futuro con­forme o ensino do Cristo: A cada um segundo as suas obras. Todo Espírito que ficar demorado em seu progresso somente de si próprio deverá queixar-se, do mesmo modo que aquele que se adiantar tem todo o mérito do seu procedimento: a felicidade que ele conquistou tem por esse fato mais valor aos seus olhos.

A vida normal do Espírito efetua-se no espaço, mas a en­carnação opera-se numa das terras que povoam o Infinito; esta é necessária ao seu duplo progresso, moral e intelectual: ao progresso intelectual, pela atividade que ele é obrigado a desen­volver no trabalho; ao progresso moral, pela necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a malvadeza, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a ava­reza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a fraqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por móvel ou por incentivo as relações do homem com os seus semelhan­tes; aquele que vivesse só não teria vícios nem virtudes, porque, se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, anula, com isso, o bem. Uma só existência corporal é manifestamente insuficiente para que o Espírito possa adquirir tudo o que lhe falta de bem, e despojar-se de todo o mal que em si exista. O selvagem, por exemplo, não poderá numa só encarnação atingir o nível moral do europeu mais adiantado. Isso lhe é materialmente impossí­vel. Deverá ele, portanto, ficar eternamente na ignorância e na barbárie, privado dos gozos que só lhe podem vir com o desen­volvimento de suas faculdades? O simples bom senso repele tal suposição, que seria, ao mesmo tempo, a negação da justiça, da bondade de Deus e da lei progressiva da Natureza.


As vidas sucessivas


A lei das existências sucessivas é-nos ensinada pelos Es­píritos instruídos. O testemunho de milhares de almas que se comunicam vem trazer a esta crença a autoridade da experiên­cia diária, porque todos dizem-nos que vêem os erros de suas vidas passadas, que sofrem por isso e que procuram voltar à Terra para reparar as faltas anteriormente cometidas.

Eis o que a respeito diz Allan Kardec:

O dogma da reencarnação, afirmam certas pessoas, não é novo: ressuscitou de Pitágoras. Nunca dissemos que a doutri­na espírita fosse invenção moderna; o Espiritismo, sendo uma lei da Natureza, existe desde a origem dos tempos, e sempre nos esforçamos em provar que seus indícios aparecem desde a mais remota antigüidade. Pitágoras, como se sabe, não é o autor do sistema da metempsicose: colheu-o entre os filósofos da índia e do Egito, onde ele existia desde tempos imemoriais. A idéia da transmigração das almas era, pois, uma crença vulgar, admitida pelos homens mais eminentes. Como lhes veio essa idéia? Pela revelação ou por intuição? Não o sabemos; mas, como quer que tenha sido, uma idéia não transpõe as idades e não é aceita por inteligências escolhidas, se não tiver um lado sério.

A antigüidade desta doutrina, em vez de constituir-lhe moti­vo de repulsa, deve ser considerada uma prova a seu favor. Con­tudo, vê-se que há, na metempsicose dos antigos, um ponto que a diferencia muito da doutrina moderna da reencarnação, e que os Espíritos rejeitam do modo mais absoluto: a transmi­gração do homem para os animais. Os Espíritos, ensinando o princípio da pluralidade das existências corporais, fazem revi­ver uma doutrina que nasceu nas primeiras épocas do mundo e que se conservou até os nossos dias no pensamento íntimo de muitas pessoas; eles, porém, apresentam-na sob um ponto de vista mais racional, mais conforme com as leis progressivas da Natureza e mais em harmonia com a sabedoria do Criador, despojando-a de todos os acessórios da superstição. Uma cir­cunstância digna de nota é que não é somente em nossos livros que eles a ensinaram nestes últimos tempos: antes de nossa literatura, numerosas comunicações da mesma natureza foram obtidas em diversos países e consideravelmente se multiplica­ram depois. (61)

Examinemos a coisa sob outro ponto de vista, e, abstração feita de toda intervenção dos Espíritos, que ficam de parte por um instante, supondo-se mesmo que nunca se tivesse tratado dos Espíritos, coloquemo-nos momentaneamente num terreno neutro e admitamos no mesmo grau a probabilidade das duas hipóteses, a saber: a pluralidade e a unidade das existências corporais, e vejamos para que lado penderão a nossa razão e o nosso próprio interesse.

Certas pessoas repelem a idéia da reencarnação pelo único motivo de não lhes convir isso, dizendo que lhes basta uma existência e que não desejam ter outra igual; conhecemos alguns que se enfurecem só com o pensamento de reaparecerem na Terra.

Ouvimos fazer este raciocínio: Deus, que é soberanamente bom, não pode impor ao homem o recomeço de uma série de misérias e tribulações. Acharão, porventura, que haja mais bondade em condenar-se o homem a um sofrimento perpétuo por alguns momentos de erro, do que em fornecer-lhe os meios de reparar suas faltas? O pensamento de ser para sempre fixa­da a nossa sorte por alguns anos de provas, quando nem sempre depende de nós atingir a perfeição na Terra, tem alguma coisa de aflitivo, ao passo que a idéia contrária é eminentemente consoladora: ela deixa-nos a esperança. Por isso, sem nos pro­nunciarmos pró ou contra a pluralidade das existências, sem admitirmos uma hipótese de preferência à outra, dizemos que, se fosse concedida a escolha, ninguém preferiria um julgamento sem apelo.

Se não há reencarnação, não haverá senão uma existência corporal: isto é evidente; se a nossa existência corporal é a única, a alma de cada homem é criada na ocasião do seu nas­cimento. Admitindo-se, segundo a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo ou, o que significa o mesmo, que anterior­mente à sua encarnação, ela só possui faculdades negativas, apresentamos as questões seguintes:

1 - Por que motivo a alma apresenta aptidões tão di­versas e independentes das idéias adquiridas pela educação?

2 - Donde procede a aptidão extranormal de certas crianças para tal arte ou tal ciência, ao passo que muitos adul­tos ficam inferiores ou medíocres durante toda a sua vida?

3 - Donde vêm, para uns, as idéias intuitivas ou inatas que não existem em outros?

4 - Donde se originam, para certas crianças, esses Ins­tintos precoces de vícios ou de virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza que contrastam com o meio em que elas nasceram?

5 - Por que certos homens, abstração feita da educação, são mais adiantados que os outros?

6 - Por que há selvagens e homens civilizados? Se to­mardes uma criancinha hotentote e a educardes nos nossos liceus de mais nomeada, conseguireis fazer dela um Laplace ou um Newton?

Perguntamos: qual é a filosofia ou a teosofia que pode resolver esses problemas? As almas ao nascer ou são iguais ou são desiguais: das duas uma. Se são iguais, por que são tão diversas as suas aptidões? Dirão que isso depende do organismo? Porém, então nos encontramos com a doutrina mais monstruo­sa e mais imoral. O homem fica sendo apenas uma máquina, o joguete da matéria, sem a responsabilidade de seus atos e podendo lançar a culpa de tudo sobre as suas imperfeições físicas. Se são desiguais, é porque Deus o criou assim; mas então, por quê? Essa parcialidade se conformará com a justiça e com o amor igual que ele dedica a todas as suas criaturas?

Admitamos, ao contrário, uma sucessão de existências anteriores progressivas, e tudo se explica. Os homens trazem, ao nascer, a intuição do que adquiriram; são mais ou menos adiantados, segundo o número de existências que têm percor­rido. Deus, em sua justiça, não podia criar almas mais perfei­tas nem menos perfeitas; com a pluralidade das existências, a desigualdade que observamos nada tem de contrária à mais rigorosa eqüidade; esta parece não existir, porque só vemos o presente e não o passado. Este raciocínio repousará numa hipó­tese, numa simples suposição? Certamente que não; partimos de um fato patente, incontestável: da desigualdade das aptidões e do desenvolvimento intelectual e moral, que é inexplicável lior todas as teorias em voga e que tem na nossa teoria uma explicação simples, natural e lógica. Será racional preferir-se aque­las que nada explicam?

A respeito da sexta questão, dirão, naturalmente, que o hotentote é de uma raça inferior. Mas, perguntamos, o selva­gem é ou não um homem? Se é, por que Deus negou a ele e à sua raça os privilégios concedidos à raça caucásica? Se não é um homem, por que procuram fazê-lo cristão? A Doutrina Espírita é mais lógica: para ela, não há muitas espécies de homens, e, sim, homens que são Espíritos mais ou menos atra­sados e suscetíveis de progredirem; não será isto mais conforme à justiça de Deus?

A crença nas vidas sucessivas era o fundamento do ensino dos mistérios; os filósofos antigos, tendo à sua frente Platão, acreditavam nas vidas anteriores; ele dizia: Aprender é re­cordar.

Portanto, a pluralidade das existências da alma tem a seu favor a autoridade da tradição, da razão e da experiência, e é lógico que ela seja aceita com entusiasmo por todos aqueles que já sentiram o vácuo das outras teorias. Com as vidas su­cessivas, o Universo nos aparece povoado de seres que percorrem em todos os sentidos o infinito da imensidade. Quão pequena e mesquinha é a teoria que circunscreve a Humanidade a um imperceptível ponto do espaço, que no-la mostra começando num instante dado para acabar igualmente com o mundo que a sustenta, não abraçando assim senão um minuto na eternidade! Quão triste, fria e glacial é ela, quando nos mostra o resto do Universo antes, durante e depois da existência da Humanidade terrena, sem vida, sem movimento, qual imenso deserto imerso no silêncio! Como é desesperadora a pintura que nos faz do pequeno número de eleitos votados à contemplação perpétua, ao passo que a maioria das criaturas é condenada a sofrimen­tos infindáveis! Quão aflitiva é, para os corações amorosos, a barreira que ela levanta entre os mortos e os vivos!

Ao contrário, quão sublime é a teoria espírita! Como a sua doutrina engrandece as idéias e dilata o entendimento! A Terra nos oferece o espetáculo de um mundo essencialmente progressivo. Saído do estado caótico, ele se transforma e se modifica à medida que avança em seu curso secular. Os seres aparecidos então em sua superfície seguiram a mesma lei de progressão, e a sua estrutura aperfeiçoou-se harmonicamente à medida que as condições exteriores se tornaram melhores. O homem, enfim, saindo dos baixios da bestialidade, elevou-se até o conhecimento do mundo exterior.

Será possível supor-se que não haja laço algum entre as almas que viveram nas épocas passadas e as que vivem atual­mente? Sabendo-se que a natureza do homem é ainda tão imperfeita, poder-se-á crer que, depois da morte, ele vá ficar parado e gozar de repouso eterno? E essa parada, esse termo de progresso estará em concordância com as noções que Deus nos permite conceber sobre Ele e sobre suas obras? A Natureza caminha sempre; ela trabalha sempre, porque Deus é a vida e é eterno, e a vida é o movimento progressivo para o supremo bem, isto é, para o próprio Deus.

Seria possível que somente o homem, ele que foi criado livre, pudesse ser bruscamente detido em sua marcha, com o grau de progresso que houvesse adquirido, sem participar do movimento da Natureza? Tal coisa seria incompreensível.

Entre duas doutrinas, das quais uma amesquinha e a outra amplia os atributos de Deus, das quais uma está em desacordo e a outra em harmonia com a lei do progresso, das quais uma estaciona e a outra avança, o bom senso indica de que lado se acha a verdade. Que cada um interrogue a sua razão; ela res­ponderá, e a sua resposta será confirmada por um guia certo que jamais se engana: a consciência.

Se o nosso modo de ver é exato, alguns entretanto pergun­tarão por que o Poder Criador não revelou desde o princípio qual a verdadeira natureza do homem e seus destinos. A resposta é a seguinte: Deus não revelou isso desde logo, pela mesma razão que não se ensina à infância o que se ensina à idade madura. A revelação limitada foi suficiente durante certo pe­ríodo da Humanidade; Deus concede-a proporcionalmente às forças do Espírito. Aqueles que recebem hoje uma revelação mais completa, são os mesmos Espíritos que já receberam re­velação parcial em outros tempos, porém que, desde então, aumentaram sua inteligência. Antes que a Ciência lhes ti­vesse feito conhecer as forças vivas da Natureza, a constitui­ção dos astros, o verdadeiro lugar e a conformação da Terra, poderiam eles compreender a imensidade do espaço, a plurali­dade dos mundos? Antes que a Geologia tivesse feito conhecer a estrutura deste globo, poderiam eles lançar o inferno para fora de seu seio? Antes que a Astronomia tivesse descoberto as leis que regem o Universo, poderiam eles compreender que não há baixo nem alto no espaço, que o céu não está colocado acima das nuvens nem é limitado pelas estrelas? Antes dos progressos da ciência psicológica, poderiam eles identificar-se com a vida espiritual? Poderiam conceber, depois da morte, uma vida feliz ou infeliz, que não fosse em lugar circunscrito e sob uma forma material? Certamente que, não compreendendo mais pelos sen­tidos que pelo pensamento, o Universo era muito vasto para o seu cérebro; fora preciso reduzi-lo a proporções menos amplas, que seriam alargadas mais tarde. É o que fazemos hoje, demons­trando, não a inanidade, mas a insuficiência dos primeiros ensinos. Portanto, os espíritas não admitem o paraíso, segundo o significado que ordinariamente se dá a esta palavra. Eles não podem compreender que exista lugar especial de delícias onde os eleitos estejam enfadados por uma eterna ociosidade, nem penitenciária onde as almas estejam eternamente torturadas.

Segundo os Espíritos, não há raça amaldiçoada nem exis­tem demônios; segundo eles, há Espíritos maus em grande número, porém estes não são eternamente votados ao mal, pois têm constantemente a faculdade de se melhorarem nas reen­carnações sucessivas. Neste caso, ainda o testemunho dos fatos é formal. Cada dia temos ocasião de verificar que Espíritos endurecidos voltam ao caminho do bem, devido às preces que fazemos por eles e às exortações que lhes dirigimos. Para muitos desses infelizes, a situação intolerável em que se acham pare­ce-lhes eterna. Mergulhados em espessas trevas, desde o mo­mento em que deixaram a Terra, e sofrendo horrivelmente, acreditam que esse estado não terá fim, e desesperam-se; mas, se um sincero arrependimento irromper do seu coração, seus olhos desvendar-se-ão: vêem, então, sua verdadeira situação e pedem, como uma graça, para voltar à Terra, a fim de resgata­rem, por uma vida de expiação e de sofrimento, os seus crimes anteriores. Verifica-se que, no mundo dos Espíritos, há alguns que se conservam por muito tempo refratários a toda idéia de submissão; mas, esses também têm o livre-arbítrio: sabemos que a sua hora há de chegar e que ninguém é castigado eter­namente.


CONCLUSÃO


Seguimos passo a passo a longa série dos fenômenos espí­ritas, desde as primeiras manifestações que se deram na Amé­rica até as importantíssimas experiências de Crookes e de Aksakof. Verificamos que todas as teorias destinadas a expli­car o fenõmeno por outras causas que não sejam a ação dos Espíritos foram manifestamente reconhecidas falsas ou insu­ficientes. Podemos, pois, afirmar, hoje, que a imortalidade da alma está rigorosamente demonstrada.

Do exposto também resulta que o Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência experimental; ele não foi constituído sobre idéias preconcebidas; não é obra de um homem nem de uma seita, e, sim, um produto direto da observação.

A certeza da imortalidade do ser pensante surge radiante do estudo dos fatos. Está provado que o eu consciente sobrevive à morte, que aquilo que constitui verdadeiramente o homem não é atingido pela desagregação do corpo, e que, na vida de além-túmulo, a individualidade humana persiste em sua ínte­gralidade.

E esse eu consciente que adquire, por sua vontade, todas as virtudes e todas as ciências que lhe são indispensáveis para se elevar na escala dos seres. A criação não está limitada à fraca parte que os nossos instrumentos nos permitem descobrir; ela é infinita em sua imensidade. Longe de nos considerarmos como habitantes exclusivos deste pequeno globo, o Espiritismo demonstra que somos cidadãos do Universo.

Vamos do simples ao composto. Partindo do estado mais rudimentário, aos poucos nos elevamos à dignidade de seres responsáveis; cada conhecimento novo que em nós se fixa faz­-nos entrever horizontes mais vastos e gozar de uma felicidade mais perfeita. Longe de colocarmos o nosso ideal na ociosidade beata e eterna, acreditamos que a suprema felicidade consiste na atividade incessante do Espírito, na ciência cada vez maior e no amor que desenvolvemos por nossos irmãos, à medida que avançamos no árduo caminho do progresso.

Compreende-se que essas idéias nos obriguem a admitir a pluralidade das existências e a negação completa de um paraíso circunscrito ou de um inferno qualquer. Quando se pensa na possibilidade de se viver grande número de vezes na Terra com corpos humanos diferentes, essa idéia, a princípio, parece absur­da; mas, quando se reflete na soma enorme de conquistas inte­lectuais que devem possuir os povos civilizados, na distância que separa o selvagem e o homem instruído, na lentidão com que se adquire um hábito vê-se desenhar a evolução dos seres e concebem-se as vidas múltiplas e sucessivas, como uma neces­sidade absoluta que se impõe ao Espírito, tanto para adquirir a sabedoria como para resgatar as faltas que cometeu anterior­mente. A vida da alma, encarada sob este ponto de vista, de­monstra que o mal não existe ou, antes, que ele é criado por nós e é resultante da nossa ignorância.

Existem leis eternas que não devemos transgredir; mas, se nos não conformamos com elas, temos eternamente a faculda­de de reparar, por novos esforços, as faltas e os crimes que cometemos. É por provas inumeráveis que todos nós devemos passar, que chegaremos à felicidade, apanágio de todos os seres viventes.

A filosofia espírita alenta o coração; considera os infelizes, os deserdados deste mundo como irmãos a quem devemos apoiar. É colocando-nos neste ponto de vista que afirmamos ser uma simples questão de tempo a distância que separa o selvagem mais embrutecido e o homem de gênio de um país civilizado. No domínio moral, dá-se ainda o mesmo fato: mons­tros como Nero e Calígula podem e devem, no futuro, elevar-se ao grau sublime de São Vicente de Paulo.

O egoísmo é inteiramente destruído pelo Espiritismo. Esta doutrina proclama que ninguém pode ser feliz se não amar seus irmãos e se não os ajudar a progredir moral e intelectual­mente. Na lenta evolução das existências, podemos ser, por diversas vezes e reciprocamente, pai, mãe, esposo, filhos, irmãos, etc. Os efeitos diferentes que essas posições diversas fazem nascer cimentam nos corações laços poderosos de amor.

É pelo auxílio mutuamente prestado que podemos adquirir as virtudes necessárias ao nosso adiantamento espiritual.

Nenhuma filosofia se elevou ainda a tão grandiosa con­cepção da vida universal, nenhuma pregou ainda moral tão pura! Por isso, apresentamo-nos audazmente ao mundo, apoia­dos nas bases inabaláveis da certeza científica.

O Espiritismo é uma ciência progressiva, baseia-se na reve­lação dos Espíritos e na análise minuciosa dos fatos. Não tem dogmas nem doutrina cuja discussão seja interdita; além da comunicação entre os vivos e os mortos e do principio da reen­carnação, que estão absolutamente demonstrados, admitimos todas as teorias racionais que se referem à origem e ao futuro da alma. Em uma palavra, somos os positivistas do espiritua­lismo, e isso dá-nos uma superioridade incontestável sobre as outras filosofias, cujos adeptos se conservam encerrados em estreitas malhas.

Tal é, em suas grandes linhas, a filosofia que os mundanos procuraram deprimir por meio da falsidade e da calúnia. Con­cebe-se que as nossas idéias e o nosso modo de ver coloquem-nos muito acima das críticas vulgares e induzam-nos a não dar importância aos anátemas lançados contra nós pelos ignoran­tes; mas cumpre propagarmos as nossas idéias, a fim de que o sol da justiça se levante sobre nós e permita aos pensadores apreciar, em toda a sua grandeza, a nobre doutrina que se denomina Espiritismo.

Fim

Notas de Rodapé

(1) Manu - Siocas, 187, 188 e 189.

(2) Texto do antigo Bagavatta, citado no prêmio do Agrouchada

(3) Deuteronômio.

(4) Tertuliano - Apologética, 23.

(5) Ver Eugène Nus: Choses de 1,Autre Monde. Citaremos este autor, pois resumiu muito bem os trabalhos espíritas, e convidamos os leitores a consultarem esse seu livro, tão espiritual quanto bem escrito.

(6) Emmn Hardinge - History of American Spiritualism.

(7) Um grão corresponde, mais ou menos, a cinco centigramas

(8) Para ser justo a este respeito, devo dizer que, expondo estes intuitos a vários espiritualistas eminentes e aos médicos mais dignos de confiança na Inglaterra, eles exprimiram a sua perfeita confiança no êxito do inquérito, se ele fosse lealmente prosseguido segundo acima indiquei.

Ofereceu-se para assistir-me, com todos os seus poderes, pondo à minha disposição as suas faculdades particulares. E, até o ponto que atingi, posso acrescentar que as experiências preliminares têm sido satisfatórias. (Nota de William Crookes.)

(9) Wallace - Les Miracles et le Moderne SpiritualIsme, pág. 240. (10) O Sr. Roggers é, atualmente, adepto da teoria espírita, e é o redator-chefe do Light, jornal espírita de Londres.

(10) O Sr. Roggers é, atualmente, adepto da teoria espírita, e é o redator-chefe do Light, jornal espírita de Londres.

(11) Congr Spirite et Spiritualiste. Librairíe Spirite, 42 rue Saint-Jacques, Paris.

(12) Lombroso mudou, efetivamente, de opinião. Aceitou por completo a teoria espírita. Ver o seu livro Hipnotismo e Mediunidade, editado pela FEB. (Nota da Editora.)

(13) Damos somente os principais jornais de cada pais, por não podermos publicar por inteiro a lista completa, pois se tornaria fasti­diosa.

(14) Footfalls on the Boundary of Another World.

(15) De la Question de 'Esprit, 1863.

(16) Züllner - Seientifie Papers.

(17) A Sociedade Dialética de Londres pode ser comparada à Academia de Ciências de Paris; ela conta, entre os seus membros, com os homens mais eminentes da Inglaterra; o leitor compreenderá, por conseqüência, a importância considerável do documento que publicamos.

(18) Robert Hare - Experimental Investigation of the Spirit Manifestation.

(19) Crookes - Recherches Expérimentales sur le Spiritualisme, pp. 55-67.

(20) Essas palavras foram grifadas pelo próprio Crookes no original.

(21) Veja O Livro dos Médiuns, por Allan Kardec.

(22) Veja de Rochas: A Levitação.

(23) Wallace - Les Miracles et le Moderne Spiritualisme, págs. 224

(24) Qardy - Cherchons, pág. 231.

(25) Teremos, mais adiante, o estudo minucioso desses fenômenos.

(26) Ver Les Annales Psyehiques, 1891, págs. 65 a 97.

(27) Lombroso - La transmission de Ia pensée; Gazette Littéraire, vol. XIV, pág. 12, Turim, 1890.

(28) Oxon é o pseudônimo do reverendo Stainton Moses, profes­sor da Universidade de Oxford.

(29) Gardy - Cherchons, págs. 88 e seguintes.

(30) Crookes - Recherches Expérimentales sur le Spiritualisme.

(31) Crookes - Recherches Expérimentales sur le Spiritualisme, págs. 16-21.

(32) Os Drs. A. B. e C. D. são os Srs. William Huggins e Sergent Cox, cujas cartas confirmam a narração de Crookes.

(33) Dr. Gibier - O Espiritismo,,, Terceira parte, capitulo I, § II.

(34) Espírito que, às vezes, se apossa dos órgãos do médium.

(35) Janet - L'Automatisme Psychologique, págs. 397 e se­guintes.

(36). Richet - L'Homme et rintelligence,'.

(37) Proceedings, parte XV, págs. 17 e 18.

(38) Vede também Dassier - L'Humanité Posthume.

(39) Barão de Guldenstubbé - La Réalité des Esprits, págs. 66

40) No fim da obra do Barão de Guldenstubbé encontram-se fac-símiles dessas escritas.

(41) Wallace - Les Miracles et le Moderne Spiritualisme, págs. 182, 183.

(42) Gibier - O Espiritismo, Terceira parte, capitulo I, § V.

(43) Annaies Psychiques, maio e junho de 1892, págs. 152 e seguintes.

(44) Eugbne Nua - Obra citada, págs. 362 a 393.

(45) Wallaoe - Obra citada, pág. 226.

(46) Para a análise desses fatos, ver meu livro: O Espiritismo perante a Ciência.

(47) O Sr. Benjamin Coleman estava presente em uma sessão, a respeito da qual escreveu: O Senhor Crookes ergueu a cortina, e ele, eu e quatro assistentes que estavam perto de mim vimos todos, ao mesmo tempo, a forma de Katie, vestida de branco e, ao lado, a forma da médium, deitada, cujo vestido era azul, tendo na cabeça um xale encarnado. A Srs Florence Marryat, que esteve presente nas três primeiras sessões, em 9, 14 e 21 de maio de 1874, atesta que viu Katie e a médium ao mesmo tempo; que sentiu o corpo daquela, vestido, assim como a rápida pulsação do seu coração, e que ela pôde certificar que, se isso é uma força psíquica, a força psíquica é uma mulher. Há ainda outros atestados que citamos na nossa obra: O Espiritismo perante a Ciência.

(48) Marina Leyrnarie - Procès des Spirites, nova edição, em 1976, da FEB (Introdução, em português, de 123 páginas).

(49) Wallace - Obra citada, págs. 225 e seguintes.

(50) Depois da publicação destas linhas (janeiro, 1893) apareceu o trabalho do Senhor Aksakof; Animismo e Espiritismo, edição da FEB.

(51) Light, de Londres, número de 23 de abril de 1887.

(52) Fotografia do médium e de um Espírito invisível, em pleno dia.

(53) Ver o meu livro - O Espiritismo perante a Ciência.

(54) Aksakof - Um Caso de Desmaterialização.

(55) Eugène Nus - Obra citada, págs. 340, 341 e 342.

(56) Ver Revue Spirite, ano de 1887.

(57) Depois dessa época, fizeram-se novas experiências com a mesma médium, as quais estão consignadas no livro do Sr. de Rochas, intitulado: L'Extériorisation de Ia Motricité.

(58) Ver a minha obra - O Espiritismo perante a Ciência, na qual o perispirito é longamente estudado. As provas da sua existência durante a vida e depois da morte ai são minuciosamente expostas.

(59) A fabricação de tal molde é inteiramente impossível, porque a mão enluvada com a parafina não podia sair do molde sem quebrá-lo, visto o punho ser mais estreito que a mão.

(60) Em 1909, Lombroso reformulou as suas teorias. Ver o livro - Hipnotismo e Mediunidade, editado pela Feb

(61) A pluralidade das existências foi ensinada na antigüidade por Platão, Plotino, Porfirio, Jámblico, Origenes, Timeu de Locres. Os druidas faziam disso um ensino público. Nos tempos modernos, Delor­mel, Charles Bonnet, Dupont de Nemours, Constant Savy, Ballanche, Jean Reynaud, Henri Martin, Esquiros, Flammarion são partidários da doutrina das vidas sucessivas sobre a Terra ou sobre outros planetas.



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal