Gabinete do Deputado André de Paula pfl/PE



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Encontro10.09.2017
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O Senhor Deputado André de Paula, PFL/PE, em sessão de 11 de dezembro de 2002 pronuncia o seguinte discurso.


Senhor Presidente,

Ilustres Deputados,

Meus Senhores e Minhas Senhoras,

Ao tempo em que cumprimento os colegas presentes, venho a esta Tribuna, para fazer registrar nos anais desta Casa as minhas homenagens, as homenagens do povo do meu Estado a um ilustre conterrâneo que é considerado um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.


E justamente neste ano, mais precisamente no dia 09 de dezembro de 2002, comemoramos 100 anos do seu nascimento. Trata-se do inesquecível e saudoso Nelson Heráclito Alves Ferreira, ou simplesmente Nelson Ferreira, como os pernambucanos costumam tratá-lo.
Nascido no município de Bonito, aos 09 dias do mês de dezembro de 1902, filho de mãe professora e de Pai, que, além de vendedor de jóias, era também violonista amador – de quem, inclusive, herdou o gosto pela música, desde cedo, aos 13 anos, ele já despontava como um dos grandes pianistas da Capital pernambucana, chegando a ser o pianista mais ouvido daquela época, ainda com a existência do cinema mudo.
Sua primeira composição, feita de encomenda, uma valsa intitulada “Victória”, foi apenas o início de uma vasta obra musical através da qual ele se imortalizou e se tornou um dos eternos ícones da verdadeira música popular brasileira.
A partir daí foram muitas músicas que se tornaram conhecidas não somente pelos seus conterrâneos mas para os brasileiros amantes do frevo, do frevo-canção, do samba, da valsa e de tantos outros gêneros musicais, sendo praticamente impossível catalogar todos os seus trabalhos.
Ele chegou a compor sete evocações musicais, famosas em todo o Brasil, homenageando amigos de Carnaval, jornalistas, velhos companheiros e verdadeiros imortais da poesia e da música, como Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Athaulfo Alves, Lamartine Babo e Francisco Alves, entre outros.
Nelson é um dos nordestinos que possui o maior número de músicas gravadas na história da discografia brasileira, embora grande parte de suas criações seja desconhecida do resto do Brasil.
Sua produção, ao lado da de outros pernambucanos como Raul e Edgar Morais, Zumba, Levino Ferreira, Irmãos Valença, Luiz Gonzaga e Capiba, é de uma importância enorme no estudo das manifestações músico-sócio-culturais de nossa região.
Aliás, muito bem o traduziu o escritor Nilo Pereira quando se referiu às suas valsas: "Nelson Ferreira, feiticeiro do piano, fixador dum tempo que as suas valsas revivem como se estivessem falando. Se meia hora antes de sair o meu enterro, tocarem as valsas de Nelson, velhas valsas tão íntimas do meu mundo, irei em paz, sonhando."
E é bem verdade que a sua biografia é rica não somente em conteúdo musical, mas também em atitudes, em posturas, em posicionamentos que nos deixam orgulhosos de sermos seus conterrâneos.
Mesmo tendo sido convidado – por diversas vezes – para fixar residência na então Capital do país, Rio de Janeiro, a fim de conquistar uma maior notoriedade, Nelson Ferreira, extremamente ligado às suas raízes, sempre optou por permanecer no Recife, fazendo escola, formando músicos e compondo canções que enriqueceram a Cultura do país.
Depois de fazer época em programas da tradicional Rádio Clube do Recife, foi com o surgimento da Gravadora Rozenblit, em 1953, que a sua carreira tomaria um rumo diferente.
A partir daí, as suas músicas passaram a ser popularizadas, passaram a ser cantadas pelos maiores ídolos do rádio, rompendo as fronteiras do Estado e se tornando conhecidas em quase todos os cantos do país.
Em 1957, por exemplo, o seu frevo-de-bloco “Evocação” tornou-se a música campeã do Carnaval Carioca, tocada em todo o Brasil, gravado com sua orquestra e com o coral feminino “Batutas de São José”.
Cabendo frisar que foi com a mesma dignidade que ele acompanhou o auge do frevo e dos ritmos pernambucanos que ele também participou das dificuldades enfrentadas pelos músicos do Estado, quando da falência da gravadora que lhes dava uma grande cobertura – a Rozemblit.
Uma prova disso seria o surgimento do primeiro Trio Elétrico Baiano, que, tornando-se a grande novidade do momento, e mudando o foco das atenções de Pernambuco para a Bahia, levou o Jornal O Globo a formar uma mesa redonda com compositores pernambucanos, como que para esboçar uma reação dos velhos frevos.
Nesta oportunidade, Nelson Ferreira, de quem todos esperavam um posicionamento conservador, de repulsa à nova idéia baiana, surpreendeu a todos quando disse em alto e bom tom: “na minha opinião, isso significa a integração da música brasileira. Foi maravilhoso que Caetano tenha mandado de Londres um frevo-canção como “Chuva, Suor e Cerveja”, que muito toquei e orquestrei no Carnaval”.
Foram episódios como este que o tornaram não somente numa referência musical mais numa referência pessoal e humana, como grande figura de sua época, levando seus amigos, muitas vezes, a tecer-lhe rasgados e merecidos elogios.
O maestro Vicenti Fittipaldi declarou, em depoimento para um livro sobre Nelson Ferreira, ao médico, ator e compositor Valter de Oliveira: "Ele era como Mário Melo, Ascenso Ferreira, Valdemar de Oliveira, uma das instituições da cidade. Era, com sua música, aquilo que Garrincha foi com o seu futebol, a "alegria do povo". Tenho plena convicção de que daqui há duzentos anos, "Gostosão" e a "Evocação", serão tocados e cantados pela gente do Recife: não serão mais de Nelson Ferreira, serão folclore; como são "Casinha Pequenina", "Prenda Minha" e o "Meu Limão, meu Limoeiro" que, sem dúvida, também tiveram um autor."

Quando seus olhos se cerraram pela última vez, escreveu Gilberto Freyre no Diário de Pernambuco: "O vazio que deixa é o que nos faz ver como era grande pela sua música, pelo seu sorriso, pela sua fidalguia de pernambucano."


São, portanto, estes registros, Senhor Presidente, que eu faço questão de fazê-los, não apenas porque se trata de mais um pernambucano ilustre, mas porque se trata, juntamente com o também memorável Capiba, repito, um dos maiores compositores populares de todos os tempos em nosso país.
É bem verdade, Meus caros colegas de Parlamento, que Ainda em vida o Maestro Nelson Ferreira foi homenageado por prefeitos, governadores, clubes e entidades, tendo recebido das mãos do Presidente Médici, a condecoração de Oficial da Ordem Rio Branco.
Mas, neste ano em que comemoramos o seu centenário, nada mais justo do que registrarmos mais esta homenagem e fazermos jus à sua memorável obra, à sua memorável conduta – como músico, como cidadão e antes de tudo como pernambucano, que deixou uma inestimável contribuição à cultura de nosso Estado e do nosso País.

Muito Obrigado,



André de Paula.
(*) Contribuição bibliográfica: Renato Phaelante da Câmara e José Teles.



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