Frei hermano



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FREI HERMANO


DA CÂMARA

O MONGE CANTOR

EDIÇÕES NEPTUNO

O PASTOR CONHECE AS SUAS OVELHAS

Passei um olhar curioso sobre o texto que se segue.

Apesar de desconhecer muitos dos seus pormenores, pareceu-me não descobrir nele nada de novo, no essencial; apenas a confir­mação do retrato que tenho do P.e Hermano Vasco Villar Cabral da Câmara - mais conhecido por Frei Hermano da Câmara - desde que comecei a ouvir as suas canções e, mais tarde, a contactar com ele. É um sonhador, no melhor sentido da expressão. Quer dizer: alguém que, sonhando alto, não desiste de procurar subir até às alturas do seu sonho.

Frei Hermano é duplamente artista: como poeta e músico.

Poeta, sabe exprimir com palavras e sentimentos que irrompem do mais íntimo do coração.

Músico, sabe envolver tais poemas - seus ou de outros poetas - em sons de maravilha.

Mas há ainda um terceiro aspecto da sua alma de artista: o modo como transmite aos outros os dons que enriquecem a sua persona­lidade multifacetada.

Eu não sei falar de música, porque nunca tive jeito para esta área do saber, apesar de ligado ocasionalmente na juventude, por generosi­dade dos responsáveis, a grupos corais de valor: o do Seminário, regido pelo compositor espanhol cónego José Angerri, e o da Universidade de Coimbra, a cargo do maestro Raposo Marques. Mas sei apreciar a música: tocada ou cantada. E sempre me cativou a de Frei Hermano.

Portador de nomes ilustres - com destaque para Cabral, de Pedro Álvares, "achador" do Brasil, há precisamente cinco séculos, com­pletados hoje - cedo sentiu fervilhar nele o prurido musical, na modalidade do fado, quer genuíno quer fado-canção. Mas cedo tam­bém começou a intuir em si a vocação de monge. Na realização desta, sublimaria a ânsia de infinito que nele brotava em expressões musicais.

Circulou de mosteiro em mosteiro, fixando-se em Singeverga, por onde começara. Aqui professou, na Ordem Beneditina, e se fez sa­cerdote, tornando-se monge-cantor.

Em dado momento, sentiu a sua dupla vocação - ambas genuínas ­tinha dificuldade de se realizar plenamente ou harmonizar com alguns condicionalismos do mosteiro.

Começou para ele um novo drama. Foi então que me cruzei direc­tamente com o seu caso.

Assegurado da inexistência de qualquer problema de identidade sacerdotal, mas tão-só aspectos secundários de integração na disci­plina monástica, face à concretização dos seus objectivos, e depois de apreciado o caso com os superiores conventuais, escancarei-lhe os átrios da Igreja diocesana. Efectuadas as indispensáveis diligên­cias canónicas em Roma para tais situações, admiti-o ao Presbitério bracarense, de que eu era então cabeça e primeiro responsável. Foi em 27 de Janeiro de 1988, ficando desligado dos compromissos conventuais e da obediência ao Abade de Singeverga.

Nem ele nem eu jamais nos arrependemos deste acto canónico-pas­toral, que apenas alterou o seu viver em aspectos periféricos.

O P.e Hermano da Câmara - que continua a ser conhecido por Frei Hermano - tem podido, desde então, realizar com mais facilidade a vocação de monge-cantor, além de fundador e superior da promis­sora Comunidade dos Apóstolos de Santa Maria.

Braga, 22 de Abril de 2000

c-~ í.an Arceb' rimaz emérito

..

~ ~Y ~~í


r ' VIVO D'ARTE!... VIVO D'AMOR!...

_ Quem sou eu? j , , Um sonhador...

Com que sonho? Com o amor! ! ! Que faço?

Canto as misericórdias do Senhor!

I Como vivo?

Vivo d'arte !... Vivo d'Amor!... I Tal como o Bom Pastor,

Canto a arte de amar até ao fim, Mas já não sou eu que canto:

É Cristo que canta em mim!!! Vivo d'arte!... Vivo de Amor!... Eu sou um sonhador...

' Eu sou um UNGIDO DO SENHOR! ! !

O Espírito de Deus repousa sobre mim, Enviou-me a dilatar o seu reinado ao mundo, Levar a Boa Nova aos pobres do Senhor, Levar consolação onde haja pranto e dor.

O Espírito de Deus repousa sobre mim, Enviou-me a dilatar o seu reinado ao mundo, Aos cegos dar a luz da eterna salvação,

Aos presos libertar da sua escravidão.

O Espírito de Deus repousa sobre mim, O Espírito de Deus me deu sabedoria,

O Espirito de Deus enviou-me a proclamar, O Reino da justiça, do amor e da alegria,

O Espírito de Deus repousa sobre mim, O Espírito de Deus me deu sabedoria,

O Espírito de Deus enviou-me a proclamar,

O Reino da amizade, da paz e da d'harmonia'.

Frei Hermano

QUANDO NASCE UM HOMEM NASCE UMA VOCAÇÃO

Onde nasce um Homem Nasce uma vocação; Onde cresce um Homem Cresce uma vocação;

Onde é educado um Homem É educada uma vocação; Onde é amado um Homem

É amada uma vocação divina, E tudo começa na família.

Meu Pai Minha Mãe

Quis Deus que eu nascesse de uns pais que tiveram dez filhos e que não se furtaram à obrigação de os educar duma forma sã e equili­brada.

Meu pai, mais severo, mais intransigente, um pouco mais distante... Minha mãe, mais compreensiva, mais acessível. Tanto quanto me = lembro, completavam-se admiravelmente.

~4,..


Om1e nasce um homem nasce u ma vocaçáo:

Frei Hermano

A minha vida em casa, com os meus irmãos e minhas irmãs não teria sido já uma aprendizagem para o futuro que me esperava de me fazer religioso e vir a viver em comunidade? Para fazer surgir uma vocação, Deus trabalha uma cadeia de gerações. Por norma, uma vocação é inicialmente modelada pelo ambiente do lar.

Julgo que a minha vida toda, até me decidir a entrar para o mosteiro, foi fortemente marcada pelo ambiente familiar. Não tenho dúvidas de que meus pais foram para mim os instrumentos de que Deus se serviu para me guiarem no caminho certo, para me mostrarem, ainda que inconscientemente, o lugar em que Deus me queria. Meus pais eram bastante exigentes connosco e não deixavam passar a mais pequena falta ou incorrecção da parte dos filhos sem os cor­rigir com firmeza e bondade.

Meu pai não se ensaiava nada em desligar a televisão quando enten­dia que algum programa não era próprio para ser visto por algum de nós: "Eu não sou obrigado a aceitar todas as porcarias que a tele­visão nos quer enfiar pela casa dentro ", dizia ele. Não sei se haverá hoje muitos pais que tenham a coragem de fazer isto?!...

Quem encontrará uma mãe virtuosa? vale muito mais do que as pérolas. Nela confia o coração do seu marido

porque ela lhe traz a felicidade todos os dias da sua vida. Lança a mão ao fuso e os dedos pegam a roca.

Estende a mão ao pobre e ajuda o indigente. Se neva, não teme pela casa

porque todos vestem roupas forradas.

Está vestida de força e dignidade e sorri diante do futuro. Fala com sabedoria e a sua língua ensina com bondade. vigia o comportamento dos criados,

seus filhos levantam-se para saudá-la e seu marido canta-lhe louvores 2.

É assim que vejo a minha mãe, neste perfil da mulher bíblica.

Com ar sereno e seguro, minha mãe fazia a gestão de toda a casa, zelava por toda a família e cuidava de nós de uma forma terna, compreensível e condescendente. Era realmente uma mãe com um grande coração, onde havia lugar para todos os seus filhos. Tinha uma alma sacerdotal e transmitiu-ma com a vida.

No dia da minha Primeira Comunhão, a minha mãe não cessava de me repetir que era o dia mais feliz da minha vida. Fiquei vivamente emocionado quando entrei na sacristia e vi um mar de crianças todas vestidas de branco, ansiosas, como eu, por receber Jesus na Hóstia consagrada. Alguém deu o sinal para entrarmos na Igreja do Corpo Santo e lá fomos todos em procissão, cantando o hino à Beata Imelda:

Oh! Celeste padroeira Da Primeira Comunhão, A Jesus que nos espera Levai-nos por vossa mão.

Nossa vida e nosso amor Oferecemos a Jesus,

E em troco Lhe pedimos Nos guie com a Sua luz.

Quando chegou o momento tão desejado de comungarmos, todos os meninos e meninas começaram a cantar em coro:

Ó Jesus, vinde à minha alma Na Eucaristia;

Eu Vos dou todo o meu ser Com grande alegria.

Nesse momento, senti verdadeiramente o meu coração inundado de alegria. Com apenas oito anos, já saboreava e sentia como o Senhor é bom e não é de admirar que assim fosse porque "a razão mais sublime da dignidade do homem, consiste na sua vocação à união com Deus" 3.

Da parte da tarde, oferecemos um ramo de flores a Nossa Senhora, enquanto todos cantavam:

Aceitai estas florinhas E nosso louvor também Aceitai-as como oferta Do nosso amor, doce Mãe.

Minha mãe rezava sempre o terço com toda a família, e se havia vi­sitas estas também se associavam. Não posso dizer quanto esta "reza do terço" em família me marcou, assim como as peregri­nações que fazíamos a Fátima nos dias 13.

Lembro-me da primeira vez que os meus pais me levaram a mim e aos meus irmãos a Fátima, na Coroação de Nossa Senhora, dia 13 de Maio de 1946, em que me encontrei pela primeira vez com o santo padre Cruz. Considero uma das grandes graças da minha vida ter tido a oportunidade de me encontrar e de me confessar a este santo velhinho que, depois de me dar a bênção, me ofereceu uma pagela com uma oração ao Espírito Santo, recomendando-me que a rezasse todos os dias.

A fé do nosso povo no poder e na intercessão de Nossa Senhora comoveu-me até às lágrimas.

Se a nossa mãe da terra é tão boa - pensava - quanto mais não será a nossa Mãe do Céu?

Se alguém apontava defeitos a quem quer que fosse, o estribilho de minha mãe era este: "mas tem uns dentes tão bonitos ".

O amor de mãe faz maravilhas! Numa tarde em que um grupo de jornalistas quis visitar a casa onde vivera o monge cantor de

"O Fado da Despedida ", minha mãe mostrou-lhes a cave onde eu recebia os meus amigos e onde cantava para eles. Enfim, um recan­to da casa transformado num retiro fadista, com guitarras e cartazes de toiradas a ornamentar as paredes. Minha mãe explicou-lhes que eu tinha ali vivido muitas horas da minha juventude, cantando e encantando. Mas fê-lo com tal arte que os jornalistas ficaram fasci­nados com a descrição e escreveram: "a vocação não é, de modo algum, uma palavra vã. (...) Frei Hermano da Câmara é uma voz que prega a mensagem do Evangelho, servindo-o de uma das for­mas mais belas e expressivas".

Quando vinha de Singeverga passar uns dias de descanso na Quinta d'Alagoa, os meus pais e toda a família recebiam-me como um príncipe. Minha mãe privava-se de tudo só para dar alegria e pra­zer. Levava para o meu quarto o aquecedor, o gira-discos e ela própria passava horas a conversar comigo até altas horas da noite, quando já todos estavam a dormir. Meu pai comentava, com algu­ma ironia:

- Pois é, o meu filho é que fez o voto de pobreza, mas eu é que me vejo privado das coisas que a minha mulher, com pezinhos de lã, vai levando para o quarto dele... Ele é que faz voto de celibato, mas eu é que me vejo privado de mulher, porque a minha deixa-me sozi­nho para lhe fazer companhia...

A bondade de meu pai levava-o, por sua vez, a aceitar todas estas privações; mas à noite, ao ver que minha mãe se demorava a ir para a cama, chamava com insistência, e ao mesmo tempo com ar bene­volente:

- Já são horas! Nunca mais acabam a conversa? Daqui a pouco chega a madrugada! Já se ouvem os passarinhos!

VOCAÇÃO: UM CORAÇÃO TODO INTEIRO

No dia dos meus anos agradeço sempre a Deus por ter pensado em mim desde toda a eternidade para ser "santo e irrepreensível, em caridade na Sua presença".

Graças Vos dou, meu Deus, pelo Vosso infinito amor! Um Deus que pensa em mim!

Um Deus que me resgata!

Oh admirável condescendência da Vossa graça!

Oh ditosa culpa que nos mereceu tão grande Redentor 4.

Deus pensou em mim com admirável condescendência e por "incomparável predilecção do seu amor"... Chama-me pelo meu nome:

- Hermano! Tu vem e segue-Me! Quero admitir-te ao número dos meus ministros.

- Senhor, mas eu nem sei falar!... Eu sou um pobre pecador. Senhor, eu não sou digno.

- Hermano! Tu vem e segue-Me!

"O que é fraco aos olhos do mundo é que Deus escolheu para con­fundir o que é forte. Escolheu o que não tem valor para reduzir a nada aquilo que tem" 5.

"Vede quem sois vós, os que Deus chamou: o que é louco aos olhos do mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios" 6.

- Senhor, aceito fazer parte desse grupo de gente pobre e sem qualidades! "Mas tereis que suportar um pouco de loucura da minha parte! Mas não há dúvida: Vós me suportais" ~. E os meus irmãos, será que me suportarão?

Aquilo que os outros ousam apresentar - falo como insensato ­ouso-o também eu. São cristãos? Também eu! São filhos de Deus? Também eu! São portugueses? Também eu. Nasci em Portugal, terra de Santa Maria. Sou lisboeta. Sou fadista. Canto o fado, mas não toco guitarra.

9

Frei Hermano - postulante, 1961, um mês depois da entrada para o mosteiro de Singeverga.



Ai Lisboa, Lisboa, Caravela de luar, Foi ali que eu nasci, Foi ali que eu vivi, E aprendi a cantar. Ai Lisboa, Lisboa, Caravela imortal,

Com guitarras na proa, vai passar Portugal.

Frei Hermano na Quinta D'Alagoa

E nos primeiros tempns de colégio

A guitarra portuguesa

Já correu o mundo inteiro Dentro de uma caravela,

Nos braços de um marinheiro. A guitarra portuguesa

Tem a graça da cigana

E um não sei quê de princesa, De uma princesa romana.

Ai Lisboa, Lisboa, Caravela de luar, Foi ali afinal

Que embarcou Portugal À conquista do mar.

Ai Lisboa, Lisboa, Caravela de luz, Cada vela é uma tela Com a cruz de Jesus.

"E vós, irmãos caríssimos, invocai comigo a misericórdia de Deus Omnipotente para que infunda em mim a claridade da Sua luz e eu possa assim celebrar dignamente os Seus louvores" 8.

Quando chegou a idade de ir para a escola, senti uma grande angús­tia interior mas não disse nada a ninguém.

Com dez anos de idade, lá vou eu como um "condenado" de bibe azul aos quadradinhos, botas grossas e sacola às costas a subir aque­le calvário da Rua do Quelhas, que é a rua mais a pique de quantas ruas eu conheço em Lisboa.

Depressa arranjei amigos, mas os professores não gostavam de mim. Apanhei várias vezes reguadas nas mãos mas não tenho que me queixar... Cristo foi flagelado!

A minha maior humilhação foi quando um professor me pendurou nas costas um grande letreiro com um título de honra: BURRO. Penso que Deus quis preparar as minhas mãos com as reguadas para mais tarde receber a unção sacerdotal. Nessa altura recebi com ale­gria "os estigmas de Jesus" 9. Quanto ao letreiro - BURRO - foi para gravar no meu coração as humilhações que Cristo recebeu durante a Paixão e a Sua morte de cruz no cimo da qual penduraram um letreiro, para escarnecerem d'Ele: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.

No Colégio Manuel Bernardes - Paço do Lumiar, Lisboa.

Nas vésperas da minha entrada para o mosteiro, 1961

Quando descobri que Jesus queria fazer de mim um Seu discípulo "não consultei carne nem sangue"~~, mas retirei-me para o mosteiro Tinha finalmente encontrado aquilo que procurava: Jesus Cristo "Nunca mais me senti só!!!"

"Traga o seu coração todo inteiro para o oferecer a Jesus!" foi esta a recomendação única que o D. Abade me fez através dum bilhe~ tinho. Foi esta a minha bagagem!

"Suportai-me como insensato, a fim de que também eu me possa gloriar um pouco. O que vou dizer, não o direi conforme o Senhor mas como insensato, certo de ter motivo de me gloriar. Visto que muitos se gloriam de seus títulos humanos, também eu me gloriarei.. São ministros de Cristo? Também eu13. Como sacerdote anuncio c Evangelho do Reino através da palavra e do canto.

Como Apóstolo de Santa Maria, cantar é uma obrigação que me e imposta pelo próprio carisma do Instituto. Dantes, sujeito à Regra de S. Bento, cantava por excepção. Agora, sujeito à regra dos Apóstolos de Santa Maria, canto por obrigação! Sei que o apostolado através da música é um assunto controverso e nem sempre bem compreendido. "Por isso, eu me comprazo das minhas fraquezas nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte"~4 Durante a minha vida de consagrado e de sacerdote, o Divino Mestre foi-me mostrando que o "meu caminho" era um caminho de apostolado musical. O anúncio do Evangelho deveria ser feito corr "arte e com alma". Mas deveria ser um apostolado envolvido en sofrimentos e aflições.

Na verdade, o meu apostolado específico deveria passar a ser feit< em espectáculos musicais.

O apostolado através da música é uma nova forma de anunciar a Palavra de Cristo adaptada à nossa época e, até certo ponto, consti tui uma descoberta no âmbito da nova evangelização. A Igreja reconhece plenamente que a música, no tempo actual, será o veícul~ mais potente para tornar Jesus mais conhecido e amado.

Pelo apostolado através da música, pretendo assim exprimir tudo aquilo que contemplo na esfera do sobrenatural. Cantando os lou vores de Deus, preocupo-me menos em derrotar o inimigo do que edificar monumentos à verdade e à virtude e cantar hinos de glóri à Santíssima Trindade.

Cantar os louvores e a grandeza de Jesus e de Sua venerável Mãe, um dos oficios mais caros na minha vida de intimidade com Deus.

O Abade D. Gabriel de Sousa, O.S.B.

O canto é a expressão mais viva e aliciante de proclamar a Palavra de Deus a todos os homens que têm sede do Seu amor misericor~ dioso. O canto congrega e suscita entre o Povo de Deus um desejo de união e uma busca mais ardente d'Aquele que é a fonte da vida De olhos fitos n'Aquela que cantou humildemente as maravilhas do Senhor, empenho-me em imitá-la no mesmo cântico de louvor a Deus, reconhecendo-O omnipotente e misericordioso. Quem canta os louvores divinos não se cansa de o fazer, porque encontra neste o~cio toda a sua alegria e a forma mais sublime de amar a Deus.

Deus é Música!

Deus é o Intérprete Único!

Deus chama-me a uma vida de silêncio para escutar a Sua música.

Escutar a música de Deus

é estar atento à Sua Palavra, é estar atento ao Seu Amor.

Nós somos os corações ouvintes da música de Deus! Nós somos os corações atentos ao Amor e à Palavra de Deus!

"Com um só coração e uma só alma ",

os Apóstolos de Santa Maria escutam a música de Deus e erguem também a sua voz,

para cantar hinos de louvor ao Criador do Universo~8. Cantemos com arte e com alma,

mas sobretudo cantemos com a nossa vida !!!

14

MOSTEIRO DE SINGEVERGA



Chamaste! Clamaste! Rompeste a minha surdez

"Oh como é bom e agradável viverem os irmãos em harmonia! É como o óleo precioso a escorrer pela barba de Aarão

É como o orvalho do Hermon que desce pelos montes de Sião"18.

Ali recebi do Senhor uma bênção para todo o sempre. Ali aprendi a louvar a Deus!

Ali aprendi a escutar a Palavra! Ali aprendi a amar os irmãos! Ali aprendi a ser monge!

Ali aprendi a ser padre!

Bendita a hora em que entrei naquela casa abençoada. "Felizes os que habitam na Vossa casa, Senhor"19. Quantas bênçãos! Quantas graças! A maior de todas foi, sem dúvida, a minha ordenação sacer­dotal!

Falar de Singeverga significa para mim recordar toda uma vida, cerca de vinte anos de alegria e felicidade, que só consigo resumir com o cântico do salmista:

Cerimónia da tomada de hábito de noviço no Mosteiro de Singeverga, em 29 de Setembro de 1962

O Abade D. Gabriel de Sousa presidindo à minha tomada de hábito

O tempo passou... mas ainda conservo em toda a sua frescura entusiasmo e a firmeza de alma com que me consagrei a Deus para todo o sempre! ! ! Tinha eu 27 anos quando "abandonei a guitarra»

Ser fadista foi meu sonho, Mas não foi este o meu fado. Deus traçou-me outro caminho, Cheio de amor e carinho, Fez-me andar por outro lado.

Abandonei a guitarra, Despedi-me e fui para longe... Deixei tudo o que gostava Para responder à chamada, Pois meu destino é ser monge.

As saudades que eu senti Descrevê-las bem, não sei. Mas esta vida de luz,

Que à verdade nos conduz, vale bem o que eu deixei. Não chorem pelo meu fado E de mim não tenham dó... Sou feliz e só por isto Entreguei-me todo a Cristo, Nunca mais me senti só!!! 2°

Continuo a não me sentir só! Continuo a ser um enamorado de Cristo! Continuo a ser feliz! E ninguém pense que me sinto feliz Y pensar como o fariseu que não tenho defeitos, porque "não sou como os outros homens" 2~.

Para mim, a felicidade consiste em pensar que, apesar das minhas infidelidades, a minha confiança mantém-se inabalável porq acredito que Deus me ama com um amor que ultrapassa tudo aquilo que se possa imaginar.

"Meu Deus, estou tão persuadido de que velais sobre os que em Vós confiam e nada pode faltar a quem de Vós tudo espera, que reso viver para o futuro sem preocupação alguma e descarregar em Vós todo o peso dos meus cuidados. Podem os Homens despojar-me de todos os bens e da honra, podem as doenças privar-me das forças e dos meios para Vos servir, posso até perder a Vossa graça pelo pecado, . mas o que nunca perderei é a minha esperança em Vós; conservá­-la-ei até ao último instante da minha vida e debalde todos os poderes do Inferno se esforçarão nesse momento por arrancar-ma. Esperem os outros a felicidade das suas riquezas ou talentos, con­fiem na inocência da sua vida, no rigor da sua penitência, no número das suas esmolas ou no fervor das suas orações...

Quanto a mim, Senhor, toda a minha confiança está nesta mesma confiança. Ela não enganou jamais a ninguém.

Estou, pois, seguro que serei eternamente feliz, porque firmemente o espero ser e é de Vós, ó meu Deus, que o espero. Eu conheço bem e sei como sou frágil e volúvel. Sei o que podem as tentações contra as virtudes mais firmes; tenho visto cair os astros do Céu e as colu­nas do firmamento, mas tudo isso não me aterroriza; enquanto eu esperar ficarei a coberto de todas as desgraças e estou seguro de esperar sempre porque espero até esta invariável esperança. Finalmente estou certo que nunca esperarei demais e não poderei ter menos do que aquilo que de Vós houver esperado. Deste modo, confio que tereis mão nas minhas inclinações mais impetuosas, me defendereis até dos assaltos mais violentos e fareis triunfar a minha fraqueza dos meus mais terríveis inimigos.

Espero que me haveis de amar sempre e que também Vos amarei incessantemente. E para levar de vez a minha confiança tão longe quanto pode ir, de Vós mesmo espero, ó meu Criador para o tempo e para a eternidade!... "22

Nós fomos criados por amor e para o amor. Pensar que o meu Deus é a bondade infinita e que nunca me abandona, apesar das minhas fraquezas, é isto que constitui toda a minha felicidade.

E nem sequer me preocupa saber por que razão Deus me ama... Eu sei que Ele me ama porque Ele é Amor 23. E para ser feliz basta que eu aceite ser amado por Ele. A minha felicidade consiste em saber que o meu Juiz vai ser o "pai do filho pródigo".

Como tudo isto me encanta! Saber que no fim da vida irei cair nos braços da "ternura", que nem sequer me vai dar tempo para dar explicações das minhas infidelidades. É este o meu Deus em quem acredito. É Ele que me dá firmeza de alma. O meu Deus é um Deus paciente e cheio de misericórdia.

Ó Jesus, Vós sois a encarnação da paciência divina. O segredo da

Frei Hermano (o primeiro da esquerda) com o grupo dos noviços

Da esquerda para a direita: Frei Serafim, Frei Eugénio, Frei Hermano e Frei Matias numas férias em Azurara, Vila do Conde

Da esquerda para a direita: Frei Estevão, Frei Abílio, Frei Gabriel, e Frei

Hermano no parque de ~zela .

20

Vossa paciência é o amor misericordioso que transborda do Vosso coração. Através do mistério da Vossa paixão e morte, ó Jesus, Vós quisestes revelar-nos o mistério da paciência divina, convidando­-nos a contemplar-Vos, neste mistério de amor e complacência. Como me faz bem, meditar na paciência de Deus! Ela é um dos atributos da sua infinita bondade de Pai, que não se cansa de espe­rar que os seus filhos se decidam a voltar à casa paterna. Penso, com emoção, na paciência infinita que Deus tem tido para comigo, esperando até aos meus vinte e sete anos de idade, até que eu me decidisse aceitar o Seu chamamento. Foi uma luta titânica, mas por fim "Tu me dominaste e venceste... seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir"25. "Chamaste! Clamaste! Rompeste a minha sur­dez!" Como foi possível, ó Deus de misericórdia e bondade, que a Vossa paciência não se esgotasse com a minha insensatez? "Pasmai, ó Céus, acerca disto! Tremei de espanto e horror...". Perdoai-me, ó Deus, por Vos ter feito esperar, Vós que "sois a fonte das águas vivas, enquanto andei a construir cisternas para mim, cis­ternas rotas, que não podem reter as águas".




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