Fredrich W. H. Myers a personalidade Humana



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VIII
O automatismo motor


O leitor que me acompanhou até este ponto não pôde deixar de ter percebido que existe um extenso grupo de fenômenos, de enorme importância, dos quais ainda não me ocupei. O automatismo motor, ainda que menos familiar ao grande público do que os fantasmas classificados sob o nome de automatismo sensorial, compreende um conjunto de fenômenos, na realidade mais freqüentes e importantes.

Deparamo-nos já com mais de um exemplo de automatismo motor, durante o curso desta obra, primeiramente, e sob uma forma muito desenvolvida, no capítulo II, ao tratarmos da personalidade múltipla. Citamos, naquele, numerosos exemplos de efeitos motores produzidos pelo eu secundário sem a intervenção do eu primitivo, freqüentemente incluído, não obstante a sua resistência. Toda ação motriz do eu secundário é uma ação automática, com relação ao eu primitivo. E podemos, por analogia, ampliar o uso desta palavra e qualificar de automáticos não só os atos pós-epiléticos, mas também as manias, sempre que esses atos se realizem à margem da iniciativa da personalidade primitiva que se presume normal. Não nos ocuparemos, neste capítulo, desses fenômenos degenerativos. O automatismo, que constitui o tema, é um fenômeno evolutivo, do qual darei uma definição mais exata ao definir, ao mesmo tempo, as relações que tem com os fenômenos motores desagregantes que ocupam um lugar saliente na tradição popular.

Mas, antes de prosseguir, creio dever formular, de maneira mais clara, uma tese que foi sugerida, mais de uma vez, enquanto nos ocupávamos dos grupos especiais de nossos fenômenos: pode-se esperar que os fenômenos vitais supranormais se manifestam pelos mesmos caminhos que os dos fenômenos vitais anormais ou mórbidos, quando os mesmos centros e as mesmas sinergias entram em ação.

Para ilustrar o sentido desta tese, usarei de uma observação, há muito formulada por Gurney e por mim, a respeito dos “fantasmas dos vivos” ou das alucinações verídicas produzidas (como sustentamos) não por um estado particular do cérebro do sujeito, mas pela ação telepática de um agente distante. Observamos que, quando uma alucinação ou uma imagem subjetiva deve ser provocada por essa energia distante, provavelmente será provocada com maior facilidade, do mesmo modo que as alucinações mórbidas derivadas de uma lesão cerebral. Demonstramos com numerosos argumentos que isso ocorria assim, efetivamente, tanto no que concerne ao modo da evolução do fantasma no cérebro do sujeito, como no modo pelo qual se apresenta aos seus sentidos.

Proponho-me a generalizar esse princípio mostrando que, se existe em nós um eu secundário que tende a se manifestar com o auxílio de meios fisiológicos, é provável que sua via de exteriorização mais curta, o caminho mais cômodo, do ponto de vista de sua manifestação em ação visível, se encontrara, freqüentemente, ao longo de um trajeto que os processos mórbidos de desintegração apresentaram como o caminho de menor resistência, ou melhor, modificando a metáfora, podemos supor que a separação entre o eu primário e o secundário se fará ao longo de uma superfície que as dissociações mórbidas de nossas sinergias psíquicas mostraram tendência a seguir. Se a epilepsia, a loucura, etc., tendem a dissociar nossas capacidades de forma determinada, o automatismo deve ser capaz de dissociá-las, por sua vez, de um modo mais ou menos semelhante.

Os selvagens encaram a epilepsia como inspiração. Têm razão quanto ao fato de que a epilepsia é uma destruição temporária da personalidade, em conseqüência de sua própria instabilidade, enquanto que a inspiração se considera como uma submissão temporária da personalidade, tomada por um poder externo. No primeiro caso, valendo-me de uma metáfora, existe uma combustão espontânea; no segundo, trata-se da ação de um fogo celeste. Falando menos metaforicamente, a explosão e o esgotamento dos centros nervosos devem possuir algo em comum, qualquer que seja a natureza do estímulo que quebrou sua estabilidade.

Mas como distinguir o que é supranormal do que é anormal? O que nos faz dizer que nesses estados de aberração existe algo além da histeria, da epilepsia, da loucura?

Nos capítulos anteriores já respondemos, em parte, estas perguntas. O leitor deve estar familiarizado com o ponto de vista que considera todas as atividades psíquicas e fisiológicas como tendentes, necessariamente, ou à evolução ou à dissolução. Nesse ponto, afastando qualquer especulação teleológica, proponho que hipoteticamente suponhamos que um nisus evolutivo, algo que possamos nos representar como um esforço dirigido ao desenvolvimento, dirigido à adaptação, à renovação pessoal, possa ser discernido particularmente do lado psíquico das formas superiores da vida. Nossa pergunta “supranormal ou anormal?” recebe, então, a seguinte modificação: “evolutivo ou dissolutivo?”. E, ao estudar sucessivamente todos os fenômenos psíquicos, nos perguntamos se cada um deles constitui o indício de mera degeneração de forças já conquistadas ou “a promessa e a possibilidade”, uma vez que não a posse real, de poderes desconhecidos ou não reconhecidos.

Dessa forma, por exemplo, a telepatia constitui, com certeza, um passo adiante na vida da evolução.83 O fato de poder ler os pensamentos gerados em outros espíritos, sem o auxílio de sentidos especiais, indica, evidentemente, a possibilidade de uma extensão muito ampla de forças psíquicas. E todo conhecimento novo, relativo às condições nas quais a ação telepática é suscetível de se produzir, nos servirá como ponto de partida de inestimável valor para determinar-se o caráter evolutivo ou dissolutivo dos estados psíquicos pouco comuns.84

Resulta de nossos conhecimentos, relacionados à telepatia, que o aspecto superficial de certas fases da evolução psíquica pode, da mesma forma que o aspecto superficial de certas fases da evolução fisiológica, tomar a forma quer de uma inibição, quer de uma perturbação, a primeira indicativa de uma dinamogenia latente e a segunda vedando a evolução. O sujeito hipnotizado atravessa uma fase de letargia, antes de entrar na fase em que se encontra numa comunhão de sensações com o operador e a mão do autômato passa por uma fase de movimentos desordenados que se assemelham aos movimentos da coréia antes de adquirir a capacidade da escrita ágil e inteligente. Da mesma forma, o surgir de um dente pode ser precedido por uma dor indefinida, cuja natureza faria crer na formação de um abcesso, se o dente não tivesse, mais tarde, surgido. Exemplos mais notáveis da perturbação que oculta a evolução poderiam ser tirados da história do organismo humano que progride em direção à maturidade ou preparando o aparecimento de um novo organismo destinado a sucedê-lo.

Assim, as analogias, tanto fisiológicas como psíquicas, nos impedem de concluir quanto ao caráter degenerativo de determinada psicose, enquanto um exame atento de seus resultados não tenha demonstrado que essa psicose não constitui, na realidade, uma ampliação das capacidades humanas, um novo limiar para captar a verdade objetiva, dito de outro modo, um fenômeno evolutivo.

No que concerne, particularmente, aos movimentos, não pretendemos que os que não dependem da vontade consciente sejam menos importantes e significativos do que os que dela dependem. Pelo contrário, comprovamos que em nossa região orgânica os movimentos independentes da vontade consciente são os mais importantes, ainda que os movimentos voluntários, com auxílio dos quais o homem busca alimentar-se ou defender-se de seus inimigos, sejam também de grande valor prático: é necessário, com efeito, que o homem viva e se multiplique, antes de estudar e aprender. Mas não podemos confundir o que é importante do ponto de vista da vida prática imediata, com o que o é do ponto de vista da ciência, da qual a própria vida prática, em última análise, depende. Desde o momento em que o problema da existência material e da multiplicação deixa de exercer domínio sobre os demais problemas, começamos a modificar nossa estimativa, no que diz respeito aos valores, e a considerar que não são os fenômenos mais imponentes e, na aparência, mais evidentes, senão os menos perceptíveis e os menores, os que são suscetíveis de nos revelar novas fontes de conhecimentos. E gostaria de persuadir nossos leitores de que isto ocorre também na psicologia e na física.

Devo dizer que alguns dos movimentos automáticos de que nos ocuparemos, certas manifestações e escritas obtidas durante o estado de “possessão” pertencem, a meu ver, aos fenômenos mais importantes que o homem tenha tido oportunidade de ver. Passemo-los em revista, sucessivamente, mostrando os laços que os unem aos demais, e a deduzir, paralelamente à sua significação, o grau de certeza que podemos considerar como adquirido no que concerne aos fenômenos em questão.

Uma primeira característica comum a todas as manifestações automáticas, não obstante as diferenças que as separam em outros aspectos, consiste na independência: é o que os médicos chamam de fenômeno idiognomônico, isto é, que não são sintomas de outra afecção nem constituem a expressão acidental de uma modificação mais profunda. O simples fato, por exemplo, de que um homem escreva uma mensagem da qual não é o autor consciente nada prova, em si mesmo, quanto ao estado do que escreve; este último pode estar perfeitamente sadio e não apresentar, afora o fenômeno da escrita inconsciente, qualquer outro fenômeno anormal passível de observação. Esta característica, que confirma a observação e a experiência, diferencia o automatismo de todos os demais fenômenos, aparentemente análogos. Podemos, dessa forma, classificar nessa categoria as emissões automáticas de palavras e de frases; enquanto que a contínua vociferação da mania aguda, que é um fenômeno meramente sintomático, se acha fora desta categoria, da mesma forma que o grito hidrocefálico, que também, longe de ser um fenômeno independente, é determinado por uma lesão definida. Compreenderemos também, nessa categoria, certos movimentos simples das mãos, coordenados, tendo em vista o ato da escrita, mas permanecerão excluídos, por definição, os movimentos coréicos, sintomáticos de certo estado mórbido do sistema nervoso, ou os movimentos que podemos chamar idiopáticos, visto constituírem uma enfermidade independente. Mas os movimentos automáticos de que nos ocupamos não são idiopáticos mas idiognomônicos; podem estar associados a certos estados do organismo ou por eles favorecidos, mas não são o sintoma de outra doença, nem constituem, por si sós, uma doença.

Outra característica comum a todos esses fenômenos é que constituem movimentos automáticos portadores ou transmissores de mensagens e advertências; o que não quer dizer que as mensagens das quais são portadores procedam todas de fontes externas ao espírito do sujeito; isso ocorre, provavelmente, em certos casos, mas o mais freqüente é que as mensagens tenham sua origem na própria personalidade do autômato e, neste último caso, são mensagens que uma camada qualquer da personalidade transmite a outra camada da mesma personalidade e que, gerados na região profunda do ser humano, afloram à superfície sob a forma de atos, visões, sonhos, palavras, sem que exista a menor percepção do processo que precedeu sua elaboração.

Consideremos, por exemplo, uma dessas experiências de leitura de movimentos musculares, indevidamente chamada leitura de pensamentos, sem dúvida mais familiares aos nossos leitores, e suponhamos que eu esconda um alfinete que um leitor treinado em movimentos musculares deve descobrir segurando minha mão e concentrando-se em meus movimentos musculares. Inicialmente, escondi o alfinete na almofada; mudando de idéia, coloquei-o numa estante da biblioteca. Fixo meu espírito neste último lugar, após resolver ficar estático. O outro segura minha mão, leva-me antes à almofada, depois à estante da biblioteca e encontra o alfinete. O que acontece nesse caso? Quais os movimentos que fiz?

Não fiz qualquer movimento voluntário ou involuntário consciente, antes um movimento inconsciente involuntário que se encontra sob a estrita dependência de uma idealização consciente. Pensei fixamente numa estante da biblioteca e ao caminhar pelo quarto chegamos a esse lugar, fiz um movimento, ou melhor, produziu-se uma contração muscular do braço, movimento inconsciente, mas suficiente para proporcionar à delicada sensibilidade de meu guia, as indicações que necessitava. Tudo isso está devidamente reconhecido e explicado até um certo ponto; definimos o fenômeno dizendo que minha idealização consciente comportava um elemento motor; este, todavia, liberto de uma manifestação consciente, encontrava-se, sem dúvida, exteriorizado sob a forma de uma contração periférica.

Mas, algo mais houve. Antes que meu guia parasse diante da biblioteca, deteve-se diante da almofada. Eu não possuía qualquer idéia consciente desta última; mas a idéia de alfinete na almofada deve ter se refugiado em meu subconsciente; e essa recordação inconsciente se revelou através de uma contração periférica tão diversa como a que correspondia à idéia consciente de alfinete colocado sobre a estante da biblioteca.

A contração era, pois, em certo sentido, um movimento automático transmissor de uma mensagem; a exteriorização de uma idéia que, consciente noutra oportunidade, se tornava inconsciente num grau muito ligeiro, já que bastaria um esforço mínimo para trazê-la ao campo de consciência.

Mas existem casos em que a demarcação entre zonas da personalidade é muito marcante, até o ponto em que a comunicação entre uma e outra é totalmente impossível. Assim, na sugestão hipnótica, quando se ordena, por exemplo, ao sujeito que escreva ao despertar, as palavras que lhe foram sugeridas durante o sono hipnótico, assistimos a movimentos automáticos, dos quais o sujeito, uma vez acordado, não tem a menor consciência.

Mas há mais. Adiante temos numerosos exemplos de transformações de comoções psíquicas em energia muscular de um gênero raro na aparência. Essas transformações de força, por assim dizer, psíquica em força física se operam em nós de uma maneira contínua. Mas sua natureza permanece, em geral, obscurecida pelo problema concernente à verdadeira eficácia da vontade e será interessante citar um ou dois exemplos dessas transformações em que se trata de um processo automático e onde nos encontramos na presença do equivalente motor de uma emoção ou de uma sensação que não parece encerrar qualquer elemento motor.

Um meio simples, embora grosseiro, de comprovar as transformações desse gênero nos é proporcionada pelo dinamômetro. É necessário, primeiro, determinar o grau de pressão que o sujeito é capaz de exercer sobre o dinamômetro, apertando-o com todas as forças de que dispõe no estado normal. Ao fim de algum exercício, o máximo de força de pressão se torna mais ou menos constante, sendo possível submetê-lo a diferentes influências e medir o grau de reação, isto é, o grau de compressão em maior ou menor escala, de acordo com a influência que sofre. Acompanho uma criança ao circo; senta-se ela junto a mim, segurando-me a mão; tiros ecoam e sua pressão torna-se mais forte; suponhamos que ao invés de me segurar a mão, tenta apertar com todas as forças um dinamômetro e que a excitação brusca, capacita-a a comprimir com mais força do que a empregada antes daquela excitação: devemos considerar esta exceção de contração muscular como automática ou voluntária?

Feré 85 e outros demonstraram que as excitações de qualquer gênero, bruscas ou prolongadas, agradáveis ou desagradáveis, tendem a aumentar a força dinamométrica do sujeito. Em primeiro lugar, e o fato assume grande importância, a força média com a qual se exerce a pressão é mais elevada no homem intelectual que no operário, o qual demonstra não se tratar tanto de musculatura bem desenvolvida, como de um cérebro mais ou menos ativo, que torna possível a concentração brusca da força muscular. Feré comprovou, consigo próprio, e com alguns amigos, que só o fato de ouvir uma conferência interessante, ou de empregar a livre-associação de pensamentos num lugar isolado, que o simples fato de falar ou escrever, produzem um indiscutível aumento de pressão, especialmente da mão direita. Da mesma forma, obtêm-se idênticos efeitos de dinamogenia entre os sujeitos hipnotizados, com auxílio de notas musicais, de luzes de cor, a luz vermelha em particular, e inclusive pela mera sugestão alucinatória da luz vermelha. “Todas as nossas sensações – conclui Feré – são acompanhadas de um desenvolvimento de energia potencial que passa ao estado quinético e se exterioriza em manifestações motrizes, que um aparelho tão grosseiro como o dinamômetro é capaz de observar e registrar.”

Quais são os caminhos seguidos pelas mensagens para passar de uma camada a outra da personalidade? Para responder a essa pergunta teríamos que considerar, primeiramente, algo mais do que as mensagens expressadas através da palavra ou da escrita, isto é, por meios bastante complicados, os que envolvem uma forma mais rudimentar. Mas o gesto constitui o meio de comunicação mais elementar, comum aos animais e aos homens; e o som, por si só, constitui uma forma especializada do gesto. Os animais superiores diferenciam seus gritos; o homem desenvolve a palavra; e os impulsos que ocasionam a transmissão de mensagens se resolvem todos em movimentos: movimentos da garganta, movimentos da mão. Os gestos manuais se desenvolvem até poder produzir o grosseiro traçado dos objetos e esse impulso gráfico, ao se aperfeiçoar, espraia-se em duas direções: de um lado, converte-se em arte plástica e pictórica que transmite as mensagens com o auxílio de um simbolismo direto, oposto ao simbolismo arbitrário, e por outro lado, adapta-se às leis da palavra e torna-se ideográfico, para terminar, pouco a pouco, no simbolismo arbitrário que se expressa na escrita alfabética, na aritmética, na álgebra e na telegrafia.

Existem entre os meios de comunicação de que dispõe o eu subliminar, comportamentos análogos aos que acabamos de enumerar? É possível; e como o eu subliminar inicia seu esforço, como o telegrafista, com total conhecimento do alfabeto, é certo, mas dispondo unicamente de uma forma de ação débil e grosseira, sobre o mecanismo muscular, parece provável, a priori, que o meio de comunicação mais fácil consistia numa repetição de movimentos simples, dispostos de forma a que correspondam às letras do alfabeto.

Todos ouviram falar, ainda que de forma ridícula, do misterioso fenômeno das “mesas giratórias”, dos “espíritos que batem”, etc. Vejamos se as considerações anteriores podem proporcionar uma explicação suficiente, baseada sobre fatos mais ou menos sólidos.

Quando uma ou várias pessoas pertencentes a esta categoria especial que se designa através do termo pouco explícito e bárbaro de “médium” estão com as mãos em contato com um objeto facilmente movimentável e desejam que este se movimente, freqüentemente seu desejo é realizado. Quando desejam, também, que o objeto indique com seus movimentos as letras do alfabeto, indo, por exemplo, na direção do a, etc., isto se produz com freqüência e se obtêm respostas inesperadas.

Até aqui, e qualquer que seja nossa interpretação, nos encontramos na presença de fatos de fácil reprodução e que todos podem verificar.

Mas além desses movimentos simples de mesas giratórias e das respostas inteligíveis das mesas falantes, movimentos e respostas que se podem explicar, a rigor, pela pressão inconsciente que exercem as mãos das pessoas sentadas ao redor, e sem ter necessidade de postular a intervenção de alguma força física desconhecida, certas pessoas entendem que outros fenômenos físicos são produzidos, que as mesas se movem particularmente numa direção e com uma força que não basta para explicar qualquer pressão inconsciente, e freqüentemente dão respostas que nenhuma ação inconsciente e nenhuma das forças que conhecemos parece capaz de provocar. E os espíritas atribuem os movimentos e as respostas desta última categoria à ação de intelectos desencarnados; mas se uma mesa produz movimentos sem que uma pessoa a toque, não existe razão para atribuir esses movimentos à intervenção de meu falecido avô, mais do que à minha, porque se não se vê a maneira pela qual eu mesmo podia tê-la posto em movimento, tampouco se vê o modo pelo qual o teria feito o meu avô.

A explicação bastante conhecida de Faraday, segundo a qual os movimentos das mesas giratórias seriam o resultado de uma soma de diversos movimentos inconscientes, correta para os casos mais simples, deixa em aberto a questão mais difícil concernente à origem dessas mensagens inteligíveis transmitidas pelos movimentos diversificados e repetidos de objetos facilmente movíveis. Quando dizemos que os movimentos possuem a forma da palavra desejada e aguardada, só levamos em consideração a minoria dos casos, porque com maior freqüência, as respostas que as mesas propiciam são muito caprichosas e nunca relacionadas com o que delas se espera. A explicação mais verossímil, a meu ver, é a que admite que essas respostas são ditadas não pelo eu consciente, antes pela região profunda e oculta onde se elaboram os sonhos fragmentados e incoerentes.

Mas os movimentos das mesas constituem, numa determinada medida, a forma mais simples, a menos diferenciada, da resposta motriz. São simplesmente um gênero de gesto, ainda que o gesto implique no conhecimento do alfabeto, e como o gesto, o movimento de resposta é suscetível de desenvolver-se em duas direções: o desenho automático e a palavra. Ocupamo-nos já, em parte, do primeiro, no capítulo III, e no capítulo IX trataremos, em especial, da palavra automática. Neste ponto, indicaremos brevemente o lugar que ocupa cada uma dessas formas de movimento, relacionada a outras manifestações análogas de automatismo.

Alguns leitores viram, sem dúvida, esses desenhos, às vezes em cores, cujos autores afirmam tê-los desenhado sem qualquer plano, sem ter consciência do que sua mão realizava. Essa afirmação podia ser perfeitamente válida e as pessoas que a formulavam totalmente sãs. Os desenhos feitos dessa forma estão de acordo com o que a opinião formulada nos autoriza a esperar; porque apresentam uma mistura de arabescos e ideografias, isto é, parecem-se, em parte, a essas formas de ornamentação que traça a mão do artista quando rabisca o papel sem um plano definido e, por outro lado, lembram as primeiras tentativas de expressão simbólica que se observam entre os selvagens que, todavia, não possuem o alfabeto. Como a escrita do selvagem, apresentam mudanças insensíveis do simbolismo pictórico direto, a uma ideografia abreviada.

Antes de abordar o estudo da escrita automática propriamente dita, seria interessante ilustrar com alguns exemplos essa influência que exerce o eu subliminar sobre o organismo inteiro que consideramos como o principal fator das manifestações automáticas. Os exemplos mais notáveis e conhecidos são os de Sócrates e Joana d’Arc: o demônio do primeiro atuava principalmente no sentido da inibição, enquanto que na segunda, as vozes que dizia ouvir determinavam um impulso a trabalhar de acordo com as ordens que formulavam. Tanto num caso como noutro, tratava-se, em última análise, de manifestações motrizes automáticas, ainda que à primeira vista o elemento sensorial, consistente em alucinações auditivas, parece desempenhar o principal papel. Na maioria dos outros casos desse gênero, o elemento motor e o elemento sensorial se encontram reunidos de um modo deveras íntimo e sua separação é freqüentemente muito difícil, se não de todo impossível.

Seja lá como for, a inibição, que consiste na separação brusca da ação ou numa incapacidade repentina de agir, constitui a forma mais simples e rudimentar de automatismo motor; constitui o caminho natural pelo qual uma impressão forte, mas obscura, se manifesta ao exterior. Assim, por exemplo, a impressão de alarme sugerida por algum som ou algum cheiro percebidos só pelo eu subliminar; o automatismo motor se apresenta então como determinado por uma lembrança subliminar, por um estado de hiperestesia subliminar.

Uma ação realizada de maneira vacilante e incerta, por motivo de certas objeções que despertara em outros tempos e que desapareceram totalmente da memória supraliminar: os empregados de estrada de ferro que, bruscamente, freiam um trem, porque foram avisados por alguma coisa que desconhecem, e que nada mais, talvez, que a percepção subliminar de um som ou de um cheiro, que outro trem se dirige a toda velocidade em sentido contrário e que a catástrofe é inevitável; as pessoas que evitam os obstáculos e os perigos em meio à escuridão, graças, talvez, à percepção subliminar de uma diferença na pressão atmosférica, na resistência do ar, percepção que, em alguns casos, pode atingir um elevado grau de acuidade; estas são as principais formas de inibição motora, determinada pela lembrança subliminar ou a hiperestesia subliminar.

Paralelamente a essas formas, existem outras em que é impossível descobrir a menor sensação hiperestésica, e onde o aviso recebido pelo sujeito é de natureza telestésica, como se fosse devido à intervenção de um verdadeiro anjo da guarda. Este é o caso do Dr. Parsons, que, no momento de entrar num dos cômodos de sua casa, sentiu uma sensação de estupor que o deixou estático no lugar, obrigando-o a seguir, a virar-se; nem bem dera alguns passos para afastar-se da porta que dava àquele cômodo, quando ouviu um disparo e uma bala que entrou nesse cômodo pela janela que dava para a rua; soube, mais tarde, que a bala fora disparada por um indivíduo que se acreditava, há muito, ter ressentimentos contra Parsons, mas que este não acreditava ser capaz de semelhante ato (Proceedings of the S. P. R., XI, pág. 459).

Paralelamente a este caso de inibição motora, de natureza talvez telestésica, temos um grupo de casos caracterizados por impulso motor maciço, completamente independente de um elemento sensorial qualquer. Mencionaremos, sucintamente, entre numerosos, o caso de Thomas Garrison, que, assistindo com sua mulher a um ofício religioso, levanta-se, de repente, durante o sermão, sai do templo e, como que impulsionado irresistivelmente, percorre dezoito milhas a pé para ver sua mãe, e ao chegar encontra-a morta. Mas, sua mãe era relativamente jovem (58 anos) e não só não possuía qualquer indício que permitisse suspeitar sua morte iminente, como também sequer sabia estar doente (Journal of the S. P. R., VIII, pág. 125).

Essa sensibilidade particular do elemento motor de um impulso lembra as especiais suscetibilidades às diversas formas de alucinações ou de sugestões manifestadas por diferentes indivíduos hipnotizados. Podem ser alguns capazes de ver, outros de ouvir, outros ainda de trabalhar de acordo com os conceitos que se lhes sugerir. O Dr. Berillon demonstrou, inclusive, que determinados indivíduos que, à primeira vista, pareciam totalmente refratários ao hipnotismo, não eram capazes de obedecer inclusive durante a vigília, a uma sugestão motora. Exemplo disso são os casos de um homem robusto, de homens e mulheres débeis e de um homem portador de ataxia locomotora. Dessa forma, a volição do controle supraliminar sobre certas combinações musculares não exclui a sugestibilidade motora, com relação a essas combinações; da mesma forma que a volição da sensibilidade supraliminar numa camada de anestesia não exclui a sensibilidade subliminar ao nível da mesma camada. Por outro lado, um controle supraliminar, especialmente bem desenvolvido, favorece a sugestibilidade motora; por exemplo, os indivíduos que sabem cantar obedecem com maior facilidade as sugestões relacionadas ao canto. Portanto, devemos esperar novas observações antes de poder dizer antecipadamente se, no caso de um sujeito determinado, a mensagem afetará a forma motora ou a forma sensorial.

Menos ainda podemos explicar a predisposição especial desse indivíduo a uma ou várias dessas formas comuns de automatismo motor: palavra automática, escrita automática, movimentos de mesas, etc. Essas formas de mensagens podem apresentar as mais diversas combinações; e o conteúdo de qualquer dessas mensagens pode ser fantástico ou caprichoso, ou verídico de alguma forma.

Vamos enumerar as diferentes formas de mensagens motoras subliminares, de conformidade, o mais possível, com sua crescente especialização:

1) Temos, primeiramente, os impulsos motores maciços (o caso de Garrison) intermediários das afecções cinestésicas e dos impulsos motores propriamente ditos. Nos casos deste gênero não existe um impulso especial para o movimento de um membro, senão o de atingir um certo lugar pelos meios comuns.

2) Vem, a seguir, por ordem de especialização, os impulsos musculares subliminares simples, que originam os movimentos de mesas e os fenômenos semelhantes.

3) Pode-se citar, em terceiro lugar, a execução musical iniciada subliminarmente; os casos desta categoria apresentam uma dificuldade especial, pois o umbral da consciência dos intérpretes musicais é muito vago e indefinido (“Na dúvida, deve-se tocar com os dedos, não com a cabeça”).

4) O quarto grupo está formado pelos casos de desenho e pintura automáticos. Este curioso grupo de mensagens raras vezes possui um conteúdo telepático e se aproxima mais dos casos de gênio e outras formas não telepáticas de capacidade subliminar.

5) A escrita automática, à qual dedicaremos o restante deste capítulo, constitui o quinto grupo.

6) A palavra automática que não apresenta em si uma forma mais desenvolvida de mensagem motora que a escrita automática, e freqüentemente acompanhada de modificações profundas da memória ou da personalidade, que se aproximam à “inspiração” e à “possessão”, que significam, apesar da diferença de seu sentido teológico, o mesmo do ponto de vista da psicologia experimental.

7) Posso encerrar esta enumeração com o grupo de fenômenos motores que só mencionarei de passagem, sem almejar explicá-los: trata-se destes movimentos telecinésicos cuja existência real está, ainda, sujeita a discussões.

Comparando essa lista das manifestações automáticas motoras com a das manifestações automáticas sensoriais que apresentei no capítulo VI, encontraremos na base de cada uma delas uma certa tendência geral. Os automatismos sensoriais iniciam por sensações vagas, não especializadas, que a seguir se tornam mais definidas e se especializam segundo a ordem dos sentidos conhecidos, para, finalmente, superar as formas de especialização comuns e abranger num ato de percepção, na aparência não analisável, uma verdade mais ampla do que todas as que nossas formas especializadas de percepção são capazes de nos proporcionar. As mensagens motoras mais elementares apresentam, por sua vez, um caráter dos mais vagos; igualmente, nascem das modificações do estado orgânico geral do sujeito ou cinestésico, e os primeiros impulsos telepáticos vagos, vacilam aparentemente entre diversas formas de expressão. A seguir, atravessam uma fase de especialização definida, para terminar, como na escrita automática, num ato de percepção não analisável, no qual desapareceu todo elemento motor.

Abordaremos agora o estudo da escrita automática. Com suas experiências sobre a escrita, obtidas durante as diferentes fases do sono hipnótico, Gurney iniciou esta larga série de investigações que, realizadas independentemente na França pelo Dr. Pierre Janet, adquiriram, a seguir, enorme importância psicológica e médica. O interesse principal consiste no fato indiscutível da possibilidade de criar artificialmente novas personalidades temporais que escrevem coisas totalmente estranhas ao caráter da personalidade primitiva e que esta jamais conhecera. Note-se, além disto, que essas personalidades artificiais prendem-se obstinadamente a seus nomes fictícios e negam-se a reconhecer que só constituem aspectos e porções do sujeito tomado em seu todo. Deve-se recordar este fato quando a pretensão insistente de alguma identidade espiritual, por exemplo, como Napoleão, oferece-se como argumento para atribuir uma série de mensagens a esta fonte especial. O estudo desses automatismos auto-sugestionados é rico em ensinamentos interessantes e as discussões que encerram meus capítulos anteriores se relacionam com um vasto número de pontos que deveriam ser familiares a todos os que almejam compreender os fenômenos motores mais avançados e difíceis.

Para que o estudo desses casos avançados dê resultados concludentes, devemos nos esforçar, sem cessar, em aumentar seu número, em enriquecer nossas coleções. Animado pelos escritos de Moses, investiguei durante 25 anos os casos desse gênero e creio encontrar-me, atualmente, de posse de 50 observações pessoais de escrita automática idiognomônica. Ainda que a maior parte dessas observações não tragam grande interesse e sejam pouco prováveis, porém, me parecem suficientes para reconhecer que os efeitos observados nas pessoas sadias se prestam a conclusões mais adequadas que as inferidas através da observação dos doentes, ou as que tantos autores formulam de orelhada.

Em dois casos, o costume da escrita automática, desenvolvida não obstante minha proibição, por pessoas sobre as quais não possuía qualquer influência, demonstrou que, até certo ponto, inspirava aos sujeitos a convicção obstinada que de as bobagens que escreviam eram tão verídicas como importantes. Em outros casos não ocorreu nada semelhante e não só os sujeitos referidos não apresentavam qualquer enfermidade nem perturbação que se pudesse considerar como a causa do automatismo, senão que diversos deles apresentavam uma saúde física e intelectual acima da média.

No que diz respeito ao conteúdo das mensagens automáticas, este varia de acordo com as fontes aparentes dos últimos. De acordo com isso, pode-se distinguir as seguintes variações:

a) A mensagem pode ter sua origem no espírito do próprio sujeito e inferir seu conteúdo, quer dos recursos da memória comum, quer dos da memória subliminar mais ampla; a dramatização da mensagem, isto é, o que se atribua a um espírito diverso do espírito do sujeito, se parece, nestes casos, à dramatização dos sonhos e da sugestão hipnótica.

b) O conteúdo da mensagem pode ter sua origem no espírito de outra pessoa ainda viva, cuja pessoa pode ser consciente ou não da sugestão que transmite.

c) A mensagem pode ser inspirada por uma inteligência desencarnada, de tipo desconhecido, de qualquer forma diversa da do agente invocado. Podem-se classificar sob esta epígrafe as mensagens atribuídas, por um lado, aos “maus espíritos” e, por outro, aos “guias” e “guardiães” de uma bondade e de uma sabedoria sobre-humanas.

d) Por último, é possível que a mensagem advenha, de modo mais ou menos direto, do espírito do agente (um amigo falecido) que ele pareça invocar.

Meu principal esforço tende, naturalmente, a mostrar que existem mensagens pertencentes a outras categorias que a categoria “a”, na qual a maioria dos psicólogos gostariam de encaixá-las todas. A meu ver, ainda que reservando um certo número de mensagens aos outros grupos, estou deveras convencido de que a maioria deles representam os efeitos do trabalho subliminar do espírito do sujeito, unicamente. Isto não quer dizer que essas mensagens não sejam para nós algo novo ou interessante. Ao contrário, formam uma passagem instrutiva, indispensável da antiga introspecção psicológica aos métodos mais audazes sobre os quais me proponho insistir. A ação subliminar do espírito, que revelam, difere da atividade supraliminar de um modo que é impossível prevenir ou explicar. Dir-se-ia existirem tendências subliminares que se estendem em certas direções obscuras e que são, no respeitante aos rasgos individuais da pessoa que, às vezes, conseguimos entrever, o que as correntes profundas do oceano são no que respeita às ondas e aos ventos que se agitam sobre a superfície.

Mencionarei somente outro ponto de capital importância, com relação ao poder do eu subliminar. É particularmente óbvio que as mensagens cujo conteúdo é formado pelos fatos que o autômato conhece ou pretende conhecer só podem ter sua origem no espírito do sujeito. Mas a proposição contrária não é da mesma forma verdadeira, isto é, que as mensagens cujo conteúdo é formado por fatos que o autômato desconhece não têm, necessariamente, que se originar de um espírito diverso do seu. Se o eu subliminar é capaz de adquirir conhecimentos supranormais, pode atingir esse resultado por outros meios, que não os da impressão telepática, que tenham a sua origem num espírito alheio ao seu. Pode assimilar sua alimentação supranormal por um processo mais direto, digeri-la crua. Se é possível que o sujeito receba os conhecimentos desse gênero graças à influência exercida sobre ele por outros espíritos, encarnados ou não, é também possível que os adquira como conseqüência de uma percepção clarividente ou de uma absorção ativa de fatos situados além de seu alcance supraliminar.

Sucede, com freqüência, aos que durante anos continuam investigações pouco familiares ao público, que os pontos de vista que de início não provocaram mais do que ataques e objeções acabam por ser, aos poucos, reconhecidos, enquanto que o investigador interessado em idéias novas apenas se apercebe da mudança produzida na opinião com respeito às antigas. Os leitores dos primeiros números dos “Relatórios da Sociedade de Investigações Psíquicas” poderão, igualmente, comprovar os progressos da opinião. Em seu livro Des Indes a la planete Mars; études sur un cas de somnambulisme avec glossolalie (Paris e Genebra, 1900), Flournoy mostra-nos, de forma notável, as mudanças ocorridas na psicologia durante os últimos vinte anos. Esse livro, ainda que sendo um modelo de imparcialidade, de uma a outra ponta, encerra, na sua maior parte, uma crítica corrosiva dos fenômenos quase-supranormais de que se ocupa. Mas não deixa de demonstrar a quantidade de conceitos tomados desse domínio, que o psicólogo competente considera hoje como estabelecidos e provados, enquanto que há vinte anos a ciência oficial quase não suportaria a menor alusão ao tema.

Devo, antes de tudo, mencionar um ponto importante que, de forma decisiva, corrobora uma constatação que fiz há muito tempo e que, então, pareceria fantástica a diversos leitores. Afirmando a continuidade potencial da consciência subliminar (contrariamente aos que pretendem existir somente afloramentos acidentais do pensamento subliminar, semelhantes aos sonhos desligados e incoerentes) declarei que muito rapidamente se levaria a noção do eu subliminar até suas últimas conseqüências, se não se quisesse admitir a possibilidade de uma direção e de uma posse exteriores contínuas. Ora, toda a discussão sobre o tema Flournoy gira sobre esse ponto. Achamo-nos, indiscutivelmente, na presença de séries contínuas e complexas de sentimentos que se movimentam por sob o umbral da consciência de “Hélène Smith”; essa conscientização subliminar se deve, em qualquer grau, à atividade de outros espíritos, além do espírito da Srta. Smith? Esta é a principal questão; mas se enovela com outra, secundária, a de saber se as encarnações anteriores da Srta. Smith, se outras fases de sua história espiritual que agora afetam relações complexas com o passado, representam algo nessa multidão de personalidades que parecem lutar, umas com as outras, para expressar-se através do organismo sadio.

A Srta. Smith, deve-se dizer já, não foi nunca uma médium a soldo. No instante em que Flournoy escrevia seu livro, ocupava um posto elevado numa grande casa de comércio de Genebra e dava sessões a seus amigos simplesmente porque o exercício de suas capacidades mediúnicas lhe agradava e se interessava muito na sua aplicação.

Seu organismo era, segundo ela e os demais, totalmente sadio. A Srta. Smith, diz Flournoy, declara categoricamente que é sã de corpo e espírito, perfeitamente equilibrada e repele com indignação a idéia de que o papel do médium, tal como ela o desempenha, seja passível de supor uma anomalia perniciosa ou o menor perigo.

“Sou tão pouco anormal – escreve Hélène –, que nunca fui tão clarividente, tão lúcida, tão capaz de um juízo rápido, sobre um determinado assunto qualquer, como após ter desempenhado o papel de médium”. Ninguém parece discutir esta apreciação, que os fatos revelados à medida dos progressos realizados pela Srta. Smith confirmam, com efeito, plenamente.

“É, com efeito, indiscutível – continua Flournoy (pág. 41) – que a Srta. Smith tem uma cabeça extremamente bem organizada e do ponto de vista dos negócios, por exemplo, dirige admiravelmente bem o importante e complicado departamento à cuja testa se encontra, no armazém onde está empregada; de forma que lhe atribuir um estado mórbido, pela simples razão de que é médium, equivale ao menos ao enunciado de uma petição de princípio inadmissível, já que a natureza do que constitui e caracteriza o médium é ainda mais obscura e passível de discussão.

“É evidente que existe entre os sábios espíritos estreitos e limitados, fortes cada qual na sua especialidade, mas prontos a lançar seu anátema sobre tudo o que não esteja de acordo com suas idéias preconcebidas e a tratar de mórbido, de patológico e de louco tudo o que se diferencie do tipo normal da natureza humana, tal como concebida segundo o modelo de sua própria personalidade.86

“Mas, em primeiro lugar, o critério essencial com o qual nos devemos ater para apreciar o valor de um ser humano nos é proporcionado, não pelo seu estado de boa ou má saúde, nem por seu grau de semelhança com outros indivíduos, senão pelo modo pelo qual realiza sua tarefa especial, por como desempenha as funções que lhe competem e pelo que dele se pode esperar. Não acredito que as capacidades psíquicas da Srta. Smith a tenham jamais impedido de cumprir seus deveres, antes, ajudaram-na nisso, pois sua atividade normal e consciente encontrou, freqüentemente, uma inesperada ajuda em suas inspirações subliminares e em suas manifestações automáticas.

“Em segundo lugar, está longe de ser demonstrado que o estado do médium seja um fenômeno patológico; é indubitavelmente um fenômeno anormal, no sentido de que é raro, excepcional, mas a raridade não significa morbidez. Os poucos anos durante os quais se estudaram esses fenômenos cientificamente não são suficientes para nos permitir que nos pronunciemos sobre sua natureza. Convém notar que nos países onde os estudos desse gênero foram levados além, Estados Unidos e Inglaterra, a opinião predominante entre os sábios que mais se aprofundaram na matéria não é contrária à mediunidade e que longe de considerar esta última como um caso especial de histeria, nele vêem uma capacidade superior, vantajosa, sadia, da qual a histeria é uma forma de degeneração, paródia-patológica, uma caricatura mórbida.87

Os fenômenos que apresenta esta sensitiva (à qual Flournoy dá o pseudônimo de Hélène Smith) parecem, à primeira vista, variados e múltiplos, mas essa variedade se vê em seguida ser mais aparente que real e é fácil comprovar que se podem explicar através da auto-sugestão.

Comprovamos, primeiramente, o aparecimento de toda classe de elementos subliminares na vida supraliminar. Como diz Flournoy (pág. 45): “fenômenos de hipermnesia, adivinhações, descobertas misteriosas de objetos perdidos, inspirações felizes, pressentimentos exatos, intuições justas, resumindo, automatismos teleológicos de todo o gênero: ela possui num alto grau a cunhagem do gênio que constitui uma compensação mais do que suficiente dos inconvenientes que resultam das distrações e ausências momentâneas que acompanham suas visões e que na maioria dos casos passam desapercebidas.”

No desenvolver das sessões, em que as transformações mais profundas não apresentam qualquer inconveniente, sofria uma espécie de auto-hipnotização que produzia estados letárgicos e sonambúlicos variados. E quando se acha só e ao abrigo de qualquer interrupção, tem visões espontâneas, durante as quais aproxima-se ao estado de êxtase. Experimenta, durante as sessões, alucinações positivas e negativas e anestesias sistemáticas, de forma que, por exemplo, deixa de ver qualquer pessoa presente, especialmente a destinatária das mensagens que se elaboram durante o curso da sessão. “Dir-se-ia que uma incoerência como a que caracteriza os sonhos preside o trabalho preliminar da desagregação, graças à qual as percepções normais se acham arbitrariamente divididas ou absorvidas pela personalidade subconsciente, em busca de materiais para compor as alucinações que prepara.” A seguir, ao se iniciar a sessão, o único ator é o guia de Hélène, Leopold (pseudônimo de Cagliostro) que fala e escreve através dela e que provavelmente não é, na realidade, mais do que a forma desenvolvida de sua personalidade secundária.

Efetivamente, Hélène tem, às vezes, a impressão de converter-se momentaneamente em Leopold (pág. 117). Flournoy compara esta sensação com a experiência de Hill Tout (Proceedings of the S. P. R., XI, pág. 399), que sente converter-se no seu próprio pai, manifestando-se através dele. “Leopold – diz Flournoy – manifesta, certamente, um aspecto muito honrado e amável do caráter da Srta. Smith, que, tomando-o por “guia”, seguiu inspirações que se encontram, indiscutivelmente, entre as mais elevadas de sua natureza.” (pág. 134).

O alto teor moral dessas comunicações automáticas, sobre as quais tanto insiste Flournoy, é um fenômeno digno de consideração. Não quero, com isso, dizer que pareça especialmente estranho no caso da Srta. Smith. Esta parece uma pessoa de espírito realmente equilibrado.

Não nos assombra encontrar seu eu subliminar tão isento de crítica como seu eu supraliminar. Mas, na realidade, a observação que Flournoy faz é de aplicação muito mais ampla. O alto valor moral, quase universal das manifestações automáticas primitivas, consideradas quer como comunicações espirituais, quer como procedentes do mesmo sujeito, não foi ainda, que eu saiba, devidamente esclarecido ou explicado de modo satisfatório. Mencionarei aqui dois pontos que me interessaram sobremaneira e que considero interessante destacar: em primeiro lugar, li numerosos sermões e outros ataques contra o “espiritismo”, nome pelo qual se designam, geralmente, todas as manifestações automáticas, e não estou lembrado de um só exemplo em que se tenha citado em apoio desses ataques alguma passagem de teor imoral, baixa, cruel ou impura (e este é o segundo ponto sobre o qual quero chamar a atenção); os ataques foram sempre deste gênero que, aos olhos do filósofo, é, antes, elogioso para os escritos atacados, porque parece que nenhuma das diferentes igrejas conflitantes conseguiu apresentar em favor de seus dogmas as provas demonstradas pelas mensagens automáticas. Os diferentes controversistas, quando sinceros, admitiram o engrandecimento moral, mas partindo de pontos de vista opostos, estão concordes em deplorar a ignorância teológica.

A doutrina da reencarnação, ou das vidas sucessivas transpassadas por cada alma neste planeta, inspira a maior parte das comunicações recebidas pela Srta. Smith.

O simples fato de que Platão e Virgílio compartilhassem dessa doutrina demonstra que não revela nada que contrarie a melhor razão e aos mais elevados instintos do homem. É certo que não é fácil estabelecer uma teoria que atribua a criação direta dos espíritos a fases tão diversas de adiantamento como aquelas em que esses espíritos entram na vida terrestre sob a forma de homens mortais; deve existir uma certa continuidade, uma certa forma de passado espiritual. No momento, não possuímos qualquer prova a favor da reencarnação e nosso dever é mostrar que sua confirmação num determinado caso, o da Srta. Smith, por exemplo, constitui um argumento a favor da auto-sugestão mais do que a inspiração exterior.

Todas as vezes que os homens civilizados receberam o que consideravam como uma revelação (que, em sua expressão mais pura, foi um pouco truncada) dedicaram-se, naturalmente, a completá-la e a sistematizá-la, na medida do possível. Com isto, almejavam três fins:

a) compreender o maior número possível de mistérios do universo;

b) justificar, no que fosse possível, a conduta do Céu, com respeito aos homens;

c) apropriar-se, no possível, do benefício e dos favores que os crentes deveriam poder retirar da revelação.

Por todas essas razões, a doutrina da reencarnação teve muito apoio em mais de um país e época. Mas, em caso algum parecia alcançar a sua finalidade como na revelação (por assim dizer) através da escrita automática.

Para citar um exemplo histórico, um vigoroso pregador da nova fé, conhecido pelo nome de Allan Kardec, retomou a doutrina da reencarnação, substituindo-a (segundo o que é passível de crédito) pela sugestão extrema exercida sobre o espírito de diferentes escritores automáticos e a expõe em obras dogmáticas que exerceram enorme influência, principalmente nas nações latinas, graças à sua clareza, sua simetria e seu intrínseco bom-senso. Mas os dados compilados eram totalmente insuficientes e O Livro dos Espíritos deve ser considerado como um ensaio prematuro para formular uma nova religião, para sistematizar uma ciência nascente.88

Acredito, juntamente com Flournoy, que o estudo desta obra deve ter influenciado, diretamente ou não, o espírito da Srta. Smith, nela provocando a crença nas encarnações anteriores ao seu destino e às suas atuais sensações.

De modo geral, cada encarnação, tendo sido a última bem empregada, constitui um certo progresso na existência geral do ser. Se uma vida terrestre foi desperdiçada, a vida terrestre seguinte pode vir a ser a possibilidade de uma expiação ou do exercício mais amplo de uma virtude especial que não foi adquirida, senão de uma forma imperfeita. Dessa forma, a vida atual da Srta. Smith, numa posição bem humilde, pode ser considerada como uma expiação pelo excesso de orgulho de que dera mostra na sua última encarnação, quando foi Maria Antonieta.

Mas esta menção concernente a Maria Antonieta nos coloca no caminho do risco que faz correr essa teoria, favorecendo as pretensões dos sujeitos de descender de uma linhagem ilustre de antepassados espirituais. Pitágoras pretendia que seu eu passado encarnara num herói secundário, Euforbo. Em nossos dias, Anna Kingland e Edward Maitland pretendiam ter sido nada menos que a Virgem Maria e São João Batista. E Victor Hugo, deveras inclinado a essas automultiplicações, se apoderou da maioria dos personagens importantes da antigüidade que pode relacionar entre si, cronologicamente.

Em cada caso, a personificação apresenta notáveis rasgos; mas também em cada caso, basta uma análise mais ou menos atenta para afastar a idéia de que nos encontramos na presença de uma personalidade que realmente viveu numa época anterior, habitou outro planeta, fazer-nos ver através desses fatos os efeitos da “criptomnésia” (palavra pela qual Flournoy define a memória subliminar) e desta capacidade inventiva subliminar que já nos é deveras conhecida.

Flournoy não foi o primeiro a se ocupar da Srta. Smith. Antes dele, Lefébure, de Genebra, publicou sobre o mesmo tema nos Annales des Sciences Psychiques, março-abril de 1897 e maio-junho de 1897,89 artigos nos quais se esforçava por provar o caráter supranormal da capacidade da Srta. Smith, a qual acreditava-se realmente tomada por espíritos e admitia a realidade de suas encarnações anteriores, como de sua linguagem extraterrena ou marciana. Após a leitura de seus artigos, deixei-os de lado por se mostrarem pouco concludentes, especialmente por causa das considerações sobre a linguagem, à qual Lefébure parecia especialmente inclinado, considerações que me soaram falsas até o ponto de despertar dúvida sobre todos os argumentos formulados, por um autor que era capaz de acreditar que os habitantes de outros planetas falavam uma língua semelhante ao idioma francês e era formado por palavras como quisa por quel, quisé por quelle, vétèche por voir, vèche por vu, verdadeiras expressões do fantástico infantil. Como prova da consistência e realidade da linguagem extraterrestre, Lefébure cita o seguinte fato: “uma das primeiras que tivemos, métiche, que significa monsieur, é, mais tarde, encontrada com o sentido de homme”. Isto é, através de uma ingênua imitação do idioma francês, Hélène, após transformar monsieur em métiche, mudou les messieurs em cée métiché. E o autor reconheceu que essa língua surgiu independentemente de todas as influências que formaram a gramática terrestre em geral e o idioma francês em particular! E inclusive, depois que Flournoy refutou esse absurdo, vi que os jornais falavam dessa língua marciana como de um assombroso fenômeno! Pareciam acreditar que se a evolução de outro planeta resultou no aparecimento da vida consciente, esta vida consciente devia ser de modo a nos proporcionar, sem dificuldades, que nela entremos trazendo na mão um livro de Ollendorff de conversação: “eni cee metiché oné quedé – aqui os homens são bons”, etc.

Para quem estudou o automatismo, isto sugere a idéia irresistível de um trabalho subliminar realizado pelo próprio sujeito. É um caso de “glossolália”, e nós desconhecemos qualquer caso mais recente, desde o caso semi-místico dos Milagres de Cevennes, onde um linguajar desse gênero nada mais é do que um jargão ininteligível. Tive em minhas mãos diversos escritos hieróglifos, realizados automaticamente, acreditando que representavam a escrita japonesa ou a de um antigo dialeto do norte da China; mas os técnicos não avisados, aos quais submeti esses escritos, mostraram-me, rapidamente, que se tratava de vagas recordações de parágrafos que enfeitavam as bandejas de chá vindas do oriente.

Parece-me totalmente impossível que um cérebro possa receber, telepaticamente, qualquer fragmento de uma língua que não aprendeu. Pode-se dizer, de maneira geral, que tudo o que é elaborado, completo, audaz, parece obra subliminar; enquanto que tudo o que provém do exterior é fragmentado, confuso e tímido.

A particularidade mais interessante do idioma marciano é sua formação exclusivamente francesa; o que provaria ter sido elaborado por um espírito familiarizado com o idioma francês. Mas a Srta. Smith está longe de ser poliglota; recebera, quando criança, algumas aulas de alemão, o que nos induziria à curiosa suposição de que o idioma marciano foi inventado por algum elemento de sua personalidade, anterior às lições de alemão.

“O fato da natureza primitiva das diversas elucubrações hipnoidais da Srta. Smith – diz Flournoy (pág. 45) – e as diferentes etapas da vida às quais pertencem parecem-me constituir os pontos psicológicos mais interessantes de sua mediunidade, no que tende a mostrar que essas personalidades secundárias são provavelmente, quanto à sua origem e, ao menos em parte, fenômenos de reversão, relacionados à personalidade comum, sobrevivências ou retornos momentâneos a fases inferiores superadas após um tempo, mais ou menos longo, e que, normalmente, deveriam ter sido absorvidas pelo desenvolvimento do indivíduo, ao invés de se manifestar exteriormente através de estranhas proliferações. Da mesma forma que a teratologia esclarece a embriologia, que, por sua vez, explica a teratologia, e ambas, reunidas por sua vez esclarecem a anatomia, igualmente, se pode esperar que o estudo do mediunismo nos proporcionará uma clara e fecunda noção no que concerne à psicogênese normal, que, por sua vez, nos permitirá compreender melhor as aparências desses fenômenos singulares; de forma que, finalmente, a psicologia terá um conceito melhor e mais exato da personalidade humana.”

A capacidade a que nos referimos, a de evocar estados emocionais há muito desaparecidos, parece-me eminentemente característica do gênio poético e artístico. O artista deve aspirar a viver no passado com maior intensidade do que no presente, a novamente sentir o que em outras ocasiões sentiu e, inclusive, a voltar a ver o que já vira. As recordações visuais e auditivas ativadas na sua totalidade se convertem em alucinações visuais e auditivas; e este ponto de absoluta alucinação poucos artistas desejam ou podem atingir. Mas a memória emocional e afetiva pode, em algumas naturezas privilegiadas, readquirir toda a sua antiga clareza, em benefício da arte; e inclusive, quando o próprio homem já é capaz de sentir as emoções que voltam (semelhantes nisto a certas imagens-lembranças óticas) podem superar as emoções originais.

Mas voltemos à Srta. Smith. Uma de suas encarnações anteriores foi a de uma princesa indiana, e essa encarnação oferece um problema lingüístico de um gênero algo diverso. Escreveu alguns caracteres sânscritos, pronunciou certas palavras sânscritas, misturadas, é certo, a um jargão quase-sânscrito e que não ultrapassava o que a boa memória pudesse reter olhando, durante algumas horas, uma gramática sânscrita. Porém, Hélène, cuja boa-fé é atestada em todas as partes, e que ela acreditava com toda a sinceridade na hipótese espírita, afirma não ter nunca consultado uma gramática dessa língua. Por outro lado, as minuciosas investigações realizadas por Flournoy sobre os incidentes da história ou pseudo-história hindu, nos quais está baseado o relato dessa encarnação, fazem parte de uma passagem de um livro raro e esgotado de Marlès sobre a Índia, livro que a Srta. Smith afirma jamais ter visto, coisa que nos parece bastante provável.90

Esse conhecimento se manifesta de modo a indicar uma grande familiaridade com as coisas do oriente, e os sons e os gestos quase indianos são empregados com grande verossimilhança.

Não necessito entrar nos detalhes da encarnação mais moderna e acessível de Maria Antonieta.

Nos fatos citados, esse problema se encontra reduzido à sua forma mais simples; e vou formular aqui, o mais breve possível, uma teoria que Flournoy não usou. Estou de acordo com ele em considerar fantástica toda a novela hindu. Mas não tiro a conclusão de que a Srta. Smith viu, sem ter consciência disso, a História de Marlès e uma gramática sânscrita e considero como provável que os fatos que o livro de Marlès e a gramática comportam tenham chegado a seu conhecimento por clarividência, através de seu eu subliminar.91

Passo dessas novelas reencarnacionistas para certos fenômenos menores, mas igualmente interessantes, que Flournoy chama automatismos teleológicos. “Certo dia – diz Flournoy (pág. 55) – em que a Srta. Smith se propunha a descer um objeto grande e pesado de uma estante alta, não o pôde fazer, pois ficou com o braço no ar durante alguns segundos, como que petrificada e incapaz de se movimentar. Considerou aquele fato como uma advertência e desistiu de seu intento. Numa sessão ulterior, Leopold confirmou que fora ele quem a impedira de alcançar o objeto, porque era demasiado pesado para ela e ter-lhe-ia causado algum acidente. Numa outra oportunidade, um vendedor que procurava, em vão, uma amostra, perguntou a Hélène se sabia onde teria ido parar. Mecanicamente, e sem refletir, ela disse que a enviaram a M. J. (diante da casa). No mesmo instante, viu traçado sobre o assoalho o número 18 e acrescentou inconscientemente: “há dezoito dias”. Aquilo era totalmente improvável, mas resultou exato. Leopold não se recordava desse fato e não parece ter sido o autor desse automatismo criptomnésico.”

A Srta. Smith viu também a aparição de Leopold, que lhe vedava um caminho que se propunha seguir e isto em circunstâncias tais que se houvesse tomado aquele caminho é provável que viesse a se arrepender.

A questão seguinte é saber se uma capacidade supranormal qualquer se manifesta nos fenômenos que nos apresenta o caso da Srta. Smith. Parece existir nele um certo grau de telepatia (pág. 363 e seguintes), como na sessão em que viu um lugarejo situado sobre uma colina coberta de vinhas e um ancião vestido burguesmente que descia a colina ao lado de um caminho de pedras; quando lhe perguntaram os nomes do lugarejo e do ancião, escreveu, para o primeiro, “Chessenaz” e para o segundo “Chammontet-Syndic”; dias depois viu o mesmo senhor acompanhado de outro que disse ser o cura do lugarejo, cujo nome escreveu: “Burniersalut”. Das informações tomadas a seguir, constatou-se que Chessenaz é um lugarejo desconhecido situado na Alta Savoia, a 26 quilômetros de Genebra, que um homem de nome Jean-Chaumontet foi síndico desse lugarejo em 1838 e 1839 e um homem de nome André Burnier foi cura de 1824 a 1841; os dois nomes figuram num livro de registro de nascimentos, etc.; as assinaturas da Srta. Smith assemelham-se bastante às desses dois personagens.

A Srta. Smith havia realmente conhecido os arredores de Chessenaz, mas não se lembrava de os ter visto, nem acreditava ter ouvido falar deles, nem que lhes houvessem citado os nomes do síndico e do cura. Esses dois nomes são, porém, bastante divulgados na região e é possível que, durante o curso de suas visitas, seus amigos tivessem mostrado alguma ata onde figurassem aquelas duas assinaturas (o que podemos afirmar porque a sua probidade está acima de qualquer suspeita), tendo os nomes desaparecido completamente de sua memória supraliminar.

Este caso de Flournoy pode ser considerado como clássico, apresentando um notável exemplo de vôo livre e de atividade incessante do eu subliminar, independentes de qualquer influência externa. O elemento telepático, caso exista, é de pouca importância. O que observamos na Srta. Hélène Smith assemelha-se a uma espécie de exagero da capacidade construtiva subliminar, a uma hipertrofia do gênio, sem esta originalidade inata do espírito que faz dos sonhos de um R. L. Stevenson uma fonte de prazer para milhares de leitores.

Para nós, os casos desse gênero, por mais curiosos que sejam, só constituem uma introdução aos automatismos de um caráter mais profundo. Em nossa tentativa de descobrir as séries evolutivas dos fenômenos que determinam a existência de capacidades humanas cada vez mais elevadas, o menor incidente telepático, a prova mais banal, mesmo sendo prova de comunicações recebidas sem o auxílio dos sentidos, de um espírito encarnado ou desencarnado, superam em importância as ramificações e as produções mais complexas do próprio espírito do autômato.

Possuímos uma série enorme de casos em que as experiências realizadas com a planchette revelaram, de forma indiscutível, a intervenção de um elemento telepático; de uma influência à distância exercida inconscientemente por pessoas presentes no espírito dos operadores e que provocam, por seu lado, os movimentos automáticos registrados pela tabela, quer quando dizia o nome das pessoas no momento em que suas fotografias eram vistas pelos assistentes, quer quando adivinhava o número de moedas que se achavam no bolso de um auxiliar, quando ele próprio não conhecia exatamente esse número, quer quando calculasse previamente a soma em dinheiro que determinada pessoa devia receber de um amigo e o nome deste último. Inclusive nos casos em que a pessoa interessada parecia ignorar o fato anunciado, que dizia respeito a ela, era fácil convencer-se de que tal pessoa tinha, do fato em questão, um conhecimento essencialmente subliminar.

O fato mais notável desse gênero é o do casal Newton, que se entregava a experiências que consistiam em a mulher escrever as respostas às perguntas que o homem formulava, também por escrito, sem que ela tivesse visto ou ouvido nunca uma só dessas perguntas. Essas experiências foram repetidas durante muito tempo e se algumas das respostas escritas pela Sra. Newton não possuíam qualquer relação com as perguntas a que se destinavam, o número de respostas exatas e justas continua sendo ainda muito considerável e autoriza a concluir que se tratava de algo além da coincidência (ver Proceedings of the S. P. R., IX, pág. 61-64).

Consideramos até aqui só os casos em que a ação telepática era exercida entre pessoas próximas, reunidas na mesma habitação. No caso da Sra. Kirby, que morava em Santa Cruz, Califórnia, os movimentos automáticos da mesa revelaram fatos concernentes a pessoas que moravam em Plymouth, Inglaterra, em particular a irmã de um criado da Sra. Kirby, criado este que participava das experiências e que era conhecido por um nome suposto e cujo verdadeiro nome foi revelado pela própria mesa (Proceedings of the S. P. R., IX, pág. 48).

Ao lado destes casos de comunicações entre pessoas vivas existem outros em que a mensagem parece provir de uma pessoa falecida, quando, na realidade, na maioria dos casos a origem está no espírito de uma das pessoas presentes. É o caso citado freqüentemente, do Sr. Lewis (Proceedings of the S. P. R., IX, pág. 64), no qual um médium que não podia, de modo algum, estar ao corrente dos assuntos da família de Lewis, que não conhecia, comunicou por intermédio de uma mesa uma mensagem procedente de uma das irmãs do último, falecida aos 2 anos de idade, antes do nascimento do Sr. Lewis. E o caso do Sr. Long (Proceedings of the S. P. R., IX, pág. 65), ao qual um médium comunicou uma mensagem de um antigo criado, cujo nome estava escrito erradamente e cuja mensagem significava que o criado morrera há 14 ou 15 anos, enquanto que as informações tomadas mais tarde confirmaram que o criado ainda vivia no momento em que a mensagem foi transmitida ao Sr. Long. Pode-se, nesta mesma categoria, classificar o caso transmitido ao Sr. Barret (Proceedings of the S. P. R., XI, pág. 236), relativo a um médium que, após implorar a uma sua amiga que pensasse numa pessoa qualquer, descreveu automaticamente certos fatos relacionados a essa pessoa.

Durante uma sessão espírita realizada na residência do Dr. Barallos, do Rio de Janeiro, a mesa anunciou que um vidro contendo ácido fênico quebrara-se às 8 horas da noite na casa da cunhada do médico, que também participava da sessão. Sua casa situava-se distante da de sua cunhada e ao voltar para sua residência pôde comprovar que aquilo era exato. Soube também que suas filhas, que ficaram em casa, ouviram um ruído numa habitação próxima, onde dormia uma criança atacada de varíola e onde se achava o vidro contendo ácido fênico e entraram precipitadamente no quarto, gritando: “O vidro de ácido quebrou!” É possível, e esta é a explicação do Dr. Alexander do Rio de Janeiro, que nos comunicou o fato, que a impressão emocional experimentada pelas jovens ao lançar aquela exclamação exercesse uma influência telepática na mãe e conseqüentemente na mesa, trazendo à superfície a mensagem que a segunda recebeu subconscientemente (Journal of the S. P. R., VI, pág. 112-115).

Temos, a seguir, uma série de casos que propiciam um interessante campo à discussão das duas hipóteses rivais: a da criptomnésia e a da influência exercida pelos espíritos. São, por exemplo, os casos observados por Wedgwood (Journal of the S. P. R., V, pág. 174 e Proceedings of the S. P. R., IX, pág. 99-109), nos quais desempenhou ativo papel, no sentido de que ele não apresentou nunca manifestações de automatismo, participou de sessões de escrita automática, acompanhado de uma jovem submetida a impulsos automáticos. A escrita obtida nestes casos constituía a relação de fatos concernentes a personagens históricas, mortas há algum tempo, mais ou menos célebres, mas desconhecidos de Wedgwood e de sua acompanhante, especialmente desta, que pouco lera e possuidora de parcos conhecimentos gerais. A única explicação possível nestes casos é a de que Wedgwood, primo e sogro de Charles Darwin, é ele mesmo conhecido sábio que lera muito e era possuidor de extensos conhecimentos, podia não possuir uma lembrança supraliminar das personagens históricas, cujas vidas e episódios descrevia através da mão, mas que se tratava de um afluxo de recordações subliminares.

Estes casos apresentam todas as dificuldades que apresenta a teoria das recordações esquecidas. Ver-se-á como um autômato de boa-fé pode, através da paciência, alcançar uma solução satisfatória da questão, bastando que nos propicie, com diversos companheiros, uma série de comunicações suficientemente extensas, cujo exame nos permitirá comprovar até que ponto os fatos que relatam essas comunicações foram vistos e ouvidos, sendo, a seguir, esquecidos. As comunicações semelhantes proporcionadas por outros autômatos nos colocam em situação de tirar uma conclusão geral, quanto à origem desses fatos retrocognitivos, se a recordação esquecida não basta para explicar a todas. O fato mais importante sobre isto consiste no relato, absolutamente verídico, a meu ver, prolatado por Stainton Moses em Spirit Identity, de uma série de mensagens comunicadas por compositores de música, relatando os principais acontecimentos da vida de cada um, de modo semelhante ao dos dicionários biográficos. Se essas mensagens nos foram propiciadas por autômatos de duvidosa probidade ou incapazes de fornecer a prova de outras mensagens que não podiam, de forma alguma, estar previamente preparados, não deveríamos levá-los em conta. Mas, no caso de Moses, como no da jovem das experiências de Wedgwood, e num grau mais elevado, possuímos provas indiscutíveis da existência de capacidades subliminares que podemos considerar suas biografias musicais como parte das séries que nos interessam neste momento. Sua particular natureza excitou a curiosidade de Moses e de seus amigos que foram informados por “guias” que se tratava, de fato, de mensagens provenientes dos espíritos em questão, mas que esses espíritos reavivaram as recordações de sua vida terrestre consultando as fontes de informação escritas. Isso equivale a impossibilitar a prova que se deseja proporcionar. Se um espírito é capaz de consultar sua biografia impressa, outros espíritos podem, da mesma forma, fazê-lo, e o espírito encarnado do autômato, de igual maneira. Moses considerava isto, pois ele próprio contava-me que a sensação subjetiva que experimentava ao escrever as biografias era diferente da que nele gerava a comunicação direta e real com um espírito.92

Desses relatos históricos relacionados a fatos longínquos, passo às mensagens provenientes de pessoas recém-falecidas e que possuem um elemento pessoal mais ativo. Esse elemento é constituído especialmente pela escrita. E essa prova da identidade fornecida pela semelhança de escritas pode ser deveras concludente. Porém, na apreciação dessa semelhança devem-se ponderar as seguintes considerações: primeiro, a semelhança é freqüentemente confirmada e reconhecida após um exame superficial e insuficiente. Para não haver dúvidas sobre isto é necessário, se não se quer recorrer a um perito, examinar minuciosamente as três escritas: a escrita automática do próprio sujeito, a deste em estado normal e a da pessoa de quem se acredita provenha a mensagem; isto, nos casos em que o sujeito jamais tenha visto a escrita da pessoa falecida. Ao contrário, nos casos em que se conhece esta escrita, devemos pensar, em segundo lugar, que um sujeito hipnotizado pode, freqüentemente, imitar qualquer escrita conhecida com maior facilidade do que durante a vigília e que muitas vezes pode-se tratar de uma capacidade mimética do sujeito subliminar que se manifesta nas mensagens sem a intervenção do eu supraliminar.

Citarei alguns casos, nos quais o principal intuito consiste no anúncio de uma morte, desconhecida do médium. É o caso observado pelo Dr. Liébault (Phantasms of the Living, I, pág. 293), sobre uma jovem americana que, passando uma temporada em Nancy, toma conhecimento, através da escrita automática, da morte de uma de suas amigas, que estava na América. Após colher informações, o fato foi confirmado. A amiga morrera, de fato, no dia em que o anúncio foi recebido em Nancy. No caso de Aksakof, uma jovem chamada Stramon, que vivia em Wilna, Rússia, recebe a notícia da morte de um jovem que vivia na Suíça e com o qual ela não desejara casar-se. Segundo a mensagem chegada cinco horas antes do falecimento, esta fora ocasionada por uma congestão. Mas, na realidade, tratava-se de um suicídio. Numa carta que a jovem recebeu três dias depois, de seu pai, que naquele momento se encontrava na Suíça, dizia-se, também, que a morte se produzira por congestão pelo qual o autor da carta não poderia saber a causa exata da morte. Aksakof supõe que a pessoa morta deve ter atuado, de um lado, sobre a Srta. Stramon, e, do outro, sobre o pai dela, fazendo com que recebesse a mensagem automática e impedindo que o outro desse em sua carta o motivo exato da morte (Proceedings of the S. P. R., VI, pág. 343-348).

O caso de M. W. é dos mais curiosos (Proceedings of the S. P. R., VIII, pág. 242-248). Homem correto, magistrado, assiste certo dia uma sessão de “mesas falantes”, onde constata possuir o dom da escrita automática. Imediatamente põe-se a atuar e, após adquirir a convicção de realmente possuir o dom, o exerce sempre que tem ocasião e freqüentemente com assombrosos resultados; obtém, com auxílio da escrita automática, informações sobre uma infinidade de assuntos que o interessam: o estado de saúde das pessoas ausentes, a morte iminente de pessoas doentes que os médicos não acreditavam estar em perigo, descrição do exterior e de circunstâncias de vida e morte de pessoas que jamais vira, mas nas quais outro freqüentador das sessões estava pensando, etc. Vê-se que algumas dessas mensagens podem ser explicadas através da hipótese da telestesia subliminar, outros pela telepatia, com origem no espírito de pessoas vivas; outros ainda, pareciam provir do espírito de pessoas falecidas.

O caso que se segue, publicado por Aksakof, mostra até que ponto as pessoas falecidas podem continuar ao corrente das coisas terrestres. Uma jovem russa, Schura (diminutivo de Alexandra), envenenou-se aos 17 anos, ao perder seu noivo Michel que, preso como revolucionário, foi morto na prisão. O irmão de Michel, Nicola, estava, no momento em que foi feita esta observação, estudando no Instituto Tecnológico. Um dia, uma senhora Von Wiessler e sua filha (a primeira se ocupava em práticas espíritas), que mal conheciam a família de Michel e Nicola, e cujas relações com Schura e sua família vinham de longa data, mas que nunca foram muito íntimas, receberam através de uma mesa uma mensagem de Schura rogando-lhes que avisassem sem falta a família de Nicola de que este corria o mesmo perigo que custara a vida do irmão. Tendo em vista a dúvida das duas mulheres, Schura tornou-se cada vez mais insistente, pronunciando palavras encolerizadas, que estava acostumada a proferir em vida, e para dar uma prova de sua identidade, materializa-se certa noite a Sofia, com a cabeça e os ombros envoltos numa auréola de luz. Isso, entretanto, não foi suficiente para que a Sra. Von Wiessler e sua filha tomassem uma decisão. Finalmente, Schura comunica-lhes que tudo estava terminado, que Nicola será preso e que elas se arrependerão de não a obedecer. As duas mulheres resolvem, então, levar ao conhecimento da família de Nicola os fatos a que, em virtude do comportamento exemplar deste último, não deram qualquer atenção ao que relataram as duas. Dois anos se passaram sem qualquer incidente, quando, certo dia, soube-se que Nicola fora detido por participar de reuniões revolucionárias, na mesma época das aparições e mensagens de Schura (Proceedings of the S. P. R., VI, pág. 349-357).

O caso que relataremos pode ser considerado único no gênero. Trata-se do êxito de uma experiência direta, de uma mensagem projetada antes e comunicada após a morte, por um homem que considerava que a esperança de uma existência após a morte merecia um esforço hercúleo, não importando o resultado. O irmão da Sra. Finney (Proceedings of the S. P. R., VIII, pág. 248-251), meses antes de sua morte, pintou um ladrilho, de modo determinado, partindo-o e dando a metade à sua irmã; depois disse-lhe que a avisaria, no dia em que morresse, onde escondera a outra metade do ladrilho, assim como o conteúdo de uma carta que estaria oculta no mesmo lugar. Após a morte do irmão, a Sra. Finney recebeu através de uma mesa as prometidas comunicações, concernentes tanto ao conteúdo da carta como ao lugar onde estava oculta a outra metade do ladrilho. Essas comunicações eram absolutamente corretas.

Todos podem tentar experiências desse gênero. E devo acrescentar que são as experiências de escrita automática, de cristaloscopia, etc., mais do que as concernentes às aparições espontâneas, as capazes de proporcionar uma informação real quanto ao grau em que os espíritos desencarnados guardam um conhecimento das coisas terrestres.

Antes de encerrar este capítulo façamos um retrospecto. Comprovaremos que os fenômenos motores nada mais fizeram do que confirmar e estender os resultados que o estudo dos fenômenos sensoriais nos fez entrever. Chamamos a atenção sobre o grau variável de amplitude das capacidades subliminares, quer no sono, quer na vigília. Assistimos a uma intensificação hiperestésica de uma capacidade comum terminar na telestesia e telepatia comuns, das quais as pessoas vivas ou mortas constituem o ponto de partida. Ao lado dessas capacidades que, na hipótese de uma existência independente da alma, nos parecem suscetíveis de explicação, notamos, igualmente, a existência de uma capacidade pré-cognitiva de determinado gênero, que nenhum dos fatos científicos conhecidos é capaz de explicar.

Durante o estudo dos automatismos motores encontramos um terceiro grupo de casos que confirmam em todos os pontos os resultados fornecidos pela análise dos automatismos motores do sono e da vigília. As provas convergentes a este ponto supõem, ao serem colocadas em dúvida, uma audácia de negação incomum. Mas os automatismos motores ensinaram-nos coisa diversa, ao mesmo tempo mais enérgicos e persistentes que os automatismos sensórios colocando-nos na presença de certos problemas que a natureza superficial e fugidia das impressões sensoriais nos permite, de certo modo, afastar. Assim, através da discussão do mecanismo dos fantasmas visuais e auditivos se oferecem à nossa escolha conceitos opostos, o da influência telepática e o da invasão psíquica; dizíamos que devemos admitir ou uma ação exercida pelo agente sobre o espírito do sujeito que recebe, estimulando os trajetos sensoriais do cérebro deste último, de tal forma que a impressão exterioriza-se sob a forma de quase-percepção, ou então de uma modificação realizada pelo agente na parte de espaço onde se distingue uma aparição, talvez percebida por diversos indivíduos.

Naquele momento, a hipótese da influência telepática pareceu-nos a mais natural, a menos extremada, das duas, talvez porque as imagens de que nos ocupávamos eram tão vagas e obscuras. Mas agora, ao invés de alucinações flutuantes, defrontamo-nos com impulsos fortes e duradouros que parecem vir das profundezas do ser e que, igual à sugestão hipnótica, são capazes de vencer as resistências e repugnâncias do sujeito que desconhece o repouso quando não age de acordo com esse impulso. Podemos também falar de influência telepática, mas agora o termo não será distinto de invasão psíquica. Esse forte influxo nervomotor, ainda que aparente ser estranho, corresponde, na realidade, quase exatamente, à idéia que possuímos de invasão, não só do espaço em que está o sujeito, mas de seu corpo e de suas capacidades. Essa invasão, ao se prolongar indefinidamente, pode se converter em possessão e unir e intensificar, ao mesmo tempo, as hipóteses anteriores: a da ação telepática sobre o espírito do sujeito e a presença fantasmogênica ao seu redor. O que, de início, parece uma simples influência, tende a se converter num comportamento persistente; o que, de início, parecia uma simples incursão no ambiente do sujeito, se converte numa incursão no próprio organismo. Esse ligeiro progresso do estado vago a uma relativa clareza da concepção apresenta-nos uma série de problemas novos. Mas não devíamos nos precipitar; alguns desses fenômenos precedentes podem servir para que compreendamos os fenômenos mais desenvolvidos.

Nos casos de desdobramento da personalidade vimos sobrevir os mesmos fenômenos, quando estava em jogo só a personalidade do sujeito. Vimos uma parte do eu subliminar dominar parcial ou temporariamente o organismo inteiro, quer dirigindo os movimentos de um braço, quer todo o sistema nervoso, e isso com graus variáveis de deslocamento da personalidade primitiva.

O mesmo sucede com a sugestão pós-hipnótica. Percebemos que o eu subliminar recebia a ordem de escrever, por exemplo: “Parou a chuva” e escrever imediatamente estas palavras sem considerar a vontade consciente do sujeito e desta vez também com graus variáveis de deslocamento do eu de vigília. Destes ao caso da Sra. Newman, não há mais do que um passo. O eu subliminar desta última, ao pôr em movimento as capacidades supranormais e realizar um esforço nesse sentido, adquire o conhecimento de certos fatos procedentes do espírito da Sra. Newman e serve-se da mão dela para os escrever automaticamente. O maior problema que surge, sobre isto, é o de saber como a Sra. Newman adquiriu o conhecimento dos fatos, ou melhor, de que forma conseguiu escrevê-los.

Mas, à medida que progredimos, torna-se mais difícil limitar o problema das atividades do eu subliminar do autômato. Nem sempre podemos afirmar que uma parte da personalidade do sujeito chegue ao conhecimento supranormal, através de um esforço pessoal. As provas a favor da influência ou da ação telepática externa parecem acumular-se cada vez mais. No caso de Kirby, pode-se supor que o espírito da irmã exerceu uma ação telepática de fora, que deu lugar a movimentos automáticos totalmente idênticos aos nascidos de dentro. Então, qual é o mecanismo? Devemos supor que o eu subliminar do autômato executa os movimentos obedecendo a uma ordem ou influência externa? Ou, então, o agente externo que envia a mensagem telepática executa ele mesmo os movimentos telecinésicos que acompanham a mensagem (ponto capital, a ser discutido)? Devemos supor que estes são também executados pelo eu subliminar do sujeito, sob a direção de um espírito externo, encarnado ou desencarnado? Ou, então, são efetuados diretamente por esse espírito externo? É impossível dizer qual dessas duas hipóteses é a mais correta.

Sob certo ponto de vista, parece que o mais simples é atermo-nos o quanto possível a esta vera causa que é o eu subliminar do autômato e compilar as observações que atestam a existência nele de alguma faculdade capaz de produzir efeitos físicos que se estendem além do organismo. Sobre isto possuímos observações fragmentárias e inclusive a Sra. Newman acreditava que sua caneta, ao escrever as mensagens que recebia telepaticamente, de seu marido, estava sendo movimentada por algo mais do que a atividade muscular dos dedos que a sustinham. Por outro lado, parece improvável atribuir à ação de um espírito externo os impulsos e as impressões que, na realidade, pertencem ao próprio autômato e, ao mesmo tempo, negar-se a atribuir à mesma ação externa os fenômenos que se dão fora do organismo do autômato e que se lhe apresentam como dados objetivos, tão exteriores ao seu ser como a queda de uma maçã.

Ao refletirmos sobre estes pontos e admitir esse gênero de ação recíproca entre o espírito do autômato e um espírito exterior, encarnado ou desencarnado, obtemos uma variedade realmente desconcertante de combinações possíveis entre esses fatores, variedade de influências por parte do espírito ativo, variedade de efeitos que se manifestam no espírito e no organismo do sujeito passivo.

O que produz essas influências e o que é deslocado ou substituído por elas? De que modo colaboram dois espíritos na possessão e na direção de um organismo?

As palavras possessão e direção nos recordam o extenso número de tradições e crenças relacionadas aos efeitos que os espíritos das pessoas falecidas podem originar, graças à possessão e à direção que exercem sobre os vivos. A essas antigas crendices nos esforçaremos, no capítulo seguinte, para dar uma forma tão exata e estável quanto seja possível. Advirta-se que nos propomos a atingir esse intento com uma disposição espiritual inteiramente nova. O estudo da possessão não é para nós, como para o sábio civilizado comum, uma simples investigação arqueológica ou antropológica de formas de superstição, totalmente estranhas ao pensamento sadio e sistemático. Pelo contrário, esse estudo se depreende diretamente de nossa argumentação anterior. Esta nos é absolutamente necessária, tanto para a compreensão dos fatos já conhecidos, como para a descoberta de fatos ainda desconhecidos.

Sentimo-nos obrigados a examinar certos fenômenos definidos do mundo espiritual, com o fito de explicar certos fenômenos do mundo material.

IX
Possessão, arrebatamento, êxtase


Aguardando novos dados que veremos surgir durante o desenrolar deste capítulo, que nos permitam dar uma definição mais ampla da possessão, vamos defini-la dizendo que é somente uma forma mais desenvolta do automatismo motor. A diferença entre esses dois estados consiste em que na possessão, a personalidade do autômato desaparece completamente durante algum tempo, durante o qual se produz uma substituição, mais ou menos completa, da personalidade; a palavra e a escrita são manifestações de um espírito alheio ao organismo do qual se apossou. As mudanças produzidas na opinião, no que se refere a esta questão, desde 1888, ano em que concebemos, pela vez primeira, a idéia deste livro, são deveras significativas. Naquela época existia um certo número de provas a favor das idéias que defendemos, mas, por razões diversas, essas provas podiam ser interpretadas de maneiras diferentes. Inclusive no que concerne aos fenômenos apresentados por Moses, poder-se-ia dizer que a “direção” sob a qual falava e escrevia, no estado de possessão, reduzia-se a mera auto-sugestão ou a impulsos oriundos de sua personalidade mais profunda. Não tive ocasião, que a gentileza de seus executores testamentários me propiciaram depois, de estudar toda a série desses fenômenos de acordo com as anotações originais de Moses, e de adquirir a convicção, que agora tenho, de que um fator espiritual desempenhava um papel importante nessa extensa série de comunicações.93 Em resumo, não suspeitava então que a teoria da possessão pudesse ser apresentada como algo mais do que uma especulação verossímil, como uma nova prova a favor da sobrevivência do homem após a morte corporal.

O estado de coisas, como sabe qualquer leitor dos relatórios da Sociedade de Investigações Psíquicas, sofreu uma mudança total durante os últimos dez anos. Os fenômenos de êxtase da senhora Piper, cuidadosamente observados, durante muito tempo, pelo Dr. Hodgson e outros, formavam, a meu ver, o conjunto de provas psíquicas mais notáveis de todas as que se produziram em qualquer campo. E, mais recentemente, outras séries de fenômenos de êxtase, obtidas com outros “médiuns”, ainda que incompletas, acrescentaram provas materiais às que se concluíram das experiências da Sra. Piper. Daí resulta que os fenômenos de possessão, atualmente, são os melhores testemunhos e, intrinsecamente, os mais avançados de todos os que nos ocupamos.

Mas o mero acréscimo de provas diretas, qualquer que seja a sua importância, está longe de ser a única causa das mudanças por nós referidas. Não só a evidência direta aumentou, senão que a evidência indireta, por seu lado, cresceu. A noção da personalidade, a da conduta ou orientação dada ao organismo pelos espíritos se modificaram, pouco a pouco, a tal ponto que a possessão, que até há pouco passava por mera sobrevivência do pensamento primitivo, pode ser agora considerada como o ápice, o desenvolvimento ulterior da maioria das experiências, observações e reflexões que nos mostraram os capítulos anteriores.

Vejamos o que significa, na realidade, a noção de possessão. É preferível considerar, desde o início, este significado em toda a sua extensão, tendo em conta que as provas obtidas, em diferentes épocas, nada mais fazem do que confirmar, em última análise, o antigo significado do termo. Os casos modernos mais espantosos, entre os quais os de Stainton Moses e da Sra. Piper, que podem ser considerados como os mais característicos, apresentam analogias entre si bastante íntimas e semelhanças que uma análise atenta não tarda a descobrir.

Pretende-se, pois, em primeiro lugar, que o autômato caia no êxtase, durante o qual “seu espírito abandona o corpo”, ao menos em parte; que entre, em todo caso, num estado no qual o mundo espiritual se abre, mais ou menos, à sua percepção e no qual, igualmente – e aqui está um elemento novo –, o espírito ao abandonar o organismo favorece a invasão deste por outro espírito que dele se serve, mais ou menos da mesma forma que o próprio espírito do sujeito.94

O cérebro que se encontra parcial e temporalmente desprovido de direção, facilita que, às vezes, um espírito desencarnado se apodere dele e assuma, num grau que varia segundo os casos, a sua orientação. Em casos como o da Sra. Piper, dois ou mais espíritos podem dirigir, simultaneamente, diferentes porções do mesmo organismo.

Os espíritos dirigentes provam sua identidade reproduzindo, através da palavra ou da escrita, fatos pertencentes às suas recordações, não às do autômato. Podem também dar provas de outras percepções supranormais.

As manifestações desses espíritos podem diferir consideravelmente das da personalidade normal do autômato. Mas até um certo ponto se trata aqui de um processo de seleção, antes que de adição; o espírito escolhe as partes do mecanismo cerebral de que deseja servir-se, mas não pode pedir a este mecanismo nada além daquilo de que seja capaz de proporcionar-lhe, em virtude de sua organização funcional. O espírito pode, é certo, reproduzir fatos e nomes desconhecidos para o autômato; mas esses fatos e nomes devem ser tais que o autômato seja capaz de repeti-los, facilmente, como se deles tivesse conhecimento: não pode tratar, por exemplo, de fórmulas matemáticas ou de frases chinesas, se o autômato desconhece matemática e chinês.

Ao fim de certo tempo, o espírito do autômato readquire seu lugar e sua atividade. Ao despertar, o autômato pode ou não lembrar o que lhe foi revelado no mundo espiritual, durante o êxtase. Em certos casos (Swedenborg) existe a lembrança do mundo espiritual, sem que tenha havido apossamento do organismo por um espírito exterior. Em outros casos (Cahagnet) o autômato expressa durante o êxtase o que experimenta, mas não o recorda uma vez desperto. Em outros casos ainda (Sra. Piper) o que se manifesta com maior assiduidade não é o espírito do autômato, e quando isso acontece, estas manifestações têm duração efêmera, pois, geralmente, o que fala e escreve é um espírito dirigente, sem que o autômato guarde a menor lembrança do que lhe ocorreu durante o êxtase.

Tal doutrina parece nos levar diretamente às crenças da idade da pedra. Leva-nos às práticas primitivas dos chamanes e feiticeiros, a uma doutrina de relações espirituais que foi ecumênica em outras épocas, mas que em nossos dias refugiou-se nos desertos da África e nos pântanos da Sibéria, nas planícies nevadas dos pele-vermelhas e dos esquimós. Se, como às vezes acontece, quiséssemos julgar o valor das idéias de acordo com suas origens, não há conceito cujas origens tenham sido mais humildes e que pareça mais indigno do homem civilizado.

Felizmente, nossas discussões anteriores nos proporcionaram um critério mais agudo. Ao invés de perguntar-nos em que época nasceu esta ou aquela doutrina, com a opinião preconcebida de que a doutrina é melhor quanto mais recente seja sua origem, podemos perguntar-nos, agora, até que ponto está concorde ou em desacordo com essa enorme massa de provas recentes que se relacionam, mais ou menos, com todas as crenças que os homens ocidentais professaram a respeito do mundo invisível. Submetida a essa prova, a teoria da possessão dá um resultado notável. Não está em desacordo com qualquer dos fatos provados. Não conhecemos absolutamente nada que prove a sua impossibilidade.

Mas isso não é tudo. A teoria da possessão nos proporciona, na realidade, um poderoso método de coordenação e de explicação de alguns grupos de fenômenos anteriores, se concordamos em explicá-los de um modo que, a princípio, pareceu-nos empregar afirmações exageradas e que recorria com demasia ao maravilhoso. Mas, no que diz respeito a esta última dificuldade, sabemos também há algum tempo que não existem fenômenos psíquicos cuja explicação seja realmente simples e que a melhor maneira de chegar a uma explicação desse gênero consiste em extrair do conjunto um grupo que só admita uma explicação inequívoca para servir-nos dela como ponto de partida na apreciação dos problemas mais complexos.

Mas acredito que o grupo de fenômenos Moses-Piper só pode ser explicado de um modo mais ou menos verdadeiro pela teoria da possessão. E parece-me importante considerar por que caminhos os fenômenos anteriores nos conduziram à possessão e de que forma os fatos da possessão, por sua vez, são suscetíveis de transformar nossos critérios concernentes aos fenômenos anteriores.

Ao analisar nossas observações de possessão descobrimos nelas dois elementos primordiais: a operação central, isto é, a direção exercida por um espírito sobre o organismo de um sujeito sensível e a condição indispensável que consiste no abandono parcial e temporal do organismo pelo próprio espírito do sujeito.

Examinemos, primeiramente, até que ponto os dados já adquiridos tornam concebível essa separação entre o espírito e o organismo humano.

E, a seguir, a desagregação da personalidade e as substituições de certas fases suas por outras de que tomamos conhecimento no capítulo II, possuem enorme importância, também, do ponto de vista da possessão.

Vimos personalidades secundárias que se iniciam por manifestações sensoriais ou motrizes, ligeiras e isoladas, adquirir aos poucos um predomínio completo assegurando-se a direção total de todas as manifestações supraliminares.

A simples investigação e a descrição desses fenômenos foi considerada, até aqui, como possuidora de um certo sabor de audácia. A idéia de buscar o mecanismo possível que preside a essas transições apenas nascera.

Mas é evidente que deve existir um complexo conjunto de leis que condicionam esses usos alternados dos centros cerebrais e que não constituem provavelmente mais do que o desenvolvimento dessas leis físicas desconhecidas que presidem à memória comum.

Um caso de ecmnesia comum pode apresentar problemas tão insolúveis como os da possessão espiritual. Pode existir na ecmnesia períodos de vida totalmente desaparecidos da memória e outros que só desapareceram temporariamente.

No gênio podemos observar, em certos centros cerebrais importantes, uma substituição temporária de uma direção por outra. devemos considerar aqui o eu subliminar como um centro particularmente diverso do eu supraliminar e o fato de monopolizar esses centros cerebrais destinados a um trabalho supraliminar já é uma espécie de possessão. O gênio mais completo seria dessa forma a expressão da autopossessão mais completa, da ocupação e direção do organismo inteiro por elementos mais profundos do eu que atuam em virtude de um completo conhecimento e por caminhos mais seguros.

O sono, que é de todos os estados normais o que mais se aproxima à possessão, fez com que surgisse, há muito tempo, a questão cuja solução implica o reconhecimento da possibilidade de êxtase: que acontece à alma durante o sono? Os fatos citados demonstraram que freqüentemente durante o sono comum aparente, a alma abandona o corpo e traz uma recordação mais ou menos confusa do que viu durante sua excursão clarividente. Isso pode também ocorrer, mas com a rapidez de um raio, durante a vigília. Mas o sono comum parece favorecer esse fenômeno de forma particular, especialmente os estados de sono espontâneo ou provocado muito profundo. No estado comatoso, que precede a morte ou nessa “suspensão da vitalidade” que às vezes tomamos por morte, a capacidade em questão parece suscetível de alcançar seu mais elevado grau.95

Falo dos estados de sono “espontâneo ou provocado” muito profundo, e sobre isto o leitor lembrar-se-á, naturalmente, muito sobre o que se falou do sonambulismo comum e do sono hipnótico. Este último cria, com efeito, situações que, externamente, resultam difíceis de distinguir do que chamaria de verdadeira possessão. Uma quase-personalidade, arbitrariamente criada, pode ocupar o organismo, respondendo de certa forma característica à palavra ou aos sinais, até o ponto de fazer crer, às vezes, que nos encontramos em presença de uma personalidade nova. Por outro lado, o espírito do sujeito pretende ter estado ausente, como se imagina ausente no sono comum, mas com maior persistência e lucidez.

Os sujeitos afirmam freqüentemente ter visto novamente no sonho cenas terrestres e ter comprovado as mudanças produzidas, efetivamente, desde que o sujeito visitou pela última vez a mesma cena, durante a vigília. Mas às vezes une-se a isso um elemento aparentemente simbólico, a cena terrestre encerrando um elemento de ação humana apresentado em forma sintética, como se algum espírito se propusesse a tirar da história complexa um sentido especial. Com freqüência, esse elemento torna-se completamente dominante; o sujeito vê figuras fantasmagóricas ou pode ver uma representação simbólica prolongada de uma entrada no mundo espiritual.

Essas incursões psíquicas proporcionam, em último lugar, as mais fortes presunções a favor da existência de uma nova capacidade humana, a do êxtase, da visão à distância não confinada a esta terra nem a este mundo material, mas que introduz o vidente num mundo espiritual e em meios superiores aos conhecidos neste planeta. Mas a discussão relativa ao transporte será mais adequada quando citarmos os fatos e os dados a favor da possessão.

Ao voltar à análise da idéia de possessão, encontramos seu caráter específico que é a ocupação por um elemento espiritual do organismo adormecido e parcialmente abandonado. Aqui nossos estudos anteriores nos serão de grande utilidade. Ao invés de abordar imediatamente a questão de saber o que são os espíritos, o que podem ou não, a questão da possibilidade antecedente de reentrarem na matéria, etc., ser-nos-á mais conveniente começar por desenvolver a idéia da telepatia até suas últimas conseqüências, para representar-nos a telepatia no seu envolver mais intenso e centralizado que nos seja possível e encontraremos que essas duas variedades de telepatia que assim se nos apresentam conduzem uma delas à obsessão e a outra ao êxtase.

Qual é, no momento presente, nosso exato conceito de telepatia? A noção central, aquela de comunicação independente dos órgãos dos sentidos, encontra nesta palavra uma expressão deveras adequada. Todavia nada diz além de que a nossa real compreensão dos processos telepáticos seja mera definição verbal. Nosso conceito de telepatia, por nada dizer da telestesia, tinha necessidade de ser ampliado em cada nova etapa de nossa investigação. Esta última nos revelou inicialmente certas transmissões de pensamentos e de imagens que se podem explicar através da transmissão de vibrações etéreas de um cérebro para outro. Mas se é impossível dizer, num ponto qualquer de nossa argumentação, que tais fenômenos estão determinados pelas vibrações do éter, e se não sabemos até qual distância do mundo material chega a atividade possível dessas vibrações, não é menos correto que nossos fenômenos telepáticos adquiriram em seguida uma forma que a explicação por analogia, com auxílio de vibrações do éter, deixava em grande parte inexplicável.96

É que a simples transmissão de idéias e imagens isoladas termina, mediante uma progressão contínua, em impressões e impulsos muito mais persistentes e complexos. Finalmente, encontramo-nos na presença de uma influência que já não é o simples efeito de vibrações etéreas, senão que sugere a idéia de uma presença inteligente e de uma analogia arrancada às comunicações humanas entre pessoas próximas fisicamente. As visões e audições desse gênero, interiores ou exteriorizadas, inspiram, com freqüência, a idéia de um contato espiritual mais íntimo que o permitido pelas comunicações terrestres. Não se pode atribuir a causa disto às ondulações do éter, sem explicar pelo mesmo mecanismo as emoções que experimentamos uns diante dos outros ou inclusive o poder de controle que possuímos sobre nosso próprio organismo.

Isso não é tudo. Existe, como tentei demonstrar, uma progressão de avanço que vai das intercomunicações telepáticas de pessoas vivas às comunicações entre pessoas vivas e espíritos desencarnados. E esta nova tese, de importância vital sob todos os aspectos, resolvendo praticamente um dos problemas de que me ocupo, abre também uma possibilidade de determinação de outro problema que ainda não fora atingido. Inicialmente, podemos ter agora a certeza de que as comunicações telepáticas não são necessariamente propagadas pelas vibrações procedentes de um cérebro material comum, porque os espíritos desencarnados não possuem cérebro capaz de gerar vibrações desse gênero; isto no tocante ao modo de atividade do agente. No que concerne ao do sujeito temos, para maior clareza, que deixar de lado todos os casos em que a impressão telepática tomou uma forma exteriorizada e levar somente em conta as impressões intelectuais e os automatismos motores.

Esses automatismos e essas impressões podem passar por todos os graus de centralidade aparente. Quando um homem desperto e em plena posse de si sente um impulso para que a sua mão escreva palavras sobre o papel, sem ter consciência de um esforço motor pessoal, o impulso não lhe parece de origem central, embora uma porção de seu cérebro possa contribuir para esse esforço. Outrossim, uma invasão menos pronunciada é freqüentemente suscetível de revestir um caráter central mais marcante, como por exemplo no pressentimento de um mal que se exprime através de um abatimento íntimo. O automatismo motor pode finalmente atingir um ponto em que se converte em possessão, isto é, em que a consciência pessoal do homem desapareceu completamente, e cada parte de seu corpo é utilizada pelo espírito ou os espíritos invasores. Veremos a seguir as condições que esse estado cria no espírito do sujeito. Mas no que concerne ao organismo, a invasão parece completa e indica uma potência com certeza telepática no verdadeiro sentido da palavra, mas não no sentido que demos até agora. Começamos representando a telepatia como a comunicação entre duas pessoas, enquanto no caso presente trata-se antes de uma comunicação entre o espírito e o corpo, cujo espírito é externo e alheio a respeito do corpo.

Não há comunicação aparente entre o espírito desencarnado e o espírito do autômato; antes há uma espécie de contato entre o primeiro e o cérebro do autômato, o espírito desencarnado perseguindo os seus próprios fins e servindo-se de certa maneira das capacidades acumuladas pelo cérebro do autômato, enquanto, por outro lado, é molestado pelas suas incapacidades.

Mas, repito, o elemento mais característico da telepatia parece ter desaparecido, pois não há comunhão perceptível entre o espírito do sujeito e outro espírito. O sujeito está possuído, mas inconsciente, e não recupera jamais a memória daquilo que disse durante a crise.

Mas será que explicamos destarte todos os fenômenos relacionados com a telepatia? Será que eles não encerram um elemento mais real, mais centralmente telepático?

Voltando às primeiras etapas das experiências telepáticas, vemos que o processo experimental encerra dois diferentes fatores. O espírito do sujeito deve, de uma maneira ou de outra, receber a impressão telepática, e não podemos dar a essa percepção nenhum corolário físico definido; e os centros motores e sensoriais do sujeito devem receber uma excitação que pode ser provocada, como já sabemos, pelo próprio espírito do sujeito e pelos processos comuns, ou pelo espírito do agente, e isso de forma mais ou menos direta, que eu chamaria telérgica, dando assim um sentido mais exato à palavra que eu sugerira há longo tempo como correlato da palavra telepático. Isto significa que pode haver nesses casos, simples na aparência, inicialmente uma transmissão do agente para o sujeito no mundo espiritual, e depois uma ação sobre o cérebro físico do sujeito, do mesmo gênero da possessão espiritual. Esta ação sobre o cérebro físico pode ser devida tanto ao espírito do próprio sujeito, como diretamente à ação do espírito do agente. Pois devo repetir que os fenômenos de possessão parecem indicar que o espírito alheio age sobre o organismo do sujeito exatamente da mesma maneira que o próprio espírito do sujeito. Podemos, pois, considerar o corpo como um instrumento que o espírito toca, antiga metáfora que é na atualidade a mais próxima da verdade.

O mesmo caráter duplo, os mesmos vestígios dos dois elementos misturados, em proporções diversas, se manifestam em aparições telepáticas ou verídicas. Do ponto de vista espiritual, pode existir o que chamamos as visões clarividentes, as imagens manifestamente simbólicas e não localizadas pelo observador, no espaço comum das três dimensões. Parecem análogas às visões do mundo espiritual de que desfruta o sujeito durante o êxtase. Vem, a seguir, a categoria mais numerosa de aparições verídicas em que a imagem parece ter sido projetada fora do espírito do sujeito por algum estímulo aplicado ao centro cerebral apropriado. Esses casos de “automatismo sensorial” se parecem aos casos experimentais nos quais o sujeito adivinha, ou melhor, enxerga à distância, os naipes do baralho, etc. Após estes casos surgem, por ordem física, ou melhor, ultrafísica, essas aparições coletivas, que, a meu ver, implicam uma modificação de natureza desconhecida de uma certa porção do espaço ocupada por nosso organismo, opondo-se às modificações que ocorrem nos centros de um cérebro determinado. Realiza-se aqui a transição gradual do subjetivo ao objetivo e a porção de espaço se modifica de forma a afetar um número cada vez maior de sujeitos.

Passando dessas aparições de vivos às de mortos, encontramos, pode-se dizer, as mesmas categorias. Encontramos as visões simbólicas de pessoas falecidas e as circunstâncias nas quais parecem achar-se. Deparamo-nos com aparições exteriorizadas dos fantasmas de pessoas falecidas, o que indica que um ponto determinado do cérebro do sujeito foi estimulado por seu próprio espírito ou por outro espírito diferente.

E encontramos, finalmente, como já dissemos, que em certos casos de possessões esses dois gêneros de influências foram levados, simultaneamente, ao extremo. O autômato ainda capaz de percepção, como vimos durante as primeiras fases, converte-se num autômato puro e simples, que já nada percebe, ao menos no que se refere ao seu corpo, porque seu cérebro, e não um ponto único, parece dirigido e estimulado por um espírito estranho, não se dando conta do que seu corpo escreve ou pronuncia. E durante esse tempo seu espírito, parcialmente liberto do corpo, pode ser acessível às percepções e gozar desta outra forma espiritual de comunicação, mais completamente que em qualquer dos gêneros de visão até aqui descritos.

Existe outro estado que demonstra certa analogia com o de possessão. Falamos, em particular, de personalidades secundárias, de dissociações e alternativas que afetam o próprio espírito do sujeito e apresentam relações diversas com o organismo. Mas o que é que nos permite concluir que, em cada caso, o organismo do sujeito está dirigido por sua própria personalidade modificada e não por uma personalidade estranha, exterior? Aqui é fácil a confusão, e pode-se dizer, de maneira geral, que todas as vezes que o estado de êxtase não vem acompanhado da aquisição de conhecimentos novos, podemos excluir a possibilidade de uma possessão por espírito estranho. Esta regra tem uma conseqüência muito importante e que modifica completamente a antiga idéia da possessão: não existe, a menos que a conheçamos, qualquer prova a favor da possessão angelical, diabólica ou hostil.

O diabo não é uma criatura cuja existência independente esteja reconhecida pela ciência; e todos os relatos concernentes ao comportamento de diabos invasores parecem ditados pela auto-sugestão. Devemos insistir sobre a regra segundo a qual só o conhecimento supranormal permite confirmar a intervenção de uma influência exterior. Pode-se-nos objetar que neste caso o caráter manifestado pelo diabo era hostil à pessoa possuída e perguntarmo-nos se é possível que o satanizador fosse, na realidade, uma fração do satanizado. Ao que responderemos que esta última suposição, longe de ser absurda, está, ao contrário, sendo confirmada pelos fenômenos conhecidíssimos da loucura e da histeria.

Na Idade Média, em especial, nas auto-sugestões fortes e terríveis, onde o diabo era o personagem principal, essas quase-obsessões atingiam a uma intensidade e uma violência que a tranqüila e céptica atmosfera dos hospitais modernos dissipa e debilita. Os diabos de nomes terríveis que possuíam a sóror Angelica de Loudun figurariam, em nossos dias, na Salpêtrière, como simples manifestações de “palhaçadas” ou “atos passionais”.

Atualmente, como no caso da Leonie, de Pierre Janet, essas desintegrações da personalidade parecem destruir, às vezes, até o menor vínculo de simpatia entre o indivíduo normal e uma de suas frações, donde parece resultar que nossa natureza moral está submetida às desintegrações no mesmo grau que nossa natureza intelectual, e quando uma corrente secundária de nossa personalidade toma nova direção, pode ocorrer que os vínculos, tanto os morais como os intelectuais, que a unem à personalidade principal se encontrem quebrados.

Sobre as possessões diabólicas observadas entre os chineses, conta-nos Nevius, sem citar argumentos convincentes, que os diabos possessivos manifestam, às vezes, um conhecimento supranormal. Isto seria uma prova de sua existência independente, mais importante que o argumento tomado de seu caráter hostil, mas ainda insuficiente para confirmar esta existência. O conhecimento em questão não parece totalmente apropriado ao espírito que se lhe atribui. Com freqüência, parece produto de um exagero da memória, acompanhado de certa aptidão às percepções telepáticas ou telestésicas. O exagero da memória é, particularmente, característica de certos estados histéricos e, inclusive, indícios possíveis de telepatia foram observados nos estados em que nada permitia o reconhecimento da intervenção de um espírito invasor.

A direção temporal do organismo por um fragmento relativamente importante, separado do resto da personalidade, que degenera, em virtude de uma auto-sugestão, numa hostilidade para com a personalidade principal, resulta, talvez, do fato desta última alcançar e manipular certas impressões de reserva ou inclusive certas influências supranormais. Seria essa a fórmula à qual se reduziriam, provavelmente, a maioria dos casos das chamadas obsessões diabólicas.

A maioria, mas talvez, não todas. Seria de fato assombroso que os fenômenos do gênero apresentado pela Sra. Piper tivessem surgido no mundo sem ter tido precedentes. Parece mais seguro reconhecer que os fenômenos do mesmo gênero produziram-se sempre esporadicamente, desde os mais remotos tempos, sem que os homens tenham tido a preocupação de analisá-los.

Seja o que for, pode-se afirmar que os únicos invasores do organismo humano que até aqui fizeram valer seus títulos foram em essência humanos e de caráter amistoso. Os “diabos de Loudun” e outros não conseguiram, repito-o, justificar sua existência independente. As influências superiores que inspiraram aos “mártires de Cevennes” se confundem, à distância, com as inspirações do gênio.

Todas essas considerações serão, espero-o, de natureza a fazer desaparecer essas associações toscas que se acumularam ao redor da palavra possessão. No que descrevemos, a seguir, podem existir, com freqüência, motivos de perplexidade, não de terror. E, na continuidade, ver-se-á até que ponto o sentimento final está longe do terror.

Reconhecendo, pois, como acredito estar agora autorizado, que nos achamos somente na presença de espíritos que foram, em outra época, homens iguais a nós e que estiveram sempre inspirados pelos mesmos motivos que nós, podemos examinar, sucintamente, a questão de saber quais os espíritos mais suscetíveis de chegar a nós e que dificuldades se antepõem à sua ação. Indubitavelmente, somente a experiência nos pode dar as respostas a estas perguntas; mas nossas antecipações podem ser modificadas utilmente, se, ao refletir sobre as mudanças da personalidade que conhecemos, tirarmos delas indicações quanto aos limites possíveis dessas substituições mais profundas.

Mas que sabemos sobre a adição de uma nova capacidade nos estados alternativos? Em que medida as modificações desse gênero parecem engendrar capacidades que não nos sejam familiares?

Reportando-nos aos casos já mencionados, veremos, primeiramente, que uma capacidade existente é suscetível de ser aumentada e exaltada. Pode haver exagero, tanto do poder de percepção real, como da lembrança e da reprodução do que foi percebido uma vez. Nos estados secundários existe, habitualmente, um poder de controle maior no que concerne aos movimentos musculares, que se manifesta, por exemplo, na maior segurança da mão, no caso do jogador de bilhar. Mas, aparte os fenômenos de telepatia, não existe prova alguma a favor da aquisição real de um conjunto de conhecimentos novos, como por exemplo um idioma desconhecido ou um nível desconhecido de conhecimentos matemáticos. Portanto, razão alguma temos de esperar que um espírito exterior que assumiu a direção do organismo seja capaz de facilmente modificá-lo, a ponto de fazer com que o sujeito fale uma língua que jamais aprendera. O funcionamento do cérebro se parece com o da máquina de escrever e de calcular. Exemplificando: as palavras alemãs não são mero conjuntos de letras, senão fórmulas específicas; só com muita dificuldade podemos reproduzi-las numa máquina que não tenha sido projetada para esse fim.

Consideremos as analogias relativas à memória. Nos casos de alternativas da personalidade a memória sucumbe e muda de uma forma que parece caprichosa. As lacunas que surgem, como já disse, assemelham-se às amnésias ou a esses espaços negros impossíveis de rememorar que, às vezes, seguem aos traumatismos da cabeça ou aos acessos de febre, quando todas as recordações relacionadas a uma pessoa determinada ou a um período da vida desapareceram, enquanto as demais permaneceram intactas. Analisemos agora a recordação da vigília tal como a possuímos no sonho. É, a princípio, absolutamente caprichosa; posso não lembrar meu nome, mas recordar perfeitamente a forma e disposição das cadeiras da sala de jantar; ou então, mesmo recordando-me das cadeiras, posso localizá-las em outra casa que não a minha. É impossível prever o grau de confusão que se pode produzir desse modo.

A conversa dos sonâmbulos nos proporciona outra analogia. Ao falar a um sonâmbulo, quer se trate de sonambulismo espontâneo ou provocado, não tardamos em constatar que é difícil manter com ele uma palestra contínua sobre os temas que nos interessam. E, a seguir, é incapaz de manter qualquer conversa contínua, porque não demora em cair num estado no qual torna-se completamente incapaz de expressar-se. Quando fala, só o faz sobre os temas que o atraem; segue o curso de suas próprias idéias, interrompido ao invés de influenciado pelo que dizemos. Existe entre os dois estados, o de vigília e o de sono, uma diferença inamovível.

Temos, dessa forma, três gêneros de analogias que nos permitem traçar os limites de nossas antecipações. Da analogia existente entre as possessões e as personalidades secundárias, podemos concluir que o espírito que possui não deve ser capaz de sugerir ao cérebro do sujeito idéias e palavras de um gênero que não lhe seja familiar. Da analogia entre a obsessão e o sonho podemos concluir que a memória do espírito que possui pode estar submetida a omissões e a confusões estranhas. Da analogia, finalmente, entre a obsessão e o sonambulismo, resulta que o colóquio entre o observador humano e o espírito possuidor não é nem completo nem livre, senão atrapalhado pela diferença existente entre os estados de um e de outro e sintetizado pela dificuldade de manter um prolongado contato psíquico.

As observações anteriores, assim espero, prepararão o leitor para considerar os problemas concernentes à possessão com a mesma amplitude de espírito que necessitaria o estudo dos demais problemas abordados nesta obra. Mostrei, com efeito, que este novo problema pode ser considerado como uma conseqüência, um efeito natural do antigo. Mostrei, nos movimentos e expressões do organismo obsedado, manifestações motoras automáticas levadas ao extremo, e na invasão do espírito obsedante a vitória total da invasão telepática, e desde o início preveni contra determinadas confusões que no passado afastaram os homens do estudo sério das mensagens recebidas por esta via.

Antes de nos aprofundarmos mais, chamamos a atenção sobre outro aspecto da obsessão, que diz respeito a um grupo de fenômenos que de maneiras diversas deram origem a uma confusão e atrasaram nosso estudo, mas que, examinados no devido lugar e devidamente entendidos, parecem formar um elemento imprescindível de qualquer teoria que tenha por fim descobrir a influência exercida pelos fatores invisíveis sobre o mundo que conhecemos.

Considerei, até aqui, as influências telepáticas e supranormais só sob o ponto de vista psicológico, como se o campo de ação supranormal estivesse situado no mundo metaetéreo. Mas, apesar da profunda verdade desse ponto de vista, não representa toda a verdade “para os seres como nós e num mundo como este”. Para nós todo fato psicológico tem seu lado físico e os acontecimentos metaetéreos, para que nos sejam perceptíveis, devem, de uma forma ou de outra, afetar o mundo e a matéria.

Nos automatismos sensoriais e motores, vemos efeitos que começam a manifestar-se de um modo supranormal e que chegam ao mundo da matéria.

Em primeiro lugar, na vida comum, nossos espíritos (uma vez que se admita sua existência) afetam nossos corpos e nos proporcionam o exemplo permanente do espírito que age sobre a matéria. Logo, quando um homem recebe uma influência telepática que tem sua origem em outro espírito encarnado e que determina a visão de espectros, podemos supor que o cérebro deste homem foi afetado pelo seu próprio espírito, mais do que pelo espírito do seu amigo distante. Mas nem sempre ocorre, inclusive nos casos de automatismo sensorial, que o espírito do sujeito seja um mero executor das sugestões que procedem de um espírito distante; e nos automatismos motores que terminam na possessão existem indícios cuja natureza faz reconhecer que a influência do espírito do agente é telérgica mais do que telepática e que certos espíritos exteriores são suscetíveis de influir sobre o cérebro e o organismo humano, isto é, de produzir movimentos da matéria, inclusive quando se trata de matéria organizada e de movimentos moleculares.

Uma vez comprovado este fato, que nem sempre foi captado pelos homens dedicados a estabelecer uma diferença fundamental entre a influência espiritual que afeta nossos espíritos e a que afeta o mundo material, nos vemos impelidos a perguntar se a matéria inorgânica revela, tanto como a matéria orgânica, a ação, a influência de espíritos exteriores. A resposta parece, à primeira vista, negativa. Encontramo-nos constantemente diante da matéria inorgânica e não nos é necessária a hipótese da influência espiritual para explicar nossas experiências. Todavia, essa é uma proposição sumária, insuficiente para abarcar os raros e fugitivos fatos, como alguns dos expostos neste livro. Iniciemos pelo extremo oposto, não pela vasta experiência da vida, senão pelos casos excepcionais e delicados de possessão, de que ainda falaremos.

Suponhamos que um espírito desencarnado, na posse temporal de um organismo vivo, provoque, de seu lado, manifestações motrizes automáticas. Podemos dizer, a priori, onde irão se deter os movimentos automáticos do organismo, da mesma forma que podemos prever os limites de seus movimentos voluntários? O espírito exterior não poderia fazer com que o organismo manifestasse mais potência motriz do que a que pode arrancar de si um homem acordado? Não nos surpreenderia ver que os movimentos demonstrassem uma exagerada concentração durante o êxtase e ver o dinamômetro apertado com mais força pelo espírito que agia através do homem, mais do que pelo espírito deste último? Podemos imaginar outro meio que permita ao espírito que me possui empregar minha força vital de maneira mais hábil do que eu posso fazer?

Não sei como minha vontade põe em movimento meu braço; mas sei, por experiência, que minha vontade põe em movimento somente meu braço e os objetos que posso tocar, todos os objetos realmente em contato com o “esqueleto protoplasmático” que representa a vida de meu organismo. Todavia posso, às vezes, provocar movimentos nos objetos com os quais não estou em contato real, como ao fundi-los por meio do calor, ou aquecê-los (no ar seco de Colorado) com auxílio da eletricidade que meus dedos desprendem. Desconheço todas as formas de energia que meus dedos são suscetíveis de desprender, através de um exercício apropriado.

Suponhamos que o espírito possuidor sirva-se de meu organismo mais habilmente do que eu o possa fazer. Não poderia fazer com que meu organismo irradiasse uma energia capaz de pôr em movimento objetos ponderáveis que não estão em contato real com minha carne? Este seria um fenômeno de possessão não muito diferenciado dos demais: seria telecinesia. Mediante esta palavra (proposta por Aksakof) se designam e descrevem o que se convencionou chamar “fenômenos físicos do espiritismo” e cuja existência, como realidade e não como um sistema de aparências mentirosas, deu lugar, durante meio século, às controvérsias ardentes que ainda persistem.

A simulação persistente da telecinesia inspirou, naturalmente, dúvidas sobre a realidade do fenômeno e isto, inclusive, nos casos em que foram tomadas todas as precauções contra a simulação e nas quais o caráter dos sujeitos tornava improvável qualquer suspeita de simulação. Apesar de toda a sua importância, este tema não está intimamente relacionado ao tema principal desta obra, para que acredite estar obrigado a fazer do mesmo um detalhado exame histórico. Ocupar-me-ei dele só na medida em que surja como um dos elementos da possessão espiritual, no caso de Stainton Moses, por exemplo.



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(O restante deste capítulo foi composto com os fragmentos encontrados nos manuscritos de Myers, cuja morte o impediu de reunir e dar a eles uma forma definitiva.)



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As analogias que podemos estabelecer entre os fenômenos da possessão e os descritos nos capítulos anteriores vão nos facilitar o entendimento dos primeiros e, sem que nos detenhamos nos casos de importância secundária, vamos expor os que concernem a Stainton Moses e à senhora Piper, que pudemos observar pessoalmente e nos quais os fenômenos de possessão revestem a forma mais característica.

Stainton Moses era um sacerdote dogmático, cônscio, trabalhador, impregnado do desejo de fazer o bem e de pregar aos demais os melhores meios de alcançar esse fim. Ele próprio enxergava o elemento essencial daquilo que chamava suas “mensagens”, nas palavras automaticamente pronunciadas ou escritas, não nos fenômenos que as acompanhavam e que por si sós davam a esses processos automáticos sua importância e seu único interesse, por assim dizer. Num livro intitulado Spirit Teachings,97 reuniu o que considerava como os resultados reais de seus anos de misteriosa permanência no vestíbulo de um mundo desconhecido.

Sua vida foi uma das mais extraordinárias de nosso século e sua história, verídica, encontra-se consignada nesta série de manifestações físicas que foram anotadas durante 8 anos, desde 1872, e nas séries de manifestações automáticas, escritas ou faladas, que, iniciando em 1873, prolongaram-se durante 10 anos para cessar somente pouco antes de sua morte.

Os espíritos que Moses acreditava o possuíssem podem ser divididos em três categorias:

a) A primeira e mais importante categoria compunha-se de pessoas recentemente falecidas e que, com freqüência, se manifestavam durante as sessões, antes que a notícia de sua morte chegasse, através de caminho comum, a uma das pessoas que participavam da sessão. Esses espíritos proporcionaram muitas vezes provas de sua identidade, mencionando fatos relacionados à sua vida terrestre e que, mais tarde, se verificou serem exatos.

b) A seguir, um grupo de pessoas pertencentes a gerações mais antigas e que durante sua vida foram razoavelmente célebres. Grocyn, amigo de Erasmo de Roterdão, pode ser considerado como o típico representante deste grupo. Muitos deles proporcionaram, igualmente, como provas de sua identidade, fatos que eram mais exatos do que a idéia ou o conhecimento consciente que podiam ter dos mesmos as pessoas presentes na sessão. Todavia, nestes casos, a dificuldade de provar a identidade aumentava sensivelmente, pelo fato de que a maioria dos dados exatos se encontravam anotados em volumes que Moses poderia ter lido, esquecendo em seguida, ou talvez tomasse conhecimento de seu conteúdo através da clarividência.

c) O terceiro grupo compõe-se de espíritos que trazem nomes semelhantes a Rector, Doctor, Teófilo e, o mais importante, Imperator. De vez em quando revelam os nomes que pretendem ter tido durante sua vida terrestre. Esses nomes ocultos são freqüentemente mais antigos e ilustres do que os do grupo “b”.

No que diz respeito às relações entre os espíritos e os fenômenos telecinésicos, não se pode esquecer que esses fenômenos, por estranhos e grotescos que possam parecer, às vezes, não podem ser considerados como absurdos e inúteis. Os presumíveis operadores se esforçam por descrever o que consideram como um fim e o que consideram como um meio tendo em vista aquele fim. Seu objetivo constante, confesso, é relatar, através de Moses, certas opiniões religiosas e filosóficas; e as manifestações físicas são descritas como se fossem somente uma prova de potência e uma base para a autoridade invocada a favor de ensinamentos sérios.

Considerações de ordem moral e o fato de que os fenômenos físicos se reproduziam sempre, quando Moses estava só, impedem-nos de os considerar como manobras fraudulentas produzidas por alguma pessoa presente à sessão. E, por outro lado, parece-me moral e fisicamente impossível considerá-los como fraudes do próprio Moses. E é fisicamente impossível e incompatível com seus próprios relatos e com os de seus amigos que tenham podido prepará-los e reproduzi-los durante o êxtase. Deve-se, pois, considerá-los como se tivessem ocorrido de uma forma realmente supranormal.

Examinarei rapidamente a natureza das provas que tendem a mostrar que os espíritos invocados eram realmente o que pareciam ser, julgando, ao menos, pelos cadernos onde se encontravam copiadas as escritas automáticas de Moses. O conteúdo desses cadernos constitui-se de mensagens cuja finalidade é provar a identidade dos espíritos, de discussões e explicações de fenômenos físicos e parábolas religiosas e morais.

Essas mensagens automáticas foram quase que totalmente escritas pela mão de Moses, em estado normal de vigília. As exceções referem-se a dois pontos:

a) existe uma passagem longa que Moses acreditava ter escrito durante o êxtase;

b) existem, às vezes, algumas palavras numa escrita que se poderia chamar “direta”, isto é, grafadas por mãos invisíveis, na presença de Moses e descritas diversas vezes, nas atas das sessões, às quais assistiram outras pessoas.

Pondo de lado estas duas exceções, achamos que os escritos apresentam, na maioria dos casos, a forma de um diálogo, no qual Moses faz as perguntas com sua letra redonda e grande e escreve as respostas com a mesma pena, mas com uma letra que varia de um caso para o outro e difere da sua própria escrita.

Ninguém se atreverá a duvidar de que Moses escreveu estas mensagens com a convicção sincera de que emanavam das pessoas que as assinavam. Todavia, a dúvida é saber se emanavam realmente das pessoas invocadas. Tendo em vista as condições pelas quais se fizeram essas comunicações, não revelam uma capacidade dirigente e não ensinam qualquer verdade realmente nova, admitindo-se que essas manifestações são, hipoteticamente, limitadas, não pelos conhecimentos anteriores, mas pelas capacidades anteriores do sujeito. E se estas proporcionam fatores dos quais o sujeito-médium não tem conhecimento consciente, mas que apresentam um caráter acabado, pode-se supor que esses dados foram adquiridos subliminarmente pelo médium, como resultado de um olhar inconsciente lançado sobre uma página impressa, ou inclusive que foram apreendidos por clarividência, sem a intervenção de outro espírito que o do médium, ainda que funcionando de uma maneira supranormal. Esta hipótese não é nem fantástica, nem de natureza a pôr em dúvida a probidade de Moses, porque ele próprio confiou-me que, no seu relacionamento com os espíritos temporalmente distantes, não experimentava a mesma sensação que ao conversar com espíritos mais próximos. Nem repudiava qualquer idéia de memória subconsciente e afirmava que jamais pudera ver ou ler com antecedência a maioria daquilo que escrevera automaticamente. E isto pode ser verdadeiro, uma vez que seus conhecimentos de literatura e de história não iam além dos de um professor de escola primária. E além do mais, entre todas as comunicações históricas que lhe foram feitas não existe uma sequer que não se encontre em fontes impressas, acessíveis a todos.

As provas de identidade proporcionadas por Moses nos casos referentes aos espíritos de pessoas mortas recentemente parecem mais satisfatórias. Mas, também neste ponto é difícil estabelecer se os fatos que afirma não fazem parte dos conhecimentos subliminares do autômato. Dá, às vezes, a impressão de que esses fatos puderam ser retidos percorrendo maquinalmente o necrológio dos jornais ou as inscrições sepulcrais. Ou talvez os nomes e os fatos conhecidos por uma das pessoas presentes à sessão, mas não de Moses, puderam ser mencionados na sua presença, gravando-se na sua memória subliminar. No caso de Hélène Smith, vimos o grau de acuidade que pode alcançar a hiperestesia e a hipermnésia do eu subliminar; mas, na presença da ignorância em que se encontrava o mundo científico, no que concerne a estes assuntos, não é de se estranhar que Moses e seus amigos se tenham negado a admitir a explicação que aqui propomos. Que os espíritos invocados tenham ou não manifestado sua ação diretamente, coisa que pode ter ocorrido, não nos impede de acreditar que o eu subliminar do médium deve ter desempenhado um papel bastante ativo nessas comunicações.

Duas vezes, Moses recebeu o aviso de um falecimento, quando era impossível que os recebesse pela via normal. Citarei um desses casos (conforme seu artigo publicado em Proceedings of the S. P. R., XI, pág. 96 e seguintes), que, sob muitos aspectos, é dos mais notáveis. Trata-se de uma mulher que conhecera e que Moses não vira mais que uma vez. A publicação do verdadeiro nome está proibida pelo próprio espírito, por razões que me pareceram suficientes ao ler o caso, mas que Moses desconhecia e como o filho dessa mulher também se opôs, dar-lhe-ei o nome de Blanche Abercrombie.

Essa mulher morreu, numa tarde de domingo, há 26 anos, numa casa de campo situada a 200 milhas de Londres. A notícia de seu falecimento, acontecimento de amplo interesse, foi telegrafada imediatamente a Londres e apareceu no Times na segunda-feira seguinte; é seguro que, excetuando-se a imprensa e familiares mais próximos, ninguém estava a par dessa notícia, no domingo à noite. Mas, naquela noite, por volta de meia-noite, uma comunicação que pretende-se partia dela chegou a Moses na sua isolada casa, ao norte de Londres. A identidade foi confirmada, dias depois, por algumas linhas que se supôs procedessem diretamente dela e escritas com a sua letra. Não existe qualquer motivo para supor que Moses vira sua letra. A única vez que se encontrou com aquela mulher e seu marido foi numa sessão, não numa das suas, em que Moses foi ferido pelo ceticismo que expressou o marido sobre os fenômenos dessa natureza.

Após receber essas mensagens, Moses não as referiu a ninguém, transcrevendo-as num livro que intitulou “Assuntos particulares”. Quando, autorizado pelos executores testamentários, abri o livro, me surpreendeu encontrar uma breve epístola que, sem relatar fatos precisos, era, porém, característica da Blanche Abercrombie que conheci. Mas embora eu tivesse recebido cartas dela enquanto ela era viva, não lembrava sua letra, e como conhecia a um de seus filhos, pedi-lhe que me emprestasse uma das cartas escritas pela mãe, a fim de poder comparar as duas letras. Não tardei em comprovar a notável semelhança entre a escrita automática e a letra da carta que me foi emprestada, exceto no que concerne à letra A do nome da família. Permitiu-me o filho estudar uma série de cartas que sua mãe escrevera em épocas diferentes, até os últimos dias de sua vida. Convenci-me de que, nos últimos anos, ela adquirira o costume (de seu marido) de escrever o A do mesmo modo que o da escrita automática.

O Dr. Hodgson, a quem submeti as duas escritas, constatou que a automática, e em especial a assinatura, revelava a tentativa de imitar de memória, e não de acordo com um modelo, as principais características da escrita original.

Seria conveniente resumir aqui os principais caracteres que dão identidade às mensagens recebidas por Moses, isto é, que proporcionam a prova de que realmente procedem das fontes a eles atribuídas. A esse respeito temos que distinguir diversos graus:

1 – Temos, primeiramente, as mensagens comuns, nas quais todos os fatos que encerram foram de conhecimento do autômato, de uma forma consciente. Nos casos desse gênero podemos supor tratar-se de sua própria personalidade e que as mensagens possuem uma fonte subliminar, não exterior.

2 – Vêm, a seguir, as mensagens compostas de fatos que parecem ter sido do conhecimento do espírito invocado, mas dos quais o autômato não possui conhecimento consciente, ainda que em outras ocasiões tenham sido percebidas por ele inconscientemente e gravadas na sua memória subliminar.

3 – No que diz respeito às mensagens do grupo seguinte, pode-se provar, com graus de certeza tão variados, como os admitidos pelas provas negativas deste gênero, que o autômato jamais as conheceu diretamente, mas que não se encontram facilmente nos livros, de forma que o autômato pode tê-las conhecido por clarividência, ou em conseqüência de uma comunicação feita por um espírito diverso do invocado por ele.

4 – Pode-se provar, com um grau variável de certeza, segundo as circunstâncias, que os fatos não foram nunca do conhecimento do autômato, nem estão impressos, senão que foram conhecidos pelos espíritos invocados e podem ser verificados pelas recordações das pessoas vivas.

5 – Poder-se-ia, em seguida, citar o grupo de mensagens experimentais ou de cartas póstumas, nas quais a pessoa falecida consignara, antes de seu falecimento, uma prova especial, um fato ou uma frase que só ela conhecia, para transmiti-la depois de sua morte, possivelmente, como um sinal de seu retorno (ver o caso de Finney, capítulo VIII).

6 – Tratamos, até aqui, somente de mensagens verbais que nos são de fácil manejo e análise. Mas, na realidade, não são as conclusões extraídas dessas mensagens escritas as que com maior freqüência serviram de inspiração ao sobrevivente para que acreditasse na aparição do amigo falecido. Logicamente ou não, a mensagem escrita não é tão evocadora como o fantasma ou uma voz muito conhecida. É sobre esta presença que insistiram os sobreviventes, desde os tempos em que Aquiles buscava, em vão, abraçar a sombra de Pátroclo.

Até que ponto um fantasma constitui uma prova de uma ação real exercida pelo espírito? Discutimos acima esta questão.98 Mas, ainda que a aparição de uma pessoa falecida não constitua, em si, uma prova de sua presença, não é, tampouco uma simples forma que os fantasmas meramente alucinatórios parecem assumir com bastante freqüência e quando existem provas suplementares, como por exemplo, uma escrita que pretende vir da mesma pessoa, as probabilidades a favor de sua presença real encontram-se consideravelmente aumentadas. No caso de Moses, quase todas as figuras que vira carregavam consigo uma confirmação desse gênero.

7 – Isso nos encaminha a um grupo de casos bastante representados nas séries de Moses, onde as mensagens escritas que pareciam vir de um determinado espírito estavam acompanhadas de fenômenos físicos, dos quais o próprio espírito pretendia ser o autor. Sendo ou não possível dar a esta prova um caráter rigorosamente lógico, é fácil imaginar mais de um caso em que a prova pareça decisiva a todos. Mas os fenômenos físicos não proporcionam uma prova a favor de outra inteligência que não a do sujeito e, como já disse, podem, em mais de um caso, constituir uma simples extensão de suas forças musculares comuns, ao invés de serem devidas a uma ação exterior qualquer.

Jungindo-nos às mensagens verbais, achamos que os casos mais representativos, nos relatos de Moses, pertencem aos três primeiros grupos; quanto aos do quarto grupo, que englobam fatos verificáveis, dos quais inexiste qualquer relato impresso, e dos que se tem certeza de que o médium não os conhecera nunca, são relativamente pouco numerosos. Isso, talvez, possa ser atribuído, em parte, ao escasso número dos que assistiam às sessões de Moses e que eram, todos, seus amigos pessoais. Ao contrário, os relatos da senhora Piper, dos quais nos ocuparemos agora, são particularmente ricos em incidentes pertencentes ao grupo quatro, e o valor evidente das mensagens verbais é, por isto, superior ao das mensagens de Moses. Enquanto que no caso do último a identidade de um grande número de comunicações repousava, principalmente, no fato de estar garantida por Imperator e seu grupo de auxiliares, no caso da Sra. Piper os espíritos de alguns amigos, recentemente falecidos, que deram provas de sua identidade, surgem para manter a realidade independente e a direção que exercem sobre a Sra. Piper as mesmas inteligências, Imperator, Rector, Doctor e outras que, segundo Moses, intervinham nas suas experiências.

Duas importantes diferenças separam o caso da Sra. Piper do de Moses. Primeiro, suas manifestações supranormais não estão acompanhadas de qualquer fenômeno de telecinesia; e, depois, seu eu supraliminar não apresenta o menor vestígio de uma capacidade supranormal qualquer. Ela dá um exemplo de automatismo extremo, onde a possessão não é só local ou parcial, senão que afeta, por assim dizer, toda a região psíquica onde o eu supraliminar se encontra, momentaneamente, submerso de uma forma completa e onde toda a personalidade sofre intermitentes modificações. Em outros termos, entra num estado em que os órgãos da palavra e da escrita são guiados por outras personalidades que não a sua personalidade normal desperta. Às vezes, o eu subliminar aparece ou imediatamente antes, ou imediatamente após o êxtase, para assumir durante curto intervalo a direção do organismo; mas, com raras exceções, as personalidades que falam ou escrevem durante o êxtase pretendem ser espíritos desencarnados.

As “possessões” da Sra. Piper podem ser divididas em três períodos:

a) a primeira estendendo-se de 1884 a 1891 e durante a qual a principal personalidade diretora, que se conhece sob o nome de “Dr. Phinuit”, serve-se, quase que exclusivamente, dos órgãos vocais, manifestando-se num estado de êxtase;

b) durante o segundo período, que se estende de 1892 a 1896, as comunicações se realizam, principalmente, por meio de escrita automática e sob uma direção que tem o nome de “Georges Pelham” ou “G. P.”, ainda que o Dr. Phinuit tivesse, nesse período, se manifestado com o auxílio da voz;

c) durante o terceiro período, que se inicia em 1897, a supervisão era exercida por Imperator, Doctor, Rector e outros, já mencionados, por ocasião das experiências de Moses, na maioria dos casos, através da escrita e, às vezes, através da palavra.

Não vou discutir aqui a hipótese de fraude que já discutimos e refutamos, juntamente com o Dr. Hodgson, o Prof. William James, o Prof. Newbold, da Universidade de Pensilvânia, o Dr. Walter Leaf e Sir Oliver Lodge,99 e não analisarei a fundo o caráter da personalidade de Phinuit. Segundo minha própria experiência, durante a estada da Sra. Piper na Inglaterra, em 1889-90, diferentes êxtases e diferentes partes do mesmo êxtase apresentam uma qualidade desigual. Entrevistas houveram, durante o curso das quais Phinuit não fazia qualquer pergunta, nem formulava proposições que não fossem verdadeiras. Havia outras, durante as quais não manifestava o menor conhecimento real e se limitava a perguntas e respostas formuladas ao acaso. O êxtase nem sempre podia ser provocado pela vontade. Um estado de expectativa tranqüila favorecia, freqüentemente, a aparição, mas às vezes fracassava qualquer tentativa de provocá-la. O êxtase, uma vez provocado, durava aproximadamente uma hora e com freqüência existia uma diferença notável entre os primeiros minutos e o restante de sua duração. Nessas ocasiões, o que podia ter algum valor era dito durante os primeiros minutos, e o resto da conversação consistia em generalidades vagas ou simples repetições do que já se dissera. Phinuit pretendia sempre ser um espírito em comunicação com outros espíritos e possuía o costume de dizer que recordava suas mensagens somente durante alguns minutos, após “ter entrado no campo mediúnico” e que a seguir suas recordações se confundiam e não era capaz de partir sem esgotar sua provisão de fatos. Parecia que se produziria uma inútil descarga de energia, que durava até o momento em que o impulso primitivo terminava em incoerência. Minha conclusão geral nessa época era que as manifestações de Phinuit deviam ser consideradas como um elemento dessa extensa série de mensagens automáticas de todo gênero que agora se começa a colecionar e analisar. Considerei como demonstrado que esses fenômenos testemunhavam uma enorme extensão, telepática ou clarividente, das faculdades normais do espírito humano e me pareceu possível que os conhecimentos de Phinuit derivassem de uma faculdade telepática ou clarividente, que a Sra. Piper possuía em estado latente e que se manifestava de uma forma pela qual não nos acostumaram nossas experiências anteriores. Por outro lado, as mensagens automáticas que estudamos compreendiam fenômenos deveras variados, dos quais uns pareciam, à primeira vista, devidos à intervenção, talvez indireta, da personalidade sobrevivente da pessoa falecida, e afirmo que se esses exemplos de comunicação, procedentes de espíritos extraterrenos, devem ser, um dia, aceitos pela ciência, as mensagens de Phinuit poderão, apesar de todos os defeitos e todas as suas inconseqüências, ser acrescentadas a esse número.

Não necessito dizer que esta última hipótese é a que acabei por adotar e, ainda que seja evidente que as dificuldades concernentes à identidade de Phinuit não desapareceram, parece possível considerá-la como uma inteligência exterior à da Sra. Piper, como um espírito desencarnado. Não se pode esquecer, porém, que fracassou completamente nas suas tentativas de estabelecer sua identidade pessoal e que, igualmente, não conseguiu provar sua pretensão de ser um médico francês. Infelizmente, não possuímos qualquer narração contemporânea relativa aos primeiros êxtases da Sra. Piper, nem qualquer informação concernente às primeiras manifestações da personalidade de Phinuit. Parece claro, no entanto, que o nome de Phinuit era o resultado de uma sugestão levada a cabo durante seus primeiros êxtases (ver Proceedings of the S. P. R., VIII, pág. 46-58) e mais de um poderá pensar que a suposição mais provável é que a direção exercida por Phinuit nada mais era do que a de uma personalidade secundária da Sra. Piper. Mas, segundo as afirmações (das quais não existe qualquer prova) feitas por Imperator, Phinuit seria um espírito inferior “ligado à terra”, que foi confundido e perdido desde suas primeiras tentativas de comunicação e perdeu, por assim dizer, “a consciência de sua identidade pessoal”. Mas os casos citados no capítulo II indicam que não é rara tal eventualidade nesta vida e que não é impossível sobrevirem perturbações profundas da memória a um espírito desencarnado inexperiente, como conseqüência de suas primeiras tentativas de se comunicar conosco através do mundo material. Seja como for, a personalidade Phinuit não se manifestou, direta ou indiretamente, desde o mês de janeiro de 1897, época na qual Imperator começou a presidir as supravisões da Sra. Piper.

Phinuit preenchia, geralmente, o papel de intermediário, reproduzindo as comunicações feitas por seus parentes e amigos falecidos às pessoas presentes às sessões, e numa série de sessões favoráveis, a impressão geral foi a descrita por Sir Oliver Lodge, no caso seguinte (Proceedings of the S. P. R., VI, pág. 454): “Um dos melhores ajudantes foi meu vizinho mais próximo, Isaac C. Thompson, ao qual, e antes de ser apresentado, Phinuit enviou uma mensagem que dizia ser proveniente de seu pai. Três gerações de membros, vivos e mortos, de sua família e da de sua mulher, foram mencionadas com a maior exatidão, durante o curso de duas ou três sessões, caracterizando-se a cada membro com invejável precisão; o principal informante era seu falecido irmão, um jovem médico de Edimburgo, morto há vinte anos. O caráter familiar e comovedor dessas comunicações era extremamente notável e é impossível perceber-se isso nos informes impressos das sessões”.

Os casos desse gênero não são freqüentes e ainda que pareça ter havido, durante o primeiro período da história da Sra. Piper, provas abundantes da existência de uma capacidade supranormal que exigia ao menos a hipótese da transmissão de pensamento de pessoas vivas, próximas ou distantes, e tornava provável a hipótese de uma capacidade telestésica ou, inclusive, de premonição, não é menos certo que a questão principal que nos interessa é saber se o organismo da Sra. Piper era guiado, direta ou indiretamente, por espíritos desencarnados, suscetíveis de proporcionar provas satisfatórias de sua identidade. Esta questão permanece em aberto.

Do ponto de vista da identidade pessoal, a série de sessões que deu à Sra. Piper durante o segundo período, de 1892 a 1896, é muito mais importante. O informante, ou principal intermediário, durante este período, foi G. P. Este, cujo nome se bem que conhecido de diversas pessoas, foi transformado, em razão da publicação em “Georges Pelham”, era um jovem muito capaz, dedicado a trabalhos literários. Cidadão americano, mas pertencente à nobreza londrina. Nunca o vi, mas tive a felicidade de ter amigos que eram dele também e consegui relacionar-me intimamente com alguns deles sobre a natureza das comunicações que recebiam. Dessa forma, colocaram-me a par das manifestações mais significativas de G. P. que foram julgadas de natureza demasiadamente íntima para a publicação e assisti a sessões em que G. P. se manifestou. Para a discussão completa das provas tendentes a mostrar a identidade de G. P., nada mais faço do que indicar a meus leitores os relatos originais publicados no Proceedings of the S. P. R., XIII, págs. 284-582 e XIV, págs. 6-49.

Poderíamos citar outros exemplos extraídos da história da Sra. Piper, todos tendendo a mostrar que seu organismo corporal era possuído e guiado por espíritos desencarnados que tratavam de provar sua identidade, reproduzindo as recordações de sua vida terrenal.

Devemos tratar agora de formar uma idéia definida do processo de observação real dos fatos, ainda que não se necessite dizer que a idéia mais adequada que formaremos no momento receberá, necessariamente, de nossa própria existência material, inúmeras restrições e limitações e só poderá ser expressa com o auxílio de analogias sumárias.

Devo dizer, desde o início, que esta união de dois seres humanos tão diferenciados, que se expressa na possessão de um organismo, nada tem em si de fatídica ou alarmante. No caso da Sra. Piper o início e o fim de um êxtase que, segundo a expressão de James, ia no começo acompanhado de “perturbações respiratórias e de contrações musculares pronunciadas”, se realiza agora tão tranqüilamente como o dormir e acordar, e sua vigília não se ressente em nada do êxtase, a não ser por uma fadiga passageira, quando o êxtase foi demasiadamente prolongado ou, noutras ocasiões, por um estado vago e difuso de bem-estar, semelhante ao que se experimenta, às vezes, ao acordarmos de um sono agradável. A influência sobre a saúde, longe de ser prejudicial, deve ter sido, melhor dizendo, saudável. Apesar disso, depois das graves alterações que experimentou, como conseqüência de um acidente de trenó e das consecutivas operações, a Sra. Piper é, atualmente, “uma mulher cuja saúde está em perfeito estado”. Do ponto de vista do caráter, representa o tipo da mulher americana, tranqüila e que se ocupa muito da casa e dos filhos (casou-se em 1881 e tem duas filhas de 17 e 18 anos). Segundo o Dr. Hodgson, a direção que sofreu por parte de inteligências superiores à sua aumentou sua estabilidade e serenidade. Enquanto consideramos somente o lado material e carnal de suas estranhas relações, parece-nos assistir a um processo de evolução que ante nós se desenvolve, com facilidade inesperada, de forma que nosso dever é procurar, cuidadosamente, e exercitar outros indivíduos favorecidos que apresentem a mesma capacidade sempre latente talvez, mas que, em nossos dias, emerge, gradualmente, na raça humana. Die Geisterwelt ist nicht verschlossen; os sensíveis nada mais têm do que se submergir num profundo recolhimento para antever a porta que se abre ao mundo dos espíritos. E, de outro lado, dessas relações partem as dificuldades e perplexidades maiores.

Ao abordar as coisas que se encontram além da experiência humana, nossa finalidade principal deve ser a de estabelecer sua continuidade, com o que já conhecemos. Por exemplo, nos é impossível adquirir, independentemente do que já sabemos, um conceito satisfatório do mundo invisível. Entretanto, esse conceito jamais foi devidamente considerado, do ponto de vista de nossas idéias modernas de continuidade, de conservação da energia, de evolução. As noções principais relativas à sobrevivência foram formadas, primeiramente, pelos homens primitivos, depois pelos filósofos aprioristas. Aos olhos do homem de ciência, a questão não apresentava uma atualidade suficiente para que a julgassem digna de ser abordada com o auxílio dos métodos científicos. Contentavam-se, como o restante da humanidade, com qualquer teoria tradicional, de preferência sentimental, pela descrição que se considerasse mais satisfatória e elevada. Mas sabem que esse princípio subjetivo de escolha conduzira na história à aceitação de diversos dogmas que nossas noções de homem civilizado nos levam a considerar como blasfemas e cruéis no mais alto grau.

A única diferença entre as concepções dos filósofos modernos e as do homem primitivo consiste em que enquanto o último admitia escassas diferenças entre o mundo material e o espiritual, o primeiro considera essa diferença demasiado grande e isso constitui, entre ambos, um abismo invencível que os opõe um aos outro de maneira quase absoluta.

Toda a questão gira ao redor da persistência da identidade pessoal além da morte. Como devemos conceber esta identidade: No curso da vida terrestre o corpo real de nosso amigo, por exemplo, na idéia que possuímos dele, constitui um elemento bastante subordinado e também não preenche, na sua continuidade física, como se fosse um símbolo, todas as lacunas da memória, todas as modificações do caráter. Mas a memória e o caráter, isto é, as impressões armazenadas, pelas quais reage, e sua maneira específica de reação eram o que constituíam nosso amigo, propriamente dito. Quais coisas deve conservar de sua memória e de seu caráter para ser por nós reconhecido?

Nossa memória (ou a dele) deve persistir inteiriça ou eterna? Sua memória deve ter uma extensão que confine com a onisciência e seu caráter revestir-se de uma qualidade divina? E, quaisquer que sejam as alturas que alcance, devemos exigir que se nos revele? As limitações que se depreendem de nosso mundo material não são, para ele, um obstáculo?

Recordemos os pontos que parecem advir das considerações que acima formulamos sobre as comunicações desse gênero. O espírito relaciona-se com uma pessoa viva, ocupando um determinado lugar, num momento determinado e constituído de certos pensamentos e emoções. Pode o espírito, em certos casos, achar a pessoa em questão e segui-la à vontade. Possui, pois, em certa medida, um conhecimento do espaço, mesmo não estando limitado pelo espaço; seu poder de orientação no espaço é, até certo ponto, para nossa vista, o que o tato é para um cego. Da mesma forma, o espírito parece possuir um conhecimento parcial do tempo, mesmo não estando limitado por ele. É capaz de ver, no presente, coisas que, para nós, parecem estar situadas no passado e outras que situamos no futuro.

O espírito é, além do mais, consciente, ao menos em parte, dos pensamentos e emoções de seus amigos terrestres, na medida em que esses pensamentos e emoções se relacionem com ele, e isto não só quando o amigo está na presença do médium, mas também (como G. P. mostrou mais de uma vez) quando o amigo está na sua casa, vivendo sua vida rotineira.

Admitindo, pois, para as necessidades do caso, que este é o estado normal do espírito, com relação às coisas humanas, como pode e deve proceder para estabelecer comunicação com os vivos? Mas, se conserva não só a recordação dos amores terrenos, como, também, uma consciência real de todas as emoções amorosas de que é objeto após a morte, parece provável que terá, ao menos, a vontade, o desejo, de entrar em comunicação com os vivos.

Buscando então uma saída, começará por discernir algo que corresponda (segundo a expressão de G. P.) a uma luz, a um resplendor que atravesse a obscuridade confusa do mundo material. Esta “luz” nada mais é do que o médium, isto é, um organismo humano constituído de tal forma que o espírito possa, durante um certo tempo, proporcionar-lhe informação e dirigi-lo sem, necessariamente, interromper a corrente de sua consciência comum, servindo-se quer de sua mão, quer (como no caso da Sra. Piper) de sua mão e de sua voz e ocupando todos os condutos pelos quais o médium se manifesta. As dificuldades inerentes a esse estado de controle ou de direção são descritas pelo Dr. Hodgson da maneira seguinte: “Se, com efeito, cada um de nós é um “espírito” sobrevivente à morte do corpo carnal, existem certas suposições de que um espírito desencarnado se coloque em comunicação com os espíritos encarnados. Inclusive, nas melhores condições pode ocorrer que a aptidão para as comunicações seja tão rara como o dom que torna grande o artista, o matemático, o filósofo. Mas também pode ser que sob a influência das mudanças que a própria morte supõe o “espírito” se encontre, a princípio, confuso e perdido, e que isto se mantenha durante um tempo mais ou menos longo; e igualmente após acostumar-se a seu novo meio, é possível que ao estabelecer com outro organismo vivo a mesma relação que teve antes com seu próprio organismo, esteja ainda confuso, como ao acordar num meio estranho, após um extenso período de inconsciência. Se meu próprio corpo pudesse conservar-se no seu estado atual e eu o pudesse abandonar durante meses e anos, levando uma existência em outras condições, é possível que ao juntar-me novamente com meu corpo após uma ausência tão prolongada, mostrar-me-ia, no início, confuso e incoerente nas manifestações que realizasse através dele. E essa confusão e incoerência seriam ainda mais profundas se me unisse a outro corpo humano. Ficaria confuso pelas diferentes formas de afasia e de agrafia, pelas perturbações da inibição, acharia as novas condições enevoadas e cansativas e meu espírito funcionaria de maneira automática e como que dominado por um sonho. Mas as comunicações que recebia a Sra. Piper apresentavam exatamente esse gênero de confusão e de incoerência que podemos esperar, a priori, se fossem realmente o que pretendiam ser”.

Comparei, no início deste capítulo, os fenômenos da possessão com os da desintegração da personalidade, com os sonhos e com o sonambulismo. Mas parece provável que a teoria das múltiplas personalidades, através da qual se afirma que nenhuma das correntes conhecidas da personalidade esgota toda sua consciência e que nenhuma das manifestações conhecidas expressa toda a potencialidade de seu ser, pode aplicar-se quer aos homens desencarnados, quer aos encarnados e isto nos permite supor que as manifestações dos primeiros se assemelharão às comunicações fugidias e instáveis que existem entre as diferentes camadas da personalidade no homem vivo.

Mas essa mesma dificuldade e esse caráter fragmentário das comunicações são suscetíveis, em última análise, de nos proporcionar preciosas lições. Assistimos ao mistério central da vida humana que se desenvolve em novas condições, mais acessíveis que nunca à nossa observação. Vemos que um espírito se serve de um cérebro. Um cérebro humano é, em última análise, uma disposição de matéria adaptada de forma a ser influenciada e colocada em ação por um espírito, mas enquanto recebe os impulsos do espírito ao qual está acostumado, a ação é demasiado débil para que nos permita captar o mecanismo. Mas ocupamo-nos agora de um espírito estranho ao cérebro, não acostumado ao instrumento em que se instala vacilante. Temos, assim, que saber coisas infinitamente mais profundas e importantes que as que nos ensinam as interrupções mórbidas da ação do espírito comum normal. Exemplificando: na afasia assistimos a certas perturbações cerebrais. Mas na possessão vemos o espírito diretor em luta contra dificuldades análogas, escrevendo ou pronunciando uma palavra inexata para substituí-la pela palavra adequada, e inclusive encontrando, às vezes, o meio de nos explicar algo desse mecanismo verbal minucioso, cuja interrupção ou desarranjo deu origem ao erro.

É possível que, com o progresso de nossas investigações, à medida que nós, de um lado, e os espíritos desencarnados do outro, estejamos cada vez mais iniciados nas condições indispensáveis ao domínio perfeito do cérebro e do sistema nervoso dos intermediários, é possível, afirmamos, que as comunicações se façam cada vez mais completas e coerentes e alcancem um nível cada vez mais elevado de consciência unitária. As dificuldades podem ser grandes e numerosas, mas pode ser de outro modo, quando se trate de reconciliar o espírito com a matéria, de abrir ao homem, no planeta em que se acha prisioneiro, uma porta do mundo espiritual?



* * *

Vimos, durante este capítulo, que os fenômenos da possessão se encontram intimamente ligados aos do êxtase. Isto se explica se pensarmos que, desde o momento em que um espírito exterior é suscetível de entrar num organismo, para apoderar-se dele, o espírito interior pode, por sua vez, ser capaz de abandonar o organismo a que está habitualmente unido, mudar seu centro de percepção e de ação, ainda que de uma forma menos irrevogável do que como conseqüência das mudanças produzidas pela morte. O êxtase converte-se, dessa forma, simplesmente num aspecto complementar e correlativo da possessão espiritual. Uma mudança semelhante não deve ser forçosamente espacial, como ocorre na invasão do organismo abandonado por um espírito exterior. Pode-se ir mais longe e dizer que uma vez que o espírito encarnado é capaz de mudar desta forma seu centro de percepção, em resposta à invasão do organismo por um espírito desencarnado, não se sabe por que não poderia fazer o mesmo em outras ocasiões. Conhecemos a “clarividência migratória”, que consiste em que o espírito mude de centro de percepção em meio às cenas do mundo material. Por que não pode haver uma extensão da clarividência migratória no mundo espiritual? Uma transmissão espontânea do centro de percepção nessa região onde os espíritos desencarnados parecem, por seu lado, capazes de comunicar-se com crescente liberdade?

O conceito de êxtase, no seu sentido mais literal e sublime, desprendeu-se, de modo quase insensível, de todo um conjunto de provas modernas; e decorrerá muito tempo até podermos separar de forma adequada, não digo o elemento objetivo da experiência, de seu elemento subjetivo, porque teremos deixado atrás a região em que estas palavras conservam ainda seu sentido, mas o elemento da experiência que pertence a espíritos estranhos ao do homem no êxtase, do elemento que pertence, propriamente, a este último.100

Não é paradoxo dizer que as provas que existem a favor do êxtase são mais sérias do que as que possuímos a favor de qualquer outra crença religiosa. De todas as experiências subjetivas da religião, o êxtase é a que foi confirmada, com maior força e convicção. Não constitui o monopólio de uma única religião e se, do ponto de vista psicológico, a prova principal da importância de um fenômeno subjetivo que faz parte da experiência religiosa consiste no fato de ser comum a todas as religiões, não existe nenhuma outra que responda a esta condição no mesmo grau que o êxtase. Desde o bruxo, dos selvagens, até São João, São Pedro e São Paulo, sem esquecer Buda e Maomé, possuímos dados que, mesmo apresentando diferenças consideráveis do prisma moral e intelectual, têm uma base psicológica comum.

Em todas as épocas concebeu-se o espírito como suscetível de abandonar o corpo ou, se não o abandona, de estender consideravelmente seu campo de percepção, originando um estado semelhante ao êxtase. Todas as formas conhecidas de êxtase estão concordes neste ponto e todas elas repousam sobre um fato real.

Estabelecemos, dessa forma, a continuidade e a realidade de fenômenos que foram até aqui considerados sem conexão alguma e de modo quase ininteligível. Guiados por nosso ponto de vista, podemos estabelecer uma conexão entre as formas inferiores e as superiores, sem qualquer prejuízo para as segundas. O feiticeiro, o bruxo, quando não é um impostor, penetra tão eficazmente no mundo espiritual como São Pedro ou São Paulo; mas não penetra na mesma faixa desse mundo; as visões confusas e obscuras o assustam ao invés de exaltá-lo. Todavia, só o fato de acreditarmos em suas visões confirma e corrobora nossa fé, relativa à visão do “sétimo céu” dos apóstolos.


X
Conclusão


A tarefa que me propus, ao iniciar esta obra, pode considerar-se como realizada. Abordando sucessivamente cada um dos pontos de meu programa, apresentei, não todas as provas que possuo, e que gostaria de ter exposto, mas um número de dados suficientes para ilustrar uma exposição contínua, sem que meu livro corra os riscos de ultrapassar os limites além dos quais não teria encontrado leitores. Indiquei, igualmente, as condições principais que se depreendem, imediatamente, desses dados. As generalizações mais vastas, às quais posso entregar-me agora, são perigosamente especulativas; são de natureza a fazer com que se desviem desse gênero de investigações alguns espíritos científicos, cuja adesão me interessa especialmente. Sem dúvida, esse é um risco que prefiro correr, por duas razões, ou melhor, por uma razão capital, suscetível de ser considerada sob dois aspectos: é, em particular, impossível deixar esse acúmulo de informações obscuras e pouco familiares sem algumas palavras de generalização mais ampla, sem uma conclusão que estabeleça uma relação mais específica entre essas novas descobertas e os esquemas já existentes do pensamento e das crenças dos homens civilizados.

Considero, primeiramente, este ensaio de síntese como necessário para o fim prático, que consiste em arrolar o maior número possível de auxiliares nesse tipo de investigações. Como tive ocasião de dizer mais de uma vez, não é a oposição, antes a indiferença que tem sido o verdadeiro obstáculo ao seu progresso. Ou, se a palavra indiferença é demasiado forte, o interesse provocado por essas investigações não foi suficiente para suscitar as colaborações tão numerosas e eficazes como as que se manifestam em todas as ciências que o mundo acostumou-se a respeitar. Nossas investigações se referem a um tipo de fatos que não são os da religião, nem os da ciência e não podem pedir o apoio nem do “mundo religioso” nem da Société Royale. Mas, afora o instinto de curiosidade científica pura (que, com certeza, raríssimas vezes viu abrir-se diante de si um campo tão amplo e pouco explorado), os problemas capitais, cujo mistério guardam esses fenômenos, constituem uma atração suficiente, excepcionalmente pujante. Proponho-me formular esta atração e não só provocar a convicção, antes suscitar a cooperação. E as conversas que mantive com numerosas pessoas fizeram-me concluir que para conseguir esta cooperação, inclusive da parte dos cientistas, é necessário dar uma visão de conjunto, ainda que seja de caráter especulativo e inseguro, das conseqüências morais de todos esses fenômenos.

De outro lado (e aqui a razão de ordem prática que demos acima toma um caráter mais amplo e profundo) seria injusto, frente aos dados adquiridos, terminar esta obra sem tocar de forma mais direta algumas das convicções mais profundas do homem. Sua influência não deve estar limitada às conclusões, por mais importantes que sejam algumas delas, que se depreendem imediatamente. Essas descobertas são de natureza a contribuir, em especial, para o acabamento final do programa de dominação científica que a Instauratio Magna formulou para a humanidade. Bacon previu a vitória progressiva da observação e da experiência, o triunfo do fato real e analisado, em todos os domínios do saber humano; em todos, menos um. Com efeito, abandonou à autoridade e à fé o domínio das “coisas divinas”. Desejo mostrar que essa grande exceção não está ainda justificada. Acho que existe um método de chegar ao conhecimento dessas coisas divinas com a mesma certeza e segurança tranqüila que devemos aos progressos no conhecimento das coisas terrestres. A autoridade das religiões e das igrejas será, dessa forma, substituída pela observação e a experiência. Os impulsos da fé se transformarão em convicções racionais e solucionadas que farão nascer um ideal superior a todos os que a humanidade concebeu até hoje.

Na maioria, os leitores das páginas anteriores estarão, sem dúvida, preparados para uma opinião expressa com tanta franqueza. Mas serão poucos aos que esta opinião não parecerá, à primeira vista, estranha e inverossímil. A filosofia e a ortodoxia colocar-se-ão de acordo para torná-la presunçosa e a própria ciência não aceitará sem objeção que se aceite em seus quadros fatos cuja existência costumava negar desde os tempos mais remotos e cujo valor desconhece. Não estou menos convencido de que a mudança de ponto de vista que proponho parecerá à reflexão como mais do que necessário, como inevitável.

Não necessito descrever aqui, extensamente, a inquietação profunda de nossa época. Em nenhuma outra o grau de satisfação espiritual do homem esteve tão baixo, no que diz respeito à intensidade de suas necessidades. O antigo alimento, ainda que administrado de modo mais circunspecto, é demasiadamente pouco substancioso para nós, modernos. Duas correntes opostas atravessam nossas sociedades civilizadas: de um lado a saúde, a inteligência, a moralidade, todos esses dons que os progressos rápidos da evolução planetária proporcionam ao homem, adquiriram proporções extraordinárias; do outro, esta mesma saúde e prosperidade ressaltaram ainda mais o Welt-Schmers 101 que corrói a vida moderna, a perda de toda a fé real na dignidade, no sentido, na infinidade da vida.

São muitos, com certeza, os que aceitam, com facilidade, essa limitação do horizonte, os que vêem sem pena que toda esperança elevada se dissipa e obscurece sob a influência das atividades e prazeres terrenos. Mas outros existem que não se dão por satisfeitos com tão pouco; parecem crianças demasiado grandes para os jogos com que se lhes divertem e que estão dispostos a cair na indiferença e no descontentamento, contra os quais o único remédio consiste na iniciação nos trabalhos sérios dos homens.

Conheceu a Europa uma crise semelhante. Época houve em que a candura alegre, os impulsos irrefletidos, do mundo primitivo desapareceram, onde a beleza deixou de ser o culto dos gregos e Roma a religião dos romanos. A decadência alexandrina, a desolação bizantina, encontraram sua expressão em diversos epigramas que poderiam ter sido escritos em nossos dias. Produziu-se, então, uma grande invasão do mundo espiritual e com as novas raças e os novos ideais a Europa recobrou a juventude.

O único efeito deste grande impulso cristão começa, talvez, a atenuar-se. Porém, mais benesses podem vir de uma região donde a graça viera certa vez. A agitação de nossa época é a da adolescência, não a da senilidade; anuncia antes a proximidade da puberdade, que a da morte.

O que nossa época exige não é o abandono de todo esforço, mas uma tensão de todos os nossos esforços; está madura para um estudo das coisas invisíveis tão sério e sincero como o que a ciência aplicou aos problemas terrestres. Em nossos dias, o instinto científico, desenvolvido há pouco na humanidade, parece tomar fôlego para adquirir a importância que o espírito religioso teve no passado, e se existe a menor fenda através da qual seja possível ver o que ocorre fora da cadeia planetária, nossos descendentes apressar-se-ão em se valer dela e desenvolvê-la. O esquema de conhecimentos que se impõe a esses investigadores deve ser tal que, mesmo superando nossos atuais conhecimentos, dê-lhes seguimento; por conseguinte, tratar-se-á de um esquema não-catastrófico, mas evolucionista, não promulgado e terminado num momento, mas que se desenvolve aos poucos em investigações progressivas.

Não deve, da mesma forma, existir uma mudança contínua, um progresso sem fim do ideal humano, de sorte que a fé abandone seu ponto de vista limitado para colocar-se no do futuro sem fim, menos para suprir as lacunas da tradição do que para tornar mais intensa a convicção de que existe uma vida superior, para a qual se deve trabalhar, uma santidade que se pode alcançar um dia, em virtude de uma graça e mediante esforços até aqui desconhecidos?

Pode ser que nas gerações vindouras a fé mais verdadeira consista nos incessantes esforços para encontrar entre os fenômenos confusos algum indício do mundo superior, de encontrar “a substância das coisas aguardadas, a prova das coisas invisíveis”. Confesso, por meu lado, que, com freqüência, tenho a impressão de que nossa época foi favorecida de forma excepcional, que nenhuma revelação, nem certeza futuras, igualará a alegria desse grande esforço contra a dúvida em prol da certeza, contra o materialismo e o agnosticismo que acompanharam os primeiros avanços da ciência, por uma convicção científica mais profunda de que o homem possui uma alma imortal. Não conheço outra crise de fascínio mais intenso; mas isto não é, talvez, depois de tudo, senão a incapacidade da criança faminta de imaginar coisa mais agradável que o primeiro pedaço de pão que leva à boca. Demos-lhe apenas isto e pouco se importará em saber se um dia será primeiro ministro ou trabalhador rural.

Por transitório e dependente que seja o lugar que ocupamos na história dos esforços humanos, é outra nuance de um sentimento que muitos conheceram. Sentiram especialmente que a incerteza comunica à fé um alcance e um valor que a certeza científica é incapaz de oferecer. Experimentaram uma alegria austera na escolha da virtude, sem alcançar qualquer recompensa da virtude. Essa alegria, semelhante à alegria de Colombo ao navegar a oeste de Hierro, não pode ser, talvez, reproduzida sob os mesmos aspectos. Todavia, para descer a uma comparação mais humilde, jamais o homem será capaz de se dedicar ao estudo com o mesmo espírito de fé pura, sem antecipação dos resultados, como ao aprender o alfabeto nos joelhos de sua mãe. Diminuiu, depois, nosso esforço intelectual? Sentimos que já era desnecessário lutar contra a inércia, porque soubemos que o conhecimento trazia uma recompensa segura?

As variedades das alegrias espirituais são infinitas. Na época de Tales, a Grécia experimentara a alegria da primeira noção vaga da unidade das leis cósmicas. Na época do Cristianismo a Europa recebera a primeira mensagem autêntica de um mundo situado além do nosso. Em nossa época prevalece a convicção de que as mensagens são capazes de se tornarem contínuas e progressivas, que entre o mundo visível e o invisível existe um caminho de comunicação que as gerações futuras desejarão alargar e iluminar. Nossa época pode parecer a melhor; as deles lhes parecerão igualmente melhores e maiores.

Evolução espiritual: esse é o nosso destino neste e no outro mundo; a evolução gradual em numerosas etapas, à qual é impossível designar um limite. E a paixão da vida não é a debilidade egoísta, antes, um fator de energia universal. Deve-se manter sua força intacta, mesmo quando nossa lassidão nos impulsione a cruzar os braços num repouso eterno; deve sobreviver e aniquilar as “dores que conquistam a verdade”. Se os gregos consideravam como uma deserção do posto designado na batalha o fato de deixar através do suicídio a vida terrestre, quanto mais é covarde o desejo de desertar do cosmos, a resolução de nada esperar, não só do planeta, mas do conjunto das coisas!

Todavia, o homem pode sentir-se na sua casa no universo infinito; o pavor maior já passou; a verdadeira segurança começa a ser adquirida. O medo maior era o da extinção ou de solidão espiritual; a verdadeira segurança reside na lei da telepatia.

Elucidarei meu pensamento. À medida que consideramos os diversos aspectos sucessivos da telepatia, vimos que o conceito se alargava e se tornava mais profundo, gradualmente, durante o curso de nossos estudos. Ao princípio, se nos mostrou como uma transmissão quase mecânica de idéias e imagens de um cérebro a outro. E finalmente vimos que revestia uma forma mais variada e imponente, como se expressasse a verdadeira invasão por um espírito longínquo. Pudemos assinalar à sua atividade uma extensão maior que qualquer espaço da terra ou do oceano, preenchendo o abismo que separa os espíritos encarnados dos espíritos desencarnados, o mundo visível do invisível. Dir-se-ia não existir limite para a distância de suas operações, como não há para a intimidade de suas invasões.102

O amor, que segundo a definição de Sófocles, impulsiona “as bestas, os homens e os deuses”, com idêntica força, não é o efeito de um impulso carnal ou de um capricho emocional. Pode-se, agora, melhor definir o amor, como fizemos com o gênio, em termos que lhe dão um novo sentido, mas relacionando com os fenômenos que descrevemos. O gênio é uma espécie de clarividência exaltada, mas não desenvolvida. A invasão subliminar que inspira o poeta ou o músico dá-lhes uma profunda percepção, porém vaga, desse mundo invisível, no qual o vidente ou o médium lança um olhar mais restrito, porém mais exato. Da mesma forma, o amor é uma espécie de telepatia exaltada, mas não especializada, a expressão mais simples e universal dessa soberania dos espíritos, que são o fundamento da lei da telepatia.

Essa é a resposta ao medo de outros tempos. O medo tornou a sociabilidade do homem uma coisa exterior e a solidão uma coisa interior; fez-nos considerar os laços que nos unem a nossos semelhantes como resultado da luta pela existência, como gerados pelas necessidades do poder e coesão gregárias; e temia-se que o amor e a virtude desaparecessem como haviam nascido. Essa é a resposta aos que temem que pela separação dos centros da consciência estejamos condenados a ser sempre estranhos, quando não hostis uns aos outros, que as uniões e as sociedades sempre sejam interesseiras e ilusórias e o amor um armistício momentâneo no curso de uma guerra infinita e inevitável.

Esse medo desaparece desde que admitamos estarmos unidos pela alma aos nossos semelhantes, que o corpo separa, mesmo quando pareça unir, de sorte que “jamais o homem vive ou morre só”, senão que num sentido mais amplo que o da metáfora, “todos somos membros uns dos outros”. Como os átomos, como os sóis, como as vias-lácteas, nossos espíritos são sistemas de forças que vibram continuamente sob a dependência mútua de suas forças atrativas.

Tudo isso está apenas esboçado; são os primeiros contornos de um esquema de pensamento que demorará séculos para se desenvolver. Mas podemos supor que, quando o conceito do vínculo existente entre as almas tenha se enraizado, os homens desejarão voltar ao antigo egoísmo, ao antigo estado de beligerância? Não verão que esse conhecimento que alarga o mundo é, por sua vez, antigo e novo, que die Geisterwelt ist nicht verschlossen103 Que as revelações desse gênero sempre existiram, mas que agora adquirem para nós um sentido mais amplo, graças à ciência mais exata dos que as enviam e dos que as recebem?

Temos aqui, seguramente, um conceito mais amplo e exato do que todos os conhecidos, desta “educação religiosa do mundo”, sobre a qual os teólogos gostavam de insistir. Não temos necessidade nem de “intervenção sobrenatural”, nem de “plano de redenção”. Apenas temos que admitir que o mesmo processo expresso em nossos dias sempre se manifestou neste e no outro mundo.

Suponhamos que enquanto os homens encarnados evoluíram do estado selvagem ao civilizado, os homens desencarnados fizeram o mesmo. Suponhamos que se tornaram mais capazes e ansiosos de servir-se, nas suas comunicações com a terra, das leis que presidem as relações entre o mundo material e o espiritual.

De acordo com esta hipótese, os fenômenos automáticos que se produzissem não seriam intencionalmente modificados pelo poder espiritual. Sempre devem ter existido pontos de contato em que as coisas invisíveis se chocassem com as visíveis. Sempre houve “migrações clarividentes”, durante as quais o espírito do feiticeiro ou do bruxo distinguia coisas distantes da terra pelo poder incursivo do espírito. Sempre existiram aparições no momento da morte, efeitos conscientes ou inconscientes do choque que separa a alma do corpo e sempre houve assombrações quando o espírito já desencarnado voltava a ver, num sonho perceptível a outros, as cenas que assistira antes.

Com base nesses fenômenos desenvolveram-se (para não falar na Europa civilizada), a religião das adivinhações, antes, depois a religião cristã. As oferendas em ouro, de Creso ao oráculo de Delfos, nos proporcionam, a favor da clarividência de Pítias, o único testemunho que podemos esperar de uma tradição que nos vem dos primórdios da história.

E assim não compreenderemos melhor o caráter único e a realidade da revelação cristã, considerando-a como o grau culminante de uma evolução mais do que como uma exceção, como sendo chamada não para destruir a lei cósmica, senão para completar a sua efetivação? Pela primeira vez na história humana chegou do mundo invisível uma mensagem almejada por todos os corações, uma mensagem que satisfazia às necessidades fundamentais não só desta época, mas das que a seguem. Intelectualmente essa mensagem não podia satisfazer todas as épocas vindouras, em função da evolução do conhecimento e do poder que devia realizar-se quer do lado dos espíritos encarnados, quer dos desencarnados.

Ninguém, no momento da revelação, suspeitava dessa uniformidade, dessa continuidade do Universo que uma longa experiência quase transformou num axioma. Ninguém poderia prever o dia em que a busca de um milagre se transformasse na busca de uma lei superior.

Essa nova orientação científica não constitui, a meu ver, privilégio exclusivo dos habitantes terrestres. O mundo espiritual, como creio ter demonstrado, apresenta manifestações dessa mesma índole. Mas essas manifestações se produzem e devem produzir-se de acordo com o esquema da evolução normal. Devem repousar na educação, na separação do que entre os mortais constitui parte do invisível e participa do mundo imortal. O processo deve ser rápido e contínuo de ambos os lados. Achamo-nos na presença não de alguns acontecimentos isolados no passado (suscetíveis de ser interpretados de uma ou de outra forma, mas nunca renováveis), mas de um estado de coisas real e que se confunde com o mundo, que reconhecemos com uma clareza crescente de ano para ano, e que se volta numa direção cada vez mais previsível. Esse novo aspecto das coisas tem necessidade de uma nova generalização, de uma nova disposição; mostra-nos a possibilidade de uma síntese provisória da fé religiosa que constituirá a verdadeira conclusão desta obra.


Esboço provisório de uma síntese religiosa


Tenho motivos para esperar que não estejamos longe de uma síntese religiosa que, apesar de seu caráter provisório e rudimentar, acabará estando mais relacionada com as necessidades racionais do homem do que qualquer das que a precederam. Esta síntese não pode ser obtida nem graças ao mero domínio de uma das religiões existentes, nem pelo processo de sincretismo ou de ecletismo. A condição prévia, necessária à sua existência, consiste na real aquisição, quer com o auxílio das descobertas, quer em conseqüência de revelações de novos conhecimentos, utilizados de modo que todas as principais formas de pensamento religioso possam, através de uma expansão e um desenvolvimento harmonioso, formar simples elementos constitutivos de um todo mais compreensível. E acredito que, até o presente, adquirimos conhecimentos suficientes para me permitirem submeter aos leitores as conseqüências religiosas que, a meu ver, deles decorrem.

Por isso o nosso conceito de religião deve ser ao mesmo tempo profundo e claro, conforme a definição que demos e que é a de uma resposta normal e sadia do espírito humano a tudo que conhecemos da lei cósmica, isto é, a todos os fenômenos conhecidos do universo, considerados como um todo inteligível. Porém, a resposta subjetiva da maioria dos homens a tudo o que os rodeia cai, com freqüência, sob o nível do verdadeiro pensamento religioso: espraia-se em desejos, aprisiona-se nos ressentimentos ou se deforma pelos medos supersticiosos. Não é, pois, desses homens que falo, senão daqueles a quem o grande espetáculo inspirou uma vaga tendência à fonte de todas as coisas, em direção às quais o conhecimento gerou a meditação e os desejos elevados. Queria ver a ciência, depurada pela filosofia, transformar-se em seguida pela religião numa chama abrasadora; porque, na minha opinião, nunca seríamos demasiadamente religiosos. Desejo que o universo que nos circunda e nos atravessa, sua energia, sua vida, seu amor, ilumine em nós, na medida que nos submetamos a ele, o que atribuímos à alma universal ao dizer: “Deus é amor”, “Deus é a luz”. A energia inesgotável da benevolência onisciente que reside na alma universal deve transformar-se em nós numa adoração e numa colaboração entusiástica, numa obediência ardente ao que nossos melhores esforços nos permitem distinguir como o princípio regulador, em nós e fora de nós.

Mas, se tivermos da religião um ideal tão alto, elevando-a por sobre a cega obediência e o medo interesseiro, até o ponto de tornar a submissão a ela inteiramente voluntária, e de limitar suas exigências a respostas essencialmente espirituais, temos o direito de nos perguntar se é justo e razoável ser religioso, considerar com uma devoção tão completa um universo aparentemente incompleto e irresponsável em um princípio regulador que tantos ignoram ou colocam em dúvida.

O pessimista é da opinião de que os seres sensíveis são um erro no sistema das coisas. O egoísta age concorde com a máxima de que o universo carece de significação moral e que cada um por si “é a única lei indiscutível”. Atrevo-me a pensar que da resposta ao pessimista e ao egoísta se depreende o ideal de nossos novos conhecimentos. Persiste, é certo, uma dificuldade mais sutil, que as almas generosas sentem instintivamente. “O mundo, dizem essas pessoas, é uma residência imperfeita e nosso dever é fazer o possível para melhorá-la. Mas o que é que nos impele a sentir (e a fração mínima de nossa felicidade pessoal justifica um sentimento semelhante) um entusiasmo religioso por um universo no qual um único ser esteja condenado pela sua sensibilidade às dores inevitáveis?

A resposta a esses escrúpulos morais não pode, em grande parte, ser ditada pela fé. Se, com efeito, soubéssemos que nada existe além da vida terrestre, ou (o que é pior) que esta vida só supôs infindáveis sofrimentos a uma só alma, seria, de nossa parte, uma fraude moral atribuir o poder e a bondade à primeira causa, pessoal ou impessoal, de semelhante destino. Mas se acreditássemos na existência de uma vida infinita, com infinitas possibilidades de aprimoramento humano e de justificação divina, então parece exato afirmar que o universo é (de um modo que nos escapa) ou perfeitamente bom, ou em vias de sê-lo, pois pode transformar-se, em parte, graças ao ardor de nossa fé e de nossa esperança.

Nada mais faço do que mencionar estas dificuldades do início; e não insistirei sobre elas. Falo aos homens decididos, em virtude de seu instinto ou de sua razão, a serem religiosos, a aproximarem-se com uma veneração devota a um Poder e a um Amor infinitos. Nosso desejo é, simplesmente, encontrar o meio menos indigno de pensar em coisas que, necessariamente, estão além de nosso pensamento finito.

Podemos dividir as melhores emoções religiosas em três variedades, três correntes que correm paralelamente e cada qual surge, em minha opinião, de alguma fonte oculta na realidade das coisas.

Colocarei, em primeiro lugar, o sentimento obscuro dos livres-pensadores, pertencentes a diferentes épocas e a diferentes países e que designarei para evitar qualquer definição discutível, com o nome de religião dos antigos sábios. Sob esta denominação (ainda que Lao-Tsé não seja, talvez, mais do que um nome) ele nos foi apresentado num escorço sumário do grande sábio e poeta de nossa época; e as expressões como religião natural, panteísmo, platonismo, misticismo, nada mais fazem do que exprimir ou intensificar os diversos aspectos do conceito primordial que forma a base do sentimento em causa.

É o conceito da coexistência e da interpenetração de um mundo real ou espiritual e de um mundo material ou fenomenológico, crença nascida em muitos espíritos como conseqüência de experiências ao mesmo tempo mais decisivas e mais coerentes de quantas eles já tivessem conhecido. Repito: mais decisivas porque supõem o aparecimento e a atividade de um sentido que é “o último e mais amplo” de uma capacidade que permite abraçar, não direi a Deus (pois qual é a faculdade finita que pode abraçar o infinito?), mas, ao menos, alguns indícios vagos e fragmentários de um verdadeiro mundo de vida e amor. E mais coerente também por uma razão que, até estes últimos anos, parecera um paradoxo. Porque a colaboração mútua desses signos e mensagens não depende somente da sua própria concordância fundamental, até um certo ponto, mas também da inevitável divergência além desse ponto, quando passam do domínio das coisas sentidas ao das coisas imaginadas, da região da experiência real à da fé dogmática.

A religião dos sábios antigos é de uma antigüidade desconhecida, o mesmo acontecendo com as diferentes religiões orientais, que nos tempos históricos alcançaram seu ápice na religião de Buda. Para o budismo, todos os universos que se interpenetram formam outros tantos graus pelos quais o homem segue seu caminho ascendente, até ver-se livre de toda ilusão e desaparecer inefavelmente no todo impessoal. Mas a doutrina de Buda perdeu todo o contato com a realidade e não se fundamenta em fatos observáveis que se possam reproduzir.

O cristianismo, a mais jovem de todas as grandes religiões, repousa, incontestavelmente, sobre uma base formada por fatos observados. Esses fatos, tal como nos transmitiu a tradição, tendem seguramente a provar o caráter sobre-humano do fundador do cristianismo e seu triunfo sobre a morte, e ao mesmo tempo a existência e a influência de um mundo espiritual que é a verdadeira pátria do homem. Todos reconhecem que essas idéias se encontram na origem da fé. Mas desde os primórdios o cristianismo foi elaborado em códigos morais e rituais adaptados à civilização ocidental e crêem alguns que adquiriu, como regra de vida, o que perdeu como simplicidade espiritual.

Do ponto de vista do sábio antigo, as profundas igualdades de todos esses sistemas religiosos apagam suas oposições formais. Mas, advirto, não é da soldagem desses sistemas, nem do amálgama das melhores partes de cada uma das sínteses existentes que nascerá a nova síntese que prevejo. Nascerá do próprio renascimento de nossos conhecimentos e nesses conhecimentos novos cada uma das grandes formas do pensamento religioso encontrará seu desenvolvimento indispensável, diria mesmo quase predestinado. Desde seus albores nossa raça deparou-se com um caminho proibido; e, atualmente, as primeiras lições de sua primeira infância lhe revelam que grande parte do que acreditara instintivamente tem sua origem, sua raiz, na própria realidade.

Resumirei a conclusão religiosa que se depreende da observação e da experiência, antes que nossas descobertas possam ser citadas diante do tribunal da ciência, para nele receber sua definitiva consagração.

Digo conclusão religiosa porque suponho que as observações e as experiências sobre as quais me apoio sejam conhecidas; essas observações, experiências e deduções levaram diversos pesquisadores, eu entre eles, a acreditar na intercomunicação direta ou telepática, não só entre os espíritos encarnados, mas também entre os espíritos encarnados de um lado e os desencarnados de outro. Uma semelhante descoberta abre, igualmente, as portas à revelação. Graças à descoberta e à revelação, certas opiniões foram provisoriamente formuladas, no que concerne ao destino das almas livres dos corpos. Primeiramente e antes de tudo, acredito que estejamos autorizados a considerar seu estado como o de uma evolução infinita na sabedoria e no amor. Seus amores terrestres persistem e, acima de tudo aqueles amores superiores que procuram se manifestar na adoração e no culto. Não me parece seja possível tirar de seu estado argumentos para favorecer qualquer das existentes teologias. Onde se encontram, as almas parecem bem menos resignadas do que nós mortais acreditamos. Todavia, das alturas da posição privilegiada que ocupam no universo enxergam o que é bom. Não quero com isto dizer que saibam o que se relaciona ao fim ou a explicação do mal. Mas acham que o mal não é uma coisa tão terrível, mas que se apodera de nós e nos escraviza. O mal não se encontra encarnado em nenhuma autoridade poderosa; é, antes, um estado de loucura isolada, do qual os espíritos superiores tentam livrar as almas desnaturadas. Não há necessidade, para isso, da purificação pelo fogo; o autoconhecimento é o único castigo e a única recompensa do homem. Neste mundo, o amor é, realmente, a condição da conservação pessoal; a comunhão com os santos não é só o encanto da vida, mas a segurança da eternidade. Mas a lei da telepatia nos mostra que essa comunhão já se produz, de tempo em tempo, neste mundo. Sempre o amor das almas responde às nossas invocações. Sempre o amor, associado às nossas lembranças, o amor que é por si uma prece, ampara e reconforta essas almas libertas no seu caminho ascendente. Isto nada tem de assombroso, porque somos, com relação a elas, como companheiros de jornada, envoltos na bruma; “nem a morte, nem a vida, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer criatura são capazes de nos distanciar do fogo central do universo, nem de ocultar, sequer por um momento, a inconcebível unidade das almas.

Qual é o sistema que nos forneceu uma confirmação tão profunda da própria essência da revelação cristã? Jesus Cristo gerou “a vida e a imortalidade”. Por sua aparição, após a morte corporal, provou a imortalidade do espírito. Por seu caráter e seus ensinamentos, provou a paternidade de Deus. Tudo o que sua mensagem continha de dados demonstráveis estão aqui demonstrados; todas as suas promessas de coisas indemonstráveis estão aqui renovadas.

Aventurar-me-ei a uma opinião e a predizer que, graças aos novos dados que possuímos, todos os homens ponderados acreditarão antes de um século na ressurreição de Cristo, enquanto que sem esses dados ninguém acreditaria nela antes de transcorrido esse século. As razões que ditam minha predição são suficientemente claras. Nossa convicção sempre crescente da continuidade e da uniformidade da lei cósmica nos impõe progressivamente esta conclusão de que a singularidade de um incidente constitui exatamente sua inevitável refutação. Nosso século científico é penetrado, cada vez mais, pela verdade de que as relações entre o mundo material e o mundo espiritual não podem ser de caráter meramente moral ou emocional; que devem ser a expressão de um grande fato fundamental do universo que supõe a ação de leis tão permanentes, tão idênticas de uma época a outra, como nossas leis conhecidas, no que diz respeito à energia e ao movimento. E no que se refere a esta afirmação central, a vida da alma que se manifesta após a morte corporal é evidente que poderá cada vez menos apoiar-se apenas na tradição e deve, cada vez mais, buscar sua confirmação na experiência e nos estudos modernos. Suponhamos, por exemplo, que colecionamos algumas dessas histórias e que elas não resistiram a uma análise crítica, atribuindo-se todos os fenômenos nelas relatados a alucinações ou a erros nas descrições; podemos esperar que os homens ponderados admitam que esse fenômeno maravilhoso, que sempre se reduz a nada quando submetido à análise num ambiente inglês moderno, seja digno de fé, desde que se afirme que se produziu num país oriental, numa época distante e supersticiosa? Se os resultados das “investigações psíquicas” tivessem sido essencialmente negativos, os dados (não digo a emoção) do cristianismo não teriam recebido um irreparável golpe?

De acordo com minha opinião pessoal, nossas investigações deram resultados muito diferentes, grandemente positivos. Demonstramos que entre um grande número de fatos que se podem atribuir ao erro, à mentira, à fraude e à ilusão, existem manifestações indiscutíveis que nos vêm de além-túmulo. A afirmação capital do cristianismo recebe, dessa forma, uma concludente confirmação. Se nossos próprios amigos, homens como nós, podem às vezes vir para falar-nos de amor e de esperança, um espírito mais forte pode-se servir das leis eternas com maior intensidade. Nada nos impede de reconhecer que ainda que sejamos “filhos do Todo-poderoso”, Cristo tenha podido aproximar-se mais que nós, por um caminho que não podemos conceber ao que está infinitamente distante.

Isto dá ensejo a uma veneração ainda maior, por parte do homem. A afirmação difusa e imperfeita da revelação e da ressurreição está confirmada, nos nossos dias, por novas descobertas e revelações; pela descoberta da telepatia, que nos diz serem possíveis comunicações diretas quer entre espíritos encarnados, quer entre espíritos desencarnados; pelas revelações contidas nas mensagens que se originam dos espíritos desencarnados e que mostram, de maneira direta, o que a filosofia só suspeitou: a existência de um mundo espiritual e a influência que exerce sobre nós.



Nossos recentes conhecimentos confirmam, dessa forma, as antigas correntes do pensamento, de um lado corroborando o relato da aparição de Cristo após a morte e nos fazendo ver, de outro, a possibilidade de uma encarnação benfazeja de almas que, antes de sua encarnação, eram superiores à do homem. Isto relativo ao passado. E, no que diz respeito ao futuro, confirmam o conceito budista de uma infinita evolução espiritual, à qual se submete todo o cosmos. Ao mesmo tempo, revestindo-se de um caráter de realidade cada vez mais pronunciado, o fato de nossa comunicação com os espíritos libertos nos proporciona um sustentáculo imediato e nos deixa entrever a perspectiva de um desenvolvimento infinito, que consistirá num acréscimo da santidade, numa interpenetração cada vez mais íntima, dos mundos e das almas, numa evolução da energia e da vida na tríplice concepção da sabedoria, do amor e da alegria. Este processo, que se realiza de uma maneira diversa para cada alma em particular, é em si mesmo contínuo e cósmico, porque a vida que nasce da energia primitiva diviniza-se para se converter na alegria suprema.
FIM


Notas:


1Obra em dois volumes, publicada em Londres em 1886. Nela Myers, Gurney e Podmore estudam os curiosos fatos paranormais coletados pela Society for Psychical Research. (Nota da Editora.)

2“Nada ousar que não seja para desprezar as coisas inúteis.” (N. E.)

3Esta posição de Myers legitimou-se cientificamente com os surtos posteriores de pesquisas em plano universitário, que deram origem aos sistemas de Metapsíquica e Parapsicologia, iniciados e desenvolvidos com todos os rigores da metodologia científica. (N. E.)

4As pesquisas do coronel Albert de Rochas, em Paris, apresentadas em seu livro L’Exteriorisation de la Sensibilité (publicado no Brasil com o título Exteriorização da Sensibilidade, pela editora Edicel), comprovaram em laboratório os efeitos sugestivos de práticas mágicas, mesmo a distância. (Nota do Revisor.)

5Os avanços atuais nesse campo são referidos e analisados no volume Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires. (N. E.)

6Tomei a liberdade de compor a palavra paranormal para aplicá-la aos fenômenos que se encontram além do que ordinariamente acontece, isto é, em virtude de leis psíquicas que suponho desconhecidas. Esta palavra formou-se por analogia com a palavra normal. Por fenômenos anormais designamos não os fenômenos contrários às leis naturais, antes os que nos apresentam estas leis sob uma forma inusitada e inexplicável. Igualmente, um fenômeno paranormal não é, para mim, um fenômeno que excede as leis da Natureza, porque, na minha opinião, tal fenômeno não existe, senão o fenômeno pelo qual se manifestam leis, do ponto de vista psíquico, superiores às que vigoram na vida cotidiana. E por superior (no sentido fisiológico ou psíquico da palavra) entendo o que corresponde a uma fase mais avançada da evolução.

7Outros sábios eminentes (entre eles Alfred Russel Wallace) estavam convencidos, igualmente, da realidade desses estranhos fenômenos, mas não verificaram essa realidade com o necessário cuidado (Richard Granvil, John Wesley, Samuel Johnson, etc.).

8Nesse ponto Myers se enganou, tomando por Espiritismo o Néo-Espiritualismo anglo-saxão. No Espiritismo, desde a primeira publicação de Kardec em 1857, os fenômenos paranormais têm duas causas: a anímica, ou seja, a alma humana, o psiquismo do médium, e a espírita, ou a ação dos espíritos sobre os médiuns. Ver isto no volume Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires. (N. E.)

9Faltava a Myers o conhecimento exato do trabalho de Kardec na Société Parisienne d’Etudes Spirites, hoje acessível ao leitor de língua portuguesa graças à tradução e edição da Revue Spirite (Revista Espírita) em São Paulo. (N. E.)

10Os fenômenos paranormais são por assim dizer uma continuidade natural do campo dos fenômenos chamados normais. Charles Richet propôs a classificação de fenômenos habituais e inabituais. O estudo e a pesquisa do paranormal são, portanto, um desenvolvimento legítimo e necessário do processo científico, como Myers pretende. (N. E.)

11Reid apóia-se em Descartes e Leibniz: a essência da personalidade é espiritual e se manifesta pelo pensamento (posição cartesiana) e a sua forma ou estrutura, que é unitária, se define pelo conceito leibniziano da mônada, espécie de átomo espiritual que é a fonte de toda a vida. (N. E.)

12Th. Ribot, Les maladies de la personalité, 9ª edição, pág. 170-172, Paris, F. Alcan. A palavra consenso é aplicada nesse trecho em seu sentido filosófico de unidade formada pela interdependência das partes. Assim, a unidade consciencial, segundo a opinião materialista de Ribot, decorre da unidade corporal, formando ambas, em seu acordo somatopsíquico, a personalidade humana. A alma, nesse caso, seria um efeito da matéria. (N. E.)

13A posição atual da Parapsicologia, nos Estados Unidos e na Europa, através de seus principais expoentes, no tocante a esse problema, é exatamente a de Myers. O leitor encontrará as informações necessárias e as indicações bibliográficas no volume Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires.

14As críticas atuais do Prof. Rhine à Psicologia confirmam essa tese de Myers. Por trás do cérebro é que Rhine coloca a mente, não como produto cerebral, mas como a entidade extrafísica que se manifesta através do cérebro. E os grandes parapsicólogos europeus, como Soal, Carington, Price e Tischner, endossam com entusiasmo essa posição teórica mas bem fundada nos dados experimentais. (N. E.)

15Para atender a essas exigências de sutileza na investigação de fenômenos paranormais, os Profs. Joseph Banks Rhine e William Mac Dougal tiveram de criar novas formas metodológicas e apelar a rigorosos processos de controle nas pesquisas parapsicológicas. Graças a esses cuidados as provas de laboratório impuseram-se ao mundo científico. (N. E.)

16Por estranho que pareça, a franqueza de Myers, a sua ausência de preconceitos – em especial o preconceito científico do materialismo – ocasionou o desprezo do seu trabalho pelos meios científicos, empenhados num repúdio sistemático às teses espiritualistas ou neutras. Myers teria de esconder a sua aceitação racional da possível existência dos espíritos desencarnados para se fazer ouvir. Hoje, porém, o seu livro ressurge como um marco decisivo no campo das ciências psicológicas e as suas teses vêm socorrer os que abrem caminho em direção à Psicologia Integral, segundo os declarados objetivos da Parapsicologia em rápido desenvolvimento. (N. E.)

17As palavras alma e espírito se equivalem. No Espiritismo faz-se uma distinção relativa: alma é o espírito quando encarnado, animando um corpo. Após a morte o espírito volta à sua independência e não mais se chama alma. (N. E.)

18Negar uma possibilidade prática através de teorias, opondo a opinião a indícios constantes fornecidos pelos fatos, é atitude tipicamente anticientífica. Myers definiu bem essa questão no trecho acima. Hoje, com o avanço da própria Física além da matéria e com as conquistas da Parapsicologia, a posição de Myers adquire foros de inegável atualidade. (N. E.)

19A palavra colonial é aqui aplicada num sentido metafórico, definindo a constituição múltipla dos organismos como numa colônia, sob uma direção central. Em passagens anteriores a substituímos pela palavra coletivo, pois a metáfora dificultava a compreensão do texto. (N. E.)

20L’État mental des hystériques, pág. 171, Pierre Janet.

21Esta observação de Myers antecipou a tese de Joseph Nuttin sobre a personalidade normal, em oposição à doutrina freudiana da libido dominadora. Mas o próprio Freud teve vislumbres nesse sentido, e coube ao seu discípulo Karl Jung aprofundar os problemas relativos às forças de sublimação que elevam o homem acima da rede de instintos ligados à conservação da espécie. Assim, também nesse sentido é evidente a atualidade desta obra de Myers. (N. E.)

22Hipnotisme, double conscience, etc., Paris, 1887, reproduzido pelo Dr. Binet em Alterations de la Personalité, pág. 6-20, Paris, F. Alcan.

23Transactions of the College of Physicians of Philadelphia, 4 de abril de 1888, reproduzido por M. W. James no seu Principies of Psychology.

24Esse caso foi observado e descrito por Camuset, em Annales médico-psychologiques, 1882, pág. 15; por Voisin no Archives de neurologie, setembro de 1885; por Berjon, no La grande hysterie chez L’homme, Paris, 1886; e por Bourru e Burot no De la sugestion mentale, Paris, 1887 (Biblioteca Científica Contemporânea).

25Myers se esforça neste capítulo para isolar a personalidade em estudo, separá-la do contexto social em que vive ou viveu. Emprega o método de seccionamento visando ao exame exclusivo a personalidade em si. De certa maneira é um recurso de que se serviu para adequar um pouco mais o seu estudo às exigências da época. Mas esse isolamento é artificial, é a lenda de Robinson Crusoé transportada para a Psicologia. As pesquisas parapsicológicas atuais confirmam a tese espírita da interferência constante de entidades estranhas (vivas ou mortas) nos casos de personalidades múltiplas, seja por efeito telepático ou de presença espiritual junto ao paciente. No Espiritismo as variações de personalidade correspondem também a fenômenos de emersão de personalidades arcaicas, pertencentes a encarnações anteriores e que dormem no inconsciente. Nesses casos, a sua manifestação, se aproveitada terapeuticamente, equivale à catarse psicanalítica, livrando o paciente de sua influência profunda, que produz alterações no comportamento atual. Mas em todos esses casos não se pode excluir ou apagar o contexto, formado por entidades que conviveram no passado e atuam agora sobre o paciente. (N. E.)

26A existência de duas categorias de percepções, a consciente e a inconsciente, equivalentes à supraliminar e à subliminar, é hoje ponto pacífico em Psicologia e objeto de intensas pesquisas em Parapsicologia. (N. E.)

27Refere-se o autor a Hénaut e não Henault (Jean-François Hénaut), presidente da Câmara de Paris. (N. E.)

28Do Prof. Scripture, no American Journal of Psychology, IV-I, abril de 1901; Binet, na Revue Philosophique, 1895. O artigo de Binet se refere principalmente a Jacques Inandi, o mais recente prodígio, que difere dos demais em ser do tipo auditivo ao invés de visual. Seu dom foi descoberto durante a infância. Sua inteligência geral está sob a mediana. Outro prodígio recente, Diamanti, ao contrário, parece ter uma inteligência mais aberta.

29Curioso dado sobre o problema de funcionamento dos hemisférios cerebrais, indicando, pelo menos, a pouca influência que deve ter nas relações da fenomenologia paranormal. Golpe objetivo em teorias que pretendem relacionar a correção do canhotismo ao aparecimento e desenvolvimento de faculdades dessa ordem. (N. E.)

30Mind, abril de 1892.

31Le subconscient chez les artistes, les savants et les écrivains, pelo Dr. Paul Chabaneix, Paris, 1897.

32Adolphe Ratté, autor de La Forêt Bruissante, poeta simbolista católico, que contou sua conversão num livro de título agressivo: Du Diable a Dieu (1863-1930). (N. E.)

33Sobre a palavra demônio, assim se expressa J. Herculano Pires, em sua obra No Limiar do Amanhã, capítulo “Santos e demônios”:

“A palavra demônio vem do grego daimon, que significa espírito, gênio, e não diabo, como se pensa atualmente. Demônio quer dizer, simplesmente, espírito. (...) Quando havia qualquer problema grave de filosofia a ser resolvido, Sócrates consultava o seu daimon...” (N. R.)



34O desdobramento da personalidade é conhecido no Espiritismo como um fenômeno mediúnico. O médium se afasta do corpo e vai a grandes distâncias, mas não se desliga dele. É também chamado de bilocação. Myers aplica o termo em sentido psicológico. Desdobra-se a mente em duas direções: a supraliminar e a subliminar. (N. E.)

35Grifamos esse tópico por sua importância na elucidação psicológica de um dos mais complexos problemas filosóficos de hoje, no campo da Gnoseologia ou Teoria do Conhecimento.

Nesta observação Myers antecipa a contestação científica à teoria existencialista de Karl Jaspers, em nossos dias, sobre a lei diurna e a lei noturna da existência. Segundo Jaspers, filósofo e psicólogo, essas duas leis são inconciliáveis e dividem a existência humana de maneira irreversível. A lei diurna se opõe à paixão notâmbula, segundo afirma, e “em nenhuma existência se realiza a sua síntese”. Myers, com os dados positivos da observação científica, revela a dialética da vigília e do sono como poder criador, gerador de sínteses superiores. (N. E.)



36Nesse trecho Myers antecipou a moderna teoria psicológica, exposta inicialmente por Pietro Ubaldi em A Grande Síntese, de que a complexidade psíquica do homem projeta-se na complexidade das máquinas. Mas acrescentou o problema da reciprocidade com a influência das máquinas sobre os homens. (N. E.)

37Uma gentilimagem surgia no canto
Com a mesma forma de Vênus surgindo do mar.

38François Curel (Visconde de Curel) celebrizou-se por seus dramas psicológicos, repassados de lirismo e agudeza mental. Iniciou sua carreira como naturalista, evoluindo depois para a escola psicológica (1854-1928). (N. E.)

39Pertencendo à corrente da ciência psíquica inglesa, Myers não se aprofundara no conhecimento do Espiritismo, como já vimos anteriormente. Se houvesse estudado O Livro dos Espíritos, de Kardec, certamente se assustaria de ver que as suas hipóteses já se encontravam lá, de maneira mais racional e coerente. As potencialidades que ele atribui ao protoplasma – criando uma dificuldade lógica para a lei da evolução – pertencem ao princípio inteligente, a substância espiritual do Universo, de onde se desenvolve a sensibilidade rudimentar dos vegetais primários. A teoria bergsoniana do elã vital que penetra na matéria e vai aos poucos dominando-a, como a teoria aristotélica de forma e matéria, ou as teorias mais recentes do Padre Teilhard de Chardin seguem essa mesma linha. Léon Denis, discípulo e continuador de Kardec, definiu esse mistério numa frase famosa: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Eis “a mais humilde alusão à lei desconhecida” que Myers desejava. (N. E.)

40Eneida, XII, 908; Ilíada XXII, 199.

41S. P. R.Society for Psychical Research (Sociedade de Investigações Psíquicas)

42Brain, janeiro 1887.

43De l’Intelligence, 1, pág. 119.

44Archives de Medicine, 1876, I, pág. 554.

45An Experimental Study in Hypnotism, pelo Dr. R. Von Kraft-Ebbing, versão inglesa de chaddock, pág. 91.

46Revue d’Hypnotisme, junho 1891, pág. 302.

47Les Rêves, pág. 136. Esse indivíduo notável apresenta, nas suas lembranças das diferentes fases de sua personalidade, diversas formas de comunicações. Ver pág. 192-200, onde figuram exemplos dessas lembranças complexas.

48Revue de Medicine, fevereiro 1892, e na obra de Pierre Janet, Nevroses et Idées fixes, I, pág. 116 e seguintes, Paris, F. Alcan.

49Proceedings of the S. P. R., V, pág. 507.

50Essa faculdade é hoje explorada na propaganda subliminar do rádio, da televisão e do cinema, além de outras aplicações no campo didático. (N. E.)

51Revue Scientifique, 3ª série, XXXII, pág. 167.

52Esse problema está hoje praticamente resolvido na Parapsicologia atual. No Espiritismo, desde Kardec é observada a divisão básica de fenômenos anímicos e fenômenos espíritas, não absoluta, pois em qualquer dos campos há geralmente influências provenientes do outro. (N. E.)

53Myers interpreta o caso como telepático. Mas pode ser telestésico, uma percepção à distância, o que evita o desvio e a intervenção da sogra e da esposa no fenômeno. Veja-se Comunicações Mediúnicas entre Vivos e A Crise da Morte, de Ernesto Bozzano. (N. E.)

54As pesquisas do Prof. Ernesto Bozzano, em Comunicações Mediúnicas entre Vivos, mostram que entre o sono e a vigília há uma área diurna de ação independente do espírito. Essa área se constitui dos chamados instantes de ausência psíquica – distração, cochilo, fuga mental –, que representam momentos hipnóticos de interferência na vigília. Assim, as operações especiais do sono a que Myers se refere não se restringem apenas ao tempo do sono. Bozzano demonstra, com fatos, que elas se realizam também, e às vezes de maneira bastante intensa, nos intervalos hipnóticos da vigília. As visões, as premonições, os fenômenos de hiperestesia, etc., só podem ocorrer graças a essa possibilidade de evasões efêmeras do espírito à pressão externa da vida de vigília. Somos interexistentes, vivendo ao mesmo tempo em dois mundos, o material e o espiritual, mas sempre atraídos por este último, que corresponde à nossa natureza de espíritos. (N. E.)

55Recherches physiologiques sur l’homme, Paris, 1811; Memoires pour servir a l’histoire et à l’etablissement du magnetisme animal; Du magnetisme animal consideré dans ses rapports avec diverses branques de la physique general, etc.

56Dr. Hill, em British Med. Journ., 4 de julho de 1891.

57Neste caso Myers parece fazer uma concessão indevida à concepção materialista, e isso em virtude de sua teoria da dupla adaptação da consciência supraliminar ao mundo físico e da consciência subliminar ao mundo espiritual. São dois enganos tanto mais evidentes quanto quebram a lógica admirável dos seus estudos. A hiperestesia e a heterestesia, como hoje o demonstram as pesquisas parapsicológicas e como há um século já demonstraram as pesquisas espíritas (ver Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, segunda parte, capítulo VI, Estudo sobre as sensações nos espíritos), são fenômenos de exteriorização da alma, que nesses casos prescinde dos órgãos sensoriais. Ver também: J. Herculano Pires, Parapsicologia Hoje e Amanhã. (N. E.)

58Os estudos e as pesquisas atuais não avançaram muito no campo da alucinação. O famoso livro de Tyrrell sobre a questão oferece uma teoria que pode ser considerada alucinatória com a estrutura de uma montagem de televisão para explicar o fenômeno. Myers coloca o problema nos termos da teoria espírita ao mostrar que se trata de efeito telestésico. A transferência de sentidos (hipótese absurda) foi também explicada por Kardec como percepção pelo espírito (direta e portanto telestésica), dando ao sujeito a impressão ilusória de que percebe pelas pontas dos dedos ou através de outros órgãos desprovidos de aparelhamento visual. (N. E.)

59Ver Bulletins de la Société de Psychologie Physiologique, I, pág. 24 e Revue Philosophique, agosto 1886.

60As experiências de ação hipnótica à distância foram repetidas com êxito na Parapsicologia atual. Ao mesmo tempo, a efluviografia desenvolveu-se amplamente, provando a existência das influências referidas por Myers. (N. E.)

61A atual Filosofia da Interexistência foi aqui antecipada por Myers como extrema lucidez. O homem não é apenas o existente das Filosofias da Existência, mas o interexistente, vivendo entre dois mundos, entre duas hipóstases existenciais. (N. E.)

62A teoria do elã vital, que Henri Bergson proporia em nossos dias, é a mesma solução aventada por Myers. O elã vital é o tipo sui generis que o pensamento do autor antecipava com inegável clarividência. (N. E.)

63A expressão mais além da abóbada celeste é uma concessão de Myers à linguagem comum, com vistas à necessidade de mais generalizada compreensão do problema. Vemos, neste final de capítulo, que Myers atingiu uma concepção da vida e do homem, induzida cientificamente das experiências e pesquisas psicológicas e hipnóticas, que o colocam acima dos conceitos vulgares. Sua concepção do mundo é monista-espiritual e de bases científicas – empíricas e indutivas – segundo o modelo kardecista. Merece anotação especial a sua definição da morte, que figura neste final de capítulo. (N. E.)

64As visões no cristal são projeções anímicas de fenômenos ideo-emotivos ou de percepções extra-sensoriais. Myers complicou de tal forma a questão nesse trecho que se tornou enigmático. Há também alguns fenômenos de projeções ideoplásticas. (N. E.)

65No item 540 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, encontramos este princípio: “Tudo se encadeia no Universo, desde o átomo até o anjo, que também já foi átomo.” (N. E.)

66Em seu livro Phantasms of the Living e na obra de Podmore, Apparitions and Thougt-transference.

67É evidente que se trata de uma tradução simbólica, na consciência supraliminar, de uma percepção da consciência subliminar. M. L. está em pé, contente, em traje de passeio e com sua bengala porque não está morto, mas inicia como espírito uma vida nova e melhor. (N. E.)

68É evidente que não existe razão alguma teórica para limitar a telepatia aos seres humanos. Pode existir tanto entre os homens e animais inferiores, como entre os animais. (*)

(*)Ver a situação atual desses problemas em Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires. (N. E.)



69Ver, em Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires, o capítulo sobre “precognição”. (N. E.)

70Esta observação de Myers está hoje comprovada pelas pesquisas parapsicológicas. (N. Rev.)

71As pesquisas atuais demonstram que a transmissão telepática não se assemelha à telegráfica, como então se acreditava, mas se abre como onda hertziana, podendo ser captada ao mesmo tempo por várias pessoas e em vários lugares. (N. E.)

72O caso é realmente curioso e merece maior confirmação. A paciente era a sra. Helen Alexander, que aliás morreu duas horas depois de assistida por Reddell. Uma irmã da falecida, que também acompanhara os pais, confirmou, na chegada deles a Antony, o pormenor a que faz referência o nosso autor, o qual, dizendo haver muita semelhança entre a visão e a genitora, acrescenta que não havia nenhuma semelhança entre mãe e filha, o que dá muito valor ao caso, pois se a filha se parecesse com a mãe, poderiam alegar os possíveis contraditores ter havido uma transmissão telepática (ou coisa parecida) por parte de Reddell. Mas sendo muito grande a dessemelhança, e não conhecendo ele a genitora da paciente, que transmissão telepática poderia haver ou ter havido? (N. E.)

73Hoje a Parapsicologia sustenta que todos os fenômenos paranormais se reduzem a um denominador comum, que é psi, a faculdade de percepção e comunicação do inconsciente (mente subliminar). Psi é una em essência e múltipla em manifestação. No Espiritismo, desde 1857 a faculdade mediúnica (psi em parapsicologia) é considerada una e múltipla. (N. E.)

74Essa diferenciação foi também obtida pela Parapsicologia moderna através de testes especialmente elaborados. (N. Rev.)

75Sabe-se hoje que o álcool é estimulante de faculdades paranormais, quando usado em excesso. (N. E.)

76A autoprojeção, hoje mais conhecida como projeção do eu, aparece assim como um traço de união entre as duas formas existenciais do homem: tanto em vida quanto após a morte podemos realizá-la com a mesma objetividade e as mesmas características. (N. E.)

77Ver I morti ritornano e Comunicações mediúnicas entre vivos (este em português, de Ernesto Bozzano); mais recentemente, Os canais ocultos da mente de Luiza Rhine. As objeções de Gurney e Myers à realidade dessas manifestações estão hoje superadas. Tanto as investigações psíquicas quanto os fatos espontâneos investigados pela professora Rhine nos Estados unidos e as investigações atuais sobre a reencarnação provaram a autenticidade dessas manifestações. (N. E.)

78Lembremos que em certas experiências, como na escrita automática, a impressão se produz pelo sistema motor e não sensorial do sujeito, de modo que ele não se apercebeu nunca, diretamente, dela.

79Ver caso 500 no Phantasms of the Living, II, pág. 462.

80As pesquisas parapsicológicas atuais demonstraram que uma transmissão telepática pode ser captada antes ou depois da sua emissão pelo agente. Os fenômenos psi não estão sujeitos ao condicionamento espaço-temporal. (N. E.)

81Por “comuns” entendo os grupos reconhecidos e estudados em Phantasms of the Living. Mas, se as pessoas mortas sobrevivem, a possibilidade de uma transmissão de pensamentos entre elas e os vivos constitui uma hipótese plausível. Nossa teoria telepática, como é uma teoria psíquica, desprovida de qualquer interpretação física, é perfeitamente aplicável (ao menos de nome) aos estados de existência “desencarnada”. (Phantasms of the Living, I, pág. 612).

82A área de pesquisa científica a que Myers se ateve isolou-o dos planos inferiores em que a maldade prevalece. A terapêutica espírita, os exorcismos religiosos e hoje as aplicações terapêuticas da Parapsicologia negam infelizmente esse otimismo do autor, só aplicável aos planos mais elevados da vida espiritual. Ver 30 anos entre os mortos, de Karl Wickland (Sudamericana, Buenos Aires, 1939 - trad.) A Study of Telepathy in Interpersonal Relationships, de Jean Erenwald, George Allen, Ed., Londres, 1954, e O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, edição crítica, Edicel, Calvário ou Lake, São Paulo. (N. E.)

83Para evitar qualquer confusão, devo dizer que não penso negar que a telepatia (ou seu corolário, a telergia) possa, em certos aspectos, ser mais freqüente ou mais poderosa entre os selvagens do que entre nós. Os processos evolutivos não são necessariamente contínuos. A aquisição, por nossos ancestrais, de organização inferior do sentido do olfato, por exemplo, foi um progresso no caminho da evolução. Mas o sentido do olfato alcançou, talvez, seu grau de energia mais elevado entre as raças inferiores ao homem e foi diminuindo insensivelmente sua potência, inclusive durante o curto intervalo que separa o homem civilizado do selvagem contemporâneo. Contudo, se alguma modificação de nosso meio tornar novamente útil o olfato, sua recuperação constituirá um processo evolutivo, tendo em vista que a evolução foi interrompida.

84Não quero afirmar que todos os estados psíquicos pouco comuns sejam, necessariamente, evolutivos ou dissolutivos. Prefiro supor a existência de estados que estariam mais bem definidos com o nome de alotrópicos, isto é, das modificações na disposição dos elementos nervosos de que depende nossa identidade consciente, sem que seja superior ao outro, como não o é o carvão ao grafite e vice-versa. Mas pode existir estados em que o carvão converta-se em diamante, pela substituição da estrutura amorfa pela cristalina.

85Sensation et Mouvement, Paris, 1887, F. Alcan.

86O Prof. Remy Chauvin acusou recentemente, em artigo na revista Planète, Paris, os cientistas avessos a novidades de sofrerem de alergia ao futuro. (N. E.)

87Cientificamente usa-se hoje a expressão paranormal para classificar a faculdade mediúnica. (N. E.)

88Os dados históricos e a documentação a respeito não autorizam a suposição da influência exercida por Kardec sobre os médiuns. Pelo contrário, Kardec não era reencarnacionista ao iniciar no mundo a pesquisa dos fenômenos paranormais. (N. E.)

89Houve um lapso do nosso autor, currente calamo: em o número de março-abril dos mencionados Annales des Sciences Psychiques o que há é um artigo de Aug. Lemaitre, Contribution à l’étude des phénomènes psychiques, aliás longo. Curiosamente Lemaitre omitiu o nome da médium por “discrição”. Em o referido número nada há de E. Lefébure, que aparece em o número seguinte de maio-junho (número três) com o artigo Remarques sur les Expériences de M. Lemaitre. Ainda curiosamente em o mesmo número três já vem a resposta de Lemaitre a Lefébure.

Lemaitre faz uma análise, pelo que parece muito profunda, da língua hindu, comparando-a com o francês pela apreciação de diversos termos. Em todos os artigos não se tocou nenhuma vez no personativo de Hélène Smith, cujo anonimato conservaram então. Em o número quatro do mesmo ano (1897), vem, na página 255, uma carta de Th. Flournoy, dirigida à redação da revista e em que ele, fazendo referência à questão, prometia explicar, sob o ponto de vista psicológico, o fenômeno sem recorrer à explicação espírita de encarnações, vidas anteriores e assim por diante...



Nestas condições, segundo a própria citação de Myers, quem tratou primeiramente de Hélène Smith foi Lemaitre e não Lefébure. (N. E.)

90Ver, do mesmo autor, Nouvelles Observations (pág. 212-213), onde se afirma que um homem que habitava a casa onde a Srta. Smith costumava realizar suas sessões tinha uma gramática sânscrita que se encontrava no lugar exato onde as sessões eram realizadas. No mesmo livro (pág. 206-210), Flournoy demonstra a existência de outras fontes, fora o livro de Marlès (encontrado nas principais livrarias de Genebra) onde a Srta. Smith pôde obter suas informações sobre a Índia; e coloca em relevo (pág. 203-206) na novela hindu as numerosas contradições internas que a tornam incompatível com qualquer hipótese de reencarnação.

91A obra de Marlès (Lacroix de), cuja primeira edição é de 1828, é a seguinte: Histoire Générale de l’Inde ancienne et moderne, depuis l’an 2000 av. J. C. jusqu’a nos jours; avec carte. (N. E.)

92A diferença entre a captação telepática e a invasão subliminar, de um lado, e a comunicação espiritual, de outro lado, está no envolvimento do médium por uma entidade estranha, dotada de vontade própria e capaz de caracterizar os seus pensamentos e ações com inteira independência, principalmente quando o médium conserva a sua plena consciência e capacidade crítica durante a manifestação. (N. E.)

93Moses é o Reverendo William Stainton Moses, ministro anglicano, pastor de Man e professor da University School College, que desenvolveu notável mediunidade psicográfica e de efeitos físicos. (N. E.)

94As pesquisas espiríticas mostraram que o espírito possessor não se “apodera” do corpo do possesso, mas se liga magneticamente, por meio de suas correntes energéticas (a força psíquica de Crookes) ao espírito do possesso, graças às afinidades com este, subjugando-o. É por meio do espírito do possesso que ele impõe a este a sua vontade. As pesquisas parapsicológicas atuais sobre ação hipnótica por via telepática e sobre os fenômenos theta (manifestações de espíritos) caminham na direção dessa teoria. (N. E.)

95Por suspensão da vitalidade devemos entender o estado de catalepsia ou morte aparente. (N. E.)

96Ver o conceito atual de telepatia em Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires. (N. E.)

97William Stainton Moses, Spirit Teachings, obra editada em português sob o título Ensinos Espiritualistas, pela editora FEB.

98Vide capítulo VII.

99Ver o capítulo de W. James, em Psychological Review, julho, 1898;

100A expressão êxtase foi substituída por transe, ficando aquela reservada para os fenômenos típicos de arrebatamento espiritual. Há também uma seqüência de fases no desenvolvimento do êxtase, que vai desde a simples distração, passando pelo transe, até o êxtase propriamente dito. (N. E.)

101Expressão popular alemã para designar o vazio, as desesperanças, o desengano da vida. (N. E.)

102As modernas pesquisas de telepatia à distância, em terra e no espaço cósmico, confirmaram em nossos dias essa esperança de Myers. (N. E.)

103Que o mundo espiritual não está fechado, não é indevassável. (N. E.)








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