Fredrich W. H. Myers a personalidade Humana



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VII
Os fantasmas dos mortos


Chegamos aqui, insensivelmente, a um ponto de importância fundamental. Um problema profundo e central que abordamos apenas de uma maneira irregular e intermitente nos capítulos anteriores e que agora vamos enfrentar diretamente. Das ações e percepções de espíritos encarnados ainda, que se comunicam uns com os outros, passaremos ao estudo das ações dos espíritos liberados de seu invólucro carnal e às formas de percepção, com a ajuda das quais os homens ainda vivos respondem a essas influências insólitas e misteriosas.

Essa transição é realizada sem solução de continuidade. O eu subliminar que já estudamos através das diferentes fases de sensibilidade crescente, que vimos adquirir uma independência cada vez maior dos laços orgânicos, será agora estudado do ponto de vista de sua sensibilidade, a respeito de influências ainda mais afastadas, como se fosse dotado de uma existência independente, mesmo depois da destruição do organismo. Nosso tema apresenta, naturalmente, três divisões principais:



  • Em primeiro lugar, discutiremos brevemente o valor dos argumentos teóricos em favor da sobrevivência depois da morte e suas relações com os argumentos apresentados nos capítulos precedentes;

  • Em segundo lugar, e isto constitui o ponto capital deste capítulo, precisamos fazer uma classificação racional dos argumentos em favor da sobrevivência, no que se refere especialmente ao automatismo sensorial, vozes ou aparições; e os fatos do automatismo motor, escrita automática e possessão ficam para uma discussão posterior;

  • Em terceiro lugar, finalmente, examinaremos o significado do conjunto dos fatos em questão e sua importância do ponto de vista do futuro científico e moral da humanidade.

Primeiramente, no que concerne à evidência em relação à sobrevivência humana, esbarramos, na maioria dos casos, mesmo tratando com pessoas inteligentes, com uma prevenção absoluta, com a resolução decidida de não acreditar nos fatos desse gênero. Essas pessoas dizem que só se deixarão convencer no dia em que tenham provas de que existe uma relação de continuidade entre os fenômenos em questão e os já reconhecidos e provados, e por enquanto se recusam a imaginar qualquer relação de continuidade entre a hipótese da existência do mundo espiritual e a evidência que aparece nas nossas experiências relacionadas com o mundo material. Eu reconheço essa necessidade de continuidade e reconheço também que os argumentos levantados até agora em favor da existência do mundo espiritual desconheceram e descuidaram demasiadamente dessa necessidade. O espírito popular desejou sempre qualquer coisa de extraordinário que fosse além das leis naturais; sempre professou o Credo quia absurdum ou o Credo quia non probatum. Disso resultou fatalmente uma grande insegurança na convicção assim adquirida. Se privado do apoio do sistema geral da ciência, o ato de fé parece retroceder e apagar-se na medida em que o sistema avança e cresce.

Não é demais voltar a dizer que o objetivo que eu procuro é de um caráter totalmente oposto. Acreditando que todo o espírito cognoscível é tão contínuo quanto toda a matéria cognoscível, eu gostaria da fazer no campo espiritual o que a análise espectral e a lei da gravitação fizeram no campo material e mostrar que nas operações do mundo espiritual desconhecido reina a mesma conformidade de substância e de ação recíprocas que no mundo conhecido da matéria. E para explorar estas atitudes inacessíveis não me colocarei, como os teólogos, sobre uma torre cuja parte superior se perde nas nuvens, mas sobre a terra firme e na bem medida base de uma figura trigonométrica.

Para poder medir esta base devemos começar limpando o terreno. Vejamos primeiro as definições mais simples, para esclarecer para nós mesmos as coisas que desejamos analisar e descobrir. Para falar a linguagem do povo, procuramos os espíritos. Qual é o significado que devemos dar à palavra espírito, em volta da qual desenvolveram-se teorias tão arbitrárias, e que provocaram tantos temores sem causa? Seria preferível, no estado atual dos nossos conhecimentos, que nos limitássemos a reunir simplesmente os fatos, sem nenhum comentário especulativo. Mas é também necessário expor os erros manifestos do ponto de vista tradicional, o qual, se não for refutado, poderia parecer o único possível, até para aqueles que sempre se recusaram a aceitá-lo.

Porque, segundo a opinião do povo, um espírito é uma pessoa morta autorizada pela Providência a manter-se em contato com os sobreviventes. Esta breve definição inclui, na minha opinião, três afirmações desprovidas de base.

Em primeiro lugar, as palavras Providência ou autorização podem ser aplicadas ao fenômeno em questão tanto quanto a qualquer outro fenômeno. Reconhecemos que todos os fenômenos acontecem segundo as leis do universo, e portanto com a autorização da Potência Suprema do universo. Inegavelmente a realização dos fenômenos de que nos ocupamos está autorizada, mas não de uma maneira especial, que converteria este fato numa exceção da regra, sendo que é apenas uma de suas aplicações particulares. E ao mesmo tempo esses fenômenos encerram apenas uma justiça poética e não estão mais adaptados aos desejos e pregações humanas do que os fenômenos que se desenvolvem no acontecer comum da história da Terra.

Em segundo lugar, nada nos autoriza a afirmar que o fantasma ou o espectro que enxergamos, mesmo quando seja provocado por uma pessoa morta, seja esta mesma pessoa, no sentido comum da palavra. Trata-se, em todo caso, de uma dessas figuras alucinantes ou fantasmas, análogos aos que as pessoas vivas são capazes de projetar à distância, sem que seja possível afirmar que a aparição que enxergamos seja a mesma pessoa viva; igualmente, o que chamamos de um espectro ou uma aparição não é a mesma pessoa morta; existe, com certeza, uma ligação entre o espectro e a pessoa morta, ligação que a natureza deve determinar, mas que está longe de significar a identificação completa.

Em terceiro lugar, já que não devemos ver no fantasma a mesma pessoa morta, não deveremos atribuir ao primeiro as intenções que pensávamos que podíamos atribuir à última. Devemos, pois, excluir da nossa definição de espírito tudo aquilo que possa ser uma alusão e uma intenção sua de comunicar-se com os vivos.

O espírito pode ter, com a pessoa morta, um tipo de relação que reflita o presumível desejo desta última de manter-se em comunicação com os vivos ou então essa comunicação pode não existir. Se, por exemplo, existir entre ele e sua vida post-mortem uma relação semelhante à que comprovamos entre nossos sonhos e nossa vida terrena, pode representar uma pequena parcela do que lhe pertence em propriedade, se se trata apenas de algumas lembranças e instintos vagos, daqueles que dão uma individualidade difusa e obscura aos nossos sonhos mais comuns.

Tentemos, pois, uma definição mais exata. Deixemos de ver o espírito como uma pessoa morta autorizada a entrar em comunicação com os vivos e vamos defini-lo como uma manifestação de energia pessoal persistente, ou como um indício de que uma certa potência, cuja idéia está unida à de uma pessoa que conhecemos antes, durante sua vida terrena, continua a se manifestar depois da morte. E para eliminar de nossa definição qualquer afirmação popular, devemos acrescentar que é teoricamente possível que essa força ou influência que, depois da morte de uma pessoa, cria uma impressão fantasmagórica desta pessoa, não seja devida a uma ação real da mesma, mas a qualquer resíduo da força ou da energia que produziu enquanto estava viva. Pode tratar-se de uma dessas pós-imagens verídicas de que falava Gurney, que, comentando as aparições repetidas de um fantasma de uma anciã na cama onde foi assassinada, observava que o dito fantasma “sugere menos a idéia de um interesse local contínuo da parte da pessoa morta, do que a sobrevivência de uma simples imagem impressa; não sabemos quanto, nem sobre o que, pelo organismo físico desta pessoa, é perceptível de vez em quando para pessoas dotadas de uma sensibilidade especial”. (Proceedings of the S. P. R., vol. V, pág. 417).

Essa noção, apesar de estranha, parece porém confirmada por alguns dos casos de obsessão que mencionaremos mais tarde. Veremos, então, a freqüência do aparecimento das mesmas imagens alucinatórias nos mesmos locais, e como é inverossímil a idéia de admitir uma intenção qualquer ligada a esses aparecimentos, uma relação qualquer entre elas e as pessoas mortas ou o gênero de tragédia que, no espírito do povo, são freqüentemente associadas ao fenômeno do aparecimento. Em alguns desses casos de aparecimento freqüente, injustificado, de determinada figura em determinado lugar, podemos perguntar-nos se foi a freqüência em outras ocasiões, pela pessoa morta no local em questão, ou se se trata então de algum ato recente que se manifestou depois da morte, que provocou o que eu chamei de pós-imagem verídica, na medida em que esta comunica informações desconhecidas até a data para a pessoa receptora, como antigo habitante da localidade assombrada.

Estas são algumas das questões levantadas por nosso tema. E o fato de que problemas tão estranhos possam apresentar-se a cada instante tende a demonstrar, de certa forma, que esses aparecimentos não são fenômenos puramente subjetivos, nascidos exclusivamente na imaginação da pessoa receptora. Eles não são absolutamente o que os homens pensam. A colheita infinita de lendas e histórias fictícias concernentes aos espíritos mostram como é grande a tendência do espírito humano para enfeitar esses temas e proporciona uma prova curiosa da persistência dos preconceitos, baseados num código particular e referindo-se a fenômenos imaginários, totalmente diversos dos fenômenos reais. É difícil revestir, por assim dizer, um fenômeno real de um caráter romântico. A maioria das “histórias de aparições” são semelhantes entre si e parecem tão fragmentárias quanto desprovidas de sentido. Pois seu verdadeiro sentido não está de acordo com o instinto místico e poético da humanidade, que produz e enfeita as histórias imaginárias, mas com alguma lei desconhecida, que nada tem a ver com os sentimentos e os convencionalismos humanos.

Assim, assistimos freqüentemente ao fato bastante absurdo de ouvirmos pessoas que ridicularizaram os fenômenos que se produzem realmente, apenas porque eles não estão de acordo com as suas noções preconcebidas a respeito das histórias de aparições; eles não percebem que é precisamente essa divergência, essa característica inesperada, que constitui um sério indício de que os fenômenos em questão têm sua origem fora do espírito, incapazes de representar-se antecipadamente os fenômenos desse gênero.

Acho que pela primeira vez começamos a formar, sobre as comunicações espirituais, um conceito que esteja mais ou menos de acordo com os outros conceitos já provados e mais afirmados, e que possa, até a uma certa medida, ser apresentado como o desenvolvimento dos fatos verificados pela experiência. Precisamos dos conceitos preliminares, já conhecidos pelos antigos, o primeiro dos quais encontra lugar recentemente na ciência, enquanto o segundo ainda espera a sua patente de ortodoxia. O primeiro, com o qual o hipnotismo e os diversos tipos de automatismo nos familiarizaram, é o conceito da personalidade múltipla, da co-existência potencial de diversos estados e diversas memórias no mesmo indivíduo. O segundo conceito é o concernente à telepatia, isto é, à ação de um espírito sobre outro fora dos órgãos dos sentidos ordinários, e mais particularmente à ação por meio das alucinações, pela produção de fantasmas verídicos que constituem, por assim dizer, mensagens de parte de pessoas vivas. E acredito que esses conceitos estejam unidos porque as mensagens telepáticas têm, geralmente, seu ponto de partida na zona subconsciente ou submersa do agente e chegam à zona submersa ou subconsciente do receptor. Sempre que há uma alucinação, falsa ou verdadeira, trata-se de uma mensagem qualquer que abre caminho, de uma parte a outra da personalidade, mesmo a mensagem tomando a forma de um sonho incoerente, ou sonho-símbolo, de uma maneira qualquer, de um fato inacessível de outra maneira, para a pessoa receptora. O mecanismo é o mesmo quando a mensagem se desloca de uma zona para outra, no interior do mesmo indivíduo, e quando se transmite de um indivíduo para outro – no caso em que o eu consciente de A é estimulado pelo seu eu inconsciente e que B é estimulado telepaticamente pelas profundas e ocultas fontes de percepção de A. Se esta opinião é de alguma maneira verdadeira, parece aconselhável procurar dentro dos nossos conhecimentos sobre as comunicações anormais ou supranormais entre espíritos ainda encarnados ou nos estados anormais ou supranormais do mesmo espírito ainda não liberado da envoltura da carne, as analogias que possam nos iluminar, mesmo parcialmente, sobre os fenômenos de comunicação entre os espíritos encarnados e os espíritos desencarnados.

Mas uma comunicação (sempre que for possível) entre uma pessoa morta e uma pessoa viva é uma comunicação entre um espírito em uma certa fase da existência, e outro espírito em uma fase completamente diferente; é, ainda, uma comunicação que se realiza por uma via diferente dos órgãos dos sentidos ordinários, desde que, de uma parte, os órgãos materiais dos sentidos não existem. Encontramo-nos, evidentemente, na presença de um exemplo extremado, tanto de comunicação entre os diversos estados do mesmo indivíduo, quanto de comunicações telepáticas; e poderíamos, quem sabe, formar uma idéia mais exata do fenômeno em questão, considerando as manifestações menos avançadas destas duas categorias.

Em que oportunidades vemos um espírito que se comunica com um outro espírito, em condições diferentes das que envolvem o primeiro, habitando num mundo diferente, considerando as mesmas coisas de um ponto de vista também diferente, todas essas diferenças exprimindo qualquer coisa além das divergências de caráter que existem entre as duas personagens?

Isto acontece primeiramente no sonambulismo espontâneo, nos diálogos entre uma pessoa adormecida e uma pessoa acordada. E vejamos como é fácil entrar em comunicação com um estado que, em princípio, se assemelha ao do isolamento completamente fechado. Um velho ditado diz: “Acordados possuímos o mundo em comum, mas cada pessoa que dorme vive num mundo particular.”

Porém essa pessoa que dorme, mesmo completamente fechada em si mesma, pode ser levada, suavemente, a uma comunicação espontânea com os homens acordados.

O sonâmbulo, ou melhor ainda, o soníloquo, pois o problema é mais de conversação do que de perambulação, representa assim o primeiro tipo natural da aparição.

Observando os hábitos dos sonâmbulos é possível perceber que a sua possibilidade de comunicar com outros espíritos varia de um caso para outro. Um sonâmbulo se dedica às suas ocupações habituais sem reconhecer a presença de qualquer pessoa; um outro reconhece apenas algumas pessoas, ou só dá uma resposta quando é interrogado sobre certos temas, pois seu espírito entra em contato com outros espíritos apenas sobre certos pontos pouco comuns. O sonâmbulo quase nunca presta atenção no que as outras pessoas fazem, para poder assim regular, conseqüentemente, sua conduta.

Passemos agora, do sonambulismo natural, ideopático ou espontâneo, para o sonambulismo provocado, o sonambulismo hipnótico. Aqui encontramos em cada etapa do sono uma faculdade de comunicação parcial e variável. Logo, o sujeito hipnotizado nada manifesta; parece capaz de ouvir só uma pessoa e de atender-lhe, excluindo as demais; conversará livremente com quem quer que seja, mas, mesmo neste caso, não é seu eu desperto que fala e geralmente só recorda, imperfeitamente, ou não se recorda, durante a vigília, o que fez ou disse durante o sono.

Por analogia com o que ocorre quanto às comunicações entre as pessoas vivas que se encontram em estados diferentes, podemos esperar que as comunicações entre os espíritos encarnados e os desencarnados, sendo possíveis, sejam restritas e limitadas e não façam parte da corrente comum da provável consciência desencarnada.

Estas considerações preliminares são aplicáveis a todos os modos de comunicação com as pessoas mortas, quer em sua forma motora, quer na sensorial.

Consideremos agora que os modos de comunicação com os mortos são de natureza que nos pareçam prováveis, por analogia, com o que se sabe sobre as comunicações entre os vivos. Parece-me existir um paralelismo rigoroso entre todas as formas de automatismo experimental, de um lado, e todas as variedades de fenômenos espontâneos, de outro. Podemos dizer, de uma maneira geral, que a experiência e a observação nos permitiram separar cinco categorias de fenômenos:

1) a sugestão hipnótica;

2) as experiências telepáticas;

3) a telepatia espontânea durante a vida;

4) os fantasmas que sobrevêm no momento da morte;

5) as aparições após a morte.

Achamos, além disso, que em cada uma destas fases se observam as mesmas formas de comunicação; de modo que esta semelhança constante de formas permite supor que o mecanismo que preside as manifestações é o mesmo em cada uma destas fases.

Adotando uma divisão sumária, podemos atribuir a cada fase três formas de manifestação:

a) alucinações dos sentidos;

b) impulsos emocionais e motores;

c) mensagens mentais determinadas.

1º) Iniciemos por um grupo de experiências em que está ausente a telepatia, mas que mostram em sua forma mais simples o mecanismo da transmissão automática de mensagens, de uma camada para outra da personalidade. Falo das sugestões pós-hipnóticas. Nestas o agente é representado por um homem vivo, que age pelos meios comuns, pela palavra direta. O traço característico é dado pelo estado da pessoa que recebe, hipnotizada nesse momento, e que, portanto, sofre uma forma de desintegração da personalidade, de afloramento momentâneo de uma parte do seu eu que no estado normal está profundamente oculto. Essa personalidade hipnótica, que atinge por momentos a superfície, recebe a sugestão verbal do agente, do que o eu desperto do sujeito que recebe não possui a menor idéia. Mais tarde, quando o eu desperto readquiriu sua posição superficial, o eu hipnótico realiza, no momento aprazado, a sugestão, um ato cuja origem é desconhecida da camada superficial da consciência, mas que constitui, na realidade, uma mensagem enviada à camada superficial pela camada que está, de fato, submersa ou subconsciente, que recebeu, de início, a sugestão.

E essa mensagem pode revestir uma das três formas principais, acima mencionadas: a de uma imagem alucinatória do hipnotizador ou de outra pessoal qualquer; de um impulso para realizar determinado ato; a de certa frase para que a escreva automaticamente o eu desperto, que apreende dessa forma a ordem que recebera o eu hipnótico durante a ausência da consciência desperta.



2º) Em nossas experiências relativas à transmissão do pensamento o agente continua sendo um homem vivo, mas que já não age pelos meios comuns, como a palavra falada ou os gestos visíveis. Atua sobre o eu subconsciente do sujeito que recebe, com auxílio de um impulso telepático que projeta intencionalmente, e que o próprio sujeito pode estar desejoso de receber, mas cujo modus operandi continua afastado do eu desperto de cada um deles.

As mensagens desta categoria podem, por sua vez, ser divididas em três grupos, idênticas as anteriores: figuras alucinatórias que representam sempre, ou quase, a imagem do agente que ele faz visível ao sujeito que recebe; impulsos de agir, comunicados telepaticamente, como no caso do hipnotizador que quer que o sujeito venha buscá-lo, a determinada hora, sem que o avise previamente; a escrita pós-hipnótica de palavras e de figuras definidas, como conseqüência de uma transmissão telepática de palavras, figuras, etc., por parte do agente, utilizando-se de meios de comunicação que não os comuns, ao sujeito que recebe, quer hipnotizado, quer desperto.



3º) Nas aparições espontâneas que advêm durante a vida, encontramos os mesmos três grandes grupos de mensagens, com a diferença de que as aparições reais, raras em nossas experiências telepáticas, se transformam, neste ponto, no grupo mais importante. Não tenho necessidade de recordar os casos citados nos capítulos IV e VI, onde um agente que sofre uma crise súbita parece, de algum modo, realizar uma aparição visível a um sujeito distante. Assemelham-se, também, a estes casos, não menos importantes, de dupla aparição, nos quais o agente é visto diversas vezes sob a forma de fantasma, por pessoas diversas, em momentos desprovidos de crise.

Temos ainda, entre as impressões telepáticas produzidas (espontânea, não experimentalmente) pelos agentes vivos, casos que não há necessidade de recapitular aqui, em que existe uma profunda sensação de angústia ou um impulso a voltar para casa, semelhante ao impulso experimentado pelo sujeito que se aproxima do hipnotizador distante, no momento em que este o deseja.



4º) Encontramos também os três mesmos grupos de mensagens nos casos de aparições que se produzem no momento da morte. Nossos leitores já conhecem os casos visuais, em que a aparição de um homem moribundo é vista por uma ou mais pessoas, e os casos emocionais e motores, onde a impressão, ainda que muito poderosa, já não possui a característica sensória. E foram publicados inúmeros casos onde a mensagem consistia em palavras definidas que nem sempre eram exteriorizadas sob a forma de uma alucinação auditiva, senão que, às vezes, eram pronunciadas ou escritas automaticamente, como no caso relatado pelo Dr. Liébault, no qual uma jovem escreve uma mensagem, anunciando a morte de seu amigo, no momento em que este morria numa cidade distante. (Phantasms of the Living, I, pág. 293).

5º) Considero que os casos post-mortem podem ser classificados da mesma forma e que os três grupos principais se observarão na mesma proporção. Os mais notáveis são os das aparições reais, que constituirão o tema básico das páginas seguintes. É muito difícil encontrar uma aparição que implique numa mensagem verbal; o mais freqüente é que sejam automáticas na aparência e desprovidas de objetivo. Veremos também um grupo de casos post-mortem emocionais e motores, talvez mais numerosos do que parece indicar nossa coletânea, porque, tendo em vista o caráter vago e indeterminado da impressão, seu testemunho a favor de uma comunicação com uma pessoa morta só raramente é utilizado.

Gostaria agora de mostrar que ao lado desses grupos de manifestações póstumas existe um terceiro, constituído por mensagens orais que, ao menos em certos casos, proporcionam prova de sua origem póstuma. Deixo, para a comodidade do leitor, esses casos motores para o capítulo seguinte, de modo que a prova que temos da sobrevivência será, por enquanto, muito incompleta. Em todo caso temos perante nós uma tarefa bem definida: devemos, neste capítulo, recordar e analisar as experiências sensoriais dos vivos que parecem poder ser atribuídas à ação de alguma individualidade humana que persiste após a morte.

Trataremos de verificar, pois a coisa não parece ser evidente à primeira vista, as condições que caracterizam um fantasma visual ou auditivo, para poder ser considerado como um indício da influência exercida por um espírito desencarnado. O melhor que nos resta é citar as palavras proferidas na Sociedade de Investigações Psíquicas, por Gurney, em 1888, quando se discutiu essa questão. Estas palavras conservam hoje em dia todo o seu valor, embora os anos que se passaram tenham multiplicado consideravelmente os testemunhos e acrescentado outras provas em favor das comunicações póstumas que agora vamos enfrentar. Diz Gurney:

“Os que acompanharam as informações e discussões publicadas no Compte-Rendu e no Diário desta sociedade sabem, sem que haja necessidade de insistir nesse fato, como são escassas as provas que apareceram, inclusive às pessoas instruídas, em apoio da aparição real de amigos mortos, que justificam esta crença. A razão pode ser formulada em poucas palavras. Na maioria dos casos, em que a pessoa pretendia ter visto ou ter-se comunicado com amigos e parentes mortos, nada existe que permita diferenciar o fenômeno que se apresentou aos sentidos, de uma mera alucinação subjetiva. Apesar da simplicidade desta proposição, a verdade que encerra continuou fora de suspeita durante séculos. Só em época relativamente recente as alucinações sensoriais começaram a ser compreendidas e constatou-se que os objetos mais ilusórios podem conseguir, às vezes, um extremo grau de clareza. Mas esses conceitos não tiveram, ainda, tempo de penetrar no espírito do povo. A resposta comum, do sentido comum, médio, a qualquer relato de aparição, é que a testemunha mente ou exagera, grosseiramente, está louca ou bêbada ou num estado de excitação emocional, naquele instante, ou também é vítima de uma ilusão, de uma falsa interpretação de um som ou de uma visão de caráter meramente objetivo. Mas um estudo aprofundado da questão não deve tardar, mostrando que na maioria dos casos há que eliminar todas essas hipóteses, que a testemunha goza de ótima saúde, sem apresentar qualquer desvio emocional e que o que vê e ouve pode ter uma origem exclusivamente subjetiva; ser uma projeção do próprio cérebro. E, naturalmente, pode esperar que, entre os objetos que desta maneira se apresentam, um certo número tome a forma de um vulto ou voz humana, que o sujeito reconhece como a de uma pessoa morta; porque a recordação desses vultos e vozes faz parte de sua bagagem mental, e as imagens latentes estão prontas para fornecer a matéria das alucinações da vigília, do mesmo modo que fornece aos sonhos.

É evidente, além disso, que nos casos conhecidos de aparições de mortos falta o elemento que permite distinguir certas aparições de pessoas vivas, das alucinações meramente subjetivas. Esse elemento consiste na coincidência entre a aparição e algum estado crítico ou excepcional da pessoa que aparentemente aparece; mas, no que concerne às pessoas mortas, não possuímos qualquer conhecimento de seu estado, nem, em conseqüência, a ocasião de observar uma coincidência desse gênero.

Restam três, e só três, condições que permitem estabelecer uma presunção a favor do fato de que uma aparição ou qualquer outra manifestação imediata de uma pessoa morta é algo além do que uma simples alucinação subjetiva:

1) diversas pessoas podem, independentes umas das outras, ser impressionadas pelo mesmo fenômeno;

2) o fantasma pode proporcionar informações, mais tarde, confirmadas como verdadeiras, sobre algo que a pessoa que recebe não possuía anteriormente qualquer idéia;

3) o sujeito que recebe pode fornecer uma descrição exata e precisa de uma pessoa que nunca viu, cujo aspecto lhe é totalmente desconhecido.

Mas, para que estas três condições, mesmo realizadas, sejam suficientes para permitir que se atribua a uma aparição uma causa que fica à margem do espírito do sujeito que recebe, os fatos desse gênero possuem uma característica muito geral, e que proporciona uma nova prova a favor da exteriorização da causa. É o número excepcionalmente grande de casos que surgem pouco depois da morte da pessoa representada.

Essa relação de tempo se repete com bastante freqüência, é de uma natureza a tornar provável a origem objetiva do fenômeno, de uma maneira análoga à que nos encaminha à conclusão de que tal aparição de uma pessoa viva possua alguma origem objetiva (telepática). Pois que, conforme a teoria das probabilidades, uma alucinação que representa uma pessoa conhecida não se apresentara como um acontecimento especial, como a morte dessa pessoa, uma relação de tempo determinada em proporção igual à das alucinações similares que se produzem; se a proporção é, de fato, deveras elevada, estamos autorizados a reconhecer a ação de um fator distinto do acaso, isto é, de uma causa objetiva externa.

A questão da relação de tempo adquire, assim, um significado particular. O espírito popular se apressa a dar uma explicação de um fato notável, antes mesmo que o fato se torne estável. Assim, diz-se que a pessoa morta vem consolar o coração dos familiares desesperados, enquanto que sua dor ainda está viva, ou que seu “espírito” está “ligado à terra” e só aos poucos pode-se libertar. Ou então é-nos apresentada uma teoria como a de Assier, segundo a qual restaria após a morte da consciência e da individualidade uma base para manifestação física que só aos poucos desaparece. Não discutirei qualquer dessas hipóteses. No momento vamos tratar das aparições póstumas e a única questão que nos interessa é a de saber se esses fatos podem ser relacionados a uma causa externa. De sua relação com esta questão capital, da pesquisa relativa à freqüência com que esses fenômenos se produzem, logo após a morte, deriva toda a sua importância.

Reunindo um grande número de testemunhos originais, relativos às alucinações sensoriais, espantou-me, pela primeira vez, a enorme proporção de casos em que o fantasma representava um amigo ou parente, recém-falecido. De 231 alucinações que representavam seres humanos reconhecidos, 28, ou seja, uma oitava parte, surgiram várias semanas após a morte da pessoa representada. Portanto, possuímos duas razões para dar pouco valor a este fato. Em primeiro lugar, um fantasma que representa uma pessoa recém-falecida é mais suscetível de despertar o interesse e de ser notado e aquilatado, o que contribui para elevar a proporção dos casos desse gênero numa coletânea como a nossa. Em segundo lugar, o fato da morte era do conhecimento da pessoa que percebe, em todos os casos relatados. Parece, pois, natural concluir que o estado emocional desta pessoa basta para perceber a alucinação; e essa explicação será adotada pela maioria dos pesquisadores, psicólogos e médicos. A meu ver, contentar-me-ia se pudessem me citar um caso de aparição fantasmagórica de uma pessoa, que o amigo que viu a aparição acreditava morta, mas que, na realidade, estava bem viva e saudável. Os avisos falsos sobre a morte são raros para que se possam citar casos desse gênero. Acredito que a dor e o sentimento de terror, aliados à morte, podem ser considerados como a causa suficiente das experiências sensoriais anormais, relativas a pessoas cuja morte recente é deplorada, até que a realidade objetiva dos fantasmas dos mortos, em determinados casos, seja estabelecida através de provas independentes.77

Se, agora, vamos tirar alguma conclusão provável, no que diz respeito à natureza objetiva das aparições e das comunicações póstumas (ou de algumas delas), do fato da extrema freqüência com que é produzida, pouco tempo após a morte, deveríamos nos limitar ao caso em que o fato da morte era desconhecido do sujeito que recebe, no momento exato da experiência. Mas, nesta época de cartas e telegramas, a maioria das pessoas toma conhecimento dessas notícias dias ou horas após o falecimento, de forma que as aparições, para estarem de acordo com as nossas condições, devem acontecer imediatamente após a morte. Possuímos um número suficiente de casos desse gênero?



Os leitores de Phantasms of the Living sabem da existência de tais casos. Em alguns deles, citados neste livro, como os exemplos de transmissão telepática, por parte de uma pessoa morta, a pessoa estava de fato morta, no momento em que se realizara a experiência; e a publicação destes casos sob o título comum de Phantasms of the Living (Fantasmas dos Vivos) despertou, e é natural, críticas. Note-se que a indicação que dei destes casos supõe uma condição que não pode de forma alguma ser considerada como certa. Devemos supor, certamente, que a transmissão telepática se produzira imediatamente antes da morte ou no momento exato dela, mas que a impressão ficou latente no espírito do sujeito, para não aflorar na sua consciência senão após um curto intervalo, quer como visão de vigília, quer como sonho, quer sob outra forma qualquer. Reconheçamos momentaneamente que esta hipótese se justifica. Que, com efeito, o momento da morte constitui, do ponto de vista do tempo, o ápice ao redor do qual se agrupam as experiências anormais que o sujeito experimenta à distância, e das quais algumas antecedem a morte, enquanto que outras a seguem; é, portanto, natural supor que a mesma explicação pode ser aplicada a todo o grupo e que em cada uma das divisões a força determinante é constituída pelo estado do agente, anterior à sua morte corporal. Alguns casos de transmissão experimental de pensamentos confirmam, além disso, a opinião segundo a qual as “impressões transmitidas” podem permanecer latentes durante certo tempo, antes que o sujeito que recebe as perceba; e as recentes descobertas, relativas ao automatismo e à inteligência secundária tornam muito provável o fato de que a telepatia manifesta seus primeiros efeitos sobre o pedaço “inconsciente” do espírito.78 A esses dois argumentos devemos acrescentar que o período em que supostamente esteve latente foi, num elevado número de casos, um período durante o qual a pessoa impressionada se achava ocupada e sua atenção dirigida a outros objetivos; e nos casos deste gênero é muito fácil supor que a impressão telepática, para adentrar a consciência, necessita de um período de silêncio e recolhimento.79 Mas, ainda que a teoria do latente possua muitas probabilidades, meus colegas e eu achamos não se poder elevar a dogma o que no momento só deve ser considerado como uma hipótese. De todas as investigações, as psíquicas são as em que é mais necessário evitar os erros, mantendo o espírito preparado para aceitar as novas interpretações dos fatos. E, no estado atual da questão, podem-se opor várias objeções sérias à hipótese de que as impressões telepáticas provenientes de pessoas falecidas só seriam suscetíveis de aflorar após permanecerem durante horas em estado latente. Os casos experimentais que citei como análogos são pouco numerosos e seguros, e o período latente foi, além disso, cronometrado em segundos e minutos, não em horas. E ainda que, como já afirmei, a aparente demora observada em certos casos de aparições de mortos possa ser explicada pela necessidade de afastar o espírito e os sentidos do sujeito de outras preocupações, com o fito de que o fenômeno ocorra, conhecemos outros casos onde não ocorre o mesmo e onde nada parece autorizar um relacionamento entre a demora e o estado do sujeito que recebe. Desta forma, achamo-nos na presença da hipótese, que é a única que devemos considerar: trata-se de um estado (físico ou psíquico) do agente que se manifesta algum tempo depois da morte e do qual o sujeito toma, no mesmo instante e não antes, conhecimento da impressão.80

Até aqui só fiz referência aos casos em que o intervalo entre a morte e a aparição foi suficientemente curto para tornar provável a teoria do latente. Segundo a regra adotada em Phantasms of the Living, esse intervalo não devia ultrapassar mais de 17 horas. Mas conhecemos alguns casos em que esse intervalo foi bastante ultrapassado e os em que o próprio fato da morte era desconhecido do sujeito, nos instantes da experiência. A teoria do latente não pode ser razoavelmente aplicada aos casos em que a aparição se acha separada por semanas ou meses do instante da morte, que é o último durante o qual uma idéia comum 81 transmitida telepaticamente pôde ter acesso, próximo ao sujeito. E a existência destes casos, enquanto tende a estabelecer a realidade de aparições de mortos, devidos a causas externas, diminui o valor das objeções que se opõem ao conceito que considera as aparições etc., que seguiram de perto a morte, como de causa diferente às que coincidem com a morte e a antecedem, também de perto.” (Proceedings of the S. P. R., V, pág. 403-408).

A hipótese do latente que encontramos aqui, no início de nossa pesquisa, é de importância relevante, embora, como veremos mais tarde, chega um momento em que não é capaz de englobar todos os fatos. Se pudéssemos traçar uma curva que expressasse o número relativo das aparições, antes e depois da morte, veríamos que este número aumenta rapidamente durante as horas que antecedem, para, gradativamente, diminuir durante as horas e dias que se seguem à morte. Após o primeiro ano, as aparições tornam-se raras e excepcionais.

“O momento da morte – diz Gurney – é o centro de um grupo de experiências anormais, das quais umas antecedem, enquanto outras seguem-se à morte”. Esta frase não deve ser interpretada como se Gurney tivesse desejado afirmar que a morte é a causa dessas experiências. As que se produzem antes da morte podem ser motivadas ou determinadas não pela morte em si, mas pelo estado anormal (coma, delírio), que a antecede. Possuímos, com efeito, muitos exemplos de fantasmas verdadeiros, que coincidiram com crises, como acidentes de automóvel, etc., acontecidos a agentes distantes, mas que não foram seguidos de morte. Encontramos, além disso, que em quase todos os casos em que um fantasma, verdadeiro ou não, antecedeu a morte do agente, a morte foi motivada por uma doença, não por um acidente. Existem poucas exceções a esta regra. Num caso citado em Phantasms of the Living (II, pág. 52), o fantasma aparece antecedendo-se de meia hora à morte súbita, por afogamento; o sujeito que recebe mora numa granja de Norfolk, enquanto que a vítima, ou o agente, pereceu durante uma tempestade nas proximidades da ilha de Tristão da Cunha; e imaginamos que um erro de hora ou de observação bastava para explicar esta pretensa exceção à regra. Em outro caso, tratava-se de uma morte violenta, suicídio; mas o estado de excitação mórbida em que se encontrava a vítima algumas horas antes da morte, isto é, no momento em que se deu a aparição, era só um estado de crise. Existem outros casos (não citados no Phantasms) em que o fantasma ou o duplo foi visto vários dias antes da morte acidental; mas os casos desse gênero são pouco numerosos para tornar viável a existência de um nexo causal entre a morte e a aparição.

Não é fácil chegar à certeza, no que concerne aos casos em que o intervalo foi cronometrado em minutos; porque se o sujeito está longe do agente, sempre podemos ter dúvidas quanto à exatidão com que foi anotada a hora e no que diz respeito à exatidão da observação; e, por outro lado, se o sujeito e o agente se encontram no mesmo lugar, podemos nos perguntar sempre se o fantasma observado não foi uma simples alucinação subjetiva. Desse modo, possuímos vários relatos de gritos horrorosos ouvidos pelas pessoas que velavam o cadáver, logo após a morte aparente, ou uma espécie de halo luminoso ao redor do morto; mas tudo isso se produziu num momento bastante propício às alucinações subjetivas e se os fenômenos em questão não afetaram senão um indivíduo é difícil atribuir-lhes algum valor. No caso em que o fenômeno parece afetar diversas pessoas, pode-se tratar de uma transmissão de pensamento entre os espíritos das pessoas presentes, seja ou não o fenômeno devido à pessoa do morto.

Existem também outras circunstâncias nas quais, mesmo sendo a morte conhecida, uma alucinação advinda logo após pode ter um valor subjetivo. É o caso de uma mulher que sabia da morte de sua irmã, há várias horas e que, sem estar num estado de excitação mórbida, pensou ter visto entrar alguém na sala de jantar, abrindo a porta e fechando-a atrás de si. Ficou assustada ao ver que não havia ninguém no cômodo; passado algum tempo, verificou que podia existir alguma relação entre a aparição e a morte da irmã. Isso nos lembra o caso de Hill, que viu entrar na sua casa um vulto alto que, após tê-lo assustado e surpreendido, desapareceu sem que fosse possível seu reconhecimento. Mas um de seus tios, homem de estatura elevada, estava naquele momento moribundo e deve-se notar que Hill, mesmo sabendo desse fato, sua angústia não seria por si só suficiente para dar origem a essa assustadora aparição.

Há casos em que o sujeito viu a aparição de um amigo; logo após a morte deste último, teve outras alucinações verdadeiras e nunca qualquer alucinação subjetiva. Os sujeitos desta categoria supõem naturalmente que a aparição do amigo morto possui o mesmo caráter verídico que as alucinações anteriores, mesmo que a coisa não fosse evidente e sabendo-se da morte no momento da aparição.

Os casos em que a morte era desconhecida do sujeito são evidentemente mais eloqüentes e dotam a aparição de um grau muito maior de veracidade.

Um certo senhor Farler viu duas vezes, no espaço de uma noite, o fantasma gotejante de um de seus amigos que, como soube mais tarde, afogara-se na véspera. A primeira aparição produziu-se algumas horas após a morte, podendo ser explicada pela impressão que permaneceu latente até o instante favorável à sua manifestação, isto é, a calma e o silêncio da noite. A segunda aparição pode ter sido uma repetição da primeira; mas, se prescindirmos da teoria do latente, fazendo a primeira depender (caso não passe de mera coincidência) de uma certa energia emanada da pessoa morta, após o seu falecimento, estamos autorizados a considerar a segunda aparição como igualmente verdadeira. O mesmo vulto foi visto, quinze dias depois, com sua roupa usual, sem qualquer vestígio do acidente.

Em outros casos, a aparição é una e sobrevém algumas horas após a morte. Vejamos a aplicação da hipótese do latente a esses casos.

Onde não há alucinação propriamente dita, mas um sentimento único de mal-estar e angústia que advém algumas horas após a morte de um amigo distante, como no caso de Wilson (Phantasms of the Living, I, pág. 280), nos é difícil prever o que se passa. Algum estímulo comunicado ao cérebro do sujeito no momento da morte do agente pode-se manifestar lentamente à consciência. A demora pode ser atribuída mais a causas fisiológicas do que psíquicas.

Nas observações em que uma alucinação auditiva ou visual clara sobrevém durante a noite, horas após a morte, podemos admitir a hipótese de uma impressão telepaticamente recebida durante o dia e que permaneceu latente até o aparecimento de outras excitações, exteriorizando-se a seguir, sob a forma de uma alucinação, após o primeiro sono, por algum fato suscetível de excitar em nós o interesse ou a angústia e que, esquecido durante o dia, invade de repente nossa consciência com uma força e uma clareza notáveis. No caso da Sra. Teale, pelo contrário (Phantasms of the Living, II, pág. 693), a alucinação sobreveio oito horas após a morte, quando esta senhora estava sentada, totalmente acordada, junto à sua família. Em outros casos trata-se de uma verdadeira “clarividência telepática”, de uma imagem transmitida pelo espírito do defunto, mas enviada após a morte, porque assistimos a uma visão de um acidente (e de suas conseqüências) muito mais completa do que a que pôde atravessar o espírito do moribundo no momento da morte. Os casos desse gênero nos fazem pensar que o espírito do defunto continua presa das coisas terrestres e que é capaz de compartilhar com o sujeito as imagens que o preocupam. É o caso do famoso médico de Londres, morto no estrangeiro, num hospital do interior, deitado num quarto pobre e o qual surgiu a uma mulher dez horas após sua morte.

Vê-se que esses fenômenos não são suficientemente simples para que possamos considerá-los apenas do ponto de vista que os separa da morte. O que chamamos “um espírito” constitui provavelmente um dos fenômenos mais complexos da natureza. Constitui a função de dois fatores variáveis e desconhecidos: a sensibilidade do espírito encarnado e a capacidade do espírito desencarnado para manifestar-se. Nossa tentativa de estudar essa ação recíproca deve, pois, iniciar por um outro destes dois fatores, pelo sujeito, ou pelo agente. Devemos perguntar:

a) como recebe a mensagem o espírito encarnado?

b) como a produz e a transmite o espírito desencarnado?

Ao aprofundar a primeira destas perguntas, possuímos maiores probabilidades de obter uma certa claridade. Sempre que consideremos os espíritos encarnados, encontramo-nos, numa certa medida, num terreno conhecido; e podemos esperar encontrar em outras operações do espírito analogias que nos permitam entender essas operações, talvez as mais complexas, que consistem em ter conhecimento das mensagens procedentes dos espíritos desencarnados e de um mundo invisível. Acredito que “o meio mais seguro, se bem que o mais distanciado”, como diria Bacon, “de compreender esses fenômenos súbitos e assombrosos consiste no estudo de fenômenos mentais menos raros, que se podem observar mais comodamente, da mesma forma que o meio “mais seguro, embora mais afastado,” de estudar os astros inacessíveis consistiu no estudo dos espectros incandescentes de substâncias terrestres que se acham sob nossos pés. Espero que o estudo das diversas formas de consciência subliminar, das capacidades subliminares, da percepção subliminar, nos tenha permitido obter finalmente, no que concerne ao nosso ser e ao nosso modo de funcionamento, um conceito que provara que a percepção pelos espíritos encarnados de mensagens originadas nos espíritos desencarnados, longe de constituir uma anomalia isolada, é, talvez, o resultado do exercício de capacidades comuns e inatas.

Eu gostaria de iniciar o estudo de todos esses casos pelo lado humano e terrestre. Se pudéssemos não só compartilhar, mas também interpretar os sentimentos subjetivos dos sujeitos, se pudéssemos compará-los a outros sentimentos provocados pelas visões comuns, pela telepatia entre os vivos, obteríamos um conhecimento mais próximo do que sucede, do que o que nos pode proporcionar a observação externa dos detalhes de uma aparição. Mas um estudo sistemático desse teor não é possível no momento, enquanto que é relativamente fácil colocar todo o conjunto de casos em várias séries, segundo as características e detalhes externos, iniciando pelos que exprimem o conhecimento mais profundo e um objetivo definido, para terminar pelos que possuem indícios de uma inteligência qualquer cada vez mais raros e débeis, até consubstanciar-se em sons e visões, sem significado marcante.

Possuímos poucos casos de aparições que testemunham que o espírito possui um conhecimento contínuo do que ocorre a seus amigos sobreviventes. Os testemunhos desse gênero são naturalmente proporcionados na maioria dos casos pela escrita ou palavra automáticas. Mas, no caso de Palladia, relatado por Mamtchiteh, publicado no Relatório da Comissão de Alucinações e anotado no Proceedings of the S. P. R., X, pág. 387-391, trata-se de um espírito de aparições repetidas, que representa um papel de anjo da guarda que se interessa particularmente pelo futuro casamento do sobrevivente.

Mais freqüentes são os casos em que uma única aparição, não repetida, indica um acontecimento contínuo dos assuntos terrestres. Esse conhecimento se manifesta principalmente em duas direções. Apóia-se, com freqüência, em alguma circunstância relacionada com a morte da pessoa falecida, com a aparência de seu corpo após a desintegração, ou com o lugar de seu sepultamento temporal ou de sua inumação definitiva; e, por outro lado, baseia-se na morte iminente ou real de um amigo da pessoa falecida. Considero, particularmente, que uma certa parte da consciência póstuma pode estar, durante algum tempo, tomada por cenas terrestres. E, por outro lado, quando um amigo que sobrevive aproxima-se, aos poucos, ao mesmo estado de dissolução, esse fato pode ser percebido no mundo espiritual. Quando este amigo está realmente morto, o conhecimento que seu antecessor pôde ter dessa transmutação é um conhecimento dos fatos do outro mundo, como deste.

Ao lado dessas informações adquiridas, talvez, no limite entre os dois estados, existem aparições que implicam uma percepção de acontecimentos terrestres mais definidos, como as crises morais (matrimônios, discussões graves, ameaças de crime) que acontecem aos amigos sobreviventes.

Em alguns desses casos, em que o espírito parece ter conhecimento da morte iminente de um amigo, esse conhecimento antecipado em nada se assemelha à nossa previsão da morte. Ocupar-me-ei desses casos num outro capítulo onde será discutido o problema da precognição espiritual. Mas, em outros casos, o grau de precognição não parece superior ao dos espectadores comuns e neste é onde resumirei em primeiro lugar a morte, que ainda não sendo prevista pela família, o foi por um médico que examinara o paciente.

M. B., viajante, pessoa decidida, teve uma manhã a visão de uma de suas irmãs, falecida há nove anos. Quando relatou o fato à família, o escutaram com incredulidade e ceticismo. Mas, ao descrever a visão mencionou a existência, no lado direito do rosto, de um arranhão vermelho, como se tivesse sido feito há pouco. Esse detalhe impressionou muito sua mãe, que desmaiou. Quando voltou a si, contou que ela própria fizera aquele arranhão ao colocar a filha no ataúde e que encobrira a mancha, cobrindo-a de pó-de-arroz, de forma que ninguém no mundo sabia do fato. O fato de que o seu filho visse o arranhão era, pois, uma prova incontestável da veracidade da visão e viu também nisto o prenúncio da própria morte, o que de fato aconteceu, poucas semanas depois.

Só é possível interpretar este caso como sendo a percepção, pelo espírito, da morte iminente da mãe.

Segue-se um pequeno grupo de casos cujo interesse principal consiste em servirem, por assim dizer, de nexo entre os casos relatados acima, em que os espíritos têm o conhecimento antecipado da morte de um amigo, e os casos, de que nos ocuparemos, em que o espírito parece saudar um amigo que partiu da terra. Este grupo forma, ao mesmo tempo, uma extensão natural da clarividência dos mortos, ilustrada por alguns casos de “reciprocidade”, como por exemplo no caso da Sra. W., em que uma tia moribunda tem a visão de sua sobrinha, que tem no mesmo momento a visão de sua tia (vide Phantasms of the Living, II, pág. 253). Da mesma forma que a separação iminente do espírito e do corpo permite que o espírito projete seu fantasma entre os espíritos encarnados que se encontrem a certa distância na terra, aqui também a separação iminente permite à pessoa moribunda enxergar os espíritos que habitam o outro mundo. Não é difícil ouvir os moribundos dizerem ou mostrarem que vêem espíritos amigos, próximos a eles. Mas as visões desse gênero carecem de valor, desde que a pessoa moribunda saiba que o amigo, cujo espírito vê, deixou a terra ou está prestes a deixá-la.

Passamos insensivelmente deste grupo ao dos em que os espíritos desencarnados manifestam o conhecimento que possuem da morte de um de seus parentes ou amigos. Essas manifestações se produzem raramente neste mundo, possuindo diversas formas, desde as manifestações de simpatia à simples presença silenciosa.

Certa noite, entre 11 e 12 horas, enquanto se achava totalmente desperta, a Sra. Lucy Dadson ouviu chamarem por seu nome, três vezes, e viu a seguir o vulto de sua mãe, morta há 16 anos, que carregava duas crianças nos braços e as estendia na sua direção, dizendo: “Cuide deles, porque acabam de perder a mãe.” No dia seguinte, a senhora Dadson soube que sua cunhada morrera de parto, três semanas depois do nascimento de seu segundo filho. Note-se que as duas crianças que vira nos braços de sua mãe pareceram-lhe efetivamente da idade dos dois filhos de sua cunhada, cujo parto e nascimento do segundo filho ignorava. (Proceedings of the S. P. R., pág. 380-382).

Neste ponto, deparamo-nos com um grupo considerável de casos em que o espírito desencarnado manifesta um preciso conhecimento de alguns fatos relacionados com sua vida terrestre, com sua morte, ou de conhecimentos ulteriores relacionados com a morte. O conhecimento desses fatos ulteriores, como a propagação da notícia da sua morte, ou o lugar de sua inumação, é de um caráter mais completo do que a simples recordação dos fatos que conhecera durante a vida. Mas todos esses graus de conhecimento se completam e sua conexão é mais bem apreciada se iniciamos pelo grau mais elementar, pelo da simples memória terrestre.

No caso seguinte, a informação transmitida por uma visão verificou-se ser precisa, exata e muito importante para os sobreviventes; encontrou-se um homem morto num lugar deveras distante de seu domicílio. Suas roupas, que estavam sujas de barro, foram substituídas por outras limpas e lançadas no fundo de um pátio. Quando a notícia de sua morte chegou à sua casa, uma de suas filhas desmaiou, e ao recobrar os sentidos disse que acabara de ver seu pai vestindo umas roupas que não eram suas e das quais deu exata descrição, acrescentando que seu pai lhe revelara ao mesmo tempo ter costurado, depois de haver saído da casa, certa soma em dinheiro num dos bolsos, e que esta roupa fora jogada com as outras. Ao verificarem o fato viu-se que a descrição que deu da roupa nova de seu pai era exata e encontraram o dinheiro costurado na roupa que apontou. O fantasma revelou, pois, dois fatos, um dos quais só era do conhecimento de alguns e o outro só dele. No caso, parece que a filha estava em estado de êxtase e não de sonho, o que seria ideal ter verificado.

Este caso é semelhante ao do barão Von Driesen, que, nove dias depois da morte do sogro, com quem discutira, viu a aparição deste, que viera lhe pedir perdão pelas ofensas que lhe causara. A mesma aparição foi vista, no mesmo momento, pelo cura do povoado em que moravam o barão e o sogro, e o objetivo desta aparição era solicitar do padre que procurasse reconciliação entre o genro e o sogro. Vemos, nestes dois casos, os espíritos ocupados após a morte com deveres e compromissos, grandes ou pequenos, que assumiram durante a vida. Os laços desse gênero parecem favorecer ou facilitar a ação dos espíritos sobre os vivos. Podemos nos criar condições de modo a permitir que as almas que desejem aparecer se manifestem? Parece-me que isso é, até certo ponto, possível. Quando iniciamos a compilação, Edmund Gurney surpreendeu-se com o número enorme de casos em que o sujeito nos informava que se produzira entre ele e a pessoa falecida um compromisso, em virtude do qual o que falecesse apareceria ao outro. “Considerando – acrescenta – o pequeno número de pessoas que assumem esse compromisso, é difícil deixar de concluir que o fato de ter assumido um compromisso desse gênero possui certa eficácia”.

Mas, nos doze casos desta categoria, citados no Phantasms, possuímos três nos quais o fantasma aparecera num momento em que o agente ainda estava vivo; na maioria dos outros, a determinação exata do tempo não pôde ser feita e sobre alguns só se sabe que o fantasma apareceu muito após a morte do agente. Resulta, pois, que a existência de uma promessa ou de um compromisso pode atuar com eficácia, quer sobre o eu subliminar, antes da morte, quer sobre o espírito, o que é mais provável, após a morte.

Esta conclusão é confirmada por outros casos, dos quais só citaremos dois. O primeiro trata-se do cumprimento pela pessoa falecida de um compromisso imediato. É o caso de Edwin Russell, baixo do coro da igreja de São Lucas, em São Francisco, que caiu, numa sexta-feira, na rua, vítima de um ataque apoplético. Três horas após a morte, o senhor Reeves, diretor do coro, que desconhecia o fato ocorrido sob sua janela e que se preparava para escolher um Te Deum para o domingo seguinte, viu o fantasma de Russell, que lhe apareceu com uma das mãos sobre a fronte e estendendo a outra com um maço de músicas. A aparição durou uns segundos, deixando Reeves assustado e comovido. Mais tarde, tomou conhecimento da morte de Russell. Este deveria comparecer, no dia seguinte, na casa do maestro do coro, conforme prometera-lhe dias antes. Homem formal, seu último pensamento deve ter sido de que não poderia comparecer ao encontro e provavelmente com o desejo de apresentar sua demissão como membro do coro é que se dirigira à casa de Reeves. (Proceedings of the S. P. R., VIII, pág. 214).

Em outro caso, mais notável ainda, um indivíduo tuberculoso trocara com uma jovem, que acabara de conhecer numa estação invernal, a promessa de que quem morresse primeiro apareceria ao outro, “de uma maneira que não fosse desagradável ou assustadora”. Mais de um ano depois apareceu, com efeito, não à moça em questão, mas à sua irmã, e no momento em que se dispunha a subir num carro; a moça, que também se encontrava no carro, não tinha visto nada. As investigações deram como resultado que a aparição se produziu dois dias antes da morte do sujeito, quando este se achava em agonia. (Proceedings of the S. P. R., X, pág. 284 – caso da condessa Kapnist). Este caso nos leva à seguinte reflexão: quando é feita a promessa de aparecer após a morte, a aparição não tem que ser vista, necessariamente, pela pessoa a quem se prometeu, senão pela pessoa mais fácil de ser impressionada que a rodeia.

Passo, a seguir, aos casos em que o conhecimento demonstrado pelos espíritos se relaciona com o aspecto de seu corpo após a morte, ou com as cenas nas quais se acha enterrado temporalmente ou inumado definitivamente. Esse conhecimento pode parecer vulgar, indigno de espíritos transportados a um mundo superior. Porém, mais freqüentemente, trata-se de uma confusão de idéias que se seguem a uma morte súbita ou violenta, que rompe bruscamente os efeitos profundos. Os casos desse gênero são numerosos, mas vou apenas citar o seguinte:

M. D., rico industrial, tinha a seu serviço um tal Robert Mackenzie, que literalmente arrancara à miséria e que experimentava em relação a seu patrão um reconhecimento e uma fidelidade sem limites. Um dia em que M. D. se achava em Londres, teve a aparição de seu empregado (que estava na filial de Glasgow). Este vinha suplicar-lhe que não acreditasse nas acusações que lhe fariam. E a aparição se desvaneceu sem que M. D. nada mais soubesse sobre a acusação que pairava sobre Robert. Não teve tempo de sair de sua estupefação, quando sua mulher trouxe-lhe uma carta, dizendo a seu marido que acabava de receber a notícia do suicídio de Robert. Aquela era, sem dúvida, a acusação que pesava sobre o empregado e na qual M. D. decidiu não acreditar. Com efeito, o correio seguinte trouxe-lhe uma carta de seu administrador, que dizia que Robert não se suicidara, como se acreditara em princípio, mas que estava envenenado, pois bebera ácido sulfúrico, ao invés de aguardente. Após ter consultado um dicionário de medicina, M. D. não precisou de muito esforço para recordar que o aspecto da aparição correspondia exatamente à descrição do dicionário dos indivíduos envenenados pelo ácido sulfúrico. (Proceedings of the S. P. R., XI, pág. 95).

No caso da Sra. Green achamo-nos frente a um problema interessante. Duas mulheres se afogaram em circunstâncias particulares. Um amigo teve, aparentemente, uma visão clarividente da cena, não no momento em que se deu, mas algumas horas depois, ao mesmo tempo em que outra pessoa, que tinha o maior interesse pelo destino das duas mulheres, soube do fato. Pode-se, pois, supor que a cena clarividente, em aparência, foi transmitida telepaticamente ao primeiro por outro espírito vivo. Acredito, porém, que a natureza da visão, tanto como outras analogias que poremos em relevo no decurso de nossa discussão, fazem provável uma demonstração diferente, que implica na ação simultânea dos mortos e dos vivos. Suponho que uma corrente de ação pode partir de uma pessoa morta, mas que não se torna bastante forte para ser perceptível ao sujeito senão quando está reforçada por uma corrente de emoção que tem como ponto de partida um espírito vivo.

Só através da acumulação progressiva de fatos, cheguei a acreditar que a estranha suposição que atribui aos espíritos desencarnados a capacidade de conhecer o momento em que a notícia de sua morte chega aos amigos, não está de todo desprovida de realidade. A possibilidade, para o amigo, de adivinhar, através da clarividência, a existência nas proximidades de uma carta que anuncia a morte, torna bastante difícil a prova desse conhecimento. Assim, como se demonstrou em Phantasms of the Living, pode-se tratar de um fenômeno da clarividência, inclusive nos casos em que a carta não apresente em si qualquer importância. Existirá uma ação recíproca entre a esfera do conhecimento do espírito desencarnado, de forma que a intuição de um esteja, numa certa medida, reforçada pela do outro?

É o caso do Sr. Tandy, que escolhe ao acaso um jornal, na casa de alguns amigos, e ao chegar em casa, enquanto procura na estante o livro que deseja, volta-se para a janela e enxerga o vulto de um velho amigo, que não via há uns dez anos; aproxima-se e o vulto se esvanece. Ao abrir o jornal, lê a notícia do falecimento desse amigo. (Proceedings of the S. P. R., V, pág. 409).

Este incidente tomado isoladamente e sem conexão aparente com outras formas de ação manifestadas pelos mortos parece, inclusive, deveras raro para ser classificado num grupo coerente. Mas a sua inclusão é facilitada por certos casos em que o sujeito experimenta uma sensação de depressão inexplicável no momento da morte de seu amigo, que sobrevém a distância, sensação que persiste até a chegada da notícia, quando, em vez de intensificar-se, desaparece subitamente. Em um ou dois casos desse gênero, a aparição permanece até à chegada da notícia, desaparecendo imediatamente a seguir. E por outro lado a aparição parece preparar o espírito do sujeito para a notícia chocante que o espera. Pode-se concluir que nestes casos a atenção do espírito está concentrada, de um modo mais ou menos contínuo, no sobrevivente, até que este receba a notícia. Isso não nos explica como o espírito sabe que chegou a notícia. Nesta hipótese o conhecimento desse gênero pareceria menos raro e isolado.

Citarei, a seguir, um caso ímpar, dado o caráter absurdo que pode ter para alguns.

Trata-se de duas moças, duas irmãs, que, após ficarem ao lado de sua mãe, que acabara de falecer, foram descansar no quarto vizinho. Era por volta das dez da noite. Repentinamente, ouviram a voz do irmão, que estava num lugar a 700 quilômetros deste, cantar um dueto com voz de soprano, acompanhado de harmônio. Distinguiram perfeitamente a música e a letra. Mais tarde ficaram sabendo que o irmão prestara um concurso para um concerto e cantara em dueto, com um soprano, o trecho que as irmãs ouviram. E o telegrama que elas enviaram não fora entregue senão quando ele concluíra sua participação (Proceedings of the S. P. R., VIII, pág. 220).

Pode-se explicar este caso somente pela hipótese de que o espírito da mãe alertara as filhas da demora na entrega do telegrama.

Gostaríamos agora de abordar os casos onde a aparição é impotente para comunicar uma mensagem mais definida daquilo que constitui o fato mais importante, ou seja, a persistência de sua vida e de seu amor. Esses casos podem, porém, ser divididos em diversas categorias. Mas cada aparição, ainda que momentânea, é um fenômeno mais complexo do que parece.

Pode-se estabelecer uma primeira divisão em aparições pessoais e locais, as primeiras destinadas a agir sobre o espírito de certos sobreviventes, as segundas unidas a lugares determinados, freqüentemente, é certo, tendo por objetivo impressionar os sobreviventes, mas suscetível de degenerar e de manifestar-se por sons e visões que parecem excluir um objetivo e uma inteligência qualquer.

Consideremos, pois, essas propriedades sem esperar que nossas divisões apresentem uma simplicidade lógica, porque acontecerá, com freqüência, que os caracteres locais e pessoais permanecerão confusos, como no caso em que o sujeito procurado pela aparição mora numa casa conhecida, familiar. Mas, em alguns casos, como no do arranhão vermelho (ver antes) ou o da condessa Kapnist (idem), a aparição se produz num meio estranho e desconhecido para a pessoa falecida. São manifestações de uma forma superior e mais desenvolvida, as que nesse caso se observam. Entre as aparições mais breves e menos desenvolvidas, as freqüentações pelo fantasma de meios desconhecidos são relativamente raras. Nos casos desta categoria, assim como nos casos em que a aparição atinja o sujeito no meio do mar, só a personalidade do sujeito é capaz de guiar a aparição em suas investigações. No caso de M. Keulemann (Phantasms of the Living, I, pág. 196), que viu o filho aparecer duas vezes: no momento da morte e após a morte. Dir-se-ia que na primeira vez o filho buscara o pai num meio conhecido e na segunda num meio desconhecido. Existem ainda casos auditivos em que a palavra do fantasma se produz em lugares desconhecidos da pessoa falecida.

Uma das características das aparições é que um grupo de pessoas pode, simultânea e conjuntamente, ver um vulto ou ouvir uma voz fantasmagórica. Não nos casos superiores, mas nos de mera “obsessão”, quando a figura é vista simultânea ou sucessivamente por diversas pessoas. Não sei como explicar essa tendência aparente a não ser que se admita que os espíritos “familiares” são mais “apegados à terra” e mais próximos da matéria do que os outros. Mas os exemplos de coletividade abundam em todos os grupos de aparições; e a aparência irregular de uma característica que pareceu tão fundamental nos mostra até que ponto pode variar o mecanismo interno, nos casos que nos parecem compostos de acordo com o mesmo modelo.

Citarei a seguir o caso do Sr. Town, cuja aparição, sob a forma de um medalhão, de tamanho natural, refletido na superfície brilhante de um armário, foi vista uma noite, seis semanas após sua morte, num quarto iluminado a gás e, ao mesmo tempo, por seis pessoas, duas filhas, sua mulher e três empregados, de tal forma que cada uma destas pessoas viu-a de forma diferente, o que exclui a possibilidade de sugestão (Phantasms of the Living, II, pág. 213).

Ao lado dessa aparição coletiva poderemos citar outros exemplos em que a aparição foi vista por uma só pessoa. É este, por exemplo, o caso do pequeno Gore Booth (Proceedings of the S. P. R., VIII, pág. 173), que enxergou na parte baixa de uma escada de serviço, que ligava o restante da casa com a cozinha e, no umbral desta, isto é, num lugar em que o finado costumava ficar, um velho empregado que se fora há muito e que Gore sabia estar doente. As informações demonstraram que a aparição se produziu duas horas depois da morte do criado e quando ninguém na casa, nem Gore, estava a par do acontecimento. Deve-se acrescentar que a irmã de Gore, que o acompanhara à cozinha, nada viu. É possível que se tratasse de uma influência transmitida pelo espírito do defunto ao espírito do vivo e que só se manifestou quando o último se achou no lugar onde a lembrança do morto poderia facilmente ser evocada.

Esse caso assemelha-se ao da Sra. Freville (Phantasms of the Living, I, pág. 212), mulher excêntrica, que gostava de freqüentar o cemitério e rondar a tumba de seu marido e que foi vista certa noite por um jardineiro que atravessava o cemitério, dando-se este fato sete ou oito horas após a morte dela.

É evidente que a mulher não podia ter qualquer desejo de aparecer ao jardineiro. Achamo-nos, talvez, na presença de um caso de obsessão elementar, de um início destas reaparições sem objetivo e sem consciência nos lugares familiares que, com freqüência, persistem após a morte.

Um caso bastante semelhante é o do coronel Crealock (Proceedings of the S. P. R., V, pág. 432), em que um soldado foi visto por seu superior, horas após a sua morte, enrolando e levando embora seu saco de viagem.

Insistindo sobre esses casos intermediários de aparições portadoras de mensagens e das obsessões sem objetivo, chegaremos rapidamente a entender as obsessões típicas, que, mesmo constituindo fenômenos populares entre os que nos interessam, não são de índole a satisfazer o observador. Existe uma tendência a encontrar uma relação qualquer entre a história de uma casa mal-assombrada, de um lado, e as visões e sons diluídos e freqüentemente diversos que perturbam e aterrorizam seus habitantes vivos, de outro. Mas devemos nos libertar da idéia de que a causa principal desse tipo de obsessão é um crime hediondo ou uma catástrofe sem limites. Os casos que conhecemos confirmam esta idéia. Quase todas as vezes trata-se de uma aparição vista por um estranho, meses após a morte, sem qualquer razão para que se dê naquele momento e não em outro.

Considero que a ação contínua do espírito desencarnado constitui o principal fator determinante dessas aparições. Mas não é o único elemento, enquanto os pensamentos e as emoções das pessoas vivas intervenham para auxiliar ou condicionar a atividade independente dos espíritos. Acredito, inclusive, que é possível que a fixação intensa de meu espírito, por exemplo, sobre o espírito de uma pessoa falecida seja capaz de ajudá-la a se manifestar num momento dado, não para mim, mas para outra pessoa mais sensível do que eu.

Existe, todavia, outro elemento que desempenha papel relevante nesses grupos de aparições pouco claras, cuja significação é mais difícil de determinar do que a ação possível dos espíritos encarnados. Falo dos resultados possíveis da atividade mental passada, que, de acordo com o que sabemos, podem persistir, de alguma forma, num sentido perceptível, sem serem reforçados, da mesma forma que persistem os resultados da antiga atividade corpórea. Essa questão nos leva a outra mais ampla, a do conhecimento póstumo e as relações entre os fenômenos psíquicos e o tempo em geral, que não podemos tratar neste capítulo.

Devemos recordar que essas possibilidades existem e que elas nos fornecem a explicação de certos fenômenos nos quais as manifestações recentes de inteligência entram numa parcela mínima, como por exemplo, os sons despojados de significado que persistem durante anos num cômodo de determinada casa.

Porém, em alguns casos espaçados, em que são ouvidos sons de origem desconhecida, antes ou depois da morte de uma pessoa, pode-se supor que se trate de sons de recepção (de boas vindas), análogos às aparições de boas vindas de que já falamos, isto é, de uma verdadeira manifestação da personalidade. Os sons em questão podem ser ou não articulados e tomar a forma de ruídos musicados ou imitar os que a pessoa falecida costumava emitir (no exercício da profissão, por exemplo).

Mas, afastando todos esses casos cuja principal característica consiste na produção de sons não articulados, achamo-nos diante de casos de obsessão, em que diversas pessoas viram espectros, e casos que, com freqüência, se assemelhavam. Sobre esse tema foram formuladas diversas hipóteses; a meu ver, considero que quando o mesmo fantasma é visto por mais de uma pessoa ao mesmo tempo, trata-se de uma transposição da parte do espaço em que o fantasma foi percebido, sem que a matéria em si, que ocupa esse espaço, tenha sofrido qualquer transformação. Não se trata, pois, de percepção ótica ou acústica, de raios luminosos refletidos, ou de ondas sonoras postas em movimento; antes, de uma forma desconhecida de percepção supranormal, que não age, necessariamente, através dos órgãos terminais dos sentidos. Inclusive, vejo certa analogia entre esses relatos de assombração e os fantasmas dos vivos (denominados psicorrágicos). Parece-me que se produz, em cada caso, um deslocamento involuntário de um elemento do espírito, independentemente do centro principal da consciência. Estas “obsessões entre vivos”, se assim podemos chamá-la, em que, por exemplo, um homem é visto sob a forma fantasmagórica, de pé, diante da lareira, são, talvez, suscetíveis de mais facilmente renovar-se, quando o espírito se separou do corpo.

Quanto à questão do papel desempenhado por certas casas na produção de aparições, faz parte da questão mais ampla do conhecimento póstumo; não se trata aqui de propriedades especiais destas casas, mas de um ramo do grande problema das relações existentes entre os fenômenos supranormais e o tempo. As manifestações que se produzem nas casas assombradas dependem de um antigo acontecimento. Essas manifestações são uma conseqüência ou mero resíduo? Qual é o gênero de dependência, nesse caso? Trata-se de operação atual ou apenas de percepção atual de acontecimentos já realizados? Podemos, nestes casos, estabelecer uma distinção real entre uma ação contínua e uma percepção contínua de uma ação passada? Parece-me existir estreita analogia, ainda que não evidente à primeira vista, entre esses fenômenos de obsessão, esses sons e visões persistentes, e certos fenômenos de cristaloscopia e de escrita automática que também dependem de acontecimentos realizados há tempos, dos quais são conseqüência ou resíduo. Existem casos em que a relação entre a aparição obsessiva e uma pessoa morta há muito tempo parece verdadeira, e outros em que se torna cada vez menos evidente, até que a gente se encontra apenas na presença de cenas fantasmagóricas, que é impossível atribuir à atividade real de um espírito humano. Uma visão, por exemplo, como a de um animal fantasmagórico atravessando um vale, se foi vista, no mesmo lugar, por diversos espectadores, pode ser considerada como algo além de mera ilusão subjetiva. A significação real dessa imagem leva-nos às teorias sobre a permanência ou simultaneidade dos fenômenos que se desenvolvem no seio da alma universal, situada fora do tempo.

Estes conceitos pertencem aos mais elevados de nosso espírito. Se pudéssemos nos aproximar mais deles, seriam de natureza a influenciar profundamente a idéia que temos de nosso destino longínquo.

Talvez um dia isso aconteça. Por enquanto devemos contentar-nos com um simples golpe de vista sobre o véu impenetrável que até agora permanece ante a nossa visão.

Não nos parece necessário, nem prudente, terminar este capítulo sem acrescentar algumas palavras sobre o lado moral e estético do problema. Quem se propõe a trabalhar de acordo com a sua opinião e fazê-la avançar pelo caminho da verdade deve dar-se conta do seu estado real. Mas o que este livro encerra de novo está destinado a agir sobre preconceitos de caráter tanto moral quanto intelectual. Seria dar prova de pedantismo não querer mencionar as questões de ordem moral quando se tocam matérias que a maioria dos que pensam consideram antes do ponto de vista moral do que do ponto de vista científico. Quando fatos novos, de uma importância tão considerável, são chamados a penetrar profundamente na consciência de nossa raça, devem ser coerentes e aceitáveis tanto moral como intelectualmente.

Discutiremos a maioria das questões relacionadas a este tema no capítulo final. Mas há um ponto que se acha, desde já, acima de qualquer discussão, e sua importância é enorme, merecendo nossa atenção: de todos os fatos aqui citados tiramos uma conclusão que, aplicada às superstições e aos terrores humanos, constitui um poderoso remédio, mais poderoso do que o encontrado por Lucrécio.

Nesta imensa série de relatos, por mais complexos e raros que sejam seus detalhes, comprovamos que a natureza da aparição varia de acordo com seu grau de clareza e sua individualidade. Os fantasmas, de aparições incoerentes e ininteligíveis, podem parecer inquietantes e de mau augúrio, mas à medida que aumentam sua claridade, sua inteligência e sua individualidade, tornam-se fonte de amor e alegria. Nunca vi um só caso de combinação póstuma de inteligência e maldade.

Ao examinar a escrita automática, perguntar-nos-emos qual a origem das piadas vulgares e das mistificações absurdas que se encontram associadas aos fenômenos desse gênero. Teremos que estudar a questão para saber se se trata de uma espécie de sonho do próprio autômato, porquanto essas mistificações de piadas indicam a existência de inteligências desencarnadas ao nível do cão e do macaco.

Mas, por outro lado, a antiga concepção de espíritos malignos, de poderes maléficos que formam a base do estudo dos satanistas, e da maioria dos terrores sobrenaturais, desaparece insensivelmente do espírito, à medida que estudamos os fatos que se nos apresentam.

Nossos relatos nos foram transmitidos por homens e mulheres que representam as diversas variedades da opinião média, e todos esses relatos convergem para um só objetivo que é o de estabelecer uma diferença marcante entre o ponto de vista científico e o ponto de vista supersticioso, aplicados aos fenômenos espirituais. O terror que constitui a base das teologias primitivas se manifesta entre os povos, sempre que se faz alusão à possibilidade de comunicação com almas descorporificadas.

Mas a transformação do terror selvagem em curiosidade científica constitui a essência da civilização. Todos esses fatos tendem incontestavelmente a apressar essa transformação. Nesse mundo do espírito, que se abre diante de nós, creio distinguir, mais do que uma intensificação, uma desintegração do egoísmo, da malquerença e do orgulho. E não é este o resultado natural da evolução moral do mundo? Se o homem egoísta é, segundo a expressão de Marco Antônio, “um cancro, uma úlcera do Universo”, esses impulsos egoístas não devem, num mundo melhor, sofrer uma queda definitiva, se bem que penosa, ao não encontrar qualquer apoio entre as forças permanentes que mantêm o curso das coisas? 82




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