Fredrich W. H. Myers a personalidade Humana



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VI
Automatismo sensorial


Os fenômenos do automatismo sensorial e motor, pelos quais se manifesta especialmente a faculdade da telepatia e da telestesia, introduzem-nos num domínio onde desaparecem as limitações da vida orgânica. Considerando, por outro lado, que a porção de nossa personalidade que exerce esta faculdade durante nossa existência continua exercendo-a mesmo depois da morte corporal, temos que reconhecer uma relação obscura mais indiscutível entre o eu subliminar e o eu que sobrevive.

Iniciarei, pois, por definir o automatismo como o termo mais amplo aplicável às influências subliminares que se manifestam na vida comum. Algumas dessas influências já receberam nomes especiais: histeria, gênio, hipnotismo. Mas a grande variedade de manifestações subliminares permanece ainda por ser descrita. Assim, não falamos ainda das alucinações verídicas, nem da escrita automática, nem das manifestações de sonambulismo espontâneo. Os produtos da visão e da audição internas, exteriorizados de forma a revestir o caráter de quase-percepções, é o que chamo automatismo sensorial. As mensagens enviadas por intermédio dos movimentos das pernas, das mãos ou da língua, e atribuídos a impulsos motrizes internos, independentes da vontade consciente, é o que chamo automatismo motor. Examinados em conjunto, todos esses fenômenos dispersos revelam, apesar dessa diversidade de forma, uma analogia essencial e podem ser considerados como mensagens que o eu subliminar dirige ao eu supraliminar, como esforços conscientes ou não, emanados das camadas profundas de nossa personalidade e destinados a mostrar ao pensamento comum da vigília fragmentos de conhecimento que o pensamento da vigília não pode alcançar.

Enquanto que a psicologia comum vê na vida supraliminar a manifestação da personalidade normal e substancial, da qual a vida subliminar constituiria ou o substrato semiconsciente, uma margem parcialmente iluminada ou, finalmente, uma excrescência mórbida, considero a vida supraliminar como um aspecto específico da personalidade, como uma fase especial cujo estudo nos é fácil, já que se encontra simplificado pela consciência clara que temos do que nela ocorre, mas que estaria longe de ser considerada como a fase central ou predominante, caso nos fosse possível abarcar com uma vista d’olhos a nossa existência em sua totalidade. E, do mesmo modo que a personalidade supraliminar, toda faculdade humana, todo sentimento humano, constituem aspectos específicos de uma força mais geral. De acordo com esta hipótese, cada um de nossos sentidos especiais pode ser concebido como tendente a um desenvolvimento mais completo que o possibilitado pela experiência terrestre. E cada sentido especial é, por sua vez, um sentido interno e um sentido externo, isto é, implica, ao mesmo tempo, um trajeto cerebral de uma capacidade desconhecida e uns órgãos terminais cuja capacidade presta-se melhor à avaliação. A relação entre esta visão interna, mental, com a percepção psicológica não sensorial de um lado, e a visão ocular do outro, constitui precisamente um dos pontos cujo exame mais profundo parece necessário. Obrigamo-nos a falar da percepção visual mental em termos emprestados à percepção sensorial, caso não quisermos tornar impossível qualquer discussão.

Mas a experiência comum pretende que só o órgão terminal é capaz de receber informações novas e que o trajeto central só serve para combinar essas informações novas com as que já estão armazenadas. Assim é, por exemplo, o caso dos conhecimentos adquiridos pela vista ou pelo ouvido, isto é, conhecimentos que nos trazem as ondas etéreas ou aéreas, e que são recebidos por um aparelho terminal especial. Mas todos os fenômenos de visão e audição não ocorrem necessariamente por meio dos olhos e dos ouvidos.

A visão de nossos sonhos (só falamos da visão para simplificar o problema) é uma visão não-ótica. Nasce no cérebro sem ter sido transmitida pela retina impressionada. As leis óticas não podem ser aplicadas a esta visão, senão dando aos termos um sentido novo.

Esse fato é geralmente considerado como pouco importante, porque a visão dos sonhos é considerada, em si mesma, como desprovida de valor, como uma simples reprodução de conhecimentos adquiridos durante a vigília.

É-nos impossível concordar com esta opinião. É-nos impossível dizer, a priori, por quais as vias ou de que regiões vem o conhecimento ao eu subliminar. Isso deveria ser um mero assunto de observação e de experiência.

O que devemos fazer é generalizar o mais que possamos o nosso conceito de visão, deixando de identificá-lo com os fenômenos definidos da visão da retina ou ótica e encontrar depois que espécies de mensagens nos chegam pelas diversas formas de visão que resultam nesse conceito genérico.

Mas, antes de tudo, uma análise rápida das relações existentes entre a visão central e a visão periférica não seria de todo inútil. Partimos de uma região situada sob o ponto de especialização da faculdade visual. O estudo das modificações dérmicas e nervosas sucessivas que deram lugar ao nascimento dessa faculdade compete à biologia: só temos que mostrar que o fato isolado dessa faculdade num germe animado de vida metaetérea indica que uma certa percepção, que devia servir de ponto de partida à visão, preexistia no mundo original invisível. O germe estava constituído ab initio, de maneira que pudesse desenvolver-se neste caminho e em outros, e isto independentemente da questão de saber se cada uma das modificações específicas existiam (podendo ser discernida por um observador onisciente) desde o início, ou se não existia, por assim dizer, mais que um fundo sobre o qual se formaram pouco a pouco e sucessivamente os elementos determinados e precisos tomados ao mundo da vida. Sabemos, vagamente, como se realizou a diferenciação periférica da visão, à medida que aumentava a sensibilidade das manchas pigmentárias à sombra e à luz. Mas deve ter-se produzido também uma diferenciação cerebral e uma diferenciação psicológica, isto é, o nascimento de uma sensação diferente, oposta às sensações escuras precedentes, das quais não é impossível se reconstituir a história.

Não acredito que persistem sempre em nossa estrutura cerebral os vestígios dessa transição de nossa sensibilidade contínua, não diferenciada e primitiva, ao estado atual que é o da especialização dos sentidos. Em cada um de nós existe, provavelmente, de maneira mais ou menos diversa, uma certa sinestesia ou concomitância de impressões sensoriais, independentemente da lei de associação. Um segundo sentido vem freqüentemente reagir, de forma automática, a uma excitação que parecia dirigida num único sentido. Não me atrevo a dizer que unicamente o ladrar de um cão faça nascer diante de nós o aspecto de um cão, porque o ladrar sugere tal imagem; esta é uma consideração que resulta da experiência adquirida no curso da vida. Mas, para um verdadeiro sinestesista, para um “visionário dos sons” (para usar a forma mais comum desta repercussão central das impressões sensoriais) existe entre a vista e os sons uma conexão instintiva complexa e que para nossa inteligência é totalmente arbitrária. Podemos, em diversos casos, observar esses cromatismos, senão na sua origem, ao menos em seu desenvolvimento, e atribuí-los então a alguma associação estranha e caprichosa. Mas, ao lado deste primeiro grupo existe um segundo, onde o cromatismo é, por assim dizer, anterior ao nascimento da conscientização, como nos casos em que existe uma correspondência precisa, inexplicável, entre tal nota tocada no piano e a cor verde da maçã. A meu ver, essas sinestesias eqüidistam das percepções de origem externa e das de origem interna. Por outro lado, essas irradiações da sensibilidade, congênitas na aparência, não podem ser consideradas como um fenômeno puramente mental, nem classificadas entre os fenômenos da visão exterior, porque freqüentemente são o resultado de um processo de associação mental. Seria mais conveniente chamá-los entencefálicos, por analogia aos fenômenos entópticos, uma vez que parecem ser atribuídos a uma particularidade na estrutura do cérebro, como as percepções entópticas estão unidas a certas particularidades da estrutura do olho.

Desse fotismo entencefálico passamos por uma insensível transição à forma mais característica da visão entóptica e à mais interna da visão externa: as faíscas luminosas que provocam a eletrificação do nervo ótico. Aparecem a seguir os fosfenos, como conseqüência de uma pressão exercida sobre o nervo ótico ou de uma irritação da retina; as figuras de Purkinje, ou as sombras projetadas pelos vasos sangüíneos da camada média da retina sobre sua camada papilar; moscas voando ou sombras projetadas pelas partículas do humor vítreo sobre a camada fibrosa da retina.

As pós-imagens formam uma transição da visão entóptica à visão externa comum; essas imagens, ainda que perceptíveis com os olhos fechados, pressupõem uma estimulação externa prévia da retina; formam na realidade os vestígios entópticos da visão externa comum.

Em último lugar, temos a visão comum externa, que podemos levar ao mais alto grau de intensidade com a ajuda de processos artificiais. Aquele que olha as estrelas através de um telescópio procura para seus órgãos terminais o maior aperfeiçoamento mecânico que se possa obter na atualidade.

Consideremos agora o grau mais avançado da faculdade da visão interna. Essa visão é virtualmente independente do olho; isto é, pode persistir mesmo depois da destruição do olho, contanto que este tenha funcionado o tempo suficiente para dar ao cérebro uma educação visual. Não sabemos quais são os limites exatos dessa independência; um estudo mais completo do que o realizado até agora sobre os cegos inteligentes é a única coisa que nos poderia informar sobre isso. Não podemos dizer até que ponto o olho é, por sua vez, influenciado pelo cérebro nas pessoas clarividentes. Abster-me-ia de qualquer síntese no que diz respeito à existência de uma corrente retrógrada do cérebro à retina, do mesmo modo que me abstive, para indicar o lugar primitivo da vista, de qualquer expressão mais específica que o termo cérebro. Trata-se aqui de um nexo psicológico que pode ser discutido, sem que haja necessidade de entrar no domínio da fisiologia.

As imagens-lembrança constituem o tipo mais comum de visão interna. Entenda-se, essas imagens não nos trazem conhecimentos novos, antes têm exclusivamente por objetivo manter os conhecimentos adquiridos através da visão externa. Na sua forma espontânea mais simples constituem os vestígios cerebrais da visão externa, da qual as pós-imagens constituem os vestígios retinianos. Esses dois gêneros de imagens podem se achar mesclados em certos casos. Mas o que caracteriza as impressões armazenadas no cérebro, e o que as distingue das armazenadas pela retina, é que encerram um elemento psíquico que se manifesta por uma nova disposição e uma generalização das impressões retinianas.

Existe um grupo muito conhecido de imagens-lembrança, nas quais a disposição subliminar é, particularmente, marcante. São os sonhos que se subdividem em imagens imaginativas e em alucinações. As primeiras designam a nova combinação consciente de nossa reserva de imagens visuais, que elaboramos ora por mero prazer, como quando sonhamos acordados, ora como artifícios destinados a fazer-nos compreender melhor determinados fenômenos naturais, como ao construirmos figuras geométricas, e Watt, imaginando sua máquina a vapor enquanto estava deitado numa casa às escuras, alcançou o último limite da visão interna involuntária.

A visão interna consciente não pode ir mais longe. Mas, por outro lado, as imagens imaginativas, qualquer que seja seu valor, constituem um mero esforço para submeter ao controle supraliminar as visões que, como as imagens-lembrança, são, antes de qualquer coisa, de origem subliminar. Desse modo pode-se reconhecer, com segurança, que a imagem da máquina a vapor, tal como apareceu a Watt, adentrou pronta em sua razão supraliminar, enquanto que esta permanecia nessa atitude de expectativa que desempenha um alto papel em todas as invenções. Sem pretender a exata compreensão da proporção do esforço, voluntário ou involuntário, desenvolvido pelo espírito criador, temos, de maneira inconteste, o direito de considerar as imagens visuais como que emergentes de forma espontânea no homem de gênio, como uma fase mais avançada da visão interna.

Chegamos, desta forma, às alucinações por três caminhos diversos: os sonhos são alucinações de pouca intensidade; as imagens imaginativas são suscetíveis de adquirir intensidade semelhante à das alucinações, nos indivíduos cuja faculdade visual esteja muito desenvolvida, e as inspirações geniais se apresentam com freqüência ao espantado artista com toda a vivacidade de uma alucinação.

O que é uma alucinação? Pode-se dizer que é a expressão de uma hiperestesia central. Pode nascer, às vezes, como conseqüência de uma excitação periférica direta; mas na maioria dos casos é uma visão puramente interna que envolve a idéia como uma forma visual. É que, com efeito, qualquer idéia constitui, segundo a predominância dos elementos motores ou sensoriais, ou um movimento ou uma alucinação nascentes. A visão mental tem, como a visão retiniana, seus limites habituais determinados em cada caso pela seleção natural ou, expresso de outra maneira, os limites mais adequados à raça e aos recursos do organismo. Mas em certos indivíduos esses limites podem ser amplamente superados, com ou sem vantagem. Uma acuidade excepcional da visão ocular, inútil à maioria dos indivíduos, é de grande utilidade para o astrônomo; uma excepcional faculdade de visualização interna, simples curiosidade para a maioria, é de grande utilidade quanto se quer desenhar de memória pássaros no vôo.

Trata-se agora de interpretar todos os fenômenos conhecidos sob o nome de alucinações. Até os últimos anos eram considerados como fenômenos patológicos, como expressão de perturbação física. Mas as investigações estatísticas e analíticas de Gurney mostraram que, num grande número de casos de automatismo sensorial, tratava-se de pessoas completamente sadias e que freqüentemente era impossível encontrar uma explicação qualquer desse fenômeno. Onde a causa parecia demonstrada com alguma probabilidade, sua maneira de agir permanecia obscura. Em certas pessoas a ansiedade, o pesar, a espera pareciam desempenhar determinado papel; mas, por um lado, na maioria delas, as alucinações se produziam em momentos de perfeita calma, enquanto tinham atravessado crises de angústia muito intensas, sem sofrer a menor alucinação; e, por outro, as pessoas cujas alucinações pareciam realmente coincidir com um fato superveniente, mais ou menos comovedor, tiveram suas alucinações sem ter experimentado qualquer conhecimento desse acontecimento.

Tratava-se, então, entre as pessoas desta última categoria, de alucinações telepáticas, isto é, de uma faculdade de representar-se acontecimentos que se realizavam distantes do espírito do sujeito, de experimentar percepções verídicas, independentemente dos objetos com que se relacionava, em outras palavras, de uma verdadeira faculdade nova, antes que um sinal de degeneração.

E isso nos traz de novo a tese que formulamos com freqüência, ou seja: que a visão ocular só constitui um aspecto específico da faculdade visual, da qual a visão interna constitui uma expressão mais ampla.

A visão ocular consiste numa percepção de objetos materiais, conforme as leis óticas, num ponto definido do espaço. O estudo que fizemos das alucinações nos permitiu separar duas dessas limitações. Quando falo de figura alucinatória – e as que aparecem no sonho pertencem a esta categoria –, falo de algo que não é um objeto material e que é independente das leis óticas. Uma figura de sonho pode parecer estar de acordo com essas leis, mas isso será o efeito da auto-sugestão, ou de uma lembrança organizada, que irá avaliar segundo a faculdade visionária do que sonha. Enquanto que um pintor é capaz de pintar de memória, durante a vigília, um rosto que lhe apareceu em sonho, os sonhos dos homens comuns são em geral vagos, fugazes e escapam facilmente da memória.

De igual modo, quando vemos uma figura alucinatória subjetiva presente em nosso quarto, seu aspecto não está determinado pelas leis da ótica (pode, em particular, parecer que se encontra atrás do observador ou, de uma forma qualquer, fora de seu campo visual), mas está mais ou menos de acordo, em virtude de uma auto-sugestão, ou de outro modo, e essa figura é visível ainda desde um ponto fixo do espaço constituído pelo olho ou o cérebro do observador.

Tudo isso parece perfeitamente claro, até o ponto de supormos nos ver diante de alucinações nascidas no espírito do sujeito. Mas as dificuldades tornam-se maiores desde quando chegamos às quase-percepções, cuja existência ou origem está fora do espírito do observador.

Se existe uma certa origem externa para nossa visão interna (que por isso se torna verídica), seria errôneo supor que qualquer visão interna tenha a mesma origem. Quando se apóia em fatos (em impressões verídicas ou em pinturas, não em ilusões subjetivas) nunca podemos dizer a priori se a visão vai em busca dos fatos ou se os fatos vão em sua busca. Por outro lado, nada prova que essas percepções tenham como objeto coisas imateriais ou fantasmagóricas. Desde o momento em que essa visão é suscetível de perceber coisas imateriais situadas fora do organismo, por que não há de poder perceber igualmente coisas materiais? Por que não há de ver as casas distantes tão bem como as imagens das almas ausentes?

Examinemos agora os meios que nos permitem compreender, desenvolver e controlar a visão interna.

A palavra controle significa tanto repressão como direção; e existe, com efeito, uma categoria de visões internas que necessitam ser reprimidas. O delírio alucinatório do ébrio e do maníaco, que representa o grau extremo de desintegração da visão interna, pode ser interrompido raramente, enquanto o cérebro continua envenenado e doente. Mas constitui um fato digno de observação que as alucinações degenerativas, enquanto curáveis, devem essa cura mais freqüentemente e com maior facilidade à sugestão hipnótica do que a qualquer outro meio. As mesmas influências que originam as alucinações anódinas podem destruir as alucinações perigosas. Essa extensão do poder das camadas profundas do espírito do paciente, essa possibilidade de alcançar uma fonte profunda, que a princípio parecia uma simples curiosidade científica, adquirem agora um uso prático novo.

Em nossa discussão relativa ao hipnotismo tratamos de demonstrar que a sugestão não implica uma simples obediência do indivíduo às ordens que se lhe sugerem, antes, que é unicamente eficaz quando o indivíduo adote minha sugestão, até o ponto de transformá-la em auto-sugestão, e de exercer a faculdade novamente desenvolvida no sentido desejado pelo hipnotizador. Não é, pois, a ordem do hipnotizador, trata-se da faculdade do sujeito, o que constitui o quid da questão.

Passamos em revista todas as faculdades suscetíveis de uma intensificação hipnótica: a faculdade profunda orgânica, a que preside o sistema de nutrição e à qual se dedica a psicoterapia; assistimos, igualmente, ao aumento da sensibilidade aos estimulantes externos, à hiperestesia hipnótica, isto é, à intensificação que provavelmente pode ser levada a um grau desconhecido, da vista, do ouvido, do olfato e do paladar. Citamos os fenômenos da heterestesia, isto é, das percepções de um gênero novo, as dos campos magnéticos, e o contato dos metais específicos. Não discutiremos a questão de saber se trata-se, nesse caso, de estimulações da sensibilidade periférica ou da receptividade central, isto é, se os órgãos terminais transmitiam uma informação vinda do mundo exterior em termos novos, ou se o cérebro aplicava a uma informação comum uma nova qualidade mais requintada de interpretação.

Ocupamo-nos, finalmente, do fenômeno da exaltação dessa faculdade central, que não é unicamente sensorial, mas antes atinge mais ao sentido intelectual e moral; mas omitimos a referência à “exaltação da imaginação”, da possibilidade que existe de dar às imagens que têm uma origem central um pouco mais dessa vivacidade que só podem alcançar as imagens advindas do mundo exterior.

Nosso estudo das alucinações leva-nos a considerar as possibilidades, os estímulos desta última categoria. Porque as alucinações que nos ocupam não são exteriorizações toscas de alguma comoção interna, assim como as sensações luminosas, através das quais os nervos óticos reagem a um traumatismo da cabeça. Na maioria dos casos são produtos elaborados e em cuja elaboração a inteligência deve ter tomado parte, ainda que de um modo obscuro para nós. De acordo com isso, as imagens de que tratamos lembram as inspirações do gênio, cujos caracteres apresentam: aparição de um produto intelectual complexo, pré-constituído sob o umbral da consciência e projetado, uma vez que já estava constituído, na consciência comum. No gênio, esta corrente subliminar perturba raramente, apesar de sua aparição brusca e inesperada, a corrente de idéias supraliminares à qual se adapta melhor. Mas, nos casos de alucinações induzidas, a incompatibilidade entre essas duas correntes de inteligência é mais pronunciada, e a corrente superficial consciente está mais oscilante, e com maior freqüência, pelas intervenções intermitentes da corrente subliminar, como na sugestão alucinatória pós-hipnótica.

Considerando as alucinações, do ponto de vista geral, chegamos a compreender sua independência de qualquer degeneração ou doença corpórea. Freqüentemente acompanham, com efeito, a doença; mas isso prova somente que os trajetos centrais, a exemplo de todas as demais partes do organismo, estão, igualmente, sujeitas aos estímulos mórbidos e às excitações sadias. Tomado por si só, o simples fato da exteriorização de uma imagem que tenha uma origem central é unicamente o resultado de um forte estímulo interno e nada mais. Não existe lei fisiológica que nos possa informar sobre o grau de vivacidade que deve ter uma imagem central para ser compatível com a saúde, exceção dos casos em que essas imagens tornam-se impossíveis de distinguir das percepções externas, até o ponto de perturbar a maneira racional de viver, como na loucura. Nenhum dos casos de alucinações verídicas alcançou, que eu saiba, esse ponto.

Falei das alucinações que a sugestão é suscetível de produzir, quer durante o sono hipnótico, quer depois dele, ou em pessoas acordadas. Esses casos de quase-percepção são agora familiares para todos, ainda que seu verdadeiro significado não tenha recebido a devida atenção. Mas, esta forma de experiência pode variar e aperfeiçoar-se? Podemos livrá-la de seus elementos supérfluos e pôr em relevo de forma mais contundente a parte realmente interessante?

Estudamos as imagens alucinatórias, nascidas como conseqüência da sugestão feita por A no espírito do indivíduo hipnotizado B. Mas a questão de saber se a voz ou a ordem de A intervém na produção dessas imagens não nos interessa. Desejamos estudar o espírito de B e gostaríamos de deixar o espírito de B livre de qualquer sugestão verbal comum, mesmo desejando observar, no que for possível, uma influência telepática. Agradar-nos-ia, também, poder prescindir do hipnotismo e de mostrar e descrever a B suas alucinações durante a vigília. Pode B alcançar essas imagens subliminares mediante um mero esforço da vontade? Pode fazer algo além de provocar só essas imagens-lembrança, mediante combinações mais ou menos fantásticas? Será que, além dos casos raros e verdadeiramente assombrosos de alucinações reais, é possível encontrar algum indício que permita supor a existência de um costume ou de uma faculdade de receber ou evocar as imagens da reserva subliminar? Alguma auto-sugestão, consciente ou inconsciente, que coloca diante da inteligência supraliminar imagens que parecem ter sido formadas em outra parte?

Esses indícios existem realmente. No capítulo sobre o gênio, e no capítulo sobre o sono, provamos a existência de determinadas categorias dessas imagens, cada uma das quais pronta a se manifestar ao menor estímulo, surgindo as figuras do sonho, durante um momentâneo obscurecer da consciência; as inspirações correspondentes ao desejo concentrado ou a emoção meramente passageira do homem de gênio; as pós-imagens que se reproduzem em condições desconhecidas, muito depois de desaparecida a excitação original; as imagens-lembrança que surgem em nosso espírito com uma vivacidade nem sempre desejada e, por fim, a exatidão das ilusões hipnagógicas feita para nos surpreender, ao revelar um estado de transição da vigília ao sono.

Trata-se agora de encontrar um meio empírico singelo que permita reunir todas essas variedades de visões subjacentes, de lhes encontrar uma base comum.

Esse meio nos proporciona, primeiramente, a cristaloscopia (cristal-visão). Eis no que consiste essa experiência: faz-se com que o indivíduo olhe atentamente, mas sem fatigá-lo, um espelho ou um fundo claro e transparente disposto de maneira que reflita, o menos possível, tanto o rosto do observador como os objetos que o rodeiam. O melhor modo de evitar os reflexos consiste em usar uma bola de cristal envolvida por um pano negro, colocada no fundo de um caixote entreaberto. Depois de olhá-la duas ou três vezes, durante dez minutos, cada vez, é preferível que o sujeito permaneça sozinho no quarto e que se encontre num estado de passividade mental: começará, talvez, a dar-se conta de que o espelho ou a bola estão opacos ou lhe parecerá ver algum rosto ou imagem na bola. Um homem ou uma mulher entre vinte terão, talvez, ocasião de realizar essa experiência e desses vinte visionários somente um será capaz talvez de desenvolver essa faculdade de visão interna até o ponto de receber até informações que seria impossível obter pelos meios comuns.

E, antes de tudo, como é possível, em geral, ver figuras no cristal? Os experimentos hipnóticos comuns nos sugerem duas respostas, cada qual só explicando uma parte do fenômeno.

Sabemos, em primeiro lugar, que o sono hipnótico se produz, com freqüência, quando olhamos fixamente um pequeno objeto brilhante. Isso pode ser, ou não, um efeito da sugestão, mas o fato se produz, com segurança, em certos casos e o sujeito pode ser facilmente hipnotizado e colocado num estado que facilita as alucinações.

Em segundo lugar, pode-se sugerir a um indivíduo hipnotizado o ver (descrever) um retrato sobre um papel em branco; e continuará ele vendo esse retrato, mesmo depois que o papel tenha sido misturado com outros, mostrando assim que discerne com acuidade pouco comum os sinais ou signos indicadores que podem existir aparentemente na superfície de um papel em branco.

A primeira experiência mostra-nos que a cristaloscopia pode, às vezes, vir acompanhada de um estado de hipnotismo parcial, que dá lugar, talvez, à alucinação, e o segundo, que os sinais parecem, às vezes, provocar a cristaloscopia, mas também resulta dos testemunhos dos mesmos indivíduos que foram submetidos a essa experiência, e das observações do Dr. Hodgson e outros (compreendidas as minhas), que tiveram oportunidade de assistir às suas experiências, que o fato de olhar uma bola de cristal provoca, raras vezes, um sintoma hipnótico qualquer, tanto entre indivíduos nos quais teve êxito a experiência, como entre os indivíduos em que não se obteve resultado. Por outro lado, não existe nenhuma prova a favor de uma relação qualquer entre a faculdade da cristaloscopia e a sensibilidade hipnótica. Tudo o que se pode dizer é que essa faculdade está, com freqüência, associada à sensibilidade telepática e, embora esta última possa ser freqüentemente exaltada pelo hipnotismo, nada prova que essas duas formas de sensibilidade caminhem sempre juntas.

Outro fato: a conexão entre o cristal e a visão é das mais variáveis. Às vezes as figuras parecem claramente desenhadas no cristal e limitadas por ele; outras vezes qualquer percepção do cristal e do espelho desaparece e o sujeito se assemelha a um clarividente, introduzido num grupo de figuras animadas com vida. Ainda mais: os sujeitos nos quais esta faculdade é levada ao mais alto grau podem passar sem o espelho e são capazes de ver imagens na simples obscuridade, o que os aproxima aos casos de ilusões hipnagógicas.

Parece, pois, prudente, pelo momento, não ver na cristaloscopia mais do que um simples meio empírico de desenvolver a visão interna, de exteriorizar as imagens associadas às mudanças produzidas nos trajetos sensoriais do cérebro e provocados por estímulos vindos ou de dentro, ou de espíritos diversos do sujeito. As alucinações assim provocadas parecem absolutamente anódinas. Ao menos, não conheço casos em que elas se mostraram danosas em qualquer forma.

Num certo sentido, a cristaloscopia deveria encontrar, logicamente, seu lugar nesta parte de nossa exposição. Com efeito, ocupamo-nos do controle da visão interna, e a cristaloscopia constitui, juntamente com a sugestão hipnótica, um meio empírico de estabelecer esse controle.

Uma revisão geral dos resultados obtidos era necessária, do ponto de vista da comparação com os fenômenos da visão interna espontânea, com as alucinações verídicas de que vamos nos ocupar agora.

Mas, desde outro ponto de vista, a cristaloscopia chega aqui de um modo prematuro, porque poucos dos fenômenos são de natureza que não apareçam ao leitor fantásticos e inacreditáveis. Essas visões não parecem estar submetidas a lei alguma; depende do simples acaso que um indivíduo enxergue um esqueleto, que outro veja uma cena de sua infância, que um terceiro enxergue uma fila de letras, cujo conjunto não tem sentido algum; que um quarto veja uma representação do que um amigo distante está fazendo naquele momento.

As visões cristalinas, cujas causas determinantes não conhecemos, podem ser consideradas como claridades acidentais que iluminam a visão interna, como reflexos sob uma curvatura estranha, indeterminada, que desfigura o universo ao atravessar e iluminar um meio incognoscível, constituído por substância anímica específica. O conhecimento normal e o supranormal e os produtos da imaginação misturam-se e formam irradiações complexas, enfeixando lembranças, sonhos, percepções telepáticas, telestésicas, retrocognitivas, precognitivas, etc. Existem ainda indícios de comunicações espirituais e de uma espécie de êxtase.64

É-nos impossível estudar todos esses fenômenos de uma só vez. Para voltar aos casos de automatismo sensorial espontâneo, vemo-nos obrigados a separar algum fenômeno fundamental que contém o princípio do qual derivam os demais fenômenos mais raros e complexos. Isto é relativamente fácil, porque a teoria da experiência real postula o princípio de que se a visão e a audição internas, cuja importância demonstramos, possuem realmente esta importância e um valor qualquer e se, na realidade, representam alguma coisa mais do que os sonhos e as meditações, devem obter cognições e informações de espíritos ou objetos distanciados e recebê-las de outra forma, que por meio dos órgãos dos sentidos externos. Devem existir comunicações entre as porções subliminares, como existem entre as porções supraliminares de diferentes indivíduos. Em resumo, a telepatia deve constituir a condição essencial de todos esses fenômenos.

Vejamos como a experiência atual confirma esta opinião, em relação ao papel da telepatia; porque ao passar dos fenômenos provocados aos fenômenos espontâneos, veremos que estes últimos proporcionam, antes de tudo, uma prova a favor da transmissão de emoções e pensamentos, de um espírito a outro.

Primeiramente devemos reconhecer que a telepatia deve existir, com certeza, em alguma parte do universo, se este último contém, de modo geral, as inteligências não encarnadas. Somente supondo que toda a vida do Cosmos está encarnada em organismos semelhantes aos nossos, não podemos conceber outros meios de comunicação, senão através dos órgãos dos sentidos. Mas, se existe outra vida, menos apegada à carne, mais espiritual (como o homem concebe a vida superior), apresentam-se ao espírito duas suposições: ou não existe troca de pensamentos, isto é, vida social, ou esta troca só pode ser produzida através de meios diversos da língua e do cérebro.

Esta verdade parecera evidente desde que o homem começou a tratar do tema. Mas os progressos da ciência agregaram uma nova hipótese a essas especulações. Falo da hipótese defendida pela idéia de continuidade. Ao verificarmos o vínculo estreito que une o homem aos seres inferiores, que anteriormente se consideravam como separados de nós por um abismo intransponível, chegamos a supor que um vínculo, da mesma maneira, estreito, deveria uni-lo às vidas superiores, que o todo deve formar uma série ininterrupta, que as qualidades essenciais devem ser as mesmas em qualquer parte. Pergunta-se, geralmente, se o homem assemelha-se a um macaco ou a um anjo. A isto respondo que só o fato de existir parentesco com o macaco é prova a favor de parentesco com o anjo.65

Os sentimentos instintivos anteciparam, de outro lado, esses raciocínios especulativos. Os homens acreditaram sempre, e acreditam ainda, na realidade da oração, isto é, na possibilidade de comunicações telepáticas entre nossos espíritos humanos e outros espíritos superiores aos nossos, dos quais supõe-se que não só compreendem nossos desejos e aspirações, como também que são capazes de exercer influências e agir internamente sobre nós.

Essa crença na eficácia da oração está tão difundida que é assombroso que os homens não tenham chegado a esta conclusão aparentemente natural, isto é: se nossos espíritos podem se comunicar por meios que superam os de nossos sentidos, podem, da mesma forma, ser capazes de se comunicar entre si, da mesma maneira. Esse fato foi estudado, em épocas diversas, por eminentes pensadores, desde Santo Agostinho a Bacon, de Bacon a Goethe e deste a Tennyson.

As experiências isoladas provam, de vez em quando, a verdade prática disto. Mas só há alguns anos essa noção vaga e flutuante tomou a forma de uma teoria definida, como conseqüência de experiências sistemáticas.

A Edmund Gurney devemos o primeiro ensaio dessa experiência sistemática,66 baseada num número considerável de observações cuidadosamente verificadas e em experimentos cercados de todas as garantias.

A explicação dos experimentos telepáticos não é fácil. Assinalaremos um que, se correto, seria capaz de colocar esta ciência à altura das ciências mais avançadas: é a teoria das “ondas cerebrais” ou, segundo a expressão mais precisa de Sir William Crookes, das “ondas etéreas” que possuiriam uma amplitude menor e uma freqüência maior das que transmitem os raios X. Essas ondas se propagariam de um cérebro a outro, produzindo neste ou fazendo surgir naquele uma imagem semelhante à excitação, ou à imagem que lhes serviu de origem. Essa hipótese é muito atraente porque relaciona uma atividade que, com certeza, existe, mas cujo efeito é desconhecido, a um efeito existente, mas cuja causa é desconhecida.

No mundo das vibrações, nada parece tão natural quanto invocar outra vibração. Seria, com efeito, arriscado afirmar que um fenômeno qualquer perceptível aos homens não possa ser expresso, ao menos em parte, nos termos das ondulações etéreas. Mas, no caso da telepatia, a semelhança que sugere essa explicação, isto é, a analogia aparente entre a imagem emitida, por assim dizer, pelo agente, e a que percebe o indivíduo submetido à sua influência, como quando concentra a atenção sobre pedaços de papel e o indivíduo vê o papel inteiro, essa analogia está longe de ser completa. Pode-se dizer que o espírito do indivíduo percebe, modificada, a imagem transmitida pelo agente, até que a semelhança entre as duas imagens torna-se puramente simbólica. Vimos que existe uma transição contínua da telepatia experimental para a telepatia espontânea, da transmissão das imagens de papel ao pressentimento da morte de um amigo distante. Esses pressentimentos podem muito bem ser as imagens do amigo moribundo, mas é pouco provável que essas imagens sejam emitidas pelo cérebro do moribundo na forma em que as percebe o cérebro do sujeito receptor. Para citar um caso bem conhecido de nosso arquivo (Phantasms of the Living, I, pág. 210), M. L. morre de um enfarte, deitado em seu leito, nu. No mesmo momento, M. N. J. S. vê M. L. de pé, junto a ele, com ar de contentamento, vestido com traje de passeio e com uma bengala na mão. Não se compreende como as ondulações teriam podido transformar até esse ponto os fatos físicos.67

As alucinações telepáticas coletivas são ainda mais difíceis de serem explicadas pela teoria das ondulações. É difícil compreender como A é capaz de emitir vibrações que, ao se propagar por igual em todas as direções, afetam não somente ao amigo distante, B, como também aos estranhos C e D, que, por acaso, acham-se ao lado de B, sem influenciar, ao que se sabe, qualquer outra pessoa no mundo.

Todos esses pontos foram analisados e discutidos desde que iniciamos nossas investigações. Mas, à medida que nossas experiências se multiplicavam, nosso conceito da telepatia se generalizava, cada vez mais, em outras direções novas, cada vez menos compatíveis com a teoria das ondulações. Mencionamos aqui, com brevidade, três das citadas direções, em particular as relações entre a telepatia e a) a telestesia ou clarividência, b) o tempo e c) os espíritos desencarnados.



a) Cada vez torna-se mais difícil atribuir as cenas que o sujeito capta à atividade de um espírito determinado, que, na realidade, percebe essas cenas distantes. Isto torna-se evidente nas experiências da cristaloscopia.

b) As visões através do cristal mostram, igualmente, o que podemos, do ponto de vista estritamente telepático, considerar como uma elasticidade demasiada em suas relações com o tempo. O indivíduo escolhe, por si próprio, o momento em que deve olhar a bola, e ainda que, com freqüência, veja acontecimentos que se realizam no mesmo momento, pode igualmente ver acontecimentos passados e até, ao que parece, acontecimentos futuros. De minha parte, não posso negar o pré-conhecimento, nem traçar, através dessas visões tão complexas, uma linha demarcatória clara entre o pré-conhecimento e a telepatia.

c) O conhecimento antecipado pode, caso se queira, ser considerado como uma atividade telepática exercida por espíritos desencarnados e isto o coloca num grupo de fenômenos que todos os que se ocupam de nosso tema devem ter reconhecido de há muito tempo. Ao reconhecer, em virtude da causa, que recebemos de pessoas mortas comunicações que chamaríamos telepáticas, se partissem dos vivos, podemos pensar que estas mensagens foram, igualmente, transmitidas por ondas etéreas. Mas, como estas ondas não podem, de modo algum, emanar de cérebros materiais, afastamo-nos, de tal modo, da hipótese primitiva das ondas cerebrais, que se torna muito difícil defendê-las.

Tudo o que podemos dizer a respeito da telepatia é isto: a vida possui a faculdade de se manifestar à vida. As leis da vida, tal como as conhecemos, só são aplicáveis à vida, associada à matéria. Com esses limites, pouco sabemos sobre a verdadeira natureza da vida. Não sabemos se a vida é, unicamente, uma força dirigente, ou se é, ainda, uma energia efetiva. Não sabemos de que forma atua sobre a matéria. Tampouco podemos definir as relações que existem entre nossa consciência e nosso organismo. Atrevo-me a dizer que as observações telepáticas nos abrem determinados horizontes deste lado. Da mesma forma que certos elementos de um organismo individual, fazendo abstração da atividade material, influem sobre outro organismo, podemos aprender alguma coisa sobre a forma como nossa própria vida influi no nosso organismo e mantém, interrompe ou abandona sua curva orgânica.68

A hipótese que sugeri no Phantasms of the Living em minha “Nota sobre uma possível forma de atividade recíproca psíquica” parece-me que se tornou mais verossímil, em conseqüência das numerosas observações feitas desde essa época. Continuo acreditando, e agora com mais certeza do que em 1886, que se produz uma “invasão psíquica”, estabelecendo no meio que cerca o sujeito perceptor um “centro fantasmogenético”, que realiza um movimento de certa maneira relacionado com o espaço tal como o conhecemos, e um transporte da presença que pode ser discernido ou não pelas pessoas invadidas e que resulta da percepção de uma cena distante, da qual a pessoa que age pode não se lembrar.

Mas os termos de que me sirvo, inicialmente, supõem associação de idéias cuja natureza pode chocar a vários leitores, mesmo os menos científicos. Valho-me da linguagem de uma psicologia paleolítica e pareço compartilhar dos hábitos de pensamento do selvagem, que crê poder viajar em sonhos e que o seu espírito pode perseguir e acossar o seu inimigo. Mesmo dando-se conta do que essas expressões contêm de chocante, e do retorno que parecem significar a conceitos tão antigos, não vejo outro meio de me desculpar senão percorrendo novamente, diante do leitor, o caminho que um crescimento gradativo de provas me obrigou, com o fim único de compreender todos os fenômenos, a usar frases e expressões tão diferentes das que Edmund Gurney e eu usamos em nossos primeiros trabalhos sobre esse tema, em 1883.

Eis, sucintamente, os fatos. Quando nosso pequeno grupo começou, em 1882, a colecionar os fatos relacionados com as “alucinações verídicas” ou as aparições coincidentes com outros acontecimentos, de modo a sugerir a idéia de um nexo causal, demo-nos logo conta de que o tema estava apenas abordado. É correto que se citaram, vagamente, casos de diferentes gêneros, mas apenas alguns deles alcançavam esse grau de evidência, de que queremos cercar nossa exposição. Nosso próprio arquivo era incrivelmente pobre, em comparação com a rica colheita que só pedia para ser colhida; mas era suficiente para mostrar essas variedades de aparições coincidentes, que, por sua vez, eram as mais comuns e convincentes. Particularmente, as aparições de pessoas vivas, coincidindo com alguma crise que essas mesmas pessoas sofriam à distância e, além do mais, de pessoas que ainda viviam, mas que estavam em perigo de morte. Esses casos foram os primeiros a alcançar número e valor suficientes para conquistar nossa confiança e em diversos artigos publicados no Proceedings of the S. P. R. e no Phantasms of the Living, foram expostos com a plena evidência que mereciam e relacionados com a telepatia experimental, sendo considerados, em si, como exemplos espontâneos, mas muito mais surpreendentes, das transmissões de impressões de um espírito a outro.

Todavia, por outro lado, descobriu-se entre esses casos determinados exemplos que não se deixam reduzir à concepção da telepatia pura e simples, mesmo que se admita tenha este conceito recebido sua forma definitiva. Às vezes a aparição era vista por mais de uma pessoa, de uma só vez, cujo resultado não se teria produzido caso se tratasse somente da transmissão de um espírito a outro, o qual exteriorizava esta impressão, dando-lhe uma forma material concorde com as leis de sua própria estrutura. Existiam ainda outros casos em que a pessoa influenciada parecia ser a um só tempo a pessoa influenciadora, no sentido de que tinha a impressão de ter, de alguma maneira, visitado, ou percebido uma cena distante, cujo participante não estava, necessariamente, consciente de uma relação imediata com essa pessoa. Ou, às vezes, essa “clarividência telepática” se convertia em “reciprocidade” e cada uma das pessoas em questão estava consciente da outra, a cena de seu encontro era a mesma na visão de cada uma ou, ao menos, a experiência era de alguma maneira comum às duas. Estas e outras dificuldades semelhantes apresentaram-se ao meu espírito desde o início e na “nota”, já mencionada, “sobre uma possível forma de ação psíquica recíproca”, inserida no segundo volume do Phantasms of the Living, indiquei brevemente a extensão da teoria telepática que considerava necessária a ela.

Entretanto, continuavam chegando até nós casos de determinados grupos, ainda que, em número, menos consideráveis que os das aparições no instante da morte. Para não mencionar mais do que os dois grupos mais importantes, achamo-nos na presença de aparições chamadas de mortos e de casos de conhecimento prévio. Para cada um desses grupos, parecia razoável postergar qualquer conclusão, até que o tempo mostrasse se os casos deste gênero e de primeira mão poderiam acontecer de maneira contínua e se os testemunhos independentes continuariam a produzir-se em favor dos incidentes que essas hipóteses explicavam melhor do que outras. Antes da morte de Gurney, ocorrida em 1888, nossos casos de aparições e outras manifestações de mortos adquiriram um valor e uma consistência que, como o atesta sua última obra, convenceram-no de seu caráter verídico, que se acentuou então desde aquela época. A possibilidade de comunicação com pessoas mortas parece, hoje, tão indiscutível como a das comunicações telepáticas entre os vivos; e esta nova possibilidade modifica e amplia, necessariamente, nosso conceito no que diz respeito à telepatia entre os vivos.

Os fatos que abonam o conhecimento prévio eram muito menos numerosos e a evidência, relativamente a esse grupo de fenômenos, aparecia mais vagarosamente. Mas, de qualquer forma, é o suficiente para me fazer acreditar que ter-se-á que contar com esses fatos, sem que se possa afirmar, como faço com as mensagens de pessoas mortas, que todos os que aceitam nossas provas no que diz respeito à telepatia estejam obrigados a aceitar, ao mesmo tempo, as que se referem ao conhecimento prévio. Alguns passarão antes que esses fatos adquiram um valor indiscutível.69

Mas, qualquer que seja o ponto de vista em que se coloca este ou aquele pesquisador de nossa época, afirmo que o único meio racional de se conseguir uma convicção consiste em decompor primeiro a corrente emaranhada de fatos em diversos grupos definidos e, em seguida, observar a freqüência com que esses grupos de fatos se reproduzem, atribuindo-lhes uma importância cada vez maior, dependendo do grau de evidência com que apareçam.

Essa forma de proceder exclui, evidentemente, qualquer opinião a priori e reduz nosso conceito a uma simples classificação a que os fatos já conhecidos devem ser submetidos, de forma que possam ser compreendidos em seu todo.

Minha “psicologia paleolítica” não tem outra ambição. Atenho-me, simplesmente, a exemplo de predecessores antropófagos, a encontrar uma fórmula que abarque todos os fatos observados. “Quais as razões que tenho para acreditar que isto não é correto?” Essa é a pergunta que sempre deve ser feita, quando se chegou a um convencimento, por meios diversos do que a especulação científica, da profunda ignorância com que encaramos o Universo, como ele realmente é.

Reconheço, em todo o caso, que minha própria ignorância é imensa, que minhas noções, no que concerne ao que é provável e ao que é improvável no Universo não me parecem suficientes para separar os fatos que acredito devidamente provados e que não estão em contradição com outros fatos e generalizações melhor estabelecidos. Por mais amplo que seja o domínio dos fatos estabelecidos cientificamente, não representam, de acordo com a confissão dos cientistas mais autorizados, mais do que uma rápida vista d’olhos no domínio desconhecido e infinito das leis.

Desse modo, me vi levado a abandonar minha primeira forma de ver e, em lugar de tomar como ponto de partida o conceito de um impulso telepático que simplesmente se transmite de um espírito a outro, a colocar na base de todos esses fenômenos o conceito da dissociabilidade do eu, admitindo que diferentes frações do eu são suscetíveis de operar independentemente umas das outras, até o ponto de que uma não tome consciência dos atos da outra.

No fundo esses dois conceitos em grande parte se equilibram. Nos lugares onde se encontra uma transmissão experimental de pensamentos e mesmo das variedades mais comuns de aparições coincidentes, a segunda fórmula aparece como uma variação inútil e não provada da primeira. Mas, desde que nos encontramos em presença de categorias difíceis, casos de reciprocidade, de clarividência, casos coletivos e, antes de tudo, manifestações de mortos, encontramos que o conceito de um impulso telepático, uma vez transmitido, fica abandonado a si mesmo, no que concerne ao efeito que deve produzir; esse conceito, dizemos, necessita, para tornar-se evidente, ser analisado, examinado, manipulado de diversas formas. Por outro lado, exatamente nestas difíceis regiões, é onde se observam as analogias com outras formas de desintegração da personalidade e onde os atos de aparição e automatismo nos lembram os atos através dos quais se manifestam os segmentos da personalidade dissociados da personalidade primitiva, mas que operam através de um organismo que é o mesmo em ambos os casos.

A inovação que pretendemos introduzir consiste em supor que os segmentos da personalidade são capazes de agir de uma forma independente, na aparência, da do organismo. Uma semelhante suposição não poderia ter aparecido em nosso espírito sem a prova da telepatia e só pode ser mantida, dificilmente, sem a prova da sobrevivência, após a morte corporal. Porque na telepatia temos um elemento psíquico que faz parte da personalidade, mas que opera independentemente do organismo, e na sobrevivência após a morte corporal achamo-nos na presença de um elemento da personalidade, digamos, de seu último elemento, que age após a destruição do organismo. Portanto, nada há de temerário em reconhecer que um elemento da personalidade pode operar independentemente do organismo, enquanto este último ainda viva.

Trata-se, em último lugar, de uma dissociação da personalidade que manifesta sua atividade num meio metaetéreo; esta será, respeitando a terminologia empregada neste livro, a fórmula que com mais clareza resume todos os casos de aparições verídicas, conhecidas até agora. Assim, a bem da clareza de minha exposição, vejo-me obrigado a usar de palavras mais simples e curtas, por discutível e vago que seja seu sentido. Por isso sirvo-me da palavra espírito para expressar essa fração desconhecida da personalidade humana, que não é a fração supraliminar e cuja atividade surpreendemos antes ou depois da morte num mundo metaetéreo. Não encontro outro termo para expressar este conceito, mas a palavra espírito não implica em qualquer outra coisa, para mim. Da mesma forma, o sentido dos termos invasor e invadido, por estranhos e bárbaros que possam parecer, dependerá de conceitos cuja evidência nos aparecerá cada vez mais patente.

Os fatos que atualmente possuímos apresentam, do ponto de vista do conteúdo e da qualidade, uma gama que nos deixa perplexos. Para a maioria deles, nada mais faço que recomendar aos leitores a obra de Gurney. Aqui, contentar-me-ei somente em discutir alguns pontos.

Recordarei, em primeiro lugar, que todos os casos verídicos de coincidência aparecem sob a forma de um grupo isolado de um fundo de alucinações, que não têm qualquer pretensão de coincidência nem de veracidade. Se as alucinações exclusivamente subjetivas dos sentidos não afetam mais do que os cérebros doentes e desequilibrados, na afirmação corrente, mesmo em círculos científicos, no início de nossas investigações, nossa tarefa seria muito menos árdua. O estado salutar e normal da maioria dos indivíduos que se submeteram às experiências era indubitável e seria para nós de uma enorme simplificação poder dizer, por exemplo, no caso do escolar que viu o fantasma de seu irmão, enquanto jogava cricket: “Esse escolar está em perfeito estado de saúde; essa aparição é a única que teve, logo veio-lhe, necessariamente, de fora.”

Assim pensa, com efeito, a maioria das pessoas, quando uma aparição, única na sua vida, se apresenta a elas num momento em que se sentem sadias de corpo como de espírito. Durante o curso de sua pesquisa, Edmund Gurney teve ocasião de se convencer de que as alucinações isoladas, únicas na vida, parciais, sem vinculação aparente com uma circunstância qualquer, observavam-se nas pessoas sadias e normais com uma freqüência que ninguém poderia supor.

E como as alucinações ocasionais nas pessoas normais são tão freqüentes, parece difícil reconhecer que todas sejam verídicas. E a existência de todas essas alucinações, talvez puramente subjetivas, complicam muito nossas investigações no que diz respeito às alucinações verídicas. Resulta disso que a existência pura e simples das alucinações, de qualquer gênero, com freqüência muito rara, interpostas na vida comum, não lhes confere valor algum objetivo e é fora delas, na coincidência, por exemplo, existente entre essa alucinação e esse acontecimento que se realiza à distância, onde devemos buscar os elementos de evidência. A sensação do sujeito capaz de perceber não nos proporciona critério algum que nos permita afirmar se, em determinado caso, uma alucinação foi provocada ou não por algo desconhecido, que existe à margem do sujeito. As alucinações hipnóticas, por exemplo, que não correspondem a nenhum fato externo além da ordem sugerida e percebida do modo usual, constituem, talvez, o grupo mais diferenciado e constante das alucinações normais. Repito, não possuímos nenhum testemunho subjetivo que permita distinguir as alucinações falsas das verdadeiras, o que não quer dizer que devamos renunciar a encontrar esse testemunho. Alguns indivíduos, particularmente sensíveis e sujeitos às alucinações dos dois gêneros, crêem ter aprendido a distinguir, por si mesmos, as duas classes e mesmo a distinguir entre as alucinações verdadeiras, as que são devidas à ação das pessoas vivas, e as provocadas pelos espíritos desencarnados; e é de se esperar sensibilidade e a apreciá-la com maior seriedade, a faculdade discriminadora do próprio sujeito se converterá num fator cada vez mais importante na constatação da evidência dos fenômenos de que trata.

Todavia, só podemos contar com a evidência que emana da coincidência externa, com este simples fato, para expressar essa coincidência na sua forma mais singela, que eu veja o fantasma de meu amigo Smith, no momento em que Smith morre distante de mim e sem que eu seja prevenido de seu estado. Uma coincidência desse tipo geral, quando é produzida, não é difícil de constatar e a constatamos e verificamos, com efeito, em centenas de casos.

A conclusão que me parece mais lógica é a de uma relação causal entre a morte e a aparição. Para refutar essa conclusão temos que discutir a exatidão do testemunho do sujeito, ou mostrar que a coincidência em questão é um simples efeito do acaso.

Cada uma dessas questões foi objeto de uma discussão tão completa como freqüente. Encontra-se exposta no “Relatório da Comissão das Alucinações” (Proceedings of the S. P. R., vol. X). Não posso deixar de citar textualmente a conclusão da Comissão: “Entre a morte e a aparição dos moribundos existe uma relação que dificilmente se explica por mero acaso.”

Ao formular essa conclusão, escolheram, com preferência, aparições no momento da morte, porque como a morte é um acontecimento único na existência humana, as coincidências entre a morte e as aparições proporcionam um elemento deveras favorável, do ponto de vista das investigações estatísticas. Mas as coincidências entre as aparições e outras crises que não a morte, ainda que inacessíveis à própria estimativa, rigorosamente aritmética, são igualmente convincentes. Esse grande agrupamento de casos espontâneos é o que vamos agora considerar.

A classificação lógica desses casos não é coisa fácil, porque cada narração pode ser considerada sob diversos pontos de vista: inicialmente temos que considerar a natureza do acontecimento externo, morte ou crise, ao qual corresponde a aparição, em seguida a própria forma da aparição, conforme se apresente durante o sono, no estado de semi-sonolência ou durante a vigília; temos, igualmente, que levar em conta o sentido especial que se encontra afetado, quer seja a vista ou o ouvido, e finalmente o efeito produzido, quer se trate de uma percepção coletiva comum a diversas pessoas de uma vez, quer se ache uma pessoa na presença de uma percepção eletiva particular a determinada pessoa. Uma destas divisões, a distinção entre os casos auditivos e os casos visuais, que foi suficientemente considerada na primeira coleção do Phantasms of the Living, pode ser deixada de lado. Os dados estatísticos das alucinações visuais, auditivas, bi-sensoriais ou tri-sensoriais foram determinados com suficiência, no que permitiam os documentos de que se dispunha; e, uma vez que supomos não se tratar de visão ocular nem de audição auricular, a questão de saber que sentido interno se encontra mais facilmente estimulado em cada sujeito determinado perde sua importância. Essa distinção pode muito bem, com algumas outras, ser discutida no que diz respeito a cada caso individual; mas devemos colocar na base de nossa classificação geral um caráter mais fundamental.

Não obstante, uma das vantagens do conceito de invasão ou de incursão psíquica, à qual já fizemos alusão, consiste, com precisão, em que esse conceito é suficientemente fundamental, para servir de base à classificação geral de todos os casos narrados, talvez, de todos os casos de aparições. E, ainda que existam certos casos para os quais o termo metafórico de invasão possa parecer demasiadamente forte, enquanto que a antiga metáfora de influência telepática seria suficiente, esses casos, ainda que, de certa maneira, sejam incompletos, entram com semelhante naturalidade nas mesmas divisões.

Seja A o “agente” ou o espírito supostamente invasor ou incursivo, num determinado caso, e P o sujeito invadido, um espírito que desempenha papel mais passivo, que recebe e, às vezes, enxerga a visita de A. Naturalmente, A é, com freqüência, senão sempre, por sua vez, um sujeito capaz de perceber, que adquire os conhecimentos ao mesmo tempo em que os comunica, com a restrição de que seu eu subliminar, que realiza esta incursão, nem sempre dá notícia dos resultados ao eu supraliminar que é o único acessível à observação externa.

Temos necessidade de um esquema que compreenda, de acordo com o conceito da invasão ou incursão, todas as ações telepáticas observáveis, desde as correntes de pouca intensidade que imaginamos passando incessantemente de um homem a outro, até um ponto, reservado para os capítulos seguintes, em que uma das partes da ação recíproca telepática deixou, definitivamente, o invólucro carnal. O primeiro termo da série será, forçosamente, um pouco ambíguo; mas o último nos conduzirá ao limiar do mundo espiritual.

Iniciemos, pois, pelos casos em que a ação do fragmento incursivo da personalidade é a mais fraca, a menos capaz de afetar a outros observadores ou a ser mantida na memória do sujeito, inclusive durante a vigília.

É, naturalmente, difícil tornar esses casos evidentes. Freqüentemente, só por acaso se observam essas incursões psíquicas débeis e sem objetivo, e isto de forma a nos fazer considerar como algo que apenas vai mais além da ilusão subjetiva do observador. Como uma visão fortuita, por exemplo, de uma senhora sentada em seu quarto, ou de um homem que volta para casa às 6 horas, pode ser observada, por um lado, de uma imagem-lembrança, e por outro, do que se poderia chamar “imagens de espera”? A imagem da mulher pode ser uma reminiscência, algo modificada e exteriorizada; a do homem que se aproxima da porta, uma simples projeção daquilo que o observador espera ver.

Suponhamos que esses fantasmas não coincidem com qualquer acontecimento determinado. A mulher pode ter tido idéia de ir ao seu quarto, o homem poderia estar na iminência de voltar para casa; estas são circunstâncias banais que se produzem diariamente.

Mas, por mais banal que seja, quase todo o acúmulo de circunstâncias humanas é suficientemente complexo para que aconteça uma coincidência. Se a pessoa sentada no quarto veste uma roupa que o sujeito invadido jamais tenha visto antes da alucinação, se o homem objeto da alucinação aparece carregando um pacote de aspecto inusual, que o homem real acha ter levado, de fato, para casa sem que ninguém o esperasse, estamos devidamente autorizados a reconhecer que existe um vínculo causal entre o estado aparente do “agente” nesse momento e a aparição.

Este é o caso do coronel Bigge que acreditou ver, certo dia, a alguns passos de distância, um de seus colegas, vestido com um traje especial, que Bigge jamais vira, e carregando utensílios de pesca, quando Bigge ignorava que seu camarada estivesse naquele dia se dedicando à pesca e isto, dez minutos antes da aparição real de seu camarada no lugar em questão. Deveras assombrado, Bigge constatou que seu amigo estava realmente vestido daquela forma e com os utensílios de pescaria com os quais aparecera dez minutos antes (Phantasms of the Living, II, 94).

A respeito dos casos desse gênero, existe motivo para acreditar que o espírito do homem pode fixar-se, realmente, no lugar onde deve voltar, de forma que seu fantasma aparece lá, onde ele e os demais acreditam ver o fim mais provável de seu percurso.

Mas existem outros casos em que o fantasma de um homem aparece num lugar sem que exista uma razão especial para que ali estivesse, ao invés de em outro lugar, ainda que este pareça encontrar-se nos limites de sua corrente habitual de idéias.

Também nesses casos existem circunstâncias cuja natureza nos faz pensar que a aparição esteja relacionada com o agente aparente, por um vínculo causal. O fantasma de uma determinada pessoa pode ser visto em diversas ocasiões por vários sujeitos ou coletivamente por várias pessoas de uma vez; ou pode reunir essas duas características e ser visto em diversas ocasiões por várias pessoas de uma vez.

Ou considerando-se a raridade das aparições fantasmais e o fato de que apenas uma pessoa entre cinco mil é suscetível de ser vista no estado fantasmal, só pelo fato de que o fantasma de uma pessoa determinada seja visto duas vezes, por diversas pessoas (porque uma segunda aparição ao mesmo sujeito não tem o mesmo valor) é já bastante notável; e quando se reproduz três ou quatro vezes, torna-se difícil explicá-lo mediante um simples acaso.

É o caso da senhora Hawkins, cujo fantasma foi visto por quatro pessoas (seus dois primos, sua empregada e seu filho) em intervalos mais ou menos distanciados e, na primeira vez, por duas pessoas simultaneamente e de forma absolutamente idêntica (Phantasms of the Living, II, 78).

Em outros casos, a percepção foi coletiva, ainda que não repetida. Foi o caso das duas irmãs C. J. E. e H. E., que se encontravam na igreja, uma tocando órgão e a outra escutando, e viram o fantasma de uma terceira irmã que, conforme foi mais tarde comprovado, encontrava-se nas proximidades da igreja, onde teve intenção de entrar mas não o fez, por ter-se atrasado na biblioteca paroquial onde estava, ocupada em estudar os documentos familiares de seu tio, pastor. Apareceu às suas irmãs com o mesmo traje que vestia enquanto permaneceu na biblioteca e trazendo nas mãos um rolo de papéis (informação da Comissão de Alucinações, Proceedings of the S. P. R., X, pág. 306). É possível que neste caso a terceira irmã estivesse ocupada com alguma idéia supraliminar ou subliminar da cena em meio da qual aparecia seu espírito e que uma de suas irmãs a visse por um mero ato de tranqüilo reconhecimento, comunicando à outra sua impressão telepática, fazendo com que visse a mesma figura.

No caso da senhora Hall (Phantasms of the Living, II, pág. 217), apareceu seu próprio fantasma ao marido e a dois familiares, enquanto todas estas pessoas se encontravam sentadas à mesa. Ninguém pareceu assombrar-se com aquela aparição, parecendo a própria sra. Hall completamente estranha à sua personalidade, como se fora um quadro ou uma estátua.

A questão da verdadeira importância do coletivismo da percepção reconstitui, sob outra forma, o problema da invasão para a qual nossa exposição amiúde nos encaminha. Quando duas ou três pessoas vêem o que parece ser o mesmo fantasma, no mesmo lugar e no mesmo instante, significa que esta porção especial do espaço seja, de algum modo, modificada ou que uma impressão mental transmitida por um agente distante, ao qual pertence o fantasma, a um dos sujeitos invadidos se reflita telepaticamente do espírito deste último no espírito de outros sujeitos invadidos, de sujeitos, por assim dizer, secundários? Prefiro a primeira dessas explicações e vejo uma objeção contra a segunda, que é a do contágio psíquico. Neste fato, como em certos casos coletivos, não discernimos qualquer vínculo provável entre o espírito de um sujeito invadido qualquer e o do agente distante.

Não existe, com efeito, nenhum indício de um vínculo necessário entre o estado de espírito do agente, no momento da aparição, e o fato de que estas ou aquelas pessoas percebam seu fantasma. A projeção deste último constitui um ato tão automático por parte do agente e tão pouco intencional como um sono ou sonho.

Reconhecendo, pois, que essas “bilocações” se produzem sem causa externa apreciável e em momentos de calma e de indiferença aparente, devemos nos perguntar: de que forma esse fato poderá modificar nossos conceitos anteriores?

Suponho que a vida de sonho que evolui de uma forma contínua, paralelamente à nossa vida de vigília, é suficientemente possante para determinar, de vez em quando, uma dissociação suficiente para que um elemento qualquer de nossa personalidade torne-se capaz de ser percebido a uma determinada distância do organismo. Esse conceito de um quase-sonho incoerente, que se torna perceptível para os demais, está em total concordância com as teorias expostas durante o desenvolver desta obra, porque considero as operações subliminares como realizando-se de maneira contínua e acredito que o grau de dissociação, suscetível de engendrar um fantasma perceptível, não equivale necessariamente a uma modificação muito profunda, pois a perceptibilidade depende da idiossincrasia, ainda inexplicável, do agente e do sujeito invadido.

Chamaria à idiossincrasia do agente, psicorragia, cuja tradução literal significa: desprendimento da alma. O que, de acordo com minha hipótese, se escapa ou se desprende não é (como no sentido grego da palavra) o princípio total da vida do organismo, antes um determinado elemento psíquico, de caráter provavelmente variável e que não pode ser definido senão pela sua propriedade de produzir fantasmas perceptíveis para uma ou diversas pessoas, nesta ou naquela porção do espaço. Esses efeitos fantasmogenéticos podem manifestar-se no espírito e, em conseqüência, no cérebro de outra pessoa, caso em que esta pessoa discerne o fantasma em alguma parte das imediações, de acordo com seus hábitos mentais ou sua predisposição, ou então esse efeito se manifesta diretamente numa porção do espaço, caso em que várias pessoas podem vislumbrar, simultaneamente, o mesmo fantasma no mesmo lugar.

Passemos agora desses casos de psicorragia, que não supõem, por assim dizer, qualquer conhecimento novo para o sujeito que aparece sob a forma de fantasma, aos casos em que existe, de qualquer forma, uma comunicação de um espírito a outro e que implicam a aquisição de conhecimentos novos para o espírito incursivo.

É impossível classificar esses casos em grupos logicamente contínuos. Mas, de modo geral, o grau em que nosso encontro psíquico fica na lembrança de cada uma das duas partes indica, de algum modo, sua intensidade e pode servir de guia para uma classificação provisória.

Adaptando-me a esse esquema, iniciarei por um grupo de casos que não parece dar senão uma informação muito incompleta, os casos em que, particularmente, o agente A influi ou invade ao sujeito invadido P, sem que A nem P conservem qualquer lembrança supraliminar do que se passou.

Esses casos são bastante freqüentes. A aproximação psíquica se produz, hipoteticamente, numa região subliminar para A e para P e desta região, só algumas impressões incomuns e fragmentadas atravessam o umbral da consciência. Dessa forma, a telepatia parece operar de uma maneira muito mais contínua da que estamos dispostos a acreditar.70

Mas como o observador externo pode saber algo desses incidentes telepáticos, dos quais nem sempre as partes envolvidas se recordam?

Na vida comum podemos, às vezes, saber, pelos assistentes, os incidentes que as partes envolvidas não nos comunicam. Pode existir assistência, testemunhos, dessas invasões psíquicas?

Essa questão é de grande importância teórica. Como considero que se produz uma transferência real de alguma coisa do agente, e essa transferência determina uma certa modificação em determinada porção do espaço, pode-se reconhecer, teoricamente, a presença de um assistente capaz de discernir essa modificação com maior clareza do que as pessoas em benefício das quais se produz a modificação. Mas se, por outro lado, o que se produz é a simples transferência de um impulso de um espírito a outro, resulta difícil compreender como um espírito diverso do espírito focalizado pôde perceber a impressão telepática. Sem dúvida, nos casos coletivos, de pessoas sobre as quais o agente não demonstra interesse algum, ou cuja presença, ao lado da pessoa a que se supõe se dirija, lhe é desconhecida, recebem realmente a impressão da mesma forma que a pessoa focalizada. Isto foi explicado por Gurney como uma nova transmissão telepática, que, nesse caso, é enviada do espírito da pessoa que impressiona ao de seu vizinho, no momento.71

Uma suposição desse teor, já bastante problemática em si, torna-se ainda mais, quando, como sucede freqüentemente, a impressão telepática não adentrou ao espírito da pessoa principalmente visada. Quando, nos casos desse gênero, um assistente percebe a figura do agente, supõe-se que a percebe como simples assistente, não como a pessoa que sofre a influência telepática do sujeito ao qual a comunicação se dirige, já que, na realidade, este nada percebe.

É o caso de Frances Reddell (Phantasms of the Living, I, 214), que certa noite, quando estava para adormecer uma das suas pacientes, gravemente enferma, percebeu o fantasma da mãe dela, que ele não conhecia e que não podia ter visto antes, mas de quem pôde fazer uma descrição muito exata mais tarde quando a genitora lá chegou por ter recebido a notícia da morte da filha; todas as pessoas às quais Frances Reddell contou a sua visão ficaram assombradas da semelhança entre a visão e a pessoa real. Inclusive, descreveu determinado vestido, bem como um castiçal, dos quais foi confirmada a existência pelos pais da enferma.72

Eis o que deve ter se passado naquele caso: a mãe, inquieta pelo estado de sua filha, fez-lhe, por assim dizer, uma visita psíquica enquanto as duas dormiam; e, ao fazê-la, modificou um trecho do espaço, nem material nem oticamente, mas de tal forma que as pessoas suscetíveis que se encontravam naquele trecho do espaço puderam distinguir, de algum modo, uma imagem que correspondia, aproximadamente, ao conceito que existia no espírito da mãe, relativo ao seu próprio aspecto, enquanto que a mãe não se lembrava de ter pensado em sua filha naquela noite e, como a filha morrera, não se podia saber se ela, como Frances Reddell, percebeu a imagem de sua mãe.

Temos também o caso do marinheiro que, cuidando de um de seus companheiros moribundo (Phantasms of the Living, II, 144), enxergou ao redor de sua maca umas figuras enlutadas, que lhe pareceram representar a família do moribundo. A família, sem estar informada exatamente do estado de seu chefe, alarmou-se ante os rumores que pressentiu, com razão ou sem, por indício de algum perigo que a ameaçava. Suponho, então, que a mulher fez a seu marido uma visita psíquica e vejo, nos trajes de luto e nas figuras das crianças que acompanhavam a mãe, uma representação simbólica desta idéia: “Meus filhos vão ficar órfãos”. Essa interpretação parece mais provável do que a que seria na aparição dos filhos um fato do mesmo gênero que a aparição da mãe. As figuras secundárias não são raras nas aparições telepáticas. Qualquer um pode representar a si mesmo, quer carregando uma criança nos braços ou passeando num coche puxado por dois cavalos, de forma tão viva como se transportasse um guarda-chuva ou caminhasse por um quarto; igualmente, pode vislumbrar outros.

Citarei, como exemplo dessa percepção refratada, o caso da senhora Clerke (Phantasms of the Living, II, 61), cujo irmão moribundo (ou morto) não conseguiu atrair sua atenção e só foi percebido por uma enfermeira que não o conhecia nem o havia visto nunca em carne e osso.

Parece-me que a enfermeira foi simplesmente uma assistente dotada de sensibilidade especial, que deu mostras de ser mais eficaz do que o parentesco de sua ama.

Agora, abordo um novo grupo de casos, os de telestesia, onde o agente e o sujeito invadido estão reunidos na mesma pessoa, que faz uma incursão clarividente (de caráter mais sério do que as meras psicorragias descritas até aqui) e supõe uma certa recordação da cena vista psiquicamente. Essa lembrança pode não existir ou então a pessoa interessada não quer dar ciência dela. Nos casos desse gênero, como nos de telepatia de que já falei, acontece que o fantasma incursivo foi observado por um assistente e isso em circunstâncias que excluem qualquer idéia de uma alucinação subjetiva deste último.

A sra. Mc Alpine estava sentada, num belo dia de verão, às margens de um lago nos arredores de Castleblaney, aguardando sua irmã que devia chegar por trem, quando, de repente, sentiu um calafrio e uma rigidez nas pernas até o ponto de não poder levantar-se do lugar onde se encontrava e sentiu o olhar fixo, como através de uma força externa, na superfície do lago. A seguir, apareceu uma nuvem negra, no centro da qual encontrava-se um homem de enorme envergadura que caiu no lago e desapareceu. Dias depois inteirou-se de que um certo Espy, homem muito alto e que, de acordo com a descrição, vestia-se da mesma forma que o viu a sra. Alpine, afogara-se naquele lago, e isso vários dias após a visão de seu suicídio, tida pela referida senhora. Ao que parece, Espy concebera de há muito a idéia de suicidar-se, afogando-se no lago de Castleblaney (informação da Comissão de Alucinações, em Proceedings of the S. P. R., X, pág. 332. O relato do suicídio apareceu no Northern Standard, de 6 de julho de 1889).

É possível explicar essa aparição como um simples pressentimento, como uma imagem do futuro que se apresentara, de uma forma desconhecida, diante da visão interna do sujeito. Logo, encontramo-nos na presença de casos que parecem justificar essa hipótese extrema. Mas aqui parece mais simples supor que o infeliz premeditara o afogamento, no instante em que a senhora Alpine encontrava-se sentada na margem do lago, e sua idéia foi autoprojetada, consciente ou não, de uma parte do seu eu.

As reflexões desse gênero se referem a um suicídio projetado e proporcionam, talvez, o exemplo mais notável da preocupação mental, relacionada com um determinado lugar. Mas tendo em vista nossa ignorância da verdadeira qualidade do pensamento e da emoção necessária para auxiliar uma incursão psíquica, não é de surpreender que em certos casos essa incursão nos pareça idêntica à que se observa nos chamados casos de aproximação, como o do coronel Bigge, anteriormente citado. O que tornou notável este caso foi a roupa incomum, na qual estava metido o colega do coronel, enquanto que a chegada deste último ao lugar onde aparecera era um fato totalmente provável e possível. Citarei agora os casos em que a chegada de um homem é inesperada, de forma que o fato de seu fantasma ser visto num lugar para o qual se dirige, antes que chegue realmente, constitui uma verdadeira coincidência.

O senhor Carroll (Phantasms of the Living, II, pág. 96) viu, certa noite, em seu quarto, quando ainda não pensava em deitar-se, a imagem de seu irmão que vivia em Londres, enquanto que ele vivia em Sholebrook Lodge, Towcester, Northamptonshire. Assustou-se um pouco com a aparição e, antes que tivesse tempo de se recobrar da emoção, ouviu que o chamavam, através da janela do quarto: era seu irmão, desta vez em carne e osso, que viera expressamente de Londres para vê-lo, sem anunciar-lhe previamente sua visita. Temos de acrescentar que o irmão de Carroll desconhecia o local onde habitava este último e, como ele mesmo disse, encontrou a casa e chamou à janela, certo de encontrar o irmão naquela casa e atrás daquela janela.

Eis agora um caso de pressentimento auditivo de uma chegada (Phantasms of the Living, II, pág. 100).

O senhor Stevenson estava em sua casa, sentado junto à sua esposa. Eram 19 horas. O quarto encontrava-se em silêncio, quando distinguiu claramente estas palavras: “David chega”. Pensando que sua mulher as pronunciara, interrogou-a; mas ela assegurou-lhe que não dissera uma só palavra. David era o irmão de Stevenson, que tinha o hábito de sair todas as tardes entre as 5 e 6 e não voltava nunca antes das 10. Mas não transcorreram mais do que três minutos, desde que Stevenson ouvira a frase citada anteriormente, quando a porta se abriu e David entrou, sem que o esperassem àquela hora.

Não acho necessário dizer que minha hipótese de uma manifestação real do espaço que se acha transformado num centro fantasmogenético aplica-se tanto à voz fantasmal como às figuras fantasmais. A voz não se distingue acusticamente, nem a figura é vista oticamente. Mas uma voz fantasmal pode vir de determinado lugar, no usual sentido da palavra. Sem dúvida, nos casos como o de Stevenson, onde a voz foi ouvida somente por uma pessoa, é mais simples supor que a trajetória auditiva do sujeito invadido foi o único trecho do espaço afetado.

Esses casos de telestesia e outros semelhantes têm como particularidade a incursão psíquica que não supõe qualquer aquisição de conhecimentos supraliminares. Existem, não obstante, casos caracterizados por uma verdadeira aquisição de novos conhecimentos. De que forma se realiza essa aquisição?

Esses conhecimentos podem, primeiramente, ser adquiridos graças ao acréscimo do potencial dos sentidos comuns. Outras vezes a aquisição é feita por intermédio de artifícios particulares que utilizam os sentidos comuns num caminho novo, como na cristaloscopia. Um terceiro modo é constituído pela telepatia, que freqüentemente adquire a forma da telestesia pura, quando o espírito incursivo é atraído não por outro espírito distante, antes por uma cena distante. Finalmente, acredito ser útil rememorar que os exemplos mais notáveis de telestesia aqui citados produziram-se principalmente sob a forma de sonho e visão. Existe um meio de relacionar entre si todos esses diversos meios de percepção? Podemos encontrar, no próprio estado do sujeito invadido, um elemento que seja comum a todos? 73

Até determinado grau é possível essa coordenação. Assim, a telestesia é caracterizada quase sempre por uma tendência a algo semelhante ao sonho; e, ainda que a hiperestesia se observe, às vezes, entre pessoas totalmente acordadas, constitui um atributo característico dos estados sonambúlicos.

Durante o desenrolar de nossa discussão sobre o hipnotismo, vimos que às vezes era possível estender, mediante uma sugestão gradual, a potência perceptiva do sujeito, até o ponto de transformar uma hiperestesia, que pode inclusive aplicar-se pela ação dos órgãos dos sentidos, numa telestesia que não explica essa ação. Note-se que, nos casos desse gênero, os sujeitos, ao descreverem suas sensações, falam, com freqüência, de impressões recebidas ou de imagens vistas, como se estivessem colocados diante deles; outras vezes acreditam estar viajando e visitar cenas distantes; ou, igualmente, a sensação oscila entre os dois gêneros de impressão, da mesma forma que o sentido da relação do tempo na imagem vista oscila entre o presente, passado e futuro.

Os fenômenos de cristaloscopia apresentam analogias bastante estreitas com todas essas sensações tão complexas. Insisti sobre o fato curioso de que o simples artifício de olhar num cristal tem como efeito provocar fenômenos que pertencem a todos esses grupos diversos. Em si, as imagens que no cristal apresentam o mesmo aspecto podem ter origens diversas e estar acompanhadas de determinadas sensações, não só da sensação de contemplação, mas também (ainda que raramente) da possessão, bilocação e presença psíquicas entre as cenas desenhadas no cristal, mas que não estão limitadas nem contidas nele.

Essa idéia da incursão psíquica deve, portanto, ser reconciliada com o caráter freqüentemente simbólico dessas visões. Na cristaloscopia, trata-se, com freqüência, não de uma simples transcrição de fatos materiais, antes de uma seleção sucinta que age entre esses fatos e, inclusive, de uma modificação audaciosa desses mesmos fatos, com o fim de tornar o relato da história mais claro e completo. Conhecemos essa mesma sucessão de cenas simbólicas no sonho, no sono e na vigília.

Um elemento semelhante é comum a todas as visões telestésicas, indício de que o espírito colaborou na construção da imagem, de que a cena não foi apresentada, por assim dizer, na sua objetividade crua, antes com uma certa seleção de detalhes e um certo simbolismo, no modo em que estes foram apresentados.

Vejamos agora o modo pelo qual essas particularidades afetam as teorias que concernem ao mecanismo da clarividência. Suponhamos primeiro que existe uma certa transição entre hiperestesia e telestesia, de forma que quando a sensação periférica não é possível, a percepção central pode agir sempre através de obstáculos de outro modo invencíveis.

Assim sendo, é muito provável que a percepção central se adapte às formas de percepção a que estão acostumadas as trajetórias centrais do cérebro, e que o conhecimento superior, o conhecimento telestésico, de alguma forma adquirido, se apresente antes de tudo, quer como clarividência, quer como clariaudiência, como certa forma da vista e do ouvido. Mas essa vista e esse ouvido telestésicos guardam certos resquícios de sua origem inusitada. Apresentam, por exemplo, uma coordenação imperfeita com as sensações visuais e acústicas proporcionadas pelos órgãos externos e, como constituem, por assim dizer, uma tradução de impressões supranormais, em termos sensoriais, apresentam, com certeza, um caráter simbólico.

Em cada uma das etapas de nossas investigações tropeçamos com essa tendência ao simbolismo subliminar. Como exemplo de sua forma mais simples, citarei aqui o caso do estudante de botânica, que, passando distraidamente diante de um restaurante francês, acreditou ter lido no cartaz: Verbascum Thapsus. Mas a palavra que realmente estava impressa era Bonillon; e a palavra Bonillon constituía a designação francesa vulgar da planta Verbascum Thapsus. Aqui produziu-se uma transformação subliminar da percepção ótica real, e as palavras Verbascum Thapsus foram mensagem enviada ao eu supraliminar distraído, pelo eu subliminar, mais preocupado com a botânica do que com a comida.

Sabemos ainda que nossa própria percepção ótica é, no seu gênero, simbólica no mais alto grau. A cena que a criança vê instintivamente, que o pintor impressionista trata de ver, através de uma auto-simplificação forçada, é muito diferente da forma pela qual um homem maduro comum interpreta o mundo visível e se representa a distribuição das cores.

Mas nos adultos adotamos, a respeito do simbolismo subliminar, a mesma atitude que tem a criança sobre nosso simbolismo ótico aperfeiçoado. Da mesma forma que a criança não capta a terceira dimensão, nós não captamos a quarta, ou o que quer que seja a lei do conhecimento superior, que dá ao homem, de forma fragmentada, o que seus sentidos comuns são incapazes de discernir.

Não quero dizer, de forma alguma, que todo conhecimento simbólico seja um conhecimento que nos vem de um espírito externo ao nosso. O simbolismo pode ser a linguagem inevitável, através da qual uma das camadas de nossa personalidade se comunica com outra. Resumindo: o simbolismo pode ser a lembrança psíquica, mais fácil ou possível, dos fatos objetivos atuais, e esses fatos podem ter sido fornecidos nessa forma por outros espíritos, dispostos para serem digeridos pelo nosso, como o alimento normal é elaborado tendo em vista a nossa digestão corporal, a partir de um primitivo estado de crueza.

Mas, do ponto de vista idealista, podemos nos perguntar se nos casos desse gênero existe uma diferença real entre o simbolismo e a realidade, entre o subjetivo e o objetivo, no sentido comum dessa palavra. A matéria sensível, que vemos e tocamos, possui uma realidade “sólida” para os espíritos constituídos de forma que tenham a sensação subjetiva de sua solidez. Mas para os outros espíritos, dotados de outra forma de sensibilidade, para os espíritos talvez superiores aos nossos, e mais numerosos que os nossos, essa matéria sólida pode parecer discutível e irreal, enquanto o pensamento e a emoção, percebidos por vias desconhecidas para nós, representam para eles a única realidade.

Este mundo material constitui, com efeito, um “caso específico”, um exemplo simplificado, entre todos os mundos perceptíveis aos espíritos encarnados. Para os espíritos desencarnados não é já um “caso específico”; é-lhes, aparentemente, mais fácil discernir os pensamentos e as emoções com ajuda de signos imateriais. Todavia não estão desprovidos totalmente da faculdade de perceber as coisas materiais, como os espíritos encarnados não estão desprovidos da faculdade de perceber as coisas imateriais, as emoções e as idéias, simbolizadas de forma fantasmal.

Parece emanar dessas reflexões a existência de uma contínua transição da telestesia à telepatia, da percepção supranormal de idéias existentes nos outros espíritos à percepção supranormal do que conhecemos como matéria. Toda matéria pode existir sob a forma de idéia num espírito cósmico, com o qual qualquer espírito individual pode encontrar-se relacionado, da mesma forma que com outros espíritos individuais. A diferença reside, talvez, antes no fato de que só em conseqüência de uma chamada vinda de um espírito similar, o do agente entra em ação; enquanto que as incursões entre os objetos inanimados estão, com freqüência, privadas de qualquer impulso. Esta suposição, sendo certa, explicaria o fato dessas incursões se realizarem, amiúde, sob a influência da sugestão hipnótica.

Se nos referirmos agora aos casos de clarividência à distância, encontraremos neles uma espécie de fusão de todas as manifestações das faculdades supranormais: telepatia, telestesia, retrocognição, precognição, coexistentes numa síntese incompreensível para nós. Só artificialmente podemos classificar esses casos de acordo com o predomínio deste ou daquele fenômeno.

Dessa forma obtemos, experimentalmente, casos onde parece manifestar-se uma faculdade independente de visitar qualquer lugar, cuja posição tenha sido, talvez, descrita anteriormente, seguindo sinais já conhecidos. A clarividente (emprego o gênero feminino, ainda que em certos casos os homens manifestem a mesma faculdade) errará, com freqüência, seu caminho e descreverá amiúde casas e cenas que se encontram próximas às que desejava visitar. Mas, quando tenha percebido, literalmente, a pista e encontrado o lugar que o homem que procura atravessou, seguirá a pista com a maior facilidade, reconhecendo, aparentemente, tanto os acontecimentos passados como as circunstâncias atuais de sua vida. Nesses casos experimentais prolongados dispomos de tempo suficiente para permitir à clarividente atravessar certos locais, como: quartos vazios, fábricas, etc., onde não a atraiu qualquer vínculo aparente com pessoas vivas; desse modo, a possibilidade da existência da telestesia, independentemente da telepatia, pôde ser comprovada, incidentemente, durante o desenrolar dos experimentos exclusivamente telepáticos.74

Essas viagens clarividentes prolongadas parecem, antes, sonhos, que alucinações da vigília.

Citaremos o caso de um médico que pretendeu guardar o anonimato, para que não o acusassem de “defender opiniões contrárias ao dogma científico geral”. Atendia à mulher de um pastor, doente; durante o atendimento sobrevieram delírios que não pareciam ter relação alguma com a enfermidade principal. A paciente vivia numa casa que não possuía campainha externa e cuja porta permanecia fechada a partir da meia-noite. Certa noite, mais ou menos às nove horas, o médico voltara da casa de sua doente mais perplexo do que nunca; deitou-se cedo. Mas, mais ou menos à uma hora da madrugada, levantou-se dizendo para sua mulher que ia visitar sua cliente. Ao ouvir ela dizer-lhe que encontraria a porta fechada e que por isso não poderia entrar, respondeu que via o proprietário da casa conversando na rua com outro homem. A mulher não se espantou com a resposta, mormente quando o marido lhe disse estar totalmente desperto. Portanto, saiu e encontrou, de fato, diante da casa o proprietário, que lhe abriu a porta. Ao entrar no quarto da doente, encontrou-a prestes a engolir um copo cheio de licor alcoólico. Teve, dessa forma, a explicação dos delírios, que eram unicamente de natureza etílica. Falou sobre isso com o marido da doente, que o negou com energia e pediu ao médico que não voltasse. Três semanas mais tarde, o médico inteirou-se de que sua doente estava num asilo de alcoólatras (Phantasms of the Living, I, Pág. 267).75

É difícil afirmar se foi a enferma que se dispôs à embriaguez ou se foi o proprietário que desempenhou, em certo sentido, o papel de agente, no caso. De uma forma ou de outra, o desejo tenaz do médico de encontrar uma ocasião para esclarecer o caso de sua doente levou a uma colaboração do eu subliminar e do eu supraliminar, semelhante a uma inspiração genial; mas, enquanto o gênio age nos limites sensoriais comuns, o eu subliminar do médico desenvolveu suas forças supranormais num grau extremo.

Existem outros casos em que uma cena apenas percebida, como a luz de um relâmpago, apresenta um interesse especial para o sujeito invadido, ainda que nenhum dos personagens da cena tenha o desejo de torná-la visível. Em outros casos ainda, os sujeitos assistem um acontecimento real, que se realiza à distância, aparecer subitamente como nas imagens cristaloscópicas, na parede, ou mesmo no ar, às vezes num círculo de luz, sem fundo aparente.

Pode-se, então, ver por clarividência um incidente muito tempo após ter se produzido? Pode-se dizer que se visitou uma cena em clarividência ou que se mostrou espiritualmente, quando essa cena representa um velório, onde toda emoção está apaziguada, mas para a qual o espírito livre deseja atrair a atenção e a simpatia de um amigo?

Possuímos observações desse gênero: por exemplo, a da Sra. Agnes Paquet, que teve, certo dia, a visão de seu irmão, marinheiro, que se afogou acidentalmente; visão clara até o ponto de poder descrever todos os detalhes da roupa e, inclusive, as circunstâncias mais insignificantes em que se produziu o acidente; e uma posterior verificação demonstrou a exatidão de sua narrativa e que a visão lhe apareceu horas após o acidente (Proceedings of the S. P. R., VII, pág. 32-35).

Em outro caso, trata-se de uma mulher que teve, certo dia, a visão de seu médico, que há um ano não via e ao qual deixara gozando plena saúde, estendido, morto numa cama, num quarto vazio, sem móveis e cortinas. Mais tarde inteirou-se de que morrera naquele dia em que tivera a visão, horas antes desta, num pequeno hospital de província, num país estrangeiro, onde fora por seu clima tépido (Phantasms of the Living,, I, pág. 265).

Chegamos agora a um grupo de casos onde B invade A e este último percebe completamente essa invasão, enquanto B não mantém qualquer recordação supraliminar.

Já discutimos alguns casos do que chamamos psicorragia, onde a invasão é feita à margem da vontade ou intenção do invasor. Nos casos que vamos narrar trata-se provavelmente de uma projeção real da vontade ou do desejo do invasor, que possui como efeito a projeção de seu fantasma, reconhecível para algum amigo distante, sem que o próprio agente lembre-se, posteriormente, do fato. Estes são casos intermediários entre os casos psicorrágicos já descritos e os experimentais de que falaremos a seguir.

Citarei, nesta categoria, a observação da Sra. Elgee, que teve, certo dia, no quarto que ocupava num hotel do Cairo, a visão de um de seus melhores amigos, que sabia, naquele instante, encontrar-se na Inglaterra; e, o que dá maior interesse a esta narração, uma moça que ela devia acompanhar à Índia, e que estava no mesmo quarto, teve igualmente, no mesmo momento, idêntica visão, com igual clareza, e ainda que não tivesse visto, vez alguma, o sujeito em questão, deu à Sra. Elgee uma descrição tão exata que esta não pôde duvidar da veracidade da visão. Soube mais tarde que seu amigo tivera naquela época enormes preocupações e que, nas vésperas de tomar uma importante decisão, lamentara não poder consultá-la; e, no mesmo momento em que vira o fantasma, o amigo, em sua casa, pensava nela (Phantasms of the Living, II, pág. 239).

Os casos que vêm a seguir, numa ordem crescente de intensidade aparente, são os casos em que um e outro sujeitos conservam a lembrança do ocorrido, de forma que a experiência é recíproca. Estes casos merecem ser estudados particularmente, porque ao perceber as circunstâncias em que são produzidos esses casos recíprocos, podemos reproduzi-los experimentalmente. Ver-se-á que se trata de graus variáveis da tensão do espírito, do lado do agente.

Outro grupo, bastante importante, ainda que pouco numeroso, é o da realização prematura de uniões póstumas, por assim dizer. Veremos, no capítulo seguinte, que a promessa que os amigos fazem de, se possível, aparecer um ao outro após a morte está longe de ser assunto simples, inútil e sentimentalóide. Essas aparições póstumas podem, é certo, ser impossíveis na maioria dos casos, mas existem razões sérias para acreditar que a tensão prévia da vontade nessa direção torne possível a realização do desejado encontro. Se, de fato, isso acontece, trata-se de uma espécie de experimento que todos podem realizar.

E, com efeito, experiências foram feitas desse gênero, com total êxito. Citaremos, unicamente, o caso de M. A. S. H., que conseguiu, com enorme esforço de vontade, tornar-se visível a pessoas de suas relações, em dia determinado previamente e isto sem prevenir as pessoas. A primeira vez, sua aparição foi vista, simultaneamente, por duas pessoas, duas irmãs que se encontravam no mesmo quarto. “Ao realizar esse esforço de vontade, disse M. A. S. H., experimentava uma espécie de influência misteriosa que impregnava todo o meu corpo e uma impressão muito clara de que punha em movimento uma força desconhecida para mim, até aquele momento, mas que atualmente posso manifestar à vontade, em momentos precisos.” (Phantasms of the Living, I, pág, 104-109).

Nessas autoprojeções, temos diante de nós a manifestação, não me atrevo a dizer a mais útil, mas a mais extraordinária da vontade humana. Qual das nossas faculdades conhecidas supera a capacidade de mostrar-se à distância? Existe uma ação mais centralizada que surja, de forma mais manifesta, da parte mais profunda e unitária do ser humano? Começa aqui a justificação do conceito que esboçamos no início deste capítulo, isto é, que o eu subliminar, longe de formar um simples encadeamento de redemoinhos e torvelinhos, isolados de qualquer maneira na corrente principal da existência humana, constitui, pelo contrário, a corrente principal e mais possante que podemos, sem dúvida, identificar com o homem. Outras manifestações têm seus limites precisos; quais são esses limites? O espírito mostrou-se dissociado, em parte, do organismo; até onde chega essa dissociação? Manifesta certa independência, inteligência, permanência. Que grau de independência, de inteligência e de permanência pode alcançar? De todos os fenômenos vitais, este é o mais significativo; a autoprojeção é o único ato definido que o homem parece capaz de realizar tanto antes como depois da morte corporal.76



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