Fredrich W. H. Myers a personalidade Humana



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V
O hipnotismo


Durante o desenrolar deste estudo da personalidade e da evolução humanas, tratamos de aclarar dois ou três pontos que são, em nossa opinião, de natureza a modificar os conceitos correntes sobre o assunto.

Nossa discussão relativa à desintegração da personalidade nos permitiu, no capítulo anterior, propor um conceito do gênio no sentido de uma integração da personalidade subliminar com a personalidade supraliminar, de uma utilização cada vez mais ampla do ser psíquico do homem, tendo em vista os fins definidos do eu supraliminar. Até agora o gênio parecia ser antes resultado de uma combinação feliz e fortuita de fatores elementares, do que um exercício sistemático; mas é importante demonstrar que um nível assim tão superior ao nosso já foi alcançado durante a evolução normal da espécie.

Submetemos à discussão o fenômeno do sono. Os sonhos abriram-nos, ainda que de um modo incoerente e obscuro, horizontes particularmente vastos sobre o ambiente e o destino do homem. Mostraram-no em relação com um mundo muito mais profundo do que o familiar ao gênio e de posse de faculdades cujo grau de potência o gênio jamais alcançou.

Desse modo chegamos a um conceito do sono que, independentemente da confirmação que possa receber um dia por parte da ciência, está em perfeito acordo com as idéias desenvolvidas nesta obra. Segundo esse conceito, nossa vida humana existe e manifesta sua energia, ao mesmo tempo, num mundo material e num mundo espiritual. A personalidade humana, desenvolvendo-se a partir de seus antepassados inferiores, dividiu-se em duas faces, uma adaptada às necessidades materiais e terrenas, a outra à existência espiritual e cósmica. O eu subliminar, pela simples direção que dá ao sono, já é capaz de rejuvenescer o organismo, infundindo-lhe a energia tomada do mundo espiritual, ou de enfraquecer temporal ou parcialmente o elo que o une ao organismo e se expandir no exercício de funções supranormais: telepatia, telestesia, êxtase. Ao estudar, no capítulo II, as diferentes formas de desintegração da personalidade, tivemos ocasião de entrever com freqüência os efeitos felizes e benéficos produzidos pela ação de faculdades subliminares. Vimos as camadas mais profundas do eu intervirem, de vez em quando, com fim terapêutico, ou pôr em marcha, ainda que sem objetivo e de forma esporádica, faculdades que escapam ao controle do eu supraliminar. E vimos, ainda, que com a ajuda da hipnose se provocava com freqüência a ação dessas faculdades subliminares. Mas nada disse sobre a natureza do estado hipnótico; a única coisa evidente era que se tratava de algo similar ao sonambulismo, induzido ou artificial, que parecia sistematizar o domínio benéfico para o organismo que os estados de semivigília espontânea exerciam só de modo irregular. Agora devemos nos dedicar a compreender ab initio esses fenômenos hipnóticos e prosseguir no estudo, o mais longe que seja possível, daquilo que se pode chamar de evolução experimental do sono.

Suponhamos, por um momento, que sobre este ponto não possuímos maiores conhecimentos do que os existentes na época do jovem Mesmer. Saberemos perfeitamente, como psicólogos experimentais, o que desejamos fazer; mas não teremos noção alguma de como alcançar nosso objetivo. Desejamos submeter a nossa vontade, apropriarmo-nos para nosso uso das faculdades da semivigília, que tão raramente aparecem. Do ponto de vista físico, desejamos reforçar sua ação de inibição sobre a dor e seu poder regenerativo sobre o organismo; do ponto de vista emocional, tornam mais intensa a sensação de liberdade, de expansão e de alegria que nos proporciona sua ação. Mas, antes de tudo, desejamos aquilatar o valor destas faculdades supranormais: a telepatia e a telestesia, das quais percebemos manifestações isoladas e irregulares no sonambulismo e no sonho.

A essas esperanças, a experiência chamada “histórica” parece negar toda a possibilidade prática. Encontramos na história exemplos, por outro lado muito vagos, de sugestão e influência terapêuticas exercidas de homem a homem, mas esses fatos parecem ser considerados como outros tantos mistérios que seria impossível reproduzir à vontade.

Mas, que pense o leitor somente em todas as possibilidades inesgotáveis do organismo humano e da vida humana. Que visite um dos centros de prática hipnológica, como o do Prof. Bernheim ou a clínica do Dr. Van Rentorghen; que veja centenas de pacientes submersos diariamente, no espaço de alguns minutos, no sono hipnótico e que se lembre que esse comportamento, que parece hoje tão fácil e simples como a deglutição de uma pílula, foi totalmente desconhecido, não só para Galeno e Celso, como também para Hunter e Harvey e, uma vez descoberto, denunciado como uma ficção fraudulenta. Aquele que, muito jovem, teve a oportunidade de ser testemunha das curas efetuadas no hospital mesmeriano do Dr. Elliotson, antes que a negligência e a calúnia impedissem esse esforço em prol da humanidade, e que viu a indiferença popular e o preconceito profissional privar toda uma geração desse procedimento terapêutico, não se pode manter cético diante de todas as negações das faculdades humanas, de todos os obiter dicta de homens eminentes cujo único erro consiste em não ter conhecimento algum acerca da questão em litígio. Não são preferíveis “as experiências dos insensatos” (como pensava Darwin) ao invés dessa ignorância imemorial, baseada numa espécie de incredulidade irracional?

As experiências de Mesmer eram quase “experiências de insensato” e o próprio Mesmer, quase um charlatão. Mas, Mesmer e seus sucessores, freqüentemente com diversos pontos de vista, e seguindo teorias diferentes, abriram um caminho que se vai alargando cada vez mais e nos conduziram a um ponto em que podemos esperar, com ajuda das experiências feitas não ao acaso, antes de modo sistemático, poder reproduzir e sistematizar a maioria desses fenômenos de sonambulismo espontâneo que anteriormente parecia estar fora de nosso alcance.

Essa promessa é, com efeito, enorme; mas seria conveniente imbuir-se, imediatamente, de sua verdadeira extensão. Não devemos supor que vamos poder, num primeiro momento, submeter à nossa experiência um eu central, razoável e integral. Pelo contrário, é característico da histeria e, geralmente, também do sonambulismo, que as modificações que se produzem durante esses estados, ainda que sendo subliminares, são apenas parciais, que essas modificações (para empregar a conhecida terminologia de Hughlings-Jackson) afetam os centros do nível médio, não os do nível superior, nem os centros que presidem as percepções da ideação superior, antes os que estão encarregados do controle dos movimentos coordenados complexos, como as sinergias necessárias ao caminhar, à vista ou à palavra ininteligível, incoerente, como no sonho.

Essa metáfora de níveis superior e inferior, ainda que pareça imprópria, segue sendo útil quando se trata de uma sucessão de faculdades que, hipoteticamente, se encontram sob o umbral da consciência. O que sabemos dos processos subliminares nos obrigou a reconhecer nesta região submersa uma graduação semelhante. Podemos, artificialmente, alcançar qualquer faculdade subliminar, sem poder alcançar um juízo central ou um juízo de controle. Podemos alcançar os centros que exercem somente sobre essas faculdades subliminares um poder fragmentário, e nada terá de estranho que as manifestações provocadas por nossa experiência mostrem um caráter estranho, incoerente. Devemo-nos contentar, ao menos ao princípio, com poder afetar a personalidade, mesmo que seja só nos limites em que o faz a histeria e o sonambulismo, atuando de um modo predeterminado e útil, onde estas duas afecções exerçam uma ação mais prejudicial e irregular. É já uma grande esperança poder inibir a dor, como no caso do histérico, concentrar a atenção como faz o sonambulismo ou descobrir e fixar parte dessa faculdade supranormal, cujos resplendores fugidios enxergamos durante a visão ou durante o sonho. Na natureza intrínseca da faculdade trazida à luz e não no conhecimento de sua direção natural, que freqüentemente depende de uma ordem emanada da região supraliminar, é onde devemos procurar uma prova a favor de sua procedência das camadas profundas de nosso ser.

O nome de Mesmer é o que primeiro se deve mencionar na história do hipnotismo. Acreditava, em princípio, nos eflúvios terapêuticos e seu método parece ter sido uma combinação de passes, de sugestão e de uma presumível “metalo” ou “magnetoterapia” (a célebre cubeta) que, indubitavelmente, nada mais era do que uma forma de sugestão. Seus resultados, ainda que descritos de maneira imperfeita, não passam de experiências pessoais. As crises que sofriam alguns de seus pacientes são semelhantes às crises de histeria; mas é provável que fossem freqüentemente seguidas de rápida melhora, sem a qual não exerceriam uma impressão tão forte nos sábios e na burguesia de Paris. Devemos, também, a Mesmer o primeiro conceito dos poderes terapêuticos de uma brusca e profunda modificação nervosa. Devemos-lhe, ainda, em grande parte, a doutrina da influência nervosa ou dos eflúvios nervosos que passam de um homem a outro, doutrina que, apesar de despojada da importância excessiva que ele lhe atribuía, não pode ser, a meu ver, ignorada ou negada.

O mais importante de seus sucessores imediatos, o marquês de Puysegur, parece, pelo que se denota de seus escritos,55 um dos homens mais hábeis e puros entre os praticantes do mesmerismo; também foi um dos que fizeram experimentos em grande escala e com um objetivo que não era unicamente terapêutico. Quase se pode dizer que foi o descobridor do sonambulismo; obteve a clarividência e a telestesia em diversos indivíduos e descreveu seus casos com tantos detalhes, que é difícil ver em tudo isso o resultado de uma observação defeituosa, ou de telepatia emanada de pessoas presentes. Outros observadores, como por exemplo Bertrand, um médico de alto gabarito, seguiram o mesmo caminho e esse breve período é, talvez, de todos os que mencionamos em nosso tema, o mais fértil em experiências desinteressadas.

Vem, em seguida, a era inaugurada por Elliotson, na Inglaterra, e por Esdaille, em seu hospital em Calcutá. Seu procedimento consistia em passes mesmerianos; o principal intuito de Elliotson era a cura direta das enfermidades, enquanto que Esdaille se propunha, especificamente, a obter uma anestesia suficientemente profunda para poder executar operações cirúrgicas. O êxito deste último foi ímpar e, deixando de lado os fenômenos paranormais, os resultados obtidos por ele constituem o fato mais extraordinário da história do mesmerismo. Se esses resultados não estivessem consignados nas atas oficiais, a aparente impossibilidade de reproduzi-los bastaria, naquela época, para desacreditar totalmente o procedimento em questão.

O grande passo seguinte dado pelo hipnotismo foi considerado por Elliotson e seu grupo como uma demonstração hostil. Quando Braid descobriu que a hipnose pode ser produzida sem passes, os mesmerianos acreditaram estar seriamente ameaçada sua teoria dos eflúvios terapêuticos. E era certo: porque essa teoria foi, na realidade, relegada ao esquecimento, de maneira demasiadamente absoluta, na minha opinião, pelo recurso, cada vez mais amplo e exclusivo, da simples sugestão. As experiências de Braid diferem consideravelmente daquelas praticadas antes e depois dele. Seu método inicial da visão convergente produziu resultados que ninguém conseguiu atingir, depois dele; e o estado que obtinha lhe parecia suscetível de deter e dissipar enfermidades que nem o hipnotizador nem o paciente acreditavam suscetíveis de cura. Porém, mais tarde abandonou esse processo, a favor da simples sugestão verbal, porque se assegurou que a única coisa necessária era preocupar-se em influir nas idéias do paciente. Mostrou, a seguir, que todos os fenômenos chamados frenológicos e que os efeitos presumíveis dos ímãs, dos metais, etc., também podiam ser produto da sugestão. Assim, atribuía importância enorme ao poder do paciente em resistir às ordens do operador e a produzir sobre si mesmo os efeitos do hipnotismo, sem ajuda do operador. A inovação mais importante, introduzida por Braid, foi, na minha opinião, a possibilidade da auto-hipnotização, por concentração da vontade. Essa experiência nova sobre as faculdades humanas, sob certo aspecto a mais importante de todas, conseguiu apenas escassos imitadores. Falando das idéias divulgadas pelo grupo de Braid, devemos mencionar um hábil experimentador, ainda que inferior a Braid, cujas obras parecia desconhecer.

Vamos falar do Dr. Fahnestok, cuja obra Stavolism, or Artificial Somnambulism (Chicago, 1871) não atraiu a atenção que merecia, quer por causa de seu estranho título, por causa de sua falta de clareza, quer por causa de sua publicação numa cidade que, naquela época, achava-se totalmente nos confins da civilização. Fahnestok parece ter obtido, pela auto-sugestão em pessoas sãs, resultados que, sob muitos aspectos, são muito superiores aos demais conhecidos até então.

Não temos razão alguma para duvidar desses resultados, só porque não foram reproduzidos com o mesmo êxito; e meu objetivo é precisamente mostrar que na história do hipnotismo, a impossibilidade de reproduzir com êxito as experiências que outros realizaram com sucesso não tem importância alguma.

O hipnotismo recebeu um novo impulso na França, graças a Charles Richet, cuja obra está liberta de toda estreiteza de critério e de toda conceituação falsa; mas o movimento inaugurado por ele foi impulsionado numa direção singular e infeliz por Charcot e sua escola. Fato estranho: Charcot, que foi talvez o único homem eminente que deveu sua reputação profissional exclusivamente a seus trabalhos sobre o hipnotismo, é, ao mesmo tempo, o homem cujas idéias são consideradas naturalmente errôneas e que aparece a todos como tendo seguido um caminho errado, do qual querem os seus discípulos afastar-se agora. Os principais resultados obtidos por Charcot (como os de seus antecessores supracitados) são os que se reproduzem com raridade depois. As famosas “três fases” do hipnotismo maior são coisas nas quais hoje ninguém crê. Mas isto não se aplica ao que outros hipnotizadores possam obter, caso o queiram, mas ao qual as experiências mostraram que os resultados e os sintomas, aos quais Charcot atribuía enorme importância, só são o produto superficial de sugestões prolongadas e, por assim dizer, endêmicas, como as observadas em Salpêtrière.

Chegamos à corrente atual de maior importância e que conta em seu ativo com o maior número de curas. A escola de Nancy, iniciada por Liébault, combate, pouco a pouco, com uma crescente convicção, os presumíveis “sinais somáticos” de Charcot, a irritabilidade neuromuscular, etc., que era considerada como a condição essencial do hipnotismo, até que Bernheim declarou corajosamente que o estado hipnótico é igual ao sono comum e que a sugestão hipnótica era a única causa da reação hipnótica, nada mais sendo do que um simples conselho ou ordem verbal. Isso, infelizmente, era demasiadamente simples para ser correto. Nenhum sono, entre um milhão, constitui realmente o estado hipnótico, e nem a sugestão, entre um milhão, alcança o eu subliminar nem influi realmente sobre ele. Se as teorias de Bernheim, consideradas em sua última expressão, fossem verdadeiras, na atualidade ter-se-iam curado todos os doentes.

O que Bernheim fez foi curar muitas pessoas sem passes mesmerianos, sem nenhuma crença na força superior à do operador ou à do indivíduo que iria ser hipnotizado. E, nesse aspecto, estão as suas experiências mais valiosas, que mostram o hipnotismo reduzido a seus aspectos mais simples.

“O sono hipnótico – disse com efeito Bernheim – é o sono comum, a sugestão hipnótica, uma ordem comum. Ordena-se ao paciente que durma e, caso durma, ordena-se que se porte bem e, imediatamente, se porta bem.” Desse modo ouvimos ao prestidigitador que nos explica “como realizou suas façanhas” sem esperar reproduzi-las com um resultado tão brilhante. Uma ordem comum não consegue curar um homem comum de seu reumatismo ou de odiar o cheiro de aguardente que tanto apreciava, até então. Resumindo: a sugestão é algo mais complexo do que uma palavra; supõe com certeza uma profunda mudança nervosa, provocada por uma atividade nervosa vinda de dentro ou de fora. Antes de ficarmos satisfeitos com a fórmula de Bernheim, devemos considerar novamente as mudanças a que nos propomos efetuar e ver se os métodos empregados até aqui pelos hipnotizadores eram capazes de provocá-las.

Segundo Bernheim, somos todos suscetíveis à sugestão e o que nos propomos obter é um aumento de nossa suscetibilidade a ela. Mas deixemos, por um momento, do encanto das palavras do oráculo. Trata-se de tornar o organismo mais obediente, para o fim a que o dedicamos. O sono, com o qual geralmente se identifica o hipnotismo, não constitui, neste caso, uma condição essencial, porque as modificações subliminares se obtêm, com freqüência, sem vestígio algum de sonolência.

Vejamos, agora, se certas ações nervosas, ora difusas, ora especializadas, tendem a fazer surgir, não o sono nem a catalepsia, antes essa espécie de reação fácil com a ajuda de gestos visíveis, ou com processos ativadores nutritivos invisíveis, que constituem a hipnose, tal como é entendida na prática, com seriedade.

Entre os agentes externos suscetíveis de influir sobre o sistema nervoso, em geral, os medicamentos narcóticos ocupam o primeiro lugar. O ópio, o álcool, o clorofórmio, a cannabis indica, etc., afetam o sistema nervoso de maneira tão especial, que tornam a idéia de empregá-los a título de agentes hipnóticos completamente natural. E alguns pesquisadores observaram, com efeito, que uma ligeira cloroformização torna os indivíduos mais sensíveis à sugestão. Janet citou um caso de sugestibilidade produzido durante a convalescença do delirium tremens. Outros hipnotizadores (Bramwell) descobriram que o clorofórmio tornava os indivíduos menos hipnotizáveis e o álcool é, no geral, considerado como um agente que diminui a suscetibilidade hipnótica. Aguardando outras experiências com os diversos narcóticos, podemos dizer que os resultados conhecidos até agora tornam pouco provável a opinião que considera a hipnose como o resultado de uma atividade fisiológica direta, exercida por agentes externos.

A semelhança aparente entre a narcose e a hipnose diminui, com efeito, quando a submetemos a uma análise mais profunda. Produz-se, tanto numa como na outra, uma fase caracterizada por uma ideação incoerente, delirante; só que, no sujeito narcotizado, esta fase precede o estado de inibição de todo o sistema nervoso e os centros superiores são os primeiros a paralisar; enquanto que na hipnose a inibição das faculdades supraliminares parece, na maioria dos casos, só uma condição preliminar necessária à entrada em jogo de faculdades novas, entranhadas nas profundas regiões do eu.

Temos que citar ainda, no número de fatores externos capazes de produzir efeitos difusos em todo o sistema nervoso, as impressões súbitas, cuja ação pode ocasionar a morte por parada do coração, provocar paralisia, ou o stupor attonitus (uma forma consagrada de loucura) que determina essa imobilidade cataléptica na qual um simples soar de gongo pode aterrorizar uma doente de Salpêtrière.

Fenômenos semelhantes foram observados em certos animais, como a rã, o escaravelho, etc. Todavia, o caráter hipnótico desses estados é extremamente duvidoso. Não se demonstrou a existência, nos casos desse gênero, de uma verdadeira faculdade de reação, de obediência à sugestão, a menos que se trate (como em certos casos da Salpêtrière) de uma forma de sugestão tão evidente e habitual que a obediência a essa sugestão possa ser considerada como parte do estado cataléptico. Assim, a “maleabilidade” do cataléptico, cujos braços se mantêm na posição em que os colocaram, deve ser considerada com maior exatidão, como um estado caracterizado por um poder de reação menos forte e rápida aos estímulos internos e externos.

Existe uma forma de produção da hipnose entre certas pessoas histéricas, que se distancia igualmente dos estímulos maciços, difusos e das ações locais. É, propriamente dito, um estímulo local; mas não se vê por que razão, a não ser que seja em virtude de um capricho profundo do organismo, o trajeto especial, que neste caso é um trajeto sensitivo, se desenvolveu numa direção mais do que em outra.

Falo da produção do estado hipnótico como conseqüência da pressão exercida sobre o que se chama de zonas hipnógicas, cujo ponto de partida é constituído pelas zonas de anestesia que se encontram nos histéricos, os “estigmas das bruxas” de nossos antepassados.

De acordo com o que sabemos atualmente acerca disso, a disposição desses “estigmas” é completamente arbitrária, isto é, não parece depender de nenhuma lesão central como as “dores irradiadas” que se produzem durante o curso de lesões orgânicas profundas e que se manifestam por zonas de sensibilidade superficial que seguem a disposição dos troncos nervosos. As zonas anestésicas são um exemplo do que eu convencionei chamar de auto-sugestão irracional da zona hipnótica e são, com mais precisão, determinadas por caprichos incoerentes do que por antecedentes puramente fisiológicos. Quanto aos pontos que se chamam de zonas histeróginas, zonas hipnógicas, zonas hipnofrenatrices, etc., e que sua constância no mesmo indivíduo poderia fazer com que fossem consideradas como a causa fisiológica imediata da ação subseqüente à pressão exercida em seu nível, parecem-me, apesar de sua constância, como localizações puramente arbitrárias, criadas em virtude de uma decisão inconsciente do eu subliminar, do qual constitui o resultado externo. A pressão local exercida ao nível desses pontos não seria, na minha opinião, mais do que um simples sinal, um aviso às faculdades preexistentes dos centros da camada hipnótica, cujo funcionamento não se submete a lei alguma. Onde outros vêem uma ação fisiológica, vejo tão-somente o efeito da auto-sugestão.

Certos técnicos recorreram, para praticar a sugestão, ao que se chama de estimulação monótona. Dessa forma, Auguste Voisin, ao se ocupar de pessoas incapazes de fixar sua atenção, recorreu ao seguinte procedimento: depois de separar as pálpebras com a ajuda de um blefaróstato, fazia com que fixassem a vista durante horas seguidas num ponto ou num objeto qualquer, por exemplo, uma lanterna elétrica acesa. Os indivíduos acabavam por cair num estado semicomatoso, que os tornava extremamente suscetíveis à sugestão. Trata-se, neste caso, de um antecedente verdadeiramente fisiológico do sono hipnótico? Não o creio. A excitabilidade mórbida dos indivíduos constituía simplesmente um obstáculo para a hipnose e, se tivessem sido capazes de prestar uma atenção suficiente à sugestão verbal (que foi necessária em todos os casos), o sono hipnótico teria sido obtido sem estimulação monótona.

As estimulações monótonas, por exemplo, o tique-taque de um relógio, o ruído produzido pela hélice de um navio, longe de serem capazes de provocar sempre a hipnose, na maioria dos casos terminam por desviar a nossa atenção ou por nos incomodar. O mesmo ocorre com o embalo, que ainda que sirva para adormecer algumas crianças, atua de maneira irritante sobre outras. Em todo o caso, o embalo atua sobre os centros espinais e os canais semicirculares, e sua ação soporífica deve-se menos à sua repetição monótona do que aos movimentos maciços do organismo. Os mesmos “passes” atuam menos como estimulação monótona do que como simples sugestão e isso de acordo com a experiência de técnicos como Milne Bramwell, que os empregam sempre com êxito.

A conclusão que se depreende de nossa análise dos processos que se supõe exerçam uma ação fisiológica que termina no sono hipnótico, é que estes comportamentos constituem somente maneiras diversas de praticar a sugestão e isso nos leva a considerar, com a escola de Nancy, a sugestão como único meio de provocar a hipnose.

Mas como e em que condições atua a sugestão? É evidente que a obediência à sugestão não pode depender da vontade do indivíduo, pela simples e única razão de que se dirige a uma região situada muito além da região em que se manifesta a vontade. Tal indivíduo pode desejar curar-se de determinada doença, pode desejar obedecer, mas uma simples expressão verbal feita por alguém de seu desejo, que sob a forma de uma ordem ou um impulso não basta para concretizar sua cura. Para que o resultado desejado se produza é necessária a interferência de outro fator, que até agora não foi suficientemente considerado: é necessário que a sugestão externa se transforme numa sugestão vinda de dentro, isto é, numa auto-sugestão, e assim a sugestão se converte num “apelo eficaz ao eu subliminar”, não só necessariamente ao eu em seu aspecto mais central e unitário, mas ao menos a uma das camadas das faculdades subliminares que descrevi anteriormente. Ao formular essa definição da sugestão, não desejo, em absoluto, dar qualquer explicação acerca da sua eficácia em certos casos e de sua ineficácia em outros. Tudo que posso dizer é que a maior ou menor eficácia da sugestão não depende, como até agora se acreditou, desta ou daquela diferença entre os diversos meios de sugestão empregados. A ação da sugestão é caprichosa e não se deixa reduzir a leis; mas encontramos a mesma aparência arbitrária e fortuita nos fenômenos da desintegração da personalidade, do gênio, do sono, do automatismo motor e sensorial. Encontramo-nos ali diante de um mistério que é parte do mistério relativo às relações existentes entre o eu subliminar e o eu supraliminar.

Mais tarde iremos tratar de esclarecer um pouco esse mistério. Vejamos, entretanto, se a concepção do eu subliminar pode, por sua natureza, proporcionar novos elementos suscetíveis de lançar um pouco de luz sobre os fenômenos hipnóticos.

Podemos dizer, em primeiro lugar, que, tendo descoberto o fato de que as faculdades subliminares encontram seu mais completo desenvolvimento durante a fase do sono, devemos esperar que a evocação artificial dessas faculdades seja, por sua vez, seguida do próprio sono. Mas é precisamente um estado particular semelhante ao sono, o que caracteriza principalmente a hipnose; e ainda que as chamadas sugestões hipnóticas manifestem, às vezes, seus efeitos durante a vigília, os maiores êxitos terapêuticos obtidos mediante o hipnotismo produziram-se durante um sono mais ou menos profundo, um sono compatível com atividades mais ou menos estranhas, mas que é seguramente mais profundo do que o sono normal. Eu me absterei de seguir a Bernheim, que assemelha o sono hipnótico ao sono normal. Direi, antes, que no hipnotismo, da mesma forma que no êxtase, na letargia e no sonambulismo, o eu subliminar aparece na superfície de um modo que conhecemos e substitui ao eu supraliminar na medida necessária para o cumprimento de sua obra. O caráter dessa obra já o conhecemos, só que aquilo que vimos, em outras ocasiões, se realizar espontaneamente, se produz então, como resposta ao nosso chamado.

Este conceito simplificado do hipnotismo nos permitirá compreender muitos fenômenos cuja interpretação e explicação são ainda muito discutidas. Assim, as diferentes fases do estado hipnótico descritas por Charcot, Liébault e Gurney, cada uma das quais apresenta, como disse Gurney, sua própria memória, sem relação nem confusão com a memória dos estados que a precedem ou a seguem; estas fases, dissemos, demonstram uma notável semelhança com as desintegrações mórbidas da personalidade, com as multiplicações da personalidade que descrevemos no capítulo II, onde vimos que cada nova personalidade apresentava lacunas, soluções de continuidade na corrente mnemônica. As fases hipnóticas apresentam personalidades secundárias ou alternativas de um tipo superficial e por isso mesmo eminentemente próprias para mostrar-nos a que gênero de desintegração subliminar são devidas as desintegrações mais profundas da personalidade.

A fase mais profunda do sono hipnótico poderia ser definida como uma adaptação científica feita, tendo em vista um fim definido, em cuja disposição se intensifica o que pode ser útil e se afasta o que pode constituir um obstáculo. Nosso sono normal é, por sua vez, instável e incapaz de reação; podem-nos despertar com o espetar de uma agulha, mas quando nos falam não ouvimos nem respondemos nada, a menos que nos desperte o ruído das palavras. Esse é o sono criado pelas necessidades de nossos temerosos antepassados.

O sono hipnótico é, ao mesmo tempo, instável e capaz de reação; resistente às excitações que deseja ignorar, facilmente acessível às chamadas a que se decide responder. Espete-se ou belisque-se o indivíduo hipnotizado e, ainda que certas camadas de sua personalidade possam ser em determinado ponto conscientes do ato, não será o sono por isso interrompido. Mas, quando se lhe dirige a palavra ou se conversa pausadamente diante dele, ouve, por mais profunda que seja a sua letargia aparente. Isso ocorre na fase inicial do sono; numa fase mais profunda, o eu supraliminar encontra-se, finalmente, em completa liberdade e é capaz não só de receber, mas também de responder. O estado hipnótico tem por objetivo facilitar e tornar possível a direção supraliminar do eu subliminar.

Esta direção se exerce por dois caminhos diferentes e atua quer por inibição, quer pela dinamogenia, isto é, reprimindo certos atos, certas emoções e certos estados afetivos, ou provocando e favorecendo outros. E nisto a sugestão hipnótica aproxima-se da educação, que, igualmente, tem por objetivo impedir nas crianças o desenvolvimento de certos instintos e hábitos reputados maus e favorecer outros instintos e hábitos reputados bons.

Sem dúvida, o trabalho da dinamogenia na educação apresenta dificuldades muito maiores do que o da inibição. Sabemos muito bem o que queremos impedir que a criança faça; é muito mais difícil determinar o que deve uma boa educação ensiná-la a fazer. A primeira lição que lhe inculcamos, a atenção, é na realidade de um alcance do qual não nos damos conta. Contentamo-nos, igualmente, com o lado negativo da lição que consiste na inibição do pensamento disperso; a intensidade da atenção assim obtida constitui um problema à parte. A educação intelectual que a atenção torna possível compreende o exercício das faculdades de percepção, de memória e de imaginação; mas todas essas faculdades freqüentemente adquiriram um grau de intensidade considerável, mediante a sugestão hipnótica. Por sua vez, a educação moral supõe o exercício da atenção, principalmente na direção emocional, tanto mediante a inibição como a dinamogenia. Eliminamos os temores mórbidos inculcando os conceitos de valor e de respeito próprio; servimo-nos do “poder de expulsão dos novos afetos” para suprimir os desejos indignos. Existem numerosos exemplos que mostram o poder da sugestão nos casos em que a vida parece irremediavelmente arruinada por alguma preocupação obsessiva ou algum medo irresistível.

As virtudes pessoais dependem, antes de tudo, do poder da inibição, enquanto que a dinamogenia se torna necessária quando estas virtudes têm necessidade de ser antes estimuladas que contidas, aplicando-se o estímulo aos instintos já existentes. Cada um de nós deseja, em maior ou menor grau, a saúde, a riqueza, a consideração, o êxito. Mas, quando das virtudes pessoais passamos às virtudes altruístas, não estamos seguros de encontrar um impulso pronto a se desenvolver.

Quando se alcançou um certo grau de generosidade e de afabilidade, encontramo-nos diante de qualidades superiores de abnegação, de entusiasmo pessoal, etc., que superam o alcance da educação comum e da sugestão hipnótica comum. Certos dipsômanos e morfinômanos curados levam uma vida digna de consideração; alcançaram, por assim dizer, um certo grau de estabilidade moral; mas é pouco provável que sejam capazes de manifestar virtudes superiores.

Na realidade, ninguém pode pedir ao médico que lhe proporcione a santidade; do mesmo modo que não pode esperar que um homem egoísta e feliz se transforme num homem generoso e separado dos bens deste mundo: esse homem se adaptou a seu modo ao meio em que vive e não pede para ser mudado profundamente. Não é, pois, nos quartos dos hospitais nem nos consultórios que encontraremos as grandes mudanças de caráter com relação aos fins espirituais. Essas mudanças não podem ser o objetivo de experimentos realizados a sangue frio. Assim não se produzem. Em todos os povos e em todas as épocas houve conversões, mudanças e aprimoramentos de caráter atribuídos à graça divina e mais tarde veremos que sobre esse aspecto nosso exame dos efeitos do hipnotismo se confunde com as considerações mais amplas sobre o poder espiritual do homem.

Mas, antes de chegar a este ponto de vista mais amplo, devemos passar em revista, sucessivamente, as diferentes formas, tanto de inibição como de dinamogenia, que constituem a educação comum desde o berço.

A forma mais comum de restrição ou de inibição consiste, como já dissemos, nos esforços que fazemos para evitar que a criança adquira “maus hábitos”. Essas associações mórbidas dos centros motores, de início agradáveis, acabam sempre por tornarem-se incuráveis, até o ponto de resistir a qualquer tratamento, até o ponto em que um ato aparentemente insignificante como chupar o dedo pode causar graves distúrbios.

Sem dúvida, os resultados da sugestão são os mais inexplicáveis, nos casos desse gênero. Em parte alguma assistimos a tão completa libertação, quase momentânea, de um costume que anos inteiros de penosos esforços não conseguiram suprimir.

Esses casos eqüidistam da terapêutica comum e da persuasão moral. A importância de encontrar aqui o meio de tratamento mais breve e rápido salta à vista e não temos razão alguma para crer que as curas assim obtidas sejam menos completas e mais permanentes do que as devidas a um esforço moral, lento e gradual. Não se devem perder de vista esses fatos quando se percorre toda a série de efeitos hipnóticos superiores, porque são de natureza a nos tirar qualquer inquietude com relação à exclusão possível de todo exercício ou esforço moral, nos casos de cura rápida e quase milagrosa. Devemos supor que cada um desses esforços consiste numa modificação de certos grupos de centros nervosos e precisamente nisso o resultado que o treinamento moral obtém na região da consciência é mais lento e penoso. Entre essas duas formas de agir existe a mesma diferença que separa os resultados obtidos pela aplicação intelectual comum dos que realiza o homem de gênio. O homem a quem se sugeriu a “sobriedade” pode, sem dúvida, liberar-se de todo esforço de paciência e de resolução, da mesma forma que o escolar Gauss, que escrevia as soluções dos problemas enquanto estes eram enunciados, ao invés de ficar horas refletindo sobre eles. Mas o progresso moral é, essencialmente, tão ilimitado quanto as ciências matemáticas e o homem cujo caráter sofreu, num ponto qualquer, uma transformação, sem que isso lhe custasse o menor esforço, pode ainda encontrar na vida ocasiões de realizar um esforço moral, de adestrar seu caráter e de tomar decisões.

Entre os maus hábitos aqui tratados, a cleptomania apresenta um interesse particular, porque é freqüente um indivíduo sentir a tentação de se perguntar se este, assim chamado, costume mórbido não serve de desculpa para uma simples tendência criminosa. Todavia, os resultados obtidos pelo tratamento são a melhor prova da existência de uma enfermidade; e certas curas mostram que o impulso, neste caso, se deve realmente a uma excitabilidade mórbida dos centros motores, movidos por um estímulo especial, uma idéia fixa que tende a se transformar, imediatamente, em ato.

Certas palavras e atos violentos correspondem à mesma categoria dos casos em que o impulso de gritar ou de golpear adquiriu a rapidez irracional e automática de um tic; só podem ser inibidos através da sugestão, da mesma forma que certas aberrações sexuais.

Os narcóticos e certas substâncias estimulantes constituem uma ameaça perpétua à moralidade humana. Por um estranho acidente de nosso desenvolvimento, a tendência de nosso organismo ao emprego de certas drogas, o álcool, o ópio, etc., é suficientemente poderosa para prevalecer em muitas pessoas não só sobre os impulsos altruístas, que são de aquisição recente, mas também sobre as tendências primitivas de defesa e de conservação pessoal. Vemo-nos aqui, novamente, por assim dizer, diante da “quimiotaxia” dos organismos inferiores e nos envolvemos num estranho conflito entre nossa responsabilidade moral e nossas afinidades moleculares, uma vez que nossa vontade central encontra-se saturada por inumeráveis elementos inertes de nosso ser. Nesses estados, a sugestão hipnótica opera de uma forma bastante curiosa, menos no sentido de um fortalecimento de nossa vontade central do que no de uma nova junção molecular; deixa o paciente, indiferente ao estimulante, que quase lhe produz nojo. O homem sobre o qual o álcool produzia anteriormente alegria ou terror extremados, comporta-se então como se vivesse num mundo onde não existisse o álcool.

Também o escravo da morfina recobra às vezes uma liberdade semelhante. Antigamente acreditava-se que as curas dos morfinômanos eram equivalentes à sua morte, tendo em vista os numerosos suicídios levados a cabo pelos morfinômanos privados de seu estimulante. Mas em certos casos, curados pela sugestão, a súbita privação não deixou atrás de si desejo algum nem lamento. Trata-se de algo mais profundo do que uma reforma moral: dir-se-ia que um espírito permanecia intacto no meio das degradações sofridas pelo corpo.

Chegamos às idéias conhecidas sob o nome de fobias, como a agorafobia, a claustrofobia, a misofobia (temor de contaminação), que expressam uma espécie de deslocamento ou de contração da atenção, nas quais a sugestão se mostra às vezes muito eficaz, quer suscitando a atividade dos centros antagônicos, quer abrindo canais até então fechados, determinando, numa palavra, um rápido desaparecimento da idéia obsessiva. Refiro-me, nos casos deste gênero, a uma mudança intelectual que consiste na reposição da atenção deslocada. Mas os efeitos morais não são menos importantes do que nos casos de inibição da dipsomania, etc., que já foram por nós mencionados. Esses terrores mórbidos que a sugestão faz desaparecer atuam arruinando e degradando o caráter. Os elementos de antipatia, de ciúmes, que freqüentemente encerram, tornam os sujeitos que os padecem tão perigosos para os demais como odiosos para si mesmos.

A supressão dessas idéias fixas, mediante a sugestão, lembra um pouco a extirpação cirúrgica dos tumores do organismo. Mas, a extirpação dos tumores não constitui a única maneira de limpar o organismo; e o organismo psíquico, para prosseguir a nossa metáfora, está igualmente sujeito a destruições e retenções que, com freqüência, é preciso em parte dissipar. O tesouro da memória pode acumular resíduos. Os ensinamentos tirados da experiência são freqüentemente absorvidos e a calma filosófica pode degenerar em apatia. “A experiência acumulada, afirmou-se com toda a razão, paralisa a ação, perturba a reação lógica do indivíduo ao meio. A falta de controle que, com freqüência, marca a decadência das faculdades mentais, não é (às vezes) mais do que um controle defeituoso, produzido pela preponderância das influências secundárias sobre as primitivas”.56

Deste modo, a eliminação da falsa vergonha através da sugestão hipnótica constitui, na realidade, uma limpeza da memória, uma inibição da lembrança de antigas faltas e um colocar em movimento as aptidões necessárias num certo momento. Assim, no caso de um rapaz ao qual se pede para recitar em público, o hipnotismo, ao despertar o instinto primitivo da loquacidade, liberta-o do paralisante medo ao ridículo. Ao contrário, no músico uma sugestão semelhante fará com que desapareça o instinto secundário adquirido pelos dedos, ao libertá-lo de instintos secundários de indecisão e embaraço, próprios do escolar.

Devo aqui observar (de acordo com Gurney e Bramwell) que o termo monoideísmo aplicado aos estados hipnóticos parece-me totalmente inadequado. Ocorre, com certeza, no indivíduo hipnotizado uma seleção de idéias e uma concentração da atenção sobre esta ou aquela idéia pré-escolhida; mas essas idéias podem, por sua vez, ser complexas e mutáveis e nisso reside uma das diferenças que separam o estado hipnótico do sonambulismo, no qual encontramos, com freqüência, um grupo muito restrito de centros cerebrais chamados à ação. A doméstica sonâmbula, por exemplo, segue pondo a mesa do chá, ainda que se ordene outra coisa, e isto é, com efeito, monoideísmo; mas o indivíduo hipnotizado é capaz de obedecer simultaneamente a ordens mais variadas e numerosas do que faria durante a vigília.

Dessas inibições da memória ou da atenção dirigida para as experiências do passado, dirigimos a atenção para a experiência atual. E aqui chegamos a um ponto central, a mancha amarela do campo mental e veremos que entre os efeitos mais importantes do hipnotismo, alguns podem ser considerados como modificações da atenção.

Qualquer modificação da atenção pode realizar-se quer no sentido de interrupção, quer no de estimulação, ou nos dois ao mesmo tempo. Indubitavelmente, eu espantaria mais de um leitor, ao dizer que a supressão hipnótica da dor é devida a uma inibição da atenção. Nas anestesias de causa orgânica (envenenamento, traumatismo, etc.) são produzidas modificações na estrutura íntima dos nervos que têm como conseqüência não só a supressão de sua comunicação com o sistema nervoso central, mas também a diminuição, inclusive o desaparecimento, da atividade funcional do nervo em geral; ao contrário, na anestesia hipnótica, o sistema nervoso permanece tão vigoroso e ativo como sempre, quase capaz tanto de transmitir a dor, como de inibi-la; numa palavra, o indivíduo hipnotizado está sobre a dor, ao invés de estar sob ela. O hipnotismo tem por fim não suprimir a causa orgânica, física da dor, antes debilitar a faculdade de representação, mediante a qual nosso sistema nervoso central transforma em dor esta ou aquela perturbação orgânica. Esse enfraquecimento nem sempre chega à eliminação completa; com freqüência, a dor que pode ser suprimida durante o transcorrer de uma operação, estando o enfermo hipnotizado e inclusive anestesiado, desperta, num certo momento, durante o sono (por exemplo), o que prova que a dor esteve simplesmente relegada a uma das camadas de nossa consciência, inacessíveis ao nosso exame e aos nossos olhares.

Esse poder de inibição que o hipnotismo possui proporciona, por menos que o indivíduo se considere sugestionável, um poder de concentração da atenção, de escolha no exercício de nossas faculdades, e isto nos permite separar, relegar a uma camada profunda de nossa consciência, todas as faculdades que não sejam estritamente necessárias para alcançar o fim a que se propusera. Isto supõe uma dissociação dos elementos que até aqui pareciam indissoluvelmente ligados, e a escolha entre os que são imediatamente indispensáveis e os que, sem ser de qualquer utilidade no momento, nada mais fazem do que distrair nossa atenção. Chegamos assim a uma concentração desta última, que com freqüência pode alcançar um grau comparável ao que acreditamos tenha existido entre os Newtons e os Arquimedes.

A inibição compreendida desta forma aproxima-se ao que se poderia chamar a atividade dinamogênica da sugestão hipnótica. Mas, neste caso, a dinamogenia mostra, por assim dizer, um caráter meramente negativo: elevamos o grau de uma faculdade, a atenção, separando-a dos objetos que não podem ser considerados como meios que permitam alcançar um fim definido; devolvemos-lhe em intensidade o que lhe fizemos perder em extensão.

Mas a sugestão hipnótica tem ainda uma ação dinamogênica positiva, isto é, capaz de aumentar a vitalidade, de fortalecer a vontade, de tornar mais intensa a energia e o funcionamento de todas as nossas faculdades, sem recorrer à inibição. Assim procedendo parece tirar do organismo mais do que lhe é permitido pelas condições fisiológicas. É verdade que a energia física do organismo depende de condições fisiológicas como o calor e a nutrição. Mas, mesmo dentro desses limites, muito amplos por outro lado, do metabolismo fisiológico, a energia produzida mediante o calor e a nutrição é suscetível de variações indefinidas, tanto no caráter como na intensidade. Da mesma forma, a energia psíquica está muito longe de ser fechada num circuito estreito, de apresentar um grau constante. Com a educação nos propomos a:

1) que nossos filhos adquiram, através de seus órgãos sensoriais externos, todos os divertimentos sadios, todos os conhecimentos que esses órgãos são capazes de proporcionar;

2) dar a seus órgãos sensoriais centrais, ou ao mundo interior da imaginação, uma fecundidade sadia e útil;

3) tornar as crianças capazes de dominar suas energias intelectuais retendo, através da memória, todos os atos que anteriormente solicitaram sua atenção;

4) converter seus conhecimentos e sua imaginação em sabedoria e virtude, através do exercício da vontade esclarecida.

Este é um caminho lento e difícil; mas veremos que em cada caso a sugestão hipnótica nos proporciona um início de ajuda e contribuição.

A ação da sugestão sobre nossas faculdades de percepção através dos órgãos dos sentidos externos manifesta-se, principalmente, de três maneiras:

a) pela restituição dos sentidos comuns, afetados por uma anomalia de funcionamento, ao estado normal;

b) pela intensificação dos sentidos comuns: hiperestesia;

c) pelo desenvolvimento de novos sentidos: heterestesia.

No que concerne à primeira categoria, trata-se, na maioria dos casos, quer de um costume adquirido pelo eu subliminar para compensar um defeito orgânico real (espasmo involuntário do músculo ciliar, para corrigir uma insuficiência do cristalino), quer de uma insuficiência da atenção. Portanto, basta suprimir-se o costume ou despertar a atenção, e ambos os efeitos não podem ser obtidos a não ser com a ajuda da sugestão hipnótica, para devolver o órgão ao seu funcionamento normal.

Os casos de hiperestesia são muito numerosos e de maneira suficientemente provada para que haja necessidade de insistir aqui sobre eles. Digamos, unicamente, que provam que o funcionamento dos nossos sentidos só apresenta o mínimo de adaptação a nossas necessidades cotidianas, mas possuem potencialidades latentes que a sugestão hipnótica pode trazer à luz.

Os casos de heterestesia apresentam-se de maneira um tanto diversa. É possível que a heterestesia constitua unicamente uma manifestação de certos sentidos que herdamos do protoplasma primitivo, o qual estava provavelmente dotado de panestesia, isto é, que possuía latente todos os sentidos próprios dos seres vivos. Destes sentidos não desenvolveram durante o curso da evolução mais do que os adaptados aos nossos fins e necessidades humanas terrenas; portanto, encontraram-se providos de órgãos terminais. Mas isso não exclui a possibilidade da existência de outros sentidos que não tiveram ocasião de se exteriorizar, mas que, a exemplo dos trajetos olfativos e óticos, não permanecem no sistema nervoso central. É, portanto, improvável que o impulso externo ou interno seja capaz de torná-los evidentes à inteligência desperta, ou ao menos perceptíveis no estado de concentração limitada (êxtase). Mas, por outro lado, sinto-me inclinado a pensar que as percepções, aparentemente novas, da heterestesia representam somente uma mistura de formas comuns de percepção levadas ao novo grau, interpretadas pelo sistema nervoso central com uma acuidade igualmente nova.57

Vou agora abordar o estudo dos efeitos dinamogênicos da sugestão sobre os processos vitais centrais, isto é, que afetam quer o sistema vasomotor, quer o sistema neuromuscular, quer, finalmente, os trajetos sensoriais centrais.

No que concerne aos efeitos da sugestão sobre o sistema vasomotor, estes são conhecidos por todos e as experiências acerca deles são de uma simplicidade infantil: coloca-se sob as narinas de um indivíduo um frasco que contém amoníaco, dizendo-lhe que é água de colônia; o sujeito aspira o odor com prazer e seus olhos não lacrimejam. Faz-se a experiência contrária, isto é, dá-se água de colônia e diz-se que é amoníaco; o sujeito espirra e os olhos lacrimejam. Essas experiências mostram a influência que a sugestão hipnótica é capaz de exercer sobre a atividade secretora das glândulas. A “estigmatização”, que durante um tempo enorme foi considerada como uma fraude por alguns e como um milagre por outros, não constitui em nossa opinião mais do que um efeito da auto-sugestão sobre o sistema vasomotor, que possui uma plasticidade extrema e um maravilhoso poder de reação.

A estigmatização não é, com efeito, mais do que uma vesicação sugerida ao próprio indivíduo durante o êxtase pela contemplação permanente das chagas de Cristo.

Os efeitos da sugestão sobre nossas faculdades sensoriais centrais, sobre nossa faculdade de representação interna de visões, de sons, etc., são muito mais importantes e só foram tratadas até agora de forma superficial. Esses efeitos são conhecidos pelo nome de alucinações. Ocupar-nos-emos das alucinações no capítulo sobre o automatismo sensorial. Aqui somente diremos que, longe de considerar as alucinações hipnóticas como o efeito de uma inibição, como a expressão de um monoideísmo, ao contrário, enxergamos nelas uma manifestação dinamogênica, uma intensificação da imaginação, que se relaciona às vezes a temas fúteis, mas que de todos os modos representa uma faculdade de ordem superior, indispensável, de uma forma ou de outra, à produção das obras que mais admiramos. Esse poder intenso de imaginação não é só efeito da sugestão; possui ainda outra característica, a de confundir-se com nosso eu subliminar e de persistir ali em estado latente. Tal prova nos é proporcionada pela exatidão e precisão com que se executam as sugestões pós-hipnóticas, isto é, as ordens sugeridas durante o sono hipnótico, mas que devem ser executadas mais tarde, em data e hora determinados, através de um sinal convencionado. No momento de executar esta ordem, o indivíduo cai, momentaneamente, no sono hipnótico e não se recorda de a ter executado. Isso prova que a ordem sugerida formava parte de uma corrente de recordações que existia simultaneamente com aquela do estado de vigília, mas sem relações com esta última.

A faculdade subliminar que preside as alucinações se exerce em limites muito amplos, tão amplos como os limites nos quais se manifestam os efeitos terapêuticos da sugestão. Com efeito, as alucinações pós-hipnóticas não afetam unicamente a vista e o ouvido (aos quais, com freqüência, se restringem as alucinações espontâneas), mas todas as reações vasomotoras e todas as sensações orgânicas, cardíacas, gástricas, etc., e produzem efeitos que artifício algum conseguiria produzir nas pessoas durante a vigília.

A sugestão atua, portanto, intensificando nosso poder e nossas faculdades sensoriais comuns, elevando a um grau inacessível, no estado normal, nossa capacidade de percepção periférica ou central. Pode-se perguntar até que ponto os órgãos terminais especializados participam nessa atividade exagerada de percepção, e a resposta a esta pergunta nos permitiria esclarecer o estranho fenômeno conhecido sob o nome da transposição dos sentidos e que eqüidista entre a hiperestesia e a telestesia ou a clarividência. Sabe-se em que consiste esse fenômeno: é, por assim dizer, a substituição de um órgão dos sentidos por outro, como, por exemplo, a visão com o auxílio da ponta dos dedos, etc. Trata-se de uma verdadeira substituição e um órgão é, realmente, capaz de assumir a função que não lhe corresponde e que é da jurisdição de outro órgão definido, especializado em relação a esta função? Não o creio. Ao meu ver, as pontas dos dedos não constituem, no caso em questão, um órgão da visão, como as zonas chamadas hipnógenas não constituem órgãos destinados à transmissão da sugestão hipnótica. Trata-se, antes, de um estado de telestesia que não implica necessariamente a percepção pelo organismo corporal; só o espírito que percebe desta forma supranormal se encontra sob a impressão de que percebe através deste ou daquele órgão corporal.58

Chego, neste momento, à terceira ordem dos efeitos dinamogênicos da sugestão: à sua influência em especial sobre a atenção, a vontade e o caráter, este último resultado da direção e da persistência da atenção voluntária.

Constatamos, nos fenômenos hipnóticos tratados nesta obra, que a inteligência intervém em certa medida e grau. Passemos agora de uma fase da consciência e da atividade inteligente a outra mais elevada. Pode-se reconhecer, na consciência deste tipo, três graus:

a) ignoro completamente a maneira pela qual o sangue flui em meu braço; é um processo orgânico que se realiza inteiramente sob o nível da consciência;

b) sei, até certo ponto, como movo o braço; é um processo orgânico associado a certas sensações conscientes de escolha e vontade;

c) a partir do momento em que movo o braço, posso compreender, de maneira mais uniforme do que nas fases anteriores, como escrevo letras num papel.

Esse ato encerra um elemento considerável de capacidade adquirida e de escolha consciente. Mas o que desta vez nos propomos a demonstrar é o modo pelo qual a sugestão hipnótica realiza a passagem da fase “b” à fase “c”, isto é, da fase em que o elemento consciente desempenha um papel mínimo à fase em que seu papel se torna importante e complexo.

Consideremos, por um momento, o grau de inteligência que intervém nas modificações do organismo, produzidas pela sugestão hipnótica, como a formação de bolhas cruciformes. Esta formação supõe, com efeito, uma combinação de capacidades bastante raras: a capacidade de impregnar as modificações fisiológicas com uma direção nova e a de reapresentar-se e imitar uma idéia abstrata, arbitrária, não fisiológica: a idéia de cruciformidade.

Tudo isso é, na minha opinião, a expressão de um controle subliminar sobre todo o organismo, controle mais eficaz e profundo do que o supraliminar. E, para dar uma aparência mais concreta a essa expressão abstrata, eu descreveria esse aumento da capacidade de modificação do organismo como uma volta à plasticidade primitiva; essa plasticidade latente durante o estado normal é despertada com a sugestão. Esse despertar não se dá às cegas, nem conscientemente, antes, parece-se a um capricho inteligente. Por exemplo, a vesicação cruciforme localiza-se de acordo com um plano predeterminado, o que prova que o processo não é completamente cego e, por outro lado, muitos indivíduos atingidos por ele ficariam contentes de se verem livres dele, o que prova que o processo não é nem consciente nem voluntário; tudo o que se pode dizer é que a ordem, em virtude da qual se formam as bolhas cruciformes, é uma ordem caprichosa, mas executada inteligentemente. Estamos aqui na presença de uma atividade dos centros do nível médio que põe em marcha as faculdades subliminares.

Chegamos agora às sugestões que afetam mais diretamente as faculdades centrais e se dirigem mais aos centros de nível superior. Citemos, primeiramente, os fatos em que as faculdades superiores obedecem a sugestões feitas tendo em vista fins puramente caprichosos. Falei, anteriormente, dos cálculos realizados subliminarmente, em virtude de sugestões pós-hipnóticas. Estas sugestões, a prazo fixo, isto é, ordens dadas durante o sono e que devem ser executadas em circunstâncias determinadas, depois de um lapso de tempo definido, mostram-nos o grau de inteligência que pode entrar em jogo, fora de qualquer intervenção da consciência supraliminar. Assim, Milne Bramwell ordena a um indivíduo hipnotizado que trace uma cruz quando tenham transcorrido 20.180 minutos a partir do momento em que a ordem tenha sido dada. O fato de que essa ordem tenha podido ser executada demonstra que existe uma memória subliminar ou hipnótica que se mantém durante o transcorrer de nossa vida comum e que desperta quando aparecem circunstâncias propícias para que a ordem seja executada. Das experiências desse gênero e dos fatos já citados, de solução de problemas aritméticos durante o sonambulismo, resulta que, graças à educação, esta acuidade da memória subliminar é suscetível de auxiliar bastante nossa atividade supraliminar.

Todos compreendem que o que Richet chamou de objetivação dos tipos é produzido durante a hipnose com uma vivacidade muito maior do que no estado normal e sabe-se igualmente que o “medo” (dos atores ou dos oradores) é uma emoção que a sugestão pode facilmente suprimir. Certas pessoas podem, em cena ou na tribuna, dar a aparência da genialidade, evocando com a sugestão ou a auto-sugestão uma corrente subliminar de idéias ou de palavras, de gestos dramáticos ou de entonação que, ainda que não seja de rara qualidade, evitaria ao artista colocado em tais condições as violências e torpezas que cometeria sem ela.

Aqui também a hipnotização constitui uma espécie de extensão do “automatismo secundário”, isto é, uma eliminação da consciência comum dos movimentos (o caminhar, os movimentos dos dedos sobre o piano, etc.) freqüentemente executados. E esses fatos fazem-nos entrever a possibilidade da associação, no homem, da estabilidade do instinto e da plasticidade da razão. O inseto, por exemplo, realiza com grande facilidade e perfeição certos atos difíceis que lhe são ditados por um instinto, que nada mais é, com freqüência, do que uma “inteligência decadente”, um esforço vagamente consciente no início e que, à força de se repetir inúmeras vezes, transformou-se num automatismo ininteligente, contudo preciso. O homem é freqüentemente guiado por um automatismo secundário desse gênero, mas em grau ínfimo, se compararmos com a freqüência pela qual se manifesta, com a quantidade de trabalho que efetua em virtude de um esforço consciente. Esse automatismo é suscetível de se estender em duas direções e o homem chega a cumprir com indiferença as necessidades desagradáveis e com facilidade as difíceis.

O hipnotismo pode ter um grande valor prático do ponto de vista do desenvolvimento da atenção em geral, que constitui um dos fins a que se propõe a educação. A incapacidade, a indolência, a falta de atenção repartem entre si a maioria das faltas e dos erros que cometemos diariamente. A falta de atenção é, sem dúvida, freqüentemente, uma forma especial de indolência; mas, em outros casos, pode ser “constitucional” até o ponto de não poder ser vencida por um esforço enérgico da vontade. Se nos fosse possível cortar essa precipitação do foco central até os centros indesejáveis de ideação como podemos deter os movimentos desordenados da moléstia de Parkinson, resultaria numa elevação do nível da inteligência humana, não do ponto de vista qualitativo, mas do ponto de vista quantitativo, ao se prever as perdas. Os conhecidos casos das enfermeiras do Dr. Forel que podiam, graças à sugestão, dormir profundamente junto aos enfermos de que tinham que cuidar, não despertando senão quando os enfermos tinham necessidade de serem atendidos, demonstra que a atenção pode ser concentrada em impressões escolhidas e determinadas e evitado o desgaste de energia por meios mais eficazes do que os exercícios comuns da vontade.

No que diz respeito à influência da sugestão sobre a vontade, limitar-me-ei aqui a chamar a atenção sobre a energia e a resolução com que se realizam as sugestões hipnóticas, sobre a ferocidade mesma, com que o sujeito hipnotizado afasta as resistências mais vigorosas. Não creio que o sujeito hipnotizado se exponha assim a graves riscos, porque estou convencido (com Bramwell e outros) que o sujeito hipnotizado se dá conta vagamente de que não se trata, em suma, mais do que de um experimento. De todas as maneiras, corre um certo risco, conduz-se como deve conduzir-se um homem resoluto e cheio de confiança em si, por mais tímido e agressivo que seja seu caráter habitual. E creio que se pode tirar muitas vantagens dessa confiança temporária em si mesmo que a sugestão faz nascer no indivíduo. Aí temos um meio adquirido de inibição contra timidez e contra desconfiança do indivíduo acerca de si, tal como se manifesta no estado supraliminar, e a possibilidade de concentrar o eu subliminar sobre um objeto determinado, por mais difícil que seja de se conseguir. Em outras palavras, estamos de posse de um meio que permite tirar o maior partido possível das faculdades inatas do indivíduo e esperamos fazê-lo executar não só excursões clarividentes, mas também exercer uma ação a distância sobre a matéria, a telecinesia. Admite-se, geralmente, que a hipnose debilita a vontade, que as pessoas hipnotizadas sofrem cada vez mais a influência do hipnotizador, que pode sugerir ao sujeito atos criminosos. E, sem dúvida, não há nada mais fácil, tanto para o sujeito como para o hipnotizador, do que prever e afastar as influências indesejáveis. Um amigo fiel nada mais tem do que sugerir ao sujeito hipnotizado que ninguém será capaz de lhe sugerir o que for, e obterá o resultado almejado. No que concerne aos crimes supostamente cometidos por pessoas hipnotizadas sob a influência da sugestão, sua veracidade não foi até hoje demonstrada apesar de todos os esforços realizados nesse sentido.

Esse fato está em concordância com as idéias formuladas neste capítulo, pois demonstra que os centros superiores subliminares (para chamá-los assim) não abdicam jamais da realidade de seu papel; que podem permanecer passivos enquanto que os centros médios obedecem aos caprichos do experimentador, mas que estão dispostos a assumir novamente o seu poder de controle, quando o experimento ameace converter-se em perigo para o indivíduo. Por outro lado, é o que observamos no sonambulismo espontâneo, onde os acidentes, a menos que haja um despertar brusco, são tão raros, apesar das extraordinárias façanhas realizadas pelo sujeito.

Só nos resta considerar a influência da sugestão sobre o caráter, a função que resulta da combinação da vontade e da atenção e que é, em última análise, função de todas as possibilidades que o germe individual encerra latentes.

Na cura da morfinomania já observamos com freqüência um vôo moral tão surpreendente, uma elevação tão brusca da queda extrema à vida normal, como raras vezes se produz em outras ocasiões... Sabe-se que, com efeito, não existe um único rasgo de caráter que escapa à ação nefasta do envenenamento morfínico. A covardia, a mentira, o egoísmo mais desalmado, são o que caracterizam o morfinômano, mesmo quando o esgotamento físico tornou o indivíduo incapaz de ativamente manifestar sua violência e seus apetites. Esse desaparecimento completo do respeito a si mesmo não dá motivo algum à ação moral que se sentiria tentado a realizar o sábio e o evangelista. E, sem dúvida, a sugestão hipnótica produz aqui modificações mágicas e devolve ao pária rechaçado pela sociedade uma posição honrada entre seus concidadãos.

De que gênero são essas transformações? Os êxitos obtidos são devidos a que nesses casos se trata de uma degradação funcional não orgânica? Sabemos, com efeito, que é possível curar um estado mórbido dos tecidos, enquanto que nada podemos fazer contra uma deformidade ou uma má conformação congênita. O estado do morfinômano não seria mais do que uma espécie de vício químico, um envenenamento das células que durante algum tempo funcionaram normalmente e são capazes de retomar seu funcionamento normal, se se chega a eliminar o veneno?

Não é uma tarefa muito mais difícil a de criar a honorabilidade, a castidade e a abnegação num cérebro cuja conformação deve manter um espírito que pensa por ele ao nível do bruto? Essa pergunta apresenta um interesse psicológico enorme e a resposta, por mais rudimentar que seja, ainda é das mais animadoras. Conhecemos exemplos que mostram que os sujeitos hipnotizáveis e nos quais é aplicada a sugestão com uma perseverança e uma habilidade suficientes, podem se elevar da mais completa decadência e apesar das nossas qualificações de insano moral ou de criminoso nato a um estado em que podem prestar serviços à comunidade.

É evidente que não podemos ultrapassar o limite das capacidades naturais. Da mesma forma que não podemos improvisar um gênio, não podemos tornar um homem comum num santo. Mas a experiência nos ensina que é possível fazer uma seleção entre os sentimentos e as faculdades mais inferiores e pobres e trazer à luz os sentimentos sadios e as faculdades eficazes, suficientes para assegurar ao homem, supostamente degenerado, uma estabilidade moral e uma colaboração útil do ponto de vista da espécie.

Mas o fato de a sugestão hipnótica se ter mostrado eficaz contra certos maus hábitos indica que seja capaz de curar todos os casos de decadência moral?

Todos os vícios e faltas podem ser classificados nas quatro categorias seguintes:

1) vícios carnais que dependem de tentações específicas, como por exemplo, a embriaguez; estes vícios são facilmente acessíveis à sugestão;

2) vícios associados à má formação congênita do organismo; podem ser, igualmente, suprimidos mediante a sugestão;

3) vícios que dependem de uma idéia fixa: o ciúme é um exemplo clássico, mas o ciúme é sempre um sentimento mórbido; “meu ódio a B porque A prefere B em vez de mim” é o resultado irracional de uma associação de idéias obsessivas que freqüentemente a sugestão destrói de modo surpreendente;

4) vícios mantidos intencionalmente, tendo em vista vantagens presumíveis que supõem possa auferir aqueles que os têm.

No que diz respeito a esta última categoria de vícios, não possuímos prova experimental de que sejam curáveis pela sugestão e isto se explica porque os indivíduos que os têm raras vezes demonstram interesse em se verem livres deles e, mesmo quando interessados, buscam o remédio numa direção antes moral ou religiosa do que médica.

Para expor somente um exemplo, o estado moral de um testemunho falso diferencia-se profundamente do de um dipsômano. Este último se dá conta de que não existe equilíbrio entre ele e seu meio, e a voz do instinto de conservação contrapõe-se, freqüentemente, com a de suas inclinações mórbidas. Pelo contrário, o falso testemunho se encontra, mediante artifícios especiais, adaptado ao seu meio provisório, isto é, ao seu meio terrestre. Portanto, não podemos contar com o instinto de conservação para fazê-lo mudar de caráter, mas podemos presumir que em todo homem existe alguma consciência subliminar de sua relação com outro mundo.

Detenhamo-nos um instante, com o fim de dar-nos conta do ponto a que chegamos. Começamos por definir o hipnotismo como o desenvolvimento empírico do sono. O elemento mais importante desta última fase, e que é, ao mesmo tempo, a função mais evidente do eu subliminar, consiste na regeneração dos tecidos gastos, no rejuvenescimento físico e moral do organismo cansado. Mostramos de que maneira esta função se realiza durante a hipnose, como conseqüência da sugestão ou da auto-sugestão. E estamos convencidos de que o hipnotismo constitui uma verdadeira evolução destas energias reparadoras que dão ao sono seu valor prático. Deste ponto de vista que é, por outro lado, o único em que se coloca uma pessoa para considerar o sono, nossa análise do hipnotismo é completa e poderíamos encerrar este capítulo por aqui.

Mas o fim a que nos propusemos desde o início não se teria conseguido, porque nossa definição do sono é muito mais ampla do que a corrente, pois estamos convencidos de que durante o sono o eu subliminar realiza outras funções além da de simples recuperação do organismo. Estas outras funções apresentam relações, ainda desconhecidas por nós, com o mundo espiritual e a prova de sua atividade nos é proporcionada pela aparição esporádica, durante o sono, de fenômenos supranormais. Trata-se agora de saber se esses fenômenos supranormais se manifestam, igualmente, durante a hipnose. Pode ser esta última produzida por comportamentos supranormais? Pode ser o resultado de uma influência ou atividade telepática? Em resumo, pode ser atribuída a influências cientificamente inexplicáveis e que se estabelecem de um homem a outro?

Sabemos agora, graças às pesquisas da escola de Nancy, cujos resultados foram imediatamente averiguados e confirmados de maneira definitiva, que a sugestão pura e simples constitui a única causa do sono hipnótico. Desse modo livramo-nos das afirmações dos mesmeristas e das da escola chamada fisiológica, as quais, cada uma ao seu modo, atribuíam ao hipnotismo uma causa material. Mas, ao considerar a sugestão como a única causa eficaz do sono hipnótico, não vemos de que maneira poderia manifestar seus efeitos a não ser mediante uma operação subliminar que se realiza sem que saibamos como e temos razões para supor que o êxito ou o fracasso da sugestão depende de uma influência telepática que tem seu ponto de partida no espírito do hipnotizador. Sabemos, com certeza, que a prática do hipnotismo tal como a realiza Bernheim parece excluir toda idéia de relação íntima entre a vontade e o organismo do hipnotizador, e os do sujeito que cai, imediatamente, sob o sono hipnótico, mesmo antes que o hipnotizador tenha tido tempo de pronunciar a palavra “durma!”. Mas este não é o único modo de agir e existem muitos casos em que o êxito da sugestão depende de mais alguma coisa do que uma simples ordem. E nos casos de sugestão a distância (como nos experimentos do Dr. Gilber, do Havre),59 não se trata de verdadeira comunicação a distância entre o espírito do operador e o do sujeito? Na presença de fatos deste gênero não consideramos as atividades dos antigos hipnotizadores, como os toques, os passes, etc., como simples artifícios inúteis e as sensações que os sujeitos pretendiam experimentar, como conseqüência desses toques e passes, como sensações sugeridas e imaginárias; pelo contrário, não nos parece de fato improvável que eflúvios ainda desconhecidos da ciência, mas que as pessoas sensíveis podem perceber, como percebem os impulsos telepáticos, emanem por irradiação dos organismos vivos e possam influir sobre outros organismos, quer por intermédio das mãos, quer através do espaço.60

Desse modo, a região subliminar do sujeito que vai ser hipnotizado pode ser alcançada por procedimentos muito mais sutis do que a mera sugestão verbal. Resta-nos considerar os elementos supranormais que formam parte da resposta hipnótica. Esses elementos são lembrados mediante um impulso subliminar direto, ou dependem de faculdades especiais inatas ao indivíduo que queremos hipnotizar? No momento, é impossível qualquer pronunciamento a esse respeito. Sabemos, somente, que são raramente evocados como resposta a uma sugestão hipnótica rápida e, por assim dizer, superficial; raras vezes aparecem na prática hospitalar e exigem uma educação e um desenvolvimento que só se obtém num indivíduo entre cem. A primeira fase dessa resposta constitui-se pela relação subliminar que se estabelece entre o sujeito e seu hipnotizador, e que se manifesta no que se chama de relação ou comunhão de sensações. As primeiras fases dessa relação resultam, provavelmente, de uma simples auto-sugestão ou de sugestões pelas quais o operador concentra a atenção do sujeito, exclusivamente, sobre a sua pessoa e encontramos a prova de que pode estabelecer um vínculo mais estreito entre as duas pessoas, no caso em que o sujeito hipnotizado toca ou sente o que o hipnotizador (que lhe é desconhecido) toca ou sente ao mesmo tempo.

A partir desse momento, sua faculdade de percepção supranormal é suscetível de ganhar, tanto em extensão como em profundidade. O sujeito pode ser capaz de se comunicar com o passado e com o futuro, de participar de acontecimentos que se realizam longe dele, e isto por meios que só se poderiam classificar de supranormais, porque nenhum dos meios normais, comuns, reconhecidos pela ciência, nos proporciona as informações e os conhecimentos que tem o sujeito cujas faculdades subliminares adquiriram esse grau de tensão e acuidade.

E eis aqui a conclusão metafísica deste capítulo. Quando dizemos que um organismo existe em certo meio, entendemos por isso que sua energia, ou uma parte dela, entra como elemento em certo sistema de forças cósmicas que representa alguma modificação especial da Energia Primitiva. A vida de um organismo consiste nas mudanças de energia entre ele e seu meio, na absorção que opera em proveito próprio de um fragmento dessa força preexistente e ilimitada. Os seres humanos vivem, antes de tudo, num mundo material do qual extraem a subsistência necessária ao exercício de suas funções corporais.

Mas também existimos num mundo etéreo, isto é, estamos constituídos de tal forma que respondemos a um sistema de leis que, em última análise, são, indubitavelmente, contínuas em relação às da matéria, mas que sugerem um novo conceito, mais geral e profundo, do cosmos. Este novo aspecto das coisas é, com efeito, diferente do antigo que fala, geralmente, do éter como de um novo meio. Desse meio, nossa existência orgânica depende, de maneira absoluta, ainda que pouco evidente, mais que do meio material. O éter se encontra na base de nossa existência física. Ao perceber o calor, a luz, a eletricidade, reconhecemos somente de um modo visível, como na percepção dos raios X a reconhecemos de um modo menos visível, a influência permanente que exercem sobre nós as vibrações do éter, cujo poder e variedade superam em muito nosso poder de reação.61

Creio que mais além do mundo etéreo e dando ao cosmos um aspecto mais geral e profundo, encontra-se o mundo da vida espiritual, contínuo até um ponto determinado ao mundo do éter, mas absolutamente independente do mundo material e formando o mundo metaetéreo. Vejamos qual é o alcance desta última hipótese, do ponto de vista da explicação dos fenômenos do hipnotismo. Qual é, com efeito, o fim último de todos os procedimentos hipnógenos? É o de dar energia à vida, de alcançar mais rápido e completamente resultados que a vida abandonada a si mesma não realiza senão lentamente e de maneira incompleta. O que caracteriza a vida é a faculdade de adaptação, sua faculdade de responder às necessidades novas, de soerguer o organismo todas as vezes que está ferido, essa vis medicatrix Naturae que constitui o mistério mais profundo do organismo vivo. O hipnotismo nos mostra essa vis medicatrix sob um aspecto definido e acessível ao controle. Mostra-nos nesta Natureza que no caso particular é o eu subliminar do auto-sugestionado, uma inteligência que, longe de ser vaga e impessoal, mostra, ao contrário, certas semelhanças, achando-se em determinadas relações diretas com a que reconhecemos como a nossa.

Em resumo, temos aqui uma notável representação da inteligência e do poder subliminar. Já se falou bastante em nossa inteligência subliminar para mostrar que estas ordens terapêuticas complexas não poderiam ser compreendidas de outra maneira; mas de onde vem a energia necessária a uma resposta eficaz?

A palavra energia se presta, é certo, a uma objeção imediata. Pode-se dizer, em particular, que não se trata de um verdadeiro acúmulo de energia, antes de uma simples transformação num novo modo de atividade, de uma energia produzida pela simples nutrição material. Assim, a oração não empregaria mais energia do que a blasfêmia, uma teoria filosófica mais do que o capricho de um maníaco. É evidente, com efeito, que a rapidez do metabolismo orgânico não varia em proporção ao valor dos resultados obtidos. Com efeito, o pensamento anárquico e desordenado do maníaco implica, provavelmente, numa maior destruição de tecidos que o pensamento tranqüilo do filósofo. Mas essas simples modificações químicas estão longe de constituir o que chamamos energia. O que desejo é uma integração da personalidade, uma concentração intelectual, moral e espiritual. Essa concentração só pode ser mantida dificilmente; sinto que necessito para isso, mesmo nos seus graus inferiores, de um esforço especial que chamamos atenção, e tenho razões para crer que existem graus infinitamente superiores que não podem ser alcançados com qualquer esforço da vontade. Ninguém está em condições de dizer-nos a que categoria de forças pertence a energia desse esforço vital e enquanto essa energia não fique reduzida às forças mais conhecidas, creio-me autorizado a formular a hipótese que a considera como energia sui generis, a procurar indícios de sua origem e fazer uma idéia da sua possível extensão.62 Assim, para mim, todo homem é essencialmente espírito encarregado do controle de um organismo composto de vidas inferiores e mais estreitas. O controle exercido pelo espírito não é uniforme em todos os organismos nem em todas as fases da vida orgânica. No estado de vigília, nada mais controla do que o centro das idéias e os sentimentos supraliminares, pouco ocupando-se dos centros menos profundos que foram educados tendo em vista um funcionamento contínuo, suficiente para responder às necessidades comuns. Mas, nos estados subliminares, onde os processos supraliminares se encontram inibidos, os centros orgânicos inferiores estão submetidos de forma mais direta ao controle do espírito. À medida que nos aproximamos das partes mais profundas do ser humano, cada vez mais nos aproximamos das fontes da vitalidade humana. Chega-se assim a uma região na qual a obediência aos estímulos espirituais é muito maior do que a manifestada pelas camadas superficiais, do que as necessidades exteriores plasmaram e fixaram tendo em vista uma adaptação determinada ao meio terrestre.

A última lição da sugestão hipnótica, sobretudo no estado de sonambulismo, consiste em mostrar-nos que podemos alcançar por artifícios empíricos estas camadas de maior plasticidade – plasticidade relacionada às forças internas, não externas – em que o espírito exerce sobre o organismo um controle mais imediato atuando sobre ele com maior liberdade.



Este conceito parece lançar alguma luz sobre um fato freqüentemente observado, mas que espera ainda sua explicação. O estado de sonambulismo parece, com efeito, implicar duas faculdades completamente diversas, a faculdade autocurativa e a faculdade telestésica, isto é, um restabelecimento corporal mais completo e uma atividade espiritual mais independente. Torna-se assim o espírito mais capacitado a atrair a energia metaetérea para o organismo, ou a trabalhar independentemente do organismo. Os casos de “clarividência migratória” produziram-se, com efeito, durante o estado de sonambulismo provocado com um fim de cura. Sinto-me levado a crer que o espírito pode, nestes casos, ou modificar mais facilmente o corpo, ou abandoná-lo em parte, para em seguida voltar a ele. Noutros termos, pode, durante um certo tempo, ou manifestar a respeito do corpo uma maior atenção, o que lhe causa um certo benefício, ou desviar sua atenção do corpo sem que este por isso sofra. Empreguei a palavra atenção porque, tendo em vista a impossibilidade de imaginar o modo pelo qual um espírito pode exercer controle sobre o organismo, o termo mais apropriado me pareceu aquele pelo qual designamos nossas próprias tentativas de concentrar nossa personalidade. Podemos dizer que a alma mantém o corpo com vida graças aos cuidados que lhe dispensa, e que vigia as operações centrais mais diretamente que as superficiais, as atividades que se manifestam durante o sono mais diretamente que as que caracterizam a vigília. Nos estados profundos pode distrair em parte sua atenção do organismo para encaminhá-la a outro lugar, sendo capaz de, instantaneamente, voltar à sua atitude comum a respeito do organismo. A morte corporal se produz quando a atenção da alma se afasta completa e irremediavelmente do organismo que, por causas físicas, tornou-se incapaz de incorporar-se à direção do espírito. A vida significa o manter essa atenção e este manter é resultado da absorção pela alma da energia que comporta o mundo espiritual ou metaetéreo. Porque se nossos espíritos individuais vivem graças a essa energia espiritual que forma a base da energia química, em virtude da qual se realizam as mudanças orgânicas, é verossímil que devemos renovar a energia espiritual de uma forma tão contínua como a energia química. Para manter o nível da energia química, temos necessidade de calor e de alimentação; igualmente, para manter o nível da energia espiritual, temos que viver no meio espiritual e absorver de vez em quando as emanações que nos chegam da vida espiritual. Se isto é assim, muitas das experiências subjetivas dos poetas, filósofos, místicos e santos encerram realmente uma verdade mais profunda da que geralmente se supõe. Se é verdade o pressentimento que têm de uma vida que lhes chega de fonte desconhecida, se as cintilações subliminares que os iluminam e os renovam vêm, na realidade, de algum meio situado mais além da abóbada celeste, a mesma influência deve, por analogia, manifestar-se em toda a gama dos fenômenos psicofísicos, não só no domínio das emoções espirituais superiores, mas sempre que nos elevemos por sobre a vida orgânica rudimentar. A vida nascente de cada um de nós é, talvez, um fragmento que acaba de se separar da energia cósmica e a vida contínua é representada por esse fragmento em estado de variação contínua. Nessa energia circunstante (chame-se como se lhe aprouver) vivemos, caminhamos e existimos; e é possível que certas disposições do espírito, certas fases da personalidade, sejam capazes de, durante um certo tempo, ligar-se a uma corrente vivificadora mais completa dessa energia. Esta hipótese reconciliaria todas as opiniões, tanto as espiritualistas como as materialistas, que atribuem a certas direções da atenção e da vontade determinados efeitos práticos sobre o organismo humano. “A oração inspirada na fé salva os enfermos”, diz São João. “No hipnotismo só existe a sugestão”, diz Bernheim. Na minha linguagem mais grosseira estas duas proposições (fazendo abstração do elemento telepático que podem encerrar as palavras de São João) podem ser expressas em termos semelhantes: “Haverá auto-sugestão terapêutica ou moral, sempre que, por meio de um artifício qualquer, a atenção subliminar dirigida sobre uma função corporal, ou sobre um fim moral, haja alcançado um grau de intensidade suficiente para poder tomar energia do mundo metaetéreo”.

Não pretendo ter esclarecido completamente o mistério desse fenômeno, que em conjunto constitui a sugestão. Como meus predecessores, não estou em condições de explicar por que certos organismos se tornam em determinados momentos tão superiores a si mesmos e capazes de uma revolta tão vigorosa, de uma submissão a um controle tão profundo. Mas formulei um ponto de vista que permite fazer com que se entre nesse mistério, num mistério mais vasto, o do fim universal, e creio ter estabelecido uma relação mais verdadeira do que a que devemos à escola de Nancy entre a sugestão de um lado e a persuasão externa e a vontade interna de outro. A escola de Nancy fala da sugestão como se fosse comparável à persuasão supraliminar, a um esforço supraliminar. Tratei de mostrar que sua eficácia real depende de processos subliminares; nada mais é que um meio empírico destinado a facilitar a absorção de energia espiritual e a aquisição de forças-guias, tomadas a um meio situado mais além da abóbada celeste.63




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