Fredrich W. H. Myers a personalidade Humana



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III
O gênio


O dogma da perfectibilidade humana engendrou muito entusiasmo e sugeriu numerosos projetos de sociedades utópicas que postulavam, para os homens e as mulheres do futuro, um acréscimo indefinido de saúde e de vigor físico e moral. É verdade que, de uma forma geral, a seleção natural, a seleção sexual e os progressos da Ciência contribuíram em muito para aperfeiçoamentos desse gênero. Mas é também verdade que essas tendências, em comparação com os nossos desejos e aspirações, são lentas e incertas, e poderemos supor que o progresso aparente de nossa espécie seja um produto da melhora de nosso meio material através das nossas conquistas científicas e não um aperfeiçoamento real do caráter e das faculdades do homem durante o decorrer do período histórico.

Mas como não temos nenhuma possibilidade de saber até que ponto chega, para uma espécie determinada, a virtualidade interna do aperfeiçoamento, os pessimistas poderiam afirmar, com alguma aparência de razão, que a espécie humana já atingiu o limite de sua evolução. É possível a domesticação de algumas espécies de animais selvagens (e talvez de algumas tribos de homens selvagens) sem deter ao mesmo tempo a sua potência de reprodução. Também naqueles animais que são mais fáceis de domesticar e que se prestam mais à mestiçagem com variedades já domesticadas, como a pomba, é impossível levar o desenvolvimento de certos órgãos para além de certos limites, sem determinar uma fragilidade de constituição que provocará, mais tarde, a extinção da espécie. Certas conhecidas diatribes foram inspiradas por temores desse gênero. Max Nordau, por exemplo, escreveu uma obra para protestar contra a estafa e o esgotamento nervoso de nossa época. Reduzindo essa vaga discussão a exemplos concretos, Lombroso e outros antropólogos analisaram o homem de gênio e chegaram à conclusão de que o gênio não representa o ponto mais alto da espécie, sendo apenas, pelo contrário, uma manifestação anormal, uma aberração semelhante à do criminoso ou do psicopata; que os homens de gênio sofrem falta de equilíbrio e apresentam uma organização incompleta, com desenvolvimento exagerado de uma parte de sua natureza que, dependendo da ocasião, pode ser útil ou daninha para os outros.

Para mim o gênio é, pelo contrário, uma potência que permite, aos que o possuem, utilizar em medida maior que o resto dos mortais suas faculdades inatas e submeter os resultados do processo mental subliminar à corrente supraliminar do pensamento. A inspiração genial é, para mim, apenas um aparecimento, no domínio das idéias conscientes, de outras idéias em cuja elaboração a consciência não participou, mas que se formaram sozinhas, isto é, independentemente da vontade, nas regiões profundas de nosso ser. Não há ali nenhum desvio do estado normal, ou pelo menos nenhuma anomalia, nenhuma expressão de degenerescência, mas um aperfeiçoamento do estado normal, um estado supranormal, uma fase nova, superior, que se manifesta no decurso da evolução.

Não se pense, por isso, que estou afirmando a superioridade intrínseca do subliminar sobre o supraliminar; o que eu quero dizer é que o homem de gênio constitui o tipo acabado do homem normal pela sua possibilidade de utilizar mais elementos de sua personalidade do que as pessoas comuns. A distinção entre o subliminar e o supraliminar é, portanto, puramente psicológica e visa à descoberta das relações existentes entre duas categorias de percepções e de faculdades humanas. Acreditamos apenas que o que se processa por baixo do limiar da consciência e fora dos limites da porção de nosso campo de consciência adaptado às necessidades da vida ordinária é, ao mesmo tempo, mais extenso e complexo do que aquilo que se contém nos referidos limites. Achamos em um dos extremos da escala subliminar os sonhos, um produto subliminar normal, porém menos útil do que qualquer produto supraliminar; na outra extremidade achamos os conhecimentos mais raros e preciosos que nos proporcionam a telepatia, a telestesia, o êxtase. Entre esses dois pontos extremos encontramos uma multidão de produtos intermediários cuja origem é a mesma, mas de importância eminentemente variável.26

Hoje distinguimos, na região supraliminar, os centros superiores que presidem aos nossos pensamentos mais complexos e à nossa vontade, os centros intermediários, cuja atividade determina o movimento dos músculos voluntários, e finalmente os centros inferiores (que, na minha opinião, são puramente subliminares), dos quais dependem nossas funções automáticas, como a respiração e a circulação, que se realizam fora da consciência, mas que são indispensáveis à vida. É relativamente fácil saber se certo ato foi determinado pelos centros superiores ou se foi realizado fora do controle destes centros, devido apenas à atividade dos centros intermediários.

Assim sendo, a palavra e a escrita ordinárias dependem dos centros superiores. Mas quando esses centros ficam esgotados em conseqüência de uma descarga epiléptica de energia nervosa, os centros intermediários funcionam sem controle e determinam os movimentos convulsivos dos braços e das pernas, característicos do ataque. E quando também os centros intermediários ficam esgotados, os centros inferiores funcionam sozinhos e o doente entra em estado de coma, embora continue respirando regularmente.

No domínio subliminar assistimos a uma subdivisão semelhante. Parece-nos, realmente, que nossas percepções e faculdades subliminares convergem para um único fim, que formam um verdadeiro eu coordenado em alguma harmoniosa inspiração genial ou em alguma transformação profunda e razoável, como o sono hipnótico ou na realização paranormal de alguma visão clarividente, ou, finalmente, em uma projeção de toda a personalidade num mundo espiritual. Os elementos subliminares que entram em jogo nos casos deste gênero correspondem aos centros superiores da vida supraliminar.

Mas esse grau de clareza e de coesão não pode durar muito tempo. As faculdades e percepções subliminares agem, freqüentemente, de maneira menos coerente e coordenada. Na maioria dos casos nos encontramos na presença de produtos que, embora apresentando indícios de uma faculdade fora do nosso alcance, não parecem menos acidentais e irracionais do que as convulsões dos braços e das pernas nos ataques epilépticos. Trata-se da série de fenômenos que designamos pelo nome de sonhos e que podemos considerar dependentes dos centros intermediários do eu subliminar. Quando esses centros intermediários subliminares, que escapam ao controle dos centros superiores, manifestam sua atividade no homem de gênio, já não provocam o surgimento da obra-prima, mas de uma obra estranha, atormentada. Não a Madona Sixtina, mas a visão da cabeça guilhotinada de Wiertz. Avançando mais ainda, chegaremos a esses estados hipnóticos em que as pessoas aspiram deleitadas o cheiro do amoníaco e comem com prazer velas de sebo, ou aos movimentos automáticos confusos e incoerentes que são atribuídos à inspiração do diabo, e assim até que os centros intermediários ficam também esgotados e são visíveis apenas as manifestações psíquicas ainda compatíveis com a circulação cerebral, como no ataque de epilepsia, quando a falta de coordenação dos movimentos das pernas provoca, com o esgotamento dos centros intermediários, a respiração estertorosa do estado de coma.

É esse o paralelismo aparente que existe entre nossa região supraliminar e a região subliminar. Nós homens, clausi tenebris et carcere caeco, podemos alargar ou limitar nossa visão da realidade das coisas. Na mania e na epilepsia perdemos o controle dos centros supraliminares superiores, dos quais depende a nossa vida racional terrestre. Mas no automatismo, no êxtase ou nos estados semelhantes desviamos para nossa vida supraliminar uma parte da corrente subliminar. Quando os centros subliminares que influem em nosso estado de vigília pertencem ao nível intermediário, fazem nascer em nós apenas o erro e a confusão; quando, inversamente, eles fazem parte do nível superior, são capazes de revelar-nos verdades insuspeitas.

A obra em cuja elaboração participam esses elementos subliminares constitui precisamente o que se chama obra genial. Essa obra deve preencher duas condições. Deve implicar qualquer coisa de original, de espontâneo, não aprendido, inesperado, e deve despertar também a admiração da Humanidade. Mas, psicologicamente falando, enquanto a primeira dessas duas condições supõe um fato real, a segunda é puramente acidental. O que o poeta sente ao escrever um poema constitui um fato psicológico de sua história; o que seus amigos sentem lendo o mesmo poema pode constituir um fato psicológico da história deles. Mas isso não altera absolutamente o esforço criador do poeta, que continua sendo o que foi, embora ninguém, excluindo ele, tenha lido o seu poema.

Repito: como psicólogos, devemos basear nossa definição do gênio em um critério estritamente psicológico e não nos sinais exteriores que nos guiam como artistas ou literatos e que apenas exprimem o grau de prazer que nos proporciona uma outra obra. O artista falará do gênio artístico de Rafael, não o de Haydn, do gênio dramático de Corneille, não do de Voltaire. Mas a autobiografia de Haydn, de uma intensidade trágica que acabou no suicídio, mostra que as figuras contorcidas de sua Ressurreição de Lázaro lhe apareceram com o intenso sentimento de uma inspiração direta. Voltaire, em certa oportunidade, escrevia ao presidente Henault 27 sobre a sua ilegível tragédia Catilina.

Seria completamente absurdo classificar A Ressurreição de Lázaro na mesma categoria artística da Madona Sixtina. Mas essas duas obras pertencem incontestavelmente à mesma categoria psicológica. Não obstante a diferença de gênero, os dois pintores experimentaram o mesmo processo interior, a mesma invasão de seu ser por uma corrente subliminar, essa concentração mental que atrai à consciência imediata produtos e elementos ocultos até então no fundo do eu.

Falamos até aqui de faculdades paranormais. Antes de começar a análise não seria inútil estabelecer o sentido exato das palavras norma e normal aplicadas ao homem.

Na linguagem comum a palavra normal significa duas coisas, freqüentemente bem diferenciadas; conformidade com um modelo, posição intermediária entre dois extremos. Com freqüência esta posição intermediária constitui precisamente a conformidade com seu modelo, como quando se diz que um gás apresenta uma densidade normal. Mas quando se trata de organismos vivos, entra em jogo um novo fator. Vida significa mudança; todo organismo vivo muda; cada geração é diferente da anterior. Atribuir uma norma fixa a uma espécie que está em estado de constante mudança é como atirar num pássaro voando. Em nenhum momento o estado intermediário corresponde ao modelo ideal. A última fase da evolução atualmente realizada terá a tendência, se o meio permanecer estável, de converter-se no estado intermediário do futuro.

A evolução humana não é tão simples nem tão aparente quanto a evolução de uma espécie de pombas. Mas seria ousado afirmar que ela não é mais rápida do que a que sofrem os animais domésticos. Apenas cem gerações nos separam do começo da História; cem gerações separam também o vencedor moderno do Derby do corcel de Gustavo Adolfo; e certas espécies de micróbios atravessam em apenas um mês o mesmo número de gerações. Do ponto de vista físico, as mudanças sofridas pelo homem são menos acentuadas que as sofridas pelo cavalo, provavelmente porque o homem não foi educado para o mesmo fim, nem com as mesmas intenções; mas, levando em conta o poder de adaptação ao meio, o homem descreveu nesses trinta séculos uma curva de evolução infinitamente mais vasta do que qualquer espécie cavalar desde o hippos. Se formos até às origens primitivas, vemos que os antepassados do homem variaram muito mais do que os dos animais, pois percorreram no mesmo lapso de tempo um trajeto muito mais longo. Variaram ainda em direções mais numerosas e integraram em maior número as infinitas faculdades que se achavam latentes em um punhado de matéria.

Entre todas as criaturas, foi o homem que fez os maiores progressos, tanto do ponto de vista da diferenciação quanto da integração; depois de haver ativado o maior número de faculdades que o gérmen primitivo virtualmente encerrava, estabeleceu sobre elas um domínio central dos mais severos. O processo continua sempre. Essa evolução só pode continuar no sentido de uma extensão e uma intensidade maiores. E eu afirmo que o homem de gênio é quem está mais perto desse ideal.

Sabemos que o espectro solar não apresenta apenas uma banda contínua de luz colorida. Ele encerra também algumas linhas escuras, mais numerosas, nos espectros das outras estrelas. O mesmo acontece no espectro da consciência humana, cuja claridade está interrompida por linhas opacas e escuras, sendo que até nos melhores exemplares de nossa espécie sua claridade é opaca e desigual.

O que caracteriza o gênio é que nele os elementos subliminares aumentam a intensidade do espectro da consciência e projetam um pouco de luz sobre suas partes obscuras. Mas é possível, ao mesmo tempo, colocar na mesma categoria do gênio certos automatismos motores e sensoriais que, à primeira vista, parecem não estar relacionados com ele. O gênio representa uma seleção restrita entre uma multidão de outros fenômenos semelhantes, dentre os numerosos elementos subliminares que emergem nos limites do espectro da consciência ou fora de tais limites.

Examinaremos mais tarde os casos de automatismo motor e sensorial e veremos que não existe uma percepção que não seja capaz de emergir das capas inferiores da consciência, sob uma forma muito intensificada, com a mesma rapidez de impressão e de ação que as inspirações mais altas do gênio. Veremos, por exemplo, que o homem pode ter uma inspiração como a que teve Virgílio, da segunda metade de um hexâmetro difícil.

Ao fim de algum tempo o público das grandes cidades teve freqüentemente ocasião de se divertir e de ser surpreendido pelo que se chama de jovens calculadores, os prodígios aritméticos, jovens geralmente capazes de resolver mentalmente e quase instantaneamente problemas que a maior parte de nós teria que resolver com o lápis na mão e durante um tempo muito maior, sem estar sempre seguros de acertar.

A vantagem especial que apresenta o estudo desses prodígios é que neles a impressão subjetiva coincide quase exatamente com o resultado objetivo. O calculador subliminar sente que o resultado é exato, e com efeito o é, o que nem sempre sucede com as verdadeiras inspirações do gênio.

Um psicólogo americano e um francês 28 reuniram algumas explicações dadas por esses prodígios no seu método de trabalho. Mas o resultado foi muito pequeno, ainda que os dados que possuímos bastem para demonstrar que, na realidade, o trabalho havia começado por ser subliminar e o esforço consciente ou supraliminar está completo e absolutamente ausente ou não entrava em jogo, até que a capacidade em questão houvesse sofrido um prolongado exercício, até o ponto de facilitar as comunicações entre as duas camadas. O prodígio, ao chegar à idade adulta e ao reconhecer os artifícios aritméticos a que recorrera inconscientemente quando jovem, assemelha-se a um sujeito hipnotizável exercitado através da sugestão para lembrar durante a vigília os acontecimentos que tiveram lugar durante o sono hipnótico.

Sob todos os pontos de vista é possível a comparação: achamos que o dom de cálculo se parece às outras manifestações da faculdade subliminar, mais que os resultados de um esforço francamente supraliminar como a faculdade de análise lógica. Em primeiro lugar, essa capacidade, apesar de seu aparente relacionamento com a aptidão genérica pelas matemáticas, observa-se indiferentemente, quer entre as pessoas que não possuem dotes matemáticos e que, inclusive, não são inteligentes, quer entre os verdadeiros matemáticos. Em segundo lugar, manifesta-se com maior intensidade durante a infância e com os anos atenua-se, até desaparecer totalmente, assemelhando-se nisto à capacidade visionária em geral, à de evocar as visões alucinatórias em particular, cujas faculdades, de acordo com os resultados de Galton e os nossos, são mais freqüentes durante a infância e a juventude do que na idade adulta. Devemos ainda notar que quando o dom de cálculo desaparece logo, é capaz de não deixar qualquer vestígio na memória do sujeito. E mesmo quando, após ter persistido durante muito tempo num espírito capaz de reflexão, esse dom acaba por ser (digamos assim) adotado pela consciência supraliminar, é ainda suscetível de se manifestar através de verdadeiros relâmpagos de inspiração, quando a resposta se apresenta à mente sem qualquer percepção dos estados intermediários.

Reforçando as proposições que acabamos de expor, apresentamos o seguinte quadro, publicado por Scripture:




Nomes

Idade, em anos, em que se manifestou pela 1ª vez o dom

Duração

Inteligência

Ampère

4

?

Brilhante

Bidder

10

Toda a vida

Boa

Buxton

?

?

Medíocre

Colburn

6

Toda a vida

Mediana

Dase (ou Dahse)

Infância

Alguns anos

Muito medíocre

Fuller



?

Medíocre

Gauss

3

?

Brilhante

Mangiamele

10

Alguns anos

Mediana

Mondeux

10

Idem

Medíocre

Prolongeau

6

Idem

Medíocre

Safford

6

Idem

Boa

M. Van R., d’Útica

3

Idem

Mediana

Whately

8

Idem

Boa

No quadro acima, de treze nomes, temos dois homens de inteligência transcendente e outros três dotados de aptidões superiores.

Sobre o dom de Gauss e de Ampère possuímos alguns xistes encantadores. Após ter-se manifestado numa idade em que não poderia, ainda, ser questão de esforço mental supraliminar, parece ter desaparecido logo na corrente geral de seu gênio. No caso de Bidder, o dom persistiu durante toda a via, mas debilitando-se com a idade. Num ensaio publicado no volume XV dos Proceedings of the Institute of Civil Engineers, ele dá aos calculadores certos conselhos práticos e demonstra que as operações de cálculo mental só são possíveis graças a uma singular facilidade de comunicação entre as diversas camadas mentais.

“Sempre – explicou – que me convidavam a recorrer às reservas de meu espírito, estas pareciam vir à tona com a rapidez de um relâmpago”. E no volume CIII da mesma coleção, W. Pole, ao descrever a forma pela qual Bidder podia determinar o logaritmo de um número, composto de 7 a 8 algarismos, descreve: “Possuía uma capacidade quase milagrosa de encontrar, por assim dizer, intuitivamente, os fatores cuja multiplicação dava um número tão avantajado. Assim é que, no número 17.861, achava instantaneamente ser o resultado da multiplicação de 337 por 53... Não sabia, segundo declarava, explicar como o fazia: era nele um instinto quase natural”.

No que diz respeito ao Arcebispo Whately, recorro a Scripture, que nos informa o seguinte:

“Minha capacidade de cálculo apresentava certa particularidade. Manifestou-se entre os 5 e 6 anos e continuou por 3 anos. Fazia mentalmente as mais complicadas somas e com maior rapidez do que aqueles que as faziam no papel. E nunca foi provado qualquer erro nas minhas operações. À idade em que comecei a ir à escola minha capacidade de calcular desaparecera e desde então fiquei deveras deficiente em matemáticas.”

O caso do Professor Safford é ainda mais notável. Possuidor de verdadeira aptidão para a Matemática, atualmente professor de Astronomia, é capaz, como qualquer um, de cálculo mental, enquanto que aos 10 anos fazia de memória, e sem errar nunca, multiplicações cujo resultado era composto de 36 algarismos.

“Van R..., de Útica – diz Scripture, de acordo com informações de Gall –, apresentava, aos 6 anos, uma extraordinária capacidade de cálculo mental, que desapareceu completamente passados 2 anos. Não tinha a menor noção sobre a maneira pela qual realizava suas operações mentais.”

Entre os prodígios inteligentes, ou que não receberam qualquer instrução, somente Dase parece ter conservado sua capacidade durante toda a vida. Colburn e Mondeux, e talvez Prolongeau e Mangiamele, perderam-na uma vez saídos da infância.

Ainda que não tenhamos qualquer dado sobre a forma pela qual os prodígios desta última categoria executavam suas operações mentais, temos razões para supor que a separação entre a corrente supraliminar e a camada subliminar do pensamento devia ser perfeita. Buxton resolvia seus problemas enquanto falava sobre assuntos totalmente estranhos à questão de que se ocupava. A focalização e a clareza da visão interna parecem, com efeito, constituir as únicas condições necessárias ao funcionamento dessa capacidade, e o controle supraliminar nada mais é que uma condição totalmente acessória.

Em determinados casos a atividade subliminar mostra-se deveras intensa e engenhosa. Assim, Mangiamele, filho de pastor siciliano, que não recebera qualquer instrução, aos 10 anos e 4 meses foi apresentado por Arago à Academia de Ciências, encontrando em menos de um minuto a raiz cúbica do número 3.496.416, e em tempo equivalente o resultado das duas equações:

x² + 5x² – 42x – 40 = 0 e x5 – 4x – 16.799 = 0

No que diz respeito à constituição física e ao estado orgânico dos prodígios citados, sabemos só que Colburn possuía dedos supernumerários e que Mondeux era histérico. Quanto aos demais, parecem ter permanecido imunes a qualquer tara física ou nervosa. Nada nos autoriza a considerar a existência dessa capacidade subliminar como um sinal de dissociação dos elementos psíquicos. Essa existência de uma capacidade subliminar superposta à atividade supraliminar não poderia ser considerada como um sinal de integração, característico de uma individualidade mais completa, e não seria devida ao funcionamento inusitado do hemisfério cerebral direito, geralmente pouco ou quase inativo? Nestes casos os indivíduos dotados da capacidade para o cálculo mental deveriam apresentar-se ambidestros. Mas das informações recolhidas por nós sobre isto resulta que só dois deles demonstravam uma capacidade destrocerebral um pouco mais pronunciada do que entre o comum dos homens.29

Antes de estudar o papel que corresponde à atividade subliminar no funcionamento de nossos sentidos altamente diferenciados da vista e do ouvido, vejamos até que ponto as percepções menos diferenciadas, aparecidas no transcurso do tempo pela sensação do peso ou pela resistência muscular, são suscetíveis de sofrer uma intensificação da atividade subliminar. As sensações desta categoria constituem os elementos mais profundos de nossa existência orgânica e o sentido do tempo, em particular, apresenta-se em muitos lugares como uma faculdade eminentemente subliminar. Possuímos muitos testemunhos demonstrando que esse sentido é muito mais exato durante o sono do que durante a vigília nos sujeitos hipnotizados, do que durante o sono normal. As observações de sonambulismo espontâneo estão repletas de fatos em que as ordens dadas pelo sujeito a si mesmo foram executadas, talvez em virtude da auto-sugestão, na hora precisa, fixada de antemão, sem auxílio de relógio. Esse conhecimento oculto pode, inclusive, tomar a forma de uma imagem de sonho, como no caso publicado pelo professor Roger, de Harvard, no qual um sujeito vira em sonhos um enorme relógio brilhante, cujos ponteiros marcavam as 2:20 e que, ao despertar, logo a seguir, constatou que eram, de fato, 2:20.

Passando às produções subliminares de tipo visual, apraz-me poder citar a seguinte passagem, onde encontro uma confirmação de minha teoria, da lavra de um dos mais lúcidos pensadores da geração precedente. Esta passagem é citada de um artigo sobre a Visão Sensorial, publicado por Sir Herschel no seu Familiar Lectures on Scientific Subjects (1816). Sir John descreve algumas experiências pessoais que “consistiam na produção involuntária de impressões visuais cuja regularidade geométrica constituía o caráter principal em circunstâncias que tornavam absolutamente inútil qualquer explicação tirada da possível regularidade da estrutura da retina e dos nervos ópticos. Duas vezes essas figuras apareceram no estado de vigília, em pleno dia, sem que sua aparição tenha sido seguida pela menor indisposição. Freqüentemente apresentavam-se na semi-obscuridade, mas sempre durante a vigília. Da mesma forma apresentaram-se duas vezes também, quando o paciente estava sob os efeitos do clorofórmio, mas – diz – tinha a consciência de estar acordado e na plena posse de meu espírito, ainda que totalmente insensível ao que se passava. Qual era a natureza desses espectros geométricos, como e em que parte do organismo corpóreo ou mental nasceram? Na certa, não se tratava de sonhos. O espírito, longe de adormecer, estava ativo e consciente na direção de seus pensamentos; mas as figuras em causa impunham-se à sua atenção e arrastavam a corrente das idéias numa direção que ela não tomara sozinha. Se é verdade que o conceito de uma figura geométrica regular implica o exercício do pensamento e da inteligência, pareceria, no caso que cito, que alguém se encontra quase na presença de um pensamento, de uma inteligência que funciona em nós, mas é diferente da nossa personalidade.” E Sir John expõe a opinião de que essas figuras complexas, que invadem o espírito desta forma arbitrária e aparente, lançam alguma luz sobre o princípio sugestivo que

atua de maneira determinante e decisiva sobre a nossa vontade, quando esta passa à ação. É, a meu ver, sumamente interessante considerar os casos em que, num fato tão abstrato, tão desprovido de qualquer elemento moral ou emocional, como a produção de figuras geométricas, possamos captar esse princípio em seu pleno desenvolvimento.

Na minha maneira pessoal de encarar, não posso deixar de admirar a sagacidade de que dá mostras o grande pensador, apesar do número escasso de observações de que dispunha. Não parece ter captado as relações existentes entre essas alucinações esquemáticas, para usar a expressão do Prof. Ladd,30 e as figuras ilusórias de homens ou de animais que enxergamos, quer no gozo de perfeita saúde, quer durante a doença. Mas a sua conclusão me parece irrefutável: “Achamo-nos na presença de um pensamento, de uma inteligência que funciona em nós, mas é diferente da nossa personalidade.”

Considero-o, com prazer, como o primeiro partidário da teoria que sustento, independentemente, baseando-me em fatos e observações infinitamente mais numerosos.

Um jovem médico francês consignou num livro os resultados de uma pesquisa direta, com diversos de seus ilustres compatriotas, sobre os seus métodos de trabalho mental.31 Citarei algumas das respostas que recebeu, iniciando pela de Sully-Prudhomme, psicólogo e poeta, que fala da clareza subconsciente de uma cadeia de raciocínios abstratos:

“Às vezes aconteceu-me captar subitamente uma demonstração geométrica que me apresentaram um ano antes, e isto sem o menor esforço de atenção. Dir-se-ia que os conceitos arraigados no espírito por minhas leituras amadureceram espontaneamente, fazendo nascer, da mesma forma, as provas eficazes a seu favor.”

Pode-se antepor a essa resposta o aforisma seguinte, de Arago:

“Ao invés de insistir na compreensão imediata de uma proposição, admito, provisoriamente, que é verdadeira; no dia seguinte espanto-me ao compreender perfeitamente o que no dia anterior me parecera obscuro.”

Condilac conta também que muitas vezes acordou com uma obra já elaborada em sua mente e que não existia na noite anterior.

Ratté,32 poeta, conta por sua vez ao Dr. Chabaneix que freqüentemente adormecia com uma estrofe por terminar e no dia seguinte a encontrava terminada.

E Vincent d’Indy, compositor, diz que com freqüência percebia, durante a vigília, o brilho efêmero de um efeito musical que, como a lembrança de um sonho, só pode ser retido através de absoluta e imediata concentração do espírito.

Alfred de Musset escreve: “Não se trabalha, escuta-se, é como se um desconhecido falasse ao ouvido.”

Remy de Gourmont: “Meus conceitos invadem-me a consciência com a rapidez de um relâmpago ou o vôo de um pássaro.”

Lamartine diz: “Não sou eu quem pensa, são minhas idéias que pensam por mim.”

M. S. escreve: “Ao escrever esses dramas, parecia assistir como espectador à sua representação; olhava o que se passava em cena com a espera impaciente do que se seguiria. E ao mesmo tempo sentia que tudo isso vinha do âmago de meu ser.”

Saint-Saëns só tinha de escutar, como Sócrates escutava o seu demônio.33

E Ribot, resumindo determinado número de casos semelhantes, diz:

“O inconsciente é o produtor do que vulgarmente se chama inspiração. Esse estado é um fato positivo que apresenta caracteres físicos e psíquicos próprios. Antes de tudo, é pessoal e involuntário, age como um instinto, quando e como quer. Pode ser solicitado, mas não suporta pressões. Nem a reflexão, nem a vontade podem substituí-lo na criação original... Os hábitos estranhos que os artistas adquirem, no momento em que compõem a sós, tendem a criar um estado psicológico especial, a aumentar a circulação do cérebro de forma a provocar ou manter a atividade inconsciente.”

Desconhecemos as modificações que se produzem na circulação do cérebro. Mas diversas conclusões de ordem psicológica parecem advir dos fatos que acabamos de citar. Em primeiro lugar deve-se notar que uma submersão pouco profunda e de curta duração, sob o limiar da consciência, é suficiente para transmitir novo vigor à corrente supraliminar do pensamento. As idéias que amadurecem, sem que nos ocupemos delas, durante alguns dias ou durante uma noite, não descem demasiadamente sob a consciência. Representam, por assim dizer, a primeira fase do processo que, se bem com freqüência invisível, não é por isso contínuo, isto é, a manutenção da vida supraliminar se faz por meio de impulsos que vêm de baixo. Em segundo lugar, temos em alguns desses casos de abstração profunda e fértil um início de desdobramento da personalidade.34 John Stuart Mill, que compunha capítulos inteiros da sua Lógica, enquanto empurravam-no nas filas de Leadenhall Street, faz pensar em determinados casos mórbidos de distração histérica, com a diferença de que no caso dele o processo era de integração ao invés de dissolução, resumindo-se não por uma diminuição, mas por um aumento de poder de seu organismo.



Vemos finalmente, em alguns casos dos quais nos ocupamos, que o homem de gênio chega espontaneamente a resultados semelhantes aos que o sujeito hipnotizado só chega através de artifícios apropriados. E isso porque o gênio coordena, com efeito, na sua existência, os estados de vigília e sono. Traz ao sono seus conhecimentos e intenções das horas de vigília e reintroduz no estado de vigília o benefício dessas assimilações profundas que se realizam durante o sono. A sugestão hipnótica mostra precisamente essa cooperação entre o estado de vigília, durante o qual a sugestão proporciona, por exemplo, o projeto de alguma modificação funcional, e o sono, durante o qual se produz a transformação cujo benefício se estende durante o estado subseqüente de vigília. O estado hipnótico, que é um sono desenvolvido, realiza para o homem comum o que o sono realiza para o homem de gênio.35

Por imperfeitas e incompletas que sejam a estatística e as observações que acabamos de citar, parecem encaminhar-nos para uma direção mais racional do que a que nos indicam os fatos reunidos por esse grupo de antropólogos modernos que consideram o gênio como uma espécie de doença nervosa, como uma perturbação do equilíbrio mental semelhante à que se observa entre os loucos e criminosos.

Não é correto que a raça humana tenda, de modo geral, à degeneração nervosa, nem que essa degeneração alcance o auge entre seus representantes mais eminentes. Sem dúvida, pode-se reconhecer, com alguma aparência de razão, que a proporção de perturbações nervosas tende a aumentar em relação a outras, mas esse aumento, longe de constituir o sintoma de uma degeneração nervosa, é antes devido a que as modificações nervosas e o desenvolvimento nervoso se realizam atualmente entre os povos civilizados com maior rapidez do que anteriormente. Assistimos, com efeito, a uma adaptação a meios cada vez mais amplos e essa adaptação deve inevitavelmente ser acompanhada, nos casos mais marcantes, de determinado estado de instabilidade nervosa.

Até certo ponto essas modificações podem parecer lamentáveis, mas não se deve esquecer que o aumento e o agravamento das perturbações nervosas é apenas relativo, já que outras causas de doenças, como a fome e a sujeira, tendem a diminuir entre os povos civilizados. É provável que os selvagens e os povos primitivos sofram de instabilidade nervosa com igual freqüência, mas não têm inteligência suficiente para se dar conta e preocupar-se com isso. Quanto à minha outra proposição, segundo a qual a evolução nervosa se cumpriria em nossa época com maior rapidez do que anteriormente, vejo a prova disso em todos os atos que exigem uma rápida e precisa adaptação do sistema nervoso. Os recordes atléticos de nossos dias são mais devidos aos nervos do que aos músculos. E o nível de adaptação moderna, para qualquer tipo de trabalhos intelectuais ou manuais, sobe tão rapidamente quanto o grau de perfeição da maquinaria destinada a substituir nossas forças físicas.36



Repito: o desenvolvimento acelerado de nossa capacidade nervosa não pode deixar de dar lugar a um determinado grau de instabilidade nervosa. Mas não podemos esquecer que essa instabilidade nada mais é que uma forma, que uma expressão particular da evolução e que todas as manias, todos os tiques, gostos fantásticos, sensibilidade exagerada e aberrante, que Lombroso notou em grande número de indivíduos célebres, nada mais são do que perturbações passageiras que acompanham o desenvolvimento do organismo humano até a sua plenitude, ou que precederam os derradeiros esforços destinados a apresentar ao mundo um organismo renovado.

É esse o meu ponto de vista. Para torná-lo aceitável, deveria poder mostrar que se depreende logicamente de considerações mais distantes e meramente especulativas referentes à natureza e ao valor de toda a existência e toda a evolução humanas. Possuímos já diversas sínteses desse gênero, entre as quais a síntese materialista aparece como a mais superficial. No nosso profundo desconhecimento das fontes e origens da vida não temos o direito de considerá-la, como os materialistas, um produto planetário destinado a fins igualmente planetários. O biólogo que afirmasse que a vida terrestre só serve para produzir nova vida terrestre assemelhar-se-ia ao geólogo que, antes do surgimento da vida, tivesse afirmado que as forças geológicas constituíam a única fonte de atividade de nosso planeta.

Desde que surgiu o primeiro gérmen de vida sobre a terra, sua história foi não só a de uma adaptação progressiva a um meio conhecido, mas também a de uma descoberta progressiva de um meio desconhecido, ainda que sempre presente. O que chamamos de irritabilidade primitiva simples era, na realidade, uma vaga panestesia, uma faculdade virtual, mas ainda inconsciente de todos os atos aos quais tinha de responder. Com o desenvolvimento dessas faculdades de sensação e de reação revelaram-se gradualmente aos organismos vivos meios até então desconhecidos. Para dar um único exemplo: por acaso a energia elétrica não existiu sempre e não manifestou sempre a sua atividade, mesmo antes que os organismos vivos descobrissem que possuíam a aptidão de reagir a essas atividades? Por que não supor que existem ao redor de nós outros meios, outras energias das quais não suspeitamos e que a qualquer dia chegaremos a descobrir, mas que sem dúvida atuam sobre nós e sobre os outros seres vivos, provocando igualmente reações de nossa parte, das quais não nos damos conta porque não atravessaram ainda o limiar do eu supraliminar? E o que nos impede de admitir que as ações telepáticas ou as influências que os espíritos exercem a distância, sobre outros espíritos, formem parte dessas energias a serem descobertas, mas sem dúvida existentes e sempre ativas? e de admitir que vivemos num meio inconcebível e sem limites, mundo de pensamento ou universo espiritual carregado de vida infinita, que penetra e ultrapassa a todos os espíritos humanos e ao qual uns chamam Alma do mundo e outros Deus?

No momento não me ocuparei dessas faculdades paranormais. O que pretendo demonstrar é que o gênio, longe de poder ser colocado na mesma categoria da loucura e considerado como uma aberração do espírito humano ou como um sinal de degenerescência, constitui antes uma das fases mais avançadas da evolução humana; e que as produções do gênio, a meu ver a filosofia, as artes plásticas, a poesia, as matemáticas puras, que tantos consideram como resultados acessórios, sem qualquer utilidade para a existência material, são outras intuições de verdades novas e de novas forças, inacessíveis ao homem médio que, ao invés da inspiração, só possui esse consenso de capacidades diferenciadas que a natureza elevou sobre o limiar da consciência, tendo em vista os fins da vida cotidiana.



Outra vez: a explicação meramente materialista da evolução é impossível. E é absurda quando supõe como seu objetivo a sobrevivência dos animais mais aptos a vencer os inimigos. Ninguém explica a evolução sem a tácita suposição de que, de alguma maneira, a Natureza tende a criar a inteligência; que o coelho e o micróbio da gripe não constituem seus resultados últimos. Mas sobre a qualidade e a quantidade de inteligência que pode criar, devemos dizer que não se trata do homem sensual mediano, mas dos melhores exemplares de nossa raça. A estes é que devemos perguntar qual é o fim da sua vida: se o seu trabalho tende apenas a proporcionar-lhes o tormento cotidiano ou se é o produto do amor e da sabedoria.

A inspiração genial e o pensamento lógico-consciente formam duas quantidades talvez incomensuráveis. Da mesma forma que o jovem calculador resolve problemas com o auxílio de métodos que diferem dos usados pelos matemáticos, nas produções artísticas esse algo estranho, que comporta “toda a beleza deslumbrante”, pode ser a expressão de uma diferença real entre o mundo da percepção subliminar e o da atividade supraliminar. Parece-me que esta diferença é particularmente sensível no que diz respeito às relações do eu subliminar com a função da linguagem. Ao tratar a linguagem como um ramo da arte ou da poesia, o eu subliminar ultrapassa com freqüência o esforço consciente, e algumas vezes permanece nesse esforço, quando se vê obrigado a usar as palavras como uma forma necessária para exprimir idéias para as quais a linguagem comum não foi criada.

Desse modo, na presença de uma das obras-primas verbais da Humanidade, o Agamenon de Ésquilo, por exemplo, temos a vaga impressão de que uma inteligência diversa da razão supraliminar ou da seleção consciente contribuiu para a elaboração desta tragédia. O resultado, mais do que a perfeição de uma escolha racional entre dados conhecidos, assemelha-se a uma apresentação imperfeita de algum esquema baseado em percepções por nós desconhecidas.

Mas, por outro lado, ainda que o gênio possa servir-se das palavras de uma forma que lembre um pouco a nostalgia misteriosa da música, parece-me que a nossa educação subliminar está menos ligada à faculdade da linguagem do que a supraliminar. Existe na linguagem corrente uma frase cujo alcance psicológico é maior do que se pensa. Daquilo que chamamos gênio e de tudo que com o gênio relacionamos, arte, amor, emoção religiosa, dizemos que vai além do alcance da linguagem.

Ainda que a linguagem falada e escrita se tenha convertido em nosso principal meio de expressão e de comunicação de nossos sentimentos e emoções, não temos qualquer razão para admitir a priori que possa expressar todos os nossos pensamentos e emoções. Afirmou-se que “toda linguagem principia como poesia e termina como álgebra”. O que resta por dizer é que se inicia como uma emergência subliminar para terminar como artifício supraliminar. Os instintos orgânicos determinam a emissão dos primeiros sons, as leis inconscientes do espírito proporcionam o primeiro esboço da gramática. Mas em nossos dias, a singeleza da linguagem começa a desaparecer. As necessidades da Ciência e do comércio tornaram-se dominantes, a primeira por ter criado deliberadamente, para seu uso, um sistema de signos, uma disposição de letras e de números ou vocabulários técnicos, construídos sobre um plano, decidido de antemão, o segundo esforçando-se por conseguir o mesmo caráter algébrico com a contabilidade, os códigos telegráficos, etc.

É certo que os progressos da linguagem não dependem unicamente do que se faz nos bancos ou nos laboratórios. Antigamente favorecia-se a espiritualização da linguagem humana, de modo a tornar o nosso vocabulário, ainda que baseado em objetos ou sensações diretas, adequado à expressão das idéias filosóficas. Mas, apesar desses esforços, nossas manipulações supraliminares deixam-nos um instrumento cada vez menos capacitado a exprimir a crescente complexidade de nosso ser psíquico.

Recorrendo ao simbolismo, no sentido mais amplo da palavra, tal como se expressa na arte, o homem de gênio consegue suprir a insuficiência da linguagem. Falo do simbolismo no sentido de um acordo preexistente, mas oculto, entre as coisas visíveis e invisíveis, entre a matéria e o pensamento, este e a emoção, através do qual as artes plásticas, a música e a poesia, cada qual a seu modo e no domínio que lhes é próprio, fazem suas descobertas e as põem em evidência, para a felicidade e a educação humanas.

Ao me valer da palavra simbolismo, estou longe, repito, de aderir às fórmulas de qualquer escola. O simbolismo de que falo nada tem em comum com o misticismo. Acredito não poder existir aí um abismo real nem uma divisão marcante entre as escolas realistas e idealistas. Tudo o que existe é contínuo e a arte não pode simbolizar um determinado aspecto, sem, ao mesmo temp, simbolizar, de uma forma implícita, outros aspectos menos visíveis e aparentes.

A arte expressa o simbolismo em todos os graus de transparência e obscuridade, desde o simbolismo que nada mais faz do que resumir a linguagem, até o simbolismo que a ultrapassa. Algumas vezes, e este é o caso da música, é inútil buscar uma interpretação demasiado exata. A música flui e fluirá sempre através do seu mundo ideal e imaginário. Sua melodia pode ser de um forte simbolismo, mas do qual os homens perderam a chave. A poesia, ao contrário, vale-se das palavras, cujo sentido aspira a superar. Se pretende continuar sendo poesia, deve, segundo a expressão de Tennyson, “exprimir através das palavras um encanto que as palavras não podem proporcionar”.

Considerada, quer sob o ponto de vista de seu desenvolvimento na raça, quer na sua manifestação entre os indivíduos, a música surge não como um produto de nossas necessidades terrestres e de seleção natural, mas como uma aptidão subliminar, que se manifesta de forma acidental, independente das influências externas e do eu supraliminar. Sabemos até que ponto é difícil explicar as suas origens, de acordo com qualquer das teorias concernentes à evolução das capacidades humanas. Sabemos que a música é algo que se descobre, antes de ser um resultado fabricado, e as sensações subjetivas dos próprios músicos estão de perfeito acordo com essa concepção da natureza, essencialmente subliminar, da referida aptidão. Não existe outro ramo onde o gênio ou a inspiração constituam uma condição tão essencial do êxito. As obras-primas musicais não nasceram da reflexão sobre as relações recíprocas das notas da música. Nasceram, como no caso de Mozart, de uma inesperada explosão de sons, de uma alegria imprevista que se revelou espontaneamente. Nasceram, como no caso do Abade Vogler, de Browning, das profundezas da alma e das alturas do céu. Transportando essas frases poéticas aos termos de que nos servimos, podemos dizer que chegamos a um ponto em que os afloramentos subliminares são reconhecidos pela personalidade supraliminar como mais profundos, mais verdadeiros, mais permanentes do que os resultados do pensamentos voluntário.

Sabemos que o que distingue o gênio dos estados semelhantes ao hipnotismo e ao automatismo é a colaboração, a cooperação que se manifesta entre o subliminar e o supraliminar que se completam sem produzir qualquer alteração da personalidade propriamente dita. Ao contrário, no hipnotismo as operações subliminares imprimem uma transformação à personalidade, substituindo o sono pela vigília, e no automatismo a racionalização subliminar interrompe-se no domínio supraliminar sem confundir-se com ele, como na clarividência ou na escrita automática. Na prática, a separação entre esses estados é menos evidente, menos precisa do que possa parecer, e no que diz respeito ao gênio, em particular, existem numerosos laços, quase sempre pouco aparentes, que o ligam ao automatismo de um lado e ao hipnotismo de outro.

Pode-se dizer, com efeito, que, assim como a cólera é um rápido acesso de loucura, o relâmpago da genialidade é uma manifestação instantânea do automatismo.

Os momentos de inspiração de Wordsworth, quando, como ele mesmo dizia:

Some lovely image in the song rose up
Full-formed, like Venus from the sea.
37

eram, com efeito, momentos de manifestação automática, apesar da imediata e simultânea cooperação do eu supraliminar. Esta súbita criação poética assemelha-se estranhamente com o anúncio que o calculador faz do produto de dois números, ou à precipitação brusca de outros para encontrar o papel e o lápis e escrever a palavra desejada e buscada durante muito tempo e que aparece de improviso.

Mas esse automatismo instantâneo se vai um pouco mais longe e chegamos ao que se chama faculdade de improvisação. Que significa essa expressão? Trata-se de uma atividade subliminar ou do exercício rápido de uma faculdade comum?

É evidente, em primeiro lugar, que muito do que se chama improvisação é quase sempre uma questão de memória. O automatismo chamado secundário, em virtude do qual o pianista é capaz de tocar uma peça conhecida sem atenção consciente, leva facilmente a improvisações que o mesmo pianista pode considerar, de boa fé, como originais, mas que consistem, na realidade, em fragmentos lembrados, reunidos por laços artificiais. Acontece o mesmo com o orador que, improvisando, começa pela repetição automática de frases banais, mas logo se percebe que, pouco a pouco, saem de seus lábios extensos períodos imprevistos e inéditos.

Não se trata aqui de uma sinergia estereotipada ou da adaptação de um grupo particular de centros nervosos à atividade comum, mas, antes, de um certo grau de adaptabilidade e de invenção, criando novas combinações que nos podem ser explicadas pela simples recorrência de antigos precedentes.

Esse problema lembra a dificuldade que se encontra para explicar o que ocorre durante o restabelecimento ou a substituição de uma função, após uma lesão cerebral. Nesse caso os elementos indenes assumem progressivamente as funções que, em aparência, nunca haviam exercido antes e estabelecem novas comunicações, de forma a restabelecer a antiga eficiência da porção atingida do cérebro. Esse restabelecimento, longe de ser rápido, realiza-se gradualmente, como uma cura ou um novo crescimento, sugerindo a idéia de um processo fisiológico ao invés de um controle inteligente, como no caso de renascimento, de acordo com um modelo preestabelecido, de uma pata de caranguejo separada do corpo. Esse restabelecimento das funções cerebrais é, no momento, inexplicável, como todo crescimento. Podemos chamá-lo, com alguma razão, de manifestação superior do crescimento humano. Considerado assim, ocupa o ponto intermediário entre o crescimento comum de um osso ou músculo, sempre segundo um plano predeterminado, e essa criação súbita de novas conexões ou trajetos cerebrais que caracteriza a inspiração genial.

Essa comparação não contradiz em nada minha opinião de que o gênio é o resultado da colaboração de uma corrente subliminar de idéias, tão desenvolvidas no seu gênero quanto a ideação supraliminar de que possuímos consciência. A natureza e o grau da capacidade subliminar devem ser julgadas de acordo com suas manifestações mais elevadas. E a analogia entre as operações inconscientes do gênio e o crescimento proporcionam-me antes um novo argumento, fazendo-me considerar o crescimento orgânico como submetido ao domínio de algo semelhante à inteligência ou à memória, e que em certas condições, por exemplo, durante o sono hipnótico, é suscetível de trazer sua colaboração à vontade consciente.

O dom da improvisação, que nos sugeriu essas analogias, pode, às vezes, agir de um modo mais fixo do que nos casos do orador e do músico. Razões existem para supor que desempenha um papel enorme nas obras de imaginação, inclusive as mais comuns. E, em primeiro lugar, a diátesis improvisatrice – se me permitem empregar esta expressão – deu lugar a uma literatura que, durante toda uma geração, foi uma das fontes mais abundantes de emoção para o pensamento europeu. Precisa-se conhecer bem a vida e os escritos de George Sand para poder discernir nas suas confissões a mentira inconsciente da verdade singela e transparente. Minha opinião é a de que, com exceção de determinados casos, em que a mentira lhe foi ditada pelo interesse de sua defesa pessoal, George Sand aparece sempre como psicóloga tão verdadeira e introspectiva como o próprio Wordsworth. As diferentes passagens de sua autobiografia, das quais uma ou duas representam, a meu ver, fatos reais, são confirmadas, ou ao menos não são refutadas, pelos testemunhos de pessoas ao corrente de seus métodos de trabalho. Consideradas como exatas, revelam um vigor e uma fecundidade extraordinários de produção literária, que se realizou num estado que se aproxima ao do sono.

A vida de George Sand não esteve isenta de defeitos morais, mas os defeitos eram os de uma organização superior, não mórbida, e pertenciam, além disso, à sua vida interior. Durante os longos anos de maturidade e velhice sadia deu o exemplo notável de enorme produtividade imaginativa, associada à tranqüilidade interior e à placidez da meditação. O que sentia George Sand no ato de compor era uma contínua corrente de idéias que não lhe exigia esforço algum, com ou sem exteriorização aparente dos personagens que fazia figurar nas suas novelas. Em outro autor, tão sadio e quase tão produtivo como George Sand, encontramo-nos com um fenômeno que, num espírito menos robusto e ativo poder-se-ia considerar índice de loucura. Lendo as alusões que, nas suas cartas, Dickens faz à aparente independência dos seus heróis, e comparando essas alusões aos fatos por nós conhecidos, sente-se tentado a considerá-las mistificações. Mrs. Gamp, sua criação mais importante, falava-lhe, segundo ela própria dizia (geralmente na igreja) com voz semelhante à de um aviso interior.

Curel, distinto dramaturgo francês, narrava a Binet que suas personagens, após um penoso período de incubação, tomavam uma existência independente e mantinham conversas independentes da sua vontade e da sua atenção de escritor. O processo da invenção continuava, dessa forma, sem qualquer fadiga consciente de sua parte. Isso nos faz pensar em certos atos realizados sob a sugestão hipnótica, sem qualquer sensação de esforço.

Curel é um dramaturgo engenhoso e refinado, ainda que não muito popular. Sua obra é do gênero suficientemente elevado para dar um real interesse à análise minuciosa e séria que faz do seu método, ou melhor, de suas experiências durante o trabalho.38

Principia por abordar seu tema de modo comum e até mesmo com mais dificuldade e apreensão do que se observa em outros escritores. A seguir, sente que determinado número de semipersonalidades surgem nele e falam do mesmo modo que Mrs. Gamp falava a Dickens, na Igreja. Essas personagens não são totalmente visíveis, mas movem-se ao redor dele, num cenário de casa ou jardim, que ele percebe também de uma forma vaga, como se percebe uma cena que nos surge em sonhos. A partir desse momento já não compõe ou cria, nada mais faz do que a revisão literária; as personagens falam e agem por si mesmas, e quando o interrompem, durante seu trabalho ou durante a noite, quando dorme, a peça desenvolve-se sozinha em seu cérebro. Quando se distrai e não pensa mais na obra, ouve às vezes as frases que são partes de cenas, das quais ainda não se ocupou. É que a elaboração subliminar da peça foi além do ponto em que se detivera o trabalho supraliminar. Curel vê nessas pequenas transformações da personalidade uma espécie de brotos, de excrescências da personalidade primitiva, que esta última absorve novamente, aos poucos, ainda que mantendo penosa luta, logo que termina o drama.

Trata-se de algo semelhante às idéias fixas que são o resultado da auto-sugestão. O mesmo poder de cristalização ao redor de um núcleo apresentado, que no histérico tem como resultado a formação da idéia obsessiva, produz, quando submetida ao domínio supraliminar bem dirigido, a criação de personagens vivos numa obra.

Tentamos mostrar que o gênio representa, não só uma cristalização de idéias já existentes, ainda que em forma instável, na inteligência supraliminar, mas também uma corrente de ideação independente, embora paralela, relacionada com aqueles conteúdos cujo conhecimento é acessível à inteligência normal, mas que as apreende com extrema rapidez e facilidade.

Levemos mais longe nossa investigação e perguntemo-nos: No que chamamos gênio entra o conhecimento de coisas inacessíveis à inteligência normal, um conhecimento, por assim dizer, paranormal que não se adquire por comportamentos comuns?

Pareceria que, no que diz respeito à apreciação daquilo que chamaria o conteúdo vago e paranormal dos momentos de inspiração, só podemos examinar a um restrito grupo de homens de gênio. Se existem gênios capazes de se lançarem num mundo espiritual inacessível ao comum dos mortais, ninguém deveria estar tão capacitado como o filósofo e o poeta. Mas, inclusive nos limites desse grupo tão restrito, nossa escolha é deveras limitada. Poucos filósofos foram homens de gênio, no sentido por nós empregado nesta obra; e poucos poetas falaram com a sinceridade e solenidade suficientes, para que seus depoimentos possam ser citados como argumentos válidos.

Esses depoimentos, caso existam, devem ser buscados, mais do que na poesia épica e dramática, nas obras dos poetas do tipo essencialmente subjetivo. Não vamos compilar uma antologia de passagens relacionadas com o tema que nos interessa. A análise de um único poeta, mesmo de um só poema, serve para o fim que nos propomos atingir. Qualquer que seja o posto que se dê a Wordsworth na arte da linguagem, é impossível negar-lhe a vivacidade vetusta de poeta introspectivo. O Prelúdio ou o Desenvolvimento do Espírito de um Poeta foi considerado por alguns críticos como um poema egoísta e cansativo. Mas, qualquer que seja a qualidade do gozo poético que procure, seu valor como “documento humano” é ímpar, do ponto de vista que nos interessa. Encontraremos, com efeito, passagens introspectivas de enorme interesse e beleza em Goethe, Browning e especialmente em Tennyson. Mas nenhum, nem mesmo Goethe, apreciou suas próprias faculdades, com tanta seriedade e em profundidade, como Wordsworth. O Prelúdio constitui uma tentativa consciente, pertinaz, de narrar a verdade, sobre as emoções e intuições que diferenciam o poeta do homem comum. E é necessário acrescentar (e este é um juízo estabelecido por cima e à margem das flutuações da crítica vulgar) que Wordsworth tinha total direito de considerar-se como uma espécie de poeta “tipo”. Frio ou entusiasta, ocupa uma posição acima de qualquer discussão.

Wordsworth não só se sentia forçado a contar a verdade sobre si mesmo, como, igualmente, era particularmente capaz de criá-la. Seu auto-respeito levava-o a querer ser diferente do que, de fato, era.

Vejamos, pois, a forma pela qual descreve o conteúdo aparente dos momentos de inspiração profunda. Vejamos como Wordsworth insiste, particularmente, no caráter diferenciado de suas aflorações subliminares.

Fala da “bruma interior” que se converte “numa tempestade”, uma energia superpotente conduzindo em todos os sentidos a sua própria criação”.

A imaginação é “esse terrível poder surgido dos abismos do espírito, como um vapor impenetrável que, de súbito, envolve o caminhante solitário. Estava perdido, detido, sem poder realizar qualquer esforço para livrar-me; mas posso agora dizer à minha alma consciente: reconheço tua glória. Nessa força de usurpação, quando a luz dos sentidos se apagou e só existe um lampejo que revela o mundo invisível, sente-se uma verdadeira grandeza”.

Essa passagem expressa, numa linguagem poética, as verdadeiras relações entre o subliminar e o supraliminar que neste capítulo destacamos.

A influência nasce de uma fonte inacessível; surpreende e perturba, durante alguns momentos, o espírito consciente, mas logo é reconhecida como fonte de conhecimentos que trazia à luz a visão interna, enquanto que a ação dos sentidos se encontra suspensa numa espécie de êxtase momentâneo. Todavia, o conhecimento adquirido dessa forma é simplesmente uma percepção do “mundo invisível” sem que o possamos considerar como uma revelação caracterizada.

O poeta diz sobre sua infância: “Eu vivia, então, lampejos semelhantes aos de um escudo que reluzisse na escuridão; a terra e a natureza, no seu aspecto comum, diziam-me coisas que me pareciam lembranças.”

E, como essas lembranças são apenas discernidas pela visão interna, produz-se uma crescente confusão entre o subjetivo e o objetivo; entre o que nasce no vidente em si e o que o universo visível proporciona – indicações que são, antes, alusões: “de meu espírito partia uma luz auxiliar que transmitia um novo resplendor ao sol poente”. “Os olhos corporais estavam totalmente esquecidos e o que eu assistia parecia-me como algo em mim, como um sonho, como uma visão da mente”,

Assim, insiste Wordsworth em outra passagem, ocorre com os espíritos apoiados no conhecimento de um poder transcendente: “vivem num mundo de vida, desligados das impressões sensíveis, contudo, sob o império de impulsos vitais que os tornam aptos a entabular conversas com o mundo espiritual”.

Por mais vagos que sejam esses trechos (e outros de gênero semelhante que pudéssemos citar) são tão eloqüentes como as visões dos santos e os iluminados das diferentes religiões. A simplicidade sadia de Wordsworth torna pouco verossímil a menor suspeita de prevenção; segundo o conselho de Bacon, tornou seu espírito concêntrico em relação ao universo e nada existe nessas revelações que possa ser contraditado ou atingido por outras.

Uma consciência imprecisa, mas verdadeira do meio espiritual, é o grau de revelação acessível ao gênio do artista ou do filósofo. Em outras palavras, os afloramentos subliminares, enquanto intelectuais, tendem a se converter em telestésicos. Trazem vagos indícios daquilo que considero uma grande verdade, isto é, que o espírito humano é passível de experimentar percepções mais profundas do que as percepções sensoriais, de adquirir um conhecimento direto dos fatos que estão além do alcance de nossos órgãos sensoriais e de nossas visões terrenas.

Mas, a telestesia não é só uma lei espiritual, nem a atividade subliminar, uma atividade meramente intelectual. Por cima e à margem da capacidade inata de percepção dos fenômenos universais, existe entre os próprios espíritos um vínculo universal que, nas suas manifestações terrestres e inferiores, se chama telepatia. Nossa capacidade oculta (a atividade subliminar do gênio) pode-se estender tanto nessa direção como na da telestesia. O conteúdo emocional dessa atividade é ainda mais importante e profundo do que seu conteúdo intelectual, assim como o amor e a religião são mais profundos e importantes do que a ciência e a arte.

Essa primitiva paixão, repito-o, que une a vida com a vida, que nos une quer com a vida próxima e visível, quer como a vida imaginária e invisível, essa paixão não constitui um impulso meramente orgânico e terrestre, antes forma o aspecto interno da lei telepática. Existe, pois, entre o amor e a religião um vínculo de continuidade; são as diversas fases de uma gravitação universal e mútua das almas. A carne separa ao invés de unir, ainda que nesta separação sugira a idéia da união que é capaz de realizar. Não se trata de uma emoção corpórea, nem unicamente humana. O amor é a força de integração que realiza um cosmos de uma enorme quantidade de coisas.

Esse é o conceito platônico do amor que se confunde quase com a religião, quando ela exprime a nossa atitude emocional e moral com relação à vida invisível. Para o amante platônico, a imagem do ser amado, independentemente da consciência e da imaginação, converte-se num impulso permanente e instintivo para os pensamentos e atos nobres.

Assim é, para um São Francisco e para uma Santa Teresa, a imagem da divindade que adoram; e se pretendem, às vezes, nos momentos de crise, sentir um domínio, uma orientação, e ter uma communicatio idiomatum com o Divino, podemos dar fé aos seus depoimentos mais humildes, contudo mais tangíveis e evidentes, dos quais resulta que uma intercomunicação telepática e influências impalpáveis que se efetuam à distância existem entre as almas ainda encarnadas e as que deixaram seu invólucro carnal.

O tipo psíquico ao qual temos dado o nome de gênio pode assim ser reconhecido em qualquer região do pensamento e da emoção. Em cada direção, nosso eu cotidiano pode ser mais ou menos afetado pelos impulsos subliminares. Quem não apresenta essa permeabilidade, senão em ligeiro grau, agindo de acordo com as considerações supraliminares, concordes aos raciocínios, segundo ele, mas não de acordo com os impulsos, vive seguro de si, dentro de sua prudente mediocridade. Não utiliza mais do que uma parte da natureza humana que foi exercitada e preparada de há muito para os trabalhos deste mundo. Aquele, ao contrário, cuja permeabilidade aos impulsos subliminares é maior, torna-se capaz de abarcar um número maior de possibilidades e segue na vida um caminho menos estável.

Quais são as condições que favorecem o aparecimento do gênio, que fazem que uns sejam permeáveis mais do que outros aos impulsos subliminares? Das três hipóteses que procuram explicar o mistério das variações individuais, da aparição de qualidades e propriedades novas, as hipóteses lamarckiana, darwiniana e a teoria das reminiscências de Platão; esta última parece-me a mais verdadeira, sob a condição de baseá-la em dados científicos estabelecidos em nossos dias. Acredito, especialmente, que deve ter existido no protoplasma, base primitiva de toda a vida orgânica, uma força virtual de adaptação à manifestação de todas as faculdades que se desenvolveram na vida orgânica. Considero também que se produzem em cada instante variações que nem sempre é possível prever e que se manifestam pela acidental aparição entre os descendentes de capacidades que não se encontravam nos ascendentes. Mas afasto-me da opinião geralmente creditada, ao não considerar que essas capacidades se manifestam pela primeira vez graças à feliz combinação de elementos hereditários. Considero essas capacidades não como aparecidas pela primeira vez, senão como reveladas e que a seleção, ao invés de dar origem a uma nova capacidade, nada mais fez do que arrebatar à região subliminar uma capacidade que sempre estivera ali.

Essa opinião, levada até às últimas conseqüências, parece contrapor-se ao conceito corrente da evolução, porque nega serem todas as faculdades humanas um resultado da experiência terrenal. Admite um eu subliminar dotado de faculdades desconhecidas, nascidas não se sabe como e não, simplesmente, pelo contato com as necessidades experimentadas pelo organismo terrestre. Parece, dessa forma, introduzir um novo mistério, coisa que não é assim, uma vez que todas as faculdades humanas, falando no genérico, devem ser colocadas novamente no protoplasma e dali retiradas. Primeiro, deve-se explicar como se encontram mescladas aos organismos primitivos e inferiores e, a seguir, como se desenvolveram e se difundiram nos organismos ulteriores e superiores. Mas, repito, todas as faculdades dos organismos superiores existiam, virtuais, nos organismos inferiores e qualquer diferença entre meu conceito e a opinião corrente reduz-se à diferença quanto ao sentido dado à palavra virtual.

A diferença real entre as duas opiniões aparece quando se consideram as próprias capacidades, que eu chamei de desconhecidas. Se essas faculdades realmente existem, minha opinião proporciona a melhor explicação delas. Mas considero que a telepatia e a telestesia realmente existem: a telepatia como comunicação entre os espíritos encarnados, ou entre os espíritos encarnados, de um lado, e os desprovidos de invólucro carnal, de outro; a telestesia, como conhecimento das coisas que se situam além dos limites de nossa percepção comum e que proporciona, talvez, um vislumbre de mundo diverso do terrestre. E essas faculdades não podem ter sido adquiridas através da seleção natural, tendo em vista a conservação da espécie; são antes o produto de uma evolução extraterrena. E se isto sucede com essas capacidades poderia ocorrer o mesmo com outras capacidades humanas. As formas especializadas da percepção não constituem, pois, novidades reais no universo, senão adaptações imperfeitas do protoplasma à manifestação de capacidades perceptivas gerais que ali estavam incluídas.

Possuímos capacidades que se tornaram supraliminares, sob a influência da luta pela sobrevivência. Mas possuímos outras que essa luta deixou intactas e que se conservaram subliminares. O eu supraliminar não tem acesso a estas últimas capacidades. Mas, como conseqüências de um acaso da evolução ou de um exercício qualquer, se produz num ponto uma comunicação entre as diferentes camadas do nosso ser, e uma faculdade subliminar sai à luz da consciência supraliminar.39

Portanto, afirmo a existência no homem de uma alma que tira sua força e sua graça de um espírito universal e afirmo também a existência de um espírito acessível à alma humana e que com ela se comunica. Estes dois postulados carecem, todavia, de base científica, mas foram formulados mais de uma vez na história da humanidade. Foram formulados e reconhecidos por todas as religiões, ainda que cada uma delas tenha restringido a aplicação ao ponto de tornar sua verdade menos evidente e manifesta. Mas o que as religiões reclamaram para seus fundadores e santos: o que é a santidade senão o gênio na ordem moral? A Psicologia o reclama para cada manifestação de nossa vida espiritual: o sono, o sonho, a recuperação hipnótica, o automatismo sensorial e motor, a obsessão, o êxtase. O filósofo que exclamou com Marco Aurélio: “A providência ou os átomos!”, declarando que sem essa base apoiada no Invisível “o cosmos moral ficaria reduzido ao caos”, não teria saudado com alegria a mais humilde tentativa de tirar de cada um dos problemas ainda por resolver alguma alusão à lei desconhecida que um dia nos dará a solução de todos?


IV
O sono


Os capítulos anteriores nos fizeram avançar alguns passos em nosso caminho. No capítulo II fizemos uma idéia do que se relaciona à composição da personalidade humana, analisando alguns dos acidentes a que está submetida: as idéias obsessivas, as instabilidades histéricas, as desagregações e alternativas parecem destruir a unidade interna a cuja sensação estamos instintivamente unidos. No terceiro capítulo vimos essa mesma personalidade em seu estado normal de vigília, a maneira pela qual essa normalidade deve ser definida e por quais os caminhos certas pessoas privilegiadas lograram estender seu poder de concentração interior e integrar ainda mais sua personalidade, utilizando os afloramentos de sua capacidade subliminar para completar ou cristalizar os produtos de seu pensamento supraliminar.

A revisão desses capítulos indica, com bastante clareza, qual será nossa próxima etapa. É evidente que nessa revisão das fases ou alternativas da personalidade, deixei de lado a hipótese mais constante, a mais importante dentre todas. Nada disse do sono, em particular; mas, sem dúvida, todos os meus leitores terão pensado nele, não como uma curiosidade mórbida, mas como uma função essencial da vida.

Estudaremos agora o sono, a partir de dois pontos de vista. Considerando-o como uma fase alternativa da personalidade, devemos investigar quais são suas características e capacidades. Considerando-o como um fator integrante de nossa existência terrestre, da mesma forma que o estado de vigília, devemos investigar como as faculdades do sono e da vigília podem ser melhoradas e concentradas durante o curso da evolução física e psíquica do homem. Uma melhora ou concentração dessa classe supõe um conhecimento da verdadeira natureza do sono, que estamos longe de possuir.

Consideremos, primeiramente, os caracteres específicos do sonho. A definição deste último constitui um dos pontos mais difíceis da fisiologia. E penso que as experiências com o sono hipnótico, acumuladas durante os últimos anos, são de uma natureza que torna ainda maior essa dificuldade. A explicação fisiológica tende a mostrar que determinado estado corporal, como por exemplo a ocupação do cérebro por produtos de dissociação, constituem pelo menos o antecedente comum do sono normal. Mas é certo, por outro lado, que entre um grande número de pessoas se pode obter um sono profundo e prolongado pela simples sugestão, qualquer que seja o estado corporal. A hipnose, como demonstraram Wetterstrand e outros, pode ser prolongada, com real vantagem para o que dorme, muito além do ponto que o sono espontâneo dos indivíduos normais é capaz de alcançar. Um bom indivíduo pode ser despertado e novamente hipnotizado, quase à vontade, independentemente do estado de nutrição e fadiga. Um sono desse gênero pertence aos fenômenos que podemos, se quisermos, qualificar de nervosos, mas que não podemos observar e sobre os quais não podemos exercer nenhum poder fora do elemento psicológico.

Não se pode, baseando-se exclusivamente nos dados conhecidos, esperar chegar a uma definição do sono mais satisfatória do que as que já possuímos. Sem dúvida, podemos postergar esse ensaio até o momento em que tenhamos recebido outros dados, além dos conhecidos, relacionados ao que se produz, ou não, durante o sono. Um único ponto parece estar afirmado: que não é necessário tratar o sono, como usualmente, só por seu aspecto negativo. Não devemos nos satisfazer com insistir, como nos manuais em uso, sobre a mera ausência das capacidades que constituem o estado de vigília, sobre a diminuição da percepção exterior, sobre a ausência de uma inteligência diretriz. Devemos, ao contrário, tratar o sono como fenômeno positivo, no que for possível, como uma fase determinada de nossa personalidade, que apresenta certas relações com o estado de vigília. Cada uma dessas fases diferenciou-se, na minha opinião, a partir de um estado de indiferença primitiva, próprio dos organismos inferiores, no qual teria sido impossível dizer se estavam acordados ou adormecidos. E, igualmente, dever-se-ia pronunciar sobre a questão de qual dos estados, se a vigília ou o sono, é o primitivo e qual o secundário; poder-se-ia afirmar, a meu ver, que o sono, de acordo com todas as aparências, é o primitivo, pois é o que domina a vida pré-natal e infantil e, inclusive no caso dos adultos, em qualquer grau que nos associemos através do pensamento ao estado de vigília, esse estado parece secundário e acessório, uma vez que não pode ser mantido senão durante um curto período que nos é impossível prolongar artificialmente sem recorrer freqüentemente a esse afluxo de vitalidade que traz o sono.

Do sono procedem qualquer novo vôo e qualquer nova iniciativa de atividades despertadas. Quanto às atividades que nascem e se manifestam durante o sono, temos ainda que delas falar. Abordando o exame da faculdade característica do sono, devemos iniciar pela parte vermelha do espectro de nossa consciência, que representa o poder mais profundo que um esforço (no estado de vigília) seja capaz de exercer sobre o nosso organismo físico.

Nosso exame da eficiência do sono deve iniciar além desse limite, porque o sono encerra, seguramente, um elemento cuja eficiência supera tudo o que observamos a respeito no estado de vigília. Reconhece-se, embora o fato não esteja explicado de uma forma completa, que a propriedade regeneradora do sono normal é algo sui generis, que o mais completo repouso do estado de vigília não pode igualar. Alguns momentos de sono, uma simples lacuna no campo da consciência, trazem, às vezes, uma verdadeira regeneração, que é impossível obter em vigília, mesmo deitado durante horas inteiras, em meio ao silêncio e à escuridão. Uma simples inclinação da cabeça sobre o peito, se a consciência se detém por um ou dois segundos, é capaz de mudar nosso modo de ver o mundo. Em momentos semelhantes, e mais de uma pessoa pode, como eu, testemunhar a favor de sua realidade, sente-se que o que se realiza no organismo, a modificação da pressão sanguínea, etc., ficou interrompido de algum modo; que houve ruptura do mecanismo interior devido a outra causa que não a simples ignorância momentânea dos estímulos externos. A ruptura da consciência está associada, em certo grau, a uma modificação fisiológica potente, o que vale dizer que mesmo nos casos de sono comum momentâneo observamos já a aparição dessa energia reparadora especial, que é característica do sono prolongado e que alcança, como veremos adiante, um grau ainda mais elevado durante o sono hipnótico.

Essa energia reparadora se encontra além da linha vermelha do espectro de nossa consciência desperta. Nessa região obscura enxergamos somente um crescimento de potência e de domínio sobre as funções fundamentais da vida corporal. Mas, se passamos além dos limites do espectro da consciência desperta, quando chegamos ao domínio dos músculos voluntários ou à capacidade sensorial, percebemos que nossa comparação entre o sono e a vigília torna-se bem menos simples. De um lado, constatamos uma lacuna geral e a ausência de qualquer controle sobre o domínio das energias despertas, ou melhor, como no sono parcial, uma simples paródia fantástica dessas energias num sono incoerente. Por outro lado, constatamos que o sono é capaz de estranhos desenvolvimentos e que à noite pode, às vezes, superar subitamente as operações mais complexas do dia.

Tomemos, primeiramente, o controle sobre os músculos voluntários. No sono comum, esse controle não existe nem é desejado; no pesadelo, a perda desse controle está exagerada de uma forma quase histérica e dá lugar a um imenso terror; enquanto que no sonambulismo, espécie de personalidade desenvolvida ad hoc, o que dorme, como mais tarde veremos, atravessa os caminhos mais perigosos com passo firme. De modo geral, o sonambulismo mórbido é, com relação ao sono normal, o que a histeria é com relação à vida normal. Mas entre o sonâmbulo sadio e a vítima de um pesadelo constatamos, de outro ponto de vista, uma diferença que lembra a que existe entre o homem de gênio e o histérico. Como o homem de gênio, o sonâmbulo coloca em jogo recursos inacessíveis ao homem comum e ao estado normal. Por outro lado, da mesma forma que entre alguns histéricos certos movimentos comuns caem sob o controle da vontade, da mesma forma o sonhador que deseja vagamente mover uma perna intumescida é, com freqüência, incapaz de dirigir-lhe uma corrente de energia motriz suficiente para efetuar a mudança de posição desejada. Essa incapacidade angustiante de movimento que sentimos no sonho “quando o que foge é incapaz de fugir e o que persegue incapaz de perseguir”, essa sensação que Virgílio e Homero 40 tomaram como o tipo de extravio paralisante, constitui precisamente a abulia dos histéricos, esse estado em que um homem leva meia hora para colocar o chapéu, enquanto que uma mulher passa uma tarde inteira contemplando seu bordado sem ser capaz de dar um único ponto.

Mas o termo “sonambulismo” é demasiado vago e indefinido para nossa presente discussão. Somente através da comparação com o hipnotismo, no capítulo seguinte, chegaremos a um conceito um pouco mais claro a respeito dos estados de semivigília.

Consideremos a capacidade sensorial encefálica, a capacidade da “vida espiritual”, tal como se manifesta no sono ou no sonho. Aqui encontramos a mesma que preside a capacidade motriz, isto é, que de maneira geral a capacidade sensorial está obscurecida e inibida pelo sono, mas também existem indícios de um poder persistente, com a mesma vivacidade anterior e, às vezes, mesmo com uma acuidade mais evidente.

À primeira vista, parece paradoxo falar de hiperestesia durante o estado de sonolência; de sensação viva num estado descrito geralmente como caracterizado por um toldar ou extinguir progressivo dos sentidos. E, naturalmente, na produção de imagens interiores, mais do que nas percepções de imagens exteriores, se manifestará a atividade durante o sono.

Existe um fenômeno que, apesar de sua freqüência relativa e de sua evidência, passou, até agora, inadvertido à ciência, nisto semelhante a tantos outros fenômenos humanos que apresentam um interesse mais científico do que terapêutico. Baillarger, na França, e Griesinger, na Alemanha, foram os primeiros (por volta de 1895) a chamar a atenção sobre as imagens vivas que surgem diante da visão interna de determinadas pessoas, entre o sono e a vigília. Aldred Maury, o conhecido helenista, deu, alguns anos mais tarde, a essas imagens o nome de ilusões hipnagógicas e publicou uma série notável de observações sobre si mesmo. Galton faz referência a elas, na sua obra Inquiry into Human Faculty, e se encontrarão vários casos desse gênero no Proceedings of the S. P. R.,41 págs. 390-473, etc.

As visões podem ser hipnopômpicas ou hipnagógicas, isto é, podem-se apresentar no momento em que o sono se dissipa ou no momento em que inicia; nos dois casos, as visões estão totalmente unidas aos sonhos; as “ilusões hipnagógicas” renovam-se, às vezes, nos sonhos; as imagens hipnopômpicas consistem, principalmente, na persistência de uma imagem de sonho durante os primeiros momentos de vigília. Em ambos os casos as imagens são testemunhos de uma intensificação da visão interna num momento significativo, num momento que é, real e virtualmente, do sono, mas confunde-se quase com os momentos próximos da vigília. Podemos qualificar esse estado de hiperestesia da visão cerebral ou espiritual e considerá-lo como o efeito de uma sensibilidade exagerada de centros cerebrais especiais, determinada por esses estímulos internos, desconhecidos, que, inclusive durante a vigília, originam visões internas análogas, ainda que mais débeis.

Para os que já são bons visionários, esses fenômenos, ainda que suficientemente notáveis, não constituem uma experiência extraordinária. Pelo contrário, para os maus visionários, a vivacidade dessas imagens hipnagógicas pode parecer uma verdadeira revelação. A meu ver, posso dizer que, sem esses resplendores ocasionais que sobrevêm entre o sono e a vigília, seria incapaz de conceber o que é realmente um bom visionário. As imagens vagas, obscuras, instáveis, que constituem tudo quanto minha vontade é capaz de evocar são substituídas, num momento de sonolência, por uma pintura que aparece ante meus olhos espantados, tão clara e brilhante como o próprio objeto. A diferença se assemelha à existente entre um instantâneo (fotografia), em cores naturais, e uma vista vaga e difusa, projetada por uma lanterna mágica, quase no momento de apagar-se. Muitas pessoas devem ter feito essa experiência, espantando-se ante a força insuspeita de uma capacidade revelada nesses momentos.

As imagens que chamei hipnopômpicas, isto é, as que se produzem no momento em que o sono se dissipa, não são menos notáveis. Freqüentemente sucede que uma figura que era parte num sonho continua sendo observada sob a forma de uma alucinação, durante os primeiros instantes que se seguem ao sono, o que prova a força dessa capacidade visionária que engendra os sonhos. A produção de uma figura alucinatória constitui, provavelmente, independentemente da utilidade ou inutilidade dessa produção, o ponto mais elevado que a capacidade visionária do homem é capaz de alcançar, e é notável que na maioria das pessoas esse ponto só seja alcançado durante o sono. Às vezes essa persistência da alucinação pode ser considerada como uma pós-imagem e outras vezes como resultado de uma “sugestão” inspirada pelo sono. Nesses casos hipnopômpicos, o visionário parece nascer durante o sono; nos casos hipnagógicos pertence a uma fase intermediária.

O grau de acuidade de todos os sentidos no sonho forma um objeto de observação direta e, inclusive, nas pessoas capazes de dominar seus sonhos, de experiência direta. Descrevi, por outro lado, alguns dos esforços que, pessoalmente, fiz para dar-me conta da potência de visualização do sonho, e devo dizer que o resultado foi que esse poder não era superior ao poder de que sou capaz no estado de vigília mais comum. Alguns correspondentes acusam, sem dúvida, um considerável acréscimo do poder sensorial, quando sonham. Um caso notável é o sonho tido pela Sra. A. W. C. Verrall, de Cambridge, e minuciosamente anotado; desde o início apresenta uma identificação de todos os sentidos. A Sra. Verrall nada mais tem do que rudimentares percepções musicais e, quando lhe disseram no seu sonho que aquelas percepções iriam ficar excitadas, não experimentou de início senão um prazer medíocre. Sem dúvida, a sensação surgiu como algo totalmente novo, como uma “verdadeira harmonia que até então só ouvira sob a forma de ecos, no ritmo de um verso ou no suspirar do vento entre os pinheirais. Meu ouvido achou-se purificado, menos, talvez, devido à realização de um desejo, que graças à criação de um desejo que, nem bem nascera, alcançou a plenitude do gozo”. Outros falam do acréscimo de vivacidade das concepções dramáticas, ou do que, entre os sujeitos hipnóticos, foi chamado de “objetivação dos tipos”. Em cada um desses sonhos, escreve uma mulher, eu era homem; num deles, era um ser brutal e covarde e noutro um dipsomaníaco. Nunca, antes dessas experiências, tivera a menor noção quanto à maneira de sentir e pensar das pessoas dessa espécie”. Outro correspondente fala de dois sonhos, sem relação um com o outro, tidos simultaneamente, um sonho emocional e outro geométrico, e da sensação de confusão e fadiga que depois experimentou.

O Capítulo dos Sonhos, da novela de R. L. Stevenson: Across the Plains, comporta a descrição de experiências sobre os sonhos que pertencem às mais bem relatadas que conhecemos. Com auxílio da auto-sugestão, antes do sono, Stevenson era capaz de produzir, durante o sonho, imagens cuja clareza e intensidade eram suficientes para proporcionar-lhe os temas de suas melhores novelas. Seu relato escrito com admirável sagacidade psicológica deve ser lido por todos os que se ocupam dessa questão. Menciono esses conhecidíssimos fenômenos, sob um ponto de vista novo, para mostrar particularmente que as percepções sensoriais internas ou a capacidade imaginativa do sonho podem deixar para trás o que se observa sobre isso no estado de vigília, da mesma forma que a força reparadora do sono supera a vis medicatrix de nossas horas de vigília.

Passo a fenômenos menos freqüentes que nos mostram, ao mesmo tempo, a intensidade de imaginação durante o sonho e o vestígio duradouro que os produtos dessa imaginação imprimem ao organismo desperto: uma auto-sugestão involuntária que podemos comparar à auto-sugestão voluntária de Stevenson.

O resultado constante de um sonho é freqüentemente de tal gênero que nos mostra claramente que o sonho não é o efeito de uma mera confusão das experiências despertas da vida pregressa, mas que possui um inexplicável poder que lhe é próprio e que extrai, como no caso da sugestão hipnótica, das profundezas de nossa existência, o que a vida de vigília é incapaz de alcançar. Dois grupos de casos dessa espécie são suficientemente manifestos para poderem ser facilmente reconhecidos, particularmente o caso em que o sonho deu lugar a uma conversão, ou a uma transformação religiosa notável. É o caso em que o sonho foi o ponto de partida de uma idéia obsessiva, ou de um acesso real de loucura.42 Os sonhos que convertem, reformam, mudam o caráter e a fé têm, à primeira vista, a pretensão de ser considerados como algo além do que sonhos comuns; e sua discussão pode ser deixada para mais tarde. Os que, por outro lado, degeneram rapidamente em idéias fixas irracionais são, íntima e manifestamente, semelhantes às sugestões pós-hipnóticas, a que o eu que as inspirou é incapaz de se opor. Assim é o sonho relatado por Taine,43 em que um policial, impressionado por ter assistido uma execução capital, sonha que vai ser guilhotinado e termina por sofrer de tal modo a influência do sonho que se suicida. Muitos casos desse gênero foram reunidos por Faure.44 E Tissié, no seu interessante livro Les Rêves, publicou algumas observações notáveis.

O caso seguinte, narrado por Kraft-Ebbing,45 é ainda mais impressionante:

“Seis de maio de 1888 – A doente (Ilma S...) encontra-se hoje agitada. Queixa-se à irmã de dores intensas sob o seio esquerdo, acredita que o professor queimou-a durante a noite e pede à monja que obtenha sua mudança para um convento, onde esteja ao abrigo de semelhantes intervenções. A negativa da monja ocasiona nela uma crise de histerismo. Finalmente, no sono hinótico, a doente explica sua dor, da seguinte forma: “Recebi, na noite passada, a visita de um velho que parecia um sacerdote e que se fazia acompanhar de uma freira, cuja esclavina trazia uma grande letra B, em ouro. A freira assustou-me, mas o velho era amistoso e amável. Molhou uma pena no bolso da freira e escreveu sob meu seio esquerdo as letras W e B. Numa das vezes, molhou mal a pena e fez uma mancha entre as duas letras. Nesse lugar e onde se encontra a letra B sinto dores, mas no local da letra W não. O homem explicou que o W significava que eu deveria ir à igreja de M e confessar-me no confessionário W”.

Nem bem terminara essa estória, a doente exclamou: “Eis novamente o velho, leva correntes em torno das mãos”.

Quando a doente despertou para a vida comum, sofria dores na região indicada, onde havia “perdas superficiais de substância, que penetravam no cório e que assemelhavam-se a um W invertido e a um B e entre essas duas letras uma pequena superfície hiperemiada”. Essa alteração trófica, singular, da pele, semelhante às que se produziram experimentalmente sobre a doente, não apresentava qualquer vestígio de inflamação. A dor e a lembrança do sonho foram suprimidas pela sugestão; mas a auto-sugestão de confessar na igreja M persiste, e a enferma, sem saber por que, vai confessar-se com o sacerdote da sua visão.”

Neste caso, achamo-nos na presença de um sonho que desempenha o papel de uma sugestão pós-hipnótica potente. No capítulo seguinte discutiremos o sentido vago do termo “sugestão”. Basta ver aqui o poder intenso de uma sugestão subliminar que pode deixar uma impressão que supera, em força, não só um sonho fugaz comum, como também a impressão resultante das experiências da vida de vigília.

Mas o mesmo caso nos sugere, igualmente, reflexões ligadas às relações que existem entre a memória, como funciona normalmente, nos sonhos, e a memória hipnótica, relações que, como veremos, indicam a existência de uma memória subliminar contínua, situada mais profundamente do que a memória da vida comum, isto é, essa provisão de lembranças conscientes da qual podemos chegar à vontade.

Do ponto de vista da memória, como das sensações, parece que na vida de vigília fazemos uma seleção, tendo em vista os fins de nossa existência terrenal. Na confusa memória pré-consciente, que depende da organização mesma da matéria viva, a consciência, tal como surgiu nos organismos superiores, tem por missão fazer uma seleção apropriada e tornar claras certas séries de recordações úteis. A pergunta na qual se condensa o senso da conservação individual: “O que devo saber para fugir a meus inimigos?” supõe a pergunta: “O que devo recordar para agir sobre os fatos que conheço?”. As correntes de lembranças seguem às correntes de sensações: se sou incapaz, por falta de exercício, de notar a tempo um fato qualquer, sou igualmente incapaz de recordá-lo mais tarde.

Basta, talvez, esta regra, se considerarmos somente organismos simples. Mas o homem tem necessidade de uma fórmula mais complexa, porque pode acontecer, como já vimos, que o homem tenha duas personalidades, cada uma das quais toma posse, arrebatando-as à massa comum de recordações latentes, de um grupo especial de lembranças para seu uso exclusivo. Esses grupos especiais podem, por outro lado, apresentar entre eles as mais diversas relações, quer uns abranjam os outros, quer excluam-se mutuamente e só surjam com alternativas.

Essas dissociações e alternâncias das recordações estão repletas de ensinamentos. As que se apresentam aqui não são as menos importantes. Qual a relação existente entre o sono e essas lembranças dissociadas, paralelas ou concêntricas? Quando uma lembrança supõe outra, é a lembrança consciente, por causa de sua clareza, maior na aparência, mais profunda e potente. O contrário não é exato?

A resposta dada pela experiência a essas perguntas é espantosamente clara e direta. Em cada uma das observações publicadas, se me recordo bem, houve um certo grau de unificação entre os estados alternativos, de forma que fosse possível a comparação: a memória mais distanciada da vida de vigília é a que possui alcance mais vasto e cujo poder sobre as impressões armazenadas no organismo é mais profundo. Por mais inexplicável que pareça esse fenômeno, aos observadores que com ele se depararam, sem possuir a chave do enigma, as observações independentes de centenas de médicos e hipnotizadores são testemunhos de sua realidade. O exemplo mais comum é o que proporciona o sono hipnótico comum. O grau de inteligência que se manifesta no sono varia de acordo com os sujeitos e com as épocas. Mas sempre que esse grau é suficiente para autorizar um juízo, achamos que existe durante o sono hipnótico uma memória considerável, que não é, necessariamente, uma memória completa ou raciocinada, como a da vigília, enquanto que, na maioria dos indivíduos despertos, a não ser que se lhes dê uma ordem especial, dirigida ao eu hipnótico, não existe qualquer lembrança relacionada ao estado hipnótico. Em muitos casos de histeria, encontra-se a mesma regra geral, isto é, que quanto mais nos afastamos da superfície, é mais vasta a expansão da memória.

Se tudo isso é verdade, temos, então, diversos pontos que merecem atento estudo. O sono comum pode ser considerado como ocupando uma posição intermediária entre a vida de vigília e o sono hipnótico profundo; e parece provável, a priori, que a memória pertencente ao sono comum está ligada, por um lado, à que pertence à vida de vigília e, por outro, à que existe no sono hipnótico. E isto assim é, na realidade, pois os fragmentos da memória do sono comum estão intercalados entre as duas correntes. Por exemplo, sem qualquer sugestão especial antecipada, os atos realizados durante o sono hipnótico são suscetíveis de ser recordados no sonho, com a mesma ilusão que o hipnotizador os circundou. Exemplificando, o sujeito hipnotizado, ao qual Auguste Voisin ordenou apunhalar um doente – um manequim – deitado na cama ao lado.46 O sujeito obedeceu sem lembrar-se de nada após despertar. Três dias depois voltou ao Hospital, queixando-se de que sofria a obsessão de um rosto de mulher que o acusava de tê-la assassinado a punhaladas. Foi necessário outra sugestão para livrá-lo daquele fantasma de papelão.

Inversamente, os sonhos esquecidos durante a vigília podem ser rememorados durante o sono hipnótico. Dessa forma, Albert, paciente do Dr. Tissié, sonhou estar a ponto de realizar uma de suas fugas sonambúlicas ou viagens sem destino; uma vez hipnotizado, confessou ao médico o sonho que esquecera durante a vigília.47 A verdade dessa confissão foi provada pelo fato de que o doente preparava realmente as viagens que sonhara e que suas outras viagens foram precedidas ou estimuladas pelos sonhos rememorados.

Não necessito insistir sobre a existência, incompleta, em qualquer caso, da lembrança da vida comum nos sonhos; igualmente, sobre a ocasional formação de correntes de lembranças separadas, compostas de sonhos sucessivos e coerentes. Devo acrescentar que não sabemos exatamente qual é a extensão da lembrança que possuímos da vida de vigília nos sonhos, uma vez que nos é impossível formar uma idéia sobre esse tema, de acordo com a recordação, notoriamente deficiente, que possuímos, durante a vigília, de nossos sonhos passados.

Existem exemplos em que as recordações desaparecidas da memória desperta, independentemente da sugestão hipnótica, reapareceram durante o sono comum, como nesses casos ecmenésicos como conseqüência de novo choque violento e nos quais a perda da memória estende-se, inclusive, a um certo período anterior ao choque. Exemplo disto é o caso da doente de Charcot, que, em conseqüência de uma comoção moral violenta, apresenta um longo ataque de histeria e perde completamente a memória, não só a respeito dos fatos acontecidos no acidente, mas também dos ocorridos durante as seis últimas semanas que o precederam. Tomando consciência de seu estado, anotava todos os acontecimentos em que tomara parte e tudo o que acontecia, mas, ao ler novamente suas anotações, não se lembrava de nada, como se os fatos consignados não lhe dissessem respeito. Após o acidente, foi mordida por um cão raivoso e tratada no Instituto Pasteur, sem que se lembrasse disso. Porém, os vizinhos perceberam que tinha o costume de falar quando dormia e que, nos fragmentos dos sonhos, em voz alta, revelava muitos fatos relacionados com o seu período ecmenésico. Charcot, supondo que se tratava de crise prolongada de histerepilepsia, hipnotizou a doente e descobriu que no sono hipnótico sua memória estava intacta. Com a ajuda da sugestão pós-hipnótica, foi possível colocar novamente a doente de posse dos fatos esquecidos de sua vida pregressa.48

Mas a memória pertencente ao sonho apresenta propriedades ainda mais curiosas:

a) pode, em particular, tratar de acontecimentos que o eu da vigília conhecera em outros tempos, mas, logo a seguir, esquecidos;

b) pode compreender fatos que chegaram ao campo sensorial, mas dos quais o sujeito não teve jamais conhecimento ou conceito supraliminar.

Talvez sejam estas recordações que proporcionam os elementos dos sonhos que podem ser retrospectivos, prospectivos ou, usando a terminologia de Pope, dando-lhe novo significado, circunspectivos, isto é, não relacionados com fatos passados ou futuros, antes, sobre o estado atual das coisas que se encontram além dos limites comuns da percepção. Compreende-se que as manifestações desse gênero podem ser tomadas como erro, retro-conhecimento, premonição e clarividência diretas; quando, na realidade, só constituem percepções subliminares.

Esses sonhos hipermnésicos nos proporcionam um meio de interpretar com maior exatidão certos fenômenos chamados maravilhosos e de ver mais claramente o que as teorias comuns são incapazes de explicar, na maioria dos casos mais completos.

É, com efeito, um fato rotineiro, mas cuja estranheza não nos surpreende, o lembrar-se durante o sono de algo que desaparecera totalmente da consciência desperta. Como exemplo, citaremos o sonho de Delboeuf, relatado no seu interessante livro O Sono e os Sonhos. Nesse sonho, o nome de “Asplenium Ruta Muralis” figurava como uma frase familiar. Uma vez acordado, perguntou-se em vão onde poderia ter ouvido esse termo botânico. Algum tempo depois encontrou o nome mencionado escrito por sua própria mão, numa pequena coleção de flores e plantas, cujas designações escrevera seguindo os ensinamentos de um botânico, seu amigo.

Neste caso e em outros semelhantes, o objeto primitivo do conhecimento formara parte, num certo momento, da consciência supraliminar. Mas, creio eu, existem casos em que os fatos e as imagens, que jamais fizeram parte da consciência supraliminar, são retidos pela memória subliminar e às vezes se apresentam nos sonhos com um objetivo que parece definido.

Como veremos mais adiante, a cristalografia nos proporcionou os fenômenos mais curiosos sobre esse assunto. A Srta. Goodrich Freer,49 por exemplo, vê num cristal o anúncio da morte de uma amiga, fato totalmente estranho ao seu eu consciente comum. Ao ler o Times encontra numa página, da qual se servira para proteger o rosto contra o calor da lareira, o anúncio da morte de uma pessoa que era homônima da sua amiga; de modo que as palavras penetraram no seu campo de visão sem chegar à consciência desperta.50

Existem casos em que a memória subliminar, manifestando-se no sonho, substitui a insuficiência de um sentido qualquer. Esse é o caso de Herbert Lewis, atacado de pronunciada miopia e que, após ter procurado, sem êxito, um importante documento, numa sala onde acreditava tê-lo perdido, teve durante o sonho a indicação precisa e exata do lugar onde estava o documento em questão e onde o encontrou, de fato (Proceedings of the S. P. R.,, VIII, pág. 389).

Produziu-se neste caso um espasmo momentâneo, que passando inadvertido para o músculo ocular, teve por resultado a extensão do campo visual? Para que esta suposição não pareça demasiado fantástica, citarei algumas linhas da observação pessoal de uma sonâmbula de Dufay:

“São 8 horas; várias operárias trabalham ao redor de uma mesa, sobre a qual está colocada uma lâmpada. A Srta. R. L... toma parte no trabalho, produzindo risotas, de vez em quando. Repentinamente ouve-se um grito: é a cabeça da Srta. R. L... que se despruma, com violência, sobre a mesa. É o começo do acesso. Ao fim de alguns segundos, levanta-se, tira, com enfado, os óculos e continua o trabalho que iniciara, sem precisar das grossas lentes côncavas que sua pronunciada miopia a obrigava a usar, colocando-se o mais distante possível da lâmpada.” 51

A Srta. Goodrich Freer teve, por sua vez, uma experiência durante a qual o título de um livro que desconhecia, e que se esforçava, em vão, para decifrar, enquanto o livro se encontrava distante dela, apareceu-lhe com o auxílio da cristaloscopia. Neste último caso, uma alteração espasmódica da visão, semelhante à que se produz na hipnose, é apenas admissível.

Nos casos citados até aqui, vimos que o eu dos sonhos mostrava cenas significativas para eleger, em sua galeria de fotografias, a imagem especial desejada pelo espírito desperto, sem necessidade de tirar a conclusão, mais ou menos complexa, dos fatos de que dispunha. Ocupar-me-ei agora de um pequeno grupo de sonhos no qual o eu subliminar raciocina, ao mesmo tempo em que rememora, onde, talvez, se trata de algo mais do que um mero raciocínio sobre fatos adquiridos, de uma forma qualquer, de algo que vai além do tema deste capítulo.

Em primeiro lugar, parece certo que os fatos conhecidos são suscetíveis de ser tratados no sonambulismo ou no sono comum, com uma sagacidade que supera a inteligência desperta. Tais são os casos dos problemas matemáticos resolvidos durante o sonambulismo ou a colocação esquelética por Agassiz, durante o sonho, de diversos ossos por ele descobertos, após havê-lo tentado em vão, várias vezes durante a vigília. Em certos casos desse gênero, a capacidade que assim se manifesta durante o sono alcança o grau de intensidade mais elevado nos limites de nosso espectro comum; e, em quase todas as regiões desse espectro, vimos que a capacidade em questão mostrava, em seus limites, mais ou menos estreitos, sinais dispersos que permitiam tirar a conclusão de uma igualdade ao menos potencial com o estado de vigília.

Fizemos idêntica constatação, no que concerne aos movimentos musculares, à visão e à audição interiores e à memória; os últimos exemplos nos mostram a impossibilidade de realizar durante o sono operações intelectuais de ordem mais elevada. Kubla Khan, de Coleridge, demonstrou há muito o que um grande poeta é capaz de realizar, graças ao obscurecimento dos sentidos despertos. E a própria imperfeição de Kubla Khan, a lembrança truncada por uma interrupção, lembra-nos, por sua vez, o conhecimento parcial que temos durante a vigília das operações realizadas durante o sonho.

Depois disso, como não nos sentiremos autorizados a ver uma certa semelhança entre as operações que se realizam durante o sonho e as operações de que é capaz o gênio? Em ambos os casos, observamos a mesma espontaneidade triunfante, a mesma resolução de não se fechar nos limites do funcionamento neurocerebral, antes de apelar a fontes desconhecidas, isentas dessas limitações.

Até aqui, o papel que atribuímos ao sonho, do ponto de vista da aquisição de conhecimentos, nada demonstra de anormal, nada que não possam realizar nossos sentidos durante a vigília. Agora resta-nos verificar se não seria possível descobrir no sonho a manifestação de uma capacidade supranormal, uma experiência que autorize a reconhecer que o homem constitui, ao mesmo tempo que um organismo terrestre, um espírito cósmico que é parte de um mundo espiritual ao mesmo tempo que do mundo terrestre. Se esta suposição resultasse verídica, pareceria natural que essa participação num meio espiritual se manifestasse no sonho de uma forma mais perceptível do que na vigília. O dogma que meu ponto de vista torna assim possível constitui, talvez, considerando apenas seu lado histórico, a base de todos os dogmas que desfrutaram em todos os tempos a adesão universal da humanidade.

Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus”: qual é a proposição teológica, inclusive a mais estreita, que não tenha tido a pretensão de ter sido reconhecida e admitida em todas as partes, sempre e por todas as pessoas? Mas, qual é o dogma cuja antigüidade, ubiqüidade e unanimidade, do ponto de vista da crendice humana, iguala à crença nas aparições dos espíritos durante o sonho? Na idade da pedra, o cético que se atrevesse a contradizer isto devia possuir uma grande dose de coragem. E mesmo reconhecendo que esta “psicologia paleolítica” passou de moda há alguns séculos, não penso, referindo-me às provas a favor da telestesia reunidas até hoje, que seja possível considerar como uma raridade o constante retorno da idéia relacionada às visitas feitas durante o sono a um lugar distante, adquirindo, em conseqüência, a consciência de novos fatos que teria sido impossível conhecer de outro modo.

Partindo, pois, não da autoridade primitiva, senão do exame dos fatos e das modernas provas, encontraremos, a meu ver, a existência, entre o sonho e a verdade, de coincidências que nem mesmo o acaso, nem a hipótese de uma lembrança subconsciente comum são capazes de explicar. Encontraremos a existência de casos de percepção de objetos materiais ocultos; ou de cenas distantes e também de pensamentos e sentimentos pertencentes a outros espíritos e em comunhão com esses pensamentos e percepções. Todos esses fenômenos foram observados praticamente em épocas e lugares diversos e, com particular interesse, pelos primeiros mesmeristas franceses. Os fenômenos do primeiro desses grupos receberam o nome de fenômenos de clarividência ou de lucidez; os do segundo grupo constituem os fenômenos de comunicação ou transmissão de pensamento. Esses termos não são suficientemente explícitos para que sejam o bastante para um estudo mais sistemático. As percepções à distância não são percepções óticas e não estão limitadas ao sentido aparente da visão. Estendem-se a todos os sentidos e compreendem, igualmente, as impressões que não podemos atribuir a um sentido especial qualquer. Da mesma forma, a comunicação entre as pessoas distantes consiste na transmissão não só de pensamentos, mas também de emoções, de impulsos motores e de certas impressões difíceis de definir. Em 1882 propus os termos mais amplos: telestesia, ou sensação à distância, e telepatia, ou simpatia à distância e empregarei esses termos durante o curso desta obra, sem que seu uso implique, de nossa parte, a pretensão de que correspondam a grupos definidos de fenômenos e devidamente separados, nem que compreendam todas as manifestações paranormais. Pelo contrário, parece provável que os fatos do mundo metaetéreo são muito mais complexos do que os do mundo material e que as vias através das quais os espíritos se comunicam e percebem, à margem do organismo carnal, são extremamente mais sutis e variadas do que as vias através das quais se operam as comunicações e percepções comuns. Semelhante a quaisquer organismos em relação, temos um sistema de forças que age sobre outros sistemas de forças e cuja influência se exerce por meios conhecidos e desconhecidos; da mesma forma, devemos considerar os espíritos humanos como sistemas de forças muito mais complexos, que agem uns sobre os outros ultrapassando a nossa capacidade comum de compreensão. Isso torna-se particularmente evidente nas premonições de que damos alguns exemplos neste capítulo e que parecem ainda mais distantes de nossos comportamentos de percepção comum que a telepatia e a telestesia.

Do que acabamos de dizer resulta que é impossível classificar os fenômenos paranormais numa ordem lógica. Não derivam uns dos outros, antes constituem manifestações emergentes e fragmentadas de uma lei mais profunda e geral. A distinção feita acima, entre a telepatia e a telestesia, entre o conhecimento paranormal, que parece ser adquirido por intermédio de outro espírito, e o conhecimento supranormal, que parece ser adquirido diretamente, sem a intervenção de outro espírito, não pode ser considerada, em si mesma, fundamental. Não podemos dizer, na realidade, em que casos e em que medida os espíritos exteriores contribuíram para a percepção de uma cena distante. Nem sabemos, tampouco, se a atividade de um único espírito é suficiente para uma percepção paranormal.52

Fiz, anteriormente, alusão a uma linha divisória, sugerida pelas sensações pessoais do que sonha, para distinguir entre a excursão psíquica ativa e o recebimento passivo de uma invasão psíquica externa. Mas, também aqui, já o dissemos, é difícil estabelecer uma divisão clara; pois quer se trate de percepções durante o sonho, de cenas materiais distantes, de pessoas vivas distantes ou de espíritos desencarnados, o que sonha está freqüentemente impossibilitado de dizer a partir de que ponto de vista se observa e onde se acha a cena que vê. Onde se encontra quando participa de uma cena situada no futuro e em que medida a participação aparente nesta cena futura difere da participação numa cena atual, ainda que distante, em meio à qual sua presença fantasmagórica pode ser discernida por um dos atores? Nossas respostas a essas perguntas, por mais imperfeitas que possam ser, devem ser postergadas até que tenhamos diante de nós não só os sonhos, senão toda essa série de manifestações automáticas sensoriais que parecem desafiar nossas noções correntes de tempo e de espaço.

Limitar-me-ei, no momento, a esboçar brevemente alguns dos principais tipos de sonhos supranormais, na ordem ascendente.

Citarei, inicialmente, alguns casos em que a pessoa que dorme discerne, através de visões clarividentes, uma cena que interessa diretamente a um espírito diverso do seu, por exemplo, a morte iminente de um amigo. Existe, às vezes, uma espécie de visão fugidia que parece representar exatamente a cena crítica; outras vezes a visão é menos rápida e vem acompanhada de uma sensação de comunhão com a pessoa interessada. E, ainda, em outros casos, menos numerosos mas mais interessantes, as circunstâncias da morte aparecem como se tivessem sido mostradas simbolicamente ao adormecido, pelo próprio morto ou por um espírito relacionado a este.

Um dos melhores exemplos de visão fugidia é o de Canon Warburton, que, tendo ido ver seu irmão, encontrou sobre a mesa deste um recado de escusas, por não estar em casa para recebê-lo, uma vez que fora a um baile. Aguardando o regresso do irmão, Canon sentou-se numa poltrona e adormeceu, despertando bruscamente ao receber a visão do irmão despencando de uma escada. Alguns instantes depois entra o irmão e narra ter corrido perigo iminente, pois estivera a ponto de quebrar o pescoço ao cair de uma escada (Phantasms of the Living, I, pág. 338).

A impressão produzida neste caso assemelha-se a uma sacudidela transmitida ao delicado vínculo que unia os dois irmãos. O que se encontrava em perigo deve ter pensado insistentemente no outro, lamentando não ter ficado em casa para esperá-lo, e pode-se explicar esse incidente, como já o fizemos, desde sua primeira publicação, admitindo a projeção da cena no espírito de seu irmão por aquele que estava em perigo. O irmão, passivamente adormecido, sentiu-se, por sua vez, como subitamente transportado, em meio a essa cena, talvez como resposta ao súbito apelo do irmão em perigo, e quero ressaltar este último aspecto do incidente, pelas analogias que mostra com outros casos que iremos citar. Torna-se evidente ser difícil pronunciar-se com segurança a favor de qualquer dessas explicações.

Citarei, a seguir, um caso analisado por Gurney, um pouco antes de sua morte e estampado no Proceedings of the S. P. R., III, págs. 265-266:

“Vicary Boyle, enquanto permanecia em Simla (Índia), viu, certa noite, em sonhos, seu sogro, que morava em Brighton (Inglaterra), pálido e estendido sobre a cama, enquanto que sua sogra atravessava, silenciosamente, a habitação e prodigalizava-se em cuidados ao marido. A visão dissipou-se; a seguir, Boyle continuou dormindo, mas ao despertar tinha plena convicção de que seu sogro, de cuja enfermidade não tinha notícia e em quem nem pensara sequer há vários dias, estava morto. Isso foi confirmado por um telegrama que chegou dias depois, o que confirmava a visão que Boyle teve de seu sogro morto, nove horas após o acontecimento.”

A visão (que apareceu, neste caso, duas vezes) era simples e pode ser interpretada como uma impressão transmitida pela mulher do finado e captada pelo genro nove horas após a morte. Enquanto o pensamento consciente da viúva se comunicava com outras pessoas, naquele momento, é provável que pensasse em sua filha, mais do que no genro. Mas Boyle possuía uma sensibilidade psíquica muito delicada que conseguiu captar (por desvio) a mensagem dirigida à esposa; mas, inclusive neste caso, a presença da Sra. Boyle era um fator necessário para a percepção experimentada por seu marido.53

Um único sonho, que um homem teve na vida, apresenta um valor tão inestimável quanto uma única alucinação da vigília. Exemplo disto é o sonho de Hamilton, que sonha que seu irmão, estabelecido na Austrália há 12 anos, voltara à Inglaterra, pouco mudado, mas que trazia uma das mãos ferida, com o punho quebrado e tumefato. Na manhã seguinte recebeu, imediatamente, uma carta de seu irmão, originária de Nápoles, em que lhe comunicava estar a caminho da Inglaterra; dizia, naquela carta, que salvo um acesso de gota à altura do punho esquerdo, estava perfeitamente bem. Porém, viu-se obrigado a desembarcar não em Londres, onde o esperavam, senão em Plymouth, pois os médicos diagnosticaram-lhe uma infecção sanguínea que ocasionou a formação de um abscesso furunculoso na articulação do punho. Pelas informações proporcionadas por seu irmão, resulta que o sonho de Hamilton coincidira com o momento em que o primeiro escrevia sua carta. Caso se confirmasse esse fato, tratar-se-ia de uma projeção de si próprio, feita pelo irmão doente (Journal S. P. R., III, pág. 267).

Ocupar-me-ei agora de um grupo de sonhos mais interessantes e complexos, que não vou sequer tratar de explicar. São os sonhos precognitivos, isto é, as imagens e as visões pelas quais se predizem e representam, antecipadamente, os fenômenos futuros, de forma mais ou menos simbólica e tão distanciada das previsões ditadas por nossa sagacidade terrestre, que nos sentiremos tentados, numa posterior discussão, a falar em termos vagos de uma espécie de galeria de quadros cósmicos que bruscamente se abre diante de nossos olhos, ou de representações teatrais compostas e oferecidas a nós por inteligências superiores a todas que conhecemos. Sobre isto é deveras característico o caso da duquesa de Hamilton, quer por sua precisão como por sua ausência de inteligibilidade isolada e carência de objetivo. Essa mulher teve um sonho no qual viu o conde de L. moribundo, naquele instante, sentado numa poltrona e como quem tivesse sofrido um ataque; ao seu lado estava um homem de barba ruiva e um lavatório, sobre o qual havia uma lâmpada vermelha. O conde morre quinze dias depois e uma pessoa que assistiu aos seus últimos instantes confirmou a exatidão da visão da duquesa (Proceedings of the S. P. R., XI, pág. 505).

A seguir, temos casos como os do Dr. Bruce (Phantasms of the Living, I, pág. 384) e da Sra. Storie (Idem, I, pág. 370), nos quais o sujeito vê em sonhos, e em todos os detalhes, a cena e todas as circunstâncias do falecimento de um parente (assassinato de um cunhado, no primeiro caso; irmão gêmeo esmagado por um trem, no segundo). No primeiro caso, a cena do assassinato foi vista não só por Bruce, mas também por uma irmã da vítima que igualmente se encontrava distante do local; e a Sra. Storie viu não só como seu irmão era esmagado pelo trem, como pôde distinguir num dos vagões a presença de duas pessoas conhecidas, que de fato lá estavam.

No caso da Sra. Storie, a cena apresentou-se como um sonho, mas como um sonho invulgar, pois o sujeito sabia estar deitado na sua cama. Noutros casos, a “invasão psíquica” pelo espírito de uma pessoa viva ou morta engendra uma enorme variedade de estados de semivigília, tanto no sujeito como no agente. Num estranho relato (o de M. Pike, Phantasms of the Living, II, pág. 105), um homem que sonha entrar em casa é ouvido em sua casa pedindo água quente e experimenta uma estranha sensação de “bilocação” entre o compartimento do trem e seu dormitório. O caso da Sra. Manning (Journal S. P. R., VII, pág. 100) é quase idêntico ao anterior, com a única diferença de que a Sra. Manning ao invés de ver em sonho o futuro imediato, revive lances da infância, com singular espontaneidade. Nestes casos, o sonho transportara o sonhador a outro momento do tempo e do espaço, mas com uma tal vivacidade que outras pessoas o perceberam nessa situação imaginária.

Newham (Phantasms of the Living, I, pág. 225) não só se vê transportado até a sua noiva, sendo que, na verdade, toca-a ao mesmo tempo em que ela se sente tocada por ele, no momento exato em que ia deitar-se. Este caso é uma prova evidente de “invasão psíquica”, conceito que examinaremos melhor no capítulo seguinte.

Ser-nos-ia fácil multiplicar os casos e exemplos, mas os que citamos já nos são suficientes para considerar o sonho de um ponto de vista diverso da vida comum. Não dedicamos especial atenção ao caráter negativo do sonho, nem ao que os diferencia das características das horas de vigília. Ao contrário, consideramo-lo como uma fase autônoma da personalidade, da mesma categoria que a vigília é dotada de capacidades que lhe são próprias, mesmo quando não se manifestem sempre de forma perfeita. No exame destas capacidades, não nos deixamos deter pela aparente inutilidade de algumas, do ponto de vista das necessidades e fins da vigília. Inútil é um termo pré-científico, anticientífico, que durante largo tempo foi a ovelha negra das investigações psicológicas. Para a ciência, o objetivo dos fenômenos é revelar as leis, e quando o fenômeno é mais raro e sem significação, mais possibilidade existe de que nos revele uma lei até então desconhecida. Ao passar em revista os fenômenos do sonho, vimos, em primeiro lugar, que este possui uma capacidade renovadora que os dados conhecidos da psicologia e da fisiologia não explicam satisfatoriamente. Vimos que poderia existir durante o sonho um aumento do grau de coordenação e de centralização do controle muscular e uma clareza e vivacidade maiores das percepções encefálicas, que indicam uma compreensão mais exata do que na vigília, das modificações intraperiféricas. De conformidade com esse ponto de vista, encontramos ainda que o eu que dorme pode ter experiências sensoriais e emocionais mais intensas do que durante a vigília e capazes de produzir efeitos duradouros sobre o corpo e o espírito. Vimos também, finalmente, que as impressões corporais e espirituais específicas, cujo conjunto constitui o que chamamos memória, podem, durante o sonho, ser mais profundas e possuir um conteúdo mais rico do que a memória desperta. E não só a memória se encontra dessa forma identificada, mas também o raciocínio, o cálculo, a argumentação, porque vimos casos em que os problemas foram resolvidos durante o sonho, enquanto que sua solução foi buscada em vão durante a vigília.

Existem indícios fragmentários de uma inutilidade prática se se quiser, da existência durante o sonho de capacidades que agem sobre os mesmos temas que as do estado de vigília e com freqüência com potência maior. Mas vimo-nos obrigados a levar mais adiante nosso estudo e a perguntarmo-nos se, durante o sonho, o eu não manifesta capacidades de uma ordem diversa das capacidades pelas quais nossa consciência desperta mantém nossa atividade. E constatamos que assim era, de fato, que o espírito do eu adormecido era capaz de relações que desafiam os limites espaciais, de percepção telestésica de cenas distantes, de comunicação telepática com pessoas distantes e, inclusive, com espíritos, dos quais não se pode dizer que estejam perto ou distante, uma vez que estão libertos da prisão carnal.

As conclusões que advêm destas observações estão em perfeito acordo com a hipótese que serve de base à minha obra.

Pretendia que o homem representava um organismo constituído e possuído por uma alma. Esta opinião implica a hipótese segundo a qual viveríamos em dois mundos, ao mesmo tempo, levando uma vida planetária neste mundo material, frente à qual nosso organismo está destinado a reagir, e uma vida cósmica no mundo espiritual ou metaetéreo, que constitui o meio natural da alma. Esse mundo invisível é o que proporciona a energia destinada a constantemente renovar o organismo. Não podemos entender essa renovação: não podemos imaginá-la como um processo protoplasmático, ou como uma relação entre o protoplasma, o éter e algo que se encontra além do éter e sobre o qual será inútil discutir agora.

Admitindo, pelas necessidades da causa, essas afirmações audazes, temos, igualmente, que reconhecer que é necessário que a atenção da alma se abstraia, com freqüência, das coisas do mundo, a fim de prosseguir com maior intensidade, o que poderíamos chamar de sua tarefa protoplasmática, a manutenção das relações fundamentais íntimas entre o organismo e o mundo espiritual. Esse estado mais denso, por corresponder a necessidades mais fundamentais e primitivas, deve ser mais primitivo que o estado de vigília. E, na realidade, é assim: o sonho é o estado que predomina na criança; o estado pré-natal assemelha-se mais ao sono do que à vigília, o mesmo ocorrendo com nossos antepassados inferiores. Por ser mais primitivo, o sono é, acima disso, mais geral e plástico.

Temos, assim, duas fases da personalidade que se desenvolvem em direções opostas, e perseguindo diferentes objetivos, mas que têm um tronco comum. A personalidade da vigília desenvolverá os órgãos dos sentidos exteriores e se adaptará progressivamente a uma vida subjugada pelas relações com o mundo exterior. Esforçar-se-á em submeter os recursos da personalidade a um domínio cada vez mais completo e alcançará seu ponto culminante naquilo que chamamos gênio, quando, em sua busca de fins definidos, tenha conseguido unir, no que for possível, o subliminar com o supraliminar.

A personalidade, tal como se manifesta no sono, se desenvolverá em direções difíceis de prever. Que fará, além disso, da intensificação comum da força reparadora? Segundo minha teoria, só nos resta presumir que no seu desenvolvimento dará mostras de uma crescente tendência a tornar a alma menos exclusivamente ligada à atividade do organismo. A alma prescindirá, cada vez mais, da superfície específica das coisas materiais (que se nos perdoe esta pobre metáfora) para entrar numa zona na qual as relações existentes entre a matéria e o espírito já sejam estabelecidas através do éter ou, de outro modo, serão mais profundamente distintas. Esta mesma abstração da superfície, ao diminuir o poder sobre os processos musculares complexos, aumenta o que possuímos sobre os processos orgânicos profundos e, ao mesmo tempo, a potência de ação que a alma é capaz de desenvolver nesse mundo espiritual, ao qual o sonho nos aproxima.

Concorde com este conceito do sono, não deve surpreender-nos a possibilidade existente de aumentar a proporção do sono com relação à vigília, com ajuda da sugestão hipnótica. Tudo quanto podemos dizer é que, mesmo reconhecendo à alma o direito de pretender uma quantidade mínima de sono, necessária para manter o corpo com vida, não podemos atribuir limite algum superior à quantidade de sonho que é suscetível de pretender, isto é, à quantidade de atenção que pode reclamar em favor das operações especiais do sono, em comparação com as da vida de vigília.54

Aqui se encerra o nosso estudo do sono. Se a hipótese que sugerimos explica os fatos que citamos no desenrolar deste capítulo, só o faz em favor de afirmações demasiado audaciosas para serem aceitas sem confirmação ulterior. É nosso dever prosseguir, nos capítulos seguintes, o desenvolvimento da personalidade que se manifesta no sono, nas duas direções por nós indicadas, a de reparação orgânica, através do sono hipnótico e a da atividade independente da alma na possessão e no êxtase.




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