Fredrich W. H. Myers a personalidade Humana



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Prefácio


O livro que finalmente decidi publicar não é mais do que uma exposição parcial de um tema em pleno desenvolvimento e que esperei por muito tempo poder tratar de maneira mais satisfatória. Mas, à medida que o conhecimento se completa, a vida se vai e eu preferi aproveitar os anos que me sobram para agregar, com este manual tão imperfeito, minha contribuição a uma ordem de investigações cuja novidade e complexidade exigem necessariamente sistematização provisória, com a esperança de que, ao sugerir novas investigações, e com o acúmulo de novos dados, logo será ultrapassada e superada. Poucos críticos deste livro perceberão melhor do que eu os seus defeitos e as suas lacunas; mas são poucos também os que até agora compreenderam toda a importância dos fatos de que trata este livro.

Grande número desses fatos já foi publicado no Phantasms of the Living;1 um número ainda maior no Comptes Rendus de la Société de Recherches Psychiques. Mas esses fatos ainda estão longe de haver adquirido cidadania na consciência científica moderna. Estou convencido de que um dia parecerá assombroso que a divulgação desses fatos tenha sido deixada a um escritor que dispõe de tempo tão restrito e de uma bagagem científica tão incompleta.

Se este livro tem algum valor, deve-o em grande parte a outras inteligências que não a de seu autor. Sua própria extensão, antes de tudo, deve-se ao trabalho de dois amigos devotados e inestimáveis colaboradores, a cuja memória o dedico.

A parte que corresponde a esses pranteados colegas, Henry Sidgwick e Edmund Gurney, ainda que formado por sua natureza e quantidade o elemento essencial deste livro, não pode ser definida de modo exato e completo em vista das mudanças ocorridas desde a morte de ambos. Mas é possível avaliar até certo ponto a importância de sua colaboração no que concerne à revisão de meus trabalhos anteriores, às experiências realizadas em conjunto, aos pensamentos e às descobertas originais. As enormes citações tomadas diretamente de Edmund Gurney têm por objetivo mostrar o grau de intimidade que, até sua morte, nos unia no trabalho comum. Mas o benefício que recebi desta associação tem ainda um sentido mais profundo. Sempre visamos demonstrar que para este estudo há a necessidade de uma sustentação moral íntima. Um homem isolado, um excêntrico, ou um homem que viva cercado de indivíduos de inteligência inferior à sua pensará, talvez, que é fácil trabalhar com segurança numa obra que sabe, de antemão, ser desprezada ou ignorada pela massa de seus contemporâneos. Mas a obra é mais difícil para um homem que se sente unido por numerosos laços a seus semelhantes e que deseja viver com espíritos iguais ou superiores ao seu. Um homem assim não pode desdenhar a reprovação, explícita ou implícita, do importante grupo de pessoas cujas opiniões concernentes a outros temas aprendera a estimar.

Não necessito dizer que a atitude do mundo científico e do mundo intelectual em geral era, naquela época, mais caracterizada que na atualidade. Hoje escrevo com plena consciência do escasso valor que se dá, geralmente, aos estudos que realizo. Hoje em dia um livro sobre o tema que enfrento deve esperar não somente críticas legítimas e justificadas, mas também o desdém e a oposição que excitam naturalmente toda novidade e toda heterodoxia. Não quero, porém, transformar em ato de coragem uma empresa que a geração seguinte verá, talvez, como a coisa mais natural do mundo. Nihil ausi nisi vana contemnere 2 – esta será, certamente, a saudação mais animadora que se dirigirá à nossa temerária independência.

Contudo, o reconhecimento me obriga a dizer que, mesmo tendo podido pensar, no meu foro íntimo, “dar prova de valor desprezando as coisas vãs”, não me atreveria nunca a aplicar os meus conhecimentos de diletante a uma publicação desta envergadura, se o meu respeito pelas opiniões de meus amigos não me houvesse aumentado um pouco a confiança em mim mesmo. Seus favores e sua amizade converteram em prazer a parte que eu realizei neste trabalho, fazendo-me considerar um verdadeiro dever a publicação deste livro.

Resta-me, ainda, agradecer a outro colega desaparecido, o Dr. A. T. Myers, que me ajudou durante anos em todas as questões médicas tratadas durante o desenrolar deste livro.

Sou também muito reconhecido aos correspondentes que me cederam os seus depoimentos originais e à Société de Recherches Psychiques pela autorização de utilizá-los. Contudo, devo deixar ao próprio livro o cuidado de indicar mais particularmente tudo quanto devo a numerosos homens e mulheres, e qual é a extensão do trabalho e o interesse do que vai exposto e apresentado nestas páginas.

Este livro é, com efeito, mais uma exposição do que uma demonstração. Minhas débeis forças não me permitiriam resumir o acúmulo de dados já reunidos nos dezesseis volumes do Comptes Rendus, nos nove volumes do Journal, no Phantasms of the Living e em outros livros e coleções manuscritas. Este ramo do conhecimento exige, como todos os demais, estudo cuidadoso dos que desejam compreendê-lo e fazê-lo avançar.

O que me propus nesta obra foi somente tornar este conhecimento mais acessível, coordenando-o de uma forma tão clara e inteligível quanto me permitiram os meus limitados recursos pessoais e natureza mesma dos fatos.



F. W. H. Myers

I
Introdução


Na longa história dos esforços do homem para compreender a sua própria natureza e assenhorear-se do seu destino, existe uma lacuna ou omissão singular que, mesmo se mais tarde tentássemos explicá-la, sua mera constatação teria sempre o ar de um paradoxo. Isto é tão verdadeiro que o homem nunca sonhou aplicar aos problemas que o interessam de modo mais íntimo os mesmos métodos de investigação que com eficácia aplicou a todos os demais problemas.

A questão que mais importa ao homem é a de saber se ele possui ou não uma alma imortal ou, para evitar a palavra imortal, que pertence ao domínio do infinito, se a sua personalidade implica algum elemento suscetível de sobreviver à morte corporal. Os terrores mais graves, as esperanças mais elevadas que tenham oprimido ou estimulado os espíritos humanos sempre estiveram ligados a essa questão.

De outro lado, o método que nossa raça encontrou como mais eficaz para aquisição de conhecimento é agora familiar a todo o mundo. É o método da Ciência moderna, o procedimento que consiste em interrogar a Natureza sem paixão e sem preconceito, de modo paciente e sistemático, mediante experimentação minuciosa e registro dos resultados que permitam adivinhar as verdades mais árduas segundo as indicações quase sempre mais simples. Esse método é seguido atualmente em todo o mundo civilizado e, mesmo que em certos aspectos as experiências se mostrem difíceis ou duvidosas, os fatos raros e incompletos, a Ciência prossegue lentamente sua obra e aguarda o seu momento, negando-se a cair na tradição ou lançar-se à especulação, porque as veredas estreitas são as únicas que levam aos descobrimentos memoráveis, às verdades indiscutíveis.

Esse método, dizemos, não foi aplicado nunca ao problema capital concernente à existência, às faculdades e ao destino do espírito humano, embora essa omissão não esteja baseada na convicção geral da insolubilidade do problema. Sem dúvida, a fórmula agnóstica, quase diria a superstição científica que se resume nas palavras ignoramus e ignorabimus, conta agora com partidários entre os sábios; mas nunca constituiu, tanto hoje como antes, a crença geral do gênero humano. Existe desde uns dois mil anos, na maioria dos países civilizados, a crença de que a sobrevivência após a morte corporal foi provada indiscutivelmente por certos fenômenos que, em determinado momento, foram observados na Palestina. E fora da crença cristã, os homens guiados pela razão ou pelo instinto, ou mesmo pela superstição, acreditaram sempre que certos fenômenos espirituais eram o testemunho de uma vida cujos limites ultrapassavam a vida que conhecemos.

Mas até agora nenhum dos que, por motivos incertos ou definidos, acreditam que a questão possa ser resolvida ou que se tenha solucionado graças à observação humana e aos fatos objetivos, não realizou nenhuma tentativa séria para pôr em concordância essa crença com os dados científicos. Nenhum se empenhou suficientemente em confirmá-la, dar-lhe explicações, estabelecer analogias. Todos se contentaram em limitar as suas convicções relativas a essas questões capitais, num compartimento isolado do próprio cérebro, compartimento destinado à religião e à superstição, não à observação e ao experimento.

O fim deste livro, como o foi, desde seu início, o da Société de Recherches Psychiques, graças à qual pude reunir a maioria dos documentos aqui acumulados, é mostrar o que se pode fazer para suprimir esse tabique artificial de separação que excluía, até este momento, do domínio científico exatamente os problemas para cuja solução há maior necessidade de processos e métodos científicos.3

Devo dizer, antes de tudo, que a palavra científico significa para mim uma autoridade a que me submeto, não um modelo que tenha a pretensão de realizar. A Ciência de que falo não pode ser mais do que uma ciência nascente, não um desses vastos sistemas de conhecimentos reunidos para cuja consecução trabalham milhares de especialistas em seus laboratórios, senão algo semelhante a um desses sistemas em seus modestos começos, quando alguns monges buscavam as propriedades dos metais nobres ou quando alguns pastores caldeus estudavam a posição das estrelas fixas.

Proponho-me, unicamente, dar aqui o simples rudimento socrático desses organismos do pensamento exato, os prolegômenos axiomáticos de todo progresso duradouro. Gostaria que se introduzisse na discussão dos problemas mais profundos, concernentes à natureza e ao destino humanos, a mesma análise crítica de resultados utilizada geralmente na discussão relativa à natureza e ao destino do planeta onde se movem os homens.

Conceder-me-ão, talvez, que não obstante a aparente evidência desta proposição, os que a sustentam penetram num domínio de investigações mais vasto e mais estranho do que o habitual e ultrapassam os limites estreitos nos quais, em virtude de velho convencionalismo, os partidários das diferentes soluções dessas questões estiveram confinados até agora.

Uma breve explanação de certos fatos históricos conhecidos contribuirá para esclarecer a minha opinião. Comecemos perguntando por que motivo, enquanto uns consideram solucionável o problema da sobrevivência do homem mediante as provas suficientes, e outros acham insuficientes as provas tradicionais, ordinariamente oferecidas, nenhuma das partes fez um esforço sério para averiguar se não seria possível conceber outras provas mais recentes.

Para nós, o motivo é bastante simples: numa raça cujos esforços estão inteiramente voltados para a satisfação das necessidades imediatas da vida, a importância capital deste problema central encontrava sempre fechado o caminho de seu exame metódico e científico.

Há algumas crenças para cuja verificação a humanidade não teve tempo de esperar. “O que devo fazer para saber o que sou?” Eis uma questão que tem a mesma importância da causa das marés ou das manchas solares. O homem tem necessidade de uma firme convicção no que concerne ao que deve temer ou esperar da parte do mundo invisível. As crenças surgem na razão direta dessa necessidade de acreditar, e para que se mantenham reclamam uma única lei. Com essas crenças específicas nasce o costume geral de considerar tudo o que diz respeito ao mundo invisível como tabu, como escapando à observação e ao exame comuns.

Passemos das generalidades à história positiva da civilização ocidental. Na época em que as múltiplas crenças locais, rituais, disseminadas como soluções parciais de problemas cósmicos, destroem-se mutuamente por simples contato e fusão, produziu-se um acontecimento que, nos reduzidos anais da civilização humana em seus albores, pode ser considerado como ímpar. Foi vivida uma vida durante a qual a resposta mais alta que o instinto moral humano jamais recebera, viu-se corroborada por fenômenos que todo o mundo considera milagrosos e dos quais a Ressurreição foi a expressão culminante. Seria ilegítimo da minha parte recorrer, para favorecer minha opinião, aos argumentos proporcionados pelos fenômenos dessa Ressurreição. Tendo apelado à Ciência, procedo de acordo com ela, considerando incoerente invocar o que a Ciência, no sentido estrito da palavra, considera como uma tradição da época pré-científica.

Mas sabemos que essa grande tradição, considerada como fato, ganhou a adesão e a fé da maioria dos espíritos europeus. Os resultados completos que se seguiram ao triunfo do Cristianismo foram discutidos por número enorme de historiadores. Todavia, um resultado que vemos sob luz nova foi o de que a igreja cristã, a religião cristã, se converteram para os europeus em defensores e representantes válidos de todos os fenômenos que dizem respeito ao mundo invisível. Enquanto o Cristianismo predominou, todos os fenômenos que pareciam ir além da experiência ficavam absorvidos por ele e eram considerados como indícios secundários da atividade de seus anjos e de seus demônios. E quando o Cristianismo começava a ser seriamente atacado, essas manifestações secundárias foram perdidas de vista. Os sacerdotes achavam mais prudente defender suas tradições e instituições, em lugar de se aventurarem na busca de provas independentes que favorecessem a existência de um mundo espiritual. Seus inimigos esforçavam-se por destruir os baluartes da ortodoxia, ignorando a existência de certas praças-fortes isoladas que não formavam parte da linha de defesa principal.

Contudo, as leis da Natureza seguiam o seu caminho habitual. Como sempre, revelavam coisas que já haviam sido reveladas antes e, de vez em quando, algum fenômeno maravilhoso, mais semelhante às histórias de outras épocas do que se admitia, deslizava-se entre a superstição de um lado e a indiferença de outro. A Magia, o Mesmerismo, o Swedenborguianismo, o Espiritismo, apareceram sucessivamente entre numerosos outros fenômenos de menor importância, como testemunhos da necessidade de uma investigação mais profunda. Algumas palavras a propósito desses quatro movimentos bastarão para mostrar o seu relacionamento com o tema de que nos ocupamos.

A magia – O ensino que resulta da magia, no que diz respeito ao valor do testemunho humano, é tanto mais notável por ter sido completamente desconhecido durante muito tempo. A crença nas bruxas passou durante muito tempo como o exemplo mais notável de ignorância e loucura humanas. Num livro relativamente recente como a Histoire du Rationalisme, de Lecky, o declínio repentino dessa crença popular é indicado como um sinal do desaparecimento irresistível do erro e da ignorância, sob a influência da atmosfera intelectual de uma época mais esclarecida. Mas, depois das experiências praticadas na França, a partir de 1880, ficou demonstrado em que coisas uma mulher histérica pode acreditar, sob a influência da sugestão exterior ou da auto-sugestão. Começou-se a entender que os fenômenos da magia eram o que os fenômenos observados em Salpêtrière pareceriam às enfermas, se as tivessem deixado sozinhas no hospital, sem qualquer intervenção médica.4

Edmund Gurney, depois de ter, em Phantasms of the Living, submetido toda a literatura sobre a magia a uma análise mais minuciosa da que se considerara digna até aquela data, demonstrou igualmente que, do ponto de vista prático, todas as declarações de primeira mão, feitas espontaneamente, isto é, sem ter sido provocadas pela tortura, podem ter sido verdadeiras ou consideradas como tais pelos declarantes, representando a convicção de pessoas sãs (posto que freqüentemente histéricas) que somente eram culpadas de confundir alucinações, produto da auto-sugestão, com fatos da vida real. Inclusive as regiões insensíveis das bruxas eram, sem dúvida, realmente anestésicas, representando um sintoma bem conhecido hoje, as zonas analgésicas de Pitres e de Charcot. A bruxaria foi, na realidade, uma experiência psicopatológica gigantesca e cruel, praticada pelos investigadores da histeria, mas praticada às cegas, sem que fosse possível utilizar os resultados.

O mesmerismo – As possibilidades latentes da sugestão, ainda que sob outro nome e associadas a muitos elementos estranhos, saíram novamente à luz com o movimento inaugurado por Mesmer, simultaneamente inventor e charlatão. Ainda desta vez a época não estava bastante madura e a oposição científica, embora menos avassalante que a oposição religiosa que mandava os feiticeiros para a fogueira, foi suficientemente forte para deter de novo a ciência nascente. Em nossa geração, apenas uma terceira tentativa recebeu melhor acolhida. E atualmente o Hipnotismo e a Psicoterapia, nas quais todo fato bem provado de feitiçaria e de mesmerismo encontra, se não a sua explicação, pelo menos a sua analogia, estão a ponto de impor-se como métodos excelentes de alívio das misérias humanas.5

Esse rápido esboço do desenvolvimento, mediante impulsos sucessivos, numa atmosfera de desconfiança e desânimo, de um grupo de tendências e faculdades mentais e de sensibilidades reconhecidas hoje como realmente existentes, e com freqüência saudáveis, é paralelo à história do desenvolvimento, entre dificuldades análogas, de outro grupo de faculdades ou de sensibilidades cuja existência, sempre discutida, caso se estabelecesse com firmeza, teria para a humanidade uma importância ainda maior.

Em nenhuma das épocas que conhecemos, nem antes nem depois da era cristã, a série de manifestações de êxtase ou de possessão, que se presumia em comunicação com um mundo superior, deixaram de existir inteiramente. Às vezes, como na época de Santa Teresa, os êxtases desse gênero constituíam, por assim dizer, o fato central ou culminante do mundo cristão. Não vou me ocupar aqui desses experimentos. As provas existentes a seu favor são de caráter eminentemente subjetivo e estarão mais bem colocadas numa discussão ulterior, relacionada com o grau de confiança que se pode conceder à interpretação dada a seus próprios fenômenos pelas pessoas interessadas.

Contudo, entre essas largas séries encontra-se a história excepcional, por assim dizer, de Emanuel Swedenborg. É sabido que, neste caso, parecem ter existido provas objetivas excelentes, tanto de clarividência e telestesia como de comunicação com os mortos. E não podemos deixar de lamentar que o filósofo Kant, que estava em parte convencido do poder paranormal de Swedenborg,6 não tenha levado mais longe uma análise que valeria, pelo menos, tanto quanto as demais a que aplicou o seu espírito superior. Mas, independentemente dessas provas objetivas, o fato era em si mesmo suficientemente interessante para atrair a atenção durante mais tempo. É-me impossível discutir aqui a estranha mistura que apresentam as revelações de Swedenborg, de literalismo servil e de especulação exaltada, de ortodoxia pedante e de temeridade que lhe permitiram olhar e ver muito mais adiante do que era acessível à sua época. Basta-me dizer que, se Sócrates fez descer a Filosofia do céu à terra, Swedenborg, noutro sentido um pouco diferente, fê-la subir novamente ao céu, criando a noção de ciência do mundo espiritual de forma tão séria, ainda que de uma maneira menos persuasiva, como Sócrates criou a idéia da ciência do mundo, tal como a conhecemos.

Swedenborg foi o primeiro para quem o mundo invisível era principalmente um domínio das leis, como uma região onde reinam não só a emoção etérea e a adoração imóvel, mas um progresso definido, resultado de relações definidas entre causas e efeitos, de leis fundamentais que presidem a existência e as relações espirituais, que um dia chegaremos a perceber e formular. Não considero Swedenborg nem como um profeta inspirado nem como um comentarista digno de confiança no tocante às suas próprias experiências, senão como um ilustre precursor desta grande ciência à qual nos propomos trazer nossa contribuição.

O precursor seguinte, que felizmente ainda vive, que devo mencionar nesta breve nota, é o célebre físico-químico, Sir W. Crookes.7 Da mesma forma que Swedenborg, foi o primeiro cientista ilustre que tratou de, honestamente, provar mediante experiências de uma precisão científica as recíprocas influências que existem entre o mundo espiritual e o nosso e sua contínua interpenetração. Mas enquanto Crookes contentou-se com estabelecer certos fatos paranormais, sem ir mais além, há um grupo de pessoas que fundamentaram sobre esses fatos e outros análogos um esquema de crença, conhecido sob o nome de Espiritualismo Moderno ou Espiritismo. Os capítulos seguintes mostrarão tudo o que devo às observações feitas pelos membros desse grupo. E, ao mesmo tempo, ver-se-á que mais de uma vez minhas conclusões coincidem com as conclusões a que eles chegaram anteriormente. Por esse motivo esta obra constitui, na maior parte, uma refutação crítica do principal dogma espírita, do qual Alfred Russel Wallace é atualmente o partidário mais ilustre, segundo o qual todos os fenômenos paranormais se devem à interferência dos espíritos dos mortos.8

Acredito, ao contrário, serem devidos, na sua maioria, à ação de espíritos encarnados, quer do próprio sujeito ou de um agente qualquer. Mas, apesar das diferenças especulativas que nos separam, estou concorde com ele em não desejar que o que considero como um ramo da investigação científica, que decorre naturalmente de nossos conhecimentos atuais, degenere numa crença sectária. Acredito que, na maior parte, deve-se à adesão irracional que, com freqüência, degenera numa credulidade cega, o escasso progresso da literatura espírita e os estímulos que os cientistas encontraram num grande número de manifestações fraudulentas para se declararem hostis ao estudo dos fenômenos registrados e defendidos por meios e procedimentos tão contrários à Ciência.

Não sei que grau de originalidade e de importância atribuiriam os nossos pósteros a contribuição que trouxemos para a solução desses problemas. Por volta de 1873, quando o materialismo que acabava de invadir nossas costas estava, por assim dizer, em seu apogeu, um pequeno grupo de amigos, reunidos em Cambridge, imbuiu-se da convicção de que as profundas questões em litígio mereciam uma atenção e um esforço mais sério do que o que lhes tinham sido consagrados até então. A meu ver, nenhuma tentativa digna de tal nome havia sido feita até então para determinar se somos ou não capazes de saber algo a respeito do mundo invisível. E adquiri a convicção de que se algo relacionado a esse mundo podia ser conhecido, de tal forma que a Ciência pudesse adotar e manter esse conhecimento, não era como conseqüência do exame da tradição, nem com ajuda de especulações metafísicas, senão simplesmente pela experiência e a observação, pela aplicação aos fenômenos que se passam em torno de nós e dentro de nós, dos mesmos métodos de investigação exata, imparcial, prudente, aos quais devemos o conhecimento do mundo visível e palpável.9

Alguns de meus atuais leitores verão nisto, talvez, uma redundância, outros um paradoxo. Mas, redundância ou paradoxo, este pensamento tornava necessário um esforço que, segundo entendo, não havia sido feito anteriormente. As investigações que se impunham não podiam se limitar à simples análise de documentos históricos ou às origens desta ou daquela revelação do passado. Essas investigações deveriam basear-se, como toda investigação científica, no sentido estrito da palavra, em fatos subjetivos realmente observáveis, e repousar em experiências que pudéssemos repetir hoje com a esperança de superá-las amanhã. Não se podia tratar mais que de investigações baseadas, para empregar uma expressão ultrapassada, na hipótese uniformizada, isto é, na proposição de que, se existe um mundo espiritual, e se esse mundo foi, numa época qualquer, suscetível de se manifestar e de ser descoberto, pode-se fazer o mesmo em nossos dias.

Deste lado, e partindo dessas considerações, o grupo ao qual pertencia abordara o tema. Nossos métodos, nossos princípios, tudo estava por fazer. Fazendo todo o possível para descobrir as provas, reunindo em torno de nós um pequeno grupo de pessoas desejosas de ajudar-nos na investigação dos fenômenos obscuros, relativos à natureza e à experiência do homem, finalmente tivemos a sorte de descobrir num ponto definido e importante um acordo entre os dados experimentais e os dados espontâneos. Chegamos a acreditar que não estava desprovida de verdade a tese que, desde Swedenborg e os primeiros mesmeristas, foi formulada freqüentemente, ainda que de um modo superficial e ineficaz, segundo a qual podem estabelecer-se comunicações de espírito a espírito sem intervenção de órgãos sensoriais conhecidos. Achamos que o fator por meio do qual se produzem as comunicações desse gênero, susceptíveis de serem discernidas com ajuda de provas apropriadas em ocasiões habituais, parecia associado a um fator mais ativo e, em todo caso, mais reconhecível, que se manifestava nos momentos críticos ou na hora da morte. Edmund Gurney, o colaborador e amigo imprescindível, cujo desaparecimento, ocorrido em 1888, foi para nós uma fonte de profundos desânimos, havia exposto esses dados numa grande obra, Phantasms of the Living, em cujo preparo Gurney e eu tivemos somente um papel secundário. Os quinze anos transcorridos desde a publicação desse livro aumentaram os elementos de que dispunha Gurney e mostraram (atrevo-me a afirmar) o valor geral do conjunto de provas e de argumentos que serviram de materiais à sua obra.

É, com efeito, de importância capital a doutrina da telepatia, que se pode considerar como a primeira lei oferecida à curiosidade humana e que, mesmo operando no mundo material, é, na minha opinião, ao menos uma lei do mundo espiritual ou metaetéreo. Tratarei de mostrar, no desenvolver desta obra, mediante numerosos exemplos, a importância das conseqüências que se depreendem da doutrina das comunicações interespirituais diretas ou parassensoriais. Entre essas conseqüências, a mais importante é a luz que derrama essa descoberta sobre a natureza íntima do homem e sobre a possibilidade da sua sobrevivência após a morte.

Descobrimos gradualmente que as narrações que tratam das aparições no momento da morte, e são testemunhos de uma comunicação parassensorial entre o moribundo e o amigo que o vê, conduzem-nos diretamente, sem nenhuma aparente solução de continuidade, às aparições que sobrevivem à morte da pessoa vista, sem que o sujeito tivesse conhecimento da morte, as quais são devidas, não à emergência de latente recordação, mas antes à ação persistente do espírito da pessoa morta. A tarefa que nos incumbia, imediatamente, era a de colecionar e analisar os dados desta categoria e muitos outros, com o fim de provar a sobrevivência espiritual do homem.

Mas, após haver continuado nessa tarefa durante alguns anos, dei-me conta de que a passagem da ação do espírito encarnado para a do espírito desencarnado era de uma natureza demasiadamente brusca, quer me parecer. À medida que se acumulavam as provas a favor das aparições, o indivíduo percebia que as aparições dos vivos formavam uma seqüência contínua com as dos defuntos. Mas todo o conjunto de provas que, à primeira vista, propendia a mostrar a sobrevivência do homem, era de um gênero muito mais complexo. Essas provas consistiam, por exemplo, em grande parte, em manifestações faladas e escritas que se traduziam por intermédio da mão e da voz da pessoa viva, mas empenhadas em fazer crer que tinham sua origem num espírito desencarnado. A essas manifestações, apreciadas em seu todo, não se aplicou, até agora, um critério satisfatório.

Considerando os casos desse gênero, vi claramente que, antes de poder afirmar com certeza que tal conjunto de manifestações implica numa influência de além-túmulo, era necessário submeter as faculdades da personalidade encarnada do homem a uma análise mais profunda do que a considerada pelos psicólogos, pouco a par dos novos dados, como suficiente.

Lentamente, e como impulsionado pela necessidade, propus-me uma tarefa que, para ser realizada completamente, exigia conhecimentos e capacidades superiores aos que eu possuía. O esboço, realmente sumário, que constitui o fruto de meus esforços, não é, a meu ver, mais do que um ensaio preparatório que precederá a um tratamento mais completo e profundo do tema que o novo século receberá, estou seguro, de mãos mais competentes. Este livro terá já alcançado um grande sucesso se puder ser logo superado por outro melhor; porque isso será a prova de que não me equivoquei ao afirmar que o tratamento sério dessas questões nada mais é que o complemento e a conclusão inevitáveis do processo lento pelo qual o homem reuniu seguidamente, no domínio da Ciência, todos os grupos de fenômenos acessíveis, todos, à exceção deste.10

Abordo, sem mais preâmbulo, o exame das faculdades humanas, tal como se manifestam nas diferentes fases da personalidade, com a esperança de tirar delas os elementos que nos permitam compreender melhor esses fenômenos pouco conhecidos. Evitarei, o quanto possível, nesta discussão, tudo o que seja do domínio da Metafísica ou da Teologia. Evitarei a Teologia porque penso, como já disse, que usando os argumentos fundados na experiência e na observação, não tenho o direito de apelar para as considerações tradicionais ou subjetivas, qualquer que seja a sua importância. Por análogas razões não quero começar a expor a idéia da personalidade por um resumo histórico das opiniões filosóficas que diferentes pensadores professaram a respeito, nem especular sobre matérias não susceptíveis de uma prova objetiva. Nada mais farei do que resumir, com a maior brevidade possível, duas opiniões sobre a personalidade humana que não podemos separar, ou seja: o antigo ponto de vista do bom senso, e que é ainda o da maioria das criaturas, e o ponto de vista mais recente da Psicologia experimental, que considera a personalidade humana ou animal como um conjunto de elementos heterogêneos, um composto.

O seguinte trecho, de uma famosa obra de Reid, Essai sur les facultés intellectuelles de l’homme, expressa o primeiro desses pontos de vista:

“A convicção que todo homem possui de sua própria identidade, por mais distantes que remontem as suas recordações, não necessita do socorro da Filosofia para ser reforçada e nenhuma filosofia é capaz de debilitá-la sem haver determinado previamente um certo grau de loucura... Minha identidade pessoal implica, conseqüentemente, a existência contínua dessa coisa indivisível que chamamos eu. Seja o que for esse eu, é algo que pensa, reflete, resolve, trabalha e sofre. Não sou nem pensamento, nem ação, nem sentimento; sou algo que pensa, trabalha e sofre. Meus pensamentos, atos e sentimentos mudam constantemente; constituem uma existência sucessiva, não contínua; mas o eu ao qual pertencem é permanente e conserva uma posição invariável com relação a todos os pensamentos, todas as ações e todos os sentimentos que se sucedem e que eu chamo de meus... A identidade de uma pessoa é uma identidade perfeita; no que é real, não admite graus, é impossível que uma pessoa seja em parte a mesma, em parte diferente, porque uma pessoa é uma mônada, isto é, indivisível. A identidade aplicada às pessoas não sofre nenhuma ambigüidade, não admite graus de mais ou menos. É a base de todos os direitos, de todas as obrigações e de todas as responsabilidades, e sua noção é fixa e precisa.” 11

Em oposição a esse trecho citaremos o que forma a conclusão do ensaio de Ribot sobre As Enfermidades da Personalidade:

“A personalidade consiste no organismo e no cérebro, sua manifestação suprema, contendo em si os restos de tudo aquilo que fomos e as possibilidades de tudo o que seremos. O caráter individual inteiro está ali inscrito, com suas aptidões ativas ou passivas, suas simpatias e antipatias, seu gênio, seu talento ou sua imbecilidade, suas virtudes ou seus vícios, sua inércia ou sua atividade. O que emerge até à consciência é pouco em comparação com o que fica enterrado, posto que ativo. A personalidade consciente nada mais é que uma débil parte da personalidade física.

A unidade do eu não é, pois, a da entidade una dos espíritas que se dissolve em múltiplos fenômenos, senão a coordenação de determinado número de estados que renascem sem interrupção e que têm como único ponto de apoio o sentimento vago de nosso corpo. Essa unidade não vai de cima para baixo, mas de baixo para cima; não é um ponto inicial, mas um ponto final.

Existe a unidade perfeita? No sentido rigoroso, matemático, evidentemente não. No relativo encontra-se raramente e de passagem. No excelente atirador que aponta, no hábil cirurgião que opera, o sentimento da personalidade real desaparece, o indivíduo consciente fica reduzido a uma idéia, de forma que a perfeita unidade de consciência e o sentido da personalidade se excluem. Retornamos, por outro caminho, à mesma conclusão: o eu é uma coordenação. Ele oscila entre esses dois pontos extremos, além dos quais deixa de ser a unidade pura, a não-coordenação absoluta.

A última palavra sobre isso é que o consenso da consciência, estando subordinado ao consenso do organismo, o problema da unidade do eu é, em sua forma íntima, um problema biológico. Cabe à biologia explicar, se puder, a gênese dos organismos e a solidariedade de suas partes. A interpretação psicológica não pode deixar de segui-la.” 12

Eis duas maneiras de ver que afiguram-se-nos incompatíveis, uma sugerida pela nossa consciência interna e a outra pela observação que não admite réplica. Os partidários do conceito: o eu é uma coordenação, isto é, da Psicologia experimental, abandonaram honestamente toda noção de unidade, de vida independente do organismo, numa palavra, de alma humana. Por outro lado, os partidários da unidade do eu, ainda que não tenham sido sempre suficientemente explícitos na sua negação da opinião exposta, contentaram-se em ignorá-la. Que eu saiba, não se fez esforço algum para conciliar as duas opiniões mediante uma síntese mais profunda. E se me iludo de haver realizado nesta obra um esforço nesse sentido, não o foi remendando os velhos e gastos argumentos metafísicos. Essa é uma tarefa da qual não me sinto capaz, mas pensei humildemente que estamos de posse de novos dados que permitem considerar a questão sob uma nova luz e ao mesmo tempo resolver a controvérsia por um juízo a favor de ambas as partes, e mais decisivo do que era lícito esperar. Por um lado, a favor dos partidários da coordenação, pode-se dizer que toda a sua decomposição do eu em seus elementos constitutivos, tudo quanto invocam em termos de observação positiva e de experiência objetiva, deve ser mantido sem restrições. Deixemo-los levar a sua análise tão longe quanto queiram; deixemo-los descer, se podem, a esses últimos e infinitesimais elementos psíquicos que formam a estrutura complexa, composta, coletiva do homem. Com isso terão feito um trabalho válido e importante. Mas as conclusões negativas dessas escolas estarão fortemente limitadas. Uma investigação mais profunda, mais audaz na direção que preconizam, mostra que se equivocaram ao afirmar que a análise não provava a existência de nenhuma faculdade além daquela que a vida terrena, tal como eles a concebem, é capaz de produzir e o meio terrestre de utilizar. Porque, na realidade, a análise revela os indícios de uma faculdade que a vida material ou planetária jamais poderia engendrar e cujas manifestações implicam e necessariamente fazem pressupor a existência de um mundo espiritual.

Por outro lado, e a favor dos partidários da unidade do eu, pode-se dizer que os novos dados são de natureza a dar às suas pretensões uma base mais sólida e uma prova presuntiva que ultrapassam em valor a todas as que poderiam imaginar: a prova, particularmente a de que o eu pode sobreviver e sobrevive, realmente, não só às desintegrações secundárias que o afetam no curso de sua vida terrena, como também à última desintegração resultante da morte corporal. Na presença desta confirmação inesperada do seu sonho mais caro, podem muito bem resignar-se a sacrificar o conceito insustentável e restrito do eu unitário, que foi tudo o que a filosofia do senso comum pôde afirmar. O eu consciente de cada um de nós ou, designando-o melhor, o eu empírico ou supraliminar não pode compreender a totalidade de nossa consciência e de nossas faculdades. Existe uma consciência mais vasta, com faculdades mais profundas, da qual a consciência e as faculdades desta vida se desenvolveram em conseqüência de uma seleção. A maioria dessas faculdades permanecem latentes durante a vida terrena e só se restabelecem em toda a sua plenitude depois da morte.

Cheguei lentamente a essa conclusão, que tomou para mim a forma atual há uns 14 anos, como conseqüência de profundas reflexões baseadas em provas que se multiplicavam progressivamente. Trata-se de um conceito que foi até agora considerado como exclusivamente místico. Se eu agora me dedicar a dar-lhe uma base científica, não terei a oportunidade de poder formulá-lo em termos definitivos, nem de apoiá-lo com a ajuda de bons argumentos, que só uma experiência mais extensa é capaz de fornecer. Mas o valor desse conceito aparecerá aos olhos do leitor, se examinar a sucessão das diferentes provas expostas neste livro.

As críticas que se formularam até aqui ao meu conceito não me parecem bastante decisivas para inspirar-me a menor dúvida quanto ao seu fundamento. “Normalmente, ao menos – disse um crítico resumindo em poucas palavras a opinião corrente –, toda a consciência que temos num dado momento corresponde à atividade que se realiza no cérebro no mesmo momento. Existe um estado de consciência unitário que acompanha todas as excitações cerebrais simultâneas e cada porção do processo cerebral contribui para a constituição desse estado. Nenhum dos processos cerebrais é capaz de separar-se do resto e ter a sua própria consciência.”

Esse é, sem dúvida, o dado aparente da consciência, mas nada mais. Já demonstramos que as noções da consciência necessitam de maiores correções do que pode parecer ao observador superficial. E não temos, sem dúvida, o direito de considerar como conteúdo da consciência o que nela não encontramos, ou de admitir, por exemplo, que se pode provar que uma consciência separada do organismo não existe, pela simples razão de que não sabemos nada a seu respeito.

Mas, à medida que reveste uma expressão mais científica, esse conceito da consciência unitária tende a se tornar mais natural. Repousa sobre a concepção principal do homem, de que é uno. A Psicologia experimental tende a debilitar e desmembrar essa concepção, ao admitir a coexistência de graus de consciência localizados no cérebro e que não são, em caso algum, redutíveis a um estado único. Aqueles mesmos que pretenderiam permanecer neste lado da posição que ocupo experimentam a necessidade de recorrer a metáforas para expressar as diferentes correntes de percepções que sentimos coexistir em nós. Falam de margens da consciência comum, de associações marginais, de percepção ocasional de correntes de intensidade débil.

Todas essas metáforas podem ter sua utilidade num domínio em que a metáfora constitua nosso único meio de expressão, mas nenhuma delas consegue abranger os fatos colhidos até hoje. E, por outro lado, não há necessidade de dizê-lo, existe uma quantidade enorme de frases que colocam as questões da alma e do corpo, do espírito do homem e dos espíritos exteriores em termos que nada têm de científicos. Necessitamos de uma fórmula de aplicação mais vasta e que repouse o menos possível sobre suposições. E uma fórmula semelhante não é tão difícil de encontrar.

A idéia de limiar (Schwelle) da consciência, de um nível que um pensamento ou uma sensação devem ultrapassar para entrar na vida consciente, é tão simples quanto familiar. A palavra subliminar, que significa o que está sob o limiar, já foi empregada para designar as sensações demasiadamente débeis para serem diferenciadas individualmente. Proponho estender o sentido desse termo, de modo a ser empregado para designar tudo o que se encontra sob o limiar comum ou, se convier, fora do limite comum da consciência. Não só esses estímulos débeis, que a própria debilidade obriga a ficarem submersos, por assim dizer, mas também muitas outras coisas semelhantes que a Psicologia atual apenas percebe. Sensações, pensamentos, emoções que podem ser fortes, definidas e independentes, mas que, em virtude da constituição mesma do nosso ser, emergem raramente nessa corrente supraliminar de nossa consciência, que identificamos a nós mesmos. Como reconheço (e tratarei de justificar minha opinião durante o desenvolver desta obra) que essas emoções e pensamentos submersos possuem as mesmas características das que associamos com a vida consciente, acredito-me autorizado a falar de consciência subliminar ou ultramarginal que, como veremos, manifesta-se, por exemplo, por meio de frases escritas ou faladas tão complexas e tão coerentes que se diriam ditadas pela consciência supraliminar.

Empregando esses termos, não pretendo absolutamente afirmar que existe sempre em nós dois eus correlatos ou paralelos. Designaria melhor por eu subliminar a parte do eu que permanece ordinariamente subliminar, e admito que possa existir não só cooperação entre essas duas correntes de pensamentos quase independentes, mas também mudanças de nível e variações da personalidade, de tal forma que o que está sob a superfície pode chegar à superfície e manter-se ali de maneira mais ou menos provisória ou permanente. E considero, por fim, que todo eu do qual possamos ter consciência nada mais é que fragmento do eu mais vasto que de cada vez se revela, modificado e limitado por um organismo que não permite a sua manifestação plena e completa.

Mas essa hipótese se encontra evidentemente exposta a duas objeções que até certo ponto se neutralizam. De um lado foi atacada, como já dissemos, por ignorar abusivamente os fatos sobre os quais pretende apoiar-se, por atribuir aos momentos transitórios da inteligência inconsciente uma continuidade e uma independência maiores das que na realidade possuem. Essas ondas que se produzem na superfície podem ser explicadas – argumentam – sem que nos vejamos obrigados a admitir a existência de fontes e correntes nas camadas profundas da personalidade. Mas encontraremos em seguida um grupo de fenômenos que nos mostrará esses afloramentos subliminares, os impulsos e as comunicações que chegam das camadas profundas da personalidade às camadas superficiais, diferindo, com freqüência, pela sua qualidade, de todo elemento conhecido de nossa vida supraliminar ordinária. São diferentes porque implicam uma faculdade da qual não tivemos nenhum conhecimento precedente e por serem produzidos num meio do qual não tivemos até hoje idéia alguma.

Toda a minha obra visa justificar essa ampla afirmação. Ao admitir, para facilitar a discussão, que isso seja exato, veremos em seguida que o problema do eu latente muda inteiramente de aspecto. A telepatia e a telestesia, captação de pensamentos e percepção de cenas distantes sem intervenção dos órgãos sensoriais conhecidos, sugerem uma incalculável extensão de nossas faculdades mentais e uma influência exercida sobre nós por espíritos mais livres, menos embaraçados que o nosso. E esta segunda hipótese, que pretendia explicar todos os fenômenos paranormais pela ação dos espíritos desencarnados, parece à primeira vista simplificar o problema e foi desenvolvida por A. R. Wallace e outros até o ponto de eliminar a hipótese gratuita e incômoda, segundo ele, de um eu subliminar.

Aparecerá claramente, assim espero, durante o desenvolver desta obra, a hipótese de uma intervenção e uma direção espirituais quase contínuas, que se torna realmente necessária a partir do momento em que se negam ao homem as faculdades subliminares, cuja existência afirmo. E o meu conceito de um eu subliminar aparecerá, ao mesmo tempo, não extraordinário nem inútil, mas como uma hipótese limítrofe e racionalista, se a aplicarmos aos fenômenos que, à primeira vista, sugerem efetivamente a opinião mais extremada de Wallace, mas que eu explico pela ação do próprio espírito do homem, sem recorrer à intervenção de espíritos estranhos. Não quero dizer que essa explicação seja aplicável a todos os casos, nem que implique na exclusão completa da hipótese dos espíritos. Essas duas opiniões, pelo contrário, apóiam-se e corroboram-se mutuamente, porque esse poder de comunicação a distância existe, mesmo que o atribuamos ao nosso próprio eu subliminar. Podemos, nesse caso, influenciar-nos mutuamente a distância pela telepatia. E se os nossos espíritos encarnados podem trabalhar assim, de um modo independente, pelo menos na aparência, do organismo carnal, temos então uma presunção a favor da existência de outros espíritos independentes dos corpos e susceptíveis de nos influenciarem da mesma maneira.

Em suma, a hipótese exaustivamente debatida da intervenção espiritual aparece sempre após à do eu subliminar, mas esta hipótese intermediária deve parecer útil aos partidários de cada uma das outras duas hipóteses, mesmo que seja somente o começo de um estudo que promete delongar-se. Os que se negam a admitir a ação de outros fatores além dos espíritos das pessoas vivas ver-se-ão obrigados a formar uma convicção, a mais alta possível, das faculdades mantidas em reserva por esses espíritos enquanto vivos. Aqueles que crêem na influência dos espíritos desencarnados encontrarão na nossa hipótese um ponto de transição e ao mesmo tempo uma norma para a inteligibilidade provisória da sua hipótese.13

As especulações desse gênero tornam particularmente interessante o estudo que abordamos. Mas independentemente da sua importância, no que diz respeito às provas da vida futura, o estudo futuro de nossa lembrança submersa, desses processos que se realizam em nós e dos quais nada mais percebemos que fulgores indiretos, refratados, por assim dizer, parece, na época atual, ser exigido especialmente pelo espírito da moderna Ciência. As investigações destes últimos anos mostraram sobre que base instável e complexa, feita de experiências ancestrais, repousa a vida individual de cada um de nós. Voltamos a percorrer, num processo de recapitulação, em forma de resumo e simbolicamente, desde o embrião até o organismo completo, toda a história da vida sobre a Terra, desde milhões de anos.

Durante o decorrer de nossas adaptações a meios cada vez mais vastos deve-se ter produzido um deslizamento contínuo do umbral da consciência, consistindo na submersão do que antes se encontrava na superfície mesma de nosso ser. A cada fase de nossa evolução, nossa consciência nada mais é do que a maré fosforescente de um mar insondável, e como as marés, não unicamente superficial, mas também variada e mutável. Nossa unidade psíquica é complexa e instável; nasceu de acumulações irregulares que datam de um passado muito distante; hoje mesmo compõe-se de uma colaboração limitada de múltiplos grupos. Os psicólogos antigos encontravam o meio de ignorar essas descontinuidades e incoerências do eu. Mas a infância, a idiotia, o sonho, a loucura, a decadência, essas paradas e interrupções na corrente da consciência sempre estiveram lá, para nos mostrar, com maior força do que o poderiam fazer as hipóteses mais sutis, que a primitiva concepção da personalidade humana contínua e unitária era completamente errônea e que, se há realmente uma alma que anima o corpo, essa alma deve ser atentamente procurada por trás do corpo, que estorva e obscurece as manifestações.14

A diferença entre a velha e a nova concepção do princípio unificador ou alma (admitindo-se que a alma existe) considerada esta como manifestação através das limitações corporais, assemelha-se à diferença existente entre a velha e a nova concepção do processo pelo qual o sol se manifesta aos nossos sentidos. A noite, as nuvens de tempestade e os eclipses são por nós conhecidos desde os tempos mais remotos, mas hoje o homem sabe que mesmo ao meio dia o raio solar que ilumina, decomposto por um prisma, apresenta lados e faixas mais ou menos escuros, e aprendeu, ao mesmo tempo em que embora o aspecto pareça desvanecer em cada um dos seus extremos para extinguir-se na aparente obscuridade completa, na realidade estende-se para mais longe e contém raios de um número ilimitado, ainda não descobertos.

Acho interessante desenvolver um pouco essa analogia. Compararei os progressos sucessivos realizados pelo homem no conhecimento de si mesmo com o gradual decifrar dos mistérios da Natureza e da explicação da luz solar que lhe chega na forma de invisível mistura de luz e calor. Dessa forma, a vida de consciência, a sensação de um mundo dentro de si e de um mundo que lhe é externo, chegam à criança num indivisível impacto de chocante fulgor. A análise óptica decompõe o raio branco na infinidade de raios que o compõe. Igualmente a análise filosófica decompõe a consciência indefinida da criança em diversas faculdades, em diversos sentidos externos, em diversos modos de pensamento interior. À Psicologia descritiva e introspectiva devemos esse resultado. A Psicologia experimental leva a análise mais longe.

No espectro solar e nos espectros estelares existem numerosas linhas ou lados escuros, devidos à absorção de certos raios por alguns vapores espalhados na atmosfera do Sol, da Terra ou das estrelas. Da mesma forma, o espectro de nossas sensações e faculdades apresenta desigualdades permanentes ou temporais de lucidez e clareza. Nossa atmosfera mental está obscurecida por vapores e iluminada por chamas e o grau de obscurecimento e de iluminação varia de acordo com as épocas. O psicólogo que observa, por exemplo, as modificações produzidas pelo álcool na duração das reações, parece-se ao físico que investiga as linhas que obscurecem a interposição de vapores especiais. Nosso conhecimento do espectro de nossa consciência faz-se, assim, cada vez mais exato e detalhado.

Mas tomando-se mais uma vez o lado físico de nossa analogia, observamos que nosso conhecimento do espectro solar visível, por mais detalhado que seja, nada mais é que a introdução a um conhecimento mais perfeito que esperamos adquirir um dia, no que concerne aos raios solares. Os limites de nosso espectro não correspondem ao sol que brilha, mas aos olhos que percebem o resplendor. Para lá de cada um dos extremos da faixa prismática existem ondulações do éter que a nossa retina não percebe. Para lá da parte vermelha encontram-se as ondas que percebemos ainda, mas como calor, não como luz. As ondas situadas além da parte violeta são ainda mais misteriosas; permaneceram ignoradas durante séculos e suas propriedades íntimas só nos são dadas a conhecer de maneira imperfeita.

Dessa mesma forma, além de cada um dos extremos do espectro de nossa consciência, estende-se um grupo de percepções e de faculdades que superam as que conhecemos e que só se adivinham de um modo muito indefinido. Os artifícios da Física moderna dilataram em ambas as direções o espectro visível, tal como Newton o conhecera. A tarefa da Psicologia moderna consiste em descobrir os artifícios que permitam estender, em todas as direções, o espectro da consciência, tal como o conheceram Platão ou Kant. Os fenômenos citados nesta obra são, no que diz respeito aos fenômenos conhecidos, o que a fluorescência é com relação à parte violeta do espectro. Os raios X do espectro psíquico ainda estão por descobrir.

Nossa analogia, digamos logo, é muito imperfeita. O conjunto das faculdades humanas não pode ser expresso numa forma linear. Mesmo um esquema de três dimensões, uma irradiação de faculdades de um centro de vida, dá só uma idéia imperfeita de sua complexidade. Sem dúvida, essa imagem rudimentar nos proporciona alguma clareza, representando as faculdades humanas conscientes sob a forma de um espectro linear cujo controle dos movimentos musculares voluntários e das sensações orgânicas corresponde à parte vermelha do espectro solar, enquanto o ponto em que o esforço supremo do pensamento e da imaginação se dissipa em sonho e êxtase corresponde ao ponto do espectro solar onde começa a se diluir o violeta.

Tudo nos faz crer que cada um dos extremos desse espectro apresenta um prolongamento importante. Além do extremo vermelho, já o sabemos, estendem-se certas faculdades vitais. Sabemos que em nós se realizam constantemente processos orgânicos que escapam ao nosso controle, mas que formam a base de nossa existência física. Sabemos que os limites habituais de nossa atividade voluntária podem ser superados sob a influência de forte excitação. Não devemos, pois, estranhar que artifícios apropriados, como o hipnotismo ou a auto-sugestão, aumentem também o poder da vontade sobre o organismo.

As faculdades situadas além do extremo violeta de nosso espectro psicológico exigem um exame mais sutil e são menos evidentes.15 A energia actínica que se manifesta além da porção violeta do espectro solar exerce sobre nosso mundo material uma influência menos evidente que o calor escuro que se desprende além da parte vermelha. Pode-se dizer também que a influência das faculdades ultra-intelectuais ou supranormais sobre o nosso bem-estar, como organismos terrestres, é menos marcante na vida comum que a influência das faculdades orgânicas ou subnormais. Mas é precisamente esse prolongamento extremo de nosso espectro que merece maior atenção de nossa parte. Nele é que os nossos estudos nos farão descobrir horizontes cósmicos e abrirão diante de nós um caminho infinito.

As primeiras fases desse progresso são por si mesmas extensas e complicadas e não seria inútil concluir este capítulo de introdução indicando brevemente as etapas principais que formam a nossa tortuosa rota. Procurarei conduzir os meus leitores através de formas de transição, o quanto possível variadas e graduadas, desde os fenômenos considerados como normais aos considerados supranormais, mas que são, como os outros, pura e simplesmente efeitos e manifestações necessárias da lei universal.

Nosso estudo começará naturalmente pela discussão da estrutura subliminar no homem são e no homem doente, nas duas fases conhecidas da personalidade humana: o sonho e a vigília. Considerarei a seguir o modo pelo qual, à desintegração da personalidade através da enfermidade, corresponde a sua reintegração e a sua modificação intencional através do hipnotismo e da auto-sugestão. Enquanto isso já teremos dito o suficiente sobre os fenômenos subliminares em geral para poder tratar separadamente dos seus diferentes grupos.

A seguir me ocuparei da sua forma de manifestação automática e, sobretudo (Capítulo VI) do automatismo sensorial que constitui a base das alucinações. Aqui encontraremos fenômenos que parecem ter sua origem num espírito estranho ao do autômato. E mostraremos que essa origem deve ser antes buscada em espíritos de outras pessoas vivas, o que nos levará a passar em revista as diferentes formas de telepatia. Mas o conceito de telepatia, por sua própria natureza, não deve estar limitado aos espíritos encarnados e teremos provas a favor das comunicações diretas entre os espíritos encarnados de um lado e os espíritos desencarnados de outro (Capítulo VII). O restante do livro será consagrado à discussão dos meios e dos resultados dessas comunicações supranormais.16

II
As desintegrações da personalidade


Sabemos com certeza que a Humanidade atravessou inumeráveis idades e sofreu múltiplas transformações. Sabemos também que essas transformações continuam e continuarão ainda com uma rapidez crescente, durante um período de tempo em comparação com o qual toda a nossa História conhecida ficará reduzida a apenas um momento. É impossível prever quais serão as mutações vindouras. Na sua maioria são tão inconcebíveis para nós como a visão para os nossos ancestrais cegos. Só nos é dado notar, na medida do possível, as leis fundamentais das mudanças realizadas até aqui, prevendo que, durante certo tempo, as novas mudanças se produzirão em sentido análogo.

Todo homem é, por sua vez, profundamente unitário e infinitamente complexo; herda de seus antepassados terrestres um organismo múltiplo, por assim dizer polizóico e, talvez, também polipsíquico no mais alto grau, mas ao mesmo tempo traz uma alma ou espírito, absolutamente inacessíveis aos nossos atuais meios de análise, que dirige e unifica esse organismo – alma nascida num meio espiritual ou metaetéreo e que, mesmo encarnada num corpo, permanece em comunicação com esse meio e volta a ele após a morte corporal.17

Impossível representar a forma em que a vida individual de cada célula de nosso corpo está relacionada com a unidade da vida central que preside o corpo em seu conjunto. Mas essa dificuldade não corrobora de modo algum a hipótese de uma alma separada e persistente. Não existe hipótese capaz de nos explicar a colaboração e a subordinação das vidas celulares de um animal multicelular. Esse fenômeno continua tão misterioso para a estrela do mar como para Platão, e os oito cérebros de Aurélia, com sua vida individual e comum, são tão inconcebíveis como a relação da vida dos fagócitos que habitam as veias do filósofo com o pensamento central deste.

Considero que a antiga hipótese de uma alma inserida no organismo, possuindo-o e servindo-se dele, mas representando um vínculo real, ainda que obscuro, com os diferentes grupos conscientes, díspares de um modo mais ou menos aparente e manifestando sua existência em conexão com o organismo e com os grupos mais ou menos localizados da matéria nervosa, considero que essa hipótese não é nem mais obscura nem mais embaraçosa que as demais, propostas até o dia de hoje. Afirmo ainda que pode ser provada – e no meu caso a prova já foi realizada – mediante a observação direta. Está provado para mim que certas manifestações de individualidades centrais, associadas na atualidade ou anteriormente a organismos definidos, foram observadas independentemente desses organismos, quer durante a vida destes últimos, quer depois de sua morte. Mas esteja ou não esse fato suficientemente provado, isso não o põe em desacordo com nenhum princípio científico nem com nenhum fato estabelecido.

Parece mais provável que uma observação contínua acabe por fornecer a prova suficiente. Pelo contrário, a tese negativa é uma tese de equilíbrio instável, pois não se pode prová-la de forma absoluta através de argumentos negativos, qualquer que seja o número destes, e pode, ao contrário, ser inteiramente refutada por um único argumento positivo. Possivelmente goza na atualidade do maior favor científico, mas não possui nenhuma autoridade verdadeiramente científica no que diz respeito à opinião que defendemos.18

Deixando, no momento, essas questões de lado, podemos admitir que o organismo, tal como o observamos na vida comum, longe de apresentar uma completa unidade e invariabilidade, constitui uma hierarquia complexa de grupos celulares que exercem funções vagamente delimitadas e funcionam simultaneamente com uma precisão desigual, uma harmonia moderada, um êxito favorável. Nada prova que essas potências funcionem simultaneamente de um modo perfeito. Nosso sentido de saúde nada mais é do que uma síntese grosseira do que ocorre dentro de nós. É, com efeito, impossível imaginar um estado ideal permanente de um organismo em equilíbrio instável, sempre em movimento, cuja vida se constitui pela explosão de componentes instáveis e que busca sempre a realização de novos fins às custas dos antigos.

Iniciamos, pois, a descrição das perturbações e desintegrações da personalidade. Mas o leitor que me quiser seguir deve ter presente o ponto de vista em que me coloco ao escrever este livro. O fim de minha análise não é o de destruir, mas o de completar, ou melhor dizendo, mostrar que o modo pelo qual a personalidade humana tende a se desintegrar é de natureza a sugerir métodos suscetíveis de favorecer sua integração mais completa.

A melhora das condições naturais do organismo não é coisa desconhecida. Da mesma forma que o estudo da histeria se relaciona comumente com as instabilidades do umbral da consciência, o estudo das enfermidades zimóticas relaciona-se principalmente com a instabilidade da constituição sangüínea. O objetivo comum do médico é pôr fim a essas instabilidades, substituir o sangue viciado por sangue normal. Mas o objetivo do biólogo que pesquisa vai mais longe: propõe-se a proporcionar ao homem um sangue melhor que o que lhe proporcionou a Natureza, extrair do vírus um elemento cuja infusão nas veias seja suscetível de o imunizar contra as invasões microbianas. Da mesma forma que o adulto, graças ao seu desenvolvimento melhor, está mais garantido contra essas invasões do que a criança, o adulto imunizado está mais protegido do que o homem comum. As mudanças que se produziram em seu sangue com a maturidade protegem-no contra a coqueluche. As mudanças que se produzem em seu sangue, como conseqüência de uma injeção antitóxica, protegem-no temporariamente da difteria. Em vista disso, melhoramos a natureza e nosso procedimento foi profilático, antecipando em certo sentido a evolução.

Por que a Psicologia experimental não poderia chegar a resultados semelhantes? Mas antes de abordar a discussão do fenômeno da desintegração da personalidade temos que nos pôr de acordo quanto ao sentido que vamos dar à palavra consciência. Porque, particularmente, consideramos como conscientes outros atos além dos nossos, assim agimos quer porque esses atos nos parecem complexos, isto é, realizados com um fim determinado, quer porque sabemos que são suscetíveis de passar ao estado de lembrança. Assim, o atirador ou o jogador de xadrez parecem-nos completamente conscientes; dizemos a mesma coisa de um homem que parecia ter perdido a memória como conseqüência de um golpe recebido na cabeça, mas que estava, na realidade, consciente durante todo o tempo porque recordava os menores incidentes. A reminiscência de um ato constitui, com efeito, uma prova melhor de seu caráter consciente do que de sua complexidade.

Negou-se a consciência às pessoas hipnotizadas e aos cães; mas é mais fácil provar o estado consciente de uma pessoa hipnotizada do que o de um cão, porque o primeiro, mesmo sendo capaz de esquecer, quando desperto, os incidentes que ocorreram enquanto estava em estado de hipnose, pode recordá-los durante o estado seguinte e predispor-se a recordar em estado de vigília, enquanto que nos é difícil tirar alguma conclusão da complexidade dos atos dos cães, em que medida têm consciência desses atos. No caso do cão a recordação dos atos transcorridos constituiria a melhor prova e, sem dúvida, ainda que todos reconheçam que a nossa memória grandiloqüente é uma prova de nossa consciência passada, poucas pessoas admitiriam que o mesmo pode ocorrer com a memória do cão. Sem dúvida, dizem, o organismo do cão reage de maneira diversa a cada repetição de um mesmo estímulo, mas esse fato é observado mais ou menos em todos os organismos vivos e também nas porções do organismo e em atos que todos estão de acordo em reconhecer como totalmente desprovidos de consciência.

O conceito de consciência tem, portanto, que ser ampliado. As primeiras reflexões que os homens fizeram a respeito da consciência tiveram um caráter puramente moral ou legal e tinham por objetivo determinar se, em certo momento, o homem era ou não responsável por seus atos ante o tribunal humano ou divino. O senso comum parecia estimular esse método de demarcação definitiva. Julgamos facilmente, do ponto de vista prático, se um homem é consciente ou não, sem levar em conta os estados intermediários.

Mas desde o momento em que o problema é considerado como essencialmente psicológico, submetido à observação e à experiência, essa linha divisória se desfaz até o ponto de desaparecer e somos levados a considerar a consciência como um atributo geral que caracteriza, em maior ou menor grau, todos os estados da vida animal e vegetal, como a equivalência psíquica da vida e de toda a existência fenomênica. Todo ato ou estado pode, portanto, ser considerado como consciente, quando é passível de ser lembrado, quando o sujeito é capaz de lembrar-se dele em circunstâncias determinadas. Que estas circunstâncias se apresentem enquanto o indivíduo está encarnado neste planeta ou não, pouco importa: somos incapazes de recordar a maioria de nossos sonhos e é de se presumir que esses sonhos, desaparecidos de nossa memória, não sejam menos conscientes que os que a invadem quando somos despertados bruscamente. Alguns indivíduos hipnotizados, nos quais a sugestão desperta a lembrança de seus sonhos, recordam, aparentemente, os sonhos latentes até então, com a mesma facilidade que os que recordaram durante muito tempo. E poderíamos citar muitos outros exemplos de lembranças aparecidas de modo inesperado, relacionadas com experiências e atos que se admitiam desaparecidos completamente da memória.

Creio estarmos autorizados a tirar esta conclusão negativa: nada prova que o que chamamos nossa consciência central difira completamente da natureza da consciência menor da qual parece, de certo modo, ter surgido. Creio, a meu ver, que a diferença existente entre essas duas variedades de consciência não é desprezível, mas que a apontada diferença não se baseia em nossas sensações subjetivas. Devemos abordar o estudo da multiplicação ou do desdobramento da personalidade sem qualquer idéia preconcebida contra a possibilidade de determinado ajuste ou de uma certa divisão da soma total de nossa consciência.

Mas antes de apresentarmos a forma pela qual se produz a desintegração da soma total da consciência, seria conveniente fazer-se uma idéia do modo pelo qual se produz sua integração, mas aqui nos deparamos com uma dificuldade cuja origem remonta ao momento determinado em que o ser unicelular se transforma em organismo pluricelular. Se o modo pelo qual uma simples célula é capaz de se manter e conservar sua unidade constitui um mistério para nós, o fato da união de várias células em função de uma vida comum e independente é um mistério ainda maior. Na unidade coletiva de certas colônias animais temos uma espécie de esboço ou de paródia de uma existência determinada complexa.

As inteligências superiores podem nos considerar, tal como nós consideramos os hidrozoários, isto é, como criaturas compostas de diferentes pessoas, uma pessoa hidriforme que se alimenta, uma pessoa meduziforme incumbida da propagação da espécie e assim sucessivamente. Outros tantos elementos do animal, diferenciados em razão de seus diferentes fins, que de um lado estão em relação de mútua dependência, como o nosso cérebro e o nosso estômago, são capazes de, por outro lado, ter uma existência separada e suscetíveis de uma regeneração independente. À medida que ascendemos na escala animal os organismos se tornam, ainda que de uma forma menos aparente, cada vez mais complicados e encontramos no homem a expressão mais pura dessa complexidade colonial e do seu controle centralizado.19

Não necessito dizer que, no tocante à natureza íntima dessa estreita coordenação, desse governo centralizado, se encontra a Ciência, no momento, precariamente informada. É possível, numa certa medida, seguir a evolução e a progressiva complexidade do mecanismo nervoso; mas, quanto a saber como está governado esse mecanismo, em virtude de que tendência se realiza a sua unidade, onde reside esta última, que relação existe entre ela e as diferentes partes do organismo pluricelular; esses são os problemas que concernem à natureza da vida, problema cuja solução ainda se desconhece.

Considero que a solução desse problema só poderá encontrar-se com o descobrimento das leis primitivas que regem essa parte invisível e espiritual da existência, na qual vejo a origem mesma da vida. Se pudéssemos ver na telepatia o primeiro indício de uma lei desse gênero, considerá-la como desempenhando no mundo espiritual um papel semelhante ao da gravitação no mundo material, estaríamos autorizados a imaginar uma força semelhante à força de coesão que realizasse a síntese psíquica da personalidade humana.

A lei da passagem dos organismos inferiores aos superiores mostra, com efeito, que a personalidade humana constitui uma reunião de inumeráveis entidades psíquicas inferiores, na qual cada uma delas conserva suas próprias características, com a restrição de que uma entidade psíquica mais extensa, preexistente ou não, mantém o conjunto unificado, do qual as entidades inferiores são unicamente os fragmentos sobre os quais exerce um domínio contínuo, ainda que incompleto.

Uma vez que se admita isso, pode-se afirmar que todas as nossas operações psíquicas penetraram, ao mesmo tempo, ou num momento qualquer, na mesma corrente central de percepções, ou que flutuaram sobre o que chamamos de limiar ordinário da consciência. Estamos seguros de que isso não se dará com algumas pessoas, mas pode-se saber por antecipação em quais pessoas se dará? Podemos responder somente que a percepção das sensações pela consciência supraliminar se realiza em virtude de uma espécie de exercício funcional e que, igual a outros milhares de casos onde exerce uma função, uma parte dessa faculdade compreende as operações que o organismo realiza em virtude de sua estrutura elementar e a outra parte (uma vez determinada a estrutura) as operações impostas pela seleção natural, e que por isso significam uma vantagem prática. Desse modo, o fato de que a consciência acompanha as combinações cerebrais pouco familiares pode ser considerado como um resultado necessário da estrutura nervosa, da mesma forma que o fato de abrir novos caminhos deve estar acompanhado por uma sensação perceptível de novidade. Como por outro lado é possível que a conscientização de combinações cerebrais novas constitua uma aquisição posterior e se deva simplesmente à vantagem evidente de impedir que essas novas combinações se consolidem antes que tenha sido confirmada sua utilidade – da mesma forma que um músico executa uma nova peça com atenção concentrada, para impedir que sua execução se torne automática, antes que tenha aprendido a tocar a peça como ele deseja. Parece que, numa certa medida, a maior parte do conteúdo de nossa consciência supraliminar tenha nascido em virtude da seleção natural, de forma a operar tendo sob seu domínio as percepções que nos são mais imprescindíveis na vida.

Essas noções elementares da constituição da personalidade já nos indicam o caminho pelo qual se pode operar a sua dissolução.

É possível que, se nos fosse dado o discernimento de modo mais minucioso, a Psicologia dessa infinidade de mudanças, que contém modificações demasiadamente ínfimas para ser consideradas como anormais, até transformações completas e radicais do caráter e da inteligência, parecer-nos-ia ininterrupta e veríamos os elementos psíquicos se distanciarem lentamente e de maneira contínua, um atrás do outro, da síntese primitiva. É possível, por outro lado, que exista realmente uma ruptura no ponto em que se mostra à nossa observação externa quando, em particular, a personalidade entra em sua nova fase, passando pelo sono ou pela possessão. E vejo que existe outra solução de continuidade num ponto muito mais avançado, quando alguma inteligência externa se apodera, de algum modo, do organismo e substitui por algum tempo a atividade intelectual comum por sua própria atividade.

Deixaremos de lado, por enquanto, os casos desse gênero e nada mais consideraremos do que os casos cuja solução de continuidade é realizada pelo sonho ou pelo êxtase. Iniciaremos pelas hipertrofias e excrescências psíquicas localizadas, para em seguida passarmos às instabilidades de natureza histérica (com ou sem períodos de êxtase intermediários) e concluiremos pelos estados mais avançados de semivigília e de dimorfismos que sempre parecem separados da corrente comum da vida consciente pela barreira do êxtase. Todas essas mudanças são, de maneira geral, daninhas ao organismo psíquico e será muito mais simples iniciar insistindo sobre sua natureza nociva e considerá-las como fases sucessivas da desagregação mental.

O processo começa por algo que é, com relação ao organismo psíquico, o que é um furúnculo ou um calo para um organismo físico. Conseqüência de alguma sugestão vinda do exterior ou de alguma tendência ancestral, um pequeno grupo de unidades psíquicas sofre um exagerado crescimento que se opõe desde logo às comunicações e às mudanças livres e normais entre esse grupo e o resto da personalidade.

Assim, a idéia fixa constitui o primeiro sintoma da desagregação que consiste na persistência de um grupo de idéias e de emoções que escapam ao controle, sendo insuscetíveis de modificações. Graças ao seu isolamento, à ausência de toda comunicação entre elas e a corrente geral do pensamento, tornam-se estranhas e intrusas, de modo que alguma imagem ou idéia especial invada a consciência com uma freqüência inusitada e penosa. Podemos supor que a idéia fixa representa aqui o aspecto psicológico de alguma lesão cerebral definida, ultramicroscópica. Ou se pode, talvez, pensar por analogia, quer num furúnculo, quer numa calosidade, quer num tumor enquistado, quer num câncer.

A idéia fixa pode se assemelhar a um abscesso endurecido que se arrebenta quando o apertamos. Ou também pode ser considerada como um centro inflamatório hipertrofiado que dá origem a dores que se espalham por todo o organismo. Certas idéias fixas de natureza histérica podem ser comparadas aos tumores que resultam do crescimento isolado e exagerado de um fragmento de tecido embrionário que acidentalmente se encontra excluído do desenvolvimento regular do embrião. Esses tumores podem estar enquistados, de modo que por pressão ocasionem danos aos tecidos que os rodeiam, enquanto que seu próprio conteúdo só pode surgir mediante incisão.

Exemplo disso são os terrores esquecidos, descritos por Janet como responsáveis por ataques de histeria. Esses tumores do espírito são, às vezes, suscetíveis de serem operados psicologicamente, de serem eliminados mediante a discussão. Os casos mais graves são os dos cancriformes nos quais a degeneração, iniciada num ponto qualquer, invade rapidamente todo o domínio do espírito, produzindo ali as mais profundas perturbações.

A idéia fixa, provocada por causas provavelmente muito diferentes, pode desenvolver-se em múltiplas direções. Pode, em particular, converter-se num centro de explosão ou num núcleo de separação ou ser ainda o início da morte. Pode determinar o acesso de convulsões histéricas, atuando por sua vez como um corpo estranho que comprime uma região sensível do organismo. Ou pode então atrair para o seu centro parasitário tantos elementos psíquicos que acabe por formar uma espécie de personalidade secundária, que existe, junto à personalidade primitiva, às vezes em estado latente, mas também capaz de apoderar-se dela, mediante um verdadeiro golpe de mão. Em outros casos, os novos centros, quase independentes, apresentam tendências anárquicas, cada célula se revolta e se levanta em permanente guerra contra o organismo, que não tarda em se dissolver e sucumbir.

As idéias fixas constituem uma simples expressão de algo que, num grau atenuado, não nos é totalmente desconhecido. Suponho que poucos espíritos estejam completamente livres da tendência a certas formas de pensamento e de emoção sobre os quais não possuímos domínio suficiente, retornos permanentes e inúteis ao passado, ansiedades sobre o futuro, diversos vestígios, talvez, de nossa experiência infantil, fixadas com demasiada solidez para que desapareçam completamente. Dessas observações, algumas devem remontar ainda mais distantes do que a infância. As tendências herdadas aos terrores parecem pertencer, especialmente, ao passado pré-histórico. O medo do escuro, da solidão, do trovão, a amnésia direcional, são tantos testemunhos da impotência do homem primitivo, da mesma forma que o medo dos animais ou dos estranhos é prova de sua vida selvagem e entregue ao acaso. Todos esses sentimentos instintivos podem, com a maior facilidade, sofrer um desenvolvimento mórbido, e a melhor prova de que esse desenvolvimento mórbido nem sempre está unido a uma lesão cerebral nos é dada pelos casos em que as idéias fixas foram suprimidas por um tratamento unicamente psicológico. Sabemos, por outro lado, que os casos em que o tratamento psicológico fracassou, se mostraram da mesma forma rebeldes a qualquer outro tratamento. Pode-se dizer, pois, que as perturbações cerebrais que foram curadas dessa forma eram de natureza funcional, enquanto as que levaram à demência eram orgânicas, ainda que a distinção entre o funcional e o orgânico nem sempre seja fácil de captar nesse domínio ultramicroscópico.

Seja como for, conhecemos um número enorme de casos em que as idéias fixas, mais ou menos intensas, foram guiadas pela sugestão, isto é, por intermédio da ação, com a ajuda de comportamentos subliminares, de movimentos nervosos apenas perceptíveis, que escapam ao controle e à direção de nossa consciência supraliminar. Mas se a consciência subliminar é capaz de exercer uma função de controle sobre esses elementos, deve-se igualmente a ela que os distúrbios em questão se manifestem com freqüência cada vez maior. Quando uma idéia fixa, por exemplo a agorafobia, surge em meu espírito, deve-se provavelmente a que o poder de controle e de coordenação de meu pensamento, que deveria ser capaz de exercitar a vontade, caiu num nível em que escapa à ação da vontade. Não sou, por assim dizer, agora, capaz de me convencer, mediante o raciocínio, de que não há para mim perigo algum em atravessar uma praça. E a culpa disso é devida ao meu eu subliminar, encarregado de ter sempre ao meu alcance as idéias de que necessito na vida cotidiana e que, como conseqüência de sua fraqueza ao agir sobre o organismo, não soube cumprir sua tarefa.

Não é difícil, de acordo com o que acabamos de dizer, estabelecer uma relação entre as idéias fixas e as manifestações mais profundas da histeria. Vimos que as primeiras resultaram especificamente do deslocamento do nível comum da consciência. Dir-se-ia que fragmentos de conteúdo subliminar escaparam através das fendas que se formaram no espírito consciente e caíram em um nível do qual só os pode tirar a sugestão hipnótica. Em outros casos podemos dar um passo adiante e dizer que essas idéias fixas não nos mostram só um instinto supraliminar que funciona sem controle, senão que se trata, melhor dizendo, de um instinto primitivamente oculto que surge de modo inconsciente, alcançando rapidamente proporções exageradas e funcionamento desordenado. Em outras palavras, encontramo-nos na presença de uma instabilidade do umbral da consciência que, com freqüência, implica ou constitui a manifestação de uma perturbação ou de um distúrbio da camada hipnótica, isto é, da região da nossa personalidade que só conhecemos quando podemos atingi-la mediante a sugestão hipnótica.

No que concerne à histeria, podemos dizer inicialmente que os sintomas formam, de um modo geral, caricaturas fantasmagóricas de doenças reais do sistema nervoso, uma série de ficções realizadas sob o sistema nervoso, doenças irreais, como as que nenhum mecanismo fisiológico nos parece capaz de produzir. Como veremos mais adiante, essas doenças se devem, com efeito, na maioria das vezes, a causas intelectuais, mais do que puramente fisiológicas, e constituem outras formas de auto-sugestão.

Passemos rapidamente em revisa alguns dos tipos mais freqüentes de incapacidade histérica, tomando por guia a admirável obra do Dr. Pierre Janet, L’état mental des hystériques (Paris, 1893).

Qual é, em especial, o conceito geral desse autor a respeito dos estados psicológicos de alto grau de histeria?

“Na expressão eu sinto – diz (pág. 39) – temos dois elementos: um pequeno fato psicológico novo, sentir, e uma enorme quantidade de pensamentos que formam um sistema, o eu. Esses dois elementos se encontram misturados e combinados, e dizer eu sinto equivale a dizer que a personalidade, então desenvolvida, captou e absorveu essa nova e pequena sensação... como se o eu fosse um ser amebóide estendendo os seus tentáculos que se apoderariam dessa pequena sensação nascida fora dele.”

Pois o que caracteriza a histeria adiantada, segundo Janet, é precisamente a falta de assimilação dessas sensações elementares ou estados afetivos pelo que Janet chama a percepção pessoal. O campo consciente do histérico está tão limitado que não pode conter um mínimo de sensações necessárias para sobreviver.

“Aquele que necessita especialmente de suas sensações visuais e auditivas descuida de suas sensações táteis e musculares, das quais acredita poder prescindir. No começo ainda é capaz de fixar sua atenção nas últimas e de fazê-las entrar, pelo menos durante um certo temp, no campo de sua percepção pessoal. Mas a ocasião pode não se apresentar com freqüência e o vício psicológico torna-se adquirido. Um dia, o paciente – porque agora se trata realmente de um verdadeiro paciente – é examinado pelo médico. Belisca-se-lhe o braço esquerdo, perguntando se sentiu alguma coisa. Para grande surpresa sua, apercebe-se o paciente de que já não experimenta sensações conscientes, de que já não é capaz de introduzir na sua percepção pessoal sensações que descuidara durante muito tempo, de que se tornou anestesiado... A anestesia histérica constitui, portanto, uma distração fixa e contínua que torna aos que dela padecem incapazes de incorporar à sua personalidade certas sensações; é o resultado de um estrangulamento do campo da consciência...”

A prova dessas afirmações se baseia no elevado número de observações concordes entre si, revelando que a anestesia histérica afeta com menor profundidade a personalidade do que a verdadeira anestesia, conseqüente de uma perturbação nervosa ou do seccionamento do nervo.

Desse modo, o histérico é quase sempre inconsciente de sua anestesia, que só o médico descobre e que em nada se parece à verdadeira anestesia, à máscara tabética, por exemplo, isto é, à insensibilidade da metade do rosto que com freqüência se observa na tabes dorsalis. Um incidente relatado pelo Dr. Janet serve para ilustrar essa particularidade: Uma jovem feriu gravemente a mão direita com pedaços de vidro e queixou-se de insensibilidade palmar. O médico que a examinou achou que a sensibilidade da palma da mão direita diminuíra como conseqüência do seccionamento de certos nervos. Mas, ao mesmo tempo, descobriu uma insensibilidade histérica na metade esquerda do corpo. Jamais a mulher dera-se conta de tal peculiaridade. Assombrou-se o médico ao vê-la queixar-se de insensibilidade numa parte tão insignificante, como a palma da mão, enquanto que a da metade esquerda do corpo não parecia preocupá-la de nenhum modo. Todavia, como Pierre Janet observa, a mulher poderia ter resolvido que os fatos eram assim e que o médico era quem deveria encontrar aquela diferença.

Outra particularidade: as zonas e as placas anestésicas da histeria nem sempre estão, nem ocasionalmente, relacionadas com zonas anatômicas definidas, como sucede nos casos de lesões nervosas. Com maior freqüência acham-se dispostas de forma arbitrária, caprichosa, e as indicações dadas pelos pacientes poderiam ser facilmente consideradas como fantásticas e imaginárias, se o médico não fosse logo constrangido a convencer-se, pelo fato de encontrar-se na presença de efeitos objetivos, mensuráveis, suscetíveis de produzir com freqüência perturbações mais profundas, de certa gravidade e duradouras. Isso está de acordo, por outro lado, com a minha opinião, no que diz respeito ao que chamei de camada hipnótica da personalidade. Considero, com efeito, que a região acessível à sugestão hipnótica apresenta uma estranha mistura de força e debilidade, que possui faculdades cada vez mais potentes e menos coerentes que as do nosso estado de vigília. Creio que nesses casos o eu subliminar se comporta aproximadamente do mesmo modo que o eu supraliminar, quando os centros de nível superior permanecem inativos durante algum tempo (por exemplo no sonho) e os centros de nível médio operam sem inibição nem coordenação.

Vejo aí a explicação dos estranhos contrastes que observamos durante a hipnose, a de profundo domínio sobre o organismo e a assombrosa facilidade com que o sujeito obedece passivamente às menores indicações do hipnotizador. A inteligência que reage desse modo não é, para mim, mais do que uma inteligência fragmentária; é um pedaço do eu subliminar funcionando como num estado de sonho, fora do controle do eu central e profundo.

Da mesma forma que o sujeito hipnotizado obedece aos caprichos do hipnotizador, o sujeito histérico obedece aos da camada hipnótica. Algum centro de nível médio do eu subliminar (para expressar uma idéia difícil, com a primeira frase que me vem à memória) sugere a noção de que existe, por exemplo, um bracelete anestésico em torno do punho esquerdo, e eis que o fato parece realizado e o sujeito perde a consciência de todas as sensações que se produzem no nível dessa zona fantástica. Esses fatos adquirem maior interesse por estabelecer uma divisão do corpo humano baseada não sobre a zona nervosa local, mas sobre a ideação, que de resto nem sempre é coerente.

A anestesia histérica é caracterizada, portanto, pelo fato de que a porção da faculdade de percepção sobre a qual o indivíduo perdeu todo o poder de controle, na realidade não desaparece, mas é imediatamente deslocada para baixo do limiar da consciência, sob a guarda, por assim dizer, de um estado hipnótico do eu subliminar que se apropriou dessa categoria de percepções, seja por razões de fácil discernimento, em virtude, por exemplo, de sugestões sofridas ou por razões que nos são desconhecidas. Se assim é, podemos esperar que as mesmas sugestões que começaram por separar tal grupo de percepções da massa total, possam também favorecer a aparição delas, seja sobre ou sob o limiar da consciência.

O estudo do estado do campo visual dos histéricos mostra, com efeito, que as percepções submersas não cessam de manifestar sua atividade. Freqüentemente sucede que o campo visual diminui até o ponto em que o sujeito não mais é capaz de distinguir os objetos colocados diretamente diante dos olhos. Mas, quando um objeto suscetível de particularmente excitar a camada hipnótica, como por exemplo o dedo do hipnotizador, que, geralmente, serve de sinal para a aparição da hipnose, coloca-se na parte do campo visual que parece ter escapado ao controle da consciência, produz-se de imediato uma percepção subliminar provada pelo fato de que o sujeito não tarda em cair num sono hipnótico. Igualmente, pela persistência da ação das percepções submersas, explica-se o fato de que, apesar da anestesia com freqüência muito pronunciada, senão total, de seus membros, os indivíduos histéricos poucas vezes estão expostos aos acidentes, às queimaduras, etc., que são, ao contrário, muito freqüentes entre os siringomiélicos. Basta, por outro lado, atrair mediante um estímulo qualquer a atenção do histérico sobre o seu membro anestesiado para que as sensações submersas subam novamente à consciência supraliminar. Exemplo disso é a enferma de Pitres, afetada por cegueira histérica no olho esquerdo. Sobre um lençol colocado diante dela escrevia-se uma palavra ou uma frase, mas de modo que o seu olho direito, que estava são, não pudesse ler mais do que a metade. Forçando sua atenção, conseguia valer-se de seu olho esquerdo cego e ler a frase inteira.

O que acabamos de dizer a respeito das perturbações sensíveis dos histéricos pode ser aplicado também às suas perturbações motoras. Nesse ponto também as faculdades sobre as quais o eu supraliminar perdeu todo o poder de controle continuam obedecendo às ordens da consciência subliminar. O caso seguinte, do Dr. Janet, mostra de modo mais evidente a diferença que existe entre as faculdades ainda sob as ordens da personalidade supraliminar e as que não são mais transmissíveis a não ser com o auxílio de impulsos automáticos do eu subliminar.

“Quando dizemos a um hemiplégico ou a um amiotrófico que aperte o dinamômetro, obtemos uma cifra de 5 ou 10, coisa que não nos deve assombrar, uma vez que estamos na presença de indivíduos afetados de verdadeira paralisia, isto é, impotentes, cuja brandura e debilidade se manifestam em cada um dos seus atos. Sem dúvida os histéricos, que não são em absoluto impotentes, que são capazes de costurar, trabalhar, transportar peso sem nenhuma perturbação aparente, conseguem também no dinamômetro, cifras semelhantes. Por exemplo, Celestina é uma campônia robusta, acostumada aos trabalhos duros e que pede, como um favor, autorização de encerar e lustrar o chão. É muito ativa e quando alguma coisa não está a seu gosto sacode as camas, muda-se de lugar e transporta num só braço as poltronas. Tem acessos de cólera terríveis e em alguns dos asilos em que esteve chegou a sustentar lutas vigorosas contra homens robustos.

Pois bem, apanho essa jovem durante o trabalho e ponho entre suas mãos o dinamômetro. Devo dizer inicialmente que tem uma anestesia completa de duas metades do corpo e que é obrigada a olhar o dinamômetro para estar segura de que o aperta. Realizei diversas vezes essa experiência e todas as vezes o dinamômetro marcava 9 na mão direita e 5 na esquerda. Sem dúvida, repito, essa demonstração de debilidade muscular contradiz completamente os seus atos habituais. Fiz essa experiência comigo mesmo e posso apertar o dinamômetro até marcar 50, contudo não posso levantar as cadeiras nem empurrar as camas com a mesma facilidade de Celestina... É evidente que o histerismo apresenta uma transformação especial da força muscular quando a submetemos a uma experiência e pedimos que concentre a atenção e aperte o instrumento com uma vontade pessoal para fazer ver sua força pessoal. É incapaz então de empregar sua força do modo indicado, ainda que a força exista sempre e seja empregada diversas vezes em todos os atos da vida cotidiana, com a única condição de que não pense nisso. Estamos em presença de um defeito, não da força muscular, mas da vontade.” 20



Seria sem dúvida errôneo afirmar que os fenômenos aqui estudados constituem sempre e em todos os casos uma expressão de decadência e que todas as perturbações psíquicas são devidas à cólera, ao terror ou ao instinto sexual. Com freqüência acontece que sentimentos considerados como superiores e honrosos adquirem um grau de vivacidade e delicadeza capazes de expor os indivíduos que os possuem a perturbações que os egoístas jamais conhecerão. Os instintos de limpeza pessoal e de modéstia feminina, o amor ao próximo e a Deus, são causas de alterações entre os indivíduos cujo organismo aparenta antes um excesso de sensibilidade do que uma diminuição da resistência. Existem muitas pessoas para as quais os motivos de pensar e trabalhar são mais poderosos do que o amor egoísta e o instinto de conservação. E isso porque a vida humana tende cada vez mais a basear-se em idéias e emoções cuja relação com a conservação da raça e do indivíduo é indireta e obscura. Os sentimentos utilitários se desenvolveram fora de qualquer proporção, graças às vantagens que podem proporcionar aos seus possuidores na luta pela existência.21

Os Studien über Hysterie dos Drs. Breuer e Freud (Leipzig, 1895) constituem importante contribuição a essa questão. Tomando seus doentes não só nas salas de hospital, mas também entre a clientela privada, tiveram a sorte de encontrar e a possibilidade de penetrar a fundo em muitos casos de paixões não egoístas, mas muito mais fortes, que produziam perturbações de equilíbrio em espíritos até então bem organizados e que haviam recebido sólidos princípios e uma educação esmerada.

“Apressamo-nos demais ao aplicar aos histéricos a qualificação de degenerados. Esse termo – diz o Dr. Milne-Bramwell – foi aplicado com tal liberdade e freqüência por alguns autores modernos, que nos sentimos tentados a acreditar que se encontram entre os degenerados todos os que não se conformam com algum tipo selvagem, primitivo, que possua um sistema nervoso imperfeitamente desenvolvido.”

Nossos degenerados são, com efeito, freqüentemente progenerados e suas perturbações podem ocultar uma evolução que nós e nossos filhos estaremos obrigados a realizar, tão logo eles nos tenham mostrado o caminho.

Eis-nos ante a categoria dos histéricos que dirigem o mundo! Partimos, por assim dizer, da região das idéias fixas de um tipo mórbido e inferior para chegar às idéias fixas razoáveis e honradas, mas que se tornam mórbidas por força da intensidade. Aqui é onde a histeria se encontra com o gênio, não com o gênio de forma intelectual, antes com o “gênio moral”, o “gênio da santidade” ou a possessão por alguma idéia altruísta, que é o sustentáculo das vidas heróicas.

Todas as religiões nos oferecem exemplos inumeráveis desse tipo. O homem cuja conduta parece razoável à grande parte da Humanidade passará dificilmente por um grande santo. Com motivo ou sem ele, determina-se a este um lugar à parte e tratamo-lo com veneração ou como um ser ridículo. Ora o consideramos como um inspirado, ora como um doente, enquanto sua vida só apresenta um número determinado de idéias fixas, não desprovidas de valor em si mesmas, mas que alcançaram tal força que, segundo os acidentes, sua ação propulsora o encaminha quer ao sublime, quer ao ridículo.

Os mártires, os missionários, os cruzados, os niilistas, os entusiastas de qualquer gênero guiados por impulsos que nascem muito abaixo do limiar da consciência comum, todos esses homens emprestam aos assuntos humanos uma força mais concentrada e mais intensa do que aquela do raciocínio frio e medido. Em virtude da estabilidade de suas idéias, realmente fixas, sofrem de contínuas auto-sugestões. Mas essas idéias não são tão isoladas, tão enquistadas neste caso, como nos verdadeiros histéricos. Ainda que mais profundas e imutáveis que suas idéias sobre outros assuntos, suas convicções subliminares não podem atuar sobre outros espíritos, senão chamando em seu auxílio os produtos da razão subliminar de seus autores. O profundo horror subliminar nascido diante do espetáculo de odiosas crueldades não deve favorecer apenas as alucinações, como acontece no histérico e com freqüência no reformista, mas deve também, se ele quiser cumprir a sua missão de reforma, aparecer com clareza diante da razão supraliminar e poder expressar-se por escrito ou verbalmente de uma forma apta a influir sobre outros espíritos.

Até agora só nos ocupamos dos casos de isolamento de determinados componentes da personalidade, os elementos que assumem uma existência quase independente e a forma de idéias fixas, representações físicas ou de equivalentes somáticos de idéias fixas obscuras, como as alucinações e as perturbações persistentes do paladar ou do olfato. Chegamos, neste ponto, à segunda variedade de desintegração da personalidade, caracterizada pela formação de uma personalidade secundária. Existe entre essas duas variedades uma diferença análoga à existente entre as lesões isoladas do corpo, as alterações diatésicas mais profundas e sutis, resultantes de uma mudança de clima ou alimentação. Produz-se algo que faz com que o organismo responda a todas as reações de uma nova forma. Os fenômenos do sonho constituem o melhor ponto de partida para o estudo desses estados secundários.

Discutiremos num capítulo posterior certas características raras dos sonhos. Aqui só consideraremos os sonhos comuns, no tocante aos indícios que nos proporcionam sobre a estrutura de nossa personaloidade e sobre as influências que tendem a modificá-la.

Devo antes dizer que o estado de sonho constitui, senão a forma normal de nossa mentalidade, ao menos a forma que ela assume com mais agrado e mais freqüência. Sonhos de todos os gêneros atravessam provavelmente nosso espírito dia e noite, sem que os interrompam a tensão das idéias que constituem nosso estado de vigília. Cada um teve, mais de uma vez, oportunidade de certificar-se disso durante o estado de adormecimento momentâneo ou durante os desvios fugazes da atenção: tem-se, dessa forma, a sensação de que os fragmentos de imagens e idéias que apresentam uma continuidade aparente, mas dos quais nem sempre se tivera consciência, atravessam o espírito; é um estado semelhante ao que se tem quando alguém se esforça por seguir uma palestra ou ler em voz alta entre o sono e a vigília.

Desse estado mental devem ter-se desenvolvido nossos estados mais coerentes. O estado de vigília implica a fixação da atenção sobre um único fio do confuso novelo do nosso pensamento. No caso de alguns indivíduos, essa fixação é impossível, enquanto que em outros é involuntária ou segue um fio que não deveria.

Os sonhos apresentam outra particularidade que não atraiu suficientemente a atenção dos psicólogos, mas que desempenha importante papel do ponto de vista do fracionamento da personalidade. Refiro-me ao seu caráter dramático.

Em primeiro lugar nossos sonhos evoluem num meio ou num cenário que não inventamos, mas que encontramos pronto, esperando nossa entrada, por assim dizer. Em outros casos, nossos sonhos compreendem uma conversa durante o curso da qual aguardamos com impaciência e escutamos surpresos as réplicas de nosso interlocutor que, nesse caso, só pode representar outro segmento ou outro lado de nós mesmos. Esse desdobramento pode ser penoso ou agradável. Um sonho febril pode simular as confusões que caracterizam a loucura, ou o enfermo pode acreditar que é constituído por duas pessoas. Pode-se inclusive chegar a dizer que nos primeiros instantes do sonho desaparece a unidade superficial da consciência e o mundo dos sonhos nos dá uma representação mais exata do fracionamento ou da multiplicidade real que existe sob a aparente simplicidade que a clareza da consciência de vigília impõe à nossa vista mental.

Por menos que se aceitem essas idéias, não se terá qualquer dificuldade em admitir que a passagem do sono comum ao sonambulismo, longe de constituir uma raridade isolada, é antes a expressão da formação de um estado secundário, no qual as idéias adquiriram um certo grau de intensidade. Os estados de semivigília que nascem do sono apresentam, com efeito, todas as características que se desprendem de sua origem eminentemente subliminar. São menos coerentes que os estados secundários que se observam durante a vigília, porém mais ricos em faculdades supranormais. Esses estados foram muitas vezes observados em conexão com faculdades como a hiperestesia e a telepatia. O estudo dessas faculdades será objeto de capítulo à parte.

Por enquanto só nos ocupamos de personalidades secundárias constituídas por elementos que se destacaram da personalidade total ou primitiva por seleção emocional. Vimos grupos especiais de sentimentos que adquiriam uma intensidade mórbida, a ponto de dominar toda a vida mental do sujeito, seja com acessos ou de modo contínuo, fazendo-o parecer uma pessoa mudada que, sem estar necessariamente louca, é totalmente diferente do que se apresenta na vida mental normal. Nos casos desse gênero a emoção mórbida comunica, por assim dizer, à nova personalidade uma coloração particular característica, a exemplo das personificações dramáticas dos ciúmes, do terror, etc. Nos demais aspectos a divisão entre a nova personalidade e o eu antigo não é muito profunda. As dissociações da memória, por exemplo, são raramente inacessíveis à sugestão hipnótica. A cisão não alcançou as profundezas do ser psíquico.

Mas existem casos em que a causa da cisão é completamente arbitrária e nos quais a cisão em si é, por essa razão, muito profunda. Não se trata aqui da exageração mórbida de uma emoção, mas de toda uma porção da personalidade que, sem nenhuma determinação, sofreu um desenvolvimento independente do resto do ser psíquico. Voltando à nossa analogia física, já não se trata de uma calosidade, de um abscesso ou câncer, mas de um tumor formado às expensas de um fragmento de tecido embrionário que ficou excluído do processo de desenvolvimento geral do organismo.

As personalidades secundárias desta última categoria nascem com mais freqüência de um acesso de sonambulismo que, ao invés de transformar-se novamente em sonho, se repete e se consolida até dar lugar a um encadeamento de recordações que lhe são próprios e que alternam com o encadeamento primitivo.

Essas personalidades secundárias constituem manifestamente uma degeneração do estado primitivo, mesmo quando certos indícios de faculdades supranormais possam ser discernidas no seu restrito campo psíquico.

Os estados pós-epiléticos são estados secundários meramente degenerativos. Apresentam analogias com todos os estados secundários que descrevemos. Primeiro, parecem-se ao estado normal com a única diferença de que os atos que os caracterizam carecem de fim racional e que neles talvez se possa constatar uma volta aos costumes e às idéias de uma fase anterior da história do sujeito. Parecem-se igualmente a determinados estados hipnóticos e lembram essas personalidades fictícias que se produzem através da escrita automática. Parecem-se ainda a esses estados em que uma idéia fixa aparecida de repente, e triunfando sobre o restante, poderia levar o sujeito aos mais nefandos crimes, que, em estado normal, o aterrariam. Não pode haver exemplo melhor de funcionamento não reprimido, que escapa ao domínio secreto dos centros superiores, que, embora ativos durante o sono hipnótico, estão aqui não só num estado de fadiga psicológica, mas também de esgotamento fisiológico.

Existem, sem dúvida, casos em que o estado secundário, longe de ser uma expressão de degenerescência, aparece antes como superior ao estado primitivo, de modo que nos perguntamos, com espanto, como o mesmo homem pôde ser o que era antes, ou converter-se subitamente em outra coisa tão diferente ao que era. É uma verdadeira mudança caleidoscópica e ninguém saberia dizer por que este e não aquele arranjo das peças deve ter prioridade.

Exemplo disso é o caso de Félida X..., observado pelo Dr. Azam,22 bem como o de Mary Reynolds, observado pelo Dr. Weir Mitchell.23 Assistia-se, neste último, a uma transformação completa e notável do caráter, a despreocupação infantil do estado secundário, modificando completamente as preocupações tristes e sombrias do estado primitivo. Temos então um exemplo muito instrutivo da diferença que existe entre as mudanças alotrópicas ou reconstruções do caráter e o mero predomínio de um fator mórbido característico dos indivíduos histéricos ou que padecem de uma idéia fixa. Esses dois estados apresentavam, além disso, no caso de Mary Reynolds, uma tendência aparente a fundir-se e a produzir um terceiro estado, superior aos precedentes.

No caso de Louis Vivé temos um exemplo notável de dissociações dependentes de relações temporais, de épocas especiais de sua vida, às quais se ordenava ao doente que se transportasse. E essa transposição se opera de um modo muito profundo.

Entre as diversas condições de seu organismo, todas (ou quase todas) mórbidas, como conseqüência de uma grave lesão central, cada uma delas pode ser vivida novamente e toda a gama dessas mutações atravessa o seu sistema nervoso com a facilidade e a rapidez das imagens cinematográficas. Louis Vivé produzia, dessa forma, um número e uma variedade de fases de sua personalidade, quer espontaneamente, quer como conseqüência de diversas experiências, com ajuda da metaloterapia, executadas pelos médicos que o atenderam. Essas experiências produziam curiosas variações na sua paralisia histérica e, ao mesmo tempo, regressões aos diferentes períodos de sua vida, provavelmente relacionadas com formas particulares de paralisia. E não só os estados mentais, passados e esquecidos, voltavam à memória ao mesmo tempo que as impressões físicas dessas variações, senão que, quando um estado mental passado e esquecido era sugerido ao paciente como se fosse o seu estado atual e presente, ele acreditava na sugestão e experimentava a seguir as impressões físicas correspondentes. Deve-se notar que quando realizaram as primeiras experiências de metaloterapia, os experimentadores desconheciam a história de seu paciente. Aos poucos foram conhecendo-a e, através de cuidadosa comparação entre as lembranças passadas e presentes, concluíram que as diferentes fases encarnadas foram tomadas da história de sua própria vida.24

Vou citar por extenso o seguinte caso publicado pelo Dr. Osgood Mason (num ensaio intitulado: Double Personalité, ses rapports avec l’hypnotisme et la lucidité e que apareceu no Journal of American Medical Association a 30 de novembro de 1895).

Alma Z... era uma rapariga muito sadia e inteligente, de caráter sólido e atraente, com enorme espírito de iniciativa em tudo o que empreendia: estudos, esporte, relações sociais. Como conseqüência de um esgotamento intelectual e de indisposição mal cuidada viu sua saúde fortemente abalada e, após dois anos de grandes sofrimentos, uma segunda personalidade fez brusca aparição. Numa linguagem semi-infantil, quase índia, anunciava-se a personalidade nº 2, vinda para aliviar os sofrimentos da primitiva (nº 1). Mas o estado da nº 1 era, naquele momento, deveras deplorável: dores, debilidade, síncopes esparsas, insônia, estomatite mercurial, originada dos medicamentos que tornavam impossível sua alimentação. A nº 2 era alegre e meiga, conversava com finura e graça, conservava sempre a sua consciência, alimentando-se bem e abundantemente, em proveito, segundo dizia, da nº 1. A conversa refinada e interessante que tinha não fazia suspeitar, em nada, os conhecimentos adquiridos pela primeira personalidade. Manifestava uma inteligência supranormal a respeito dos acontecimentos que se passavam ao seu redor. Nessa época comecei a acompanhar o caso e não o perdi de vista durante seis anos consecutivos. Quatro anos depois da aparição da segunda personalidade surgiu uma terceira que se anunciou como rapaz. Completamente diferente das outras duas, tomou o lugar da nº 2 e conservou-o durante quatro anos.

Todas essas personalidades, ainda que absolutamente distintas e caracterizadas, eram muito agradáveis, cada qual no seu gênero, e a de nº 2 em particular é ainda a alegria de seus amigos, sempre que aparece e tem oportunidade de estar junto a ela. Essa personalidade surge sempre nos momentos de extrema fadiga, de excitação mental, de prostração. Então sobrevém e às vezes persiste durante alguns dias. O eu original afirma sempre sua superioridade, pois os demais não estão lá senão no seu interesse e vantagem. A personalidade nº 1 desconhece qualquer das outras duas, mas, sem dúvida, as conhece bem, especialmente a de nº 2, pelos relatos dos demais e pelas cartas que recebe dela. E a de nº 1 admira as sutis mensagens espirituais e freqüentemente instrutivas que lhe trazem essas cartas ou relatos dos amigos.

E o Dr. Mason acrescenta:

“Existem três casos (o acima citado, outro de uma de suas doentes e o de Félida X...), nos quais uma segunda personalidade, perfeitamente sadia, equilibrada, em harmonia completa com o meio, vem à superfície e assume o controle absoluto da organização física por longo período. Durante o funcionamento desta segunda personalidade, o eu primitivo ou original é suprimido totalmente e se produz por isso uma espécie de lacuna no tempo. Em nenhum dos casos descritos, o eu primitivo tinha consciência da segunda personalidade, a não ser pelos relatos de outros ou pelas cartas do segundo eu, deixadas num lugar onde o eu primitivo podia encontrá-las ao readquirir a consciência. A segunda personalidade tinha em todo caso conhecimento do eu primitivo, que considerava, porém, como uma pessoa estranha. Nos casos de Félida X... e de Alma Z... o aparecimento da segunda personalidade era seguido de uma rápida e marcante melhora do estado físico.”

De quanto acabamos de expor neste capítulo resulta que a personalidade humana constitui um complexo muito mais modificável do que se reconhece em geral, um complexo que foi, por outro lado, tratado até agora de uma forma grosseira e empírica. Cada fase, cada procedimento de desintegração sugere uma fase e um procedimento correspondente de integração. Dois pontos ressaltam particularmente deste capítulo: primeiro, a aparição de um rudimento de faculdade supranormal rudimentar, de algo que provavelmente não tem utilidade para nós, mas que indica a existência, sob o nível de nossa consciência, de uma reserva de faculdades latentes, insuspeitáveis; em segundo lugar, que, sempre que foi possível apelar, com ajuda da sugestão hipnótica, às camadas profundas de nossa personalidade, esse apelo raras vezes ficou sem resposta. E cada um dos casos observados proporcionava um ensino novo, que nos permitia aperfeiçoar os meios empregados, tendo em vista o restabelecimento da personalidade. Essas perturbações da personalidade não são para nós o que foram para a geração precedente, isto é, simples milagres nos quais os céticos, segundo a moda antiga, têm o direito de não crer. Pelo contrário, começa-se a considerá-los como problemas de psicopatologia do mais alto interesse, cada um dos quais nos dá uma visão da estrutura íntima do homem.25



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