Fraternidade e encarcerados1



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FRATERNIDADE E ENCARCERADOS1

SÓ O CRISTO – A VERDADE – LIBERTA

(Jo 8,32)


Pe Ney Brasil Pereira


Professor de Exegese Bíblica

Coordenador de Pastoral Carcerária

do Estado de Santa Catarina

INTRODUÇÃO

A Campanha da Fraternidade 97 (CF), focalizando os encarcerados e toda a problemática da criminalidade (violência, drogas, narcotráfico), da repressão ao crime (polícia), do julgamento dos crimes (Judiciário), do cumprimento da pena (sistema carcerário), toca não apenas em uma chaga, mas num conjunto de chagas que infestam todo o corpo social, “da planta dos pés ao alto da cabeça”, como se exprimiu o profeta ISAÍAS (Is 1,5-6).

Ao mesmo tempo, citando-se neste ano “cristológico” do triênio de preparação para o grande Jubileu do ano 2000, a CF-97 lembra, com esperança, que “Cristo liberta de todas as prisões”. É um slogan que deve garantir o cristocentrismo da CF. por outro lado, o alargamento do tema – todas as prisões (vícios, drogas, miséria, desemprego, doença, egoísmo... tudo é “prisão”1) não deveria levar a esquecer a especificidades do tema da CF-97: o sistema carcerário e tudo o que nele está implicado, como já foi dito acima. Além disso, o cristocentrismo não deve ser entendido só verticalmente – proclamado e insistido em que só Ele, o Cristo, é quem liberta! – mas também horizontalmente, pois Ele, o Cristo, se identifica com os presos e, portanto, quer ser libertado!

Libertação, liberdade, de quê? Liberdade física, de “ir e vir”, de “fazer o que eu quero”, ou de “agir segundo a minha consciência, fazendo o que devo, o que é bom”? Liberdade para desfrutar, ou para servir? Liberdade absoluta, ou relativa? Qual o significado dessa liberdade “para a qual Cristo nos liberta”, como proclama PAULO na carta aos gálatas (Gl 5,1)?

É evidente que, ao preso, a quem está trancado, o que lhe importa mais que tudo, o que ele quer acima de tudo, é a liberdade física, a liberdade de sair da prisão. E esta liberdade física está também implicada, de algum modo, certamente não está excluída, da promessa de Jesus: A Verdade vos libertará (Jo 8,32), que pretendemos aprofundar neste artigo. Portanto, para um preso, a libertação que Jesus traz é a libertação do crime, do pecado – porque é uma libertação condicionada ao discipulado: Se permanecerdes em minha Palavra... – mas também, por que não? Através de advogados e juízes cristãos, discípulos do Cristo Libertador, libertação da prisão.

Esperando contribuir para um esclarecimento da questão, pretendo abordar os pontos seguintes: 1) antecedentes do tema; 2) A Verdade – o Filho – liberta (Jo 8,32); 3) O Evangelho da Liberdade.


1. ANTECEDENTES DO TEMA_______________________________________
É sabido como a experiência fundante do Êxodo, que foi a passagem da escravidão para a liberdade, a Páscoa, perpassa toda a Bíblia. Pela síntese dessa experiência encontramos nos vv. 5-7 de Ex 6, nas palavras do próprio Javé a Moisés: (5) Eu ouvi o gemido dos filhos de Isral, que os egípcios escravizaram, e me lembrei de minha Aliança. (6) Portanto, dirás aos filhos de Israel: Eu sou Javé e vos farei sair de sob as cargas do Egito. Eu vos libertarei de sua servidão e vos resgatarei com mão estendida e com grandes julgamentos. (7) E vos assumirei como meu povo, e serei o vosso Deus...2

É significativo, porém, que a liberdade, para a qual Deus conduz o seu povo, não é absoluta: é a liberdade “para servir”, como o próprio Javé havia feito saber ao Faraó: Israel é meu filho primogênito... Deixa sair o meu filho, para que me sirva (cf EX 4, 22-23). Trata-se, pois, de uma “mudança de dono”, como se exprimiu D. DAUBE3: os israelitas eram subtraídos ao jugo de escravos do Faraó para assumirem, como filhos, o “jugo” da Aliança com Javé. Ou, ainda, era a passagem “da servidão para o serviço”, título do belo comentário de G. AUZOU sobre o livro do Êxodo4, assumindo a idéia que reaparece, p. ex., no cântico de Zacarias: ...para que, libertos dos nossos inimigos, nós o sirvamos em justiça e santidade, todos os nossos dias (Lc 1,74-75). Da mesma forma, na carta aos gálatas, e fazendo já uma transposição do “serviço de Deus” para o “serviço ao próximo”, PAULO alertará para o “serviço da liberdade”: Fostes chamados à liberdade, irmãos. Entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto para a carne, mas, pelo amor, ponde-vos a serviço uns dos outros (Gl 5,13).

A tradição rabínica, além de aplicar aos acontecimentos do Êxodo o vocabulário da liberdade 5, apresentava essa libertação também como não absoluta, mas como “mudança de dono”, por exemplo, no Sifrá de Lv 11,45: “Eu vos fiz sair da terra do Egito com a condição de que tomeis sobre vós o jugo dos meus mandamentos. Tanto assim que, todo aquele que celebra o jugo de meus mandamentos celebra a saída do Egito; e todo aquele que rejeita o jugo de meus mandamentos rejeita a saída do Egito6”. Atualizando essa convicção, um discípulo do rabi AQIBA, rabi Nehoniyah Bem HAQQANAH, no séc. II dC, assim se expressou: “Todo aquele que recebe o jugo da Lei é libertado do jugo do Império e das preocupações deste mundo; e todo aquele que rejeita o jugo da Lei impõe a si mesmo o jugo do Império e das preocupações deste mundo7.

Para os rabinos, portanto, a submissão a Deus e a obediência à sua Lei se identificavam com a verdadeira liberdade e com a autêntica filiação, o que explica a sobranceira resposta à oferta de Jesus em Jo 8,32-33: a Jesus, que lhes oferece a liberdade, eles respondem: Nunca fomos escravos de ninguém... Assim, por exemplo, era corrente, já na época de Jesus, a interpretação rabínica que lia a expressão de Ex 32,16: “gravada” nas taboas, como se fosse: “liberdade” nas taboas, simplesmente vocalizando o hebr: hêrût (liberdade) em vez de hebr. Hârût (gravada). De fato, é o que aconselha Pirqey Avot 6,2: “Não leais hârût (gravada), mas hêrût (liberdade), pois não há homem verdadeiramente livre senão aquele que se dedica ao estudo da lei”8. É daí também que procede a curiosa expressão que por duas vezes ocorre na carta de TIAGO: a lei perfeita da liberdade (Tg 1,25) e a lei da liberdade” (Tg 2,12), isto é, a Lei, a Torá, numa perspectiva contrária à de PAULO, como caminho, mesmo condição, de liberdade!

Mas temos ainda a dimensão messiânica e escatológica da libertação, que aparece, por exemplo, no Targum de Lm 2,22: “Tu proclamarás pelo Messias a liberdade para teu povo, à casa de Israel, como o fizeste por Moisés e Aarão no dia da Páscoa”. Ainda no Targum de Lm 4,22, lemos a apóstrofe a Sião: “Tua iniqüidade será expiada, assembléia de Sião, e serás libertada pelo Messias...” E ainda, na prece quotidiana das “18 Bênçãos”, a 10 ª “Benção”, sem referir-se ao Messias9, se expressa assim: “Faze ressoar a grande trombeta para a nossa liberdade, levanta a bandeira para reunir nossos exilados, e reúne-nos dos quatro cantos da terra...” Acentos semelhantes encontramos na patética súplica do SIRÁCIDA, já em inícios do II séc. aC, no c. 36,1-22, onde o Sábio invoca a intervenção de Deus em favor de Jerusalém e das “tribos de Jacó”, pedindo a reunião dos dispersos e o esmagamento dos inimigos10... Como resume DE LA POTTERIE: “A libertação de Israel, ao mesmo tempo nacional e escatológica, era a grande esperança do judaísmo palestinense no momento em que nascia o cristianismo.” O acento dessa esperança, porém, era diverso, dependendo das preocupações e objetivos dos vários grupos judeus da época: se os zelotas, como já os Macabeus, insistiam no aspecto político dessa libertação, engajando-se na luta armada para apressá-la, os rabinos defendiam a posição de que é na Lei, no seu estudo e na sua prática, que está a verdadeira liberdade11.

Entretanto, não podemos deixar de aludir à possível influência do helenismo, dos estóicos e da gnose, na original expressão joanina. Como o resume LÉON DUFOUR12, o nexo entre “verdade” e “liberdade”, em JOÃO, parece-se, do ponto de vista formal, com o que estabeleciam os estóicos e os gnósticos. Assim, “segundo a Stoá, o sábio faz-se senhor de suas paixões e adquire a ausência de perturbação (ataraksia) justamente porque conhece a ordem inerente ao cosmo e a exigência de submeter-se ao destino universal... Entretanto, a perspectiva de JOÃO não é a de um mundo agindo pela necessidade, e muito menos a de uma autolibertação”. Por sua vez, “os gnósticos pensavam libertar-se do afundamento na matéria no momento em que passassem de ignorância, que os mantinha prisioneiros, ao conhecimento da fagulha divina guardada neles e vinda da região celeste de onde decaíram”.

Um apócrifo gnóstico, o Evangelho segundo Filipe, do séc. II C, na sentença 123, aproveitou habilmente a formula de Jo 8,32: “Quando a Verdade se revela... ela concede a liberdade”. O Logos disse: ‘Se reconhecerdes a Verdade, a Verdade vos libertará’. A ignorância é escrava, a gnose é liberdade...”. Além de se tratar de um texto posterior ao 4º evangelho, e por certo dependendo dele (apesar da posição sem fundadamente contrária de BULTMANN), seu autor deslocou o sentido: o gnóstico é libertado da ignorância, não do pecado, e a “Verdade” que o liberta é mais um conhecimento meramente intelectual, uma gnose reservada aos “perfeitos”, não é “Verdade” segundo JOÃO, a qual se identifica com o Filho, com Jesus, que liberta a todos os que “permanecem na sua Palavra e se tornarem seus discípulos”, como veremos a seguir.

DE LA POTTERIE, que estuda profundamente o problema, conclui assim: “Diante de um tal conjunto de divergências de vocabulário e de doutrina, divergências quase todas fundamentais, seria uma incongruência pretender que a fórmula de Jo 8,32 dependa de alguma maneira do gnosticismo”13. Por outro lado, mesmo reconhecendo a predominância, em JOÃO, do pano de fundo judaico – antigo-testamentário e rabínico – não se deve esquecer como observa F. MANNS14, que “o ambiente do NT é o de uma cultura dupla e que, desde o séc. II aC. A influência mútua do helenismo sobre o judaísmo e vice-versa, foi grande”, não só na Diáspora mas na própria Palestina. De resto, ainda segundo o mesmo autor, os dois tipos de cristianismo primitivo – judeu-cristão e gentio-cristão – correspondem aos dois tipos de judaísmo que floresciam na Palestina na época de Jesus. É nesse vasto contexto que devemos situar a promessa da liberdade, formulada em Jo 8,22.



2. A VERDADE – O FILHO – LIBERTA___________________________________________
2.1. O contexto da “festa das Tendas” (Jo 7-8)

Além do contexto histórico e do pano de fundo ideológico e teológico, esboçados rapidamente acima, é preciso situar Jo 8,32 no texto do 4º evangelho. Percebemos aí que esse v. faz parte da pequena unidade constituída pelos vv. 31-36, a qual por sua vez é parte integrante dos cc 7-8, nos quais JOÃO apresenta a grande revelação de Jesus aos “judeus” no ambiente fervilhante da festa “das Tendas”, ou Sukkot. Segundo Flávio JOSEFO, era “a mais santa e a maior entre as festas dos judeus” (Antiquitates judaicae, 8,100)15. Festa agrícola em sua origem, ela fora assumindo um caráter messiânico e de expectativa escatológica: as “tendas”, que recordavam o período de permanência no deserto, a caminho da Terra prometida, prefiguravam agora as tendas “onde habitarão os justos no mundo futuro”, segundo vários textos rabínicos. O cap. 14 de ZACARIAS, leitura obrigatória na festa, anunciava, no seu v. 16, que “os sobreviventes de todas as nações subirão a Jerusalém para celebrar a festa das Tendas e se prostrar diante do rei Javé dos Exércitos”... Essa característica, simultaneamente real e escatológica, da solenidade, suscitava espontaneamente grande alegria e, mesmo, certa agitação política, entre as multidões que afluíam à capital.

É nesse clima que Jesus se revela, no último dia da festa, como a fonte de água vivificante, no contexto da procissão diária que se fazia até a piscina de Siloé, de onde se trazia a água que oferecia em libertação no altar do Templo, rito propiciador das chuvas do inverno. Esse rito, recordando o milagre da água narrado em Ex 17,1-7 (cf 1Cr 10,4), fundamentava-se também nas profecias que anunciavam a fonte que havia de brotar do lado direito do Templo, segundo Ez 47,1-12 e Zc 14,8, além dos textos isaianos referentes às próprias águas de Siloé (Is 8,6 e 12,3), e fornecia perfeita moldura para a auto-revelação de Jesus: “Se alguém tem sede, venha a Mim; e beba, aquele que crê em Mim. Pois do seu seio, como diz a Escritura, brotarão rios de água vivificante (Jo 7,37-38). E JOÃO explica, no v. seguinte: Ele falava do Espírito que haviam de receber os que nele crescem... (Jo 7,39ª),

A seguir, no contexto das tochas no átrio das mulheres e da iluminação férrica irradiando dos 4 candelabros de ouro que se acendiam sobre os muros do Templo16, e ainda à luz da profecia de Zc 14,7 – Naquele dia... de noite haverá luz – ressoa a segunda grande revelação de Jesus nesta festa: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não anda nas trevas mas terá a luz da vida (Jo 8,12). Impossível não recordar a caminhada do povo no deserto, à luz da coluna de fogo, mas sem perder de vista o tema da “luz” que tantas vezes reaparece no 4° evangelho, desde as primeiras linhas do chamado “prólogo”: Nele – no Logos – estava a vida, e a vida era a luz dos homens... Ele era a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina a todos...(cf Jo 1,4-5.9). É sabido que, para os rabinos, como para o livro da Sabedoria (cf Sb 18,4b), a “luz do mundo” era a Lei... Por isso mesmo, salta aos olhos o tom reivindicatório da palavra de Jesus.

A partir de 8,24 sucedem-se as referências de Jesus a si mesmo como EU SOU, e “Eu sou” absoluto que caracteriza a revelação do próprio Deus a Moisés no livro do Êxodo: Se não credes que EU SOU, morrereis em vossos pecados (8,24)...Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU (8,28)... Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU (8,58). Ora, é nesse crescendo de auto-revelação messiânica e divina que vamos encontrar a perícope da Verdade – o Filho – que liberta, e isso no contexto, já descrito, de expectativa messiânico-escatológica, da festa das Tendas.

Nada, portanto, do tema da “liberdade do sábio”, do estoicismo, nem da “libertação pela gnose”, do gnosticismo, como insiste com razão DE LA POTTERIE17: “A palavra de Jesus sobre ‘a Verdade’ que liberta situa-se no prolongamento do tema da Aliança, com seus dois aspectos fundamentais: a libertação da escravidão no tempo do Êxodo, e a submissão à Lei. Esses temas são aqui transpostos tipologicamente em um sentido cristológico: é Jesus quem nos liberta da escravidão do ‘pecado’, e nos obtém essa liberdade pela submissão, não à Lei, mas à sua Palavra, a Verdade”.


2.2. Exegese de Jo 8,32
A palavra de Jesus situa-se na perícope dos vv. 31-36, nos quais o tema da libertação ocorre duas vezes: no v. 32 e no v. 36. É esclarecedor examinar a estrutura literária da passagem, construída com a seqüência – típica no 4º evangelho – de uma palavra de revelação, seguida pela incompreensão dos ouvintes e, logo, por um esclarecimento de Jesus:

  1. revelação: A Verdade vos libertará (vv. 31-32)

  2. incompreensão dos Judeus:

    1. Jamais fomos escravos...

    2. Como podes dizer: Tornar-vos-eis livres? (v. 33)

  3. esclarecimento de Jesus:

    1. Quem comete o pecado é escravo...

    2. Se, pois, o Filho vos libertar, sereis realmente livres! (vv. 34-36)

Vejamos, porém, a estrutura de toda a perícope, do ponto de vista do seu conteúdo, para se perceber como as várias afirmações se correspondem, na seqüência a b c x c’ b’ a’, o centro estando ocupado pela dúvida dos “judeus”: Como podes dizer: ‘Tornar-vos-eis livres’? Como no esquema anterior, sigo DE LA POTTERIE18, aqui incluindo todo o texto:


a (v. 31) Disse Jesus aos judeus que nele tinham acreditado: “Se permanecerdes na minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos”.

b (v. 32) e conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará.

c (v. 33ab) Retrucaram-lhe: Somos a posteridade de Abraão e jamais fomos escravos de ninguém!

x (v. 33c) Como podes dizer: ‘Tornar-vos-eis livres’?

c’ (v. 34) Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado, é escravo!

b’ (v. 35-36a) Ora, o escravo não permanece na casa para sempre, mas o filho aí permanece para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar,

a’ (v. 36b) então sereis realmente livres.
Salta aos olhos a insistência temática da liberdade/libertação, que aparece quatro vezes, nos vv. 32, 33c, 36a e 36b, opondo-se ao tema da escravidão, por duas vezes, nos vv. 33b e 34. Notar que é a única vez que o verbo libertar (gr. Eleutherôo) e o adjetivo livre (gr. Eleútheros) aparecem em JOÃO, enquanto PAULO os emprega mais vezes19: aliás, esses termos, com exceção de uma única vez em Mt 17,31, não aparecem os outros escritos do Novo Testamento.

Aos judeus que nele tinham acreditado: de que “judeus” se trata? Pela seqüência do diálogo, que logo se torna discussão cada vez mais acirrada, trata-se de judeus que tinham começado o processo da fé – no ministério de Jesus ou, provavelmente, já no contexto da comunidade joanina20 – mas nele não iam perseverar. Daí o apelo de Jesus a permanecerem na sua Palavra (v. 31b).

Permanecer é um verbo preferido por JOÃO, que o emprega cerca de 40 vezes, enquanto Mt só 3 vezes, Mc 2 vezes, Lc 7 vezes. Permanecer na Palavra de Jesus, aqui, equivale a “permanecer em Jesus”, com no c, 15,4: Permanecei em mim, uma vez que Jesus é Lógos, a Palavra21.

Essa “permanência” é condição para o verdadeiro discipulado: sereis verdadeiramente meus discípulos. Ser “discípulo”, aliás, é a característica típica dos primeiros seguidores de Jesus, que o reconheceram como seu Mestre, e no 4o. evangelho será o título honroso do “discípulo” a quem Jesus amava (cf 13,23).

O verdadeiro discípulo, que permanece na Palavra de Jesus, esse é quem conhece a Verdade. De que “conhecimento” se trata? Evidentemente, não de uma “gnose” esotérica, mas do conhecimento vital que leva à prática, ao amor, como insistirá, afirmativa e negativamente, a primeira carta de JOÃO: ... todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. E aquele que não ama, não conhece a Deus (1Jo 4,7b e 8a). E ainda: Sabemos que o conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos...

Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele (1Jo 2,3-4). Mas temos, especialmente nos profetas, a partir de OSÉIAS, o que significa conhecer a Deus, ou seja, o conhecimento de Deus: quando Oséias denuncia a falta de conhecimento de Deus no país, falta pela qual meu povo está sendo destruído, ele exemplifica com as violações dos mandamentos da segunda taboa do Decálogo (cf Os 4,1-3.5). ISAÍAS, no famoso oráculo messiânico do c. 11,1-9, conclui a descrição do shalôm paradisíaco, realizado pelo governo justo do Messias, com a afirmação que sintetiza seu pensamento: A terra (o país) estará cheia do conhecimento de Javé, como as águas recobrem o mar. Um último texto de JEREMIAS, referindo-se ao bom rei Josias: Ele praticou o direito e a justiça... Ele julgou a causa do mísero e do pobre... Não é isto conhecer-me? oráculo de Javé (Jr 22,15). Está claro, então, o que é, concretamente, “conhecer” a Verdade.

E a própria “Verdade”, o que é, em JOÃO? Sabemos que Pilatos, ao ouvir Jesus falar que todo o que é da Verdade escuta a minha voz, chegou a fazer a pergunta: Que é a Verdade? (Jo 18,38), mas não esperou pela resposta. O próprio Jesus, porém, já havia dado esse esclarecimento a seus discípulos, nomeadamente a TOMÉ, quando este lhe perguntara sobre o “caminho”: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, Tomé. Ninguém chega ao Pai, senão por mim (Jo 14,6). A “Verdade”, pois, para João, é o próprio Jesus, o Lógos, que o prólogo já havia apresentado como cheio de graça e de verdade (Jo 1,14c), aplicando a Jesus a autodefinição do próprio Javé em Ex 34,5c. A “Verdade”, no heb, ‘emet, tem a conotação de “fidelidade”, “firmeza”, que João incorpora à noção gr. de alétheia, “desocultamento”, revelação da realidade. Não podemos, aliás, evocar aqui todas as conotações da “Verdade” em João, que emprega insistentemente esse substantivo: 25 vezes no 4o evangelho e 19 vezes nas três cartas, enquanto Mt o emprega só 1 vez, Mc 3 vezes, Lc 3 vezes. São conhecidas, p. ex., as variações joaninas: fazer a verdade, conhecer a verdade, andar na verdade... Ainda no prólogo, notar o confronto decidido entre o “dom da Lei”, por Moisés, se o “dom da Verdade” (lit. a Graça e a Verdade) por Jesus Cristo, antecipando a boa nova de 8,32 sobre a Verdade que liberta, inclusive da Lei!

Diante da promessa generosa de liberdade, os “judeus” retrucam que são “posteridade de Abraão” e que “jamais foram escravos de ninguém” (8,33b), apesar de a história de Israel ter sido, desde o Exílio, uma história de sujeição política, com raros momentos de liberdade... E precisamente agora, no ministério de Jesus, os judeus estavam sendo governados por um Procurador romano! Apesar de tudo, a tradição rabínica a convicção religiosa de que o estudo e a prática da Torá, da Lei, eram garantia de liberdade. Por isso mesmo, a interpelação a Jesus: Como podes dizer: ‘Tornar-vos-eis livres’? (8,34).

A incompreensão de seus ouvintes dá oportunidade a Jesus para a solene declaração: Todo aquele que comete o pecado, é escravo! (8,34b)22. Assim, Jesus questiona a presunção de seus ouvintes, que se criam livres por aderirem à Lei, mas eram escravos, pois estavam cometendo “o pecado” de se oporem à oferta divina! A propósito, para JOÃO, “o pecado” por excelência é a incredulidade, a obstinação em não crer (cf 15,24 e 16,9), a cegueira de quem não quer ver (9,41), a recusa da Luz (3,19)... Na primeira carta, João identifica “o pecado” com a “iniqüidade” (gr. anomia, it. Violação da Lei, 1Jo 3,4), e também com a ‘injustiça “: (gr. adikía, lit. violação da justiça, 1Jo 5,17): Toda injustiça é pecado. Ele costuma distinguir os "pecados”, falhas ocasionais, perdoáveis, das quais o sangue de Jesus nos purifica (cf 1Jo 1,7c), contrapondo-as ao “pecado” estrutural, diabólico, que domina e escraviza, “o pecado do mundo”, do qual só o “Cordeiro de Deus” pode nos libertar (cf Jo 1,29).

No v. 35, a contraposição entre “escravo” e “filho”, partindo da experiência comum, na época, de que o escravo não permanece na casa para sempre, é uma provável alusão a Ismael, o escravo, porque “filho da escrava”, expulso da casa (cf Gn 21,10), enquanto o filho, Isaac, porque “filho” e “livre” – e nessa altura “o filho” já é “o filho”, o próprio Jesus – este sim, permanece para sempre. Essa constatação dá oportunidade a Jesus para retomar a promessa da liberdade, agora porém como dom do “Filho”, evidentemente, ele mesmo: Se, pois, o Filho vos libertar, então sereis realmente livres (v. 36). O advérbio “realmente” (gr. óntôs) não quer deixar dúvidas quanto ao tipo de “liberdade”: não a suposta liberdade dos que se criam “descendência de Abraão” porque se obstinavam na adesão à Lei e recusavam aderir à “Verdade”, mas a liberdade autêntica de quem não é mais “escravo” porque se deixou libertar pelo “Filho”, permanecendo na sua Palavra e tornando-se verdadeiramente seu discípulo: assim conheceu a Verdade, e a Verdade – o filho – o libertou.
2.3. De que libertação se trata?
Não se trata, aqui, pelo visto, ao menos não diretamente, da libertação política, embora nela possa, ou deva, influir. Nem se trata da autonomia interior à qual pode chegar o sábio, refletindo sobre o seu ser-homem. É a libertação/liberdade em relação ao pecado (v. 34), à mentira (v. 44), e à própria morte (v. 51: Se alguém guardar a minha Palavra, jamais verá a morte!), mas com uma condição: “permanecer na palavra” de Jesus e tornar-se “verdadeiramente” seu “discípulo” (v. 31b). De fato, a “Verdade” é o próprio Jesus, a sua palavra e a sua prática, que se torna caminho de vida e, por isso mesmo, de liberdade (cf 14,6)23.

Os “judeus” aos quais se dirige a proposta de Jesus, infelizmente não tiveram a coragem de sacrificar a segurança das suas instituições. Continuaram presos a elas, à Lei e ao Templo, sem perceberem a novidade que despontava. Como argumentam MATEOS-BARRETO24: “Não tendo a experiência do amor de Deus através do amor ao próximo, eles não podiam conceder a Deus como Pai, mas como Patrão, e assim deixavam-se reduzir à condição de escravos. Em vez da relação imediata e familiar, própria dos filhos, viviam uma relação distante e mediata através de instituições e pessoas que encarnavam a soberania de Deus e expressavam seu domínio sobre o homem. A Lei transformava-se assim em meio de submissão: o homem a ela se subordinava, como expressão da vontade do Deus Soberano, em vez de ela estar a serviço do homem...” Ora, outra é a proposta de Jesus, o filho, que não receia passar por cima da instituição, p. ex. do sábado, para “trabalhar”, como o Pai trabalha até agora (Jo 5,1725), em favor do homem.

E nós, hoje, aqui na América Latina, neste final de milênio, como acolhemos, de que maneira recebemos a proposta de Jesus? Cristãos que somos, ministros ordenados ou leigos, aceitamos a libertação que Ele nos oferece? e somos instrumentos dessa libertação, também na dimensão sócio-política – indissociável da dimensão “interior”, “espiritual” – em favor de tantos irmãos e irmãs escravizados “por dentro e por fora”? Que passos concretos temos que dar, que rupturas a enfrentar para “permanecermos na Palavra” do único Libertador, tornando-nos “verdadeiramente seus discípulos”?


  1. O “EVANGELHO DA LIBERDADE”_______________________________________

Este é o último do 2º capítulo do mais recente livro de José COMBLIN26, e pode servir também como título da breve parte final do nosso estudo. A promessa que Jesus faz em Jo 8,32 é de tão longo alcance que é um verdadeiro “evangelho”, a “boa notícia” por excelência, cujo conteúdo, porém, parece estar na sombra, diluído, no meio de uma sobrecarga de conteúdos religiosos diversos que não permitem captar o seu núcleo central.

E qual é esse núcleo? Qual é essa “boa notícia”? PAULO, no Novo Testamento, entre várias outras diferentes expressões da mesma novidade, que em fim de contas é Jesus, o Cristo, “aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e os profetas” (Jo 1,45), Paulo identifica esse “evangelho” com a liberdade, com o anuncio da Liberdade. Cito COMBLIN: Ele “anuncia a passagem de um sistema de vida caracterizado pela escravidão, para uma vida na liberdade. Tudo, segundo Paulo, pode ser resumido numa palavra: liberdade. Todos os elementos do Cristianismo recebem a sua luz desse enunciado fundamental. Todo o resto concorre para a liberdade e somente o cristão constrói a liberdade: Vós fostes chamados à liberdade, irmãos (Gl 5,13). É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão (Gl 5,1)”27.

Continua COMBLINA: “Paulo toma a palavra liberdade num sentido muito amplo e lhe confere um alcance radial. Para ele, a liberdade basta para marcar toda a distância entre o judaísmo histórico e o evangelho de Jesus. A liberdade é o caráter que atinge a totalidade do modo de ser do discípulo de Jesus... De fato, a liberdade de Jesus muda tudo, todas as relações humanas, a ponto de Paulo poder proclamar: Não há mais judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há mais homem nem mulher, pois todos vós sois um no Cristo Jesus (Gl 3,28). Não somos mais escravos de Deus, mas filhos... e, se filhos, herdeiros, participantes livres de tudo aquilo que é do Pai (cf Gl 4,1-7)...

Ora, esse “anúncio da liberdade”, que nos toca tão fundo ainda hoje, porque tem sua raiz no mais íntimos do ser humano, é uma vocação e um chamado, mesmo sendo também um dom. É dom de Deus, mas é tarefa nossa “tarefa nunca acabada, promessa nunca cumprida, objetivo nunca conseguido, mas sem ele a vida não teria sentido28. Por isso, continua COMBLIN, “Paulo define a liberdade como vocação, chamado e apelo. E a vocação é tão forte, tão exigente, que os gálatas não podem olhar para trás, não podem voltar a um estado de escravidão, inferior ao estado de liberdade ao qual, pela fé no Cristo, foram promovidos”. Mas se é assim, e agora COMBLIN pergunta: “Por que esse evangelho da liberdade é tão pouco conhecido entre os católicos?” E “por que será que, desde cedo, as Igrejas preferiram o evangelho de MATEUS como seu ‘manual de catequese’ – sem entendê-lo devidamente – ao invés do ‘evangelho de PAULO’?”

O fato é que, “depois de tantos séculos de cristandade, herdeira do Império romano-cristão, a liberdade tornou-se tão alheia aos cristãos que muitos suspeitam de que se trata de uma ‘arma do inimigo’, e acham que a liberdade é um movimento contra Deus. Durante séculos os cristãos forneceram suas tropas mais fiéis aos ‘conservadores’ e os partidos cristãos denominaram a si mesmos de ‘conservadores’, tanta era a identificação do Cristianismo com a ‘ordem estabelecida’, e da liberdade – chamada liberalismo – com a anti-religião. No entanto, no Cristianismo primitivo o valor supremo não era a última palavra da religião...”29

Até aqui, algo das provocantes considerações de COMBLIN, que insiste em denunciar o “medo da liberdade” que acompanha a história da Igreja até nossos dias e do qual são sintomas, segundo ele, até documentos recentes do Magistério que poderiam ter anunciado com coragem a liberdade, como as duas “Instruções” sobre a Teologia da libertação – Libertatis Nuntius e Libertatis Conscientia, de 1984 e 86 - e mesmo a encíclica Veritatis Splendor, de 1993, que estuda precisamente a relação entre Verdade e Liberdade e “constitui um avanço importante”, embora “ainda não resolva todas as dúvidas”...30

Voltando agora ao texto de jo 8,32, que foi o nosso ponto de partida, vemos nele uma convergência com o “evangelho de Paulo”. No seu conflito com os judaizantes, Paulo, na carta aos gálatas, insiste na liberdade do cristão frente às práticas e ritos e todo o sistema do judaísmo, que ele ousadamente resume sob o termo “Lei”. Jesus, em Jo 8,32, oferece a liberdade aos “judeus” que nele tinham “começado a crer”, mas estavam ainda presos ao sistema, à “Lei”, que os impedia de se tornarem “verdadeiramente discípulos”.

Como entender, então, que, segundo Mt 5,17, Jesus não vem abolir, mas levá-la à perfeição? Ora, a “perfeição da Lei” está na sua superação do que é acidental e acessório, como são as tradições e ritos humanos (cf Mc 7,1-23), e na sua valorização do que é essencial: o amor a Deus e ao próximo, o do próximo sendo a contra-prova do amor a Deus. No mesmo sentido, em Mt 23,23, e retomando MIQUÉIS, Jesus condena os “guias cegos, que coam mosquitos e engolem camelos, porque paga o dízimo da hortelã, do endro e do caminho, mas omitem as coisas mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade” (cf Mq 6,8)... Liberdade, portanto, direcionada para o essencial!

Por isso também é que PAULO, na já citada passagem da carta aos gálatas, logo depois de reafirmar, em 5,14, que fomos todos chamados à Liberdade, logo a seguir adverte que não se trata de permissividade ou licenciosidade ou anarquia. Pelo contrário, somos livres, sim, mas para servir: Que esta liberdade, irmãos, não sirva de pretexto para a carne, isto é, para abusos, mas, pelo amor, ponde-vos a serviço uns dos outros. Pois toda a Lei encontra seu cumprimento nisto: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Gl 5,13-14). Também PEDRO, na sua primeira carta, embora num contexto mais “conformista”, se exprime semelhantemente: “Comportai-vos como homens livres, mas não useis da liberdade como cobertura para o mal. Antes, usai dela como servos de Deus (1 Pd 2,16).

Em todo caso, a Lei deve ser interpretada “no Espírito”, como o lembra ainda PAULO na 2Cor 3,16: ... e onde está o Espírito do senhor, aí está a liberdade! E isso também porque a letra mata, o Espírito é que vivifica (2Cor 3,6). Quantas vezes a interpretação literal, legalista, da Lei – tanto a Lei mosaica como as nossas leis - tem sido instrumento de opressão, em vez de libertação! Aliás, o próprio Jesus nos dá o exemplo dessa superação da “letra” por uma interpretação “no Espírito” quando, logo depois de afirmar, no início do Sermão da Montanha em MATEUS, que não será omitido nem um iota, nem uma vírgula da Lei, sem tudo se cumpra (Mt 5,18), ele nos adverte para que “a nossa justiça” não tome por modelo, mas supere, a justiça dos escribas e fariseus (Mt 5,20). E, logo a seguir, dá-nos o exemplo dessa superação exemplificando com 6 pontos da Lei, que ele reafirma, evidentemente, mas ultrapassa (Mt 5,21-47). Mas, como observa ainda COMBLIN31, quando Jesus aí comenta a “lei do talião”, que procurava limitar o instinto de vingança, ele exige a abolição pura e simples de toda vingança, e assim liberta de vez o ser humano, que, pelo perdão (!), torna-se plenamente livre.

Quer dizer, pois, desta liberdade em relação à Lei, diante do nosso Código Penal, da nossa Constituição e, na prática, diante da aplicação da Lei? A humanidade, que tem caminhado tão rapidamente, neste século, no campo da técnica e da tecnologia, tem também progredido em seus códigos de leis, desde a antiguidade até nossos dias. Conseguiu-se, por exemplo, referendar, universalmente, há quase 50 anos, a Declaração dos Direitos Humanos. Mas, a prática... como está, na prática, a aplicação da Lei? Quanto deve ainda ser feito, para que os pobres possam usufruir os benefícios da Lei, e não somente arcar com as suas sanções? Há todo um trabalho a realizar, em relação a esta CF-97, na área do Legislativo e do Judiciário, para não falar do Executivo... e para não falar, também, do “anuncio da Liberdade” dentro da própria Igreja!

Isto, para que o “evangelho da Liberdade”, da Liberdade para a qual Cristo nos chamou, seja anunciado a todos, também, a seu modo, aos encarcerados. Todos – eles e nós – convidados a acolher a Palavra de Jesus e nela permanecer, para nos tornarmos verdadeiramente seus discípulos (Jo 8,31). Se discípulos, então não seremos mais servos, mas amigos (Jo 15,15). Pois então conheceremos a Verdade: e a verdade – que é Ele – nos libertará.

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NOTAS



1 Cf o artigo de ASSMANN, Hugo, Encarcerados do sistema? Força e limites de uma metáfora, in Vida Pastoral, nº 192, jan-fev. 1997, pp. 13-21, alertando para o perigo de se esvaziar o tema “corpóreo”, concreto, desta CF.

2 Notar aí, nos vv. 6 e 7, os quatro verbos de “redenção”, que deram origem aos 4 copos de vinho da Ceia Pascal: cf MISHNÁ, essência do Judaismo Talmídico, ed.Documentário/B’rith/Vozes, Rio de Janeiro, 1973, p. 74.

3 Cit. por DE LA POTTERIE, Ignace, La Vérité dans Saint Jean, Biblical Institute Press, Roma, 1977, Tome II, p. 809. Ver também o excelente artigo de TERRA, João E. Martins, Teologia da libertação em São João: a Verdade vos Libertará (Jo 8,32), in Ver. de Cultura Bíblica, Loyola, SP, 1978, n 5, pp. 3-34.

4 G. AUZOU, De la servitudo au service, Paris, 1961, cit. por DE LA POTTERIE, ibid., nota 94,

5 P. ex. na Mishná, no Tratado sobre a Páscoa, Pesahim, conserva-se a expressão de GAMALIEL, incluída no ritual da Ceia Pascal: a saída do Egito foi a passagem “da escravidão para a liberdade, da aflição à alegria, do luto ao júbilo, das trevas à luz, do cativeiro à libertação” (Pesahim 10,5, cit. in DE LA POTTERIE, ibid., p 810; cf. PEREIRA, N.B., A Ceia Pascal Cristã, ed. Paulinas, SP, 1992 (3ª ed), p. 32.

6 Cit in DE LA POTTERIE, ibid., p. 811.

7 Cf Pirqey Avot 3,6, cit. in DE LA POTTERIE, ibid. p. 812.

8 Cit. In DE LA POTTERIE, ibid., p. 813: cf também MANNS, Frédéric, Pour lire la Mishna, Franciscan Priting Press, Jerusalén, 1984, p. 199.

9 A invocação do Messias aparece na “Benção” 15a.: cf du Cerf, Paris, 1989, pp. 35-36. Sobre essas “Bênçãos” cf. PEREIRA, N. B., A espiritualidade judaica, in encontros Teológicos 20 (1996/1), pp 41-42.

10 Cf meu comentário a esse texto in PEREIRA, N.B., Sirácida ou Eclesiástico, Vozes/Sinodal, Petrópolis, 1992, pp. 172-175.

11 Cf DE LA POTTERIE, op. Cit., p. 815-186.

12 LÉON DUFOUR, X., Leitura do Evangelho segundo João, Loyola, SP, trad. 1996, vol. II, pp. 201-202.

13 DE LA POTTERIE, op. cit., p. 805.

14 MANNS, F., La Vérité vous fera libres, Franciscan Printing Press. Jerusalém, 1976, p. 73

15 Cit. in DE LA POTTERIE, op. cit., p. 817.

16 Cf Sukkah 5,2-4, cit por SCHNACKENBURG, R., El Evangelio según San Juan, vol. II, Versión y Comentário, Herder, Barcelona, 1980 (trad.), p. 240. TERRA, J.E.M., no seu artigo já cit., Teologia da Libertação em São João... In ver. de Cult. Bíblica, Loyola, SP, 1978, pp. 21-22, escreve, mas sem citar a fonte: “No átrio das mulheres se colocavam quatro enormes candelabros com tochas imensas que se acendiam durante a noite e podiam ser vistas de todas as partes de Jerusalém porque se elevavam até 13 metros acima dos muros”.

17 DE LA POTTERIE, op. Cit., p. 825.

18 Id., ibid., pp. 826-827.

19 Exatamente: o verbo libertar aparece 2 vezes em JOÃO e 5 vezes em PAULO; o adjetivo livre, duas vezes em JOÃO e 14 vezes em PAULO, além de 1 vez em MATEUS (Mt 17.26); finalmente, o substantivo liberdade, 6 vezes em PAULO, 2 vezes em TIAGO e 2 vezes nas cartas de PEDRO. O que pode ocorrer, porém, é que, nas traduções modernas, algumas traduzem “resgatar”, “redimir” etc, por “libertar”, e então aumentam as incidências.

20 Cf BROWN, R.E., A Comunidade do Discípulo Amado, Ed. Paulinas, SP, 1984 (trad.), passim.

21 Cf MANNS, F., op. cit., p. 67.

22 É conhecida a variante textual mais longa: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado, atesta no maior número de manuscrito, mas que os especialistas consideram uma explicação “paulina”, à luz de Rm 6,16-22.

23 Para este parágrafo, cf Nota a Jo 8,32 na TEB, ed. Loyola, SP, trad. 1994.

24 Juan MATEOS-Juan BARRETO, O Evangelho de São João, ed. Paulinas, SP, 1989 (trad.), p. 390.

25 Cf PEREIRA, N.B., O trabalho de Deus e o nosso trabalho (reflexões a partir de Jo 5,17 e 9,4), in ENCONTROS TEOLÓGICOS n. 9 (1990/2), pp. 13-18.

26 COMBLIN, J., Cristãos rumo ao século XXI. Nova caminhada de libertação, ed. Paulus, SP, 1996, p. 5

27 Id., ibid., p. 56.

28 Id., ibid., p. 57.

29 Id., ibid., p. 59.

30 Id., ibid., p. 90.

31 Id., ibid., p. 61.
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Pe Ney Brasil Pereira

Revista Encontros Teológicos – 21 – p. 3 a 10

Florianópolis – SC





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