Frank Cottrell Boyce Caiu do Céu



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Frank Cottrell Boyce
Caiu do Céu
Tradução

Marcelo Mendes



EDITORA NOVA FRONTEIRA
Para Joe, Aidan, Chiara, Gabriella, Benedict, Heloise e Xavier — meu ouro, incenso e mirra.
1
Se estivesse contando esta história, nosso Anthony começa­ria pelo dinheiro. Tudo é uma questão de dinheiro, ele diz, então melhor começar por aí. Anthony provavelmente escre­veria "Era uma vez 229.370 pequeninas libras esterlinas" e continuaria até chegar em "e viveram felizes para sempre, com uma bela poupança no banco". Mas não é ele quem está con­tando a história, sou eu. Pessoalmente, prefiro sempre come­çar pelo santo padroeiro do que quer que seja. Por exemplo, quando tive de fazer uma redação sobre o dia em que muda­mos de casa, escrevi:
Mudando de Casa

Por Damian Cunningham,

Terceira série

Acabamos de mudar de casa. Nosso novo ende­reço é rua Cromarty, número 7. A padroeira das mudanças é Sant’Ana (século I). Ela era a mãe de Nossa Senhora. Nossa Senhora não morreu, mas flutuou para o céu, ainda jovem. Sant’Ana ficou muito triste. Para alegrá-la, quatro anjos carregaram a casa dela até a costa da Itália, onde está até hoje. Quem for mudar de casa pode pedir ajuda a Sant’Ana. Ela vai dar proteção, mas não vai carregar nada. Sant’Ana também é a padroeira dos mineradores, dos cavaleiros, dos marceneiros e da cidade de Norwich. Quando estava viva, realizou muitos milagres.
O padroeiro desta história é são Francisco de Assis (1181-1226), pois, de certa forma, tudo começou com um roube. E a primeira coisa de santo que são Francisco fez foi roubar umas roupas do próprio pai para dar aos pobres. Existe um padroei­ro dos ladrões de verdade — São Dimas (século I) —, mas não sou um ladrão de verdade. Só estava tentando fazer o bem.

Era o nosso primeiro dia na escola. A placa do lado de fora dizia "Escola Fundamental Great Ditton — Criando excelência para uma nova comunidade".
Estão vendo aquilo? disse papai, ao nos deixar no portão. Nesta escola, ser bom não é suficiente. Excelência é o que eles querem! Portanto, minha recomendação do dia é: "sejam excelentes!" Quanto às recomendações para o jan­tar, vou deixar um bilhete na porta da geladeira.

De uma coisa ninguém pode reclamar: sempre tento fi­zer exatamente o que papai diz. Não que eu ache que ele vá nos abandonar se a gente não se comportar, mas por que arriscar? Então fui excelente logo no primeiro dia. Na aula de artes, o sr. Quinn disse que nossa tarefa era desenhar alguém que a gente admirasse. Um garoto enorme, com sardas no pescoço, escolheu Sir Alex Ferguson e relatou todos os cam­peonatos que o técnico do Manchester já havia conquistado. Um garoto chamado Jake disse que jogadores eram mais im­portantes que técnicos e escolheu Wayne Rooney, por causa das jogadas individuais dele. O sr. Quinn olhava em torno da sala. Em termos puramente pedagógicos, o futebol não lhe servia de nada. Levantei a mão. Ele chamou uma garota.

Não conheço nenhum jogador de futebol, senhor.

Não precisa ser jogador de futebol.

Ah, então não sei, senhor.



Usei minha outra mão para levantar a primeira ainda mais alto.

Damian, quem você admira?



A essa altura, a turma inteira debatia sobre técnicos e jogadores.

Eu disse:

  • São Roque, senhor.

Os outros se calaram.

  • Em que time ele joga?

  • Em nenhum, senhor. É um santo de verdade.

E meus colegas voltaram para o futebol.

  • Ele foi vítima da peste e se escondeu na floresta pra não contagiar ninguém, e um cachorro levava comida pra ele todos os dias. Então começou a fazer curas miraculosas, e as pessoas, centenas e centenas de pessoas, começaram a procurá-lo na floresta. Ele tinha tanto medo de dizer alguma coisa errada pra alguém que resolveu ficar calado durante os dez anos seguintes da vida dele.

  • Um ótimo exemplo para algumas pessoas desta tur­ma. Muito obrigado, Damian.

  • Ele é o santo padroeiro das pestes, da cólera e dos problemas de pele. Quando era vivo, realizou muitos milagres.

  • Bem, vivendo e aprendendo.

O sr. Quinn queria ouvir outro aluno, mas eu estava achando o máximo ser excelente. Então me lembrei de Catarina de Alexandria (século IV).

  • Queriam que ela se casasse com um rei, mas ela disse que já estava casada com Jesus Cristo. Então tentaram torturá-la numa roda de madeira enorme, mas a roda se partiu em milhares de lascas, enormes e pontudas, que depois caíram sobre a multidão, matando e cegando muita gente.

  • Que horror! Um caso antigo de "danos colaterais", eu diria! Bem, muito obrigado, Damian.

A essa altura, ninguém mais falava de técnicos e jogado­res. Todos me ouviam com atenção.

Depois disso, cortaram a cabeça dela. E então a Catarina de Alexandria morreu mesmo, mas só que, em vez de sangue, começou a jorrar leite do pescoço dela. Esse foi um de seus muitos milagres.

Muito obrigado, Damian.

Ela é a padroeira dos enfermeiros, dos fogos de artifí­cio, dos construtores de rodas e da cidade de Dunstable. Den­tro do relógio tem uma roda dentada que se chama "catarina", em homenagem à santa. Ela foi uma virgem mártir. Há ou­tras virgens mártires, também muito famosas. Por exemplo, santa Sexburga, a abadessa de Elia (670-700).



Todo mundo caiu na gargalhada. Todo mundo sempre acha graça no nome da santa. Aposto que todo mundo acha­va graça no nome dela no século VII também.

Sexburga era a rainha de Kent. Tinha quatro irmãs, que também viraram santas. Elas se chamavam...



Antes que eu pudesse dizer Etelburga e Vilburga, o sr. Quinn disse:

Damian, já agradeci a sua participação.



Na verdade, ele havia agradecido três vezes. Se isso não é excelência, então não sei o que é.

Minha história também serviu como inspiração artísti­ca, pois quase todos os garotos desenharam os danos colate­rais durante a execução de santa Catarina. Muitas lascas voa­doras e muitos pescoços jorrando leite. Jake desenhou Wayne Rooney, mas foi o único.

No refeitório, um garoto saiu da fila de sanduíches quentes e se aproximou da mesa onde eu estava; depois balançou um hambúrguer diante do meu nariz e disse:

Sexyburger, sexyburger!



Todo mundo na mesa riu.

Achei aquilo extremamente mundano e já abria a boca para dizer isso a eles quando Anthony chegou e sentou-se ao meu lado. Todos pararam de rir.

Nosso lanche era sanduíche de presunto com tomate e dois tubos pequenos de batatinhas Pringles.

Eu fui excelente, e você? — perguntei a ele. Anthony sussurrou:



  • Você tá chamando a atenção das pessoas. Tá todo mundo rindo!

  • Não me importo que riam de mim. A perseguição é uma coisa boa. Todo mundo ria de José de Cupertino até ele aprender, a levitar.

O garoto enorme com sardas no pescoço apareceu e sen­tou-se à nossa frente. O barrigão dele esbarrou na mesa, fazen­do com que o tampo se inclinasse e que meu tubo de Pringles rolasse na direção dele. O gorducho pegou as batatinhas e abriu.

As batatinhas são dele — disse Anthony, apontando para mim.



  • E você, quem é? — perguntou o Pescoço Sardento.

  • Sou o irmão maior dele.

Mas não é tão maior assim. Todas as Pringles perten­cem a mim. — Farelos de batata escorriam da boca do gor­ducho enquanto ele falava. — Regras da escola.

Você não pode pegar as batatinhas do meu irmão. Ele não tem mãe.



  • Como assim, não tem mãe? Todo mundo tem mãe. Mesmo gente que não tem pai, tem mãe. As batatinhas estão deliciosas, por falar nisso.

  • Ela morreu — disse Anthony.

O Pescoço Sardento parou imediatamente de mastigar e devolveu o tubo de Pringles. Disse que se chamava Barry.

Muito prazer, Barry. Anthony estendeu a mão para cumprimentá-lo, pois acreditava em fazer amizades. — Onde você mora?

Do outro lado da ponte, próximo à loja de conveniência. —Uma área muito valorizada — disse Anthony. — Real­mente muito valorizada.

Meu irmão é muito, muito interessado em imóveis. No caminho para o playground, ele me disse:

Funciona sempre. É só falar que a nossa mãe morreu, - e as pessoas nos dão as coisas.


No turno da tarde, por algum motivo, resolvi dar uma de são Roque. Resisti a todas as tentações de falar durante a aula de matemática — não levantei a mão nenhuma vez, nem respondi a uma pergunta de tabuada ao ser chamado. Quando o sr. Quinn perguntou se eu estava passando bem, fiquei tentado a responder, mas apenas fiz que sim com a cabeça. Em­bora não contribuísse em nada com a aula, eu estava sendo excelente de outra maneira, menos óbvia. Continuei assim até chegar em casa. Papai havia deixado um bilhete pregado com ímã sobre a porta da geladeira; eram as recomendações para o jantar:
Meus queridos,

Empadão de frango com aspargos. O empadão está na gaveta de cima do freezer . Acendam o forna a 190º. Vão para a televisão e assistam a alguma coisa. Depois de 10 minutos, o forno já vai estar quente. Coloquem o empadão para assar. Tirem os uniformes e deixem tudo bem dobradinho sobre a cama. Vistam um moletom. Depois ponham algumas batatas para assar no forno, junto com o empadão. Vou chegar antes que elas estejam prontas.

P.
Achei legal ser chamado de "querido".
Quando papai chegou em casa, comemos o empadão de frango; depois, para hidratar nossos fígados, comemos cin­co pedaços de fruta e tomamos um copo d'água cada um. Fígados hidratados, fizemos os deveres de casa. Mas então o telefone tocou, e eu acidentalmente atendi. Não sei como são Roque agüentou por dez anos, mas uma coisa é certa: deve ter sido muito mais fácil para ele ficar calado numa época em que ainda não existia o telefone. Bem, era o sr. Quinn. O professor em pessoa ligou para a nossa casa! Isso é que é excelência!

Mais tarde, papai sentou-se na beira da minha cama e disse:

Você está caladinho hoje. O que foi? O gato comeu a sua língua?



Fiz que não com a cabeça.

Fiquei sabendo que você estava muito quieto na esco­la também.



Fiz que sim com a cabeça.

  • Não quer me contar nada?

Fiz que não com a cabeça.

  • Tudo bem. Hora de dormir.

Papai fechava a porta do quarto quando fui vencido pela tentação de falar.

O que o sr. Quinn queria?



  • Bem, queria conversar, só isso. Foi ele quem contou que você estava muito quieto na escola hoje.

  • Ele disse "muito obrigado" três vezes. Isso significa que eu fui mesmo muito excelente. Ele disse que eu fui exce­lente?

  • Disse que... Sim, ele disse que você foi excelente. — Depois papai se aproximou e fez um carinho nos meus cabe­los. — Um dos meus clientes falou de um lugar hoje, chama­do Nevódromo. Dá pra andar de trenó e até esquiar na neve. Gostaria de ir comigo até lá?

Fiquei na dúvida.

  • É uma recompensa. Por você ter sido excelente.

  • Então eu vou.

Muito bem. A gente vai amanhã, logo depois da esco­la. Porque você é um filho muito excelente.
O Nevódromo era o máximo. Tinha neve de verdade, feita de cristais de gelo e espalhada por um ventilador gigante. Eles nos deram uma roupa especial para vestir assim que entra­mos. Não era permitido que duas pessoas descessem a pista no mesmo trenó, mas Anthony falou com o homem que nos­sa mãe tinha morrido, e ele deixou que a gente fizesse do nosso jeito. Descemos quatro vezes juntos, uma vez de bruços e três vezes de costas.
Na manhã seguinte, na escola, todo mundo queria saber como era o Nevódromo. Expliquei como funcionava o ventilador gigante e, enquanto demonstrava como andar de trenó de costas, topei com o sr. Quinn, que tinha acabado de aparecer na porta.

Cuidado! Cuidado! ele berrou, deixando cair to­dos os nossos livros.



Ajudei a recolhê-los. Entre eles estava o meu, com a re­dação sobre a vida de Sant'Ana. Tinha um bilhete dentro, mas o sr. Quinn guardou-o no bolso antes de me devolver o livro.

  • Que diabos você estava fazendo, garoto?

  • É que ontem nós fomos ao Nevódromo, senhor. Foi muito legal.

De repente, o sr. Quinn ficou todo animado.

Então, que tal escrever uma redação sobre o passeio? ele disse. Não é uma boa idéia? Conte como foi diverti­do e inclua todos os detalhes. Aposto que não existe um san­to padroeiro dos Nevódromos.


O Nevódromo

Por Damian Cunningham,

Turma do Sr. Quinn
O Nevódromo é o máximo. A gente pode patinar no gelo e andar de trenó. A santa padroeira do esqui é Lidwina (virgem mártir, 1380-1433), que teve um aci­dente enquanto patinava e passou o resto da vida acamada. Ela suportou seu sofrimento com muita resignação e realizou vários milagres: por exemplo, comeu apenas hóstias sagradas durante sete anos. Para maiores informações, consulte o site:

www.totallysaints.com/lidwina.html.
A verdade é que existe um santo padroeiro para tudo. Como Santa Clara de Assis (1194-1253) uma vez me disse: "Os santos são como os aparelhos de televisão. Estão por toda parte. Mas é preciso ter uma antena."
2
Anthony mal pode acreditar que cheguei até aqui sem falar da União Monetária Européia.
A União Monetária Européia

Por Anthony Cunningham,



Quarta série
O dinheiro foi inventado na China em 1.100 a.C. An­tes disso, os mercadores chineses usavam, facas, e espadas como moeda de troca. Mas elas eram muito pesadas, então os chineses passaram a usar facas e espadas miniatu­ras. Elas eram feitas de bronze, e foram as primeiras moe­das. Em pouco tempo, todos os países tinham suas pró­prias moedas. Na Europa, por exemplo, havia o robusto mar­co alemão, a extravagante lira Italiana, o sofisticado fran­co francês e, é claro, a extraordinária libra britânica. A libra foi inventada em 1489, quando era chamada de so­berano. No dia 17 de dezembro, a libra será substituída pelo euro.

Quando a gente deposita uma libra no banco, eles co­locam o dinheiro em um trem especial, que depois o trans­porta até um lugar secreto para ser sucateado. Na manhã seguinte, o trem volta com o dinheiro novo. Portanto, nes­te exato momento, quase todo o dinheiro da Europa está viajando de trem.

Nossas velhas moedas devem ser colocadas, em vidros de geléia separados-, um vidro para as moedas de 5 centa­vos, outro para as de 10, outro para as de 20, e assim, por diante. Quando os vidros estiverem cheios, devem ser le­vados ao banco para que as moedas sejam, trocadas. Dia 17 de dezembro será o "dia do euro", o dia em que daremos Tchau para a velha Libra.


Anthony dava tchau para a velha libra quase todos os dias. No caminho da escola para casa, costumava correr como um louco até a passarela de pedestres e ficar ali, esperando até que um trem passasse rugindo sob nós. Depois, como no cinema, acenava e gritava até ver o trem desaparecer. "Adeus! Adeus, libras velhas!", ele berrava.

Anthony falava como se cada cédula de dez libras fosse uma amiga pessoal dele. Às vezes cheguei a pensar que ele fosse chorar. "Incrível", ele dizia, "quase quinhentos anos de história virando fumaça!".

Outras vezes, parecia bastante feliz com a mudança. "Incrível", ele dizia, "depois do Natal, todo mundo, da Irlanda até a Grécia, vai usar o mesmo dinheiro!".

Todas as noites, antes de irmos para a cama, Anthony, papai e eu jogávamos todas as moedas que tínhamos dentro de uma garrafa de uísque enorme que ficava ao pé da escada. Antes de subir para o quarto, Anthony quase chorava ao se desfazer de suas moedinhas de cinco centavos. E quando descia para tomar o café da manhã, dava um tapinha na garra­fa e dizia: "Impressionante como ela está se enchendo rápido!"

Quanto a mim, eu pensava: e daí? Dinheiro é só uma coisa, e as coisas mudam. Isso foi o que vim a descobrir. Uma hora a coisa está lá, bem debaixo do nosso nariz; a gente pode tocar e cheirar. E depois a coisa derrete, como uma barra de chocolate.

3
Mudando de casa

Por Anthonyy Cunningham,



Quarta série
Acabamos de nos mudar para uma nova casa, na rua Cromarty, número 7. É um imóvel de três quartos, sem vizinhos de frente. Custou 180.000 libras, mas não deve se depreciar; pelo contrário, acho até que vai valorizar! Tem placas de aquecimento solar no telhado e um sistema de calefação bastante econômico. Tem dois banheiros, incluindo o do quarto principal. Amplos jardins, na frente e atrás, completam o cenário. Fica em um novo condomínio, numa área semi-rural. Finalmente tenho um quarto só para mim. O papel de parede tem jogadores de futebol; fui eu mesmo que escolhi.
Em termos puramente arquitetônicos, fiquei decepcio­nado com a nova casa.

Lembro da rua Cromarty quando ela ainda era de terra. Papai um dia nos levou até um campo grande, perto da fer­rovia, todo coberto de sarças e urtigas. Um homem de cami­sa xadrez e prancheta na mão nos conduziu até uma área onde as sarças e as urtigas tinham sido arrancadas, e o mato, aparado. Era toda entrecortada de ruas de terra.

  • Rua Dogger — disse o homem, apontando para uma delas. Depois caminhou até a esquina da rua seguinte e disse: — Rua Finnisterre. — Por fim, apontou para a esquerda e disse: — Rua Cromarty.

  • O que vocês acham? — perguntou papai. — Querem se mudar pra cá?

Queremos sim! — respondi, muito entusiasmado. E então nos mudamos.

Na verdade, fiquei entusiasmado por causa de um mal-entendido. Achei que papai tivesse sugerido que nos mudássemos para o campo do jeito que ele estava, com ruas de ter­ra e tudo mais. Muitos santos viveram em lugares esquisitos. Santa Úrsula (século IV) viveu em um navio com 11 mil com­panheiros santos. São Simeão (390-459) tentou se livrar das tentações do mundo vivendo no topo de uma coluna de três metros de altura. Quando os curiosos começaram a se juntar em torno da coluna, ele se mudou para outra, de dez metros, para não ouvir o barulho. E quando as pessoas começaram a gritar (em 449), ele se mudou para uma terceira coluna, de vinte metros de altura, onde terminou seus dias em perfeito estado de contemplação.

Comparado a isso, viver em um campo de sarças e ruas de terra parecia bastante sensato e agradável. Eu estava ansio­so. Quando voltamos, todas as sarças haviam sido arranca­das; uma placa havia sido colocada, e nela se lia: "Condomí­nio Portland Meadows — exclusividade, privacidade e modernidade"; e quatro fileiras de casas, com telhados pontudos e janelas esquisitas, haviam sido construídas. A de nú­mero 7, na rua Cromarty, tinha três quartos, amplos jardins e painéis de energia solar. Ao contrário de muitas outras, não era contígua às construções vizinhas.

As casas isoladas depreciam menos, e as de três quar­tos têm uma demanda maior — Anthony comentou. — Ah, e os painéis de energia solar valorizam o imóvel.


Comparada a um navio com 11 mil companheiros santos ou a uma coluna de mármore de vinte metros de altura, nossa casa parecia um tanto quanto mundana. Então resolvi cons­truir um eremitério.

Papai queria colocar tudo no lugar. Quando abrimos as caixas de papelão, encontramos um milhão de coisas das quais a gente nem se lembrava mais. Uma das caixas estava cheia de vasos. Outra, cheia de roupas de cama. Uma terceira tinha enfeites de Natal e uma pista de autorama (que armamos ali mesmo, no depósito de caixas). Também encontramos as roupas e as maquiagens da nossa mãe.

Quando terminamos, levei as caixas vazias até a ferrovia, encaixei uma na outra, e pronto, lá estava o meu eremitério. Ele tinha a forma de um túnel e, nas extremidades, as abas serviam de janelas. Quando os trens passavam, toda a construção tremia, e nas noites escuras, os faróis iluminavam o lado de dentro por alguns segundos. Uma cerca de azevinhos, entre os jardins do condomínio e a ferrovia, tornava o eremitério quase invisível para quem estivesse nas casas. Levei algumas coisas para lá como o meu marcador de livros de são Francisco de Assis e uma bisnaga de hidrabase —, mas não exagerei, pois minha intenção era justamente levar uma vida mais simples. Não o tempo todo, é claro, por causa da escola. Mas sempre que possível. Minha pele se arranhou um pouco quando tive de atravessar a cerca de azevinho, mas não me importei, pois sei que o sofrimento é bom (o nome disso é "mortificação").

Tive a idéia do eremitério por causa de santa Rosa de Lima (1586-1617), que viveu num deles, nos jardins da casa dos pais, desde muito pequena. Ela tinha muitas visões maravilhosas, incluindo aquelas em que viu a Virgem Abençoa­da e o Espírito Santo, sem falar nos inúmeros santos que apareceram para ela. Quanto a mim, não vi nada nem ninguém, muito embora tivesse ficado lá até tarde da noite, quando já estava bastante frio.

Abri o Google com o objetivo de encontrar uma explicação para o fracasso do meu eremitério. A resposta era óbvia: mortificação insuficiente. Pessoas como Rosa de Lima fa­ziam muito mais que simplesmente viver em eremitérios. Jejuavam durante semanas. Andavam descalças para todos os lados. Usavam roupas desconfortáveis. Dormiam em colchões de prego.

Algumas formas de mortificação não são lá muito práti­cas. Jejuar por sete anos, por exemplo, é impossível quando o pai da gente é obcecado com a idéia de que todo mundo deve comer cinco pedaços de fruta por dia. Quanto aos colchões de prego, ninguém tinha um no condomínio inteiro. Mas dormi no chão naquela primeira noite. Esperei que papai apagasse as luzes, desci da cama e me deitei debaixo da jane­la. Não era nada confortável, mas essa era a idéia. Na manhã seguinte, caminhando para a escola, deixei Anthony passar na minha frente e tirei os sapatos. Nenhum problema en­quanto andávamos em cima do mato — embora minhas meias se molhassem todas —, mas o caminho até a rodovia era de cascalho. Acho até que os construtores mandaram afiar cada uma daquelas pedrinhas antes de colocá-las ali. Aquilo era muito, muito mortificante. Fiquei tentado a andar nos canteiros de grama, mas resisti bravamente. Depois disso, andar no asfalto foi moleza.

Encontrei o sr. Quinn no portão da escola. Ele reparou nos meus pés e disse:

Algum problema com os seus sapatos, Damian?

Mortificação da carne, senhor expliquei.

Acho que ele ficou impressionado.
Na aula de matemática, Jake deu um tapinha no meu ombro e exclamou:


  • Au!

  • Jake, que barulho foi esse? Tem alguma coisa a ver com matemática? perguntou o sr. Quinn.

  • Ia pedir uma régua emprestada, senhor, mas ele é espinhento!

Ele é o quê?

Todo mundo olhava para mim.

Dei um tapinha nas costas dele, senhor, e minha mão doeu.



O sr. Quinn se aproximou e tocou os meus ombros. De­pois se abaixou e sussurrou no meu ouvido para que eu o acompanhasse.

E vocês, continuem trabalhando ele disse aos outros.



Do lado de fora da sala, fez com que eu tirasse a camisa e mostrasse o que havia por baixo. No totallysaints.com, eles falam de Matt Talbot, que usava correntes o tempo todo. Naturalmente, não consegui encontrar nada parecido com as correntes de Matt Talbot, então tive de enfiar galhos de azevinho, colhidos no eremitério, debaixo da camisa.

  • Quem fez isso?

  • Eu mesmo, senhor.

Você está todo arranhado. Jogue isso tudo fora; vou fazer uns curativos.

Enquanto fazia os curativos, ele disse:

Venha até minha mesa assim que a aula terminar. Vou lhe entregar uma carta, que você deverá entregar a seu pai. Não se preocupe, não há nenhum problema. Mas é impor­tante, ouviu bem?


A carta estava dentro de um envelope pardo. Era bastante pesada. Papai abriu o envelope assim que o recebeu. Leu a carta e guardou-a no bolso.

Anthony disse:

Era sobre o quê? Vai haver uma excursão?

Não — respondeu papai. — Quer dizer, talvez. De certa maneira, sim. Mais cedo ou mais tarde. Agora andem logo, vão lavar as mãos.

Era minha vez de lavar a louça, e a de Anthony guardá-la no armário. Papai iria limpar o chão, mas quando voltei à sala de jantar para verificar se não havia ficado nada para trás, vi que ele lia a carta novamente. Assim que entrei, ele baixou o papel, mas reparei que uma das folhas era amarela, e nela estava escrito: "Avaliação Especial." Pensei com os meus botões: "Especial... isso deve ser bom."
Acho que papai foi se deitar muito tarde, pois adormeci an­tes que ele subisse para escovar os dentes. Durante a noite, acordei no meio de um sonho (sobre o qual não quero fa­lar), levantei da cama e fui dormir debaixo da janela outra vez. O chão parecia ainda mais frio, depois da cama quenti­nha. Não consegui dormir. De repente, percebi a presença de alguém na porta do quarto. "Finalmente uma visão!", pen­sei. Mas quando a figura se aproximou, vi que era apenas papai. Ele se agachou e me levantou no colo.

Shhhh... ele sussurrou. Continue dormindo, Damian. Você caiu da cama. Vou pôr você de volta.



Não quis dizer a papai que eu ainda estava acordado. Apenas virei de lado, para que ele não visse meu rosto. Achei que ele fosse sair do quarto, mas não saiu. Ficou ali por um tempo, sentado na beira da cama. Depois baixou a gola do meu pijama para olhar os meus ombros. Examinou os ar­ranhões. Quando finalmente se levantou para sair, eu disse baixinho:

— Tudo bem com você, papai?

  • Você está acordado?

  • Estou.

  • Então durma.

  • Está bem.

  • Damian...

  • Humm?

  • O que aconteceu com as suas costas?

  • Azevinhos.

Damian... Seja um bom garoto. Um bom garoto, só isso.

  • É o que eu tento ser, papai. O tempo todo.

  • Eu sei, filho. Eu sei.

Depois ele saiu. Dali a pouco, ouvi barulho de descarga no banheiro. E então voltei para o chão.
4
Não é tão fácil quanto parece ser um bom garoto. Por exemplo, na segunda-feira de manhã, a campainha tocou logo de­pois que papai saiu para trabalhar. Não devíamos abrir a porta quando ele não estivesse em casa. Por outro lado, estava na hora de irmos para a escola. Estávamos, portanto, diante de um dilema moral: abrir a porta (errado) e não chegarmos atrasados na escola (certo), ou não abrir a porta (certo) e chegar­mos atrasados na escola (errado). Anthony não pensa nessas coisas. Foi logo correndo em direção à porta enquanto vestia o paletó do uniforme. Mas agarrei o braço dele e disse:

Papai falou que a gente não deve abrir a porta.

Mas são vinte para as nove! — ele disse. — Estamos atrasados!

E então, quem quer que estivesse do outro lado tocou a campainha novamente.

Mas papai falou que a gente não deve abrir a porta! — gritei, quase em pânico. — São ordens dele, e a gente tem que ser bons garotos!



Anthony respirou fundo e disse:

  • Tá bem, então. Vamos fazer o seguinte. Você busca a sua mochila. A gente sai pra escola. Se tiver alguém lá fora, então vai ser apenas uma coincidência. Não abrimos a porta pra um estranho. Apenas saímos pra escola. Tá bem assim?

  • Assim tá bem. — Quando quer, Anthony é ótimo para resolver dilemas morais.

A coincidência era um homem de camisa branca, uma gravata do South Park, e um crachá de plástico onde estava escrito: "Terry - Contabilidade."

Eu moro ali — ele disse, apontando para a casa da esquina.



Anthony olhou para a tal casa.

  • As casas de esquina têm mais jardins, o que é uma grande vantagem, mas têm menos área de garagem, o que, no mercado de hoje, é um tremendo ponto negativo.

  • O pai de vocês está em casa?

  • Foi trabalhar.

  • E a mamãe?

  • Morreu — disse Anthony.

  • Ah.

Terry vasculhou os bolsos, como se procurasse algo para nos entregar. Anthony ficou ansioso para ver o que era, mas Terry não conseguiu encontrar nada.

  • Podem dar um recado a seu pai?

  • Claro.

  • Não nos conhecemos ainda. Geralmente saio para tra­balhar muito cedo, quando a maioria das pessoas ainda está dormindo, mas digam a ele que se quiser aparecer lá em casa hoje à noite, em torno das sete, vai ser um grande prazer. Quase todo mundo vai estar lá.

  • A gente pode ir também?

  • Claro que sim. Ei, querem ver uma coisa engraçada?

  • Então Terry apertou a gravata, e ela tocou a musiquinha do South Park, o que foi bastante surpreendente.

  • Mas quem é esse tal de Terry? Papai estava ficando nervoso.

Terry-Contabilidade, da casa da esquina. Disse para o senhor aparecer por volta das sete.

Aparecer para o quê? Uma festa? Um jantar? Uma par­tida de Banco Imobiliário? Para ajudá-lo a arrastar um ar­mário?



  • Ele tinha uma gravata que tocava música, e disse que seria um grande prazer. A gente acha que é uma festa.

  • Uma festa para os vizinhos se conhecerem.

  • Que horas são? Preciso levar alguma coisa; vou sair pra comprar uma bebida qualquer.

  • Não precisa. A gente está assando um bolo. Não serve?

  • Estou surpreso.

  • Surpreso e orgulhoso? Ou surpreso e decepcionado?

Surpreso e orgulhoso de ver que vocês procuraram ser excelentes.
A idéia de assar um bolo tinha sido minha. Quando chega­mos da escola, eu disse a Anthony:

Uma ótima oportunidade pra gente ser excelente. Que tal assar um bolo?



Anthony não gostou muito da idéia, simplesmente por­que não sabíamos assar nada. Mas eu me lembrava de ter assado bolos muitas vezes antes. Era uma das coisas das quais eu me lembrava muito. Às vezes, até sonhava com isso.

Aqueça o forno a duzentos graus falei.



E então partimos para o trabalho. Pegamos 110 gramas de farinha, cinqüenta gramas de manteiga, duas colheres de água e um pouquinho de sal. Misturamos tudo e deixamos a massa descansar na geladeira durante vinte minutos. E só. Por falar nisso, a padroeira dos padeiros é santa Águeda de Catania (século III).

Papai tirou a vasilha da geladeira e disse:

Muito bem, mas isso não é massa de bolo. É uma massa salgada.



Foi então que me lembrei: aquela massa era para quiche, e não para bolos. É muito triste e preocupante que a gente acabe esquecendo detalhes das nossas lembranças prediletas.

Olhando as coisas pelo lado bom, massa salgada é mais versátil que massa de bolo, pois pode ser transformada em torta. Então fizemos uma torta, aproveitando as maçãs que teríamos de comer depois do jantar. Cortamos as frutas em fatias, salpicamos açúcar em cima delas, espalhamos as fatias açucaradas por cima da base e colocamos tudo no forno. Depois subimos para tomar banho. O cheiro das maçãs assando se espalhou pela casa inteira. Assim que saímos do banho, sentamos no topo da escada e ficamos ali, saborean­do o cheirinho bom, enquanto papai separava nossas roupas chiques. Tínhamos usado nossas roupas chiques no dia anterior, mas felizmente elas ainda não tinham sido colocadas na máquina de lavar. Papai deu um jeito nelas, com um ferro quente e uma esponja molhada. Depois penteou os meus cabelos, afastou-se um pouco e olhou para os dois filhos.

  • Excelente! ele disse. Excelente mesmo! Agora, pra festa!

  • A gente pode comer um pedaço de torta antes? Ou uma torrada? Qualquer coisa. A gente tá morrendo de fome!

  • A fome é sempre o melhor tempero. Na festa vocês comem.

Saí na rua carregando a torta, ainda quente. Terry nos recebeu na porta de sua casa e tomou a vasilha das minhas mãos.

Já ouvi falar desta gravata! disse papai.



Terry apertou a gravata novamente. Nós rimos, mas a
musiquinha durou mais que os nossos risos, e tivemos de
ficar ali, esperando que ela acabasse.

Isso é tudo, pessoal! ele disse por fim. Os outros estão na sala.



Os outros eram quatro homens de camisas impecavel­mente brancas e um careca mal-arrumado, que vestia um terno surrado. Eles estavam sentados em círculo, segurando pedaços de papel. A torta não estava lá, e não havia nenhum sinal de comida por perto.

O homem de terno cumprimentou papai e disse:

Muito prazer. Bem-vindo à reunião de vigilantes do condomínio de Portland Meadows. Sou o policial responsá­vel por este distrito. Pode me chamar de Eddie. É claro que ainda não temos exatamente um distrito por aqui, mas você sabe... Se precisar de alguma coisa, é só chamar: um conse­lho, uma ajuda, ou simplesmente uma xícara de chá.



Papai sentou-se no sofá; Anthony sentou-se à direita dele, e eu à esquerda.

Vou ser honesto com você — continuou o homem. — O Natal está aí, e estas casas são novas. Se as estatísticas estiverem certas, os assaltantes logo aparecerão por aqui. Assim, se tiver algum problema, não deixe de ligar para mim. Faço uma ocorrência policial, e você pode acionar a companhia de seguro. — E então entregou um cartãozinho com o número do telefone dele.



Anthony me cutucou, apontou para a própria barriga e fez um barulho esquisito. O que ele queria dizer era: "Meu estômago está roncando." Entendi logo, pois meu estômago roncava tanto quanto o dele. Para piorar as coisas, ainda sentíamos o cheiro da torta de maçã sobre a mesa da cozinha, abandonada.

Terry inclinou-se para frente, e nós nos inclinamos tam­bém. "É agora", pensei. Mas em vez de nos oferecer comida, ele começou a falar sobre o aparelho de som.

Vocês sabem, essa belezura me custou uma fortuna ele disse, apontando para um emaranhado de fios e cabos que mais pareciam uma macarronada. Montei tudo sozi­nho. Demorei séculos pesquisando as melhores ofertas e escolhendo o que comprar. Sou apaixonado por estes aparelhos. Não sei o que será de mim se forem roubados. Seria como perder uma parte do corpo, uma amputação forçada. E a mesma coisa com o computador, é claro. Quer dizer, to­das as minhas lembranças estão guardadas ali, e a minha alma também. Sem computador, ficaria de luto. Estes aparelhos são parte de mim, parte do meu patrimônio.



Nenhuma menção a comida.

  • Vocês podem instalar um sistema de alarme ou com­prar um cachorro disse o policial do nosso distrito. Se dificultarem as coisas para os assaltantes, eles vão escolher outra casa. Isto é, a casa de um vizinho. Alguns de vocês talvez achem isso um pouco anti-social. Sei lá.

  • Sim, mas trabalhei muito para construir esta casa, sabe? Minha vida é isto aqui. Se pudesse...

Um dos homens impecáveis se inclinou para frente e disse:

Mas o verdadeiro problema é que nossas casas foram construídas sobre areia.



Papai se empertigou de repente.

Areia? Não é verdade, é? Não pode ser. Vim aqui quan­do foram cavados os alicerces.



O policial disse:

  • Acho que nosso amigo aqui usou uma metáfora. Está na Bíblia, não está? Não construir sua casa na areia, não pôr uma candeia debaixo do alqueire... Essas coisas.

  • Isso mesmo disse o mais impecável dos homens. Mateus, capítulo 7, versículo 26.

  • Posso fazer uma perguntinha? disse o policial ao dono da casa. A água já está mesmo fervendo?

Terry foi para a cozinha. Assim que ele saiu, o policial disse aos homens impecáveis:

  • Pelo jeito, vocês são mórmons. Certo?

  • Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias respondeu um deles.As pessoas nos chamam de mórmons, mas preferimos ser chamados de santos dos últimos dias. Meu nome é Eli. Este aqui é Amos, e este é John.

Muitíssimo interessante.

  • Vocês são santos! exclamei.

  • Santos dos últimos dias.

  • Mas santos, mesmo assim.

O policial do nosso distrito começou a juntar seus pa­péis e perguntou se havia mais alguma dúvida. Levantei a mão e perguntei:

O que exatamente é uma virgem mártir?



Papai tossiu e disse:

É que estão estudando isso na escola. Damian, por que não vai até a cozinha ajudar Terry? Anthony, você também.



Na cozinha, Terry jogava colheradas de café solúvel numa xícara. Uma única xícara. A torta estava logo ao lado dele. Tínhamos espalhado canela e algumas passas sobre as ma­çãs. O cheiro era uma mistura de Natal e verão. Nossa torta estava ali, abandonada sobre a bancada. Pelo jeito, não ia a lugar nenhum.

  • Papai mandou a gente ajudar.

  • Não precisa. É só uma xícara de café. — Então era mesmo só uma xícara de café. Meu estômago fez um barulho como se tivesse ouvido Terry. — Mas você pode ir até a sala e perguntar ao tira se ele prefere açúcar ou adoçante.

Anthony não se mexeu.

  • Nossa mãe morreu, o senhor sabia?

  • Sim, sim, você já disse — respondeu Terry. E depois foi até o armário da cozinha, onde havia uma pilha de sacos grandes de salgadinhos de festa. Do fundo da pilha, ele pu­xou dois pacotes de biscoitinhos de queijo e nos entregou.

  • Isto é pra vocês. Mas deixem pra comer em casa. Não quero farelos no meu carpete.


No caminho para casa, Anthony esfregou o pacote dele na minha cara e falou:

  • Eu não disse? Funciona sempre.

  • Tem certeza que isso é honesto? — perguntei.

  • Ela está mortinha da silva, não está?

É claro que estava, mas até então ninguém tinha falado sobre isso assim, em termos puramente biológicos. Quando nos alcançou, papai disse:

Vocês se comportaram muito bem esta noite. Agora vamos até o restaurante chinês comprar alguma coisa para comermos em casa. Peçam o que quiserem.



Anthony pediu rolinhos primavera e frango com molho de feijão. Por algum motivo, eu não tinha fome. Mesmo quan­do papai me mostrou o cardápio, nada me apeteceu. Minha fome tinha ido embora.
Em casa, papai e Anthony abriram as embalagens de isopor e começaram a comer no sofá. Fui até o armário da cozinha e busquei pratos e talheres.

Damian, não precisa. Já é tarde. Não queremos lavar nada depois. Venha aqui, coma um pouquinho de arroz.



Mas continuei a pôr a mesa.

  • Damian...

  • Temos de fazer tudo direito. Essa é a idéia.

  • Que idéia?

  • O senhor disse que a gente precisa fazer tudo direito. Que a gente tem de ser excelente. Foi o senhor mesmo que disse. E agora está comendo no sofá. A gente nunca fez isso antes — eu estava quase gritando. — Já pra mesa!

Papai tentou me acalmar.

Damian, você acha que está chateado. Mas está ape­nas com fome.



  • Não estou com fome. Só quero ver todo mundo senta­do na mesa, como uma família direita. Fazendo tudo direito.

  • A gente se senta à mesa se você comer um pouquinho. Feito um menino direito.

  • Está bem então.

Papai sentou-se à mesa e serviu um pouco de chop suey no meu prato.

  • Por que você não consegue ser normal? — Anthony disse.

  • Quase nada é normal — papai disse. — Então, como a gente pode ser normal? — Depois pegou um rolinho primavera de Anthony e pôs no meu prato.

Estava horrível. Tinha repolho dentro, em vez de brotos de feijão. Mas me fez sentir um pouco melhor.
Acho que foi o rolinho primavera que não me deixou dor­mir direito. Toda hora eu acordava no meio de um sonho (sobre o qual não quero falar). Até voltei para a cama, achan­do que um pouquinho de conforto pudesse melhorar a si­tuação. Mas não melhorou. Assim que o dia clareou, desci as escadas de mansinho e fugi para o eremitério.

Chegando lá, vi que tinha uma pessoa do lado de dentro: uma mulher alta, ossuda, de olhos azuis muito brilhantes. Imediatamente reconheci quem era.

  • Santa Clara de Assis (1194-1253) — falei.

  • Isso mesmo — ela disse, sorrindo. Depois olhou ao seu redor. — Gosto muito dos eremitérios. Eu mesma já tive um.

  • Eu sei.

  • Costumava ir até lá e me esconder do mundo. Se al­guém precisasse de mim, eu mandava uma aparição. Resol­via o problema da pessoa.

  • Muito legal. Eu podia ficar aqui e mandar uma apari­ção para a escola.

  • É um dom que nem todo mundo tem. Muito raro. Eu era como uma televisão humana. É por isso que sou a santa padroeira da televisão. Por causa dos meus pecados. Quer dizer, por causa das minhas virtudes, né? Hoje em dia a gente vê de tudo na televisão. Nada me choca mais, fique você sa­bendo. Mas dá uma canseira... É por isso que gosto dos ere­mitérios.

  • Nossa casa era um pouco... sei lá, inadequada. Se comparada à coluna de são Simeão ou ao navio de santa Úrsula e seus 11 mil companheiros santos.

A santa deu um risinho e disse:

  • Essa história de 11 mil companheiros santos foi um erro de tradução. No seu lugar, não me deixaria impressio­nar. Pra falar a verdade, tinha no máximo uns 11.

  • Mas tem milhares de pessoas com a senhora lá em cima, não tem?

  • Milhares. Muitos milhares. Milhões.

Queria saber se a senhora já viu santa Maureen por lá. Ela pensou por um instante e depois respondeu que não.

Mas também, como ela mesma disse, as coisas no céu eram infinitas.

Absolutamente infinitas. "Na casa de meu Pai há mui­tas moradas." João, capítulo 14.



  • Versículo 2 — acrescentei.

  • Certo ela disse. E depois desapareceu.

Se dependesse de mim, não teria escolhido santa Clara como primeira visão. Ela é uma santa ótima, claro, muito legal para conversar. Qualquer aparição é sempre bem-vin­da. Portanto, em termos puramente filosóficos, fiquei feliz.



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