Francisco cândido xavier



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PAULO E ESTEVÃO

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

ROMANCE DITADO PELO ESPÍRITO EMMANUEL

ÍNDICE
Breve Notícia
PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO 1 = Corações flagelados

CAPÍTULO 2 = Lágrimas e sacrifícios

CAPÍTULO 3 = Em Jerusalém

CAPÍTULO 4 = Nas estradas de Jope

CAPÍTULO 5 = A pregação de Estevão

CAPÍTULO 6 = Ante o Sinédrio

CAPÍTULO 7 = As primeiras perseguições

CAPÍTULO 8 = A morte de Estevão

CAPÍTULO 9 = Abigail cristã

CAPÍTULO 10 = No caminho de Damasco
SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO 1 = Rumo ao deserto

CAPÍTULO 2 = O tecelão

CAPÍTULO 3 = Lutas e humilhações

CAPÍTULO 4 = Primeiros labores apostólicos

CAPÍTULO 5 = Lutas pelo Evangelho

CAPÍTULO 6 = Peregrinações e sacrifícios

CAPÍTULO 7 = As Epístolas

CAPÍTULO 8 = O martírio em Jerusalém

CAPÍTULO 9 = O prisioneiro do Cristo

CAPÍTULO 10 = Ao encontro do Mestre

Breve Notícia


Não são poucos os trabalhos que correm mundo, re­lativamente à tarefa gloriosa do Apóstolo dos gentios. É justo, pois, esperarmos a interrogativa: — Por que mais um livro sobre Paulo de Tarso? Homenagem ao grande trabalhador do Evangelho ou informações mais detalhadas de sua vida?

Quanto à primeira hipótese, somos dos primeiros a reconhecer que o convertido de Damasco não necessita de nossas mesquinhas homenagens; e quanto à segunda, responderemos afirmativamente para atingir os fins a que nos pro pomos, transferindo ao papel humano, com os recursos possíveis, alguma coisa das tradições do pla­no espiritual acerca dos trabalhos confiados ao grande amigo dos gentios.

Nosso escopo essencial não poderia ser apenas reme­morar passagens sublimes dos tempos apostólicos, e sim apresentar, antes de tudo, a figura do cooperador fiel, na sua legitima feição de homem transformado por Jesus-Cristo e atento ao divino ministério.

Esclarecemos, ainda, que não é nosso propósito levantar apenas uma biografia romanceada.

O mundo está repleto dessas fichas educa­tivas, com referência aos seus vultos mais notáveis. Nosso melhor e mais sincero desejo é recordar as lutas acerbas e os ásperos testemunhos de um coração extraordinário, que se levantou das lutas humanas para seguir os passos do Mestre, num esforço incessante.

As igrejas amornecidas da atualidade e os falsos de­sejos dos crentes, nos diversos setores do Cristianismo, justificam as nossas intenções.

Em toda parte há tendências à ociosidade do espí­rito e manifestações de menor esforço. Muitos discípulos disputam as prerrogativas de Estado, enquanto outros, distanciados voluntariamente do trabalho justo, suplicam a proteção sobrenatural do Céu. Templos e devotos entre­gam-se, gostosamente, às situações acomodatícias, prefe­rindo as dominações e regalos de ordem material.

Observando esse panorama sentimental é útil recor­darmos a figura inesquecível do Apóstolo generoso.

Muitos comentaram a vida de Paulo; mas, quando não lhe atribuíram certos títulos de favor, gratuitos do Céu, apresentaram-no como um fanático de coração res­sequido. Para uns, ele foi um santo por predestinação, a quem Jesus apareceu, numa operação mecânica da graça; para outros, foi um espírito arbitrário, absorvente e rís­pido, inclinado a combater os companheiros, com vaida­de quase cruel.

Não nos deteremos nessa posição extremista.

Queremos recordar que Paulo recebeu a dádiva santa da visão gloriosa do Mestre, às portas de Damasco, mas não podemos esquecer a declaração de Jesus relativa ao sofrimento que o aguardava, por amor ao seu nome.

Certo é que o inolvidável tecelão trazia o seu ministé­rio divino; mas, quem estará no mundo sem um ministério de Deus? Muita gente dirá que desconhece a própria tarefa, que é insciente a tal respeito, mas nós poderemos responder que, além da ignorância, há desatenção e muito capricho pernicioso. Os mais exigentes advertirão que Paulo recebeu um apelo direto; mas, na verdade, todos os homens menos rudes têm a sua convocação pes­soal ao serviço do Cristo. As formas podem variar, mas a essência ao apelo é sempre a mesma. O convite ao ministério chega, ás vezes, de maneira sutil, inesperada­mente; a maioria, porém, resiste ao chamado generoso do Senhor. Ora, Jesus não é um mestre de violências e se a figura de Paulo avulta muito mais aos nossos olhos, é que ele ouviu, negou-se a si mesmo, arrependeu-se, tomou a cruz e seguiu o Cristo até ao fim de suas tarefas materiais. Entre perseguições, enfermidades, apodos, zombarias, desilusões, deserções, pedradas, açoites e encarceramentos, Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da sua vida.

Foi muito mais que um predestinado, foi um realizador que trabalhou diariamente para a luz.

O Mestre chama-o, da sua esfera de claridadeS imor­tais. Paulo tateia na treva das experiências humanas e responde: — Senhor, que queres que eu faça?

Entre ele e Jesus havia um abismo, que o Apóstolo soube transpor em decênios de luta redentora e cons­tante.

Demonstrá-lo, para o exame do quanto nos compete em trabalhO próprio, a fim de Ir ao encontro de Jesus, é o nosso objetivo.

Outra finalidade deste esforço humilde é reconhecer que o Apóstolo não poderia chegar a essa possibilidade, em ação isolada no mundo.

Sem Estevão, não teríamos Paulo de Tarso. O gran­de mártir do Cristianismo nascente alcançou influência muito mais vasta na experiência paulina, do que podería­mos imaginar tão-só pelos textos conhecidos nos estudos terrestres. A vida de ambos está entrelaçada com miste­riosa beleza. A contribuição de Estevão e de outras per­sonagens desta história real vem confirmar a necessida­de e a universalidade da lei de cooperação. E, para ve­rificar a amplitude desse conceito, recordemos que Jesus, cuja misericórdia e poder abrangiam tudo, procurou a companhia de doze auxiliares, a fins de empreender a re­novação do mundo.

Aliás, sem cooperação, não poderia existir amor; e o amor é a força de Deus, que equilibra o Universo.

Desde já, vejo os críticos consultando textos e com­binando versículos para trazerem á tona os erros do nosso tentame singelo. Aos bem-intencionados agradecemos sin­ceramente, por conhecer a nossa expressão de criatura falível, declarando que este livro modestO foi grafado por um Espírito para os que vivam em espírito; e ao pedan­tismo dogmático, ou literário, de todos os tempos, recorremos ao próprio Evangelho para repetir que, se a letra mata, o espírito vivifica.

Oferecendo, pois, este humilde trabalho aos nossos irmãos da Terra, formulamos votos para que o exemplo do Grande Convertido se faça mais claro em nossos cora­ções, a fim de que cada discípulo possa entender quanto lhe compete trabalhar e sofrer, por amor a Jesus-Cristo.
Pedro Leopoldo, 8 de julho de 1941.

PRIMEIRA PARTE

1

Corações flagelados
A manhã enfeitava-se de muita alegria e de sol, mas as ruas centrais de Corinto estavam quase desertas.

No ar brincavam as mesmas brisas perfumadas, que sopravam de longe; entretanto, não se observava, na fisionomia suntuosa das vias públicas, o sorriso de suas crianças despreocupadas, nem o movimento habitual das liteiras de luxo, em seu giro costumeirO.

A cidade, reedificada por Júlio César, era a mais bela jóia da velha Acaia, servindo de capital à formosa pro­víncia. Não se podia encontrar, na sua intimidade, o espírito helênico em sua pureza antiga, mesmo porque, depois de um século de lamentável abandono, após a destruição operada por Múmio, restaurando-a, o grande imperador transformara Corinto em colônia importante de romanos, para onde acorrera grande número de liber­tos ansiosos de trabalho remunerador, ou proprietários de promissoras fortunas. A estes, associara-se vasta cor­rente de israelitas e considerável percentagem de filhos de outras raças que ali se aglomeravam, transformando a cidade em núcleo de convergência de todos os aventu­reiros do Oriente e do Ocidente. Sua cultura estava muito distante das realizações intelectuais do gosto grego mais eminente, misturando-se, em suas praças, os templos mais diversos.

Obedecendo, talvez, a essa heterogeneidade de sentimentos, Corinto tornara-se famosa pelas tradições de libertinagem da grande maioria dos seus habitantes.

Os romanos lá encontravam campo largo para as suas paixões, entregando-se, desvairadamente, ao vene­noso perfume desse jardim de flores exóticas. Ao lado dos aspectos soberbos e das pedrarias rutilantes, o pân­tano das misérias morais exalava nauseante bafio. A tragédia foi sempre o preço doloroso dos prazeres fáceis. De quando em quando, os grandes escândalos reclama­vam as grandes repressões.

Nesse ano de 34, a cidade em peso fora atormentada por violenta revolta dos escravos oprimidos.

Crimes tenebrosos foram perpetrados na sombra, exigindo severas devassas. O Pró-consul não hesitara, ante a gravidade da situação. Expedindo mensageiros oficiais, solicitara de Roma os recursos precisos. E os recursos não tardaram. Em breve, a galera das águias dominadoras, auxiliada por ventos favoráveis, trazia no bojo as autoridades da missão punitiva, cuja ação deveria esclarecer os acontecimentos.

Eis por que, nessa manhã radiosa e alegre, os edi­fícios residenciais e as lojas do comércio apresentavam-se envolvidos em profundo silêncio, semicerrados e tristes. Os transeuntes eram raros, com exceção de vários ma­gotes de soldados, que cruzavam as esquinas despreocupa­dos e satisfeitos, como quem se entregava, de bom grado, ao sabor das novidades.

Já de alguns dias, um chefe romano, cujo nome se fazia acompanhar de sombrias tradições, fora recebido pela Corte Provincial, ali desempenhando as elevadas fünções de legado de César, cercado de grande número de agentes políticos e militares e estabelecendo o terror entre todas as classes, com os seus processos infaman­tes. Licínio Minúcio chegara ao poder, mobilizando todos os recursos da intriga e da calúnia. Conseguindo voltar a Corinto, onde estacionara anos antes, sem maior auto­ridade, tudo ousava agora, por aumentar seus cabedais, fruto de avareza insaciável e sem escrúpulos. Pretendia recolher-se, mais tarde, àqueles sítios, onde suas pro­priedades particulares atingiam grandes proporções, es­perando aí a noite da decrepitude. Assim, de maneira a consumar seus criminosos desígnios, iniciou largo mo­vimento de arbitrárias expropriações, a pretexto de ga­rantir a ordem pública em benefício do poderoso Império, que a sua autoridade representava.

Numerosas famílias de origem judaica foram esco­lhidas como vítimas preferenciais da nefanda extorsão.

Por toda parte começavam a chorar os oprimidos; entretanto, quem ousaria o recurso das reclamações pú­blicas e oficiais? A escravidão esperava sempre os que se entregassem a qualquer impulso de liberdade contra as expressões da tirania romana. E não era só a figura desprezível do odioso funcionário que constituía para a cidade uma angustiosa e permanente ameaça. Seus asseclas espalhavam-se em vários pontos das vias públicas, provocando cenas insuportáveis, características de uma perversidade inconsciente.

A manhã ia alta, quando um homem idoso, dando a entender que buscava o mercado, pelo cesto que lhe pendia das mãos, atravessava a passos vagarosos uma praça ensolarada e extensa.

Um grupo de tribunos alvejava-o com ditérios de­primentes, entre gargalhadas de ironia.

O velhinho, que denunciava nos traços fisionômicos a linha israelita, demonstrava perceber o ridículo de que vinha sendo objeto; mas, distanciando-se dos militares patrícios, como desejoso de resguardar-se, caminhou com mais timidez e humildade, desviando-se em silêncio.

Foi nesse instante que um dos tribunos, em cujo olhar autoritário perpassava acentuada malícia, acercou-se dele, interrogando-o asperamente:

— Olá, judeu desprezível, como ousas passar sem saudar os teus senhores?

O interpelado estacou, pálido e trêmulo. Seus olhos revelaram estranha angústia que resumia, na sua elo­qüência silenciosa, todos os martírios infinitos que fla­gelavam a sua raça. As mãos enrugadas lhe tremiam ligeiramente, enquanto o busto se arqueava reverente, premindo a longa barba encanecida.

— Teu nome? — tornou o oficial, entre desrespeitoso e irônico.

— Jochedeb, filho de Jared — respondeu timidamente.

— E por que não saudaste os tribunos imperiais?

— Senhor, eu não ousei! — explicou quase lacri­moso.

— Não ousaste? — perguntou o oficial com pro­funda aspereza.

E, antes que o interpelado conseguisse oportunidade para mais amplas desculpas, o mandatário imperial as­sentou-lhe os punhos cerrados no rosto venerável, em bofetões sucessivos e impiedosos.

— Toma! Toma! — exclamava rudemente, ao es­tridor das gargalhadas dos companheiros presentes à cena, em tom festivo — guarda mais esta lembrança! Cão asqueroso, aprende a ser educado e agradecido!...

O velhinho cambaleou, mas não reagiu. Percebia-se-lhe a surda revolta íntima, a traduzir-se no olhar chamejante, indignado, que lançou ao agressor com uma sere­nidade terrível. Num movimento espontâneo, olhou os braços encarquilhados na luta e no sofrimento, reconhe­cendo a inutilidade de qualquer revide. Foi quando o verdugo inesperado, observando-lhe a calma silenciosa, pareceu medir a extensão da própria covardia e, colando as mãos na complicada armadura do cinto, voltou a dizer com profundo desdém:

— Agora que recebeste a lição, podes procurar o mercado, judeu insolente!

A vítima dirigiu-lhe, então, um olhar de ansiosa amargura, no qual transpareciam as dolorosas angústias em toda uma longa existência. Emoldurado na túnica singela e na velhice venerável, aureolada por cabelos branqueados nas mais penosas experiências da vida, o olhar do ofendido semelhava-se a um dardo invisível que penetraria, para sempre, a consciência do agressor des­respeitoso e mau. No entanto, aquela dignidade ferida não se demorou muito na atitude de exprobração, intra­duzível em palavras. Em breves instantes, suportando os ditérios da geral zombaria, prosseguiu no objetivo que o levara a sair à rua.

O velho Jochedeb experimentava agora estranhas e amargas reflexões. Duas lágrimas quentes e doloridas sulcavam-lhe as rugas da face macilenta, perdendo-se nos fios grisalhos da barba veneranda. Que fizera para merecer tão pesados castigos? A cidade fora trabalhada pelos movimentos de rebeldia de numerosos escravos, mas seu pequeno lar prosseguia com a mesma paz dos que trabalham com dedicação e obediência a Deus.

A humilhação experimentada fazia-o regressar, pela imaginação, aos períodos mais difíceis da história de sua raça. Por que motivo, e até quando sofreriam os israelitas a perseguição dos elementos mais poderosos do mundo? Qual a razão de serem sempre estigmatiza­dos, como indignos e miseráveis, em todos os recantos da Terra? Entretanto, amavam sinceramente aquele Pai de justiça e amor, que velava dos Ceus pela grandeza da sua fé e pela eternidade dos seus destinos. Enquanto OS outros povos se entregavam ao relaxamento das forças espirituais, transformando esperanças sagradas em ex­pressões de egoísmo e idolatria, Israel sustentava a lei do Deus único, esforçando-se, em todas as circunstâncias, por conservar intacto o seu patrimônio religioso, com sacrifício embora da sua independência política.

Acabrunhado, O pobre velho meditava na própria sorte.

Esposo dedicado, enviuvara quando aquele mesmo Licínio Minúcio, questor do Império, anos antes, instau­rara nefandos processos em Corinto, a fim de punir alguns elementos de sua população descontente e rebe­lada. Sua grande fortuna pessoal fora extremamente re­duzida e houve de amargar uma prisão injusta, resultante de falsas acusações, que lhe valeram pesados dissabores e terríveis confiscos. Sua mulher não havia resistido aos sucessivos golpes que lhe feriram fatalmente o cora­ção sensível, mergulhando-se na morte, ralada de acerbos desgostoS e deixando-lhe os dois filhinhos que consti­tuíam a coroa de esperança da sua laboriosa existência. Jeziel e Abigail desenvolviam-se sob o carinho de seuS braços afetuosos e, por eles, no acúmulo dos sagrados deveres domésticos, sentia que a neve da estrada humana lhe alvejara precocemente os cabelos, consagrando a Deus as suas mais santas experiências. À mente lhe veio então, mais viva, a silhueta graciosa dos filhos. Era um leni­tivo conhecer o sabor agradável das experiências do mundo, a benefício deles. O tesouro filial compensava-o das flagelações em cada acidente do caminho. A evoca­ção do lar, onde o amor carinhoso dos filhos alimentava as esperanças paternas, suavizou-lhe as amarguras.

Que importava a brutalidade do romano conquista­dor, quando sua velhice se aureolava dos mais santos afetos do coração? Experimentando resignado consolo, chegou ao mercado, onde se abasteceu do que neces­øitava.

O movimento não era intenso na feira habitual, como nos dias mais comuns; entretanto, havia certa concor­rência de compradores, mormente de libertos e pequenos proprietários, que afluiam das estradas de Cencréia.

Mal não havia terminado a compra de peixe e legu­mes, luxuosa liteira parou no centro da praça e dela saltou um oficial patrício, desdobrando largo pergami­nho. Ao sinal de silêncio, que fizera emudecer todas as vozes, a palavra da estranha personagem vibrou forte na leitura fiel do édito que trazia:

— “Licínio Minúcio, questor do Império e legado de César, encarregado de abrir nesta província a necessária devassa para restabelecimento da ordem em toda a Acata, convida a todos os habitantes de Corinto que se consi­derarem prejudicados em seus interesses pessoais, ou que se encontrarem necessitados de amparo legal, a compare­cerem amanhã, ao meio-dia, no palácio provincial, junto ao templo de Vênus Pandemos, a fim de exporem suas queixas e reclamações, que serão plenamente atendidas pelas autoridades competentes.”

Lido o aviso, o mensageiro retornou a elegante via­tura, que, sustentada por hercúleos braços escravos, desa­pareceu na primeira esquina, envolvida por uma nuvem de pó levantada em remoinho pela ventania da manhã.

Entre os circunstantes, surgiram logo opiniões e comentários.

Os queixosos não tinham conta. O legado e seus prepostos logo de começo se apossaram de pequenos patrimônios territoriais da maioria das famílias mais humildes, cujos recursos financeiros não davam para custear processos no foro provincial. Daí, a onda de esperanças que avassalava o coração de muitos e a opi­nião pessimista de outros, que não enxergavam no édito senão nova cilada, para obrigar os reclamantes a paga­rem muito caro as suas legítimas reivindicações.

Jochedeb ouviu a comunicação oficial, colocando-se imediatamente entre os que se julgavam com direito a esperar legítima indenização pelos prejuízos sofridos nou­tros tempos.

Animado das melhores esperanças, desan­dou para casa, escolhendo caminho mais longo, de modo a evitar novo encontro com os que o haviam humilhado rudemente.

Não havia caminhado muito, quando lhe surgiram à frente novos grupos de militares romanos, em conver­sações ruidosas, que transbordavam alacremente nas cla­ridades da manhã.

Defrontando o primeiro grupo de tribunos e sentin­do-se alvo de comentários deprimentes a transparecerem em risos escarninhos, o velho israelita considerou: —“Deverei saudá-los, ou passar mudo e reverente, como procurei fazer na vinda?” Preocupado com o evitar novo pugilato que agravasse as humilhações daquele dia, in­clinou-se profundamente qual mísero escravo e murmu­rou, tímido:

— Salve, valorosos tribunos de César!

Mal acabou de o dizer e um oficial de fisionomia dura e impassível se acercou, exclamando colérico:

— Que é isso? Um judeu a dirigir-se impunemente aos patrícios? Chegou a tanto a condenável tolerância da autoridade provincial? Façamos justiça por nossas próprias mãos.

E novas bofetadas estalaram no rosto dorido do infeliz, que necessitava concentrar todas as energias na vontade para não se atirar, de qualquer modo, a uma reação desesperada. Sem uma palavra de justificação, o filho de Jared submeteu-se ao castigo cruel. Seu coração precipite, parecia rebentar de angústia no peito en­velhecido; todavia, o olhar refletia a intensa revolta que lhe ia na alma opressa. Impossibilitado de coordenar idéias em face da agressão inesperada, na sua atitude humilde reparou que, desta vez, o sangue jorrava das narinas, tingindo-lhe a barba branca e o linho singelo das vestiduras. Isso, porém, não chegou a sensibilizar o agressor, que, por fim, lhe vibrou a última punhada na fronte enrugada, murmurando:

— Safa-te, insolente!

Sustentando, a custo, o cesto que lhe pendia dos braços trêmulos, Jochedeb avançou cambaleante, sufo­cando a explosão do seu extremo desespero. “Ah! ser velho!” — pensava.

Simultaneamente, os símbolos da fé modificavam-lhe as disposições espirituais, e sentia no íntimo a palavra antiga da Lei: — “Não matarás”. No entanto, os ensinamentos divinos, a seu ver, na voz dos profetas, aconselhavam o revide — “olho por olho, dente por dente”. Seu espírito guardava a intenção da represália como remédio às reparações a que se julgava com direito; mas as forças físicas já não eram compatí­veis com os requisitos da reação.

Profundamente humilhado e presa de angustiosos pensamentos, buscou recolher-se ao lar, onde se aconse­lharia com os filhos muito amados, em cujo afeto encon­traria, decerto, a necessária inspiração.

Sua modesta vivenda não demorava longe e, ainda a distância, acabrunhado, entreviu o singelo e pequenino teto do qual fizera a edícula do seu amor. Presto, en­veredou na trilha que terminava na cancelinha tosca, quase afogada pelas roseiras de Abigail, a exalarem forte e delicioso perfume. As árvores verdes e copadas espalhavam frescor e sombra, que atenuavam o rigor do sol. Uma voz clara e amiga chegava de longe aos seus ouvidos. O coração paternal adivinhava. Àquela hora, Jeziel, conforme o programa por ele mesmo traçado, arava a terra, preparando-a para as primeiras semeadu­ras. A voz do filho parecia casar-se à alegria do sol.

A velha canção hebraica, que lhe saía dos lábios quentes de mocidade, era um hino de exaltação ao trabalho e à Natureza. Os versos harmoniosos falavam do amor à terra e da proteção constante de Deus. O generoso pai afogava, a custo, as lágrimas do coração. A melodia popular sugeria-lhe um mundo de reflexões. Não havia trabalhado a existência inteira? Não se presumia um homem honesto nos mínimos atos da vida, para jamais perder o título de justo? Entretanto, o sangue da per­seguição cruel ali estava a pingar-lhe da barba veneranda sobre a túnica branca e indene de qualquer mácula que lhe pudesse atormentar a consciência.

Ainda não transpusera o cercado rústico da vivenda humilde, quando uma voz cariciosa lhe gritava assusta­diça e veemente:

— Pai! Pai! que sangue é esse?

Uma jovem de notável formosura corria a abraçá-lo com imensa ternura, ao mesmo tempo que lhe arrancava o cesto das mãos trêmulas e doloridas.

Abigail, na candidez dos seus dezoito anos, era um gracioso resumo de todos os encantos das mulheres da sua raça. Os cabelos sedosos caíam-lhe em anéis capri­chosos sobre os ombros, emoldurando-lhe o rosto atraente num conjunto harmonioso de simpatia e beleza. No en­tanto, o que mais impressionava, no seu talhe esbelto de menina e moça, eram os olhos profundamente negros, nos quais intensa vibração interior parecia falar dos mais elevados mistérios do amor e da vida.

— Filhinha, minha querida filha! — murmurou ele, amparando-se nos seus braços carinhosos.

Em breve, dava conta de todas as ocorrências. E, enquanto o velho genitor banhava o rosto contundido, na infusão balsâmica que a filha preparara cuidadosa­mente, Jeziel era chamado a inteirar-se do acontecido.

O jovem acorreu solícito e pressuroso. Abraçado ao pai, ouviu-lhe o desabafo amargo, palavra por palavra. No vigor da juventude, não se lhe poderia dar mais de vinte e cinco anos; mas o comedimento dos gestos e a gravidade com que se exprimia, deixavam entrever um espírito nobre, ponderado e servido por uma consciência cristalina.

— Coragem, pai! — exclamou depois de ouvir a dolorosa exposição, pondo nas expressões de firmeza um acentuado cunho de ternura — nosso Deus é de justiça e sabedoria. Confiemos na sua proteção!

Jochedeb contemplou o filho de alto a baixo, fixan­do-lhe o olhar bondoso e calmo, onde desejaria lobrigar, naquele momento, a indignação que lhe parecia natural e justa, dominado pelo desejo das represálias. Ë ver­dade que criara Jeziel para as alegrias puras do dever, em obediência à leal execução da lei; entretanto, nada o compelia a abandonar suas idéias de desforra, de maneira a desafrontar-se dos ultrajes recebidos.

— Filho — obtemperou depois de meditar longo tempo —, Jeová é cheio de justiça, mas os filhos de Israel, como escolhidos, precisam igualmente exercê-la. Podería­mos ser justos, olvidando afrontas? Não poderei des­cansar, sem o repouso da consçiência pela obrigação cum­prida. Tenho necessidade de assinalar os erros de que fui vítima, no presente e no passado, e amanhã irei ao legado ajustar minhas contas.

O jovem hebreu fez um movimento de espanto e acrescentou:

— Ireis, porventura, à presença do questor Licínio, esperando providências legais? E os antecedentes, meu pai? Pois não foi esse mesmo patrício quem vos despojou de grande patrimônio territorial, atirando-vos ao cár­cere? Não vedes que ele tem nas mãos as forças da iniqüidade? Não será de temer novas investidas com o fim de extorquir o pouco que nos resta?

Jochedeb mergulhou no olhar do filho, olhar que a nobreza do coração orvalhava de lágrimas emotivas, po­rém, na sua rigidez de caráter, acostumado a executar os desígnios próprios até ao fim, exclamou quase seca-mente:

— Como sabes, tenho contas velhas e novas a acer­tar, e, amanhã, de conformidade com o édito, aprovei­tarei o ensejo que o Governo provincial nos faculta.

— Meu pai, suplico-vos — advertiu o rapaz, entre respeitoso e carinhoso — não lanceis mão desses re­cursos!

— E as perseguições? — explodiu o velho energi­camente — e esse turbilhãO incessante de ignomínias em torno dos homens de nossa raça? Não haverá um paradeiro nesse caminho de infinitas angústias? Assis­tiremos, inermes, ao enxovalho de tudo que possuimos de mais sagrado? Tenho o coração revoltado com esses crimes odiosos, que nos atingem impunemente...

A voz tornara-se-lhe arrastada e melancólica, dei­xando perceber extremo desânimo; todavia, sem se per­turbar com as objeções paternas, Jeziel prosseguiu:

- Essas torturas, entretanto, não são novas. Há muitos séculos, os faraós do Egito levaram tão longe a crueldade para com os nossos ascendentes, que os meninos de nossa raça eram trucidados logo ao nascer. Antíoco Epifânio, na Síria, mandou degolar mulheres e crianças, no recesso mesmo dos nossos lares. Em Roma, de tempos a tempos, todos os israelitas sofrem vexames e confiscos, perseguição e morte. Mas, certamente, meu pai, Deus permite que assim aconteça para que Israel reconheça, nos sofrimentos mais atrozes, a sua missão divina.

O velho israelita parecia meditar as ponderações do filho; contudo, acrescentou resoluto:

— Sim, tudo isso é verdade, mas a justiça reta deve ser cumprida, ceitil por ceitil, e nada poderá demover-me.

— Então, ireis reclamar, amanhã, perante o legado?

— Sim!


Nesse momento, o olhar do jovem demorou na velha mesa onde repousava a coleção dos Escritos Sagrados da família. Animado por súbita inspiraçãO, Jeziel lembrou humildemente:

— Pai, não tenho o direito de exortar-vos, mas vejamos o que nos suscita a palavra de Deus a respeito do que pensais neste momento.

E abrindo os textos ao acaso, conforme o costume da época, a fim de conhecer a sugestão que lhes pudes­sem facultar as sagradas letras, leu na parte dos Pro­vérbios:

— “Filho meu, não rejeites o corretivo do Senhor, nem te enojes de sua repreensão; porque Deus repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem”. (1)

O velho israelita abriu os olhos espantados, reve­lando a estupefação que a mensagem indireta lhe causa­va; e como Jeziel o fixasse longamente, demonstrando ansioso interesse por conhecer-lhe a atitude íntima, em face da sugestão dos pergaminhos sagrados, acentuou:

— Recebo a advertência dos Escritos, meu filho, mas não me conformo com a injustiça e, segundo tenho resolvido, levarei minha queixa às autoridades compe­tentes.

O rapaz suspirou e disse resignado:

— Que Deus nos proteja!...


No dia seguinte, avolumava-se compacta multidão junto ao templo da Vênus popular. Do antigo casarão onde funcionava um tribunal improvisado, viam-se as luxuosas e extravagantes viaturas que cruzavam a gran­de praça em todas as direções. Eram patrícios que se dirigiam às audiências da Corte Provinciana, ou antigos proprietários da fortuna particular de Corinto, que se entregavam aos entretenimentos do dia, à custa do suor dos misérrimos cativos. Desusado movimento caracte­rizava o local, observando-se, de vez em quando, os oficiais embriagados que deixavam o ambiente viciado do templo da famosa deusa, entupido de capitosos perfumes e condenáveis prazeres.

Jochedeb atravessou a praça, sem se deter para fixar qualquer detalhe da multidão que o rodeava e penetrou no recinto, onde Licínio Minúcio, cercado de muitos auxi­liares e soldados, expedia numerosas ordens.

Os que se atreveram à queixa pública excediam tão­-somente de uma centena e, depois de prestarem declara­ções individuais, sob o olhar percuciente do legado, eram



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