Francisco Cândido Xavier Humberto de Campos Palavras do Infinito Conteúdo resumido



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Encontro11.09.2017
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(1) No original da mensagem foram dados os nomes das pessoas nela mencionados. Como, porém, essas pessoas deixaram descendentes, que poderiam molestar-se com as referências que lhes fez Humberto de Campos, resolvemos indicá-la apenas pelas suas iniciais

C. tinha no mundo idéias espíritas e continuava, na outra vida, a interessar-se pelas coisas de sua doutrina.

Então, coronel, a vida que levaremos por aqui não será muito diversa da que observávamos lá em baixo? Um morto, pode apresentar-se nas solenidades dos vivos, participar das suas alegrias e das suas tristezas, como no presente caso? Aliás, já sabemos do capítulo evangélico que manda os mortos enterrar os mortos.

- Pode, sim, menino – replicou o meu amigo como quem evocasse uma cena dolorosa – mas, isso de acompanhar enterros, sobra-me experiência para não mais fazê-lo. Costumamos observar que, se os vivos têm medo dos que já regressaram para cá, nós igualmente, às vezes, sentimos repulsa de topar os vivos. Porém, o que lhe vou contar ocorreu entre os considerados mortos. Tié medo de dois espectros num ambiente soturno de cemitério.

E o meu amigo, com o olhar mergulhado no pretérito longínquo, monologava:

- Desde essa noite, nunca mais acompanhei enterros de amigos... Deixo isso para os encarnados, que vivem brincando de cabra-cega no seu temporário esquecimento...

- Conte-me, coronel, o acontecimento – disse eu, mal sopitando a curiosidade.

- Lembra-se – começou ele – da admiração que eu sempre manifestava pelo Dr. A.F., que você não chegou a conhecer em pessoa?

- Vagamente...

- Pois bem, o Antonico, nome pelo qual respondia na intimidade, era um dos meus amigos do peito. Advogado de renome na minha terra, já o conheci na elevada posição que usufruía no seio da sociedade que lhe acatava todas as ações e pareceres.

Pardavasco, insinuante, era o tipo do mulato brasileiro. Simpático, inteligente, captava a confiança de quantos se lhe aproximavam. Era de uma felicidade única. Ganhava todas as causas que lhe eram entregues. O crime mais negro apresentava para a sua palavra percuciente uma argumentação infalível na defesa. Os réus, absolvidos com a sua colaboração, retiravam-se da sala de sessões da justiça quase canonizados. O Antonico se metera em alguma pendência? O triunfo era dele. Gozava de toda a nossa consideração e estima. Criara a sua família com irrepreensível moralidade. Em algumas cerimônias religiosas a que compareci, recordo-me de lá o haver encontrado, como bom católico, em cuja personalidade o nosso vigário via um dos mais prestigiosos dos seus paroquianos.

Chefiava iniciativas de caridade, presidia a associação religiosa e primava pela austeridade intransigente dos seus costumes.

Quando voltei desse mundo, que hoje representa para nós uma penitenciaria, trouxe dele saudosas recordações.

Imagine, pois o meu desejo de reencontrá-lo, quando vim a saber, nestas paragens, que ele se achava às portas da morte. Obtive permissão para excursionar à Terra e fui revê-lo na sua cama de luxo, rodeado de zelos extremos, numa alcova ensombrada de sua confortável residência. As poções eram ingeridas. Injeções eram aplicadas. Os médicos eram atenciosamente ouvidos. Contudo, a morte rondava o leito de rendas, com o seu passo silencioso. Depois de ter o abdômen rasgado por um bisturi, uma infecção sobreviera inesperadamente.

Apareceu uma pleurisia e todas as punções foram inúteis. Antonico agonizava. Vi-o nos seus derradeiros momentos, sem que ele me visse na sua semi-inconsciência. Os médicos à sua cabeceira, deploravam o desaparecimento do homem probo. O padre, que sustinha naquelas mãos de cera u delicado crucifixo, recitando a oração dos moribundos, fazia ao céu piedosas recomendações. A esposa chorava o esposo, os filhos o pai! Aos meus olhos, aquele quadro era o da morte do justo. Transcorridas algumas horas, acompanhei o fúnebre cortejo que ia entregar à terra aqueles despojos frios.

Desnecessário é que lhe diga das pomposas exéquias que a igreja dispensou ao morto, em virtude da sua posição eminente. Preces. Aspersões com hissopes ensopados n’água benta e latim agradável.

Mas, como nem todos os que morrem desapegam imediatamente dos humores e das vísceras, esperei que o meu amigo acordasse para ser o primeiro a abraçá-lo.

Era crepúsculo. E, naquela tarde de agosto, as nuvens estavam enrubescidas, em meio do fumo das queimaduras, parecendo uma espumarada de sangue. Havia um cheiro de terra brava, entre as lousas silenciosas, ao pé dos salgueiros e dos ciprestes. Eu esperava. De vez em quando, o vento agitava a ramaria dos chorões, que pareciam soluçar, numa toada esquisita. Os coveiros abandonaram a sua tarefa sinistra e eu vi um vulto de mulher, esgueirando-se entre as lápides enegrecidas. Parou junto daquela cova fresca. Não se tratava de nenhuma alma encarnada. Aquela mulher pertencia também aos reinos das sombras. Observei-a de longe. Todavia, gritos estentóricos ecoaram aos meus ouvidos.

- A. F. – exclamou o espectro – chegou o momento da minha vingança! Ninguém poderá advogar a tua causa. Nem Deus, nem o Demônio poderão interceder pela tua sorte, como não puderam cicatrizar no mundo as feridas que abriste em meu coração. Todas as nossas testemunhas agora são mudas. Os anjos aqui são de pedra e as capelas de mármore, cheias de cruzes caladas, são estojos de carne apodrecida. Lembras-te de mim? Sou a R. S., que infelicitaste com a tua infâmia!

Já não és aquele moreno insinuante que surrupiou a fortuna de meus pais, destruindo-lhes a vida e atirando-me no meretrício abominável. A fortuna que te deu um nome foi edificada no pedestal do crime.

Recordas-te das promessas mentirosas que me fizeste? Envergonhada, abandonei a terra que me vira nascer para ganhar o pão no mais horrendo comércio. Corri mundo, sem esquecer a tua perversidade e sem conseguir afogar o meu infortúnio na taça dos prazeres.

Entretanto, o mundo foi teu. Réu de um crime nefando, foste sacerdote da justiça; eu, a vítima desconhecida, fui obrigada a sufocar a minha fraqueza nas sentinas sociais, onde os homens pagam o tributo das suas misérias. Tiveste a sociedade, eu os bordéis. O triunfo e a consideração te pertenceram; a mim coube o desprezo e a condenação. Meu lar foi o hospital, donde se escapou o último gemido do meu peito.

Meus braços, que haviam nascidos para acariciar os anjos de Deus, como dois galhos de árvores cheios de passarinhos, foram por ti transformados em tentáculos de perdição. Eu poderia ter possuído um lar, onde as crianças abençoassem os meus carinhos e onde um companheiro laborioso se reconfortasse com o beijo da minha afeição. Venho te condenar, ó desalmado assassino, em nome da justiça eterna que nos rege, acima dos homens. Há mais de um lustro, espero-te nesta solidão indevassável, onde não poderás comprar a consciência dos juizes... Viveste com o teu conforto, enquanto eu penava com a minha miséria; mas, o inferno agora será de nós dois!...

O coronel fez uma pausa, enquanto eu meditava naquela história.

- A mulher chorava – continuou ele – de meter dó. Aproximei-me dela, não sendo notada, porém, minha presença. Olhei a cruz modesta e carcomida que havia que havia sido arrancada poucas horas antes, daqueles sete palmos de terra, para que ali fosse aberto um novo sepulcro, e, não sei se por artes do acaso, nela estava escrito um nome com pregos amarelos, já desfigurados pela ferrugem: R. S. – Orai por ela.

Por uma coincidência sinistra, reencontravam-se os dois corpos e as duas almas. Procurei fazer tudo pelo Antonico, mas quando atravessei com o olhar a terra que lhe cobria os despojos, afigurou-se-me ver um monte de ossos que se moviam. Crânio, tíbias, úmero, clavículas, se reuniam sob uma ação misteriosa e vi uma caveira chocalhando os dentes de fúria, ao mesmo tempo em que umas falangetas de aço pareciam apertar o pescoço do cadáver do meu amigo.

- E ele, coronel, isto é, o Espírito, estava presente?

- Estava, sim. Presente e desperto. Lá o deixei, sentindo os horrores daquela sufocação.

- Mas, e Deus, coronel? Onde estava Deus que não se compadeceu do pecador arrependido?

O coronel me olhou, como se estivesse interrogando a si mesmo, e declarou por fim:

- Homem, sei lá!... Acredito que Deus tenha criado o mundo; porém, acho que a Terra ficou mesmo sob administração do Diabo.
Humberto de Campos.

(Recebida em Pedro Leopoldo a 9 de abril de 1935).


5

Judas Iscariotes
Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos séculos. Além descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa noite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há um traço da Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, como se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisas tumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.

Foi assim, numa destas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.

Os espíritos podem vibrar em contacto direto com a história. Buscando uma relação íntima com a cidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório morto dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.

Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde Precursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante.

- Sabe quem é este? – murmurou alguém aos meus ouvidos. – Este é Judas.

- Judas?!...

- Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho...

Aquela figura de homem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. O meu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo.

-O senhor é, de fato, o ex-filho de Iscariot? – perguntei.

– Sim, sou Judas – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica.

E prosseguiu:

Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...

- É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?

- Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.

- E chegou a salvar-se pelo arrependimento?

- Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...

- E está hoje meditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.

- Sim... Estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deus o seu destino... Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe... Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.

Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...

- É verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.

Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.
Humberto de Campos.

Recebida em Pedro Leopoldo a 19 de abril de 1935

6

Aos que ainda se acham mergulhados

nas sombras do mundo


Antigamente eu escrevia nas sombras para os que se conservavam nas claridades da Vida. Hoje, escrevo na luz branca da espiritualidade para quantos ainda se acham mergulhados nas sombras do mundo. Quero crer, porém que tão dura tarefa me foi imposta nas mansões da Morte, como esquisita penitência ao meu bom gosto de homem que colheu quando pôde dos frutos saborosos na árvore paradisíaca dos nossos primeiros pais, segundo as Escrituras.

Contudo não desejo imitar aquele velho Tirésias que à força de proferir alvitres e sentenças conquistou dos deuses o dom divinatório em troca dos preciosos dons da vista.

Por esta razão o meu pensamento não se manifesta entre vocês que aqui acorreram para ouvi-lo como o daquelas entidades batedoras, que em Hydesville, na América do Norte, por intermédio das irmãs Fox, viviam nos primórdios do Espiritismo, contando histórias e dando respostas surpreendentes com as suas pancadas ruidosas e alegres.

Devo também esclarecer ao sentimento de curiosidade que os tangeu até aqui, que não estou exercendo ilegalmente a medicina como a grande parte dos defuntos, os quais, hoje em dia, vivem diagnosticando e receitando mezinhas e águas milagrosas para os enfermos.

Nem tampouco, na minha qualidade de repórter “falecido” sou portador de alguma mensagem sensacional dos paredros comunistas que já se foram dessa vida para a melhor, êmulos dos Lenine, dos Kropotkine, cujos cérebros, a esta hora, devem estar transbordando teorias momentosas para o instante amargo que o mundo está vivendo.

O objetivo das minhas palavras póstumas é somente demonstrar o homem... Desencarnado e a imortalidade dos seus atributos. O fato é que vocês não me viram.

Mas contem lá fora eu enxergaram o médium. Não afirmam que ele se parece com o Mahatma Gandhi em virtude de lhe faltar uma tanga, uma cabra e a experiência “anosa” do “líder” nacionalista da Índia. Mas historiem, com sinceridade, o caso das suas roupas remendadas e tristes de proletário e da sua pobreza limpa e honesta que anda por esse mundo arrastando tamancos para a remissão de suas faltas nas anteriores encarnações. Quanto a mim, digam que eu estava por detrás do véu de Ísis.

Mesmo assim, na minha condição de intangibilidade, não me furto ao desejo de lhes contar algo a respeito desta “outra vida” para onde todos têm de regressar. Se não estou nos infernos de que fala a teologia dos cristãos, não me acho no sétimo paraíso de Maomé. Não sei contar as minhas aperturas na amarga perspectiva de completo abandono em que me encontrei, logo após abrir os meus olhos no reino extravagante da Morte. Afigurou-se-me que eu ia, diretamente consignado ao Aqueronte, cujas águas amargosas deveria transpor como as sombras para nunca mais voltar, porque não cheguei a presenciar nenhuma luta entre São Gabriel e os Demônios, com as suas balanças trágicas, pela posse de minha alma. Passados, porém, os primeiros instantes de “inusitado” receio, divisei a figura miúda e simples do meu Tio Antoninho, que me recebeu nos seus braços carinhosos de santo.

Em companhia, pois, de afeições ternas, no reconto fabuloso, que é a minha temporária morada, ainda estou como aparvalhado entre todos os fenômenos da sobrevivência. Ainda não cheguei a encontrar os sóis maravilhosos, as esferas, os mundos comentários, portentos celestes, que descreve Flammarion na sua “Pluralidade dos Mundos”. Para o meu espírito, a Lua ainda prossegue na sua carreira como esfinge eterna do espaço, embuçada no seu burel de freira morta.

Uma saudade doida e uma ânsia sem termo fazem um turbilhão no meu cérebro: é a vontade de rever, no reino das sombras, o meu pai e a minha irmã. Ainda não pude fazê-lo. Mas em um movimento de maravilhosa retrospecção pude volver à minha infância, na Miritiba longínqua. Revi as suas velhas ruas, semi-arruinadas pelas águas do Piriá e pelas areias implacáveis... Revi os dias que se foram e senti novamente a alma expansiva de meu pai como um galho forte e alegre do tronco robusto dos Veras à minha frente, nos quadros vivos da memória, abracei a minha irmãzinha inesquecida, que era em nossa casa modesta como um anjo pequenino da Assunção de Murilo, que se tivesse corporificado de uma hora para outra sobre as lamas da terra...

Descansei à sombra das árvores largas e fartas, escutando ainda as violas caboclas, repenicando os sambas da gente das praias nortistas e que tão bem ficaram arquivadas na poesia encantadora e simples de Juvenal Galeno.

Da Miritiba distante transportei-me à Parnaíba, onde vibrei com o meu grande mundo liliputiano... Em espírito, contemplei com a minha mãe as folhas enseivados do meu cajueiro derramando-se na Terra entre as harmonias do canto choroso das rolas morenas dos recantos distantes de minha terra.

De almas entrelaçadas contemplei o vulto de marfim antigo daquela santa que, como um anjo, espalmou muitas vezes sobre o meu espírito cansado as suas asas brancas. Beijei-lhe as mãos encarquilhadas genuflexo e segurei as contas do seu rosário e as contas miúdas e claras que corriam furtivamente dos seus olhos, acompanhando a sua oração...

Ave Maria... Cheia de graça... Santa Maria... Mãe de Deus...

Ah! De cada vez que o meu olhar se espraia tristemente sobre a superfície do mundo, volvo a minha alma aos firmamentos, tomada de espanto e de assombro... Ainda há pouco, nas minhas surpresas de recém-desencarnado, encontrei na existência dos espaços, onde não se contam as horas, uma figura de velho, um espírito ancião, em cujo coração milenário presumo refugiadas todas as experiências. Longas barbas de neve, olhos transudando piedade infinita doçura, da sua fisionomia de Doutor da Lei, nos tempos apostólicos, irradiava-se uma corrente de profunda simpatia.

- Mestre! – disse-lhe eu na falta de outro nome – que podemos fazer para melhorar a situação do orbe terreno? O espetáculo do mundo me desola e espanta... A família parece se dissolve... O lar está balançando como os frutos podres, na iminência de cair... A Civilização, com os seus numerosos séculos de leis e instituições afigura-se haver tocado os seus apogeus... De um lado existem os que se submergem num gozo aparente e fictício, e do outro estão às multidões famintas, aos milhares, que não têm senão rasgado no peito o sinal da cruz, desenhado por Deus com a suas mãos prestigiosas como os símbolos que Constantino gravara nos seus estandartes... E, sobretudo Mestre, é a perspectiva horrorosa da guerra...

Não há tranqüilidade e a Terra parece mais um fogareiro imenso, cheio de matérias em combustão...

Mas o bondoso espírito-ancião me respondeu com humildade e brandura:

- Meu filho... Esquece o mundo e deixa o homem guerrear em paz!...

Achei graça no seu paradoxo, porém só me resta acrescentar:

- Deixem o mundo em paz com a sua guerra e a sua indiferença!

Não será minha boca quem vá soprar na trombeta de Josafá. Cada um guarde aí a sua crença ou o seu preconceito.


Recebida em Pedro Leopoldo a 23 de abril de 1935.
7

Trago-lhe o meu adeus sem prometer voltar breve
Apreciando, em 1932, o “Parnaso de Além-Túmulo”, que os poetas desencarnados mandaram ao mundo por intermédio de você, chamei a atenção dos estudiosos para a incógnita que o seu caso apresentava. Os estudiosos, certamente, não apareceram. Deixando, porém, o meu corpo minado por uma hipertrofia renitente, lembrei-me do acontecimento. Julgara eu que os bardos “do outro mundo”, com a sua originalidade estilar, se comprometiam pela eternidade da produção, no falso pressuposto de que se pudessem identificar por outra forma. Encontrando ensejo para me fazer ouvir, através de suas mãos, escrevi essas crônicas póstumas que o Sr. Frederico Figner transcreveu nas colunas do “Correio da Manhã”. Não imaginei que o humilde escritor desencarnado estivesse ainda na lembrança de quantos o viram desaparecer. E as minhas palavras provocaram celeuma. Discutiu-se e ainda se discute.

Você foi apresentado como hábil fazedor de pastiches e os noticiaristas vieram averiguar o que havia de verdadeiro em torno do seu nome.

Colheram informes. Conheceram a honestidade da sua vida simples e as dificuldades dos seus dias de pobre. E, por último, quiseram ver como você escrevia a mensagem dos mortos, com uma Remington acionada por dedos invisíveis.

Tive pena quando soube que iam conduzi-lo a um “test” e recordei-me do primeiro exame a que me sujeitei aí com o coração batendo forte.

Fiz questão de enviar-lhe algumas palavras como o homem que fala de longe à sua pátria distante, através das ondas de Hertz, sem saber se os seus conceitos serão reconhecidos pelos patrícios, levando em conta as deficiências do aparelho receptor e os desequilíbrios atmosféricos. Todavia, bem ou mal, consegui falar alguma coisa. Eu devia essa reparação à doutrina que você sinceramente professa.

Esperariam, talvez, que eu falasse sobre os fabulosos canais de Marte, sobre a natureza de Vênus, descrevendo, como os viajantes de Júlio Verne, a orografia da Lua. Julgo, porém, que por enquanto me é mais fácil uma discussão sobre o diamagnetismo de Faraday.

Admiraram-se quando enxergaram a sua mão vertiginosa correndo sobre as linhas do papel.

A curiosidade jornalística é agora levantada em torno da sua pessoa. É possível que outros acorram para lhe fazer suas visitas. Mas ouça bem. Não me espere como a pitonisa de Endor aguardando a sombra de Samuel para fazer predições a Saul sobre as suas atividades guerreiras. Não sei movimentar as trípodes espíritas e se procurei falar naquela noite é que o seu nome estava em jogo. Colaborei, assim, na sua defesa. Mas, agora que os curiosos o procuram, na sua ociosidade, busque, no desinteresse, a melhor arma para desarmar os outros. Eu voltarei provavelmente quando o deixarem em paz na sua amargurosa vida.

Não desejo escrever maravilhando a ninguém e tenho necessidade de fugir a tudo o que tenho obrigação de esquecer.

Fique-se, pois, com a sua cruz, que é bem pesada por amor Daquele que acende o lume das estrelas e o lume da esperança nos corações. A mediunidade posta ao serviço do bem é quase a estrada do Gólgota; mas a fé transforma em flores as pedras do caminho. Li aí, certa vez, num conto delicado, que uma mulher em meio de sofrimentos acerbos, apelara para Deus, a fim de que se modificasse a volumosa cruz da sua existência. Como filha de Cipião, vira nos filhos as jóias preciosas da sua vaidade e do seu amor, mas como Níobe vira-os arrebatados no torvelinho da morte, impelidos pela fúria dos deuses. Tudo lhe falhara nas fantasias do amor, do lar e da ventura.

- Senhor – exclama ela – por que me destes uma cruz tão pesada? Arrancai dos meus ombros fracos este insuportável madeiro!

Mas, nas asas brandas do sono, a sua alma de mulher viúva e órfã foi conduzida a um palácio resplandecente. Um Anjo do Senhor recebeu-a no pórtico, com a sua bênção. Uma sala luminosa e imensa lhe foi designada. Toda ela se enchia de cruzes. Cruzes de todos os feitios.

- Aqui – disse-lhe uma voz suave – guardam-se todas as cruzes que as almas encarnadas carregam na face triste do mundo. Cada um desses madeiros traz o nome do seu possuidor. Atendendo, porém à tua súplica, ordena Deus que escolhas aqui uma cruz menos pesada do que a tua.

A mulher escolheu conscienciosamente aquela cujo peso competia com as suas possibilidades, escolhendo-a entre todas.

Mas apresentando ao Mensageiro Divino a sua preferência, verificou que, na cruz escolhida, se encontrava esculpido o seu próprio nome, reconhecendo a sua impertinência e rebeldia.

- Vai! – disse-lhe o Anjo – com a tua cruz e não descreias. Deus, na sua misericordiosa justiça, não poderia macerar os teus ombros com um peso superior às tuas forças.

Não se desanime, portanto, na faina que se encontra, carregando esse fardo penoso que todos os incompreendidos já carregaram. E agora que os bisbilhoteiros o procuram, trago-lhe o meu adeus, sem prometer voltar breve.

Que o Senhor derrame sobre você a sua bênção que conforta todos os infortunados e todos os tristes.

Humberto de Campos

Recebida em Pedro Leopoldo a 28 de abril de 1935


8

A Passagem de Richet
O Senhor tomou lugar no tribunal da sua justiça e, examinando os documentos que se referiam ás atividades das personalidades eminentes sobre a Terra, chamou o Anjo da Morte, exclamando:

Nos meados do século findo, partiram daqui diversos servidores da Ciência que prometeram trabalhar em meu nome no orbe terráqueo, levantando a moral dos homens e suavizando-lhes as lutas. Alguns já regressaram, enobrecidos nas ações dignificadoras, nesse mundo longínquo. Outros, porém, desviaram-se dos seus deveres e outros ainda lá permanecem, no turbilhão das duvidas e das descrenças, laborando no estudo.

“Lembras-te daquele que era aqui um inquieto investigador, com as suas analises incessantes, e que se comprometeu a servir os ideais da Imortalidade, adquirindo a fé que sempre lhe faltou?

— “Senhor aludis a Charles Richet, reencarnado em Paris, em 1850, e que escolheu uma notabilidade da medicina para lhe servir de pai?”.

— “Justamente. Pelas noticias dos meus emissários, apesar da sua sinceridade e da sua nobreza, Richet não conseguiu adquirir os elementos de religiosidade que fora buscar, em favor do seu próximo. Tens conhecimento dos favores que o Céu lhe tem adjudicado, no transcurso da sua existência?”.

— “Tenho, Senhor. Todos os vossos mensageiros lhe cercaram a inteligência e a honestidade com o halo da vossa sabedoria. Desde os primórdios das suas lutas na Terra, os Gênios da Imensidade o rodeiam com o sopro divino de suas inspirações. Dessa assistência constante lhe nasceram os poderes intelectuais, tão cedo revelados no mundo. Sua passagem pelas academias da Terra, que serviu para excitar a potencia vibratória da sua mente, em favor da ressurreição do seu tesouro de conhecimentos, foi acompanhada pelos vossos emissários com especial carinho. Ainda na mocidade, lecionou na Faculdade de Medicina, obtendo a cadeira de Fisiologia. Nesse tempo, já seu nome, com os vossos auxílios, estava cercado de admiração e respeito. As suas produções granjearam-lhe a veneração e a simpatia dos seus contemporâneos. De 1877 a 1884, publicou estudos notáveis sobre a circulação do sangue, sobre a sensibilidade, sobre a estrutura das circunvoluções celebrais, sobre a fisiologia dos músculos e dos nervos, perquirindo os problemas graves do ser, investigando no circulo de todas as atividades humanas, conquistando o seu nome a admiração universal.”

— “E em matéria de espiritualidade, replicou austeramente o Senhor, que lhe deram os meus emissários e de que forma retribuiu o seu espírito a essas dádivas?”.

— “Nesse particular, exclamou solicito o Anjo, muito lhe foi dado. Quando deixastes cair, mais intensamente, a vossa luz sobre os mistérios que me envolvem, ele foi dos primeiros a receber-lhe os raios fulgurantes. Em Carqueiranne, em Milão e na ilha Roubaud, muitas claridades o bafejaram, junto de Eusapia Paladino, quando o seu gênio se entregava a observações positivas, com os seus colegas Lodge, Myers e Sidwick. De outras vezes, com Delanne, analisou as celebres experiências de Alger, que revolucionaram os ambientes intelectuais e materialistas da França, que então representava o cérebro da civilização ocidental.

“Todos os portadores das vossas graças levaram as sementes da Verdade á sua poderosa organização FÍSICA, apelando para o seu coração, afim de que cite afirmasse as realidades da sobrevivência; povoaram-lhe as noites de severas meditações, com as imagens maravilhosas das vossas verdades, porém, apenas conseguiram que ele escrevesse o Tratado de Metapsíquica e um estudo proveitoso, a favor da concórdia humana, que lhe valeu o Premio Nobel da Paz, em 1913.

“Os mestres espirituais não desanimaram, nem descansaram nunca em torno da sua individualidade; mas, apesar de todos os esforços despendidos, Rechia viu, nas expressões fenomenológicas de que foi atento observador, apenas a exteriorizarão das possibilidades de um sexto sentido nos organismos humanos. Ele que fora o primeiro organizador de um dicionário de fisiologia, não se resignou a ir além das demonstrações histológicas. Dentro da espiritualidade, todos os seus trabalhos de investigador se caracterizam pela duvida que lhe martiriza a personalidade. Nunca pode, Senhor, encarar as verdades imortalistas, senão como hipótese, mas o seu coração é generoso e sincero. Ultimamente, nas reflexões da velhice, o grande lutador se veio inclinando para a fé, até hoje inaccessível ao seu entendimento de estudioso. Os vossos mensageiros conseguiram inspirar-lhe um trabalho profundo, que apareceu no planeta como “A Grande Esperança” e, nestes últimos dias, a sua formosa inteligência realizou para o mundo uma mensagem entusiástica, em prol dos estudos espiritualistas.

— “Pois bem, exclamou o Senhor, Richet terá de voltar agora a penates. Traze de novo aqui a sua individualidade, para as necessárias interpelações.”.

— “Senhor, assim tão depressa? — retornou o Anjo, advogando a causa do grande cientista — O mundo vê em Richet um dos seus gênios mais poderosos, guardando nele sua esperança. Não conviria protelar a sua permanência na Terra, afim de que ele vos servisse, servindo á Humanidade?”.

— “Não — disse o Senhor tristemente. — Se, após oitenta e cinco anos de existência sobre a face da Terra, não pode reconhecer, com a sua ciência, a certeza da Imortalidade, é desnecessária a continuação de sua estadia nesse mundo. Como recompensa aos seus esforços honestos em beneficio dos seus irmãos em humanidade, quero dar-lhe agora, com o poder do meu amor, á centelha divina da crença, que a ciência planetária jamais lhe concedeu, nos seus labores ingratos e frios.”.
*
No leito de morte, Richet tem as pálpebras cerradas e o corpo na posição derradeira, em caminho da sepultura. Seu espírito inquieto de investigador não dormiu o grande sono.

Há ali, cercando-lhe os despojos, uma multidão de fantasmas.

Gabriel Delanne estende-lhe os braços de amigo. Denis e Flammarion o contemplam com bondade e carinho. Personalidades eminentes da França antiga, velhos colaboradoras da “Revista dos Mundos” cooperadores devotados dos “Anais das Ciência Físicas” ali estão, para abraçarem o mestre no limiar do seu tumulo.

Richet abre os olhos para as realidades espirituais que lhe eram desconhecidas. Parece-lhe haver retrocedido ás materializações da Vila Carmem; mas, ao seu lado, repousam os seus despojos, cheios de detalhes anatômicos. O eminente fisiologista reconhece-se no mundo dos verdadeiros vivos. Suas percepções estão intensificadas, sua personalidade é a mesma e, no momento em que volve a atenção para a atitude carinhosa dos que o rodeiam, ouve uma voz suave e profunda falando do Infinito:

— “Richet, exclama o Senhor no tribunal da sua misericórdia, porque não afirmaste a Imortalidade, e porque desconheceste o meu nome no teu apostolado de missionário da ciência e do labor? Abri todas as portas de ouro que te poderia reservar sobre o mundo. Perquiriste todos os livros. Aprendeste e ensinaste, fundaste sistemas novos do pensamento, á base das duvidas dissolventes. Oitenta e cinco anos se passaram, esperando eu que a tua honestidade me reconhecesse, sem que a fé desabrochasse em teu coração... Todavia, decifraste, com o teu esforço abençoado, muitos enigmas dolorosos da ciência do mundo e todos os teus dias representaram uma sede grandiosa de conhecimentos... Mas, eis, meu filho, onde a tua razão positiva é inferior á revelação divina da fé. Experimentaste as torturas da morte com todos os teus livros e diante dela desapareceram os teus compêndios, ricos de experimentações no campo das filosofias e das ciências. E agora, premiando os teus labores, eu te concedo os tesouros da fé que te faltou, na dolorosa estrada do mundo!”.

Sobre o peito do abnegado apostolo, desce do Céu um punhal de luz opalina, como um vernábulo maravilhoso de luar indescritível.

Richet sente o coração tocado de luminosidade infinita e misericordiosa, que as ciência nunca lhe haviam dado. Seus olhos são duas fontes abundantes de lagrimas de reconhecimento ao Senhor. Seus lábios, como se voltassem a ser os lábios de um menino recitam o “Pai Nosso que estais no Céu...”.

Formas luminosas e aéreas arrebatam-no, pela estrada de Eder da eternidade e, entre prantos de gratidão e de alegria, o apostolo da ciência caminhou da grande esperança para a certeza divina da Imortalidade.

Humberto de Campos

(Recebida em Pedro Leopoldo, 21 de janeiro de 1936).


9

Hauptmann
“Na Casa da Morte”, em Trenton, Bruno Richard Hauptmann desfolha, pela última fez, o calendário de suas recordações. É de tarde. O condenado sente esvaecer-se-lhe a derradeira esperança. Já não há mais possibilidade de adiamento da execução depois das decisões do Grande Júri de Mercer, e o caso Wendel representava o único elemento que modificaria o epílogo doloroso da tragédia de Hopewell.

O governador do Estado de Nova Jérsey já havia desempenhado a sua imitação de Pilatos, e o senhor Kimberling nada mais poderia realizar que o cumprimento austero das leis que condenaram o carpinteiro alemão à cadeira elétrica.

Hauptmann sente-se perdido diante do irresistível e chora, protestando a sua inocência. Recapitula a série de circunstâncias que o conduziram à situação de indigitado matador do baby Lindenbergh, e espera ainda que a justiça dos homens reconheça o seu erro, salvando-o, à última hora, das mãos do carrasco. Mas a justiça dos homens está cega; tateando na noite escura de suas vacilações, não viu senão a ele, no amontoado das sombras.

A polícia norte-americana precisava que alguém viesse à barra do Tribunal responder-lhe por um crime nefando, satisfazendo assim as exigências da civilização, salvaguardando o seu renome e a sua integridade.

E o carpinteiro de Bronx, o olhar marcado de lágrimas, recorda os pequenos episódios da sua existência. A sua velha humilde de Kamentz; o ideal da fortuna nas terras americanas, a esposa aflita e desventurada e a imagem do filhinho, brincando nas suas pupilas cheias de pranto, Hauptmann esquece-se então dos seus nervos de aço e da sua serenidade perante as determinações da justiça, e chora convulsivamente, enfrentando os mistérios silenciosos da Morte. Paira no seu cérebro a desilusão de todo o esforço diante da fatalidade e, sentindo o escoamento dos seus derradeiros minutos, foge espiritualmente do torvelinho das coisas humanas para se engolfar nas meditações das coisas de Deus. Suas mãos cansadas tomam a Bíblia do padre Werner e o seu espírito excursiona no labirinto das lembranças. Ao seu cérebro atormentado voltam as orações aprendidas na infância, quando sua mãe lhe punha na boca os salmos de Davi e o santo nome de Deus. Depois disso ele viera para o mundo largo, onde os homens se devoram uns aos outros no círculo nefasto das ambições. Suas preces de menino se perderam como restos de um naufrágio em noite de procela. Ele não conhecera nenhum apóstolo e jamais lhe mostraram, no turbilhão escuro das lutas humanas, uma figura que se assemelhasse àquele Homem Suave dos Evangelhos; entretanto, nunca como naquela hora, ele sentiu tanto o desejo de ouvir-lhe a palavra sedutora do Sermão da Montanha. Aos seus ouvidos ecoavam as derradeiras notas daquele cântico de glorificação aos bem-aventurados do mundo, pronunciado num crepúsculo, há dois mil anos, para aqueles que a vida condenou ao infortúnio e uma voz misteriosa lhe segredava aos ouvidos os segredos da cruz, cheia de belezas ignoradas. Hauptmann toma o capítulo do salmo XXIII e repete com o profeta: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.”

O relógio da Penitenciária prosseguia, decifrando os enigmas do tempo, e o carrasco já havia chegado para o seu terrível mister. Cinqüenta testemunhas ali se conservavam para presenciar a cena do supremo desrespeito pelas vidas humanas. Médicos, observadores das atividades judiciárias, autoridades e guardas, ali se reuniam para encerrar tragicamente um drama sinistro que emocionou o mundo inteiro.

O condenado, à hora precisa, cabelos raspados a máquina zero e a calça fundida para que a execução não falhasse, entra, calado e sereno, na Câmara da Morte. Havia no seu rosto um suor pastoso como o dos agonizantes. Nenhuma sílaba se lhe escapou da garganta silenciosa.

Contemplou calmamente o olhar curioso e angustiado dos que o rodeavam, representando ironicamente o testemunho das leis humanas. No seu peito não havia o perdão de Cristo para os seus verdugos, mas um vulcão de prantos amargos torturava-lhe o íntimo nos instantes derradeiros; considerando toda inutilidade de ação, diante do Destino e da Dor, deixou-se amarrar à poltrona da morte enquanto os seus olhos tangíveis não viam mais os benefícios alegres da claridade, mergulhando-se nas trevas compactas em que iam entrar.

Elliot imprime o primeiro movimento à roda fatídica, correntes elétricas anestesiam o cérebro do condenado, e, dentro de quatro minutos, pelo preço mesquinho de alguns centavos, os Estados Unidos da América do Norte exercem a sua justiça, não obstante as dúvidas tremendas que pairam sobre a culpabilidade do homem sobre cuja cabeça recaíram os rigores de suas sentenças.

Muito se tem escrito sobre o doloroso drama de Hopewell. Os jornais de todo o mundo focalizaram o assunto, e as estações de rádio encheram a atmosfera com as repercussões dessa história emocionante; não é demais, portanto, que “um morto” se interesse por esse processo que apaixonou a opinião pública mundial. Não para exercer a função de revisor dos erros judiciários, mas para extrair a lição da experiência e o benefício do ensinamento.

As leis penais da América do Norte não possuíam elementos comprobatórios da culpa do Bruno Hauptmann como autor do nefando infanticídio. Para conduzi-lo à cadeira da morte não se prevaleceu senão dos argumentos dubitativos, inadmissíveis dentro da cultura jurídica dos tempos modernos.

Muitas circunstâncias preponderavam no desenrolar dos acontecimentos, e que não foram tomadas na consideração que lhes era devida.

A história de Isidoro Fisch, a ação de Betty Cow e de Violetta Scharp, a leviandade das acusações de Jafzie Condon e a dúvida profunda empolgando todos os corações que acompanharam, em suas etapas dolorosas, o desdobramento desse processo sinistro.

Mas em tudo isso, nessa tragédia que feriu cruelmente a sensibilidade cristã, há uma justiça pairando mais alto que todas as decisões dos tribunais humanos, somente acessível aos que penetraram o escuro mistério da Vida, no ressurgimento das reencarnações.



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