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PARTE II

A PRIMEIRA AUDIODESCRIÇÃO A GENTE NUNCA ESQUECE

(PÁGINA NA COR OCRE)


Audiodescrição - poucas e precisas palavras

Sidney Tobias de Souza*

"A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida."

Friedrich Nietzsche

Altura, largura e profundidade. Quanta coisa pode haver no espaço tridimensional de um palco de teatro. Não se trata apenas de verbalização por atrizes e atores de textos de renomados dramaturgos como Gil Vicente, Bertold Brecht, Sófocles ou Shakespeare. É muito mais. É a interação com o cenário, é o nosso imaginário convidado pelos figurinos a se transportar para a época ou o local da trama. São emoções derramadas a nossa frente, mas não apenas por palavras, também no gesto contido, expansivo ou abrupto. Na expressão facial, no semblante. E eu, que de teatro gosto e teatro fiz, embora não mais pudesse ver uma cena, contentava-me em ouvi-la. Sim, ouvir as emoções, ouvir os movimentos. Mas algo sempre me faltava para um pleno entendimento. O público reagia, se manifestava, e eu, em pensamento, perguntava: o que terá acontecido? Uma piada gestual? Uma entrada sorrateira?

Para exemplificar, pense na paisagem mais bela vista por você ao vivo e a cores. Agora imagine essa mesma paisagem estampada em uma foto. Por mais fidedigna que a imagem seja, não é a mesma coisa. Falta uma dimensão.

Pois é, fui convidado um dia a assistir a uma peça teatral com audiodescrição. Chegando, surpresa! Além de receber em braille a ficha técnica com sinopse, tive a oportunidade de subir ao palco para conhecer o cenário. Isto foi excelente, pois durante a peça, eu não imaginava apenas atores se movimentando num espaço vazio com um fundo branco. Agora, havia cores, havia objetos. E isto já faz grande diferença. Graças à descrição detalhada dos personagens feita ainda antes da peça, as vozes tinham formas mais definidas. Eram gordas outras magras, sorridentes, sisudas, calvas, cabeludas, simples e ornamentadas. Mas o melhor ainda estava por vir. Conforme se desenvolvia a trama, passei a ver os personagens ora pegando um objeto, ora sorrindo para o outro. Se agachando, se levantando, ou seja, passei a ver os movimentos em cena... Não! Não por um milagre, mas pelo trabalho perito dos audiodescritores.

Como disse Thomas Jefferson: "O mais valioso de todos os talentos é aquele de nunca usa duas palavras quando uma basta". E assim, de forma talentosa, com poucas palavras, mas precisas, os audiodescritores me faziam ver o que eu não podia e ouvir o que não estava sendo dito verbalmente mas pela linguagem gestual, pela expressão corporal, pela emoção estampada no rosto dos atores. E eu ia curtindo cada momento. Evidentemente nem tudo que acontece em cena pode ser descrito em tempo real, senão atrapalha, sobrepõe a fala dos personagens. Mas como o verdadeiro artista sempre simplifica, e para mim a audiodescrição é uma arte, de forma simples e direta eles faziam chegar aos meus fones de ouvido o essencial para compor o meu entendimento. Foi show.

Depois dessa experiência inicial, fiz questão de assistir a outras peças, filmes e à primeira ópera com audiodescrição no Brasil. Eu, particularmente, sou assíduo frequentador de eventos culturais mas, agora com audiodescrição, as coisas mudaram. Eu aproveito mais o que me é oferecido, compreendo com mais facilidade sem ter que fazer perguntas a quem está comigo. Enfim, tem sido mais prazeroso assistir a tais eventos. Meu desejo é que se multipliquem, se espalhem, que se consolide por aqui esta ideia.

Em Algum Lugar do Passado
Joana Belarmino*

A experiência da cegueira é única para cada indivíduo. Assim, aqueles clichês que se desenvolveram ao longo da cultura, de que pessoas cegas normalmente preferem o rádio à televisão, ou que geralmente os cegos têm tendência para a música, nem sempre encontram expressão de verdade na realidade. Os modelos de consumo da cultura por pessoas cegas, suas preferências, seus gostos, são tão variados quanto à experiência de cada um com respeito à sua cegueira.

Sou filha de camponeses, e, em minha família de treze filhos, pelo menos sete, nascemos cegos. Eu diria que cada um de nós participa da cultura de modo diferente. Desde criança, desenvolvi um gosto acentuado pelos livros. Entretanto, sempre fui fascinada por televisão, e, na vida adulta, também comecei a me interessar pelo cinema, numa gama de gostos que incluía o romance, o drama, e, particularmente, a ficção científica. Curiosamente, enquanto boa parte dos meus irmãos adorava o rádio, eu nunca fui ouvinte assídua desse meio de comunicação.

Assistir a filmes pela televisão sempre foi para mim uma aventura e um desafio. Entregava-me à diversão, literalmente às cegas. Muitas vezes, sozinha, em noites de sábado, assistia ao desenrolar do filme na TV, e, na minha cabeça, às apalpadelas, recolhendo pistas sonoras, adivinhando gestos, compunha outro enredo provavelmente completamente diverso do enredo do filme, quem sabe, milagrosamente próximo do filme propriamente dito.

Muitas vezes, pelo menos para mim, construía uma compreensão razoável do filme, e, feliz, aguardava o seu final. E geralmente me via mergulhada numa zona de sombra, de incompreensão, visto que muitas das cenas finais se desenrolam através de aspectos eminentemente visuais.

Meu primeiro contato com a estratégia da audiodescrição deu-se ao final do segundo semestre letivo do curso de comunicação da UFPb, em 2007. Meu ex-aluno, Ângelo Ramalho, convidou-me para a banca de defesa do seu Trabalho de Conclusão de Curso, que, segundo me disse, envolvia um trabalho de “adaptação” do filme, Em Algum Lugar do Passado.

Sentada ao lado dos meus colegas membros da banca, compreendi que a minha tarefa ali era bem mais ampla do que a de julgar, comentar, avaliar. Ali sentada, eu era também telespectadora ávida por desvendar, com mais de dez anos de atraso, uma zona de sombra, um punhado de interrogações, um desespero por responder, como havia acabado o filme, que gesto fizera ele para desencadear o grito desesperado dela, os últimos dias do personagem principal, a forma como ele morrera.

Extasiada, fiz como que uma espécie de viagem até uma noite de sábado, dez anos antes, em que, sozinha, diante da TV, vira aquele belo filme, sem qualquer recurso de audiodescrição. Remontei cenas, enxertei vazios, alimentei-me das inúmeras descrições, e, maravilhada, senti-me igual a todo mundo, quando acompanhei, com a narrativa da audiodescrição, o momento em que o protagonista sacou do bolso a moeda fatal que o levaria irremediavelmente de volta ao seu tempo.

O trabalho pioneiro de Ângelo Ramalho na UFPb mereceu nota dez, e eu, desde então, converti-me em uma adepta pelo recurso da audiodescrição nos produtos audiovisuais. Na academia, dediquei-me a uma cruzada por compreender o fenômeno da audiodescrição, ao mesmo tempo em que busquei divulgá-lo em seminários, simpósios e conferências, assim como mobilizar pessoas cegas, em pequenas mostras para as quais programamos a exibição de filmes com o recurso da audiodescrição.

Quando reflito sobre a realidade da cegueira, associando-a ao desenvolvimento histórico e sociocultural, percebo o grande salto dado com a era tecnológica, no sentido da sua potencialidade para a democratização da comunicação, trazendo à tona, inúmeras perspectivas para a ampliação do consumo adequado de inúmeros produtos da cultura, sobretudo os audiovisuais.

Os insumos tecnológicos de fato podem minimizar os efeitos limitativos da cegueira, permitindo-nos adentrar em zonas de consumo anteriormente inimagináveis. Por que então ainda vemos tão poucos cegos em salas de cinema, ou usufruindo plenamente de produtos televisivos e teatrais?

A resposta para esse dilema está na própria cultura. No modo como os governos, as empresas, os organismos institucionais pensam a sociedade, através de um modelo do consumidor médio, ou seja, um modelo excludente, incapaz de perceber nas pessoas com deficiência, uma importante fatia desse mercado informativocomunicacional.

Quanto mais um indivíduo é estimulado, quanto mais a sociedade lhe oferta condições de consumo das coisas da sua cultura, mais esse indivíduo tenderá a crescer, a participar, a exercitar sua cidadania, com qualidade e autonomia.

Os governos que não desatam os nós burocráticos e econômicos que emperram a acessibilidade, certamente condenam seus cidadãos com deficiência, a um isolamento injusto e impeditivo do seu crescimento como sujeitos de vontade, sujeitos de desejo,sujeitos de cidadania. Políticas excludentes, como a que assistimos no Brasil de hoje, na fatídica novela do Minicom e das empresas de comunicação, envolvendo a implementação da legislação e normas técnicas que disciplinarão a aplicação dos recursos de audiodescrição na TV brasileira, ampliam a profunda “brecha digital” que ainda caracteriza a América Latina, os países da África, face ao desafio da democratização da comunicação, do acesso às tecnologias e ao consumo dos bens e produtos literários, fonográficos, audiovisuais e tantos outros.



A Incompletude do Olhar

Elizabet Dias de Sá*

Sempre gostei de filmes, teatro, espetáculos e outras atividades culturais, e a aproximação com o cinema e com o mundo das artes em geral era influenciada pela roda de amigos. Entre eles, um grupo de cinéfilos promovia encontros informais regados a aperitivos com petiscos e boas conversas sobre filmes. O rito desses encontros consistia na escolha de um filme para assistirmos juntos, em uma sala de cinema e, em seguida, todos iam para minha casa ou a de outro anfitrião disponível para aquela noite. Fazia parte do ritual, deixar um gravador ligado, enquanto as conversas, as brincadeiras e o riso rolavam soltos. Os comentários e as opiniões sobre o filme eram transcritos, editados e publicados por um dos cinéfilos do grupo em uma página de cinema do jornal Estado de Minas.

Nessa época, ainda não se ouvia falar em audiodescrição e eu participava do mosaico de opiniões publicadas, graças aos amigos que liam a legenda do filme, descreviam as cenas visuais e muitas informações eram agregadas pelos comentários espontâneos.

Em outras situações, quando sou convidada para ser debatedora ou palestrante de temas focados na apresentação de documentários, antes do evento, eu vejo o filme mais de uma vez com a colaboração de alguém. Em casa, vejo filmes dublados, na televisão ou em DVD e, depois, procuro saber quem viu o filme para me contar o final e preencher as lacunas. Muitas vezes, desisto de continuar quando há saturação de cenas visuais com silêncios prolongados entre os diálogos porque a trilha sonora, os ruídos e outros efeitos não são suficientes para a compreensão de uma cena crucial e definitiva para o desfecho da trama.

Em meu primeiro contato com a audiodescrição, o filme não era atraente e, por isso, quase não tive paciência para chegar ao final. A expectativa em relação ao ineditismo do recurso preponderou sobre o conteúdo e eu me concentrei na narração das cenas mudas e de outros estímulos visuais com curiosidade e interesse profissional. Ao checar passagens do filme com outras pessoas, ficou evidente a omissão de informações cenográficas relevantes além da falta de sincronia entre algumas imagens e a descrição verbal. Mesmo assim, vislumbrei que se tratava de um recurso de acessibilidade indispensável para se desfrutar e compreender melhor um filme, uma peça de teatro ou um espetáculo de modo confortável e autônomo, o que, certamente, amplia as possibilidades de inserção social e cultural do público com deficiência visual e de outros beneficiários.

Nesse contexto, tive experiências gratificantes tanto em relação ao conteúdo quanto à qualidade técnica da audiodescrição, gravada ou ao vivo, em Mostras e Festivais de Cinema que contemplavam esse recurso. Dessa forma, passei a usufruir da audiodescrição, sempre que possível, em atividades profissionais, de lazer e entretenimento.

Explora Guernica” e Outras Artes

Em uma viagem a Madri, tive a oportunidade de ampliar minha experiência, participando da atividade “Explora Guernica” que o museu Reina Sofía oferece aos visitantes com deficiência visual: uma visita realizada em grupo de até quatro pessoas ou individualmente, de acordo com a necessidade de cada participante. A atividade consiste na exploração da obra de Picasso pelo contato direto com o ambiente de exposição e o espaço ocupado pela obra. Nessa visita, tive o prazer e o privilégio de ouvir a explicação e a descrição verbal detalhada de Guernica, feita, primorosamente, pelo coordenador do projeto. O processo de criação, a expressão das figuras, a interpretação, os recursos técnicos e outros aspectos são comentados de acordo com o interesse e o nível de aprofundamento desejado pelo visitante.

Explorei, também, os seis diagramas táteis, representativos da Guernica, uma adaptação das imagens visuais para a linguagem tátil com a intenção de diferenciar, de forma simples, os contornos, as posições relativas, formas e expressões das figuras, com a orientação e a explicação simultânea, por parte do coordenador, do que se pretende transmitir em cada linha ou trama.

Ainda em Madri, conheci o Museu Tiflológico40, onde visitantes com deficiência visual recebem instruções e um audioguia eletrônico, que orienta o deslocamento autônomo para as diversas salas de exposição permanente. A coleção de monumentos arquitetônicos e escultóricos é exposta em maquetes com inscrições em braille, sendo a exploração tátil das obras de arte e do acervo de material tiflológico guiada pela narração descritiva dos componentes e de outros aspectos relevantes de cada obra.

Recentemente, estive no Chile, onde visitei as três casas de Pablo Neruda, transformadas em Museu. Em Valparaíso, a visita a uma dessas casas foi orientada por um audioguia individual com a narração descritiva, em espanhol, inglês e português, de acordo com a preferência do visitante. Assim, foi possível explorar cada ambiente, manusear o mobiliário, tocar em várias peças e objetos expostos.



Ação Educativa

A partir dessas incursões, considero a audiodescrição um recurso indispensável em minha vida pessoal e profissional. Por isso, procuro introduzir esse tema em palestras, cursos e outras atividades de formação para o público de professores do ensino fundamental e do atendimento educacional especializado. Nesses eventos, o público tem a experiência de ouvir para ver o filme, o que mobiliza diferentes reações e potencializa a reflexão acerca de recursos pedagógicos e de acessibilidade no contexto educacional.

Em meu trabalho no CAP-BH, já apresentei para grupos de jovens e adultos cegos alguns dos documentários da série Assim Vivemos, programa veiculado pela TV Brasil, e da mostra de curtas infantis e para adultos do “Dia Internacional da Animação”, nos quais se destacam a qualidade da narração e o profissionalismo dos audiodescritores. Ressalto que se trata de uma ação educativa, uma vez que a maioria desses usuários não tem o hábito de ir ao cinema, nem familiaridade com a audiodescrição. Por isso, a primeira aproximação costuma provocar o mesmo estranhamento observado no contato inicial dos usuários em relação aos programas leitores de tela com síntese de voz.

A partir do impacto inicial, porém, emergem os comentários e opiniões acerca dos personagens, de informações secundárias ou complementares e de outros aspectos objetivos e subjetivos. Cada indivíduo tem contextos, necessidades e preferências com diferentes focos de atenção, conhecimento, curiosidade ou interesse. Por outro lado, a técnica e a objetividade são necessárias para se alcançar o ponto de consenso ou de equilíbrio no sentido de estabelecer parâmetros que contemplem o público com traços e características comuns. Mesmo assim, a audiodescrição será sempre incompleta porque a incompletude está presente em tudo que é visto pelos olhos humanos.




Por mares nunca dantes navegados

Cristiana Mello Cerchiari*

A primeira vez que assisti a uma peça com audiodescrição não marcou muito a minha vida. Foi na Broadway, na cidade de Nova York, em 1995. Eu estava com um grupo de alunos cegos. Recebemos os fones de ouvido e disseram que iríamos escutar a descrição dos detalhes da peça. Quer seja pelo fato de eu ser uma estrangeira assistindo a uma peça em inglês, quer pelo longo tempo decorrido desde então, o fato é que minhas lembranças desses momentos podem ser resumidas em uma única frase: a peça contava a história de um casal que no final ficava junto.

Nunca deixei de assistir a espetáculos teatrais nem a filmes, nem antes, nem depois dessa viagem, mas essa compreensão rudimentar e sintética dos espetáculos cênicos sempre me acompanhava, incômoda e constantemente, em todos eles. Por mais que eu conseguisse entender o enredo por meio dos diálogos, faltavam a linguagem gestual dos personagens, a movimentação durante as cenas, a construção de imagem de roupas de época... Sobrava constrangimento para perguntar, mesmo aos meus familiares, o que havia acontecido em um dado momento importante do filme. Afinal, eu não queria fazer barulho para não atrapalhar as outras pessoas.

Essa situação começou a mudar quando tive a primeira chance de assistir a um espetáculo com audiodescrição: O Andaime. Era uma peça falada em português, no meu país!!! Não era uma notícia de jornal de um produto maravilhoso que ninguém pode comprar por causa de seu alto custo! Eu e os outros convidados pudemos conhecer o palco, o cenário e os audiodescritores. Além disso, recebemos o folder da peça em braille, atualmente tão preterido em favor das tecnologias da Informação.

Foram momentos mágicos, que abriram novos espaços no meu rico mundo de quem nunca enxergou. Rico porque é repleto de palavras, de pessoas, conhecimento e sensações táteis, auditivas, olfativas e gustativas. Faltam, porém, as percepções visuais, a associação das palavras aos gestos e, em alguns casos, inclusive a imagem, a visão das cores, o significado das expressões faciais ...

Decididamente, não sei enumerar todos os elementos que faltam, mas percebo que assistir a várias peças e a uma ópera com o recurso da audiodescrição tem contribuído decisivamente para enriquecer, diversificar e ampliar meu conhecimento de mundo e poder de observação, trazendo novos questionamentos, abordagens inovadoras e possibilidades de diálogo nunca antes imaginadas. Já vejo inclusive novas portas para pesquisas científicas!

Como estamos navegando “por mares nunca dantes navegados”, como escreveu Camões, não sei exatamente onde vamos aportar, mas sei que quero estar neste barco.



Um Caminho sem Volta

Lothar Antenor Bazanella*

Por muito tempo, gostava mais de ouvir o relato sobre filmes do que propriamente assisti-los, especialmente no cinema, onde não é conveniente contar com a narração de alguém que esteja ao nosso lado.

Mesmo em casa, podendo recorrer à repetição em certos casos, não é tão simples. Dependemos da sensibilidade e da capacidade de síntese de quem assiste conosco. Nem sempre nos é dito aquilo de que precisamos para entendermos a cena e, muitas vezes, nos dizem coisas que em nada contribuem.

Lembro uma vez em que me aventurei a assistir sozinho ao filme 2001, Uma Odisseia No Espaço, na TV. Creio que foi quando levei minha tolerância ao extremo. Só depois do terceiro intervalo sem ouvir uma palavra sequer, tendo apenas um zumbido como garantia de que a TV permanecia ligada, foi que desisti.

No teatro, por diversas vezes ouvi a plateia cair na gargalhada sem que eu soubesse o motivo. E ficaria sem saber que gesto teria sido, tampouco qual era o cenário e o figurino se não houvesse alguém para descrevê-los.

Por outro lado, certa vez fui a uma exposição de holografias e tive verdadeiramente a sensação de tê-las visto. É que a pessoa que me acompanhou possui um incrível senso de observação e sabe transmitir, como poucas, os detalhes de que precisamos para construirmos nossas impressões. Desde aquela data eu já sabia exatamente do que é que precisava para assistir a um filme, a uma peça, a uma exposição de artes etc. Só não sabia, ainda, como se chamava esse recurso.

Meu primeiro contato com audiodescrição com qualidade profissional se deu por um filme disponível no site do Clube do Silêncio, de Porto Alegre. Já a primeira peça de teatro com audiodescrição feita dentro dos requisitos técnicos necessários para emprego em casas de espetáculo, foi O Andaime, no Teatro Vivo, em São Paulo.

Desde então, tenho acompanhado a evolução desse recurso, tanto pela qualidade técnica quanto pela formação de novos audiodescritores. Embora já se ouça anunciar, aqui e ali, espetáculos com audiodescrição, o número desses eventos ainda está muito aquém do desejável. Além da elevação desse número, para que possamos contar com esse recurso também na programação televisiva, ainda falta vencermos a resistência dos meios de comunicação que, estranhamente, contam com a complacência do Ministério das Comunicações.

Considero a audiodescrição um caminho sem volta. Por isso acredito que, apesar dos diversos e poderosos interesses contrários, muito em breve haveremos de chegar lá.



Eu ouço, eu vejo, eu sinto as mesmas emoções que os outros

Antonio Carlos Barqueiro*

Lembro-me, ainda criança, sentado no chão do meu quarto, dividindo o espaço com a pequena oficina de costura de minha mãe. Eu brincando com meus carrinhos e minha mãe costurando e, ao mesmo tempo, ouvindo as radionovelas em seu radinho de pilha. Para mim, parecia uma história real, devido à boa interpretação dos radioatores; e a uma sonoplastia que invadia meus ouvidos, fazendo com que por muitos momentos eu parasse e, mesmo sem entender muita coisa, ficasse prestando atenção.

Aos poucos, fui gostando daquele aparelhinho que transmitia emoções. As décadas de 60 e 70 foram bastante ricas no meio radiofônico. Programas como O poder da mensagem (com Hélio Ribeiro) e os grandes narradores esportivos, como Osmar Santos, faziam com que nossa imaginação viajasse para bem longe. Quando adolescente, me lembro de uma transmissão do carnaval carioca, pela Rádio Jovem Pan: a narração de Joseval Peixoto, certamente, proporcionava um colorido e uma emoção muito mais forte do que a televisão poderia mostrar.

Nessa época, não podia imaginar que essa forma de comunicação seria tão importante para mim, ao se iniciar a perda de minha visão. A televisão, o cinema, a leitura de livros, jornais e revistas foram cedendo lugar àquele pequenino aparelhinho portátil, que eu levava para qualquer cantinho.

Por alguns anos fui privado de muitas informações, pois não havia muito material em braille. Qualquer material em tinta, eu dependia de alguém, em seu tempo e em sua boa vontade, para ler para mim. Pude concluir minha faculdade, com a ajuda dos olhos de meus colegas e principalmente de minha namorada e, hoje, minha esposa, que em muitos assuntos não entendia o que estava falando, mas eu sabia o que estava ouvindo.

Finalmente, com o surgimento da microinformática e da internet, as pessoas cegas começaram a receber informações e a interagir com outras pessoas, sem a necessidade de pedir ajuda a este ou àquele, agora ou daqui a pouco. Eu podia ler, pesquisar, estudar, responder, me comunicar com outras pessoas no meu tempo, no meu momento, quando eu quisesse; não mais no momento do outro e sem atrapalhar ninguém. Uma sensação de liberdade que não dá para descrever, só dá para sentir.

Mas ainda faltava alguma coisa. Eu gosto, principalmente de assistir filmes, não importa se em TV ou em cinema, ou algumas comédias em teatro. Minha esposa, sempre me acompanhando e sempre me descrevendo.

Nas salas de cinema ou em teatro, por mais que minha esposa seja discreta, respeite o local e tente não atrapalhar os outros espectadores, sempre um ou outro se incomoda com aqueles cochichos dela no meu ouvido. Isso faz com que, aos poucos, consciente ou inconscientemente, a gente vá se afastando dessas formas de entretenimento e passe a preferir ver um filme na TV por assinatura ou a alugar um DVD, pois assim não estará incomodando outras pessoas.

A audiodescrição veio para proporcionar um verdadeiro conforto, para mim e para quem estiver me acompanhando. Eu ouço, eu vejo, eu sinto as mesmas emoções que os outros e no mesmo tempo dos outros. E, ao final do evento, posso discutir e comentar com as mesmas informações que os outros tiveram.

Uma grande experiência para mim foi assistir à ópera Cavalleria Rusticana, no Teatro São Pedro em São Paulo, estilo que nunca havia experimentado ao vivo, até porque não interessava assistir a uma obra sem entender as letras das canções interpretadas. Através da audiodescrição, pude entender a mensagem, acompanhar as ações e, ao final do espetáculo, me emocionar como em poucas ocasiões. E, principalmente: podendo comentar com qualquer pessoa e até mesmo com qualquer crítico, pois havia recebido as informações necessárias. A primeira ópera audiodescrita a gente nunca esquece!

Creio que ainda estamos em fase inicial da acessibilidade e que, ao longo do tempo, possamos escolher o método ideal. O mais importante é a convivência com os diferentes. Só assim, e aos poucos, estamos aprendendo a respeitar e lidar com as diferenças.

Para que a audiodescrição possa ser mais difundida, seria importante uma maior participação especialmente das pessoas que atuam na área de comunicação, sejam elas, produtores, atores, diretores, publicitários, comunicadores... fazendo-as compreender que as pessoas com deficiência também são espectadores e consumidores e, portanto, necessitam de condições iguais para que sejam tratadas como cidadãos comuns. Isto não é um favor: é apenas o cumprimento de regras básicas para um relacionamento humano mais justo.

Vendo o que outra pessoa vê

Marcos André Leandro*

Desde que começou o movimento pela audiodescrição no Brasil, eu procurei acompanhar de perto, porque sempre senti falta de algo assim para a total integração cultural e midiática das pessoas com deficiência visual.

Lembro que quando eu era criança, minha avó costumava fazer esse trabalho. Isso quando nem mesmo se sonhava em algo assim no mundo. Mas minha avó e, creio que a maioria dos familiares de pessoas com deficiência visual, já tinham consciência dessa necessidade em nossas vidas. Pois certamente 99% dos cegos têm uma história para contar de um parente ou amigo que gostava de descrever as cenas e imagens de filmes, ou em passeios, descrever o ambiente. Assim era minha avó. Em todos os filmes que assistíamos juntos, ela descrevia todas as cenas com riqueza de detalhes.

E, finalmente, em 29 de maio de 2009, eu tive a primeira experiência pessoal com a audiodescrição em uma peça de teatro.

Sempre gostei de teatro, ia assistir peças desde que era criança, e sempre senti essas lacunas, pois em peças, não é possível descrever para a pessoa com deficiência visual sem que os vizinhos fiquem incomodados.

A primeira audiodescrição foi maravilhosa, porque pude ter acesso total ao cenário, ao figurino, às expressões faciais, etc. E essas informações visuais, em conjunto com as informações auditivas que captamos, como impostação da voz, tom de conversa, formam um quadro completo da peça que estamos assistindo.

Por vezes até nos distraímos, e nos pegamos a pensar quão bom é ter esse recurso. O recurso é tão rico e tão importante que até que nos acostumemos que agora somos respeitados, e podemos nos sentir iguais aos outros que estão ali, ficamos distraídos com essa meditação momentânea. Estamos “vendo” tudo o que qualquer outra pessoa do meu lado, está vendo. E isso chega a nos desconcentrar por momentos.

E, fico imaginando como seria maravilhoso se tivéssemos isso na televisão, em todos os canais, em todos os programas, novelas, filmes e jornais. E naquelas legendas que aparecem na tela, como:

“Ligue para o número que está abaixo!”,

“Escreva para o e-mail que aparece em sua tela”...

E em entrevistas em que aparece o nome da pessoa que está falando, em uma estreia de novela quando os atores e atrizes são apresentados com um fundo musical, mas nada é falado. Nós não ficamos sabendo quem vai participar daquele trabalho. E o mais interessante é que antigamente, quando eu era criança, lembro que isso não acontecia... Quando uma novela ia começar, o elenco era apresentado normalmente em voz alta. Por que é que mudaram isso? Muitas coisas que hoje reivindicamos, já existia na TV. Não entendo a razão de terem mudado isso.

O fato é que a audiodescrição é um recurso indispensável para que a pessoa com deficiência visual se sinta inserida no contexto cultural, seja em teatro, seja em cinema, seja na televisão.

E óperas, então, não consigo me imaginar assistindo a uma ópera sem o recurso da audiodescrição. Seria simplesmente frustrante.

Realmente a primeira audiodescrição a gente nunca esquece. Não há como esquecer. É uma experiência única. A sensação de ser respeitado, de estar em grau de igualdade com qualquer outra pessoa ali presente não tem preço.

Fechamento de um Processo

Roger Martins Marques*

Antes de mais nada, quero agradecer muito à Lívia por ter me dado este espaço para que eu pudesse contar como foi a minha primeira experiência com a audiodescrição.

É verdade, a primeira audiodescrição a gente nunca esquece mesmo; porém, vou me permitir voltar alguns passos desta primeira audiodescrição, pois ao contrário de muita gente, para mim, a primeira foi o fechamento de um processo que já vinha acontecendo há algum tempo.

Tudo começa com dois fatos que, até então, não tinham conexão nenhuma: o fato de trabalhar na Vivo e ser amigo de longa data da Professora Lívia.

A professora, que já trabalhava como voluntária na Laramara, ensinando inglês para alunos cegos e com baixa visão desde 1999, viveu algum tempo na Inglaterra por conta do doutorado e voltou de lá com muitas ideias revolucionárias, no melhor sentido da palavra, ideias de inclusão e, principalmente, de inclusão das pessoas com deficiência visual.

Por outro lado, havia uma pessoa que trabalhava comigo no Instituto Vivo, o Eduardo Valente, que não tinha nenhuma relação com o universo das pessoas com deficiência, mas que tinha no sangue o gene da inclusão. Ele sempre foi visionário, sempre encampou ações afirmativas em tudo que dizia respeito à empresa, desde produtos, acessibilidade no ambiente de trabalho como um todo e – por que não dizer? – acessibilidade aos eventos sócio-culturais que a Vivo realizava no seu teatro.

Neste último quesito entra o nexo causal entre o trabalho da Lívia e o do Eduardo. Até onde me lembro, a Lívia estava em tratativas com a Vivo a respeito de algumas ações da empresa junto ao Grupo Terra, ONG na qual vinha trabalhando como coordenadora de projetos, junto com Isabela Abreu, a presidente da ONG. No meio dessa conversa surgiu algo sobre a audiodescrição e, por conseguinte, a ideia de ser colocado este recurso à disposição do público cego, principalmente porque o teatro já dispunha dos aparelhos de tradução simultânea, os mesmos usados na audiodescrição. Naquele momento, a Lívia já vinha estudando o recurso.

Pude acompanhar esse embrião muito de perto, pois na empresa cuidava de ações de acessibilidade junto com o Eduardo, e também pelo fato de ser amigo da Lívia. Depois de algumas conversas, foi decidido que se criaria um curso para formação de audiodescritores, cujos alunos seriam os voluntários da empresa.

Curso formatado, inscrições feitas, lá fomos nós para o primeiro encontro de formação, e digo “nós”, pois estava lá também, não só como consultor, mas principalmente como aluno. E o mais interessante desse curso, acho que foi ter sido o único curso de que participei, em que realmente havia uma interação entre quem ensinava e quem aprendia, pois foi um processo de construção coletiva, um curso bem estruturado, com muitas horas de aula, e principalmente muitas horas de laboratório com a peça O Santo e a Porca, que fazia parte de um projeto de inclusão cultural da Vivo para escolas públicas.

Depois de todo este processo, foi formada a primeira turma de audiodescritores voluntários da Vivo e o teatro passou a ser o primeiro da América Latina a ter este recurso. Daí eu dizer que a peça O Santo e a Porca, apesar de ser a primeira peça que eu assisti com audiodescrição, na verdade, foi o fechamento de um processo que veio de algum tempo antes e com o qual me orgulho de poder ter colaborado um pouquinho.

Como eu comentei acima, foi um processo de construção coletiva: além da minha participação, da Lívia, dos audiodescritores da Vivo, também o elenco da peça O Santo e a Porca muito se envolveu com o recurso, apresentando-se para as pessoas com deficiência visual, falando de suas roupas e personagens.



Enxergar sem Ver

Jucilene Braga*

Sempre gostei de assistir televisão, ir ao teatro e cinemas; porém, sentia falta de um toque a mais. Compreendia o contexto, tanto que sou capaz de discutir qualquer que seja o filme, a peça ou, até mesmo, uma novela com qualquer pessoa, mas... mas.... Sabem aquelas cenas em que a música toca, vários acontecimentos passam nesse momento e tudo o que resta a uma pessoa com deficiência visual nada mais é do que a imaginação? Pois bem, por várias vezes passei e, às vezes, ainda passo por esse desagradável instante.

Certa vez tinha um trabalho da faculdade para fazer. O trabalho consistia em assistir a um filme e analisar a protagonista da história. Acontece que eu não só tinha um problema, como dois. O filme era legendado e precisava de uma audiodescrição para as cenas, afinal de contas eu desejava realizar uma análise completa. Para isso, precisava ter acesso às mesmas informações que meus colegas de sala, não prejudicando o meu rendimento. Foi então que me lembrei de uma grande amiga que além de ser muito engajada com essas questões de acessibilidade para nós, pessoas com deficiência, tinha mais um ponto a favor, pois seu inglês é fluente. Não pensei meia vez, liguei para ela e logo marcamos o dia para assistir ao tal filme. Saí de sua casa muito satisfeita. Eu não só havia tido acesso às falas dos atores, como também aos gestuais das cenas. Sabia que era bom ter alguém que pudesse nos descrever algo, mas não sabia que era simplesmente maravilhoso.

Eu gosto muito de cinemas, porém fico limitada aos filmes nacionais e infantis, (ainda bem que tenho um filho e os filmes infantis hoje em dia têm sido bem interessantes), mas confesso que desejaria poder ir ver como qualquer pessoa a uma estreia internacional sem ter de me preocupar com o idioma e a descrição. Em relação ao idioma já estou me esforçando e aprendê-lo, sem dúvida, será um ganho extraordinário para mim. Porém, a audiodescrição é totalmente indispensável. Por meio dela, é como se eu enxergasse sem ver.

Em 2006 – até que enfim – alguém nos enxergou como público e surgiu, então, uma luz no final do túnel. Nesse ano, quando começamos um forte movimento por este recurso, pude ter a honra de assistir a uma peça audiodescrita por voluntários do Instituto VIVO. Nem preciso dizer o quanto saí feliz do teatro. Me senti respeitada, enxergada como pessoa consumidora, enfim, me senti como gente...

Depois desta peça, outras mais vieram. E eu que já era fã de teatros, passei a frequentá-los com muito mais assiduidade e, hoje, faço até uma oficina teatral.

Só quem vive na pele de uma pessoa que não vê pode avaliar o quanto é importante ter acesso a essas informações.

Ainda tenho um grande sonho. Sonho que um dia nós, pessoas com deficiência visual, chegaremos aos cinemas, teatros, (seja qual for), museus, enfim, a todos esses lugares e nos sentiremos respeitados e considerados público de verdade.

Para finalizar, porque poderia escrever horas a fio sobre o quão maravilhoso é o recurso da audiodescrição, proponho a todos que estão lendo este livro que fechem seus olhos em frente à televisão e se permitam assistir a uma cena sem ver. Mas façam isto de verdade. Não vale “roubar”, porque nós não podemos abrir os olhos quando a música toca e ter acesso às imagens que podem fazer todo o sentido para a história...



PARTE III

OLHOS QUE FALAM

O OUTRO LADO DA MOEDA

Letícia Schwartz*


A família ainda lembra – e como esquecer? – da época em que me queriam fechar a boca com esparadrapo. Da infância à adolescência saía do cinema sempre tão empolgada que não resistia à tentação de narrar os filmes assistidos de cabo a rabo. Sim, contava até o final, o que por si só já deveria ser um crime inafiançável. Fazia ainda pior: descrevia de tal forma cada uma das cenas, sem esquecer detalhe, que meu relato durava bem mais do que as duas horas da sessão e a paciência dos ouvintes.
Audiodescrevia e não sabia. Também ignorava, naquele tempo, que essa moeda tinha dois lados e que se conseguisse desenvolver uma tremenda capacidade de síntese poderia, talvez, transformar o vício em virtude.
Conheci Moisés Bauer em final de 2008, quando tentava angariar a parceria da FREC para um projeto que previa a produção de audiolivros. Recebi bem mais do que podia esperar desse contato inicial. Saí daquela reunião com uma ideia, um nome e um caminho. Foi Moisés quem, pela primeira vez, me falou sobre a audiodescrição e indicou a entrevista da Graciela Pozzobon no Programa do Jô. Daí ao Blind Tube foi um pulo. E logo percebi que era exatamente aquilo o que eu queria fazer, que aquela poderia ser a minha maneira de fazer sentido.
No sul do Brasil, a audiodescrição era então uma ilustre desconhecida. Pela internet pude recolher material, me informar, estudar. Existe muita gente no país realizando experiências fantásticas em diversos aspectos relacionados ao tema, desde o trabalho de audiodescrição propriamente dito até o desenvolvimento de pesquisas e a produção de teses acadêmicas.
Como não podia, naquele momento, participar de cursos específicos de capacitação, resolvi aprender aplicando, na prática, as noções aprendidas na teoria e na análise do material disponível. Não fiz isso sozinha: Gabriel Schmitt e Bruno Klein, do Beco das Garrafas Estúdio, aceitaram me acompanhar no desafio e se dedicaram a pesquisar as questões técnicas; e o escritor Cezar Dias se propôs a prestar assessoria aos primeiros roteiros. Assim, com um laboratório à disposição e uma equipe entusiasmada, selecionamos dois curtas-metragens e um desenho animado infantil e começamos a desenvolver nossos protótipos.
Nessa época, a FINEP abriu um processo de seleção para empresas que propusessem serviços inovadores. Animados pelos comentários favoráveis recebidos em testes dos protótipos, desenvolvemos um documento minucioso, que incluía pesquisas sobre o público-alvo, o mercado e a viabilidade do projeto. Isso tudo nos levou a aprofundar ainda mais nossos conhecimentos e a discutir a audiodescrição de forma cada vez mais profissional.
O financiamento da FINEP deu início a uma nova fase. O estúdio foi rebatizado – o nome atual é Habanero Áudio – e passei a fazer parte da empresa, como responsável pelo desenvolvimento de um setor destinado especificamente à audiodescrição. Meu foco de trabalho é o roteiro e a narração, enquanto Gabriel e Bruno se dedicam às questões técnicas, que envolvem a gravação, a edição e a pesquisa permanente de formas de transmissão da audiodescrição, principalmente no que se refere a salas de cinema. Contamos ainda com a parceria de um escritor responsável por correções gramaticais e com a revisão final realizada por uma pessoa com deficiência visual, a fim de assegurar a clareza das descrições.
A Mostra para Deficientes Visuais do Dia Internacional da Animação foi nosso primeiro trabalho e percorreu diversas cidades do Brasil. Foram treze curtas-metragens de animação, adultos e infantis, com diferentes temas e linguagens, exigindo, cada um deles, um estilo próprio de audiodescrição. A excelente repercussão e os comentários entusiasmados que recebemos constituíram evidência de que estávamos no caminho certo.

Audiodescrever me deixa feliz. Simples assim. Discutir metodologias e sistemáticas, assistir a um mesmo filme até quase conhecê-lo de cor, estudar e me informar sobre assuntos que não domino para melhor compreender as imagens. Garimpar palavras que correspondam exatamente àquilo que quero descrever, cortar-ajustar-encaixar narrações nos espaços disponíveis como quem monta um quebra-cabeças. Ouvir o filme de olhos fechados e perceber que ele se torna compreensível. Conversar com pessoas cegas que comentam cenas mudas como se as tivessem visto. Possibilitar que se emocionem ou deem gargalhadas ou gritem de terror, que se divirtam ou que aprendam através da informação que estou transmitindo. Saber que podem compartilhar aquele momento com pessoas videntes. Fazer diferença. Fazer sentido.


É importante ter consciência de que a audiodescrição não é um serviço meramente técnico. Assim como a arte, ela exige um envolvimento intenso com o projeto. É preciso sensibilidade para encontrar o vocabulário adequado e o tom de voz ideal para que a audiodescrição seja totalmente integrada ao filme. Um filme do Rambo não pede o mesmo vocabulário que um filme de Woody Allen. Um romance não pede o mesmo tom de um filme de terror ou de uma comédia.
É consenso que o tom da narração deve ser neutro. Acrescento, porém, que ele deve ser expressivo. É preciso perceber, no entanto, que há uma diferença entre expressividade e interpretação. É função da narração propiciar o envolvimento do espectador com aquilo a que ele está assistindo e não roubar a atenção do próprio filme. A prioridade será sempre do som, dos efeitos, da trilha e, principalmente, das vozes dos atores. A audiodescrição não pode nunca competir com o que o filme apresenta de expressivo. Mas uma narração completamente neutra acaba por interferir na sensação que o filme provoca. Uma narração fria pode vir a ser um obstáculo a qualquer tentativa de envolvimento por parte do espectador. Os diálogos e os efeitos sonoros, com toda sua coerência, convidam a um mergulho no universo do filme, enquanto uma narração demasiadamente distanciada pode atuar como elemento de ruptura. Assistir a um filme não se restringe a compreendê-lo. Tanto o roteiro quanto a narração da audiodescrição devem se deixar impregnar pelo que há de subjetivo no filme. Caso contrário, o espectador estará obrigado a abrir mão do envolvimento absoluto em prol do mero entendimento.
Para que esse objetivo seja alcançado, é preciso assumir o audiodescritor como um narrador da obra. Um narrador que não interfere na ação, na sequência dos acontecimentos ou na interpretação dos fatos, mas que, de uma maneira extremamente sutil, é parte integrante daquele universo.
Os desafios são muitos e são imensos. Nesse momento, o maior deles não é apenas meu, nem se restringe aos audiodescritores. O maior dos desafios diz respeito à sociedade como um todo. É fundamental tornar a audiodescrição não apenas conhecida, mas presente. Provar que o cego vai, sim, ao cinema, e que frequentaria ainda mais as salas de exibição se elas contassem com recursos que lhe permitissem usufruir integralmente da programação. Provar que o cego assiste televisão, vai ao teatro, aprecia desfiles de moda. É preciso mostrar que os deficientes visuais constituem um público sedento de atividades culturais, potencialmente consumidor de arte, de entretenimento e dos produtos divulgados pelos patrocinadores. Recursos muito simples podem promover a participação efetiva desse público em atividades diversas e sua plena integração ao universo dos indivíduos capacitados a usufruir qualquer bem cultural.
Para isso, é preciso viabilizar a exibição de programas com audiodescrição. Se os cinemas e teatros ainda não estão equipados (salvo poucas exceções que merecem todo o reconhecimento!)  ou se as emissoras de televisão se recusam a fazer uso da tecla SAP para esse fim, o espectador cego não tem possibilidades de acesso integral e, consequentemente, é limitado o interesse que aquele produto lhe pode despertar. Ao mesmo tempo, enquanto o público cego não se impuser na condição de potencial consumidor, não haverá investimento em alternativas de integração nem em equipamentos que a tornem possível. Romper esse círculo vicioso é o primeiro passo para que a audiodescrição ocupe efetivamente o lugar que lhe é devido.
Deve ser também levado em consideração que, ainda que o público portador de deficiências visuais seja o destinatário preferencial da audiodescrição, os possíveis beneficiários deste recurso formam um universo bem mais amplo. Pessoas afetadas por Síndrome de Down, dislexia e autismo encontram na audiodescrição um elemento facilitador, que permite uma maior compreensão do que é apresentado. E existem, ainda, outras aplicações que podem ser exploradas. É o caso, por exemplo, de professores que encontraram, na audiodescrição, uma alternativa lúdica para o ensino da língua portuguesa, tanto para aprimorar a redação de alunos brasileiros quanto para enriquecer o vocabulário de alunos estrangeiros.
A audiodescrição se configura, pois, como um recurso de enorme utilidade para um público extenso e diversificado, o que justifica sua difusão em larga escala. Porém, mais relevante do que o número de pessoas beneficiadas é a oportunidade de uma inclusão real daqueles que, sem ela, continuariam impedidos de ter acesso ao universo da produção audiovisual.


A GRANDE HISTÓRIA DA ÁGUA

Leonardo Rossi Lazzari*

A audiodescrição surgiu na minha vida como uma grande novidade, e também uma grande surpresa. Foi por um convite do meu amigo e parceiro de longa data, Maurício Santana, que um dia me ligou e disse que a gente faria "televisão para cegos". Como adoro desafios, topei a ideia na hora!

O Maurício já estava com uma empresa em São Paulo, a Iguale Comunicação de Acessibilidade, que também presta serviço de Closed Caption. Como a audiodescrição se tornaria lei através da portaria 310 do Governo Federal, a Iguale entrou em contato com diversas emissoras de televisão de São Paulo, e assim fizemos alguns pilotos: Smallville (As Aventuras de Superboy) e SBT Repórter para o SBT, O Pica-Pau para a Record e até Pânico na TV ao vivo, para a RedeTV. Os produtos foram muito bem recebidos pelas emissoras, e estava tudo engatilhado para uma era inteira de trabalho, até que o Governo pressionado pela ABERT (Associação Brasileira de Rádio e TV) desobrigou a transmissão.

Mas nós não desistimos e tentamos outros caminhos, como comerciais de TV, teatros e cinemas. E eis que um dia surge a Natura, e eu recebo uns dos maiores presentes da minha vida: narrar o primeiro comercial audiodescrito do país, chamado A grande história da água. Que responsabilidade! O roteiro da audiodescrição foi do Maurício, e ficou assim:

00:00 - (AD) Desenhos de bolhas de sabão. Natura Naturé apresenta:

00:05 - (AD) Crianças sentadas em roda à beira de um lago.

00:11 - (AD) Desenho animado de gotas de chuva caindo.

00:20 - (AD) Desenho de gotinhas de água evaporando e formando nuvens no céu.

00:29 - (AD) Desenho da água passando por vários encanamentos subterrâneos e chegando nas casas.

00:42 - (AD) Cenas de crianças felizes tomando banho.

00:52 - (AD) Embalagens coloridas.

00:59 - (AD) Marca Natura.

Com o tempo outros trabalhos vieram. Mais três comerciais da Natura: Mamãe e Bebê, Kaiak – O que move você?, e o mais recente Banho de gato; os documentários: Cidade dos Anões, Curadores e Zona Desconhecida; os filmes para a Mostra Sul-Americana de Cinema dos Direitos Humanos: Cocais, Unidad 25 e No Se Lo Digas a Nadie; outro da Retrospectiva do Cinema Brasileiro: Um homem de moral; além dos filmes do circuito comercial: A mulher invisível e O contador de histórias.

Esses filmes todos da Mostra e da Retrospectiva foram narrados ao vivo, com uma cabine instalada nas dependências da sala de cinema do CineSesc, em São Paulo. Devo confessar que foi uma experiência e tanto! O fazer ao vivo é muito emocionante porque você tem que estar plenamente antenado: qualquer vacilo, você perde a cena e, aí, não tem volta. E é muito gostoso estar presente com os ouvintes, e saber deles in loco como foi seu trabalho.

É sempre um desafio fazer uma audiodescrição. Muitas perguntas vêm à cabeça: O que descrever? Que palavras usar? O que é realmente importante? O que procuro fazer ao roteirizar é primeiro assistir ao filme como espectador, porque é preciso curtir e apreciar a obra em que se está trabalhando. Só depois é que inicio a decupagem, trecho por trecho, tentando encontrar o essencial de cada cena, a fim de descrever o melhor em função do tempo – até porque não se produzem filmes pensando que algum dia alguém vai descrever as cenas que não contêm diálogos!

Como narrador procuro buscar uma certa neutralidade na interpretação, mas sem me tornar monocórdio. Creio que a narração se deva valer da qualidade do produto. Leveza em comédias, seriedade em dramas e assim por diante, mas nada que interfira ou antecipe algo ao espectador, pois isso cabe aos personagens, às trilhas e aos climas do próprio filme. O audiodescritor não deve chorar ou sorrir, ou fazer qualquer juízo de valor. Projeção e dicção de voz são muito importantes, pois o nosso produto se faz ouvir por meio dela e os nossos receptores, em sua grande maioria, têm percepção auditiva mais apurada.

Resumindo minha relação com a audiodescrição, posso dizer que depois de anos trabalhando com comunicação, finalmente encontrei algo que me permite fazê-la grande, em alcance e relevância.



Emprestar o olhar

Rô Barqueiro*

Emprestar o olhar é um exercício diário há muito tempo. É inovador e desafiador a cada instante porque seu significado é dinâmico dependendo de quem empresta e de quem toma esse olhar.

Quando tinha meus 13/14 anos, meu pai dizia: “a gente só dá o que tem” referindo-se às relações com os irmãos, amigos, com os presentes que queria ofertar e que nem sempre podia, inclusive porque não tinha o dinheiro para comprar... Ele me fazia ver a importância dos vários assuntos e não só do que eu queria saber. Falava-me do quanto as coisas podiam ser interessantes. Gostava de conversar comigo, falava de política, de cultura, de arte, esporte, religião e em cada assunto um envolvimento profundo.

Muitos dos meus valores foram sendo construídos nas reflexões proporcionadas pelas sábias palavras que meu pai usava para me fazer pensar o que a vida me mostraria ao longo do meu desenvolvimento. É muito bom lembrar das histórias do meu pai, da riqueza de detalhes com que contava seus causos e suas vivências. Da tradução que fazia das suas pescas, dos seus passeios, das músicas italianas, das óperas, dos filmes... segundo seu olhar e seu entendimento.
Acredito que foi assim que começou minha relação com a audiodescrição. Fui estimulada desde cedo a olhar além do que meus olhos podiam ver. E isto, certamente, foi um grande ganho para minha vida.

Desde cedo fui muito observadora, e até mesmo por força do exercício profissional isto se potencializou e, como nos últimos 30 anos vivo as questões relacionadas com as pessoas com deficiência, com seu entorno... entre mil outras coisas fui reconhecendo nas atitudes das pessoas a importância da informação, do acesso à informação. Incomodo-me quando penso na privação que as pessoas com deficiência visual passam. Mesmo sendo sensíveis, perceptivas, inteligentes, curiosas... nem sempre a informação está disponível e/ou acessível. Uma simples informação pode interferir na vida de forma positiva ou negativa – em menor ou maior grau de importância. Mas o fato é que interfere.

Vivemos num mundo que prioriza o visual, e suas mensagens visuais (como diriam os adolescentes) são “super hiper mega supra” valorizadas. Assim, as pessoas que não enxergam ou enxergam alguma pouca coisa são privadas de alguns significados relevantes para o seu dia a dia. O olhar das pessoas, as expressões, os sinais, as placas, os mapas, os espaços, a decoração, as roupas, as simetrias, o abstrato ... tudo fica a encargo do imaginário de cada um e das pistas captadas quando são oferecidas. Se por um lado assusta, por outro surpreende, mas fico pensando que se estas pessoas conseguem sobreviver com certa qualidade mesmo assim, imagine se a elas fosse dada a mesma condição que nós possuímos? Talvez tivessem mais chances de serem brilhantes ou ainda mais brilhantes. Além de, também, nos proporcionar condições melhores. Afinal conviver com pessoas melhor preparadas pode nos faz melhor.

O convívio diário com as pessoas com deficiência visual nos incentiva a novos olhares, ou melhor, novos significados para o olhar. Amplia o nosso saber. Ao descrever uma expressão ou algum detalhe percebido ou solicitado, conseguimos dar maior nitidez àquilo que estamos olhando. Nem sempre mantemos os valores atribuídos àquela primeira visão e este é o grande lance.

Parece muito fácil falar o que se vê. Simples, não é? Não é!!!

É trabalhoso e extremamente difícil conciliar de forma harmonizada o que se vê com o que se fala, sente e faz, na mesma velocidade que acontece. Aquela história que diz que uma imagem pode expressar mil palavras parece fazer sentido neste contexto.

Quando decidi fazer o curso de audiodescrição, foi mesmo para buscar uma técnica que me ajudasse a ser mais objetiva, assertiva nas minhas descrições porque percebi que tão cedo não deixaria de compartilhar meu olhar, não apenas porque faz parte do meu exercício profissional ou porque sou boazinha, ou porque convivo com pessoas com deficiência visual, mas também porque assim vi meu horizonte se ampliar e meu aprendizado se aprofundar a cada dia.

A descrição é um grande e valioso instrumento de interação. Há muitos anos comecei descrevendo o entorno de um quarto de hospital para um paciente que não podia olhar além do chão, porque se mantinha deitado de bruços, num pós-operatório da coluna cervical bastante complicado... Esta foi a forma que encontrei de me aproximar e ser aceita. Descrevia o que eu observava pela janela: as pessoas que ali transitavam, os profissionais de saúde, os utensílios, o ambiente... aos poucos fui percebendo o quanto era importante aquele ato, aquele momento. Tanto para mim quanto para quem recebia a informação. Sem saber, a espontaneidade e a curiosidade davam cores, formas, texturas, cheiros, paladares.... e assim experimentávamos todos os sentidos, e eu... consegui me aproximar! Pude ajudá-lo naquela fase difícil de recuperação, aceitação, superação...

Daí para frente, seguiram-se algumas experiências, inclusive a percepção e a busca do entendimento dos Contos de Fadas (um dos cursos de aperfeiçoamento que decidi fazer quando trabalhava com crianças institucionalizadas / hospitalizadas). A chance que eu tinha de trabalhar com as mães e pajens, instrumentalizando-as para uma interação mais assertiva, mais humana, mais suave... a leitura, a descrição e a exploração dos livrinhos, dos encartes, dos gibis, das ilustrações.

Durante um curto espaço de tempo, logo depois que me formei, trabalhei na Penitenciária do Estado de São Paulo – Hospital Geral, e lembro que era importante para alguns dos detentos (pessoas com deficiência) a descrição do trajeto que fazia entre o Metrô e o Pavilhão onde eu os atendia. As mudanças, as reformas, as vias, os barulhos... eles diziam algo parecido com isto: “quando se perde a liberdade, todos os sentidos são aflorados e por vezes destorcidos e para o resgate da sensação, que só a liberdade proporciona, é necessário participar, ainda que no imaginário”.

O tempo passou e eu literalmente continuava emprestando meus olhos. Agora emprestava os olhos para a leitura e minha voz para gravação de livros, apostilas, artigos sobre administração, economia, gestão, matemática financeira, estatística, lógica... não entendia quase nada, mas o simples fato de emprestar os olhos e a fala fazia com que o outro, neste caso, “um querido” (meu namorado – hoje, meu marido), pudesse entender o que era preciso entender. E ambos (eu e ele) aprendíamos, porque sempre havia a troca. A explicação era como se decifrássemos uma fórmula matemática. Era a tradução do que eu lia.

É uma sensação muito boa também porque é gratificante, proporciona satisfação. A audiodescrição é um exercício de respeito, de ética e só é mesmo de qualidade quando compartilhada. É um treino pessoal, que exige estudo e dedicação no que diz respeito às inferências e interpretações. É um movimento intenso de busca, de alternativas “em palavras” que garantam o entendimento sem super ou subestimar a capacidade de entendimento e história de vida do outro. Manter-se dentro do que o autor propõe, dentro de sua linguagem e dos fatos é um grande desafio, complexo e fascinante.

É interessante observar as pessoas que já enxergaram olhando. Olhando o passado, o presente e o futuro. Mas o mais importante – independentemente de já terem enxergado, não é o brilho no olhar, mas o brilho que cada um transmite para o sentir do outro.

Num dos meus exercícios de audiodescrição de filmes infantis tive a oportunidade de trocar informações com algumas crianças, alguns jovens e adultos com deficiência visual (cegos e baixa visão). E ouvi-las após terem assistido ao filme com audiodescrição foi de fato um grande prazer. É mesmo muito bom poder proporcionar essa alegria. Mais que isto, é saber que a audiodescrição favorece muito o acompanhante da criança ou adulto com deficiência visual. Ouvi outros acompanhantes, mas falo por mim: a audiodescrição é muito confortável. É muito bom não ser bombardeada com olhares, caras e bocas em espetáculos em que os demais espectadores (que não têm convívio com pessoas com deficiência) imaginam que você não tem educação porque está cochichando o tempo todo. Eles ficam incomodados, eu me incomodo e certamente a pessoa com deficiência visual também se incomoda, até porque, via de regra ouve ou percebe os comentários. Algumas pessoas com deficiência visual se privam de ir ao teatro, cinema... para não se expor, expor o parceiro ou passar por mais um constrangimento. Outros, os acompanhantes, deixam de frequentar alguns lugares para evitar essas situações.

Tem sido frequente a busca de ajuda para orientação familiar quando um membro da família perde a visão, alguém que tinha uma vida social intensa e que naquele momento esteja limitado aos espaços da família, consultas médicas e, no máximo, à igreja. Alegam que não querem expor seu pai/ mãe/ namorado, pelos possíveis constrangimentos e, por outro lado, eles mesmos (“pessoas com deficiência recente”) não querem ser um peso para seu familiar / acompanhante... Minha pergunta sempre é: – quem vai se constranger?

O fato é que com a audiodescrição acontecendo cada vez mais e com a participação frequente das pessoas com deficiência nos cinemas, teatros, shows, praças, exposições, recitais, a sociedade começa a compartilhar esses espaços de forma mais consciente. Dessa forma, passa a tratar a situação com maior naturalidade, enfrentando a realidade e não fazendo de conta, disfarçando, achando que está sendo educada ou gentil ao falar que nem havia percebido que ela/ele tinha alguma deficiência.

É muito bom que, ao término do espetáculo, a pessoa com deficiência esteja em sintonia com a conversa e as interpretações de cada um, sem que se isole, ou seja isolada, por não ter compreendido as cenas. Sem contar quando há o constrangimento daqueles que cismam em querer explicar e/ou justificar.

Meu grande sonho é que, em breve, a audiodescrição seja uma prática disponível em larga escala e que todos possam ter acesso a tudo que lhes provoque o interesse, seja na TV, no teatro, no cinema, na internet, nos seminários, nas apresentações, nas aulas, nos museus, nas exposições, nos parques...



E com a palavra os audiodescritores do Teatro Vivo
Carlos Eduardo Marçal da Silva, Marli Fernanda Nunes, Milena de Oliveira Leite, Pilar Garcia Alava, Rosilene Cortes Almeida
A audiodescrição é uma atividade desenvolvida no Teatro Vivo pelos funcionários da empresa que, para serem audiodescritores, fazem um curso de formação de 40 horas. O conteúdo programático do referido curso contempla aspectos referentes à inclusão cultural da pessoa com deficiência visual, ao conceito, histórico, panorama mundial e brasileiro, princípios da audiodescrição, leis e decretos, técnicas de sumarização, elaboração de roteiros, equipamentos e procedimentos para a implementação do recurso, além de atividades de locução.

Os depoimentos dos profissionais da Vivo que trabalham como audiodescritores voluntários revelam seu envolvimento com a atividade e o quanto o trabalho também repercute em suas vidas pessoais e profissionais.


Direito de Cidadão
Carlos Eduardo Marçal da Silva

A audiodescrição foi a ferramenta que me ajudou a concretizar minha vontade de realizar um trabalho que me inserisse no mundo da acessibilidade. Lembro-me como se fosse ontem. Na empresa, recebemos uma convocatória por e-mail, sobre o curso de audiodescrição, e ao ler, apesar de não saber exatamente o que significava, me motivei e fui à aula de apresentação no miniauditório. Fiquei encantado com o trabalho e decidi, naquela aula, que era o momento certo de me inserir no mundo da acessibilidade.

As primeiras experiências foram muito marcantes, com destaque para a audiodescrição realizada na ADEVA (Associação de Deficientes Visuais e Amigos), com o filme Nossa vida não cabe num opala. Fizemos a audiodescrição sem microfones e na mesma sala onde as pessoas estavam. O resultado foi fantástico! Foi muito marcante, no final, o depoimento de um cego que passou o filme todo calado, sem expressar qualquer sentimento. Esperávamos dele uma reação negativa, mas foi com um suave sorriso que ele falou: “eu consegui ver todo o filme!”. A partir daí pude perceber o que significava acessibilidade para pessoas com deficiência visual e que todos os esforços e contratempos eram, naquele momento, meros detalhes.

A minha primeira audiodescrição realizada no teatro VIVO foi na estréia do espetáculo Vestido de Noiva (Nelson Rodrigues). O nervosismo era algo inerente à estréia, devido à complexidade do texto, e à forma como o espetáculo foi montado (misturando as cenas entre os três planos: Alucinação, Memória e Realidade). Na saída do teatro, alguns cegos queriam nos conhecer e agradecer pessoalmente pelo nosso trabalho. Atos como esse me deixam ainda mais motivado.

A última experiência, a qual eu denomino como marco histórico para cidade de São Paulo, foi a audiodescrição da Ópera Cavalleria Rusticana, realizada no teatro São Pedro. Foi lá que pude concretizar, por definitivo, tudo aquilo que aprendi, ampliando para os cegos o entendimento sobre aquilo que é possível transformar em voz, e igualando seu direito de cidadão. Arrancar sorrisos e lágrimas com a ajuda de um roteiro e da minha voz, junto com as vozes dos outros audiodescritores, foi sentir algo não sentido anteriormente… muito gratificante.

A prática da audiodescrição, em si, traz vários benefícios pessoais. Dentre eles, pude aprender como me comportar corretamente e adequadamente na presença ou companhia de uma pessoa cega. Além disso, a cada espetáculo, através dos roteiros, recebo novas informações que enriquecem meu vocabulário. Também aprendi técnicas para elaborar um roteiro de audiodescrição; e a cada filme, seja no cinema ou em casa, ou espetáculo teatral que assisto, me deparo sempre prestando mais atenção nos detalhes e imaginando como eu montaria o roteiro. Tenho certeza de que a cada apresentação sempre aprendo algo novo. É um processo contínuo de aprendizagem devido à variedade de eventos em que este recurso pode ser aplicado.

Não me resta dúvida de que a audiodescrição permite que o cidadão cego possa ter o mesmo direito de um vidente. Por isso, o que mais desejo é que este recurso seja a cada dia mais divulgado, que a iniciativa privada possa investir muito na acessibilidade para que ela chegue à casa de cada cidadão brasileiro.

Paixão pela Audiodescrição

Marli Fernanda Nunes*


Quando iniciei o curso de audiodescrição, não tinha conhecimento detalhado deste recurso. O curso me auxiliou e apresentou todas as técnicas de elaboração do roteiro, das falas, dos conceitos, enfim, todo o material necessário para a prática da audiodescrição de uma peça, teatro, filme, espetáculos, óperas e outros. A cada aula me encantava com a importância do trabalho, mas ainda faltava a estréia, a primeira experiência.

Aconteceu no Natal de 2008: ganhei este presente inesquecível. Fiz a audiodescrição da peça A Arca de Noel, na cidade de Gramado. Incrível!!! Algumas pessoas com deficiência visual estavam assistindo a uma peça, com o recurso da audiodescrição, pela primeira vez.

Tinha uma preocupação muito grande em fazer o melhor para proporcionar o maior entendimento a todos. Importante ressaltar que mesmo preocupada estava tranquila, pois havia ensaiado muitas vezes. Recebi o DVD da peça e o roteiro com uma semana de antecedência para poder estudar o material e me familiarizar com o roteiro. Esta preparação é fundamental e proporciona uma segurança maior no momento do espetáculo.

Ainda não comentei, mas na semana que antecedia a minha estréia, estava com uma inflamação na faringe que me deixou roca, quase sem voz, mas com muitos cuidados e muita água, tudo correu bem no dia. Outra dica importante é sempre cuidar da voz. No curso tivemos orientações de uma fonoaudióloga.

Ao final da peça estava ansiosa para saber se tinham gostado, quais os pontos positivos e negativos, enfim, queria ouvir o retorno deles. Quando saí da cabine estavam todos sentados aguardando para conhecer os personagens bonecos. Comecei a conversar com todos, perguntar o que acharam e foi naquele momento que descobri a paixão pela audiodescrição. Ouvi diferentes comentários, mas foi unânime, entre eles, a satisfação de ter a liberdade de entendimento, de terem informações que lhes possibilitam entender a peça como todos os demais.

O momento mais esperado para o audiodescritor é sempre o final de cada espetáculo, pois é quando reconhecemos a relevância deste trabalho. Ouvir frases como: “por um momento foi como se eu voltasse a ver”, “os audiodescritores são nossos olhos neste momento”, este tipo de comentário sempre me emociona e proporciona uma felicidade de saber que pude ser um instrumento mediador do entendimento.

A minha vida mudou, a menos de um ano após o curso de audiodescrição. Além do teatro, também aplico as técnicas aprendidas no curso, no meu dia-a-dia: no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos com os amigos e com a família.

A audiodescrição pode mudar a vida de muitas pessoas, pode contribuir muito com a sociedade, pois é um recurso fundamental para as pessoas com deficiência visual e também pode ser vista pelos empresários como um negócio a ser desenvolvido. Este recurso pode ser incluso nos cinemas, nos teatros, museus, e demais casas de espetáculos de todo o Brasil.



Aplicação das Técnicas Aprendidas

Milena de Oliveira Leite*

Minha experiência como audiodescritora começou há pouco mais de 6 meses. No início, fiquei curiosa com as aulas e técnicas aprendidas. É um tema que ainda é desconhecido para muitos com ou sem deficiência visual. O interessante é que fui percebendo, com este trabalho, a traduzir o que vejo e o que sinto.      

Com a audiodescrição é possível descrever gestos, movimentos, objetos, cenários, entre outros. Procuramos os detalhes, tudo o que antes passava despercebido, não só características materiais, mas o significado das coisas agora precisa ser traduzido. Essa tradução é resultado de um trabalho que requer paciência e autocrítica. Cada um tem um jeito próprio de viver e enxergar a vida e a diversidade é o que nos torna tão diferentes e, ao mesmo tempo, completos.

 Ao final de cada trabalho recolhemos o feedback das pessoas com deficiência visual e sempre se ouve algo novo e motivador para a continuidade do trabalho. Uma vez ouvi o depoimento de um rapaz que tinha perdido a visão recentemente por uma fatalidade do dia a dia: “obrigado por me fazer enxergar novamente, achei que isso nunca mais seria possível”. Para todos que sempre nos entusiasmam com sua alegria e satisfação, digo: “obrigada por me fazer enxergar o que antes eu não era capaz”.

Quando falo do meu trabalho como audiodescritora, muitos se interessam pelo assunto e se surpreendem: “Nossa! Mas que legal, não sabia que isso existia”. Para mim, a audiodescrição é mais do que acessibilidade. Não estou querendo exagerar, mas é que para mim esse trabalho realmente tem um significado maior.

Você já parou para observar uma paisagem? Qualquer uma que seja? O que você  conseguiu enxergar? Volte e olhe novamente e depois de novo e perceba quantas coisas você deixou de perceber na primeira vez. Depois experimente conversar com alguém que já viu a mesma paisagem, será que ela percebeu as mesmas coisas que você? Para mim essa resposta é não. Mas, se você pudesse contar a ela o que viu e ela pudesse replicar a você as coisas que para ela fizeram mais sentido você perceberia que ambas deixaram de enxergar detalhes importantes. O trabalho do audiodescritor é um tanto detalhista e procura complementar o que os ouvidos escutam, porém de uma forma imparcial deixando para o ouvinte a interpretação e sentimentos que só ele pode agregar.

Igualdade de Oportunidades

Pilar Garcia Alava*

A empresa em que trabalho decidiu apoiar a causa da deficiência visual. Contratou uma funcionária cega e foi então que eu comecei a conhecer um pouco mais sobre este tipo de deficiência. Confesso que antes disso, o único contato que tive com uma pessoa com deficiência visual foi um dia em que vi um cego tentando atravessar a rua e prontamente o ajudei a atravessá-la. Em 2006, fiz um curso de audiodescrição pelo Instituto Vivo e foi onde realmente eu me encontrei.

Desde então exerço o trabalho de audiodescritora no Teatro Vivo. É muito prazeroso e gratificante realizar este trabalho. É fantástica a sensação de entrar na cabine, sentar à frente do microfone e audiodescrever as cenas, ouvir os depoimentos após o término da peça, participar das discussões sobre as cenas. Nunca pensei na dificuldade que seria para um cego, assistir a uma peça de teatro, a filmes, e exposições. Hoje, quando assisto a um programa de televisão, fico analisando a dificuldade que um cego tem, para entender o que se passa na TV.

Eu acredito que todos devem ter a mesma igualdade de oportunidades. O meu trabalho contribui para isso. É uma pequena atitude, que significa uma grande mudança. O poder está em nossas mãos.

Audiodescritora Apaixonada
Rosilene Cortes Almeida*
Quando recebi o convite para o curso e soube que seria a primeira turma a receber este treinamento aceitei sem saber o que seria e o que traria para minha vida. Não tinha noção do que era o curso, mas a cada aula que eu assistia ia me apaixonando pelo trabalho.

Começamos a prática na peça O Santo e a Porca que, aliás, é muito engraçada e com profissionais excelentes. Tínhamos colegas com deficiência visual que serviram de “cobaias” dando opiniões e nos ajudando a aperfeiçoar as descrições.

Quando recebi o certificado de conclusão do curso, me senti muito feliz e, ao mesmo tempo, preocupada com a responsabilidade que me foi dada, de repassar os meus conhecimentos para pessoas que esperam de mim o entendimento da peça.

Sinto-me orgulhosa de me identificar como audiodescritora e apaixonada pela iniciativa.

Uma vez recebi o depoimento de uma pessoa com deficiência visual, com o qual me emocionei muito: “Vocês são meus olhos. Isso não tem preço, é uma emoção única”.

Este recurso tem ajudado muitas pessoas com deficiência visual a assistirem às peças com melhor entendimento, sem ter que ficar perguntando aos acompanhantes o que está acontecendo e incomodando os outros colegas ao lado.

Espero que este recurso se estenda para outros meios de comunicação e diversão como um direito das pessoas com deficiência.

Audiodescrição no Centro Cultural São Paulo

Ana Maria Campanhã, Ana Maria Rebouças, Camila Feltre,

Carmita Muylaert Moreira, Iris Fernandes,

Lizette T. Negreiros, Maria Adelaide Pontes*

Não podemos esquecer de manter a insustentável leveza do ser.”41

Inaugurado em 1982, com uma área de 46.000 m2, o Centro Cultural São Paulo, órgão da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, oferece à população eventos multidisciplinares, como oficinas, palestras, debates, cursos, exposições, espetáculos de dança, espetáculos teatrais, cinema, web radio e shows. Possui importantes acervos, como a Coleção de Arte da Cidade, a Discoteca Oneyda Alvarenga, que inclui a coleção da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade, o Arquivo Multimeios, além de um conjunto singular de bibliotecas, entre elas a Biblioteca Louis Braille. Após a implantação em 2007 do Livre Acesso – Programa da Acessibilidade do Centro Cultural São Paulo – em parceria com Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida e o Instituto Vivo, a instituição equipou-se, entre outros, com vídeo ampliador, linha braille e diversos softwares (openbook, jaws, magic, acessibility works), que possibilitam à pessoa com deficiência visual o acesso aos acervos disponibilizados pela instituição. O site tornou-se acessível e, além disso, o prédio foi adaptado com a instalação de pisos e mapas táteis, telefones, elevadores, banheiros acessíveis.

Por meio do programa Livre Acesso, o CCSP foi o primeiro espaço público a utilizar a audiodescrição em sua programação cultural, projetando-se como pioneiro na prestação desse serviço às pessoas com deficiência visual. Comunga assim com o ideal de inclusão, bem como o da acessibilidade integral à Cultura e às Artes. Neste sentido, não só tem correspondido às necessidades das pessoas com deficiência como também a diferentes sensibilidades e distintos modos de percepção e conhecimento encontrados na diversidade sócio-cultural de uma megalópolis como São Paulo.

Como ponto de partida para que este serviço de audiodescrição fosse implantado no CCSP, funcionárias de algumas áreas fizeram o curso no Instituto Vivo, ministrado pela profa. Lívia Motta e que teve a duração de 40 horas. “No início não sabíamos exatamente como seria o curso, mas no decorrer das aulas, ficamos admirados porque mudou a forma de observarmos os detalhes que antes passavam quase despercebidos e que para uma pessoa com deficiência visual ou baixa visão faz toda a diferença para o entedimento do espetáculo”, declara Lizette Negreiros.

A seguir, relatos das recentes experiências em audiodescrição no Centro Cultural São Paulo:



Espetáculo teatral Amor que é de mentira ou mentira que é de amor?

Data: 24/01/09

Direção: Sidmar Gomes

Audiodescritoras: Ana Maria Rebouças, Iris Fernandes e Lizette Negreiros

Pela primeira vez no estado de São Paulo, foi apresentado um espetáculo teatral com audiodescrição num espaço público com a participação de voluntárias do CCSP. A peça que inaugurou esse recurso de acessibilidade foi Amor que é de mentira ou mentira que é de amor? com autoria e direção de Sidmar Gomes, da Cia. dos Ditos Cujos, um dos projetos ganhadores do Edital de Ocupação das Salas do CCSP para uma temporada de dois meses na Sala Jardel Filho, na categoria Teatro infanto-juvenil.



Passo a passo: 

- Conhecimento do texto através de várias leituras. Encontro com o diretor do espetáculo para obter mais informações sobre o trabalho e saber como foi esse processo de criação que envolveu atores e músicos.

 - Participação em ensaios com o texto do espetáculo e um pré-roteiro como base: os primeiros ensaios aconteceram em uma sala de aula, sem cenário, sem figurino, apenas com  poucos elementos de cena, os atores, o diretor (que também é ator) e os músicos. Durante o ensaio, pudemos notar que muita coisa do texto já havia mudado e, consequentemente, isso alteraria o nosso pré-roteiro. As mudanças mostravam que haveria necessidade de assistir a outros ensaios. A falta dos elementos cênicos dificultou bastante a observação das marcações e dos movimentos.

- Encontros para reavaliação do roteiro. Foram feitas as alterações anotadas no ensaio e sugeridas outras modificações com base em uma discussão sobre o que era mais relevante.

- Preparamos a ficha técnica, a descrição das características dos personagens e do cenário. O diretor enviou nova versão do texto com as alterações da peça.

- Preparamos a descrição do figurino e da maquiagem, acrescentamos outras informações que completaram o trabalho. O roteiro sofreu alterações com novas informações quase o tempo todo. Nova releitura, novas alterações. A partir disso, começaram os ajustes para a versão definitiva. O roteiro foi elaborado por Ana Maria Rebouças, Iris Fernandes e Lizette Negreiros, com acompanhamento da professora Lívia Motta. Foram feitas cinco versões e, se houvesse mais tempo, chegaria à sexta versão. Segundo Lívia Motta, sempre haverá ajustes.

- Finalizamos e distribuímos o roteiro que foi dividido entre as três audiodescritoras: a primeira parte, que consistia na abertura, informações sobre a peça, ficha técnica, descrição dos personagens e do cenário, foi realizada por Íris Fernandes. Já o espetáculo foi dividido entre as audiodescritoras Lizette Negreiros e Ana Maria Rebouças, que se intercalaram na descrição de algumas passagens para haver diferenciação de voz e proporcionar maior dinâmica.

 Pontos positivos:

- Houve responsabilidade, atenção, dedicação, cuidado, vontade de acertar, sensibilidade, companheirismo, igualdade no trabalho. Não houve imposição de idéias: as mudanças eram discutidas e melhoradas sempre que necessárias.

- Entendimento de trabalho: o ideal é fazer a audiodescrição em conjunto: duas, três ou, talvez, quatro pessoas. Fazer sozinho não é impossível, porém com mais pessoas, pode-se dividir tarefas, opiniões e um olhar mais aguçado sobre o que se faz. É um trabalho minucioso, que requer atenção desdobrada nos mínimos detalhes, poder de síntese e vocabulário substancioso. Precisa-se ler e reler várias vezes o roteiro, entender o mecanismo das mudanças para não colocar o desnecessário ou ser redundante.  Se houver possibilidade, assistir a mais de dois ensaios do espetáculo completo. Não basta somente a dedicação; disponibilidade de tempo é fundamental.

- Audiodescrição é um trabalho prazeroso que exige integração, tempo, conhecimento da obra nos mínimos detalhes, diálogo amistoso com o grupo ou companhia, respeito à obra. O aprimoramento da técnica se consegue com – foi o que pudemos perceber.

A primeira experiência foi válida. Cabe à equipe, cada vez mais, aprimorar o trabalho executado. Audiodescrever uma peça de teatro realmente exige domínio do roteiro, conhecimento profundo sobre a obra e agilidade para inserir mais algumas ações, gestos e expressões que podem acontecer de improviso no palco.



Visita mediada com audiodescrição à exposição “Aurélio Becherini: São Paulo em Transição”

Data: 06/05/2009

Audiodescritoras: Ana Maria Campanhã, Camila Feltre, Carmita Muylaert Moreira

Mediadores: Breno Morita, Caio Marinho Maimone, Juliana Rosa e Patrícia Marchesoni Quilici


Escolhemos a exposição “Aurélio Becherini: São Paulo em Transição” para desenvolver a  nossa proposta. A mostra contava com 45 fotos em preto e branco sobre a cidade de São Paulo em transformação, no período de 1904 a 1934.
Junto com a equipe de mediação da Divisão de Ação Cultural e Educativa, desenvolvemos uma pesquisa para elaboração do roteiro e da atividade prática. Também contamos com a colaboração das equipes de fotografia da Divisão de Informação e Comunicação, e da Biblioteca Louis Braille. A audiodescrição teve a supervisão da professora Lívia Motta.

A visita foi agendada para 14 crianças com deficiência visual, de 10 a 15 anos, 5 acompanhantes adultos do Instituto  Padre Chico e 2 adultos videntes (que usaram  vendas durante a visita) da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida – SMPED


Visita e acolhimento ao grupo

No acolhimento nos apresentamos ao grupo, que também se apresentou. Demos as boas-vindas, perguntamos quem já conhecia o Centro Cultural São Paulo, falamos sobre a programação e explicamos as atividades que iriam acontecer: a audiodescrição de algumas fotos da exposição, seguida de uma discussão sobre elas e uma atividade prática.




Apresentação da atividade do dia 

Apresentamos o serviço de audiodescrição, que muitos já conheciam em peças de teatro e cinema. Dividimos-nos em 2 grupos de 10 pessoas para melhor aproveitamento de todos. Fomos ao piso Caio Graco, descrevemos a sala Tarsila do Amaral, onde estava a exposição e o tamanho das fotos. No texto de abertura, ressaltamos a importância do fotógrafo Aurélio Becherini para a cidade de São Paulo. Escolhemos 6 das 45 fotos expostas que  abordavam  diversos aspectos da transformação da cidade como: paisagem, construções, meios de transporte, vestimentas, pessoas, energia elétrica, além da característica da própria linguagem fotográfica. A visita foi desenvolvida de maneira participativa, de modo que o grupo fez observações e opinou a respeito do que foi descrito.


Prática

Concluída a passagem pela exposição, iniciamos a discussão sobre a percepção dos visitantes no que foi descrito. Foi uma discussão muito rica, em que os visitantes mostraram que conseguiram ter um panorama da obra do fotógrafo e das transformações sofridas pela cidade de São Paulo. A etapa seguinte foi a atividade prática, partindo das percepções individuais sobre a exposição. Utilizando os diversos materiais tridimensionais, músicas sobre São Paulo, sons da cidade e poesias em braille, os jovens desenvolveram vários trabalhos, poesias, desenhos, relacionados aos conceitos levantados na exposição.


Fechamento

No final, cada participante pôde comentar sobre sua produção e compartilhar sua opinião sobre a exposição e sobre a visita mediada. Houve muita troca, foram feitas muitas observações interessantes e até emocionantes. Terminamos entregando  a programação e os convidando a voltar  ao Centro Cultural São Paulo. 




Filme Nossa Vida Não Cabe Num Opala 

Data: 17/05/09

Direção: Mário Bortolotto

Roteiro para audiodescrição: Lívia Maria Villela de Mello Motta

Audiodescritoras - Adelaide Pontes, Ana Maria Campanhã, Carmita Muylaert Moreira e Iris Fernandes
Assistimos ao filme várias vezes, sem texto, e depois com a leitura do texto, sendo o último ensaio na sala de cinema Lima Barreto. O público foi variado embora a divulgação tenha sido dirigida às pessoas com deficiência visual. Era uma sessão especial para pessoas com deficiência visual, porque teríamos uma audiodescrição aberta, sem cabine, apenas com microfone. Distribuimos vendas para que as pessoas videntes pudessem vivenciar a experiência de assistir a um filme sem enxergar. O público foi receptivo e a apresentação teve êxito.

Recebemos ainda a presença de uma pessoa com deficiência auditiva e como o filme não era legendado, oferecemos a ela a sinopse e outras informações impressas sobre o filme, o que facilitou a compreensão da história. Após o término do filme, deixamos que os expectadores fizessem suas observações, sugestões e perguntas. Ouvindo cada opinião sobre o filme, tivemos a certeza da importância desse trabalho. Os detalhes de cenário, roupas e outros elementos visuais são determinantes para a compreensão do todo. 

Foi gratificante e compensador ouvir do público que o nosso trabalho proporcionou entendimento do filme e que eles conseguiram “visualizá-lo” e compreender melhor a trama.

CONTRACAPA

PALAVRA DA SECRETÁRIA: Dra. Linamara Battistella

Transformação, uma necessidade e um direito
A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência reconhece e assegura o direito destas pessoas em participar da vida cultural em igualdade de condições com todos os demais e enfatiza a adoção de medidas pertinentes para viabilizar o acesso aos produtos culturais em todos os formatos e mídias.
Na perspectiva do desenho universal, o conceito de acessibilidade ultrapassou a barreira arquitetônica e ambiental e alcançou os meios audiovisuais, atividades da informação, comunicação, cultura e entretenimento, tais como teatro, televisão, cinema, dança e etc.
Serviços e sistemas acessíveis espelham o marco legal de uma sociedade justa e para todos. O respeito à diversidade como a essência da condição humana e prerrogativa de uma sociedade livre, é enfatizada pelo desenvolvimento tecnológico, e contribui para a construção de uma imagem positiva e ativa das pessoas com deficiência, superando estereótipos e preconceitos.
As barreiras de comunicação e informação são os principais obstáculos à participação plena das pessoas com deficiência em todos os níveis: social, profissional e cultural.
A imagem constitui um elemento essencial na formação de conceitos, na tradução da cultura de uma nação e no desenvolvimento cognitivo da criança e do jovem. Utilizar a audiodescrição é dar acesso às pessoas com deficiência visual, mas este é também um produto cujo impacto vai além. Proporcionar educação e cultura sem discriminação é o propósito! O uso da tecnologia para garantir acessibilidade é um caminho de mão dupla, garante o direito das pessoas com deficiência e ensina a sociedade a respeitar a diversidade.

Este livro registra o início de uma nova era!


Profª. Drª. Linamara Rizzo Battistella

Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência



ORELHAS: CURRÍCULOS DOS ORGANIZADORES

Lívia Maria Villela de Mello Motta trabalha como audiodescritora e professora de cursos de audiodescrição desde 2005, sendo responsável pela elaboração de roteiros e formação de audiodescritores do Teatro Vivo. Elaborou os roteiros para audiodescrição dos documentários: Vida em Movimento, Zona Desconhecida, Cidade dos Anões, Janela da Alma, Doutores da Alegria, Pro Dia Nascer Feliz, Cego Oliveira, Loki e Contratempo; dos filmes: Saneamento Básico, O Ano que Meus Pais Sairam de Férias, O Passado, Nossa Vida não cabe num Opala, O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, Xuxa em Sonho de Menina; das peças: O Andaime, A Graça da Vida, O Doente Imaginário, Cartas de Amor, A Cabra ou Quem é Sylvia, Vestido de Noiva, Mãe é Karma, A Música Segunda, O Doido, Coração Bazar e Figurinha Carimbada; das óperas: Sansão e Dalila, Cavalleria Rusticana, Pagliacci e O Barbeiro de Sevilha; dos comerciais da AVAPE. Foi roteirista e locutora do espetáculo de dança do Candoco Dance Company, do desfile de moda realizado pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, do evento de encerramento do Ciclo de Palestras Louis Braille.

Paulo Romeu Filho é o articulador do movimento pela audiodescrição no Brasil e grande conhecedor de leis e decretos sobre acessibilidade na comunicação. Colaborador do grupo de trabalho da Associação Brasileira de Normas Técnicas responsável pela elaboração da norma NBR 15290: Acessibilidade em Comunicação na Televisão.  Convidado pela Coordenadoria de Assuntos Judiciais do Ministério das Comunicações para auxiliar na elaboração da Norma Complementar nº 1/2006, oficializada pela Portaria 310/2006. Criador de um grupo de discussão no Yahoo do qual participam diversos audiodescritores e pessoas com deficiência interessadas no tema. Criador do Blog da Audiodescrição.



 Marco Antonio de Queiroz é consultor em Acessibilidade Web, criador dos sites Bengala Legal e Acessibilidade Legal e autor do livro Sopro no Corpo: Vive-se de Sonhos, Rima Editora – 2005. Foi o primeiro jurado cego de um festival de cinema internacional: Festival de Filmes sobre Deficiência Assim Vivemos.


1 Eliana Paes Cardoso Franco é Pós-Doutora em Tradução Audiovisual pela Universidade Autônoma de Barcelona (2007) e Doutora em Letras pela Universidade Católica de Leuven, Bélgica (2000). Desde 2002 é docente da Universidade Federal da Bahia, onde coordena o grupo de pesquisa TRAMAD (Tradução, Mídia e Audiodescrição). Já orientou dissertações e teses em tradução audiovisual, literária, intersemiótica, automática e interpretação. Publicou inúmeros trabalhos no Brasil e no exterior e lançará em 2010 um livro sobre a tradução em voice-over pela editora Peter Lang (Bern). Nos últimos anos, tem desenvolvido diversos trabalhos de audiodescrição para o cinema, o teatro e a dança.

Manoela Cristina Correia Carvalho da Silva: É integrante do grupo de pesquisa TRAMAD desde sua implantação. Mestre em Letras e Lingüística pela UFBA (2009), com dissertação sobre a AD de desenhos animados para o público infantil, é graduada em Língua Estrangeira (UFBA, 2005) e em Comunicação Social pela UCSAL (1996). Atualmente é professora substituta do Instituto de Letras da UFBA e leciona em cursos livres de inglês. Além da AD, a dança e o cinema são outras duas paixões.

 Texto baseado em um dos capítulos da primeira dissertação de mestrado sobre audiodescrição no país: Com os olhos do coração: estudo acerca da audiodescrição de desenhos animados para o público infantil (SILVA, 2009), orientada e desenvolvida pelas autoras do presente capítulo, respectivamente.




2 Neste trabalho, também nomeada AD.

3 As informações exibidas nessa seção foram obtidas junto às seguintes páginas da Web:



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