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Como ele é galante! (discurso direto)


Entra Don Bartolo de avental branco, luvas de borracha e maleta de médico.

Ele xinga Fígaro de desgraçado, indigno e maldito. (discurso indireto)

Rosina diz para si mesma que Bartolo só sabe gritar. (discurso indireto)

Bartolo diz:



Fígaro ainda vai se dar mal...

...fez um hospital de toda a família, de tanto ópio, sangria e rapé. (discurso direto)


Enciumado, ele pergunta se Rosina viu o barbeiro. (discurso indireto)

Rosina confessa que falou com ele. (discurso indireto)

Ela diz que a conversa de Fígaro é agradável e sua aparência é jovial! (discurso indireto)

Diz para si mesma:



Morra de raiva, velho decrépito. (discurso direto)

Foi possível perceber que algumas pessoas com deficiência visual gostariam de que todas as legendas fossem lidas na íntegra no discurso direto, enquanto que outras acharam boa a sumarização e o uso do discurso indireto, como podemos perceber pelos trechos de dois feedbacks sobre O Barbeiro de Sevilha, transcritos abaixo:

A descrição estava bem audível e foi muito bem feita. A pena é que nem sempre os diálogos foram audiodescritos na íntegra...
Acredito que, foi a melhor audiodescrição que acompanhei nos eventos recentes, uma vez que as interferências dos audiodescritores foram bastante pertinentes e no momento adequado, sem interferir no desempenho dos solistas e na música, dando harmonia ao evento.

Depois de elaborado e revisado, o roteiro é enviado ao diretor do espetáculo, para aprovação e verificação da adequação da linguagem; e para os audiodescritores locutores, que fazem a leitura e assistem a ensaios e à fita gravada da ópera com ele em mãos, podendo sugerir alguma alteração.


Tanto Benecke (2007) como Snyder (2004) apontam para a importância da transmissão (delivery) da audiodescrição pelo audiodescritor locutor, que nem sempre é o mesmo que o roteirista. Muitas vezes, o roteiro está bem elaborado, mas a locução sem vida faz com ele perca a qualidade. O contrário também pode acontecer: o audiodescritor com sua entonação, timbre, clareza e alguns improvisos pode melhorar um roteiro medíocre.
Nem sempre é possível, embora desejável, fazer a primeira audiodescrição do espetáculo apenas com alguns espectadores cegos para o teste de recepção, com tempo para mudar o sugerido. Após cada espetáculo, roteirista e audiodescritores, em conversa com as pessoas com deficiência visual, recebem os comentários gerais sobre o espetáculo e sobre a audiodescrição e, além disso, é enviado um pedido de feedback para cada pessoa com deficiência visual que assistiu ao espetáculo, o que contribui bastante para a reconstrução da prática.

  1. Feedbacks para a reconstrução da prática

O questionário de avaliação foi elaborado com cinco questões de múltipla escolha para conhecer as impressões sobre o espetáculo, destacando a compreensão da história, o desempenho dos solistas, a contribuição da  audiodescrição  para o  entendimento de todos estes aspectos e, consequentemente, para a inclusão cultural das pessoas com deficiência visual. Os resultados fornecem, aos audiodescritores, dados quantitativos e qualitativos que colaboram para a reconstrução da prática e apontam para a heterogeneidade do público alvo.

O expectador com deficiência visual tem preferências diversas como qualquer outro público. Entretanto, existem, ainda, algumas especificidades da deficiência visual, cegueira ou baixa visão, que ampliam essas diferenças, tais como: pessoas que nasceram cegas e que não têm memória visual, pessoas que ficaram cegas mais tarde e que têm alguma memória visual dependendo da época em que perderam a visão, pessoas que ainda enxergam um pouco e que precisam ficar o mais próximo possível do palco para poder perceber os personagens e seus movimentos, assim como o cenário e outros elementos.

Além de toda essa diversidade, é possível afirmar que algumas pessoas, no primeiro contato com a audiodescrição, podem se confundir um pouco, já que precisam prestar atenção a coisas diversas ao mesmo tempo – o diálogo dos atores, a trilha sonora e a audiodescrição – para juntá-los em um todo significativo, ou seja, como todos os elementos visuais convertidos em texto são processados na mente dos receptores. Por outro lado, quando se acostumam com o recurso, passam a reivindicar mais detalhes e incomodam-se com alguns períodos de silêncio, muitas vezes necessários, pois pensam que podem estar perdendo alguma informação relevante.

Outras pessoas temem não escutar bem o som do palco se permanecerem com o fone nos dois ouvidos e preferem manter apenas um. Tudo isso precisa ser levado em consideração na elaboração do texto da audiodescrição, já que o objetivo é atingir o maior número de pessoas, ampliando o entendimento do que assistem e possibilitando que transformem novamente em imagens aquilo que foi traduzido para o verbal. Em suma, algumas pessoas preferem uma descrição mais sucinta, outras, mais detalhada, como exemplificam recortes de alguns depoimentos abaixo:

Em relação à descrição, foi muito boa, todavia, sugiro que seja o mais sucinta possível.
Achei que funcionou bem a áudio, com salvas exceções em algumas vezes que houveram lacunas, mas estas totalmente compreensíveis, pois se trata de uma obra que além de descrever, se fez necessário a tradução simultânea.
Vale ressaltar que considerei excelente a entonação e a clareza empregadas pelos audiodescritores quando da exposição dos aspectos visuais, como a rica descrição das cores, das características físicas dos personagens, dos seus movimentos, gestos, encenações, interações, além do amplo detalhamento dos figurinos e do cenário.
A descrição das cenas estava perfeita, bem como a dos figurinos, marcação no palco e personagens. Só senti falta de mais informações sobre a orquestra, como quantidade de músicos, idade média do corpo como um todo, etc.
Gostaria de comentar que a qualidade da audiodescrição está cada vez melhor. Os voluntários parecem cada vez mais seguros e as leituras estão cada vez mais fluentes. 

Adorei o programa com letras ampliadas! 

Achei bacana também os momentos de silêncio em que podíamos apreciar somente as árias. 

Com relação à avaliação geral do recurso utilizado, a tabulação dos dados sobre as três óperas apresentadas no Theatro São Pedro, em São Paulo,24 onde estiveram presentes 467 pessoas, dentre elas 52% com deficiência visual, aponta para os seguintes resultados:



  • 65% respondeu que a audiodescrição foi ótima, 26% respondeu que foi boa e somente 3% respondeu que foi razoável, nos dados consolidados das três óperas;

  • 84% respondeu que serão capazes de discutir a ópera O Barbeiro de Sevilha com outras pessoas;

  • 65% respondeu que serão capazes de discutir a ópera Pagliacci com outras pessoas;

  • 48% teve um entendimento completo do enredo, personagens, cenário e movimentação dos solistas, 48% teve um entendimento suficiente e apenas 4% mencionou algum entendimento em O Barbeiro de Sevilha;

  • 39% teve um entendimento completo do enredo, personagens, cenário e movimentação dos solistas, 44% teve um entendimento suficiente e apenas 9% mencionou algum entendimento em Pagliacci.

Os dados apresentados evidenciam a relevância do recurso para o maior entendimento da ópera e, consequentemente, para a inclusão cultural das pessoas com deficiência visual. Foi possível perceber o encantamento e a emoção provocados por esse gênero de espetáculo e também a desmistificação do caráter elitista da ópera. A audiodescrição foi, sem dúvida, responsável por permitir o entendimento e a participação plena das pessoas com deficiência visual.

Concluo este artigo passando a palavra para as pessoas com deficiência visual que assistiram aos espetáculos. O leitor, certamente, poderá perceber nas linhas e entrelinhas, abaixo, o significado da audiodescrição e os benefícios que ela traz. Crescemos e aprendemos todos, roteirista, audiodescritores, pessoas com deficiência visual e pessoas que enxergam que assistiram ao espetáculo com os fones de ouvido. A mídia impressa e televisiva contribuiu para divulgar o que é e a importância do recurso para mais e mais pessoas. Os que assistiram às reportagens conheceram a audiodescrição; os solistas, produtores e diretores puderam certificar-se de que a arte pode ser acessível a todos, sem exceção.

Eu achei o  espetáculo ótimo, tanto a  música, o  desempenho dos solistas, quanto a audiodescrição que foi ótima, bem pausada para que possamos montar uma imagem mental bem próxima da visual. Certamente o  espetáculo dá para ser discutido com os videntes sem problemas. Inclusive fica muito interessante essa discussão pois quando a  imagem que fizemos é  muito próxima da que nos foi comentada pela pessoa vidente, aí vemos o  resultado da audiodescrição. Espero que possamos contar sempre com esse recurso.



(O Barbeiro de Sevilha)

Foi a ópera que mais gostei, devido principalmente, à boa trama da história, à ótima música e à perfeição da narrativa dos detalhes do cenário, figurino e movimentação dos atores feitas pelos audiodescritores, fatos que, não só facilitam a compreensão do espetáculo, mas fazem valorizar a riqueza da arte incluindo o deficiente visual de forma plena na sociedade. Obrigado pela oportunidade, Parabéns pelo trabalho e evento.



(Pagliacci)
Que a audiodescrição é muito importante para nós, todos já sabemos. Mas para assistir a uma ópera a audiodescrição é muito mais que importante; é absolutamente imprescindível. Mesmo para aqueles que possam entender o idioma.

(Cavalleria Rusticana)
É algo indispensável para a compreensão completa, do que os cegos são privados, na grande maioria dos concertos, por não poderem falar com quem está ao lado para pedir uma descrição detalhada do que ocorre no palco. Não vejo como poderia ser melhor. No meu ponto de vista, foi impecável.

(Cavalleria Rusticana)
Estou incrivelmente feliz por, pela primeira vez, assistir uma ópera. Confesso que mudei minha opinião sobre este tipo de espetáculo, e através dos olhos dos audiodescritores pude "ver", como uma ópera pode ser linda.

(Cavalleria Rusticana)

A audiodescrição indubitavelmente enriqueceu muito a compreensão da Ópera Cavalleria Rusticana, pois propiciou o complemento necessário para que nós, pessoas com deficiência visual, pudéssemos desfrutar com intensidade das sensações e sentimentos despertados pelo acesso ao universo das informações visuais. Assim, pude apreciar a ópera com um aproveitamento muito mais amplo, uma vez que por meio da audiodescrição, tive acesso a uma gama de detalhes visuais que, normalmente, não seria possível sem a assistência deste tão importante recurso de acessibilidade. Um dentre tantos outros exemplos de cena que poderia citar como marcante e perceptível graças ao recurso da audiodescrição, escolho o momento em que Turiddu, segurando a taça com vinho na mão, passa o braço por sobre os ombros de Lola na frente de Alfio, num ato de extrema provocação e ela se afasta. Esta cena esquenta ainda mais o clima de rivalidade entre Turiddu e Alfio na disputa por Lola.



(Cavalleria Rusticana)

Referências bibliográficas

BENECKE, B. Audio Description: Phenomena of Information Sequencing. MuTra 2007 – LSP Translation Scenarios: Conference Proceedings. Munich/ Saarbrücken, 2007.

BRAUN, S. Audiodescription Research: State of Art and Beyond. Translation Studies in the New Millennium 6. University of Surrey. UK, 2008.

FELS, D.; UDO, J. P. Re-fashioning fashion: an exploratory study of live audio-described fashion show. Paper 17, Springer-Verlag: Ted Rogers School of Information Technology Management Publications and Research, 2009.


FRAGA, F.; MATOMORO, B. A Ópera. Editora Angra. São Paulo, 2001.
GOULDING, P. G. Ticket to Opera. New York and Canada: Fawcett Books, 1996.

ORERO, P. Audiosubtitling: a possible solution for opera accessibility in Catalonia. TRADTERM 13. São Paulo, 2007.

SNYDER, J. Audio description: the visual made verbal. Maryland, USA: Audiodescription Associates, Takoma Park, 2004.

SUHAMY, J. Guia da Ópera. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2007.

UMA ÓPERA comentada, para ajudar deficientes: Cavalleria Rusticana contará com tradução e audiodescritor. O Estado de São Paulo, São Paulo, 29 jul. 2009. Disponível em <http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090729/not_imp410030,0.php>. Acesso em: 13/02/2010

Audiodescrição e Voice Over no Festival Assim Vivemos

Graciela Pozzobon Costa*



Panorama

O Festival Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência é um festival de cinema temático que exibe filmes que apresentam questões relativas às deficiências de um modo geral. Trata-se do primeiro festival de cinema no Brasil a reunir e apresentar ao público um panorama atualizado e completo do que se produz no mundo sobre este tema. Por ser um festival internacional, os filmes são estrangeiros em sua maioria, falados nas mais diversas línguas.

Desde a sua primeira edição em 2003, um dos pressupostos do Assim Vivemos foi o de disponibilizar os recursos de acessibilidade em todas as sessões. Não parecia lógico aos realizadores, Lara Pozzobon e Gustavo Acioli, exibir filmes sobre deficiências sem que todas as pessoas, independentemente de suas necessidades, tivessem acesso às sessões. Os recursos que foram disponibilizados foram a audiodescrição para pessoas com deficiência visual, as legendas com indicações de ruídos (Closed Caption) para as pessoas com deficiência auditiva, intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) em todos os debates e palestras, e ambiente acessível para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

O fato de o festival ser internacional, com filmes falados em diversas línguas, trouxe um dado de complexidade para a produção da acessibilidade para as pessoas cegas: como essas pessoas não estão aptas a lerem as legendas, as quais contêm as traduções dos diálogos dos filmes, tais informações também deveriam estar contidas no contexto sonoro da audiodescrição. Ou seja, no caso dos filmes estrangeiros do Festival, a audiodescrição tradicional – contendo apenas a descrição das cenas e sendo inserida nos espaços entre as falas dos personagens – não era suficiente, pois esta atende a produtos nacionais ou previamente dublados em português. Para o pleno entendimento dos filmes estrangeiros por parte das pessoas cegas, fazia-se necessário incluir as falas dos personagens, traduzidas para o português, junto com as informações contendo as descrições.

A opção de realizar uma dublagem tradicional foi descartada por alguns motivos. Em primeiro lugar, a logística de recebimento dos filmes em um festival de cinema internacional é naturalmente complexa, o que faz com que não haja tempo hábil, impossibilitando a antecedência necessária para a produção da dublagem tradicional. Em segundo lugar, no caso do Assim Vivemos, todos os filmes são exibidos com os recursos de acessibilidade, o que significa um volume de aproximadamente 32 filmes, entre curtas e longas, em cada edição do festival. O terceiro e principal motivo é que a dublagem tradicional suprime completamente a voz original do personagem, ficando a voz do dublador sobreposta à voz original. Desta forma, perde-se parte importante dos significados da obra.

Os filmes apresentados no Festival Assim Vivemos são, na sua maioria, documentários que retratam a vida de pessoas com deficiência e todas as questões que as envolvem. Nesse caso, percebemos que a voz original dos personagens, que muitas vezes contam suas próprias histórias, traz em si aspectos e informações importantes. A forma de falar, o ritmo e a entonação com que contam suas histórias pessoais revelam nuances de personalidades e sentimentos. Outro fator importante é que, no caso principalmente de documentários, a língua original, assim como o ambiente onde vivem os retratados, os objetos que utilizam e a maneira como se relacionam, contextualizam a história e nos ajudam a compreender melhor suas realidades. Portanto, para deixar a voz original dos personagens presente, a solução encontrada foi realizar o voice over dos diálogos, falas ou narrações, recurso já utilizado em canais de televisão sempre que se faz necessária a tradução simultânea em produtos estrangeiros não dublados.

O recurso do voice over consiste na sobreposição da voz do ator/narrador à voz original do personagem, fazendo com que o espectador ouça tanto o som original quanto a tradução. Normalmente, a tradução fica em primeiro plano e a voz original ao fundo.

Desta forma, no caso do Festival Assim Vivemos, consideramos audiodescrição a junção da descrição das cenas com o voice over. Os atores audiodescritores realizam tanto a descrição das cenas quanto o voice over de todas as falas e diálogos. Esse trabalho é feito ao vivo e transmitido via fones de ouvido para cada usuário. A audiodescrição é recebida pelos fones enquanto o universo sonoro original do filme é transmitido pelo sistema de som da sala. Assim, o usuário tem autonomia para regular o volume do conteúdo acessível, o que não ocorreria caso o som do filme também fosse transmitido para os fones. Com tal estrutura, a sessão transcorre normalmente, sem nenhuma interferência para o público em geral, ou seja, temos uma sessão inclusiva, em que pessoas com e sem deficiência visual podem assistir ao mesmo filme sem qualquer tipo de interferência.



Produção da audiodescrição e Voice Over

O roteiro de audiodescrição para os filmes do Festival Assim Vivemos é feito a partir da lista de diálogos do filme, previamente traduzida para o português. Normalmente, essa tradução é feita para a legendagem e é essa mesma tradução que o audiodescritor roteirista utiliza. A descrição das cenas obedece às mesmas regras da inserção da audiodescrição em produtos nacionais ou dublados, ou seja, entra nos espaços entre as falas dos personagens, nos silêncios, nas pausas e em alguns momentos sobre a trilha sonora musical. As falas e os ruídos importantes devem ser preservados. A diferença desse roteiro para o roteiro de um produto nacional é que ele irá conter também todas as falas dos personagens. Desta forma, o roteiro final consiste nas descrições inseridas entre as falas dos personagens.

Exemplos de roteiros:


  1. Filme nacional: As falas da personagem estão no roteiro apenas como referência e não precisam estar necessariamente completas. Neste caso, o ator audiodescritor lê apenas a audiodescrição e utiliza-se das falas apenas para localizar suas entradas e saídas.



Trecho do roteiro de audiodescrição para o filme Incuráveis, de Gustavo Acioli.

AD: Através de uma antiga porta de madeira entreaberta, aparece um quarto simples iluminado por um abajur. A mulher se ajeita olhando-se em um espelho.

Mulher: Não repara a bagunça, ta?

AD: Ela apanha uma roupa no chão.

Mulher: Fica à vontade.

(barulho da porta)

AD: Ela fecha a porta. O homem de pé observa através da janela. O ambiente é banhado por uma luz azulada.

Mulher: Eu podia botar uma música pra gente.

AD: Ela caminha em direção ao banheiro.

Mulher: Mas o vizinho...já veio aqui reclamar uma vez.

AD: Levanta o vestido e senta no vaso sanitário.


  1. Filme Estrangeiro: Neste caso, as falas dos personagens precisam estar completas e identificadas, pois também serão lidas pelos atores audiodescritores.

Trecho do roteiro de audiodescrição e voice over para o filme Los Olvidados de Luis Buñuel.

AD: Um grupo de jovens de diferentes idades faz uma brincadeira em um terreno urbano desocupado entre prédios. Ao fundo um prédio em ruínas. Em primeiro plano um muro de pedras e madeira improvisado. Eles brincam de tourada. Um garoto está montado nas costas de outro e outro faz de conta que é o touro. Ele corre com a cabeça baixa em direção a um garoto que sacode uma camisa. Um rapaz bebe em uma caneca enquanto outro diz:

Rapaz 2- Não se esqueça dos outros!

AD: O rapaz que bebia passa a caneca e pergunta:

Rapaz 1- Quem quer um cigarro?

AD: Todos se aproximam. Ele distribui os cigarros. Um garotinho observa montado em cima de um poste. O rapaz oferece cigarros a ele e pergunta:

Rapaz 1- Você fuma?

AD: E o garotinho responde:

Garotinho- Não, me faz tossir.

AD: Oferece para outro que responde:

Garoto- Não gosto.

AD: O rapaz diz:

Rapaz 1- Tão grande e tão bobo. Maricas!

AD: O garoto diz:

Garoto- Eu preciso ir trabalhar.

AD: E um menino:

Menino- Só tolos trabalham.

AD: O garoto diz:

Garoto- Pena, vejo vocês depois.



Voice Over

Depois de o roteiro estar pronto, contendo a audiodescrição e todas as falas dos personagens, inicia-se o período de ensaios. Diferente da audiodescrição feita em produtos nacionais ou dublados em português, em que apenas uma voz é necessária, na audiodescrição com voice over são necessárias, no mínimo, duas vozes.

No Festival Assim Vivemos, utilizam-se duas vozes, uma masculina e outra feminina. Em um primeiro momento, os atores assistem e estudam a obra, em seguida dividem os personagens. Normalmente, o ator audiodescritor fica responsável pelos personagens masculinos e a atriz audiodescritora pelos femininos. Porém, cada situação deve ser avaliada e analisada particularmente e não é incomum, por exemplo, se há diálogos frequentes entre duas mulheres ao longo do filme, que se decida que a voz masculina faça uma das mulheres e a feminina, a outra. Esse recurso facilita a diferenciação entre os personagens. Em um segundo momento, decide-se quem fará a audiodescrição; normalmente opta-se pela voz feminina quando o volume de personagens masculinos é maior e vice e versa.

Para que o resultado fique satisfatório, o passo seguinte é a realização de ensaios. Um diretor coordena os ensaios e orienta os atores em relação a entonação, volume, ritmo e intenção. Preferencialmente, atores profissionais realizam esse trabalho, pois estes se utilizam de técnicas vocais e expertises da formação de ator. Estão treinados para mudar o tom de voz e o ritmo de fala em questão de segundos. Além disso, conseguem ter uma percepção geral da cena e, portanto, realizam sua intervenção de maneira que a presença do audiodescritor fique o mais integrada possível à obra original.

O ator audiodescritor não “imita” exatamente o tom e o ritmo da fala do personagem, mas se aproxima do modo de falar do personagem, de modo que fique clara a associação. Como a fala original do personagem está audível ao fundo, não é necessário que o audiodescritor grite, por exemplo, quando o personagem está dizendo algo gritando, mas sim que imprima na voz a mesma intensidade e força do grito. Se o audiodescritor está fazendo voice over de uma voz infantil, não é necessário que ele imite completamente, apenas que ele aproxime sua voz da voz infantil. Desta forma, quando o audiodescritor está fazendo voice over, usa seu conhecimento de atuação para “entrar e sair” dos personagens, anulando a sua personalidade e maneira de falar própria para dar lugar às formas de expressão vocal dos personagens.

O voice over exige consciência vocal plena, rapidez e capacidade de variação de vozes, ritmos e volumes, além de rapidez na orquestração dessas capacidades, já que muitas vezes o ritmo dos diálogos é rápido. A entonação deve ser discreta, pois nunca se pode perder de vista que o “ator principal” é a voz original do personagem no filme. O voice over, neste caso, funciona como um suporte de compreensão. A entonação semelhante à do personagem original funciona para que o resultado sonoro como um todo fique harmônico, caso contrário o resultado causará distanciamento e desconforto. Outra competência importante para o ator audiodescritor que realiza o voice over em filmes estrangeiros é a familiaridade com línguas estrangeiras, pois muitas vezes os personagens citam nomes próprios, lugares ou expressões que permanecem na língua original; além disso, o conhecimento da língua ajuda o audiodescritor a perceber profundamente a cadência da fala de cada personagem, saber em qual palavra ou expressão o personagem está dando ênfase ou se está sendo irônico, para depois reproduzi-la.

Outra competência importante para o ator audiodescritor é perceber a dinâmica sonora do filme. Por isso, deve conhecer a obra previamente. Sabendo em que momentos do filme deve falar mais baixo ou mais alto, produzirá um resultado agradável e orgânico aos ouvidos. Em uma cena de briga, por exemplo, a audiodescrição pode fica mais intensa, enquanto que em um momento mais silencioso deve ser feita de maneira mais sutil.

A audiodescrição funciona como um complemento que levará ao usuário as informações que estão contidas nas imagens (descrições) e nas falas (voice over). Este recurso é um complemento e não deve nunca competir com o filme; os personagens principais são os personagens originais e suas histórias. O audiodescritor, portanto, deve ser discreto quando está fazendo a descrição assim como quando está fazendo o voice over. O tom de voz da audiodescrição deve ser neutro, discreto e agradável. No caso do voice over, o tom deve ser um pouco mais carregado de intenções; porém como explicado anteriormente, este deve acompanhar o tom de voz original e não se transformar no personagem. Esta é uma diferença sutil que modifica o resultado final, tornando o conjunto de informações sonoras organizado, de modo que cada informação tenha seu momento para ser revelado.

No Festival Assim Vivemos, a dupla de atores audiodescritores realiza a audiodescrição ao vivo, ou seja, simultaneamente à exibição do filme. Os atores audiodescritores ficam em uma cabine com isolamento acústico, montada dentro da sala de cinema ou dentro da cabine de projeção. É importante que os atores tenham boa visibilidade da tela. Se isso não for possível por questões da arquitetura da sala, um monitor em sincronismo com a imagem da tela do cinema deve ser montado dentro da cabine, para que os atores acompanhem o filme simultaneamente aos espectadores na sala. Através de fones de ouvido, os atores audiodescritores recebem o som do filme e através de microfones individuais, suas vozes são captadas e transmitidas para os fones de ouvido dos usuários. Os usuários da audiodescrição recebem fones de ouvido individuais e um receptor, pelo qual podem regular o volume da transmissão.

Programa Assim Vivemos

Em 2009, o Festival Assim Vivemos tornou-se também um programa de televisão chamado Programa Assim Vivemos, exibido nacionalmente na TV Brasil. Para o Programa Assim Vivemos, foram selecionados os filmes de curta-metragem exibidos ao longo das edições do festival, na sua maioria filmes estrangeiros. Assim como no Festival, os recursos de acessibilidade eram pressupostos do programa. Começou-se a pensar, então, nas questões técnicas que envolviam a transmissão da audiodescrição na televisão, já que os recursos para as pessoas com deficiência auditiva, que são a janela com a tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais e as legendas com indicações de ruídos, já estavam tecnicamente estabelecidos. Nos países em que a audiodescrição já está sendo veiculada em canais de televisão, a transmissão se dá através da tecnologia SAP (Second Audio Program), disponibilizada pela tecla secundária de áudio, encontrada na maioria dos televisores. Os usuários, então, podem optar por assistir ao programa com audiodescrição, da mesma forma que se pode optar por assistir a um filme com o som original em alguns canais no Brasil.

Na ocasião do início da exibição do Programa Assim Vivemos, a TV Brasil não dispunha da tecnologia de transmissão SAP em todo o território nacional. Por essa razão, optou-se pela transmissão aberta da audiodescrição, audível a todos. Mesmo sabendo que a audiodescrição não é indicada para os videntes, por gerar informações redundantes, ou seja, a descrição do que está sendo visto, decidiu-se pela transmissão aberta porque esta seria a única opção. Além disso, por se tratar de uma novidade no Brasil, daria a oportunidade para que todos os brasileiros conhecessem e se familiarizassem com esse recurso.

Tínhamos, então, o desafio de realizar as gravações da audiodescrição e voice over dos curtas-metragens. Depois de preparar e revisar os roteiros, a equipe de audiodescrição foi para um estúdio de gravação profissional. Ao contrário do Festival Assim Vivemos, cuja logística da produção e o espaço físico disponível permitem apenas uma dupla de atores audiodescritores, a gravação em estúdio permite que mais vozes sejam inseridas em um único filme. Em estúdio não existe a obrigação de se gravar tudo ao vivo: pode-se gravar e regravar cada passagem até que o resultado fique satisfatório. Normalmente, grava-se uma voz por vez, o que possibilita que as vozes sejam gravadas em momentos diferentes e que a interação e a dinâmica entre a audiodescrição e o voice over sejam manipuladas depois da gravação. Deste modo, a distribuição dos personagens entre os atores pode ser feita de forma menos rígida, comportando quantas vozes forem necessárias, dependendo do número de personagens de cada filme. Ainda assim, os atores costumam desempenhar mais de um personagem por filme, sem prejuízo da qualidade do resultado final, visto que o ator domina técnicas para variar a voz e diferenciar personagens.

Seguindo a experiência do Festival, no Programa Assim Vivemos optou-se pelo voice over sobreposto à voz original dos personagens nos filmes de língua estrangeira. Nosso desafio foi o ajuste dos volumes para que o universo sonoro original dos filmes ficasse presente, mas sem “brigar” com o som gravado contendo a audiodescrição e o voice over. Para tal, optamos por baixar o volume do som original nos momentos em que entra a audiodescrição ou voice over e retornar ao nível normal quando não está acontecendo audiodescrição ou voice over. Dessa forma, este trabalho de mixagem que ocorre após a gravação do conjunto de informações sonoras, representa um estágio fundamental para a realização da audiodescrição com qualidade. Seja em produtos estrangeiros ou nacionais, a audiodescrição simplesmente “colada” ao som original do produto resulta em um universo sonoro não harmônico, onde os dois sons competem entre si, tornando o todo incompreensível e cansativo. O ajuste de volumes é um trabalho que exige sensibilidade e conhecimento das necessidades do usuário da audiodescrição. Assim, o universo sonoro contendo o som original do filme mixado ao novo som criado, que contém audiodescrição e voice over, resulta em um todo agradável aos ouvidos.

Considerações Finais

A tecnologia e o conhecimento devem estar a favor da melhor forma de inserir a audiodescrição e o voice over em produtos de língua estrangeira, lembrando sempre, que o objetivo principal é fornecer informação enquanto o conteúdo sonoro original é preservado na sua essência. A audiodescrição com voice over disponibiliza um ferramental completo para a acessibilidade de pessoas com deficiência visual para qualquer produto audiovisual estrangeiro, visto que este recurso rompe a barreira da língua. Trata-se de um recurso sem precedentes, que põe à disposição do usuário a possibilidade de adquirir conhecimento e entretenimento com as mais variadas produções audiovisuais.



A FORMAÇÃO DE AUDIODESCRITORES NO CEARÁ E EM MINAS GERAIS: UMA PROPOSTA BASEADA EM PESQUISA ACADÊMICA
Vera Lúcia Santiago Araújo

(Universidade Estadual do Ceará - UECE)*
Introdução
A Universidade Estadual do Ceará (UECE) discute a acessibilidade audiovisual desde o ano 2000 investigando a legendagem para surdos. A pesquisa em audiodescrição (AD) começou em 2008 e foi motivada pela implantação da AD no Brasil e pela ausência de pesquisa acadêmica na área. A Portaria 310 de 27 de junho de 2006 prevê a obrigatoriedade da AD para pessoas com deficiência visual e legendagem para surdos e ensurdecidos (LSE) ou janela de Libras (JL) para surdos a partir de 2008. Com base nessa legislação, as emissoras de TV aberta deveriam oferecer AD, LFS ou JL gradativamente, até atingir a totalidade da programação em 10 anos.
No que diz respeito aos surdos e ensurdecidos, a lei foi cumprida, porém o mesmo não aconteceu com as pessoas com deficiência visual, já que o Ministério das Comunicações vem adiando a implantação da AD (Portarias 403, 466, 661) desde junho de 2008. Enquanto essa implantação não acontece, estamos realizando pesquisas que investigam padrões de audiodescrição para serem usados no país e promovendo cursos de formação de profissionais comprometidos com a acessibilidade. Além da UECE, duas universidades, a UFBA e a UFMG, também participam das pesquisas, porém é com a última que temos vários projetos em andamento, patrocinados por diversas agências de fomento à pesquisa (CAPES, CNPq, FUNCAP e FAPEMIG) e pelo BNB. O maior deles é um projeto de cooperação acadêmica (PROCAD), financiado pela CAPES, que tem como objetivo formar tanto pesquisadores em AD como audiodescritores.
Vários cursos em nível de graduação e, principalmente, de pós-graduação foram realizados até agora em algumas universidades do Brasil (UECE, UFMG, UFBA, UERN e PUC-MINAS). Este artigo enfoca os principais aspectos desses cursos de formação de audiodescritores. Está subdividido em duas seções: a primeira traz o referencial teórico sobre audiodescrição com ênfase na pesquisa na área; a segunda trata mais especificamente do funcionamento dos cursos.


  1. A pesquisa em AD

A AD é uma modalidade de tradução audiovisual definida como a técnica utilizada para tornar o teatro, o cinema e a TV acessíveis para pessoas com deficiência visual. Trata-se de uma narração adicional que descreve a ação, a linguagem corporal, as expressões faciais, os cenários e os figurinos. A tradução é colocada entre os diálogos e não interfere nos efeitos musicais e sonoros. Seria a tradução das imagens, do enredo, do cenário e da ação (BENECKE, 2004). Originou-se nos Estados Unidos nos anos 70. Já é bastante utilizada nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Japão. Em alguns desses países já existe até uma regulamentação que obriga as emissoras de TV a audiodescreverem seus programas e filmes: EUA (50 horas por mês); Reino Unido (inicialmente 4% da programação; em 2010, 10%).
A pesquisa em AD está incluída dentro dos Estudos de Tradução porque adotamos a definição de Jakobson (1995), que reconhece três tipos de tradução: a interlinguística ou tradução propriamente dita (texto de partida e chegada em línguas diferentes); a intralinguística ou reformulação (texto de partida e chegada na mesma língua); e a intersemiótica ou transmutação (texto de partida e chegada em meios semióticos diferentes, do visual para o verbal e vice-versa). Então, mais especificamente, a AD seria uma tradução intersemiótica porque transmuta as imagens de um filme em palavras. A inclusão da AD como tradução é de fundamental importância para o seu reconhecimento como trabalho intelectual. O próprio governo não reconhece esse status quando define a AD como “locução” na Portaria 310:
Áudio-descrição: corresponde a uma locução [grifo nosso], em língua portuguesa, sobreposta ao som original do programa, destinada a descrever imagens, sons, textos e demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas com deficiência visual.
A AD vai muito além da descrição de informações percebidas pela visão. Questões técnicas, linguísticas e fílmicas precisam ser observadas para que se possa levar a cabo a tarefa. As respostas a essas questões dependem muito do gênero do filme a ser audiodescrito e muitas delas não podem ser generalizadas. Um audiodescritor competente precisa estar preparado para lidar com problemas, tais como: 1. Que informação priorizar?; 2. A sobreposição entre o áudio do filme25 e da AD é sempre não recomendável? 3. Como deve ser a narração? Semelhante a uma contação de histórias? Monocórdia ou com inflexões de voz? 4. Quais as características do texto da AD? Semelhante a um texto literário? Com descrições detalhadas dos personagens, do enredo e da ação? Ou deve somente privilegiar a ação? Em nossa opinião, a tarefa do audiodescritor é bem mais complexa do que a definição oferecida pelo governo. Sua execução deve ser realizada por profissionais preparados para decidir que estratégia adotar na hora em que estas dificuldades aparecerem.
A pesquisa em AD ainda é muito incipiente. Que seja do nosso conhecimento, com exceção dos trabalhos de Franco (2007) e Jimenez Hurtado (2007), todas as outras publicações sobre AD versam sobre o lado profissional da prática tradutória. São normalmente os tradutores que dividem suas experiências com o público. Alguns desses audiodescritores são: Snyder (2005), Benecke (2004), Hyks (2005) e Matamala (2005).
A pesquisa coordenada por Franco (2007) passou por várias etapas: visita às instituições que atendem pessoas com deficiência visual na Bahia, seleção dos participantes, seleção do filme, AD do filme, elaboração de questionários sobre o filme e análise dos dados. Foram selecionados dois grupos de 10 sujeitos, a maioria com baixa visão e apenas um deles cego congênito. O filme selecionado foi Pênalti, curta com duração de 8 minutos, “filmado em Salvador, no mais puro ‘baianês’[grifo da autora], tema sobre futebol, uma pitada de sexo, e o mais importante, imagens extremamente significativas para a compreensão do enredo” (FRANCO, 2007: 180).
A gravação da AD foi feita em um estúdio na cidade de Salvador (FRANCO, 2007). O questionário foi elaborado para ser respondido pelos dois grupos, aqueles que viram o filme com e sem AD. As perguntas referentes à imagem – “Por que os corpos de alguns personagens estão em azul?” – só foram respondidas pelos que assistiram ao curta com a tradução. Os resultados indicaram que o grupo com AD entendeu melhor o filme, visto que o nível de acertos desse grupo foi de 95% contra 40% do grupo que viu o filme sem AD.
A autora ressalta que seus resultados não são conclusivos, mas que já sinalizam para os benefícios que a AD traz para a acessibilidade audiovisual. Destaca que muitas pesquisas precisam ser feitas antes que cheguemos a uma conclusão definitiva sobre qual modelo de AD seria ideal para os brasileiros com deficiência visual.
Um grupo de pesquisadoras espanholas analisou um corpus de 325 filmes audiodescritos em diversas línguas (inglês, francês, espanhol, inglês e alemão). Cada uma delas examinou aspectos diferentes relacionados à AD. Jimenez Hurtado (2007) investigou as palavras e a estrutura frasal mais frequentes. Payá (2007) comparou os dois roteiros, o do filme e o audiodescrito. Ballester (2007) analisou a caracterização dos personagens na AD.
Jimenez Hurtado (2007) encontrou os seguintes parâmetros nos filmes audiodescritos:

ELEMENTOS VISUAIS NÃO VERBAIS



  1. Personagens

    1. Apresentação

    2. Identificação do ator ou atriz que interpreta o personagem

      1. Atributos físicos

      2. Idade

      3. Etnia

      4. Aspecto

      5. Vestuário

      6. Expressões faciais

      7. Linguagem Corporal




  1. Estados

2.1. Estados emocionais

2.1.1. Positivos

2.1.1.1. Alegria

2.1.1.2. Ânimo

2.1.1.3. Serenidade

2.1.1.4. Ternura

2.1.2. Negativos

2.1.2.1. Tristeza

2.1.2.2. Desânimo

2.1.2.3. Desesperança

2.1.2.4. Ira

2.1.2.5. Medo

2.2. Estados físicos

2.3. Estados mentais




  1. Ambientação

3.1. Localização

3.1.1. Espacial

3.1.2. Temporal

3.2. Descrição

3.3. Ações

ELEMENTOS VISUAIS NÃO VERBAIS




  1. Créditos

  2. Inserções

5.1. Textos

5.2. Títulos

5.3. Legendas

5.4. Intertítulos


Por meio desses parâmetros, a autora, utilizando um software de análise textual chamado Wordsmith Tools, derrubou dois mitos dentro da prática da audiodescrição. O primeiro foi sobre o uso das palavras “olhe” e “veja” (JIMENEZ HURTADO, 2007: 74), consideradas politicamente incorretas em muitas diretrizes de AD. Ao procurar pelas palavras mais frequentes, deparou-se justamente com as duas. Depois das preposições e dos artigos, elas foram as mais utilizadas por audiodescritores de diversos países. O segundo mito derrubado foi o de que não se deve colocar sua interpretação na AD. A estrutura frasal que mais aparece (30% dos casos) é a seguinte:

Sujeito

Predicado

Predicativo

Alguém

sorri

emocionado

O predicativo nesse tipo de construção implica uma interpretação. Carrega uma visão subjetiva (emocionado) da representação oferecida pelo verbo principal (sorri) (JIMENEZ HURTADO, 2007: 77). Devemos saber que, ao fazermos uma narrativa, sempre deixamos nossas impressões e nossa visão de mundo. O audiodescritor só precisa tomar cuidado na escolha de sua adjetivação para não colocar suas inferências no texto, principalmente aquelas cruciais para o entendimento do filme. A garantia da acessibilidade reside em que a leitura do filme seja feita pelo espectador, seja ele vidente, ouvinte, surdo ou com deficiência visual. Não faz parte do trabalho do audiodescritor facilitar essa leitura. Ele precisa traduzir as imagens para propiciar à pessoa com deficiência visual a oportunidade de fazer a própria interpretação.


Payá (2007: 88-89) compara os dois tipos de roteiro: o do filme e o da AD. A autora faz uma análise do filme Pulp Fiction de Quentin Tarantino (1994). Ela demonstra que os dois roteiros são diferentes, porque ambos possuem objetivos distintos mesmo quando focalizam a mesma cena. Um exemplo disso é a abertura do filme, em que são visualizados os rostos de dois personagens, Jules (Samuel Lee Jackson) e Vincent (John Travolta) dentro de um carro. O roteiro do filme descreve o carro (modelo Chevy Nova de cor branca e ano 1974) e sua trajetória (o carro atravessa as ruas de Los Angeles). Aqui, os personagens não são descritos, porque essa informação pode ser recuperada pelas imagens. Já o roteiro audiodescrito dá ênfase justamente à informação fornecida pelo canal visual para que a pessoa com deficiência visual tenha a mesma experiência do vidente:
Dois homens, Jules, de raça negra e Vincent, branco, atravessam o subúrbio de Hollywood a bordo de um Chevrolet 74. Vincent é alto, de rosto afilado e cabelos compridos pretos que caem sobre seus ombros. Usa um brinco na orelha direita. É interpretado por John Travolta.

Ballester (2007: 137) aponta estratégias para caracterizar os personagens de uma AD:


A caracterização dos personagens se centra em seus atributos físicos (idade, etnia e aspecto) e também no seu vestuário, expressões faciais e linguagem corporal. Além disso, são descritos os estados emocionais, mentais e físicos dos personagens.

Segundo a autora, os personagens são descritos à medida que aparecem na tela. Ela frisa também que essa descrição deve ser feita ao longo do filme, já que, muitas vezes, os tempos sem fala que podem ser preenchidos com a AD são pequenos. Outra maneira de caracterizar os personagens são os objetos que o rodeiam. Por exemplo, a autora descrevendo o ambiente onde vive Manuela, personagem principal do filme Tudo sobre minha mãe (1999) de Pedro Almodóvar, diz que fotos e cenas com espelho são muito importantes para que o espectador penetre no mundo da personagem. Afirma também, citando um trabalho de Allison (2003: 65) sobre o cineasta, que “as casas dos personagens dizem muito aos espectadores sobre seus habitantes e, em Almodóvar, os detalhes dos interiores estão marcados socialmente” (BALLESTER, 2007: 138).




  1. O curso de formação de audiodescritores

Todos os cursos ofertados até agora seguem o seguinte esquema: 1. Discussão de uma pesquisa sobre AD; 2. Análise de um filme audiodescrito; 3. Realização de uma AD. A discussão das pesquisas tem como meta analisar as diretrizes utilizadas pelos diferentes países onde a AD já é uma realidade, principalmente aquelas testadas em pesquisas empíricas. Em cada um dos encontros, um desses estudos é amplamente discutido para que possamos encontrar um modelo que se adeque à realidade brasileira.
Analisar uma AD é relevante para que o audiodescritor possa conhecer o modo de audiodescrever de alguns países e, assim, encontrar a melhor maneira de lidar com a tradução de imagens. Utilizamos basicamente filmes em DVD realizados na Europa, porque são aqueles que podem ser encontrados com mais facilidade. Temos trabalhos realizados em Portugal, Espanha, Inglaterra e França. Como nem todos os participantes dominam a língua estrangeira, damos preferência aos filmes em espanhol e português.
Encontram-se em andamento, na Universidade Estadual do Ceará dissertações de mestrado que analisam alguns desses DVDs. As análises são baseadas nas categorias de Jimenez Hurtado (2007) apresentadas anteriormente. Também pretendemos construir um corpus com a nossa produção para que possamos comparar nossa realidade com a dos países europeus.
Além de filmes lançados comercialmente, também examinamos o trabalho realizado por outras turmas. Este procedimento tem sido interessante, pois os alunos entram em contato mais de perto com a produção dos seus colegas e, assim, podem compará-la à deles.
2.1. A produção de uma AD

Em todos os cursos, um filme de curta metragem é audiodescrito pela turma inteira. Nessa atividade, todos têm a oportunidade de argumentar em favor de suas escolhas, porque na AD as descrições podem variar de acordo com a interpretação de cada audiodescritor, conforme já foi comentado. A discussão coloca os audiodescritores novatos em contato com as várias possibilidades de tradução suscitadas por um filme.


O processo de AD segue quatro etapas: elaboração do script com o auxílio do software Subtitle Workshop (SW) e de um consultor com deficiência visual; produção do roteiro com todas as rubricas necessárias para a gravação em estúdio e mixagem da AD e do som original do filme. Apesar de ser um programa de legendagem, o SW foi utilizado porque permite a marcação do tempo de entrada e saída da AD, a duração dessas inserções e a visualização do filme. A diferença entre a legendagem e a AD reside no fato de que a primeira ocorre simultaneamente às falas, enquanto a segunda é colocada, preferencialmente, no intervalo delas.
Com o software, o audiodescritor pode testar se, em sua descrição, não há sobreposição entre a AD e os diálogos do filme. Essa é uma diretriz fundamental, visto que a sobreposição pode prejudicar a recepção das pessoas com deficiência visual. De acordo com algumas diretrizes europeias, ela só deve acontecer em casos extremos: quando o que está sendo dito não é importante para o entendimento do filme ou quando a descrição é fundamental para esse entendimento. O excesso de sobreposições pode impedir que a pessoa com deficiência visual assista ao filme confortavelmente.
Depois de elaborada a lista de diálogos, começamos a preparação do roteiro que contém os seguintes elementos: tempos iniciais e finais (Time code reader – TCR – onde serão inseridas a AD), as descrições, as deixas (a última fala antes de entrar a AD) e as rubricas (as instruções para a locução). Todos esses elementos são importantes para auxiliar a gravação da voz. Esses elementos podem ser conferidos no trecho do roteiro do curta Águas de Romanza abaixo:

TIME-CODE

AUDIODESCRIÇÃO

00:04:22:03 --> 00:04:25:20



– Mas Vó, como é que é feita a chuva? → DEIXA

A avó enxuga as lágrimas no vestido.




00:04:34:23 --> 00:04:36:20



– Você não lembra? → DEIXA

Romanza balança a cabeça negativamente.



00:05:35:22 --> 00:05:37:11



–... só esperando o sol, pra fazer eles brilhar. → DEIXA

Os olhos verdes de Romanza sorriem.

[Rápido]

[Falar assim que aparece o rosto de Romanza] → RUBRICA


00:06:11:22 --> 00:06:13:21



– Você vai ver só. → Deixa

A avó olha para São José.

Lá fora...


Quadro 1: Roteiro da AD de Águas de Romanza

Findo o roteiro, passamos para a fase de gravação. Em primeiro lugar, é feito um teste de voz entre os alunos para escolher aquele ou aquela que fará a narração. O curso visa a preparar os alunos para atuarem em todas as fases de uma AD. Embora saibamos que nem todos têm aptidão para a locução, é importante conhecer que aspectos estão envolvidos nesse tipo de narração.

Em seguida, passamos para a gravação. Antes a fazíamos no Windows Movie Maker. Atualmente, utilizamos equipamento profissional: (microfone Beringher B1, mesa de som, fone e software de edição de áudio e vídeo). Nessas aulas, um técnico mostra como se faz a gravação e a equalização entre a trilha sonora do filme e da AD. Tomar conhecimento dessas questões técnicas é essencial para que o audiodescritor possa orientar os produtores culturais e profissionais da área a trabalharem com acessibilidade. Um bom exemplo disso é a produção de um DVD. Para atender às necessidades do público alvo, é necessária a inclusão do menu audiodescrito e do título escrito em braille na capa para que a pessoa com deficiência visual possa navegar no DVD e escolher a que filme assistir.
Como se pode perceber, o curso é basicamente sobre AD para as telas. Embora o grupo da UECE (LEAD – Legendagem e Audiodescrição) já tenha feito várias peças em alguns teatros da cidade, ainda não demos um curso de audiodescrição para teatro. Esperamos fazê-lo em breve.
A última parte do curso está voltada para a inserção dos futuros audiodescritores no mercado de trabalho. Com essa finalidade, foi criado o projeto “DVD Acessível”.
2.2. O projeto DVD Acessível

O projeto DVD Acessível, que tem patrocínio do BNB, visa também proporcionar a pessoas com deficiência auditiva ou visual a oportunidade de assistirem à produção cinematográfica de realizadores cearenses. Seis filmes (dois longas e quatro curtas) estão sendo traduzidos por legendagem e janela de LIBRAS para surdos e audiodescrição para pessoas com deficiência visual. Os de curta metragem são: Águas de Romanza (2002) de Patrícia Baía e Gláucia Soares; Reisado Miudim (2008), de Petrus Cariry; Capistrano no Quilo (2007), de Firmino Holanda e Adorável Rosa (2008), de Aurora Miranda Leão. Os de longa metragem são: O Grão, de Petrus Cariry (2007) e Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry (1996). Além disso, pretendemos discutir, com os produtores de DVD do país, a melhor maneira de seus filmes se tornarem acessíveis. Os filmes de curta-metragem estão sendo legendados e audiodescritos pelos participantes do curso.


Como parte desse projeto, foram legendados e audiodescritos alguns filmes participantes do CINE CEARÁ, festival de cinema que se realiza anualmente na capital cearense. Pela primeira vez, em 19 anos, aconteceu uma mostra de filmes audiodescritos e legendados. Novamente, os alunos dos cursos realizados em Fortaleza foram chamados para participar da tradução dos filmes. Os filmes traduzidos foram: O Homem que Engarrafava Nuvens (2008), longa de Lírio Ferreira; A Montanha Mágica (2009), curta de Petrus Cariri; Se Nada Mais Der Certo (2008), longa de José Eduardo Belmonte; Capistrano no Quilo (2007), curta de Firmino Holanda e O Pequeno Burguês, Filosofia de Vida (2008) de Edu Mansur.
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo discutir como a UECE e a UFMG estão trabalhando a formação de audiodescritores no Brasil. Além do aqui exposto, estão sendo realizadas várias pesquisas que visam encontrar parâmetros de audiodescrição que atendam às necessidades dos brasileiros com deficiência visual. Esses parâmetros terão como base os Estudos da Tradução e da Multimodalidade. Serão testados, em primeiro lugar, com cegos dos estados da Bahia, do Ceará e de Minas Gerais. Depois disso, vamos investigar o que acontece nos outros estados da federação.
Nossa meta é promover a acessibilidade audiovisual e contribuir para a implantação da AD no Brasil, preparando pesquisadores e profissionais competentes que possam fazer a diferença quando a AD for uma realidade no país.


Referências

ALLISON, M. A Spanish labyrinth: the films of Pedro Almodóvar. Londres: Tauris & Co., 2003.


BALLESTER, A. Directores en la sombra: personajes y su caracterización en el guión audiodescrito de Todo Sobre Mi Madre (1979). In JIMENEZ HURTADO, C. (ed.) Traducción y acessibilidad. Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de traducción audiovisual. Frankfurt: Peter Lang, 2007, p. 133-152.
BENECKE, B. Audio-description. In: GAMBIER, Y. (ed.) Meta. Volume 49, nº. 1, abril de 2004, p. 78-80.
PORTARIA 310. Radiodifusão de sons e imagens e de retransmissão de televisão - Para pessoas com deficiência. Ministério das Comunicações. 27-06- 2006. www.mc.gov.br/.../portarias/portaria-no-310-de-18-de-dezembro-de-1998.

 

PORTARIA 403. Suspensão da aplicação do subitem 7.1 da Norma Complementar nº 01/2006, aprovada pela Portaria nº  310. 30-06-2008. www.mc.gov.br/wp-content/uploads/...ministerio/.../portarias/portaria-403.pdf


PORTARIA 466. Concessão do prazo de noventa dias, para que as exploradoras de serviço de radiodifusão de sons e imagens e de serviço de retransmissão de televisão (RTV) passem a veicular, recurso de acessibilidade. 30-07-2008. <http://www.mc.gov.br/wp-content/uploads/o- ministerio/legislacao/portarias/portaria-466.pdf>
PORTARIA 661. Consulta pública sobre a acessibilidade audiovisual de pessoas com deficiência visual. 14-10-2008. <http://www.mc.gov.br/wp-content/uploads/o-ministerio/documentacao-sobre-acessibilidade-consulta-publica/03.doc>.
FRANCO, E. P. C. Em busca de um modelo de acessibilidade audiovisual para cegos no Brasil: Um projeto piloto. In: ARAÚJO, V.L.S. & FRANCO, E. P. C. (org.) Tradterm. São Paulo: Humanitas, 2007, p. 171-185.
HYKS, V. Audiodescription and translation: two related but different skills. Translating Today, v.4, julho de 2005, p. 06- 08.
JIMENEZ HURTADO, C. Una gramática local del guión audiodescrito. Desde la semántica a la pragmática de un nuevo tipo de tradução. In: JIMENEZ HURTADO, C. (ed.) Traducción y acessibilidad. Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de traducción audiovisual. Frankfurt: Peter Lang, 2007.
JAKOBSON, R. Aspectos linguísticos da tradução. Trad. Izidoro Blikstein. In: JAKOBSON, R. Linguística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1995, p.63-86.
MATAMALA, A. Live audiodescription in Catalonia. Translating Today, v.4, julho de 2005, p. 09 -11.
PAYÁ, M. P. La audiodescripción: traduciendo El lenguaje de las cámaras. In JIMENEZ HURTADO, C. (ed.) Traducción y acessibilidad. Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de traducción audiovisual. Frankfurt: Peter Lang, 2007, p. 81-92.
SNYDER, J. Audiodescription. In: Translating Today, v.4, julho de 2005, p.15-17.


Blind Tube: conceito, audiodescrição e perspectivas

Lara Pozzobon*



A concepção do projeto

O Blind Tube foi concebido em uma reunião em que pensávamos em alternativas para a expansão dos nossos projetos relacionados com o Festival Assim Vivemos, Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência, em conexão com as iniciativas da Educs26 na internet. Na ocasião, Graciela Pozzobon, Pedro Marinho, da Educs, e eu chegamos à ideia de um site específico para a exibição de filmes com acessibilidade. Iniciamos uma pesquisa na internet, cujo resultado foi a constatação de que o nosso site seria o primeiro desse tipo. Posteriormente, pesquisas mais aprofundadas em sites em língua inglesa, espanhola, francesa e italiana, assim como consultas a pessoas ligadas à acessibilidade no Brasil, Espanha, Alemanha, Austrália e Inglaterra, deram conta de que estávamos realmente criando um projeto inédito no mundo.

Longe de provocar nossa vaidade, a constatação do ineditismo nos trouxe ainda mais o sentido de responsabilidade pela criação de um bom exemplo. Exemplo da possibilidade relativamente simples de proporcionar a pessoas com deficiências sensoriais o acesso a filmes variados. A partir de então, a equipe da Educs estudou as normas e as formas de acessibilidade na internet, orientada por Marco Antônio de Queiroz um consultor que criou e atualmente coordena dois sites totalmente acessíveis e de grande visitação. Construímos o Blind Tube quase ao mesmo tempo em que entrávamos em contato com as noções básicas da acessibilidade, sempre aprendendo à medida que trabalhávamos na sua construção. Constantemente, a nossa falta de experiência tirou o site dos parâmetros ideais da acessibilidade, e todas as vezes que recebíamos alertas de usuários, a equipe técnica se apressava para entender e resolver as distorções.

Desde o início, tínhamos como pressuposto que o site deveria seguir as normas que levavam ao desenho universal, isto é, ele deveria ser acessível ao maior universo possível de pessoas, tanto para aquelas com deficiência visual, baixa visão ou outros tipos de visão subnormal, quanto para pessoas surdas e com deficiência auditiva. Mas não apenas para estes. Também tínhamos a tarefa de deixar o site navegável por pessoas com mobilidade reduzida.

Assim, seguimos as normas de acessibilidade para que todos os usuários pudessem navegar no ambiente do site, e, nos filmes, colocamos dois recursos de acessibilidade: a audiodescrição (AD) e as legendas Closed Caption (CC). Sabemos que o recurso da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) também é necessário para uma boa parte dos surdos que não tem conhecimento ou fluência na Língua Portuguesa, mas para colocá-lo precisaríamos investir uma verba que estava além das nossas possibilidades. Esse será o próximo passo do projeto: acrescentar uma janela de LIBRAS simultânea à exibição dos filmes. A propósito, o programa Assim Vivemos, da TV Brasil, também produzido por nós, conta com os três sistemas, disponíveis simultaneamente: AD, CC e LIBRAS. Já no Blind Tube, a colocação de LIBRAS nos filmes, assim como a expansão da capacidade virtualmente infinita do site, estão condicionadas à obtenção de parcerias e patrocínio.

O conceito

Do ponto de vista da seleção dos filmes, nossa ideia é exibir um conjunto variado, com estéticas, temas e abordagens diferentes, dando uma amostra do que se produz no Brasil em curta-metragem. A opção por filmes curtos foi pautada por quatro motivos: porque temos um grande apreço por esse formato, já que iniciamos nossa vida profissional produzindo curtas; porque temos facilidade de acesso aos detentores dos direitos autorais dos filmes; porque os curtas geralmente não têm um distribuidor comercial que possa impedir ou discordar desse tipo de distribuição gratuita e, por fim, porque a banda virtual necessária para a exibição de um filme curto na internet é menor que a banda exigida por um longa-metragem.

Ainda sobre a seleção dos filmes, é importante lembrar que nossa intenção ao criar o Blind Tube é proporcionar diversão e lazer cultural com acessibilidade, ou seja, a ideia é mostrar filmes que não tratem do tema da deficiência, e sim de temas gerais. Essa opção parece ter confundido um pouco as pessoas em um primeiro momento. Justamente porque entendemos que a acessibilidade deva estar em espetáculos de todos os tipos, temas e estéticas, no teatro, na dança, no cinema comercial, etc, é que criamos o Blind Tube. Por outro lado, já acumulamos a experiência de dirigir o Festival Assim Vivemos desde 2003 e neste, sim, o conceito primordial é justamente exibir filmes de qualidade sobre o tema da deficiência, sempre com acessibilidade.

Com exceção de alguns trailers de filmes americanos, tudo o que encontramos na internet com algum tipo de acessibilidade gira em torno do tema da deficiência. Era disso que precisávamos nos distanciar, para mostrar com maior clareza, para a sociedade, instituições e produtores, que é urgente a ampliação do leque de opções culturais com acessibilidade. Tirar essa questão de seu círculo fechado e separar o tema da deficiência da necessidade de acessibilidade: esta é a tarefa a que nos propomos no projeto. Uma observação talvez se faça necessária neste momento: a presença do filme Cão Guia no Blind Tube pode parecer contraditória, já que o filme trata de uma personagem cega. O filme está lá por vários motivos: porque é uma ficção e porque foi concebido e produzido como um filme sobre o amor, o poder e as dificuldades de relacionamento comuns a todas as pessoas, em primeiro lugar. Em segundo, porque foi esse filme que nos levou, Graciela Pozzobon, Gustavo Acioli27 e eu, a entrar em contato com pessoas e instituições ligadas às pessoas com deficiência. E por ele é que fomos levados a conhecer o festival sobre deficiência de Munique, pioneiro no mundo, que inspirou diretamente o Festival Assim Vivemos. Por tudo isso, o filme é simbólico na nossa trajetória e, portanto, não poderia ficar de fora.



A audiodescrição

A AD feita para os filmes presentes no Blind Tube seguiu critérios e normas estabelecidos pela equipe coordenada por Graciela Pozzobon, em sua experiência acumulada ao longo da produção dos roteiros e da execução da AD nas quatro edições do Festival Assim Vivemos e em outros projetos especificamente com filmes brasileiros. Esses critérios e normas, inicialmente intuídos e construídos a partir do diálogo intenso com as pessoas cegas que compareceram às primeiras edições do festival, revelaram-se, mais recentemente, estar inteiramente em consonância com as normas internacionais. Essa coincidência ficou clara quando começaram a surgir publicações, sites e eventos internacionais sobre a AD.

Em 2003, quando começamos, não havia bibliografia disponível nem exemplos divulgados no Brasil ou no exterior, a partir dos quais pudéssemos nos guiar. Mesmo no festival de Munique (Wie wir leben), do qual participei em 2001 e 2003, a transmissão feita para os fones não era propriamente o que entendemos hoje por audiodescrição. Era apenas um Voice Over feito ao vivo, por dois atores, em inglês ou em alemão, conforme a nacionalidade do filme. Era útil tanto para os cegos quanto para os videntes estrangeiros, convidados do festival, como nós. Da mesma forma, no festival francês Rétour d’Image, também sobre deficiência, realizado em Paris em 2003, do qual participei como convidada, apresentando nosso filme Cão Guia, a AD não estava disponível em todas as sessões, embora houvesse outras acessibilidades sofisticadas, como as legendas CC usadas nos filmes, feitas com um posicionamento especial para cada personagem.

Uma norma fundamental da AD, embora subliminar, é a relativização da maior parte de suas normas. Por exemplo: quando dizemos que a descrição das cenas nunca pode se sobrepor aos diálogos e aos ruídos importantes do filme, estamos enunciando uma norma válida e correta. Porém, há casos em filmes em que uma cena longa ou mesmo uma sequência inteira é completamente ocupada por diálogos e ruídos importantes. Nessas situações, provavelmente será necessário informar na AD o contexto ou algum detalhe da imagem, e, portanto, é preciso avaliar qual é o diálogo ou ruído menos crucial na cena, e cobri-lo com uma rápida e sucinta descrição. Claro que isso acontecerá apenas quando considerarmos que tal descrição é absolutamente imprescindível. E, felizmente, essa situação não é muito comum. Tendo consciência disso, entende-se que a criação do roteiro de AD exige antes de tudo uma constante negociação de prioridades.

Ao lado de todas as características básicas de clareza e síntese do texto, compreensão do conteúdo do filme e consciência de sua forma narrativa, é fundamental observar que no texto da AD não se pode interpretar nem julgar nada, apenas descrever objetivamente aquilo que está na imagem. Todos sabemos que a objetividade, mesmo na imprensa, é sempre relativa, por mais que se busque, um pouco mais ou um pouco menos conscientemente, alcançá-la. Na AD, a objetividade de cada audiodescritor certamente irá variar, e também será fortemente variável a avaliação daquilo que é necessário descrever. As infinitas possibilidades de “como” e com que palavras descrever a imagem completam a complexa condição que levará sempre à pluralidade de estilos e formas de AD, por mais que um mesmo conjunto de regras seja respeitado por todos os audiodescritores.

Não há uma tradução de um poema igual à outra, aproximadamente pelos mesmos motivos. São muitas as ênfases possíveis e inúmeras as negociações, que, por sua vez, são de várias naturezas. É fascinante ler várias traduções diferentes de poemas clássicos. Em cada uma, haverá o esforço de transpor, da melhor maneira possível, o entendimento que aquele tradutor tem da obra original. Esse entendimento já é o primeiro filtro, que irá diferenciar cada um dos tradutores. Diversos outros filtros serão inevitavelmente acionados ao longo da tarefa.

Diz o precioso ditado italiano: ”Traduttore, traditore” (Tradutor, traidor.). Está próximo dessa condição o audiodescritor: em sua tarefa, também é necessário transpor, traduzir as imagens em palavras, mas a equivalência total é literalmente impossível. Mais que isso, a consciência da delicadeza e da complexidade da tarefa é fundamental para alcançar uma postura despretensiosa em relação à sua própria missão. Como tradução intersemiótica, isto é, tradução entre elementos de natureza diferente, imagem e linguagem verbal, a AD se insere nesse universo mapeado e bastante estudado da tradução propriamente dita.

No entanto, não se pense que tamanha complexidade e pluralidade de possibilidades resultam em uma ausência de normas ou na impossibilidade de determiná-las. Pelo contrário, é fácil detectar o que se pode chamar de erro ou o que se pode considerar uma inadequação na AD. Entretanto, a avaliação de um trabalho de AD deve levar em conta a obra que está sendo audiodescrita. Muitos supostos erros, apontados apressadamente, serão nada mais que a obediência ao estilo, ao conceito ou à dicção do filme. Por exemplo, se o filme não deixa claro na imagem um determinado detalhe, a AD não tem o direito de acrescentar essa informação que não está presente. Isso seria uma deturpação do sentido da cena, por incompreensão da obra e do caráter ambíguo e polissêmico que é próprio da arte. A AD não tem, pois, o direito de explicar o que não está claro no filme. O usuário de AD deve entender o filme e ao mesmo tempo ficar com as mesmas dúvidas que os videntes ficaram, considerando a dubiedade e a multiplicidade de sentidos presentes nas obras de arte.

Um detalhe importante a ser observado na produção da AD é o uso que cada filme faz dos silêncios. Há que se respeitar o ritmo do filme, deixando o espectador que usa o recurso da AD compreender a respiração dos silêncios, tanto quanto o espectador vidente. É claro que os silêncios são geralmente ricos em imagens, o que torna irresistível o uso desse tempo para descrições. Mas eventualmente a cena é contemplativa, sem uma saturação de imagens, e isso deve ser entendido e respeitado no roteiro da AD. Nesse caso, o silêncio também será eloquente para o usuário da AD, constituindo um elemento narrativo importante. Também a quantidade de detalhes a serem descritos é sempre algo a ser dosado de acordo com a duração das pausas e também com o bom senso. É inevitável que alguns espectadores queiram mais detalhes e outros prefiram uma descrição mais econômica. Por isso, há que se encontrar um equilíbrio entre todas as exigências e necessidades da obra, assim como um meio-termo em relação à quantidade de informações. Na maior parte das vezes, a qualidade da descrição resolve o problema da quantidade. Por isso, a precisão vocabular e a concisão textual são fundamentais na AD.

Outro elemento importante a ser estudado é a simultaneidade das imagens com sua descrição. Na medida do possível, as informações devem ser veiculadas simultaneamente; porém, mais uma vez é preciso relativizar a regra. Há muitos casos em que a descrição da cena só pode ser feita um pouco antes ou um pouco depois do desenrolar da cena, justamente porque nela há um diálogo. Se essa falta de simultaneidade não compromete a compreensão do filme, nem antecipa alguma surpresa importante da cena (caso em que a antecipação seria inaceitável) é melhor colocar a AD fora da hora exata do que não utilizá-la. No entanto, é evidente que se há forma de encaixar a descrição exatamente junto com sua imagem, não há razão para não o fazer.

É conveniente que o audiodescritor conheça a linguagem cinematográfica, para saber avaliar quando um procedimento formal do filme será importante para a compreensão da narrativa. Pode – ou não – ser determinante para o entendimento de uma cena o fato de que a câmera está em determinada posição. Isso deve ser ressaltado, se realmente for importante para a narrativa.

Uma regra da AD que raramente precisará ser relativizada é a de não apresentar o personagem antes que o filme o faça. Assim, se aparece no início do filme uma mulher que não temos como identificar, nem sabemos seu parentesco com os outros personagens, não podemos definir algo que só mais adiante se revelará. Apenas no momento em que o filme revelar sua identidade, seu nome ou sua relação com os outros personagens é que a AD terá o direito de fazê-lo. Antes disso, será preciso descrevê-la usando alguma de suas características ou apenas como “uma mulher”. Caberá ao audiodescritor encontrar a designação mais adequada: menina, moça, jovem, mulher, senhora, etc. Relativizações dessa regra talvez possam ser admitidas em séries de TV, seriados ou telenovelas, nos quais os personagens se repetem e são previamente conhecidos pelos espectadores.

Outro aspecto do trabalho que exige grande sutileza do audiodescritor, dessa vez, especificamente daquele que coloca a voz na AD, é o que se refere à neutralidade da voz e sua relação com o tom a ser utilizado. Cada filme, ou, mais precisamente, cada cena de um filme, tem um ritmo específico, uma atmosfera que contém um complexo de sentidos e emoções. Esse ritmo e essa atmosfera devem ser rigorosamente respeitados e acompanhados pelo tom da AD. Ela deve ser sempre neutra, não se sobrepondo ao filme nem jamais competindo com ele, mas tal neutralidade não pode ser confundida com uma fala robótica, sem intenção ou sem pontuação.

Se a AD tiver a entonação de uma típica gravação de números isolados, em que não há relação de entonação entre eles, não haverá modo de o espectador aderir à emoção do filme. Nesse caso de equívoco crasso, a AD, pretendendo neutralidade, acabará por chamar mais a atenção por sua artificialidade. Por outro lado, é importante lembrar que não é a AD que produz a emoção do filme, mas sim o próprio filme, com suas características originais, sua trama, diálogos, música e ruídos.

O ponto de equilíbrio da cadência e do tom da voz da AD sem dúvida é delicado, e sua busca deve ser pautada pela exigência de neutralidade, porém, necessariamente imbuída da atmosfera da cena. Dessa forma, a AD pode ser neutra e, ao mesmo tempo, conter alegria, ironia, ou ainda tristeza, ou mesmo medo, mas sempre com tamanha sutileza que ela se integre ao filme sem ser percebida.

Talvez essa seja uma forma de enunciar a meta maior da AD: mesmo sendo imprescindível, ter uma forma tão natural e integrada à obra, que se torne quase imperceptível. Não falo da invisibilidade do audiodescritor, de sua tarefa, ou dessa tecnologia assistiva, falo comparativamente da perfeição de uma tradução que se parece com um texto original, ou seja, que faz esquecer que houve uma transposição entre línguas e um violento jogo de negociação de prioridades. Falo de um filme assistido com o recurso da AD, que parece ter sido realmente visto pelo espectador cego, quando sua experiência foi a de recriar em seu imaginário todas as imagens descritas. A AD deve ser imperceptível em sua concretude, para que aquilo que ela cria, a imagem verbalizada para ser imaginada, isto sim, seja percebido como o complemento perfeito do filme.




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