Fernando Guimarães afirmou que “o simbolismo é a primeira poética da modernidade” (Simbolismo, Modernismo e Vanguardas) e a ad



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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA PORTUGUESA
EXAME DE SELEÇÃO 2014/2015
Leia atentamente as questões abaixo e responda somente a uma delas.


QUESTÃO 1
Em 1654, na cidade de São Luís do Maranhão, o padre António Vieira proferiu o Sermão de Santo António aos Peixes, no qual estabelece uma relação alegórica entre si, pregador no Brasil, e o famoso santo português.

Com base no trecho do sermão e na conceituação de “alegoria” proposta por J. A. Hansen, comente o enunciado acima.


[...] quem haverá que não louve, e admire muito a virtude tão celebrada da Rémora? No dia de um Santo Menor, os peixes menores devem preferir aos outros. Quem haverá, digo, que não admire a virtude daquele peixezinho tão pequeno no corpo, e tão grande na força e no poder, que não sendo maior de um palmo, se se pega ao leme de ũa Nau da Índia, apesar das velas e dos ventos, e de seu próprio peso, e grandeza, a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante? Oh se houvera ũa Rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo! Se algũa Rémora houve na terra, foi a língua de Santo António, na qual, como na Rémora, se verifica o verso de São Gregório Nazianzeno: Lingua quidem parva est, sed viribus omnia vincit.[1] O Apóstolo Sant’Iago, naquela sua eloquentíssima Epístola compara a língua ao leme da nau, e ao freio do cavalo. Ũa e outra comparação juntas declaram maravilhosamente a virtude da Rémora, a qual, pegada ao leme da Nau, é freio da Nau e leme do leme. E tal foi a virtude, e força da língua de Santo António. O leme da natureza humana é o alvedrio, o piloto é a razão: mas quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos precipitados do alvedrio? Neste leme, porém, tão desobediente e rebelde, mostrou a língua de António quanta força tinha, como Rémora, para domar a fúria das paixões humanas. Quantos, correndo fortuna na Nau Soberba, com as velas inchadas do vento, e da mesma soberba (que também é vento), se iam desfazer nos baixos, que já rebentavam por proa, se a língua de António, como Rémora, não tivesse mão no leme, até que as velas se amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade de fora e a de dentro? Quantos, embarcados na Nau Vingança, com a artelharia abocada e os bota-fogos acesos, corriam infunados a dar-se batalha, onde se queimariam ou deitariam a pique se a Rémora da língua de António lhe não detivesse a fúria, até que, composta a ira, e ódio, com bandeiras de paz se salvassem amigavelmente? Quantos, navegando na Nau Cobiça, sobrecarregada até as gáveas, e aberta com o peso por todas as costuras, incapaz de fugir, nem se defender, dariam nas mãos dos Cossários com perda do que levavam e do que iam buscar, se a língua de António os não fizesse parar, como Rémora, até que, aliviados da carga injusta, escapassem do perigo e tomassem porto? Quantos, na Nau Sensualidade, que sempre navega com cerração, sem Sol de dia, nem Estrela de noite, enganados do canto das Sereias e deixando-se levar da corrente, se iriam perder cegamente, ou em Sila, ou em Caribdes, onde não aparecesse Navio nem navegante, se a Rémora da língua de António os não contivesse, até que esclarecesse a luz, e se pusessem em via. Esta é a língua, peixes, do vosso grande Pregador, que também foi Rémora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira) se vêem, e choram na terra tantos naufrágios.

[1] “A língua é pequena, mas em força supera todas as coisas”.

(Vieira, António, “Sermão de Santo Antônio”, in Sermões, II. Lisboa, Centro de Estudos de Filosofia; Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010, pp.430-33.)

 

 



A alegoria é instrumento para pôr a alma humana em estado de receptividade poética da unidade invisível. Sua ação termina, portanto, quando a alma entra em contato extático com Aquilo que deseja que esteja além do movimento e da própria forma alegórica. O que pode significar, ainda, que a vida humana tem a estrutura metafórica de um sonho: qualquer coisa que exista no mundo inferior se encontrará também no superior, mas em forma mais elevada: e qualquer coisa do mundo superior, por sua vez, poderá ser encontrada no inferior, mas em forma adulterada. O fogo, por exemplo, que arde materialmente no mundo inferior, é metáfora do fogo seráfico do Intelecto.

Fazendo passagens do semelhante ao semelhante, o saber interpretativo do mago-erudito pesquisa as influências recíprocas dos níveis ou graus do mundo. É também uma forma do análogo, relacionando as marcas visíveis, decifradas na natureza e nos textos, tornando-as (i)legíveis na formulação hieroglífica e enigmática. Nesta, as afinidades secretas das coisas, lidas como linguagens, e das linguagens, vistas como coisas, rebatem-se indefinidamente. Todo o mundo é um hieróglifo, cumprindo investigá-lo nos múltiplos ecos de suas formas. A operação interpretativa é, assim, muito rica e muito pobre: quantificam-se aos extremos os semelhantes, pois sempre é possível encontrar outra e outra simpatia ou correspondência, mas a qualidade da operação é a mesma em todos os casos, ou seja, redução ou reconversão dos semelhantes visíveis à Identidade invisível e indizível.



 

(Hansen, João Adolfo, Alegoria: construção e interpretação da metáfora. Campinas; São Paulo, Unicamp; Hedra, 2006, p.176-177).



 
QUESTÃO 2
À luz das passagens abaixo, proponha uma reflexão sobre um ou ambos os contos de Eça de Queirós: “Um poeta lírico” e “José Matias”.

Neste período (1789-1848), sem dúvida, os artistas eram diretamente inspirados e envolvidos pelos assuntos públicos. Mozart escreveu uma ópera propagandística para a altamente política maçonaria (A flauta mágica, em 1790), Beethoven dedicou a Eroica a Napoleão como o herdeiro da Revolução francesa, Goethe foi, pelo menos, um homem de Estado e laborioso funcionário, Dickens escreveu romances para atacar os abusos sociais. Dostoiévski foi condenado à morte em 1849 por atividades revolucionárias. Wagner e Goya foram para o exílio político. Pushkin foi punido por se envolver com dezembristas, e toda Comédia humana de Balzac é um monumento de consciência social. Nunca foi menos verdadeiro definir os artistas criativos como “não comprometidos”.
(HOBSBAWN, Eric. A era das revoluções. 1789-1848. 3ª. Ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981, p. 278.)

Olhemos agora a literatura. A literatura (...) sem idéia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência coletiva da sociedade, nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. É como um trovador gótico, que acordasse dum sono secular numa fábrica de cerveja. (...) Fala do ideal, do êxtase, da febre, de Laura, de rosas, de liras, de primaveras, de virgens pálidas – e em torno dela o mundo industrial, fabril, positivo, prático, experimental, pergunta, meio espantado, meio indignado:

- Que quer esta tonta? Que faz aqui? Emprega-se na vadiagem? Levem-na à polícia.
(QUEIRÓS, Eça de. “A literatura portuguesa em 1871”. As farpas. Sel. e pref. de Gilberto Freyre. Rio de Janeiro, Ed. de Ouro, p. 53.)

Entretanto esse emprego do termo “realismo” tem o grave defeito de esconder o que é provavelmente a característica mais original do gênero romance. Se este fosse realista só por ver a vida pelo lado mais feio não passaria de uma espécie de romantismo às avessas; na verdade, porém, certamente procura retratar todo tipo de experiência humana e não só as que se prestam a determinada perspectiva literária: seu realismo não está na espécie de vida apresentada, e sim na maneira como a apresenta.
(WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo, Cia. das Letras, p. 13)

Realists do small things, romantics great ones. A man must be a realist to be manager of a tin-tackfactory. He must be a romantic to be manager of the world.

It needs a realist to find reality; it needs a romantic to create it.
[Os realistas fazem as pequenas coisas, os românticos as grandes. Para se ser gerente de uma fábrica de tachas, tem de se ser realista. Para se gerir o mundo, tem de se ser romântico.

Só um realista pode encontrar a realidade; só um romântico a pode criar.] 


[PESSOA, Fernando. “Erostratus”. In: Páginas de Estética e de Teoria Literárias. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966, p. 218.]

QUESTÃO 3
Fernando Guimarães afirmou que “o simbolismo é a primeira poética da modernidade” (Simbolismo, Modernismo e Vanguardas) e a admiração, quase reverência, com que Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro se referiram a Camilo Pessanha pode reiterar a importância daquela poética para as vanguardas e para a revolução modernista que a Geração de Orpheu realizou em Portugal. Disso, tome-se como exemplo a carta que Fernando Pessoa escreveu a Camilo Pessanha, solicitando a este que o autorizasse a publicar alguns de seus poemas no número 3 de Orpheu (que, entretanto, nunca chegou a sair, como é sabido), da qual se extrai o seguinte excerto:
... e deu-me o prazer, de me recitar alguns poemas seus. Guardo dessa hora espiritualizada uma religiosa recordação [...] sei-os de cor, aqueles (poemas) cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte contínua de exaltação estética. [...]

[...] A nossa revista (Orpheu) acolhe tudo quanto representa a arte avançada1.


Tome-se como outro exemplo a resposta de Mário de Sá-Carneiro a um inquérito para o periódico República, no qual diz que Pessanha era o “grande ritmista”, aquele cujos poemas, “rodopiantes de Novo, astrais de Subtileza”, “engastam mágicas pedrarias que transmudam cores e músicas, estilizando-as em ritmos de sortilégio – cadências misteriosas, leoninas de miragem, oscilantes de vago, incertas de Íris”2.

Considerando essas três perspectivas, analise o seguinte poema de Camilo Pessanha:


Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,

- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,

Represados clarões, cromáticas vesânias,

No limbo onde esperais a luz que vos batize,


As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,

Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,

E escutando o correr da água na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,


Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,

E as asas lacerais na aresta dos telhados,

E no vento expirais em um queixume brando.


Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

QUESTÃO 4

Acomodado, recostado no sofá do escritório, Fernando Pessoa perguntou, traçando a perna, Quem era aquele seu amigo, Não é meu amigo, Ainda bem, só o cheiro que ele deitava, há cinco meses ando eu com este fato e esta camisa, sem mudar a roupa interior, e não cheiro assim, mas, se não é amigo, quem é ele então, e o tal doutor-adjunto que tanto parece estimá-lo, São ambos da polícia, no outro dia fui chamado a perguntas, Supunha-o homem pacífico, incapaz de perturbar as autoridades, Sou, de facto, um homem pacífico, Alguma você terá feito para que o chamassem, Vim do Brasil, não fiz mais nada, Querem ver que a sua Lídia estava virgem e foi, triste e desonrada, queixar-se, Ainda que a Lídia fosse virgem e eu a desflorasse, não seria à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado que iria levar queixa, Foi essa que o chamou a si, Foi, E eu a imaginar que tinha sido caso para a policia dos costumes, Os meus costumes são bons, pelo menos não ficam desfavorecidos em comparação com a maldade das costumes gerais (...) Você sabe que eu, um dia, fiz aí uns versos contra o Salazar, E ele, deu pela sátira, suponho que seria sátira, Que eu saiba, não, Diga-me, Fernando, quem é, que é este Salazar que nos calhou em sorte, É o ditador português, o protector, o pai, o professor, o poder manso, um quarto de sacristão, um quarto de sibila, um quarto de Sebastião, um quarto de Sidónio, o mais apropriado possível aos nossos hábitos e índole, Alguns pês e quatro esses, Foi coincidência, não pense que andei a procurar palavras que principiassem pela mesma letra, Há pessoas que têm essa mania, exultam com as aliterações, com as repetições aritméticas, cuidam que graças a elas ordenam o caos do mundo, Não devemos censurá-las, são gente ansiosa, como os fanáticos da simetria, O gosto da simetria, meu caro Fernando, corresponde a uma necessidade vital de equilíbrio, é uma defesa contra a queda, Como a maromba utilizada pelos equilibristas, Tal qual, mas, voltando ao Salazar, quem diz muito bem dele é a imprensa estrangeira, Ora, são artigos encomendados pela propaganda, pagos com o dinheiro do contribuinte, lembro-me de ouvir dizer, Mas olhe que a imprensa de cá também se derrete em louvações, pega-se num jornal e fica-se logo a saber que este povo português é o mais próspero e feliz da terra, ou está para muito breve e que as outras nações só terão a ganhar se aprenderem connosco, O vento sopra desse lado, Pelo que lhe estou a ouvir, você não acredita muito nos jornais, Costumava lê-los, Diz essas palavras num tom que parece de resignação, Não, é apenas o que fica de um longo cansaço, você sabe como é, faz-se um grande esforço físico, os músculos fatigam-se, ficam lassos, apetece fechar os olhos e dormir, Tem sono, Ainda sinto o sono que tinha em vida, Estranha coisa é a morte, Mais estranho ainda, olhando-a do lado em que estou, é verificar que não há duas mortes iguais, estar morto não é o mesmo para todos os mortos, há casos em que transportamos para cá todos os fardos da vida.

(SARAMAGO, José, in: O Ano da Morte de Ricardo Reis. São Paulo, Cia. das Letras, 1988, 2ª ed. pp. 281-283)

A fala que Saramago empresta à personagem Fernando Pessoa é, coerentemente ao que o poeta praticou em boa parte de sua obra, eivada de ironia. No excerto acima, identifique e esclareça sua atitude irônica com relação a:
a) a personagem Ricardo Reis, tendo em vista a passagem dele pela polícia e o momento histórico em que isto se dá;

b) o poeta Ricardo Reis, considerando elementos de sua poética, como heterônimo, chamados à cena;



c) a avaliação que a personagem Pessoa faz de Salazar e a imagem do governante tal como é construída pelos jornais da época.

1 “Carta convite a Camilo Pessanha para colaborar em Orpheu”, Obras em prosa, Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1998, pp. 417-418.

2 Resposta ao inquérito sobre “O mais belo livro dos últimos anos”, publicada em República, a 13 de abril de 1914. É reproduzida por Daniel Pires em Homenagem a Camilo Pessanha (p. 124).






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