Fase I – da instalaçÃo da cpi – 1



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Introdução

A Comissão Parlamentar de Inquérito, instalada pelo Projeto de Resolução nº. 425/04, com a finalidade de apurar irregularidades e corrupção na Loterj (na gestão de Waldomiro Diniz) e no Rioprevidência (desde a sua criação), vem apresentar o seu relatório final e submetê-lo aos Senhores Parlamentares que compõe o plenário da ALERJ.

A CPI foi instalada em 15/02/04 e finalizou seus trabalhos em 30/06/04. Ela foi composta pelos seguintes Deputados:
1- Presidente - Alessandro Calazans.

2- Vice-Presidente – Edson Albertassi

3- Relator – Paulo Melo

4- Relator – Luiz Paulo

5- Paulo Ramos

6- Gilberto Palmares

7- André Corrêa

8- Noel de Carvalho

9- Caetano Amado

Suplentes

10- Geraldo Moreira

11- Dica

12- Ricardo Abraão.


Foram ouvidos 60 depoentes, em mais de 100 horas de depoimentos. Os membros desta Comissão, inclusive, tiveram que se deslocar para Goiânia em duas ocasiões. A primeira, para o depoimento do empresário Carlos Augusto Ramos, e para a acareação de Waldomiro Diniz e Carlos Ramos, ambas na Assembléia Legislativa de Goiás. Esta CPI contou também com o apoio da Câmara Federal, que cedeu espaço para que fossem colhidos os depoimentos do jornalista Mino Pedroza e do dito tesoureiro da campanha do PT no Distrito Federal, Paulo Guilherme Waisros, em 24 de maio de 2004.

A coleta de informações, documentos, bem como a colaboração nas investigações contou com o eficiente apoio de profissionais e técnicos da Casa e do Tribunal de Contas do Estado. A Presidência da CPI expediu 353 ofícios.



Preliminares

No dia 13/02/04, a edição nº. 300 da revista Época (Anexo V) publicou reportagem com o título “Dinheiro Sujo”, denunciando as relações promíscuas entre Waldomiro Diniz (Chefe da Assessoria Parlamentar do Gabinete Civil da Presidência da República) e Carlos Augusto Ramos, o “Carlinhos Cachoeira”, empresário do ramo de jogos lotéricos, que mora em Anápolis, Goiás. A matéria reproduziu parte de uma conversa entre os dois, gravada em vídeo por Cachoeira - provavelmente em junho de 2002, no escritório da Torre Rio-Sul, no Rio de Janeiro - e uma entrevista com Waldomiro Diniz.

A explosiva gravação mostrou cenas de corrupção e crime eleitoral, praticadas pelo Waldomiro Diniz, enquanto presidia a Loterj (fevereiro de 2001 a dezembro de 2002). Os ilícitos dizem respeito a dois editais de licitações vencidos, respectivamente, pelo consórcio Combralog, liderado pela empresa Capital e Limpeza, de propriedade de Carlos Cachoeira – para o contrato “Loteria de Prognósticos - jogos on-line” - e pela Hebara, citada na fita como “negócio Hebara” - que tratava, em tese, dos jogos “off-line”.

Num trecho da gravação, Waldomiro oferece a Cachoeira a oportunidade de o empresário redigir um edital da Loterj para atender a empresa Combralog, do próprio empresário:


Waldomiro – O que você quer que tire daí? O que está te atrapalhando? (...)

Cachoeira – Por que não troca o objeto? Só jogos pela internet e jogos pelo telefone.

Waldomiro – Por telefone, com essa característica. Não pode, ele não pode... Redige você! Redige você com o Armando (Armando Dilli, assessor que deixou a Loterj para trabalhar com Cachoeira).

Cachoeira – Eu e o Armando, você aceita?

WaldomiroVeja bem como é que eu aceito. Eu só preciso saber como o Tribunal qual é a forma para eu não jogar isso e jogar para daqui a 60 dias. Porque o pessoal está “Waldomiro, por que você não faz, por que você não faz?” Fica parecendo que eu estou com o negócio na gaveta e não quero fazer.
Mais adiante, Waldomiro pede contribuição para a campanha de duas candidatas ao Governo do Estado do Rio de Janeiro – Rosinha Garotinho, do PSB, e Benedita da Silva, do PT (ambas candidatas na campanha de 2002).
Cachoeira - Política.

Waldomiro - Política, você vai... O pessoal está me enchendo. O pessoal do Garotinho me chamou.

Cachoeira - Eu posso ajudar, mas ajudar pouco.

Waldomiro - Ajuda para o mês que vem.

Cachoeira - Quanto e para quem?

Waldomiro - Você tem de me dizer quanto. Vamos dizer, pra gastar 500 mil, tá bom pra você?

Cachoeira - Trezentos.

Waldomiro - É pouco, não é não? Duzentos para cada.

Cachoeira - Duzentos pra cada? Cento e cinqüenta. Dá?

Waldomiro - Dá.

Cachoeira - Quem vai ganhar a eleição?

Waldomiro - Eu acho que é cedo para dizer. Vai dar Rosinha e mais um.

Cachoeira - Benedita não ganha?

Waldomiro - Vai depender, Carlos. Vou te falar com toda a sinceridade. Ela está no governo, é minha chefe hoje... Vai depender. A segurança. Se não matar mais ninguém famoso aí.
No fim da conversa, Waldomiro pede participação nos negócios de Cachoeira, como paga sobre os negócios acertados entre os dois.
Cachoeira - Tá fechado assim?

Waldomiro - Fechado. Deixa eu te falar outra coisa. Você vai disponibilizar alguma coisa à parte? Quero 1% pra mim.

Cachoeira - Quer um?

Waldomiro - É.

Cachoeira - O que é que eu poderia fazer?

Waldomiro - Quero 1%.

Cachoeira - Um?

Waldomiro - Um, 1%. Topa?

Cachoeira - Do total?

Waldomiro - 1%.

Cachoeira - Tá bom.

Waldomiro - Tá fechado?

Cachoeira - Fechado.

Na entrevista aos repórteres Andrei Meireles e Gustavo Krieger, da Época, Waldomiro Diniz admitiu ter recebido dinheiro do empresário Carlos Ramos para a campanha do candidato Geraldo Magela, do PT de Brasília:


ÉPOCA - Nessa conversa, o senhor pede contribuição de campanha eleitoral ao bicheiro. Para quem iria o dinheiro?

Waldomiro - Ele tomou a iniciativa e disse que queria ajudar. Eu disse para ele que podia. Ele perguntou como ajudar e quanto poderia dar. Eu disse que não era comigo, porque não sou e nunca fui caixa de campanha.

ÉPOCA - A fita mostra o contrário. O senhor propõe valores. Pede R$ 500 mil e ele oferece R$ 300 mil.

Waldomiro - E ele deu o dinheiro? Quem pode comprovar se deu dinheiro ou não é ele. Isso não passou por mim.

ÉPOCA - Quem eram os candidatos?

Waldomiro - O que eu lembro é que ele queria ajudar as candidatas Rosinha Garotinho e Benedita da Silva.

ÉPOCA - Quais são os políticos para quem Carlos Ramos deu ajuda de campanha?

Waldomiro - Ele deu uma ajuda para o senhor Geraldo Magela (candidato do PT ao governo de Brasília).

ÉPOCA - Como o dinheiro foi entregue?

Waldomiro - Ele entregou na minha mão e foi entregue à campanha do Magela.

ÉPOCA - E para Benedita da Silva, como foi entregue?

Waldomiro - Isso não passou por mim.

ÉPOCA - No final da fita, o senhor pede para ele disponibilizar uma quantia à parte. Diz 'eu quero 1% para mim'.

Waldomiro - Essa fita foi montada para me prejudicar.

ÉPOCA - A câmera está fixa. A perícia mostrou que não houve montagem.

Waldomiro - Não falo das imagens. Falo da situação. Por que nos deixaram a sós na sala?

ÉPOCA - Por que o senhor pediu 1%? Está na fita.

Waldomiro - Eu nunca fiz acordo com ele. Nunca assinei contrato.

Com a veiculação da série de denúncias e as repercussões que causaram, não sobrou alternativa ao Presidente Luis Inácio Lula da Silva senão a de exonerar, em 13 de fevereiro de 2004, Waldomiro Diniz, o então braço direito do Ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Na esteira das denúncias, o site da AOL divulga entrevista com o antropólogo Luiz Eduardo Soares - candidato a Vice-Governador da chapa do PT, em 2002 e coordenador de transição entre os governos Anthony Garotinho e Benedita da Silva. Ele denuncia a existência de corrupção na Loterj, durante a transição do Governo Benedita. Mais uma vez, o personagem das ilicitudes é o Sr. Waldomiro Diniz, desta vez, citado pela emblemática figura de um “corruptólogo”.

Esse personagem, segundo o antropólogo, insistiu muito para falar com ele durante a transição. Depois de uma série de pedidos, Luiz Eduardo Soares aceitou marcar um encontro: (Anexo VI)


AOL – O senhor foi sozinho ao encontro?

Soares – Fui com uma colega que atuava como secretária, me ajudava no dia-a-dia. Chegando lá, nos apresentamos, minha colega ficou no lobby do hotel e eu e esse senhor fomos tomar um café no bar. Ele me pareceu uma espécie de “corruptólogo”, um estudioso das possibilidades de corrupção na máquina do Estado do Rio de Janeiro. Descrevia com precisão, fluência e até uma certa sofisticação a rede de mecanismos que poderia ser acionada para drenar recursos públicos de forma discreta, clandestina, sem suscitar suspeitas. Ele parecia conhecer profundamente a organização do Estado, as secretarias, os departamentos.

AOL – Ele fez alguma proposta?

Soares – Basicamente ele disse o seguinte: “Se você me permitir, posso montar um sistema adequado, sem qualquer risco. Seria possível levantar nesses nove meses de governo Benedita algo em torno de 80 a 100 milhões de reais. Você, nesse caso, ficaria com 5 milhões. Benedita, com 10. E eu com 1 milhão. Só preciso de duas ou três secretarias, algumas diretorias e outros cargos subordinados.”

AOL – Quais seriam essas secretarias?

Soares – (...) era muito difícil memorizar tudo. Agora, vejo que talvez devesse ter anotado para me recordar depois. Lembro que ele citou a gerência sobre a massa falida do antigo Banerj, algumas funções na Secretaria da Fazenda, a área que lida com construção civil, de obras. En passant, ele mencionou o nome de Waldomiro. Disse: “Veja, por exemplo, o Waldomiro Diniz. Ele está aqui num esquema, levantando 300 mil reais por mês dos bingos. Ele está sendo incompetente. É possível chegar a 500 mil, quem sabe. Dá para produzir mais”.

AOL – O que fez, então?

Soares – Hesitei entre duas alternativas. Faria um outro encontro, como, aliás, ele insistira, durante o qual gravaria a conversa e tornaria aquele um episódio policial. Ou faria uma comunicação interna ao partido, com cautela. Preferi esta segunda alternativa.

AOL – Por qual razão?

Soares – Estávamos no período pré-eleitoral e anterior ao governo Benedita. No ambiente eleitoral a paranóia chega a níveis superiores àqueles que a razão recomendaria. Então supus que aquilo poderia ser uma armadilha. (...) Isso eventualmente poderia até se converter num instrumento político contra Lula e contra a própria Benedita, na medida em que eu suscitaria dúvidas relativas a procedimentos que envolveriam alguém do partido.

AOL – De que modo a suspeita de corrupção foi tratada dentro do PT?

Soares – Convoquei uma reunião da qual participaram Marcelo Sereno [então representante da Direção Nacional do PT no Rio; depois nomeado secretário do gabinete de Benedita e atual assessor especial do ministro da  Casa Civil, José Dirceu], Manoel Severino dos Santos [então assessor da vice-governadoria; depois nomeado secretário de Articulação Governamental de Benedita e atual presidente da Casa da Moeda, órgão subordinado ao Ministério da Fazenda] e Val Carvalho [então assessor da vice-governadoria]. Os três eram os principais articuladores do processo político que confluiu para a formação do governo Benedita.

AOL – O que o senhor lhes disse exatamente?

Soares – Bom, eu lhes relatei o ocorrido, num encontro que tivemos em minha casa. Primeiro, alertei em relação ao personagem. Ressaltei que era necessário apurar o que ele dissera sobre Waldomiro. Falei que era preciso blindar nosso futuro governo contra essas tentativas de sedução corrupta. Enfim, compartilhei com eles essa preocupação.

AOL – Como eles reagiram?
Soares – Naquele momento, a impressão que tive foi de indiferença. Foi apenas uma impressão, posso estar sendo injusto.
AOL – O senhor não conversou com Benedita sobre Waldomiro Diniz?

Soares – Quando soube que ele permaneceria na presidência da Loterj, concluí que a informação teria se demonstrado falsa. Compreenderia sua manutenção no governo, desde que tivesse ocorrido uma avaliação. Nas vésperas da posse da Benedita, na casa dela, na reunião em que se bateu o martelo sobre a montagem final do governo, esperei que todos saíssem e me dirigi a ela privadamente acerca desse caso específico.

AOL – Como foi o diálogo com Benedita?

Soares – Já havia relatado a Benedita o tal encontro. Agora ela estava confirmando Waldomiro na presidência da Loterj. Eu disse: “Não tenho segurança de que tenha acontecido corrupção, mas já que você o está mantendo, quero saber se houve alguma apuração, alguma checagem”. Benedita ficou extremamente irritada. Falou bastante e chegou até a chorar. Disse: “Luiz Eduardo, eu não agüento mais, cada um me traz um milhão de problemas. Vou ter que agora governar esse Estado do jeito que estou recebendo, não é possível que você também só me traga problemas, vou acabar explodindo, é um problema atrás do outro, todo mundo só reclama, e você, que deveria me ajudar, fica trazendo mais dor de cabeça”.

AOL – Por que Waldomiro teria assumido a Loterj no governo Garotinho depois do rompimento do PT fluminense com Garotinho, sendo ele sabidamente ligado a José Dirceu?

Soares – Eu mesmo me fiz essa pergunta muitas vezes. Só compreendi a razão mais tarde, quando concluí que a eleição ao governo do Estado do Rio, em 2002, era um teatro. Benedita não estava proibida de vencer, é claro, mas estava constrangida a não realizar, logo que assumiu o governo, uma auditoria nas contas do Estado. Esta limitação foi negociada como condição para o apoio de Garotinho a Lula no segundo turno. Ocorre que, sem a auditoria, o colapso do Estado foi posto, pelos eleitores, na conta de Benedita, injustamente.

AOL – O senhor chegou a encontrar-se com José Dirceu?

Soares – Ele foi ao Rio para o encontro de Lula com intelectuais e artistas no restaurante Rio’s [em agosto de 2002]. Sentamos lado a lado, na primeira fila. Nós nos conhecíamos muito superficialmente, então nos cumprimentamos formalmente e ele me dirigiu poucas frases: “Soube que você anda criando dificuldades para nós no Rio de Janeiro”. Eu apenas disse: “As coisas estão muito complicadas.” Ele respondeu: “Nosso papel é descomplicar.” Eu disse: “Às vezes, não é possível.” E a conversa parou aí. Essa frase do José Dirceu não significa necessariamente que ele estivesse me vendo como obstáculo para eventuais esquemas. Pode ter dito aquilo por causa da minha insistência numa auditoria nas contas de Garotinho.

AOL – Com quem mais do PT o senhor falou sobre as suspeitas em relação a esquemas de corrupção?

Soares – Meses depois, com Benedita no governo e a campanha já adiantada, pedi um encontro com Antônio Palocci [na época, coordenador do programa de governo de Lula à Presidência] e Luiz Dulci [então secretário-geral do PT; hoje, secretário geral da Presidência da República]. Eles não foram ao Rio especialmente para falar comigo, mas me concederam tempo. Jantamos no restaurante Alho e Óleo, no Flamengo. Na oportunidade, falamos sobre a preocupação com esquemas, minha marginalização na campanha, essa dificuldade toda da relação política.

AOL – Quem esteve presente ao jantar?

Soares – Antônio Palocci, Luiz Dulci, eu, Miriam Guindani, professora da PUC-RS, minha mulher, André Teixeira, amigo meu e militante histórico do PT, e Luís Antonio Correia, velho amigo de todos e fundador do PT. As suspeitas sobre Waldomiro tinham ficado para trás, o nome dele nem chegou a ser mencionado, mas, na ocasião, surgiu o nome de um outro assessor de José Dirceu que também estaria operando em diversas áreas. Manifestei minha preocupação com os boatos que corriam em relação a procedimentos escusos. Dei um alerta. “Pode ser que estejam acontecendo coisas estranhas.”

AOL – Como eles reagiram?

Soares – Não manifestaram nenhuma reação em particular. Entendi que a mensagem era: “Nós nos preocupamos, vamos ver o que é possível levantar para evitar algum problema futuro. Para reverter caso haja alguma coisa”. Não me lembro exatamente as palavras usadas, mas o que ficou na minha memória foi uma manifestação de solidariedade, de preocupação.
Posteriormente, o “corruptólogo” teve seu nome revelado, no curso do depoimento de Luiz Eduardo Soares na CPI da Alerj. Tratava-se de Sergio Canozzi. Vale ressaltar que Canozzi, além de ter feito propostas escusas ao antropólogo Luiz Eduardo Soares, viria, mais tarde, se encontrar com Waldomiro Diniz, conforme relatado pelo próprio Waldomiro, num escritório na Avenida Marechal Floriano, 38, no Centro do Rio.
O SR. WALDOMIRO DINIZ – (...) Fui conversar com esse senhor no escritório dele. Aí o senhor me pergunta: “É hábito?”. Não. Durante dez anos da minha vida, eu fui assessor parlamentar. O assessor parlamentar, a função dele é dialogar, conversar. Eu converso com as pessoas, obviamente, sem achar que as pessoas estão me chamando ali para propor um... Aí fui conversar com esse Sr. Sérgio Canozzi neste endereço. Inclusive quero passar às mãos do senhor este endereço.

O SR. PAULO MELO – Rio Branco 134?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Acho que não.

O SR. PRESIDENTE (Alessandro Calazans) – Não. Avenida Marechal Floriano nº. 38, e determinada sala que aí a gente vai dar.

O SR. WALDOMIRO DINIZ – E para minha surpresa, Sr. Presidente, Srs. Deputados, esse senhor me chama, chego no escritório dele: Pois não, estou aqui a sua disposição. “Olha, Presidente, quero lhe comunicar que vamos fazer algumas mudanças na diretoria da Loterj”. Eu falei: Olha, eu não o conheço, eu estou cumprindo uma missão. A governadora Benedita me chamou recentemente e me fez um convite para que eu continuasse. “Eu sei que o senhor está fazendo um bom trabalho dentro da empresa.” Frisou o social, disse: “Olha, o senhor faz lá esse trabalho social, está dando muito certo, mas quero dizer ao senhor que eu farei algumas nomeações na empresa e que, nos próximos dias, o senhor será comunicado.” Eu disse: Olha, eu vou aguardar a comunicação e, obviamente, a governadora me chama para. A conversa mais utópica, a conversa mais sem pé nem cabeça, ouvi aquilo, obviamente, não tinha mais nada para tratar com aquele senhor, achei estranho até o fato dessa conversa, me despedi, voltei para o meu escritório, obviamente, como nós não tínhamos ainda o governo instalado, eu não poderia me socorrer: Olha, fulano, quem é isso? Vai ser isso? Aí eu falei: Bom, se realmente for mudada a diretoria, se for demitido ou se for composta uma nova diretoria que não me agrade, me cabe limpar a gaveta e ir embora. Foi isso que aconteceu, Sr. Presidente.
É importante registrar, como linha que ainda pode ser pesquisada pelo Ministério Público, que, conforme matéria publicada no Jornal “O Dia” de 15/04/04, Sergio Canozzi freqüentava um escritório de advocacia na Avenida Rio Branco, que era também freqüentado por Rodrigo Silveirinha - do caso da CPI do Propinoduto. Esse pode ser o elo de uma mesma estrutura de corrupção, já que a possível proposta de corrupção feita por Canozzi a Luiz Eduardo se estruturava em diversos órgãos, inclusive a Secretaria de Estado de Fazenda.

É lícito notar que Waldomiro Diniz e Carlos Cachoeira eram parceiros em atividades ilícitas e se encontraram por diversas vezes – pelo menos duas vezes no Shopping Rio-Sul, pelo menos outras duas na Loterj; no Aeroporto de Brasília, etc. - e que ainda tinham um intermediário, com um canal direto entre ambos: Armando Dilli, falecido em 2002.

Desses encontros, alguns chegaram a ser gravados, como o feito no escritório de Carlos Ramos, na Torre do Rio Sul - que gerou esta CPI – e o do Aeroporto de Brasília, que é, inclusive, motivo de inquérito, na capital federal.

Essa parceria Diniz - Cachoeira tinha o intuito de tramar maneiras de fraudar processos licitatórios, captar recursos em caixa “dois” para campanhas eleitorais e aumentar a área de influência e controle da dupla nos jogos no Estado.



O empresário Carlos Ramos gravou conversas suas com Waldomiro, segundo ele, com a intenção de se defender de Waldomiro Diniz contra possíveis extorsões:
O SR. CARLOS AUGUSTO ALMEIDA RAMOS - (...) Essa eu gravei mais para me resguardar, porque ninguém dá um tiro no pé, não é? Eu gravei porque estava sendo achacado, eu ia ser achacado e gravei para me defender posteriormente.
Diniz, por sua vez, declarou em seu depoimento que a gravação seria usada para chantageá-lo:
O SR. WALDOMIRO DINIZ – Sr. Deputado, agradeço sua pergunta porque é a oportunidade de começarmos a lançar luz sobre este episódio. Obviamente que esta fita foi gravada com o intuito de me causar algum constrangimento. Guardada durante todo esse tempo, ela só poderia servir para aquele momento adequado, quando eu me recusasse a cumprir ou a não atender alguns de seus apelos, ela pudesse ser usada. O que estou dizendo ao senhor e quero dizer ao Brasil é que eu fui, estou sendo chantageado por esse senhor com essa fita.

No início de janeiro de 2003, já como membro do Governo Federal, recebo em meu gabinete uma ligação de um senhor chamado Mino Pedrosa, jornalista, dono de uma empresa de consultoria que já afirmou que presta consultorias ao Sr. Carlos Cachoeira, contando a seguinte história: “Olha, Waldomiro, queria me certificar com você sobre o que você tem a dizer sobre uma fita em que você está pedindo dinheiro para a campanha para um bicheiro de Goiás”. Eu disse: “Olha, eu desconheço esse assunto”. E ele: “Não, é o bicheiro Carlinhos Cachoeira de Goiás e te gravou”. “Está bem. Então, vamos apurar.” Falei para ele: “estou à sua disposição. Vamos apurar.” Pego o telefone, obviamente, é minha obrigação. Ligo para o Sr. Carlos Cachoeira e digo para ele: quero saber de você o que é isso. Vamos tirar satisfação sobre o que é isso. Encontro com ele em Brasília: “Não... É que você não retorna minhas ligações. Eu quero falar com você. Eu tenho coisas para tratar com você e você não retorna as minhas ligações.” E esse jornalista? “Esse jornalista trabalha para mim, faz o que eu quiser.”

Então, o que eu quero afirmar, perante essa CPI, é que durante esse tempo... Quando eu digo aos senhores que eu compareço aqui envergonhado é porque, há muito tempo, como homem público, deveria ter dado um basta nessa história. Isso não é comportamento de um homem de bem. Ou seja, me chamou para me propor negócios escusos, o qual não aceitei. Em junho de 2003, a revista Época, novamente, pela primeira vez, assaca uma matéria contra minha pessoa... Desculpe! Quero corrigir: revista Isto É... Me colocando como cúmplice dos irmãos Ortiz e defensor de bingos. Por quê? Simplesmente porque o Sr. Carlos Cachoeira queria que eu, no Governo Federal, facilitasse negócios para ele. Eu disse: Não, não, e não, e não!

Pedi, Sr. Presidente, investigações. Pedi investigações ao Procurador Robson Teles. Está aqui. Pedi investigações ao Ministro Waldir Pires. Está aqui. Pedi investigação ao Ministro da Justiça. Está aqui.

Não posso dizer que não fizeram por má-vontade. Mas, está tudo aqui, Sr. Presidente. Eu pedi. Eu pedi para ser investigado.

E, para minha surpresa, recentemente, novamente, fui procurado por esse senhor, Carlos Cachoeira, para me propor interferência no processo de bingos que tramitava dentro da Casa Civil. Disse ao seu preposto, Mino Pedrosa, que não falaria com esse senhor. Insistiu. Ligou no meu gabinete. Ligou no meu telefone celular. Quis marcar encontro. Eu não fui. Qual é a tese dele? Que eu sou o defensor do grupo “a”, “b”, “c”. A Comissão que foi instalada no Palácio do Planalto dizia, comprovou que “Waldomiro Diniz não teve nenhuma participação na Comissão de Bingos.”


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