Fase I – da instalaçÃo da cpi – 1



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O SR. PAULO RAMOS – E ele então que fez a requisição?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Deputado, o senhor me desculpe, eu não tenho de memória o momento que essa requisição chega em minhas mãos. Isso tem que ser requisitado à empresa.
Aqui, Waldomiro Diniz admite que recebia complementação salarial através de uma fundação contratada pela própria Loterj, autarquia que presidia. Acabou sendo revelado que a Funpat – Fundação de Alta Tecnologia de Petrópolis – era o canal utilizado para pagar uma ajuda de custo para o seu grupo mais próximo:
O SR. PAULO RAMOS – Mas, o senhor veio de Brasília trabalhar aqui no Rio de Janeiro. Qual era o salário que o senhor ganhava como presidente da Loterj?

O SR. WALDOMIRO DINIZ - Acho que um salário líquido de quatro mil reais, aproximadamente.

O SR. PAULO RAMOS – E isso era suficiente para que o senhor atendesse as suas despesas pessoais, de estadia... O senhor morava onde aqui no Rio?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Morava no Leblon.

O SR. PAULO RAMOS – Morava em apartamento, hotel?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Morava num apart-hotel.

O SR. PAULO RAMOS – Num apart-hotel. O senhor também recebia um pró-labore ou uma remuneração da Funpat?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Recebi uma ajuda de custo para que pudesse... Obviamente, que não pagaria para trabalhar e não usaria de nenhum outro subterfúgio na contabilidade da empresa. Tinha que ter uma ajuda de custo para poder me deslocar.

O SR. PAULO RAMOS – Então, a Funpat também, assim como dava uma compensação para o Sr. Quintães , o senhor também recebia essa compensação.

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Recebia, a título de ajuda de custo.

O SR. PAULO RAMOS – De quanto era essa compensação?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Oito mil reais.

O SR. PAULO RAMOS – Oito mil reais.

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Para que eu pudesse me manter...

O SR. PAULO MELO – O senhor respondeu que recebia oito mil reais da Funpat O senhor tinha um contrato com a Funpat?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – A empresa tinha um contrato com a Funpat, a empresa Loterj.

O SR. PAULO MELO – Mas o senhor não declarou esses oito mil que o senhor recebia da Funpat.

O SR. WALDOMIRO DINIZ – O senhor diz no meu Imposto de Renda?

O SR. PAULO MELO – É.

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Não, não declarei.

O SR. PAULO MELO – Ok. É importante para o relatório. O senhor recebia oito mil reais, mas não declarou no Imposto de Renda. Segundo, a Funpat tinha – que é importante para o relatório final – um contrato que no último ano, em 2002, quase quintuplicou o valor. O senhor pode só explicar por quê?

O SR. WALDOMIRO DINIZ – Olha Deputado, um dos motivos é que durante o ano de 2002 foi feito um trabalho, - não sei se a Comissão já recebeu essas informações, mas pode ter acesso a elas – de que nós resolvemos durante o ano de 2002 fazer a averiguação de todas as máquinas de videobingo que funcionavam nos estabelecimentos, ou seja, mandamos fazer um processo de homologação, fora todos os outros. Isso teve um custo adicional. Agora, todas as informações estão na empresa. Se o senhor requisitar o contrato à empresa e tiver qualquer dúvida, estarei à disposição para esclarecê-lo.
Dois dias depois, os membros da CPI ouviram o depoimento do engenheiro Marcos de Abreu Coutinho, sócio da Montreal Informática. Inicialmente, o empresário fez uma longa explanação sobre a participação da Montreal no processo licitatório da exploração de loteria, num sistema on-line e em tempo real, na Loterj:
O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Essa licitação teve origem num edital em agosto do ano de 2000 e, na gestão do Governador Garotinho, presidia a Loterj Dr. Daniel. Esse edital foi publicado e era um edital de prestação de serviço para implantação de Loteria On-line real time.

A Montreal Informática entende esse tipo de serviço como um negócio de informática. Dando uma explicação rápida do que nós entendemos sobre isso: são computadores centrais grandes, com uma rede de terminais, ligados por uma rede de teleprocessamento, gerenciado por um software de segurança que criptografa as transações que correm entre os terminais dos computadores centrais. Para simplificar e todo mundo entender, é um serviço exatamente igual a um Banco 24 horas, ou um serviço de uma rede bancária.

A Montreal sentiu que era uma possibilidade dela participar dessa licitação, considerando, inclusive, que quem fazia a da Caixa, durante mais de 15 anos, foi a Datamec, que era a maior concorrente da Montreal; depois, a Racimec, outra firma de informática, e, depois, a GTech, que também trabalha na área de informática. Então, a gente via isso como um negócio de informática, computadores, redes e software.

Nos preparamos para entrar nessa licitação. Não existiam muitos Softwares que criptografassem transações financeiras no Brasil, e nós procuramos parceiros e achamos um parceiro nos Estados Unidos, a ILTS, que tinha um software e hardware apropriado para isso. Montamos um consórcio, com essa firma americana, e entramos na licitação. Acontece que essa licitação foi marcada para uma determinada data, quando chegou, faltando mais ou menos cinco dias para acontecer, a Loterj adiou porque o edital ainda não havia sido aprovado pelo Tribunal de Contas. E adiou sine die. E ficou esperando que o Tribunal de Contas desse Ok ao edital.

Cerca de quatro meses depois, o Tribunal de Contas devolveu o edital dando Ok, está Ok, não fiz nenhuma modificação, a Loterj remarcou a licitação e o Consórcio On-line da Montreal com a ILTS entrou e entrou sozinha, ninguém mais entrou, e ganhamos a licitação.

Dois a três dias depois, uma concorrente da Montreal, também firma de informática, a DBA Informática - que é talvez a concorrente de maior peso, no Rio de Janeiro, para a Montreal -, entrou com um mandado de segurança, tentando suspender a licitação, com o argumento de que ela não tinha tido tempo de preparar os documentos do sócio estrangeiro dela, que era um alemão. Era uma tecnologia alemã. Isso ficou sendo julgado em primeira instância tanto a DBA, como a firma alemã Honsell (?) entraram, separadamente. Nenhum dos dois conseguiu a liminar em primeira instância. Depois foram para a segunda instância. Não conseguiram também. Depois, num agravo regimental, a DBA conseguiu suspender.

É uma matéria – não sou advogado, mas não é pacificamente, porque cinco juízes analisaram. Quatro não deram e um acabou dando. Mas, esse que deu, suspendeu. Suspendeu a licitação, mas isso levou aí, também, algumas semanas, duas, sobre isso aí. E meus advogados e os advogados da Loterj acharam que conseguiriam cassar a liminar. Acharam que a liminar poderia ser cassada. Era controverso o caso. O edital tinha ficado quatro meses publicado. Dizer que não teve tempo era uma coisa complicada. Então, nesse imbróglio optamos, junto a nosso sócio americano, de botar uma opção de compra dos terminais, de trezentos terminais, junto ao sócio americano, que iria fazer o consórcio, forneceu o hardware, o software e os terminais. Nós botamos uma ordem – não era bem uma ordem de compra -, foi uma opção de compra de trezentos terminais lá, visando, assim que cassar a liminar, eu tinha que começar o contrato com trezentos terminais e o primeiro anos seiscentos.

Passaram-se mais uns quatros cinco meses, o americano pressionando muito a Montreal. Os americanos não entendem muito esse negócio de “ganhei a licitação, mas não levei, não assinei contrato”. Acabamos suspendendo a opção de compra, mandamos suspender a encomenda, e a licitação foi cancelada.

Desses trezentos terminais, a Montreal conseguiu comprar do sócio americano cento e doze, porque, naquela época, a Montreal estava operando a loteria de Santa Catarina. E precisamos desses terminais para lá, tínhamos implantado, lá, o mesmo sistema e compramos cento e dez. Ficaram duzentos lá na encomenda, o americano reclamando, porque ele tinha fabricado os terminais e não tinha vendido os terminais.

Após anulada a concorrência, já na gestão do Dr. Waldomiro, dois meses após a anulação da concorrência, ele lançou novamente o edital. Igual, o mesmo edital, o mesmo serviço. Novamente, começamos a nos preparar para entrar e, nesse momento, tive um problema com meu sócio americano. Ele queria que eu garantisse que compraria os duzentos e doze terminais. Esses duzentos e doze, ele queria que eu não fizesse opção de compra. Que eu fizesse uma compra, mesmo que eu não ganhasse a licitação, porque ele achava que eu poderia colocar em outros Estados, em outras loterias, porque na época dizia-se que ia-se licitar Minas, que se ia licitar uma série de loteria estaduais. Então, eles achavam que eu tinha me comprometido a comprar, não foi bem assim, foi uma opção de compra. Então, houve um certo desentendimento entre nós e meu consorciado. Conversamos sobre isso com os advogados do ILTS, aqui, no Brasil, o escritório do Dr. Siqueira Castro, e chegamos à conclusão: não, o consórcio é válido, não tem prazo, o consórcio está válido, os atestados são válidos, apenas os documentos fiscais do sócio americano é que estão vencidos. Ora, quem faz consórcio – apesar de brasileiro, que já fez um consórcio com empresas americanas – já tem experiência sobre isso. Vê que é extremamente difícil se obter das empresas americanas documentos que equivalem aos documentos brasileiros. Quando o documento brasileiro diz: “prova de quitação com a Receita Federal”, o consorciado americano tem que apresentar a mesma coisa em relação à Receita dele. Só que a receita americana não dá um “nada consta” às empresas americanas. Esse documento, lá, não existe. Isso é uma declaração de próprio punho do advogado dizendo que não deu. Mas, para entrar na licitação aqui é necessário isso. Então, o que os americanos que entram em consórcio fazem é explicar à Receita que o documento é necessário para uma licitação fora do País. E aí emitem esse tipo de documento.

Ora, como eu estava num conflito financeiro com os americanos, esses pedidos, eles não tiveram boa-vontade em fazê-lo e não fizeram. Então, quando eu cheguei em cima da concorrência, eu tinha tudo pronto, proposta pronta, consórcio pronto, e faltavam alguns documentos que eu tinha esses mesmos documentos de um ano atrás, mas não os tinha atualizado. Mesma situação que ficou a minha concorrente, a DBA, na primeira concorrência: ela também tinha os documentos, que era a alegação que ela fez lá quando conseguiu o mandado de segurança, ela tinha os documentos, mas com os quatro meses dados pelo Tribunal de Contas os documentos venceram e ela não conseguiu renovar. Foi por isso que ela pediu mandado de segurança e por isso que os juízes o concederam. Lá ficou quatro meses a concorrência parada.

Bom, eu não tinha os documentos aqui, eu tinha duas opções: primeira opção, não entrar na concorrência. Não dava nenhuma vantagem. Eu não entro, eu perco. A segunda opção, entrar com os documentos vencidos. Pode parecer que entrar com os documentos vencidos você já perdeu. Não, não é bem assim. Primeiro, eu tinha 90% de certeza de que eu entraria sozinho. Eu já tinha entrado sozinho na primeira concorrência, eu tinha entrado sozinho em Santa Catarina, e todas as informações que eu tinha era de que nenhum concorrente tinha conseguido fechar consórcio com tecnologia suficiente para passar aquilo. Ora, entrando sozinho, diz a Lei 8666 que mesmo que eu tenha alguma falha nos documentos, a comissão me dá oito dias para eu restaurar essas falhas e reapresentar a proposta. E eu achei que entrando sozinho eu poderia garantir ao americano que realmente eu já ganhei e, aí, assinar uma compra desses doze terminais sem risco. Era uma opção.

A outra opção era se entrasse algum concorrente, ele também iria apresentar falhas em alguma coisa e também à comissão caberia dar oito dias para os dois corrigirem a concorrência. Então, a opção foi entrar.

Oito empresas foram à concorrência. GTech, Honsell (?) DBA, Techlot, Combralog, Montreal… oito estavam lá. Só duas apresentaram proposta. Só o Consórcio On-line e o Consórcio Combralog. Depois, aberta a proposta da Combralog, elas tinham conseguido os atestados, tudo direitinho de uma firma argentina. E foram habilitados. E eu não fui.

Este é o quadro geral.
Marcos Coutinho informou que a empresa já havia atuado com jogos eletrônicos anteriormente em Santa Catarina. Segundo eles, a Montreal atuou por três anos e três meses. Como o contrato se mostrou deficitário, a Montreal, ainda segundo ele, cumpriu todas as obrigações e não renovou o contrato. Mais adiante, explica qual era o clima entre os participantes da concorrência, na Loterj, da qual a Montreal ganhou na primeira etapa e foi, posteriormente, desclassificada:
O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Foi o seguinte: era um consórcio DBA/Honsell (?), alemã. O consórcio era de duas empresas. Para ter mais chance, acredito eu, de obter a liminar, eles entraram separadamente. Aí dá a distribuição em dois juízes. Os dois juízes, em primeira instância, negaram. Todos os dois recorreram à segunda instância. Os dois desembargadores negaram. Aí, a DBA fez um agravo regimental. Eu não sou advogado. Sou engenheiro. Um agravo regimental, e conseguiu essa liminar. Então, foram cinco tentativas, cinco vezes um juiz analisou o processo e negou. Só que o que deu foi o pleno do Tribunal, quer dizer, aí já complicou qualquer recurso. Eu teria que derrubar... eu, não, a Loterj e o seu procurador, derrubar o pleno do Tribunal.

O SR. PRESIDENTE (Alessandro Calazans) – E dentro desse processo licitatório, tem uma série de coincidências. Por exemplo, a Montreal, empresa com experiência não ter conseguido, no segundo momento, ser habilitada novamente. O Sr. Waldomiro Diniz veio a esta Comissão e afirma que, naquele momento que a Montreal foi inabilitada e que estava sendo aberto, de novo, o processo licitatório, ele afirma que o Sr. Carlos Cachoeira o procurou e fez a seguinte pergunta para ele: “Como eu faço para comprar esse contrato?”. Foi a pergunta que o Sr. Carlos Cachoeira fez ao Sr. Waldomiro Diniz, “Como eu faço para comprar esse contrato?”. A pergunta é: quantas vezes representantes da empresa Montreal tiveram com o Sr. Carlos Cachoeira?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO - Eu não sei, nesse período. O Dr. Waldomiro disse que recomendou ao Carlos Ramos de procurar a Montreal. O Dr. Carlos Ramos procurou a Montreal, não falou para Montreal que estava vindo ali recomendado pelo Dr. Waldomiro. Quem ligou para Montreal foi um advogado do Dr. Carlos Ramos, é Ângelo Benguini, se eu não me engano, ligou marcando uma reunião, pedindo uma reunião com o Carlos Ramos e com a Montreal, aonde se trataria do seguinte: o Carlos Ramos era um empresário que operava as loterias de Goiás e Rio Grande do Sul, e a Montreal, naquela época, operava Santa Catarina e tinha sido, pseudamente, sido vencedora na do Rio de Janeiro. Então, ele queria conversar sobre a estratégia das duas empresas. E, lá chegando, ele se apresentou como empresário de uma empresa chamada Vitaplan e disse que tinha as concessões para operar Goiás e Mato Grosso do Sul, e que se interessaria em entrar, participar do projeto do Rio de Janeiro. O primeiro approach foi participar do projeto do Rio de Janeiro. Aí, foi uma reunião dele, estava o Carlos, estava o Ângelo, eu, meu sócio e meu filho, que é o advogado da Montreal. E aí nós comentamos: “ô, Carlos, primeiro, a Montreal ainda não tem o contrato, o contrato está sub judice, estamos tentando ganhar, mas, não temos o contrato. Segundo, entrar no contrato, você só teria uma maneira de fazer isso de imediato: é comprando a Montreal porque a Montreal fez um consórcio com a outra firma e esse consórcio só pode ser alterado, depois de passado um tempo do contrato, com autorização da Loterj, e com a autorização da Procuradoria do Estado.” Isso foi colocado claramente.

O SR. PRESIDENTE (Alessandro Calazans) – Mas, efetivamente, ele procurou para tentar comprar..., para entrar no negócio?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO - Ele ofereceu entrar no consórcio com o argumento que ele tinha terminais mais baratos que os meus, softwares mais baratos que os meus, e tinha dinheiro de investidor. Esse contrato, qualquer um que ganhasse, tinha que investir tudo sem ganhar um tostão, depois é que vai ganhar, é um investimento muito grande ao longo da implantação. Todos os consorciados que participaram, fatalmente, após ganhar, iriam buscar investidores, inclusive a Montreal, não tem fôlego para isso.
Marcos Coutinho disse que a Montreal presta contrato ao Governo do Estado na área de Segurança Pública - no sistema de identificação civil do Detran. Segundo ele, a Montreal não estava interessada apenas nos jogos, mas nos negócios que poderiam surgir em seguida:
O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – (...) para a Montreal, como eu disse no início, a visão do serviço não é jogo. A maior receita da GTech hoje não é jogo. O sistema que a GTech presta para a Caixa é um sistema de transações financeiras. A GTech ganha 70% da sua receita, cobrando conta de luz, água, telefone, pagamento de colégio, tudo isso. A visão da Montreal era fazer uma rede estadual de compensação bancária.

O SR. PAULO MELO – Mas isso está no contrato?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO - Está.

O SR. PAULO MELO – Permitia isso?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO - Permitia. Após implantado o jogo, eu poderia usar a rede em convênio, por exemplo, com a Cedae, como a GTech faz. A GTech recebe conta de telefone e as companhias telefônicas pagam à GTech menos do que pagam ao banco para compensar. Eu poderia chegar para a Cedae: “Se pago na minha rede, em vez de 0,35 centavos é 0,20 centavos. E é a maior fonte de receita. Isso começa a se complicar, Deputado Paulo Melo, quando a Caixa, sentindo isso e a GTech sentindo isso, proíbem que se instalem esses terminais estaduais dentro das lotéricas. Aí sim tornou-se – vamos dizer - um mau negócio. Eu, em Santa Catarina, perdi dinheiro...

O SR. PAULO MELO – Por causa disso.

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO -... Porque eu não podia instalar meus terminais nas lotéricas. Todo mundo já tem cultura de pagar as contas nas lotéricas. Teria que transformar a cultura do povo de ir para o supermercado, por exemplo, com a conta de luz. Está entendendo? A Caixa, ela botou uma regra que nas lotéricas dela só vende a loteria dela. Então, ninguém consegue usar a rede do Estado para receber nem as contas do Estado, contas de luz, de água, de gás, não consegue.

O SR. PAULO MELO – Então, no caso do senhor, o grande negócio era esse.

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – O grande negócio meu era uma rede, amanhã, receber benefícios dos funcionários do Estado, pagar benefícios, como a GTech está fazendo e como a Caixa quis licitar, tirando a GTech disso. E não conseguiu.

O SR. PAULO MELO – No caso do Cachoeira, como disse o próprio Waldomiro era...

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Era outra coisa. Eu creio que era outra coisa.
Neste ponto, Marcos Coutinho fala das relações entre empresas concorrentes. Ao contrário do que se imagina, esses contatos são cordiais:
O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Não. Sr. Deputado Luiz Paulo, antes do Carlos Ramos, nós tivemos reuniões com várias outras empresas sobre esse assunto; a GTech teve com a Montreal três, quatro vezes, porque ela tinha sido impedida de participar por não poder concorrer, mas ela queria operar o sistema. Ela queria fornecer os equipamentos de que ela também é grande fabricante. Tive reuniões com os diretores da GTech; tive reuniões com diretores da DBA. Isso se faz.

O SR. LUIZ PAULO – Mas então, com a GTech, com a DBA e com o futuro Consórcio Combralog sempre se deu para discutir como operar esse edital?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Com o Carlos Ramos, sim. Com a GTech, eles não queriam o controle do consórcio; eles queriam fornecer os equipamentos. E com a DBA, foi uma reunião – vamos dizer – quase de... a DBA é minha... são meus amigos... Os donos da DBA são...

O SR. LUIZ PAULO – Mas são competidores?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Sim, mas são amigos. Grandes amigos. Já trabalharam na Montreal, inclusive. Foram meus funcionários, quando eu também era funcionário da Montreal; antes da gente comprar. Então, a reunião foi para reclamar muito com ele, que tinha feito uma coisa ruim para mim. Entrado numa licitação que estava ganha e ele entrou com um mandado de segurança e me ferrou. E foi uma discussão... por que ele tinha feito isso, se ele tinha tido prazo para concorrer. Foi uma discussão – vamos dizer – de empresário para empresário dizendo: “Pôxa, você não vai ganhar nada...” – porque ele não ia ganhar nada; ele não estava nem disputando a licitação. Note que ele não estava nem disputando a licitação e aí ele me explicou; o Veloso me explicou que tinha sido uma exigência do sócio alemão dele, de lutar para inviabilizar a licitação. Porque ele não ia ganhar nada. Mesmo que anule a licitação, ia ter outra, está certo? Mas aí ele me explicou que a exigência não foi dele. Quer dizer, com a DBA foi essa a discussão.

O SR. LUIZ PAULO – Olha só, quando sua licitação é cancelada em 03/09/01, evidentemente isso foi uma decepção para sua empresa; licitação ganha e a licitação é cancelada. E o Presidente é quem homologa o cancelamento, fruto das decisões judiciais. Me parece que ainda cabiam recursos. Ou tinha se esgotado todas as instâncias recursais?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Olha só, nessa altura, nós já tínhamos brigado um ano – um ano – quando saiu a anulação. Eu já estava perdendo dinheiro em Santa Catarina. Bastante. Eu já estava sofrendo uma pressão do meu sócio americano para botar dinheiro na frente, forte. Quer dizer, a coisa, o contrato de 168 milhões, como o Sr. Deputado Paulo Melo falou, não são bem 168 milhões... 168 milhões é a estimativa de vendas, se alguém comprasse em cinco anos... se o jogo vingasse...

O SR. LUIZ PAULO – Sim, sim. E o senhor tinha opções para isso.

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – Tinha. Então, nós recorremos a todas as instâncias dentro do Estado do Rio de Janeiro e só não fomos ao Tribunal máximo, em Brasília, e eu não sei nem por que não fomos; não sou advogado e meus advogados acharam que não conseguiriam. Não sei.
Logo em seguida, o Deputado Gilberto Palmares insiste na questão das boas relações entre empresas que disputam o mesmo edital:
O SR. GILBERTO PALMARES – É comum, no curso de um processo de licitação, empresas que estão disputando, em tese são concorrentes, em tese a licitação é para dar oportunidade a todas as empresas que possam disputar, prestar um serviço para um ente público, e também para que o ente público possa ter essa prestação de serviço na melhor situação, é comum os empresários buscarem esse tipo de entendimento?

O SR. MARCOS DE ABREU COUTINHO – É, Deputado. Toda vez que um serviço licitado possui características diferentes. Por exemplo, um sistema que exija um fabricante de computador e um software, toda vez que se permite consórcios, porque têm várias especialidades sendo licitadas, é extremamente comum todos os tipos de conversa, até à véspera. Extremamente! Acabou de ter uma concorrência dos Correios, onde dois dias antes ninguém sabia quem estava com quem. Ninguém sabia com quem estava a IBM, a Xerox, a EDS, a Montreal, ninguém sabia quem estava consorciado com quem. Isso fazia parte do grande segredo, de quem estava com quem. Isto é normal. Quando a Montreal ganhou uma concorrência de identificação civil, no Estado, ninguém sabia quem estava com quem. Havia a Printec americana, a Nec japonesa, a Morfeau francesa, a Dermalog alemã, e as brasileiras, procurando se posicionar. Ninguém! Todo mundo dizia que uma estava com a outra, a outra com uma. Isso era um verdadeiro... Isso faz parte do mundo...
Nos minutos finais do depoimento, o Deputado Luiz Paulo volta a abordar a questão da boa relação para justificar a inesperada desclassificação da Montreal, por questões documentais menores:

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