F scott fitzgerald



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F. SCOTT FITZGERALD

Terna é a Noite

Este livro foi digitalizado por Sandra Leonor ferreira para uso exclusivo de deficientes visuais em Setembro de 2008
Paginação: rodapé
Contracapa

Depois da reedição de O Grande Gatsby, nesta mesma colecção, a Presença faz agora outra oportuna reedição de uma obra deste grande escritor. TernaÉ a Noite, publicado pela primeira vez em 1934, foi consagrado pela crítica e pela comovida leitura que lhe dedicaram até hoje milhares de leitores. Este romance custou ao seu autor quase dez anos de labor literário, sempre ameaçado pelos seus próprios dramas pessoais. Terna É a Noite foi em grande parte inspirado pela experiência de vida de Scott Fitzgerald - os anos que passou na Riviera francesa, o convívio com os amigos Sara e Gerald Murphy que tão profundamente o influenciaram, as crises de loucura de Zelda, a mulher, a quem em vão tentou salvar da doença, e a sua constante luta pela sobrevivência. A acção do romance desenrola-se no quadro sombrio do pós-guerra, no ambiente de dourada decadência de que se rodeou uma certa aristocracia norte-americana. Da sua amarga experiência de vida extraiu Scott Fitzgerald a dramática história do psiquiatra Richard Diver e da sua esposa Nicole.


FICHA TÉCNICA

Título original: Tender is the Night

Autor: F. Scott Fitzgerald

Copyright © 1933, 1934 by Charles Scribner's Sons

Copyright © renewed 1948, 1951 by Frances Scott Fitzgerald Lanahan Tradução © Editorial Presença, Lda., 1987, Lisboa

Tradução gentilmente cedida por Publicações Europa-América, Lda. Tradutor: Maria Filomena Duarte

Revisão de tradução: Gisela Moniz

Capa: Cartaz publicitário - OPEL, Seis cilindros Impressão e acabamento: Guide - Artes Gráficas, Lda. l~ edição, Lisboa, 1987

2:ª edição revista, Lisboa, 1988

Depósito Legal n.º 10 7875/85

Reservado todos os direitos para Portugal à

EDITORIAL PRESENÇA, LDA.

Rua Augusto Gil, 35-A 1000 LISBOA

É interdita a venda desta edição no Brasil.

Enfim contigo! Terna é a noite......

Mas aqui não há luz,

A não ser a que vem do céu, trazida pelo vento,

Serpenteando pelo verdor melancólico

De caminhos musgosos.

ODE A UM ROUXINOL
A Gerald e Sara,

Muitas felicidades


Livro I

I
Na costa agradável da Riviera Francesa, a meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, eleva-se, imponente, um hotel cor-de-rosa. Palmeiras deferentes refrescam a fachada enrubescida e, na sua frente, estende-se uma praia pequena e deslumbrante. Ultimamente transformou-se numa estância de Verão em moda para gente famosa. Dez anos antes ficava quase deserto, depois de a clientela inglesa partir para o Norte, em Abril. Agora, aglomeram-se à volta casas de campo, mas, no momento em que esta história começa, apenas as cúpulas de uma dúzia de antigos chalés se degradavam como lírios de água no meio de amontoados de pinheiros entre o Hotel des Etrangers, de Gausse, e Cannes, a cinco milhas de distância.

O hotel e a praia, qual tapete crestado, eram um só. De manhã cedo, a imagem distante de Cannes, os tons de rosa e creme de velhas fortificações e os Alpes purpúreos que limitam a Itália reflectiam-se na água e tremeluziam na ondulação e nos círculos formados à superfície pelas algas dos baixios límpidos. Antes das oito horas um homem de roupão azul desceu à praia e, depois de muitas aplicações prévias da água fria à sua pessoa, depois de muito resmungar e arfar, chapinhou no mar por instantes. Quando se foi embora, praia e baía ficaram em sossego durante uma hora. Navios vogavam para oeste, no horizonte; os empregados dos autocarros gritavam no átrio do hotel; o orvalho evaporava-se sobre os pinheiros. Uma hora mais tarde as buzinas dos automóveis começaram a ouvir-se da estrada sinuosa ao longo da pequena faixa dos Maures, que separa o litoral da verdadeira França provençal.

A uma milha de distância do mar, onde os pinheiros dão lugar a choupos poeirentos, existe um apeadeiro de caminho-de-ferro, onde, numa manhã de Junho de 1925, uma mulher e a filha desembarcaram, com destino ao hotel de Gausse. A beleza do rosto da mãe desvanecia-se e começavam a surgir veias salientes. A sua expressão era, ao mesmo tempo, agradavelmente tranquila e atenta. Contudo, todos os olhares convergiam rapidamente para a filha, cuja tez rosada era dotada de uma magia encantadora. A sua face acendia-se numa chama graciosa, como o rubor de excitação das crianças depois do banho frio da tarde. A bela fronte alongava-se, suave, até ao sítio em que o cabelo, que a emoldurava como um escudo heráldico, irrompia numa torrente de caracóis, ondas e canudos de um louro cinza e ouro.

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Os olhos eram límpidos, grandes, claros, húmidos e brilhantes, a cor da face era genuína como se emanasse directamente daquele coração jovem e robusto. O corpo pairava delicadamente no derradeiro limite da infância... Estava prestes a completar os dezoito anos, mas não perdera a frescura dos verdes anos.

Quando mar e céu surgiram lá em baixo, numa linha estreita e quente, a mãe disse:

- Qualquer coisa me diz que não vamos gostar deste sítio. A rapariga respondeu:

- De qualquer maneira, eu queria voltar para casa.

Ambas falavam em tom jovial, mas era visível que sem objectivo, e estavam aborrecidas com esse facto - além disso, não era qualquer programa que lhes interessava. Queriam grande excitação, não pela necessidade de estimular um estado depressivo mas com a avidez das crianças que se sentem merecedoras da recompensa das férias.

- Ficamos três dias e depois vamos para casa. Vou telegrafar imediatamente para marcar bilhetes no barco.

No hotel, a rapariga fez as reservas num francês idiomático, um tanto pobre, como que recordado. Depois de se instalarem no rés-do-chão, dirigiu-se para a luz que vinha das janelas de vidraças e deu alguns passos na varanda de pedra que rodeava o hotel. Ao andar, movia-se como uma bailarina, assentando o peso do corpo nas pequenas costas e nas ancas. Lá fora, a luz cálida perseguia a sua sombra. Voltou para dentro - o brilho era demasiado forte.À distância, o Meditterrâneo ostentava a sua cor à luz brutal do Sol. Debaixo da balaustrada, um Buick descorado torrava no parque do hotel.

De facto, em toda a região só a praia fervilhava de actividade. Três amas inglesas estavam sentadas a tricotar o lento padrão da Inglaterra vitoriana, o padrão dos anos quarenta, dos anos sessenta e dos anos oitenta, em forma de camisolas e meias, ao som da sua própria tagarelice que tinha tanto de formal como de encantadora; mais perto do mar, uma dúzia de pessoas abrigava-se sob chapéus de sol às riscas enquanto os seus doze filhos perseguiam sem medo os peixes através dos baixios, ou se estendiam ao sol, nus e resplandecentes de óleo de coco.

Quando Rosemary chegou à praia, um rapaz de doze anos passou por ela a correr e precipitou-se no mar, soltando gritos entusiásticos. Sentindo o impacte do exame minucioso dos estranhos, a rapariga tirou o roupão e seguiu-o. Flutuou por instantes com a cabeça debaixo de água e, quando descobriu que estava num baixio, pôs-se de pé, cambaleando, e avançou com dificuldade, arrastando as pernas esguias contra a resistência da água. Quando a água lhe dava quase pelo peito, voltou-se para trás e olhou para a praia: um homem calvo, de monóculo e fato de banho, de peito peludo e proeminente e barriga encolhida, observava-a atentamente. No momento em que Rosemay retribuiu o olhar, o homem tirou o monóculo, que desapareceu entre os pêlos vistosos do peito, e encheu um copo com um líquido que trazia numa garrafa.

Rosemary voltou a mergulhar e, com quatro braçadas agitadas, atingiu a jangada. A água envolveu-a, puxou-a ternamente para si afastando-a do calor,

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ensopou-lhe o cabelo e percorreu cada parcela do seu corpo A rapariga deu voltas sobre voltas na água, abraçando-a. deleitando-se com ela. Ao alcançar a jangada, estava sem fôlego, mas uma mulher bronzeada, de dentes muito brancos, olhou para ela e Rosemary, subitamente consciente da brancura agreste do seu próprio corpo, voltou-se de costas e nadou para a praia. O homem de peito cabeludo, segurando a garrafa, disse-lhe quando ela saiu da água:

- Quero avisá-la de que há tubarões para lá da jangada.

O homem era de nacionalidade indeterminada mas falava inglês com um pausado sotaque de Oxford.

- Ontem devoraram dois marinheiros britânicos da esquadra ancorada no Golfo Juan.

- Meu Deus! - exclamou Rosemary.

- Vieram para cá acossados pela esquadra.

Abrindo muito os olhos para lhe fazer sentir que estava apenas a avisá-la, deu dois passos com afectação e serviu-se de outra bebida.

Embaraçada, embora não sem um certo agrado por ter sido objecto de atenção durante esta conversa, Rosemary procurou um lugar para se sentar. Era óbvio que cada família possuía a faixa de areia imediatamente em frente do seu chapéu-de-sol; para além disso, visitavam-se com frequência e conversavam à distância - a atmosfera de uma comunidade em que qualquer intromissão se tornaria insolente. Mais acima, onde a praia se cobria de seixos e algas mortas, estava sentado um grupo de pessoas com a pele tão branca como a sua. Estendiam-se debaixo de pequenas sombrinhas em vez de chapéus-de-sol, e era notório que não estavam tão familiarizadas com o local. Entre uns e outros, Rosemary arranjou lugar e estendeu a toalha na areia.

Deitada, começou por ouvir-lhes as vozes e sentiu-lhes os passos roçarem-lhe o corpo e as suas sombras interpuseram-se entre o Sol e ela. O bafo de um cão curioso soprou-lhe, quente e nervoso, no pescoço; sentia a pele a escaldar e ouvia o murmurar das ondas que vinham morrer na areia. Pouco depois, distinguiu vozes e apercebeu-se de que uma se referia com desdém «àquele tipo, o North» que raptara um criado de um café de Cannes, na noite anterior, para o cortar em dois. A responsável pela história era uma mulher de cabelo branco, de vestido de noite, obviamente uma relíquia do serão anterior, já que conservava ainda uma tiara na cabeça e uma orquídea murcha no ombro. Rosemary, sentindo uma vaga antipatia por ela e pelos companheiros, virou-se para o outro lado.

Mais perto dela, do lado oposto, estava deitada uma mulher jovem, debaixo de um tecto de chapéus-de-sol, copiando uma lista de coisas de um livro aberto na areia. Tinha o fato de banho afastado dos ombros e das costas. O tom corado, castanho-alaranjado da pele contrastava com um colar de pérolas creme e brilhava ao sol. O rosto era duro, belo e magoado. Os seus olhos encontraram os de Rosemary mas não a viram. Por trás dela, estava um homem atraente com um boné de jóquei e calções às riscas vermelhas. A seguir, a mulher que Rosemary vira na jangada e que olhara para trás perseguindo-a com o olhar.

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Depois, um homem de rosto comprido e cabeça dourada e leonina, de calções azuis e sem chapéu, falava com ar sério com um jovem de calções pretos, que era sem dúvida latino. Ambos brincavam com pedaços de algas que havia na areia. Rosemary estava convencida de que se tratava de americanos na sua maior parte, mas algo os diferenciava dos que conhecera ultimamente.

Passado pouco tempo, apercebeu-se que o homem com o boné de jóquei oferecia um pequeno espectáculo mudo a este grupo; movimentava-se solenemente com um ancinho na mão, removendo ostensivamente o pedrisco, ao mesmo tempo que o seu rosto grave representava uma qualquer farsa esotérica. A mais simples das suas expressões tornava-se hilariante, a tal ponto que qualquer coisa que ele dissesse desencadeava uma gargalhada geral. Mesmo os que, como ela, estavam longe demais para o ouvir, prestavam toda a atenção. A mulher jovem de colar de pérolas era a única desinteressada. Talvez pela modéstia que advém da posse, ela respondia a cada aclamação inclinando-se ainda mais sobre a sua lista.

A voz do homem do monóculo e da garrafa chegou subitamente aos ouvidos de Rosemary vinda do alto:

- Você é uma excelente nadadora. Ela vacilou.

- Muito boa, mesmo. Chamo-me Campion. Está aqui uma senhora que diz que a viu em Sorrento, na semana passada. Conhece-a e gostaria muito de lhe ser apresentada.

Olhando à volta com dissimulado aborrecimento, Rosemary reparou que as pessoas não bronzeadas a aguardavam. Levantou-se com relutância e dirigiu-se a elas.

- A senhora Abrams... A senhora McKisco. O senhor McKisco... o senhor Dumphry...

- Nós conhecêmo-la - disse a mulher de fato de noite. - Você é a Rosemary Hoyt. Reconheci-a em Sorrento e confirmei com o empregado do hotel. Todos achamos que você é estupenda e queremos saber por que não volta para a América para fazer outro daqueles filmes maravilhosos.

Fizeram um movimento supérfluo de avançar na sua direcção. A mulher que a reconhecera não era judia, apesar do nome. Era uma daquelas mulheres bem humoradas, preservada por uma impenetrabilidade a toda a prova e um bom relacionamento com a geração mais nova.

- Quisemos avisá-la do perigo de ficar demasiado queimada no primeiro dia - continuou alegremente - porque a sua pele é importante, mas há um diabo de uma formalidade nesta praia que estávamos com receio de lhe falar.

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II
- Pensávamos que talvez pertencesse à conspiração - disse a senhora McKisco.



Era uma mulher nova e bonita, com um olhar mesquinho de uma intensidade desanimadora.

- Não sabemos quem faz ou não parte dela. Um homem para quem o meu marido foi particularmente simpático, revelou-se uma das principais personagens... praticamente o herói - prosseguiu.

- A conspiração? - perguntou Rosemary, sem compreender bem. Existe uma conspiração?

- Minha querida, nós não sabemos - disse a senhora Abrams, com um cacarejo compulsivo de mulher corpulenta. - Não fazemos parte dela. Estamos na plateia.

O senhor Dumphry, um jovem efeminado e de cabelo cor de serapilheira, observou:

- A mamã Abrams é ela própria uma conspiração. Campion ameaçou-o com o monóculo:

- Então, Royal, não sejas tão maldoso com as palavras.

Pouco à vontade, Rosemary olhou-os desejando que a mãe tivesse vindo com ela. Não gostava desta gente, especialmente ao compará-la com a do outro extremo da praia, que lhe despertara o interesse. Os modestos, mas sólidos, dotes sociais da mãe salvavam-nas de situações indesejáveis com prontidão e firmeza. Mas Rosemary era uma celebridade há apenas seis meses e, por vezes, os costumes franceses do início da sua adolescência e os costumes democráticos da América, que se sobrepunham aos primeiros, faziam-lhe uma certa confusão e criavam-lhe problemas neste tipo de situações.

McKisco, um homem de trinta anos, magro, ruivo e sardento, não achou graça ao tema da «conspiração». Estivera a observar fixamente o mar... e naquele momento, depois de um rápido olhar de soslaio à mulher, voltou-se para Rosemary e perguntou-lhe em tom agressivo:

- Está cá há muito tempo?

- Só há um dia.

-Oh!


Ciente de que o tema da conversa se alterara completamente, olhou em volta para os outros.

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- Vai ficar até ao fim do Verão? - perguntou a senhora McKisco com inocência - Se ficar pode assistir ao desenrolar da conspiração.

- Por amor de Deus, Violet, não fales mais nisso - explodiu o marido. - Arranja uma brincadeira nova, por amor de Deus!

A senhora McKisco inclinou-se para a senhora Abrams e murmurou audivelmente:

- Ele está nervoso.

- Não estou nervoso - discordou McKisco. - Acontece que não estou mesmo nada nervoso.

Era evidente que estava a ferver - um rubor acinzentado espalhara-se-lhe pelo rosto, anulando toda a eficácia das suas afirmações. De repente, vagamente consciente do seu estado, levantou-se e encaminhou-se para a água, seguido pela mulher. Aproveitando a oportunidade, Rosemary fez o mesmo.

McKisco respirou profundamente e esbracejou com vigor nas águas do Mediterrâneo. Percebia-se que queria dar a impressão de que nadava em estilo livre. Já sem fôlego, levantou a cabeça e olhou em volta com uma expressão de surpresa por não ter ainda perdido de vista a costa.

- Ainda não aprendi a respirar. Nunca compreendi bem como é que se respira.

Olhou para Rosemary com ar inquiridor.

- Acho que se deve expirar debaixo de água - explicou ela - e, de quatro em quatro braçadas, volta-se a cabeça de lado, para inspirar.

- A respiração é o mais difícil para mim. Vamos até à jangada?

O homem de cabeça leonina estava estendido na jangada, que oscilava para a frente e para trás com o movimento da água. Assim que a senhora McKisco lá chegou o homem içou-a, puxando-lhe o braço com um gesto rude e repentino.

- Tive medo que a jangada a magoasse.

A voz dele era baixa e tímida; tinha um dos rostos mais tristes que Rosemary vira alguma vez; os malares proeminentes de um índio; um longo lábio superior e olhos enormes e profundos de um castanho dourado escuro. Dissera aquilo entre dentes, como se esperasse que as suas palavras chegassem até à senhora McKisco por um caminho discreto e sinuoso. Num instante saltou para a água e o seu longo corpo quedou-se imóvel a boiar, voltado para a praia.

Rosemary e a senhora McKisco ficaram a olhar para ele. Quando se cansou, o corpo dele dobrou-se repentinamente ao meio, as coxas magras surgiram à superfície e desapareceu totalmente, deixando um leve rasto de espuma atrás de si.

- Ele nada bem - disse Rosemary,

A resposta da senhora McKisco surgiu com uma violência surpreendente:

- Mas é um músico falhado.

Voltou-se para o marido que, depois de duas tentativas vãs, conseguira finalmente subir para a jangada e estava a tentar fazer uma espécie de pirueta compensatória que não resultou em mais que um novo desequilíbrio.

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- Estava precisamente a dizer que o Abe North pode ser um nadador, mas é um músico falhado.

- Sim - concordou Mckisco, relutante.

Era óbvio que fora ele quem criara o mundo da mulher e não lhe permitia grandes liberdades dentro dele.

- Antheil é o meu ídolo - disse a senhora McKisco em tom de desafio. voltando-se para Rosemary. - Antheil e Joyce, Não me parece que alguma vez tenha ouvido falar deles em Hollywood, mas o meu marido escreveu a primeira crítica do Ulisses que apareceu na América.

- Quem me dera fumar um cigarro - disse McKisco calmamente.

É o mais importante para mim, neste momento. - Ele tem garra, não achas, Albert?

A voz dela sumiu-se de repente. A mulher das pérolas fora juntar-se aos dois filhos, na água, e nessa altura Abe North irrompeu de baixo de um deles como uma ilha vulcânica, erguendo-o sobre os ombros. A criança gritou de medo e satisfação e a mãe olhou-os com uma tranquilidade maravilhosa, sem esboçar um sorriso.

- É a mulher dele? - perguntou Rosemary.

- Não, é a senhora Diver. Eles não estão no hotel.

O seu olhar fotográfico não se afastava do rosto da mulher. Pouco depois, voltou-se para Rosemary, perguntando num tom veemente: - Já tinha estado no estrangeiro antes?

- Já... Estive no colégio em Paris.

- Oh! Então talvez saiba que se quiser divertir-se aqui, o que tem a fazer é travar conhecimento com algumas famílias francesas. O que é que estas pessoas aproveitam disto?

Apontou com o ombro esquerdo para a costa.

- Fecham-se em pequenos grupos. Claro que nós trazíamos cartas de apresentação e travámos conhecimento com todos os melhores artistas e escritores franceses em Paris, Foi muito agradável.

- Calculo que sim.

- O meu marido está a acabar o seu primeiro romance, sabe?

- Ah, está?

Rosemary não estava a pensar em nada de especial, perguntava-se simplesmente se a mãe teria adormecido com aquele calor.

- É do género do Ulisses - continuou a senhora Mckisco, - Só que em vez de levar vinte e quatro horas, o meu marido leva cem anos. Pega num velho aristocrata francês em decadência e estabelece uma comparação entre ele e a máquina da era industrial...

- Oh, por amor de Deus, Violet, não andes a contar a história a toda a gente - protestou Mckisco. - Não quero que seja divulgada antes de o livro ser publicado.

Rosemary nadou para a costa, pôs a toalha à volta dos ombros doridos e deitou-se novamente ao sol. O homem com o boné de jóquei andava agora de chapéu-de-sol em chapéu-de-sol com uma garrafa e pequenos copos na mão. Em pouco tempo ele e os amigos ficaram mais animados e juntaram-se mais.

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Estavam agora todos debaixo de um aglomerado de chapéus-de- -sol. Rosemary calculou que algum deles estaria de partida e que aquela seria a sua última bebida na praia. Até mesmo as crianças se aperceberam da animação que começava a gerar-se debaixo daquele chapéu e voltaram-se para lá. Rosemary estava convencida de que tudo irradiava do homem do boné.

O meio-dia dominava o mar e o céu - até mesmo a linha branca de Cannes, a cinco milhas de distância, se tinha desvanecido como uma miragem de frescura; um barco à vela colorido puxava atrás de si um cabo, do mar alto e sombrio. Parecia não haver vida em toda esta extensão da costa, excepto sob a luz filtrada pelos chapéus-de-sol, onde algo prosseguia entre a cor e o murmúrio.

Campion aproximou-se de Rosemary, parou a pouca distância e a rapariga fechou os olhos, fingindo que estava a dormir; depois entreabriu-os e viu dois pilares estreitos e escuros que eram as pernas dele. O homem tentou rodear o seu percurso de uma nuvem de areia colorida, mas a nuvem desvaneceu-se no céu imenso e escaldante. Nessa altura, Rosemary adormeceu.

Acordou encharcada em suor e descobriu que a praia estava deserta com excepção do homem de boné de jóquei que estava a dobrar um último chapéu-de-sol. Assim que Rosemary começou a abrir os olhos, ele aproximou-se e disse:

- Ia acordá-la antes de me ir embora. Não é aconselhável bronzear-se

tão depressa.

- Obrigada.

Rosemary olhou para as pernas vermelhas.

- Meu Deus!

Riu-se alegremente, convidando-o a falar, mas Dick Diver transportava já a barraca e o chapéu-de-sol para um automóvel e ela foi até à água para limpar o suor. Ele voltou, juntou um ancinho, uma pá e uma peneira e arrumou-os na fenda de uma rocha. Olhou em redor para verificar se teria deixado alguma coisa esquecida na praia.

- Sabe que horas são? - perguntou Rosemary.

- Quase uma e meia.

Por momentos olharam ambos o mar.

- Não me desagrada esta hora - disse Dick Diver. - Não é das piores alturas do dia.

Ele olhou-a e, por momentos, a rapariga habitou o mundo brilhante dos seus olhos azuis, com avidez e confiança. Então ele pôs ao ombro as últimas coisas e subiu direito ao automóvel. Rosemary saiu da água, sacudiu a toalha e encaminhou-se para o hotel.

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III


Eram quase duas horas quando mãe e filha entraram na sala de refeições. Os pinheiros lá fora projectavam sombras vacilantes sobre as mesas desertas. Dois criados, que empilhavam pratos e falavam alto em italiano, calaram-se quando elas entraram e trouxeram-lhes um exemplar da ementa do almoço, já um tanto desfalcada.

- Apaixonei-me na praia - anunciou Rosemary.

- Por quem?

- Primeiro por um grupo de pessoas que me pareceram simpáticas. Depois por um homem. - Falaste com ele?

- Pouco. É muito atraente. Ruivo.

Rosemary comia com apetite devorador.

- Mas é casado... como não podia deixar de ser.

A mãe era a sua melhor amiga e tinha apostado tudo na sua educação, atitude que não era rara no mundo dos actores. Mas o que a tornava especial era o facto de a senhora Elsie Speers não procurar compensação para os seus fracassos pessoais. Não sentia azedume ou ressentimento em relação à sua vida - dois casamentos felizes que tinham terminado em viuvez haviam aprofundado o seu estoicismo bem humorado. Um dos maridos tinha sido oficial de cavalaria e o outro médico do exército, e ambos lhe tinham deixado algo que ela tentava transmitir intacto a Rosemary. Não poupava a filha como não se poupava a si própria a esforços e dedicação. Tinha assim cultivado em Rosemary um idealismo de que ela própria era objecto e graças ao qual a filha via o mundo através dos olhos da mãe. Por isso, enquanto Rosemary fora «apenas» uma criança, tinha sido protegida por um duplo escudo formado pela mãe e por si própria. Sentia uma desconfiança prudente perante o trivial, o fácil e o vulgar. Contudo, com o sucesso repentino de Rosemary no cinema, a senhora Speers achou que era tempo de a filha se tornar espiritualmente independente. Agradar-lhe-ia mais do que a faria sofrer se esse idealismo, exigente, impaciente, por vezes mesmo excessivo, se voltasse para outra pessoa.



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