Experiencia religiosa e processo migratório



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RELIGIÃO VIVIDA NO PROCESSO MIGRATORIO

Lúcia Ribeiro



Ford Foundation Conference

Latinos in Florida: Lived Religion, Space, and Power”



Casa Santo Domingo

Antigua, Guatemala

December 9-11, 2005
INDICE

RELIGIÃO VIVIDA NO PROCESSO MIGRATORIO

Religião vivida e migração

1) A relação entre experiência religiosa e condição migratória


2) O condicionamento da experiência anterior
Experiência religiosa como vivência pessoal
1) Vivência da Fé no processo migratório inicial
2) Vivência da Fé na vida cotidiana
Experiência religiosa como participação na comunidade
1) Participação na comunidade enquanto grupo religioso e social

2) Participação na comunidade enquanto espaço de assistência e ajuda.



3) Participação na comunidade enquanto afirmação da identidade brasileira

A importância de um espaço brasileiro

Risco do gueto

Articulação das Igrejas brasileiras com a cultura americana
4) Participação na comunidade enquanto portadora de uma “missão sagrada”
Considerações finais

1) Trânsito religioso

2) Participação minoritária

3) À guisa de conclusão

Religião vivida e migração1

A experiência religiosa, tomada em um sentido amplo, caracteriza-se pela busca de encontrar um sentido para a vida, abrindo-se para o sagrado. Tal busca se concretiza na vivência pessoal do dia-a-dia e, neste sentido, não implica necessariamente a participação em uma comunidade religiosa; por sua vez, tal participação nem sempre reflete uma busca de espiritualidade ( no caso dos migrantes, pode se dar por outras razões, como veremos à frente. ) Apesar desta relativa autonomia, na prática as duas dimensões normalmente se articulam e se complementam.

Levar em conta esta dupla vertente é uma chave importante para entender como se dá a experiência religiosa na vida do migrante e de que forma o contexto migratório a condiciona. É este o objetivo do nosso trabalho, no presente texto.

A análise se fundamenta nas próprias representações dos migrantes, a partir do trabalho de campo realizado no sul da Florida – EUA, durante os anos de 2002 a 2004.2 Os entrevistados eram migrantes brasileiros que declararam ter uma filiação religiosa, incluindo católicos, evangélicos e espíritas.


1) A relação entre experiência religiosa e condição migratória
O processo migratório se caracteriza pela saída do país de origem, o que se traduz, para o migrante3, em mudanças radicais.

Na arguta análise de Gonçalves4, o migrante é aquele que habita o espaço indefinido da fronteira, entendida não tanto em termos geográficos, mas em termos simbólicos, culturais e até psíquicos. “Uma espécie de não-lugar , onde mora um não-cidadão, que se encontra temporariamente sem documentos. Por isso mesmo vê sua identidade ameaçada, questionada, fragmentada. ...A partir desse não-lugar, o migrante é levado a interrogar o seu próprio destino. As certezas e referências se desfazem e o perigo da solidão, da anomia e do desespero ronda a porta.”

Poderia esta situação ter como conseqüência a necessidade de buscar segurança no nível religioso?

Ao analisar esta questão, Freston levanta várias hipóteses: por um lado, admite que a condição migratória tenderia a diminuir a religiosidade, especialmente quando a migração se dá para um contexto mais secularizado: neste caso, a perda de referências e de restrições poderia levar a um processo de secularização; por outro lado, entretanto, questiona se a migração não poderia também “acentuar a religiosidade como uma forma de defesa cultural.” 5

Certamente, não se trata aqui de estabelecer uma determinação mecânica e linear. Nosso trabalho, por sua vez, ao incluir apenas migrantes que declaram possuir uma filiação religiosa, não permite respostas definitivas. Aponta, entretanto, algumas pistas, a partir das representações deste grupo, que parecem apontar para uma tendência de intensificação da religiosidade no contexto migratório. Tal hipótese parece encontrar confirmação entre alguns líderes religiosos que, a partir do trabalho com os migrantes, partilham sua experiência; é o caso de Milesi, que afirma: “fora do Brasil, o cristão que não costumava comparecer às Celebrações retoma sua espiritualidade com mais afinco”. 6

A percepção de alguns entrevistados também parece apontar nesta direção:



Quando você é imigrante ou quando você está num país que não é o seu, tenho a impressão que Deus se torna mais forte também.

(Ângela, mulher católica, 2003)7

Crer em uma presença divina é visto como algo que dá segurança e estabilidade, particularmente em situações de vulnerabilidade. Esta associação parece evidente para alguns entrevistados: uma mulher evangélica – que não tinha religião no Brasil e se converteu aqui – assim se expressa:

Você desce no aeroporto de Miami e você é obrigado a conhecer Jesus. Parece que você fica mais sensível, porque você está exposto, frágil.

(Teresa, Grupo Focal de evangélicos, 2004)

Outra entrevistada enfatiza a necessidade de ter alguma referência, particularmente em uma situação de instabilidade:

Você tem que ter um ponto quando você está fora do seu país, fora do seu lugar. A vida aqui é diferente, a cultura é diferente, tudo é diferente e você tem que ter uma referência.

(Ângela, mulher católica, 2003)

Mas não se trata apenas de conviver com diferenças. Sair de seu país implica também perdas, que podem se multiplicar, de acordo com as circunstâncias concretas em que o processo migratório é vivido. “Perder” o país inclui não só o espaço físico, mas também seu contexto sócio-cultural. Ao nível pessoal, isto significa a perda dos amigos e das relações, ao que se soma, em muitos casos, a ausência da família e a impossibilidade de exercer a própria profissão. Neste contexto, o processo migratório pode representar uma experiência extremamente difícil. Isto se verifica sobretudo na etapa inicial, em que, privados das referências anteriores, os que chegam sofrem um processo de massificação e uniformização: “aqui você não é nada, quando você chega”.

Este “rito de passagem” , embora extremamente doloroso, pode representar também a oportunidade de reconstruir a própria identidade. Na percepção de um entrevistado:



Isso tudo quebra a pessoa... e como ela é quebrada, começa a abrir a mente, para ver o que tem além daquilo e então começa a procurar alguma coisa. (Mauro, homem evangélico, 2004)

Literalmente, caem as máscaras, nas palavras de outro entrevistado.

Viver este processo de perdas e de confronto com as diferenças se torna ainda mais difícil em uma situação de solidão: é o caso, particularmente, dos que migram sem a família. E é neste momento que pode se dar também uma abertura para a dimensão religiosa: quando você não tem ninguém mesmo é para Deus que você corre, afirma um evangélico.

Também um pastor evangélico observa esta relação:



As pessoas que vêm para cá se sentem muito sós. Por mais que estejam com brasileiros, por mais coisas que tenham para fazer, elas não estão no ambiente natural delas e se sentem sós; e nesse momento há que manter uma atividade espiritual para compensar isso; porque somente Jesus traz vida para essas pessoas que estão na solidão.

A experiência de sentir-se só, longe dos amigos e da família, leva a buscar alternativas as mais diversas. Para alguns, tentar associar a lembrança dos que ficaram longe com uma imagem religiosa pode apontar uma saída. Assim, por exemplo, estabelecer uma associação entre a figura paterna e a imagem divina é uma forma de continuar se sentindo protegido pelo pai e de encontrar forças para seguir em frente. É o que parece indicar o seguinte depoimento:



Lá no Brasil tinha o meu pai que sempre que eu precisava eu podia correr para ele.Mas aqui sou eu e eu. Eu não tenho um lugar para correr, sou eu que tenho que fazer. Então, interpreto dessa forma: eu sou eu e meu pai é Deus.

( Grupo Focal de evangélicos, 2004)

Tentando distinguir etapas sucessivas, um entrevistado católico se expressa da seguinte forma:

Depois que a pessoa passa por esse processo, começa a buscar algo maior. De onde vem, pra onde vai, o que vai fazer da sua vida. E quando passa a descobrir quem é, o valor que ela tem perante Deus, aí as coisas mudam. Aí começa a descobrir o valor de viver, de ter amigos, de ter Deus, de ter paz no coração. (Bernardo, homem católico, 2004)

O caso de Bernardo é significativo, ao apontar como esta “passagem pelos desertos” , longe de seu país de origem, propiciou o que ele denomina seu “resgate religioso”:



Eu não tinha mais ninguém a quem apelar, amigos de infância, família, a segurança de estar no meu país. Bom, pensei, agora é com Deus que eu tenho que me apegar, tenho que me agarrar Nele pra poder conseguir seguir em frente. Então uma vez que eu me vi sozinho num oceano, só eu - o náufrago - e Ele, Ele foi a minha única tábua de salvação.

(Bernardo, homem católico, 2004)

Entretanto, se o processo migratório pode propiciar condições – através das perdas e dificuldades que implica – para a descoberta de uma dimensão religiosa, esta nem sempre se dá, como se viu acima. Ou pode assumir formas as mais diversas. Para alguns, pode inclusive ser uma experiência totalmente inesperada, particularmente no caso dos que tinham um objetivo fundamentalmente material, ao migrar para os EUA. Assim, ao deparar-se com uma destas situações, um pastor evangélico observa:

Há muitos que dizem: eu vim para esse país aqui para fazer a vida, para ganhar dinheiro mas encontrei algo muito melhor do que o dinheiro, encontrei Jesus.
2) O condicionamento da experiência anterior
A forma como a experiência religiosa é vivida pelos migrantes, no país receptor, depende também de sua experiência anterior: os que já participavam ativamente em comunidades religiosas, no Brasil, costumam descobrir, com relativa facilidade, novas formas para dar continuidade a esta vivência, embora tal condicionamento não seja determinante.



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