Evoluir num conceito é, sem dúvida, um trabalho mais penoso do que limar, remendar e aguçar a mesma perspectiva até se ter um



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Encontro03.07.2018
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Evoluir num conceito é, sem dúvida, um trabalho mais penoso do que limar, remendar e aguçar a mesma perspectiva até se ter um resultado satisfatório.

Como os conceitos são ideológicos e implicam particularidades de visão e sentidos de humor diversos, alcançar algo que, não sendo Universal, fique na barreira do consensual e permita interpretações lineares é, para mim, extremamente difícil. Prefiro sempre seguir o instinto e aguardar as consequências.

Neste caso, pela seriedade do assunto, debati-me com duas visões legítimas do futuroi: uma em que pouco (ou mesmo nada) há a fazerii porque o “castelo de cartas” do ambiente já começou a cair numa cascata de acontecimentos sequenciais e imparáveis e que, portanto, nos permite fazer abordagens menos normativas; e uma visão optimistaiii, segundo a qual ainda vamos a tempo de travar a marcha e inverter a direcção dos acontecimentos. Somos levados, ao aceitar esta visão, pelo sentido de responsabilidade e pelo pânico de vir a saber, mais tarde, que algo podíamos ter feito para evitar a “tragédia”.

Saltitei, dividida, entre os dois conceitos e acabei por aterrar definitivamente no campo dos optimistas.

Por esse motivo, com o título “Sensiiv”, apresento um trabalho que pretende “chocar”, através da imagem e dos sons (apelando aos sentidos) para a evolução do fenómeno “aquecimento global” e, de forma simples e directa, apontar para os futuros possíveis.

Pretendo que o público perceba que qualquer um dos caminhos que o futuro planeta seguir é, no fundo, também, a consequência das nossas opções de vida e dos nossos actos do dia-a-dia.

Em síntese, o projecto consiste numa instalação/exposição a ser realizada, preferencialmente, num espaço redondov. Neste, existe um ecrã centralvi – “ecrã laser”: ecrã projectado por lasers, dando a ilusão de que está suspenso (ideia de provável realização) – a transmitir vídeos (animados) sobre o tema dado, o aquecimento global.

Em torno da sala, existem oito lissee-throughvii, individualmente direccionados a uma câmara negra. Cada uma das câmaras é composta por um ecrã laser a transmitir um vídeo, conjugado com som e jogo de luzes adequados.

Os lissee-through estão dispostos de acordo com uma sequência lógica: a evolução das condições de habitabilidade, presente nos primeiros seis vídeosviii e, os dois últimos vídeosix mostram duas previsões de futuro: uma melhor e outra pior.


i Pessimistas: Entre as décadas de 60 e 90, a espessura de gelo do Árctico tornou-se 40% mais fina.

A Tundra da Sibéria começou a derreter e a expor terra negra que, por sua vez, retém o calor do sol e potencia o seu efeito sobre a camada de gelo existente. Abriram-se canais de água líquida na costa norte da Sibéria.

O aumento brutal do consumo de combustíveis fósseis nas economias emergentes (ex: China e Índia) faz com que a emissão de gazes para a atmosfera atinja níveis nunca antes alcançados.

A situação evolui no sentido de “bola de neve” e, a análise dos dados permite concluir que o desfecho será inevitavelmente catastrófico.



Optimistas: Apesar das evidências e de não negarem os factos, há cientistas que consideram que a situação é reversível, devido à grande capacidade de adaptação e regeneração do nosso planeta.



ii Quando a visão é catastrófica, a elaboração de uma proposta “pedagógica” perde o sentido. Tanto mais que o fim, para além de conhecido, é inevitável.

Nesta perspectiva, fiz um primeiro projecto que se situava entre o absurdo e o surrealista. Consistia na encenação teatral da irresponsabilidade levada ao extremo e que culminava com a morte das personagens. Terminando com os causadores do problema (poluidores ambientais) propunha-se uma visão em que a punição era proporcional ao crime.

O conceito, porque a pena de morte é tabu e porque a análise se centrou na realidade e não na ficção, foi abandonado.

Em seu lugar surgiu uma “clínica de reabilitação” forçada, com base na ideia segundo a qual “grandes males implicam remédios maiores”. O recurso a tecnologias do futuro, como a leitura das sinapses do cérebro associada a tecnologia GPS, tornava a ideia difícil de colocar na prática. Uma vez mais esbarrei naquilo que não era pretendido.

Abandonei a perspectiva pessimista porque não encontrei formas bonitas de ver realidades feias.



iii Se existe a possibilidade de retorno e se as condições geográficas e climatéricas são reversíveis através de um comportamento adequado, considero que a única opção possível, para realizar este trabalho, será o de contribuir para uma “educação” ambiental.

Optei por uma atitude discreta e clara, sem incluir críticas ou juízos de valor. Proponho uma sequência de imagens e sons que mostrem a evolução do planeta a nível ambiental e económico. Mostra-se, desta forma, que um é sempre consequência do outro.

A clareza das imagens e a sua sequência permitem que o público retire, sem esforço, as ideias base e compreenda que, fazendo parte do todo, a sua participação terá, inevitavelmente, consequências. Por esse motivo, apresento no final dois filmes que apontam para o futuro: um que mostra a consequência da escalada da poluição e do fenómeno do aquecimento global e outro que mostra o resultado de comportamentos adequados e, consequentemente, a melhoria das condições de naturais.

É esta escolha que o público deverá ser tentado a fazer ao assistir à minha exposição/instalação.




iv Após algumas vezes a tentar encontrar um título que se “encaixasse” no projecto, optei por Sensi. Em italiano, “sensi” significa “sentidos”. É uma palavra que me evoca “coisas” puras, límpidas, claras, suaves, pacíficas; escolhi a palavra na língua italiana para fugir um pouco à norma de utilizar o inglês ou o português mas, sobretudo, porque é uma palavra “bonita”.

Uma vez que o meu projecto se baseia em sensibilizar através dos sentidos (nomeadamente a visão e a audição), achei por bem intitulá-lo desta maneira.





v O espaço quer-se redondo para que tudo seja visível. Desta forma apela-se à “honestidade” da exposição na medida em que não há surpresas ou mensagens escondidas.

Por outro lado, o redondo da sala apela simbolicamente à forma da Terra e à coincidência entre o ponto de partida e o ponto de chegada.

Sendo a sala ampla, a sua forma permite que o centro seja um espaço de debate colectivo e de comentário aberto às imagens e sons apresentados.



vi No ecrã central (projectado por lasers invisíveis) é mostrado um vídeo com imagens reais em vários pontos do globo. Inicialmente observa-se o planeta num todo e, de seguida, vários pontos nos diferentes são apontados, efectuando entre estes e a visão geral do planeta um jogo de “Zoom In” e “Zoom Out” – “Zoom In” ao aproximar do local específico e “Zoom Out” para voltar à observação do nosso planeta.



vii Como sempre, idealizar objectos/utensílios não aplica só pensarmos que são feitos, como, quando e porquê. Há que lhes dar algum nome/título, algo que os defina. No meu projecto, em volta da sala, encontram-se oito pares de “dois buracos” (ao nível médio dos olhos das pessoas - visão) com um par de auscultadores ao lado.

Recorrendo ao uso da língua inglesa (pela sua universalidade), e na forte característica que esta tem de se adaptar a outros idiomas, realizei um “jogo de palavras”, do qual surgiu a definição “Lissee Through”.

Derivação do termo:
Escutar – Listen (em inglês) – Lis

Ver – See (em inglês) – see

Através – Through (em inglês) – through
Em português, ficaria algo como “Escutar e ouvir através de”.


viii Os seis vídeos mostram a evolução da Terra até aos dias de hoje, no que diz respeito ao ambiente e à economia.

Nos três primeiros, os vídeos “positivos”, mostra-se uma evolução gradual da Terra, que se inicia num tempo primitivo e se prolonga até ao “início da poluição”; a partir daí, os próximos três vídeos mostram a evolução das catástrofes ambientais, as causas, os danos, as consequências. São vídeos alertantes e feitos a partir de imagens reais.

Nenhum dos seis filmes tem som; tem-se acesso a este através dos auscultadores posicionados ao lado dos “dois buracos de visão”.

Nos três primeiros vídeos pretende-se um som calmo, hipnotizante, relaxante, que evoque sentimentos de paz, serenidade e harmonia ao indivíduo. O jogo de luzes presente é feito a partir de leds, um sistema de luzes (lâmpadas coloridas) programado para mudar o tom de maneira regular e uniforme.



Nos três últimos vídeos, uma vez que as imagens são “fortes”, o som presente baseia-se apenas em ruído, sem pretexto, sem notas, sem melodia, sem frequência.



ix Os dois últimos filmes apresentam duas “hipóteses de futuro”: no primeiro, vê-mos a evolução da degradação do planeta, e o fim que este terá, inevitavelmente, se não se agir; o segundo vídeo mostra um melhoramento das condições terráqueas baseado nas atitudes e acções das pessoas, evocando a um “retorno” aos tempos “puros, limpos, leves”.





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