Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada



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O Golpe Militar

Era 1964. O mundo vivia os efeitos da tensão gerada pela Guerra Fria que, na América Latina, fomentava ameaças de subversão interna e de guerra revolucionária, ambas oriundas de países como Cuba, que inspiravam o ‘perigo comunista’ no continente. È nesse contexto que o Brasil sofre o golpe militar que tira do poder o então presidente João Goulart, que vinha passando por freqüentes desgastes. A partir daí, instaura-se um regime militar de governo, que vigoraria até 1985.



A MÚSICA
Durante o regime, a censura à produção cultural passa a perseguir qualquer idéia que fosse contrária aos interesses dos militares – mesmo aquela que não tivesse conteúdo diretamente político. Atinge, em cheio, o teatro, o cinema, a literatura, a imprensa e a música.

Nadando contra a maré, o cenário artístico cresce e se profissionaliza. Grandes festivais ascendem com suas músicas de protesto . Os órgãos censores, porém, não se interessam por divergências estéticas ou ideológicas. Ações são intensificadas e tomam forma nada flexível.

Com o País nas mãos, os militares implantam um projeto repressivo composto por um forte esquema de informações intragoverno. No artigo Prezada Censura: cartas ao regime militar, o historiador Carlos Fico explica esse plano com base no conteúdo da seqüência de atos: “O grupo militar conseguiu impor, ainda durante o governo de Castello Branco, o Ato Institucional n. 2, que reabriu a temporada de punições (o primeiro ato institucional permitiu punições por pouco tempo). Mas foi a subida de Costa e Silva à Presidência da República, e o AI-5, que indicaram a vitória indiscutível da linha dura”.

É importante, no entanto, ressaltar que a censura musical, inserida no setor com a denominação de Divisão de Censura de Diversões Públicas, não é algo novo. “Desde o Estado Novo a censura prévia vigiava de perto a música popular. Canções de teor político só eram divulgadas pelo rádio quando elogiosas ao Estado”, afirma Carlos Fico no mesmo artigo.


A censura à música está diretamente ligada à tradição dos bons costumes, calcada em torno de valores conservadores e, por isso, condenando veementemente o obsceno e o pornográfico. Além do cunho moral, há um olhar crítico para supostas idéias tendenciosas sobre o âmbito político.
Odette Lanziotti, ex-técnica de censura, relata que o Departamento de Censura designava certos censores para acompanhar as criações de determinados compositores. “Existiam censores mais específicos para determinados autores, para analisar as canções políticas”.

DIVISÃO DE CENSURA DE DIVERSÕES PÚBLICAS (DCDP)
Órgão responsável pela censura de produções artísticas durante o regime militar, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), tem sua gênese em um decreto de 1934, com o qual Getúlio Vargas criou o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Em 1939, surge um outro braço de sua inspiração: o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

Em entrevista ao censuramusical.com, a historiadora Maika Lóis conta que a legislação montada pelos militares a partir de 1964 foi adaptada, construída com base nas leis do Estado Novo. “Com o golpe, logo nos primeiros momentos se tem a visão de que era necessário centralizar essa censura. Em 1966 é promulgada uma lei que concentrava o departamento de censura em Brasília”. Com a necessidade de racionalização dos serviços, muitos funcionários são remanejados de outros departamentos governamentais, criando assim uma equipe improvisada e muitas vezes desqualificada.

Para o pesquisador Alexandre Stephanou, em razão disso o ato de vetar determinada obra acaba se tornando uma questão pessoal. “A censura é uma decisão de foro íntimo, misturada com as necessidades sociais do momento e com padrões estéticos e artísticos”.Instalada oficialmente no ano de 1972, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), subordinada ao Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça, sofre forte crítica por parte da sociedade.
Processo de aprovação
O processo de aprovação das músicas tinha como passo inicial o envio da letra à DCDP, por parte da gravadora ou do próprio artista. Caso a música não fosse liberada, a gravadora poderia recorrer em grau de recurso que seria julgado pelos censores de Brasília, onde a divisão se concentrava inicialmente.

Mais tarde, a demanda mudou, como explica a ex-técnica de censura Odette Lanziotti: “A censura no início ficou concentrada em Brasília mas, depois, com o aumento do trabalho, houve a necessidade de criar um departamento também no Rio”.


Embora na maioria das vezes influenciada por percepções particulares, as decisões seguiam uma ‘lógica’ interna. “Os censores tinham que tomar muito cuidado com as orientações dos chefes, que distribuíam as músicas. Ás vezes a recomendação era para prestar mais atenção na política, no duplo sentido. Em outras era para ficar atento na preservação da moral e dos bons costumes”, relata a ex-técnica de censura.
GRAVADORAS x DCDP
Depois da determinação da obrigatoriedade do envio de toda e qualquer obra artística para análise na DCDP, as gravadoras passam a dispor de um profissional especializado nessa função. Geralmente, essa atribuição era designada a um advogado com bom trânsito no referido órgão do governo – aliado ideal para trabalhar na liberação dos processos.

Dr. João Carlos Muller Chaves, na época advogado da Phonogram e Odeon-EMI, é nome muito citado nos documentos obtidos nos Arquivos de Brasília e Rio de Janeiro. “Acabei ficando muito próximo das pessoas que atuavam na censura. Eram seres humanos normais, só estavam desempenhando funções que lhes eram atribuídas. Um bom relacionamento com os censores facilitava o processo de liberação”.

Muller Chaves também ressalta a questao do critério no órgão de censura. “O critério era não ter critério. Às vezes eles barravam determinada música por não entenderem o que estava escrito ali. Não estavam preparados para aquela atividade, foram remanejados de outros departamentos e caíram em uma função jamais imaginada por eles”.

O FIM DA CENSURA


Com a abertura política de 1979, possibilitada após a anistia concedida pelo general João Batista Figueiredo, é criado o CSC (Conselho Superior de Censura) que tem como objetivo abrandar a forte atuação dos censores. É o primeiro passo para a extinção, gradual, dos órgãos censores do governo federal.

Por meio do Decreto nº 83.973, de 13 de setembro de 1979, o ministro da Justiça Petrônio Portella cria o conselho, que teria a competência de apenas rever, em grau de recurso, as decisões censórias proferidas pelo diretor-geral do DPF (Departamento de Polícia Federal) e da DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas).

O historiador e jornalista Ricardo Cravo Albin, no livro Driblando a Censura, relata o abrandamento trazido pelo novo conselho. “O CSC era o órgão de recursos das partes censuradas, das decisões tomadas pela DCDP. Funcionava como uma instituição de colegiado instituído pelo ministro da Justiça para dirimir, amenizar, tornar mais digerível a brutalidade do órgão onde a censura era exercitada, a famigerada DCDP”.
O CSC é representado por organizações governamentais e instituições da sociedade civil, que com ele passam a participar da liberação de obras artísticas. Participavam do conselho o governo (Ministério da Justiça, do Itamaraty, das Comunicações, Conselhos Federais de Cultura e Educação e Embrafilme) e instituições não-governamentais (Associação Brasileira de Imprensa, Academia Brasileira de Letras, Associação Brasileira dos Críticos de Cinema e Abert)
Muitas letras, no entanto, continuaram sendo censuradas pela DCDP. É o caso de composições de astros da MPB como Chico Buarque e Raul Seixas, bem como autores menos conhecidos. Taiguara e Chico Julião, por exemplo, sofreram vetos de suas criações musicais por meio da censura política.
O ano de 1985 é marcado pelo final do último governo militar, que tinha como presidente o general João Baptista Figueiredo. Todos esperam, com a mudança de regime, o fim da censura no governo do novo presidente, que viria a ser José Sarney, vice de Tancredo Neves – eleito pelo Colégio Eleitoral.

No entanto, o deputado Fernando Lyra, nomeado para o Ministério da Justiça – órgão responsável pela DCDP e pelo CSC –, surpreende: decide manter toda a estrutura da DCDP e desativar o CSC. Somente em abril de 1987, data em que Lyra é substituído pelo deputado Paulo Brossard, o CSC volta a funcionar, dando início, enfim, ao fim dos tempos de censura.


Esse processo se completa com a nova Constituição, promulgada pelo deputado Ulisses Guimarães no dia 5 de outubro de 1988. É, finalmente, decretada a extinção da censura, atendendo às antigas e constantes reivindicações da classe artística.

Tropicalismo

"A Tropicália foi o avesso da Bossa Nova". Assim o compositor e cantor Caetano Veloso define o movimento que, ao longo de 1968, revolucionou o status quo da música popular brasileira. Dessa corrente, liderada pelo baiano de Santo Amaro da Purificação, também participaram ativamente os compositores Gilberto Gil e Tom Zé, os letristas Torquato Neto e Capinam, o maestro e arranjador Rogério Duprat, o trio Mutantes e as cantoras Gal Costa e Nara Leão. Diferentemente da Bossa Nova, que introduziu uma forma original de compor e interpretar, a Tropicália não pretendia sintetizar um estilo musical, mas sim instaurar uma nova atitude: sua intervenção na cena cultural do país foi, antes de tudo, crítica.

A intenção dos tropicalistas não era superar a Bossa Nova, da qual Veloso, Gil, Tom Zé e Gal foram discípulos assumidos, especialmente do canto suave e da inovadora batida de violão de João Gilberto, conterrâneo dos quatro. No início de 1967, esses artistas sentiam-se sufocados pelo elitismo e pelos preconceitos de cunho nacionalista que dominavam o ambiente da chamada MPB. Depois de várias discussões concluíram que, para arejar a cena musical do país, a saída seria aproximar de novo a música brasileira dos jovens, que se mostravam cada vez mais interessados no pop e no rock dos Beatles, ou mesmo no iê-iê-iê que Roberto Carlos e outros ídolos brazucas exibiam no programa de TV Jovem Guarda. Argumentando que a música brasileira precisava se tornar mais "universal", Gil e Caetano tentaram conquistar adesões de outros compositores de sua geração, como Dori Caymmi, Edu Lobo, Chico Buarque de Hollanda, Paulinho da Viola e Sérgio Ricardo. Porém, a reação desses colegas mostrou que, se aderissem mesmo à música pop, tentando romper a hegemonia das canções de protesto e da MPB politizada da época, os futuros tropicalistas teriam que seguir sozinhos.

Consideradas como marcos oficiais do novo movimento, as canções Alegria, Alegria (de Caetano) e Domingo no Parque (de Gil) chegaram ao público já provocando muita polêmica, no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, em outubro de 1967. As guitarras elétricas da banda argentina Beat Boys, que acompanhou Caetano, e a atitude roqueira dos Mutantes, que dividiram o palco com Gil, foram recebidas com vaias e insultos pela chamada linha dura do movimento estudantil. Para aqueles universitários, a guitarra elétrica e o rock eram símbolos do imperialismo norte-americano e, portanto, deviam ser rechaçados do universo da música popular brasileira.

Afinados com a contracultura da geração hippie, os tropicalistas também questionaram os padrões tradicionais da chamada boa aparência, trocando-a por cabelos compridos e roupas extravagantes.
No entanto, não só o júri do festival mas grande do público aprovou a nova tendência. A canção de Gil saiu como vice-campeã do festival, que foi vencido por Ponteio (de Edu Lobo e Capinam). E, embora tenha terminado como quarta colocada, Alegria, Alegria tornou-se um sucesso instantâneo nas rádios do país, levando o compacto simples com a gravação de Caetano a ultrapassar a marca de 100 mil cópias vendidas – número alto para a época.


Confrontos

Com tantas provocações ao status quo, as reações à Tropicália também tornaram-se mais contundentes. Num debate organizado pelos estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, em junho de 1968, Caetano, Gil, Torquato e os poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari, que manifestavam simpatia pelo movimento, foram hostilizados com vaias, bombinhas e bananas pela linha dura universitária. O confronto foi mais violento ainda durante o III Festival Internacional da Canção, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, em setembro. Ao defender com os Mutantes a canção É Proibido Proibir, que compôs a partir de um slogan do movimento estudantil francês, Caetano foi agredido com ovos e tomates pela platéia. O compositor reagiu com um discurso. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?", desafiou o baiano.




Morte decretada
Nessa época, com o endurecimento do regime militar no país, as interferências do Departamento de Censura Federal já haviam se tornado costumeiras; canções tinham versos cortados, ou eram mesmo vetadas integralmente. A decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, oficializou de vez a repressão política a ativistas e intelectuais. As detenções de Caetano e Gil, em 27 de dezembro, precipitaram o enterro da Tropicália, embora sua morte simbólica já tivesse sido anunciada, nos eventos do grupo.

1-Alegria, Alegria
Autor: Caetano Veloso

Intérprete: Caetano Veloso e Beat Boys
Gênero: Rock


Ano: 1967

Canção lançada em Caetano Veloso, álbum de 1967, foi apresentada ao vivo no III Festival da TV Record, em 1967. A canção chocou os chamados "tradicionalistas" da música popular brasileira devido a simples presença de guitarras. No ambiente político-cultural da época, setores de esquerda classificavam a influência do Rock como alienação cultural, o que também foi sentido por Gilberto Gil quando apresentou Domingo no Parque no mesmo festival.


O ideal exposto pela letra foi reforçado pelo rock cru do grupo argentino Beat Boys, que ainda colaborou com a estética visual. "O aspecto do grupo de rapazes de cabelos longos portando guitarras coloridas representava de modo gritante tudo o que os nacionalistas da MPB mais odiavam e temiam", explica Caetano no livro Verdade Tropical. A idéia de Caetano - já pensando na introdução do tropicalismo, ao lado de Gilberto Gil - era a de fazer uma espécie de "marcha de carnaval transformada", cuja letra expusesse as referências pop da época. O arranjo foi fortemente influenciado pelo trabalho dos Beatles.

Alegria, Alegria" foi a música que apresentou o movimento tropicalista ao Brasil. Radicalmente inovativo no cenário musical, o movimento assimilou a cultura pop aos gêneros nacionais; Profundamente crítico nos níveis políticos e morais, o tropicalismo finalizou sendo reprimido pelo regime autoritário militar.




Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes,


Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes


Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e brigitte bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

Por entre fotos e nomes


Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Ela pensa em casamento


E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento,
Eu vou

Eu tomo uma coca-cola


Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes


Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do brasil

Ela nem sabe até pensei


Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não...
2- É proibido proibir
Autor: Caetano Veloso

Intérprete: Caetano Veloso e os Mutantes
Gênero: Rock


Ano: 1968
Um ano depois do impacto causado pelas guitarras nas canções “Alegria, alegria” (Caetano) e “Domingo no parque” (Gil), apresentadas no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, Caetano Veloso e Gilberto Gil voltaram a surpreender o público no III FIC, Festival Internacional da Canção, promovido pela Rede Globo.

Caetano, acompanhado pelos Mutantes, defendeu “É proibido proibir” e Gilberto Gil, com os Beat Boys, “Questão de Ordem”. A apresentação de “É proibido proibir” acabou se transformando numa grande confusão naquela noite de domingo, 15 de setembro de 1968. Na final paulista do FIC, realizada no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, a música de Caetano foi recebida com furiosa vaia pelo público que lotava o auditório.

A musica, fora inspirada pelos grafites que cobriram os muros de paris na rebelião estudantil de 68.Exatos três meses após a apresentação de Caetano e os Mutantes , o general Costa e Silva decretou o AI-5, o ato que permitiria a censura submeter a cultura nacional à extrema censura

Menos de um ano depois da apresentação, Caetano e Gil foram presos pelo governo militar. Assim como Chico Buarque (o mais censurado dos compositores brasileiros), foram exilados de seu país.



A bossa nova e o cinema novo já tinham ficado velhos, e o tropicalismo daria seus ultimos suspiros. Depois deles o dilúvio da censura.


A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
E estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta há o porteiro, sim
E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim
E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir


3- Pra não dizer que eu não falei das flores

Autor: Geraldo Vandré

Gênero: MPB

Ano:1968
Canção escrita e interpretada por Geraldo Vandré. Ficou em segundo lugar no III Festival Internacional da Canção de 1968 e, depois disso, teve sua execução proibida durante anos, pela ditadura militar brasileira. A melodia da canção tem o ritmo de um hino, e sua letra possui versos de rima fácil (quase todos em não), que facilitam memorizá-la, logo era cantada nas ruas. O sucesso de uma canção que incitava o povo à resistência levou os militares a proibi-la, usando como pretexto a "ofensa" à instituição contida nos versos "Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / de morrer pela pátria e viver sem razão". Em 1979 a gravadora RGE/FERMATA incluiu a música “Pra não dizer que não falei das flores” (Caminhando), gravado ao vivo no Maracanãzinho durante o 3º Festival Internacional da Canção, cuja proibição impediu o seu lançamento desde o ano de 1968.


Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais braços dados ou não,
Nas escolas, nas ruas, campos, construções,
Caminhando e cantado e seguindo a canção,



Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,



Pelos campos a fome em grandes plantações,
Pelas ruas marchando indecisos cordões,
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão,
E acreditam nas flores vencendo o canhão,



Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,



Há soldados armados, amados ou não,
Quase todos perdidos de armas na mão,
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição:
De morrer pela pátria e viver sem razão,



Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,



Nas escolas, nas ruas, campos, construções,
Somos todos soldados, armados ou não,
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais, braços dados ou não,
Os amores na mente, as flores no chão,
A certeza na frente, a história na mão,
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição,
Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.



4 - Apesar de você
Autor e Intérprete: Chico Buarque

Gênero: Samba / MPB

Ano: 1970
Canção escrita e originalmente interpretada por Chico Buarque em 1970. Lançada neste mesmo, atingiu a marca de cem mil cópias vendidas. Além disso, o samba estourou nas rádios de todo o país, virando mania nacional. Foi regravado por Clara Nunes em 7 de janeiro de 1971. Assim como a maioria, a cantora acreditava que a letra da canção se tratava de uma briga entre namorados.

Em fevereiro de 1971, o jornalista Sebastião Nery, do Tribuna da Imprensa, publicou uma nota em sua coluna dizendo que seu filho e os colegas dele cantavam "Apesar de Você" como se estivessem cantando o Hino Nacional. Como resultado, Nery foi chamado para depor na polícia. Semanas depois, a execução pública da canção foi vetada pelo governo, que finalmente compreendeu sua mensagem. Os oficiais do regime invadiram a sede da Philips e destruíram as cópias restantes do disco. O censor que aprovou a canção também foi punido. Os oficiais do governo, no entanto, não destruíram a matriz, o que possibilitou a reedição da versão original da gravação. Num interrogatório, Buarque foi indagado sobre quem era o "você" da letra da canção. "É uma mulher muito mandona, muito autoritária", teria respondido o cantor.

A censura de "Apesar de Você" teve um impacto negativo no relacionamento entre Chico e os censores, que duraria até o final da ditadura. Chico seria implacavelmente marcado pelos censores, sofrendo suas letras as mais absurdas rejeições. A situação chegou ao ponto de ele se disfarçar, sob os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, para aprovar três composições, uma das quais, "Acorda Amor", foi incluída no LP Sinal Fechado de 1974. Descoberta a farsa, a censura criou novas exigências: toda letra apresentada teria que ser acompanhada de cópias da carteira de identidade e do CPF do compositor. Devido à censura, a canção só seria incluída num álbum do cantor em 1978, quando foi lançada como última faixa de Chico Buarque (1978).
Consequências para Clara Nunes
De maneira semelhante, o presidente da Odeon, Henry Jessen, que era advogado, foi intimado para dar explicações sobre as intenções de Clara Nunes ao regravar a canção. Jessen, que mantinha um ótimo relacionamento com os militares, fez um acordo com o governo para colocar um fim ao mal-entendido e provar que Clara não teve qualquer intenção político-partidária ao regravar "Apesar de Você". Ficou combinado que a cantora gravaria, num compacto simples, o "Hino das Olimpíadas do Exército", composto por Miguel Gustavo, publicitário responsável por "Pra frente, Brasil". Também interpretaria a canção na cerimônia de abertura das Olimpíadas do Exército de 1971 em Belo Horizonte.

Assim como Clara, outros artistas se viram obrigados a fazer publicidade para o governo. Em 1972, Elis Regina foi convocada pelos militares para cantar o Hino Nacional durante as festividades do sesquicentenário da Independência. Isto porque havia declarado à imprensa holandesa que o Brasil era governado por "gorilas". Temendo represálias, aceitou o "convite".





(Crescendo) Amanhã vai ser outro día x 3

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de você


amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você aonde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento


Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza


Ora tenha a fineza
de “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

(Coro2) Apesar de você


Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar


Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir


E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

(Coro3)Apesar de você


Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar


Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

(Coro4)Apesar de você


Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal



05 - Pra Frente Brasil
Composição: Miguel Gustavo

Intérpretes: Os incríveis

Gênero: Hino de Futebol

Ano: 1970
Em 1970, o povo acompanhou a seleção em jogos transmitidos pela primeira vez pela televisão. O impacto era visível. Poucos privilegiados deram-se ao luxo de ver a transmissão em cores, adiantando-se em dois anos à chegada da tecnologia ao país, que se confirmaria em 1972. No meio da vibração do povo, ecoava com grande sucesso por todo o país, o hino da copa, “Pra Frente Brasil”, de autoria de Miguel Gustavo.

O sucesso do hino e a empolgação extasiante do povo, fizeram com que o governo começasse a usar a seleção como objeto de propaganda política.

Ao vencer o tri-campeonato mundial de futebol em junho 1970, no México, o Brasil assistiu a uma das maiores campanhas publicitárias de massa de sua história. A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem-sucedida como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a imagem heróica dos seus jogadores.

Na época da Copa de 1970, o Brasil vivia o auge do que foi chamado de “Milagre Econômico”, que aconteceu de 1969 a 1973, no governo do presidente general Emílio Garrastazu Médici.

O milagre econômico proporcionou o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), que atingiu um crescimento anual de cerca de 11,2%, e uma inflação estabilizada em 18%. A produção industrial aumentou, proporcionando melhores níveis de emprego. A época coincidia com os juros baixos no mercado internacional, que passava por um momento de tranqüilidade, investindo fortemente nos países em desenvolvimento, visando os grandes recursos naturais dessas nações como fiança aos empréstimos concedidos. Também as multinacionais faziam os seus investimentos no país. A facilidade de créditos internacionais levaria o Brasil a contrair, na época do regime militar, a maior dívida externa da sua história.

Diante da prosperidade que parecia infindável, o governo militar aumentou a arrecadação de impostos. Para permanecer no poder, os militares investiam em fortes campanhas de propaganda. Frases que evidenciavam a exaltação militar eram vinculadas nas rádios, televisões e jornais, como “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” , “Ninguém Segura Este País”, ou “Pra Frente Brasil”. A propaganda era estimulada através da música, de programas de televisão, jornais, revistas e rádios.

Aproveitando-se da facilidade dos empréstimos internacionais, o milagre econômico gerou a era das obras monumentais, como a construção da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, da usina nuclear de Angra dos Reis, de barragens gigantescas, como a de Itaipu.

No avesso da era do milagre, que beneficiou apenas a uma classe média emergente, estavam os arrochos salariais, favorecendo poucos capitalistas brasileiros e essencialmente, aos capitalistas de multinacionais. Os grandes investimentos estatais em obras colossais geraram mais o endividamento do país do que empregos seguros. Durante o período, houve quase que um abandono do governo aos programas sociais.

"Noventa Milhões em Ação

Pra Frente Brasil

Do Meu Coração

Todos juntos vamos

Pra Frente Brasil

Salve a Seleção!

De repente é aquela corrente pra frente

Parece que todo Brasil deu a mão

Todos ligados na mesma emoção

Tudo é um só coração

Todos juntos vamos

Pra frente Brasil! Brasil!

Salve a seleção!"

06-Eu te amo meu Brasil
Autores: Dom e Ravel

Intérpretes: Os incríveis

Gênero: MPB

Ano: 1970
Ingressando na carreira artística por volta do início dos anos 1960, a dupla, já como Dom & Ravel, lançou em 1969 o primeiro LP, "Terra boa", que trazia " Você também é responsável", transformada, dois anos depois, pelo ex-ministro da Educação, Jarbas Passarinho, em hino do Mobral, o Movimento Brasileiro de Alfabetização. Mas seria na virada dos anos 1970 que dupla atingiria seu maior sucesso, através de sua composição "Eu te amo meu Brasil", gravada pelo conjunto Os incríveis. A obra rendeu-lhes, ao mesmo tempo, sucesso e rotulações de bajuladores da direita. Tais críticas ocorreram devido ao caráter ufanista,daquela canção, que foi utilizada, no contexto político daquele momento, em pleno auge da ditadura, pelos governos militares.
O sucesso de "Eu te amo meu Brasil" teria levado o então governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré, a sugerir ao ex-presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, que a citada canção fosse transformada em hino nacional. Médici nada teria respondido. Mas a notícia teria sido divulgada na imprensa e os artistas começaram a ser apontados como arautos da ditadura. A música, segundo Ravel, foi composta, na verdade, para aproveitar a onda do tricampeonato da seleção de futebol.
O nome de Dom & Ravel está, até os dias de hoje, ligado ao sucesso “Eu te amo meu Brasil”. A canção, que ecoou pelo país durante os tempos em que se alardeava o milagre brasileiro e se comemorava os bons resultados do futebol, foi rotulada como símbolo de um governo militar que comemorava a vitória para si próprio.

Patrulha Ideológica


Durante a ditadura os chamados patrulheiros ideológicos defendiam a “arte engajada”. A censura e a intolerância não eram exclusividade da direita ou do regime. Artistas, estudantes e jornalistas engajados eram tão repressivos quanto os censores da ditadura. Vigiando toda a produção cultural do país, condenavam qualquer possível simpatizante do regime militar ou omissos politicamente. As críticas eram tão duras que muitas vezes encerravam a carreira de determinados artistas os os obrigavam por vias tortas a se posicionarem. Para o jornalista Henfil, um dos colaboradores de O Pasquim, importante semanário publicado de 1969 a 1991, não havia meio termo: ou se é contra ou a favor da ditadura. Em sua coluna entitulada “o cemitério dos mortos vivos” ele fazia o enterro daqueles que simpatizavam ou se omitiam ao regime militar.

O Pasquim, teve papel importante para sacramentar o fim de carreira prematura dos irmãos Dom e Ravel. Não que os artistas não tivessem sua parcela de culpa, mas como formadores de opinião, os jornalistas foram implacáveis e não pouparam críticas diante dos fatos. Bastou para que O Pasquim os taxassem de mediocres. Eles foram rejeitados pelo público de esquerda que associou suas composições como ufanistas.


"As praias do Brasil ensolaradas,

O chão onde o país se elevou,

A mão de Deus abençoou,

Mulher que nasce aqui tem muito mais amor.

O céu do meu Brasil tem mais estrelas.

O sol do meu país, mais esplendor.

A mão de Deus abençoou,

Em terras brasileiras vou plantar amor.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!

Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!

Ninguém segura a juventude do Brasil.

As tardes do Brasil são mais douradas.

Mulatas brotam cheias de calor.

A mão de Deus abençoou,

Eu vou ficar aqui, porque existe amor.

No carnaval, os gringos querem vê-las,

No colossal desfile multicor.

A mão de Deus abençoou,

Em terras brasileiras vou plantar amor.

Adoro meu Brasil de madrugada,

Nas horas que estou com meu amor.

A mão de Deus abençoou,

A minha amada vai comigo aonde eu for.

As noites do Brasil tem mais beleza.

A hora chora de tristeza e dor,

Porque a natureza sopra

E ela vai-se embora, enquanto eu planto amor."

07 - Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos
Autores: Roberto Carlos / Erasmo Carlos

Intérprete: Roberto Carlos

Gênero: MPB Romântico

Ano: 1971
Esta letra é uma homenagem a Caetano Veloso feita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos, ela foi composta como uma forma de ser solidário ao Caetano, que encontrava-se no exílio, em Londres, para onde fora deportado em 1969 pela Ditadura Militar. Caetano já havia composto para Roberto algumas músicas que se tornaram clássicos. Com o amigo em desgraça, resolveu fazer algo para homenageá-lo. Roberto nunca teve problemas com a censura, muito menos com a repressão militar. Então, como fazer um texto que fosse ao mesmo tempo engajado politicamente, e romântico, como sempre foram suas letras? a saída encontrada foi em nenhum momento citar o nome do Caetano, mas enfatizar sua marca registrada naquela época: seus enormes cabelos encaracolados (aliás, até pouco tempo atrás pouquíssimas pessoas tinham conhecimento que a saudosa personagem do poema era o Caetano, e não uma figura feminina, marca registrada do Roberto).
A letra é bem simples e não foge às suas características. O legal está justamente no inusitado da coisa; o clima romântico da melodia nos faz imaginar que é a saudade de uma pessoa apaixonada pela ausência da outra, e não o protesto de um amigo solidário. E na estrutura da letra o Roberto procurou colocar justamente aquilo que o Caetano possivelmente mais sentia saudade na fria Londres: o mar da Bahia, o que só ajudou para fixar a marca dos famosos caracóis de Caetano.



Um dia a areia branca seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos a água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar
E ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos


Uma historia pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

As luzes e o colorido


Que você vê agora
Nas ruas por onde anda,
na casa onde mora
Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente

Você anda pela tarde


E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho
Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso.

08 - Ouro de Tolo

Autor e Intérprete: Raul Seixas

Gênero: Rock

Ano: 1973
A canção foi uma bofetada no conformismo nacional diante das vantagens ilusórias oferecidas pela ditadura. “Ouro de tolo” é o nome que se dava na Idade Média às promessas de falsos alquimistas. Transpondo a idéia para a década de 1970, Raul Seixas reduz a nada as aspirações da classe média que apoiou o milagre econômico da ditadura: a euforia regada pela estabilidade social do cidadão respeitável e por uma visão religiosa conformista era simplesmente um “ouro de tolo”.

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor


Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito


Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso


Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente


Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir


E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor


Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah! Mas que sujeito chato sou eu


Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho


Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social

Eu que não me sento


No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais


No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Eu que não me sento


No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais


No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

09 - Como Nossos Pais
Autor: Belchior

Intérprete: Elis Regina
Gênero: MPB
Ano:1976

A discussão sempre presente na relação entre pais e filhos é a alma dessa canção. Quando somos jovens sempre achamos que nossos pais estão errados, que a educação que recebemos poderia ter sido melhor, porém quando crescemos e temos filhos repetimos o mesmo que nossos pais faziam conosco. É isso que Belchior quer mostrar na letra dessa bela música. Os versos “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais” deixam tudo bem claro. Nós até mudamos, mas ainda vivemos do mesmo modo como os nossos pais viviam.
Alem de tudo isso, Belchior também quer mostrar que o mundo pouco mudou. Por mais que as tentativas de mudanças fossem aplicadas, o modo como vemos o mundo é o mesmo.

Como os nossos pais é um hino à juventude que amadurece percebendo que o mundo é uma constante, porque é feito de homens que se acomodam e de outros que lutam por mudança”.


Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais



Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais



Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu 'tô por fora', ou então que eu 'tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal



Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos

Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
como nossos pais

10 - Cálice
Autores: Chico Buarque e Gilberto Gil

Interpretação: Chico Buarque e Milton Nascimento

Gênero: MPB

Ano: 1978

"Cálice" é uma canção escrita e originalmente interpretada por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973. Na canção percebe-se um elaborado jogo de palavras para despistar a censura da ditadura militar. A palavra-título, por exemplo, é cantado pelo coral que acompanha o cantor de forma a soar como um raivoso "Cale-se!".

A música foi composta para o show Phono 73, que a gravadora Phonogran (ex-Philips, e depois Polygram) organizou no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, em maio de 1973. No dia do show, quando os dois começaram a cantar "Cálice" tiveram os microfones desligados. De acordo com Gil, a canção havia sido apresentada à censura e eles foram recomendados a não cantá-la. Os dois haviam decidido, então, cantar apenas a melodia da canção, pontuando-a com a palavra "cálice", mas isto também não foi possível. Segundo o relato do Jornal da Tarde, a Phonogram resolveu cortar o som dos microfones, para evitar que a música, mesmo sem a letra, fosse apresentada. Irritado, Chico tentou os microfones mais próximos, que também foram cortados em seguida.

A canção foi liberada cinco anos depois, tendo sido lançada em Chico Buarque (1978) ao lado de "Apesar de Você" e "Tanto Mar", outras canções censuradas pelo regime. Na gravação, as estrofes de Gil, que trocou a PolyGram pela WEA, foram interpretadas por Milton Nascimento, fazendo coro com o MPB4.




(refrão)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga


Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

(refrão)

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

(refrão)

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

(refrão)

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça


11 - O bêbado e a equilibrista
Autor: João Bosco e Aldir Blanc

Intérprete: Elis Regina
Gênero: MPB
Gravadora: WEA (compacto simples)


Ano:1979
O samba de Aldir Blanc e João Bosco, gravado pela primeira vez por Elis Regina, em 1979, tornou-se uma espécie de hino da luta pela anistia ampla, geral e irrestrita que ganhou grande impulso no Brasil e no exterior no final da década de 70.
No segundo semestre de 1979, diante do crescimento do clamor pela anistia, o novo presidente, general João Baptista Figueiredo, propôs ao Congresso a aprovação de uma lei inicialmente limitada apenas aos que não tivessem cometido “crimes de sangue”, o que excluía os que pegaram em armas contra o regime militar. Na prática, porém, as restrições foram sendo derrubadas pela pressão da sociedade e todos os presos, exilados e banidos políticos acabaram beneficiados.
Alguns esclarecimentos: a) provavelmente o verso “caía a tarde como um viaduto” é uma referência à súbita e inexplicada queda do viaduto Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, em 1971, no auge da ditadura militar; b)Henfil era um dos principais cartunistas do país e seu traço uma das mais importantes manifestações de resistência ao regime militar. Seu irmão Herbert de Souza, o Betinho, estava então exilado no Canadá. Depois de retornar ao Brasil, Betinho lideraria no anos 90 uma das maiores campanhas sociais do país, a campanha contra a fome; c) as Marias e Clarisses da música simbolizam as mulheres dos presos políticos mortos sob tortura. Clarisse é o nome da mulher do jornalista Vladimir Herzog; Maria, o da esposa do operário Manuel Fiel Filho. Os dois tinham sido assassinados sob tortura nas dependências do Exército, em São Paulo, nos anos anteriores.

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.



12 - E vamos à Luta
Autor e Intérprete: Gonzaguinha

Gênero: Samba

Ano:1980

Pelo fato de compor quase sempre músicas com forte apelo denunciando as injustiças sociais, Gonzaguinha foi "chamado" muitas vezes ao DOPS Departamento de Ordem Política e Social e teve suas músicas censuradas. Aliás, essa era uma marca em sua carreira. Suas letras eram provocativas e, em virtude do regime militar, estava sempre tendo que driblar a censura. Em 73 se apresentou no programa de Flávio Cavalcante e causou grande espanto pelo teor de suas músicas. Recebeu uma advertência da censura e muitas críticas, mas teve um lado positivo. Seu compacto que estava encalhado nas prateleiras foi rapidamente vendido.

EM meados dos anos 80, com o crescimento dos movimentos sociais no país e a gradual abertura política, a Música “E vamos à luta”, foi incendiária!

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera, enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

Aquele que sabe que é negro


o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser
brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos por aí...

Eu acredito é na rapaziada...




13-Carimbador Maluco
Autor e Intérprete: Raul Seixas

Gênero: Música Infantil

Ano: 1983

Em 1983, Raul Seixas participou do especial infantil da Rede Globo com a música O Carimbador Maluco. Raul, fantasiado, dançou entre criancinhas na Rede Globo de Televisão. A música foi um sucesso e entrou no recém-lançado LP Raul Seixas, que acabou ganhando Disco de Ouro. Contudo, foi também motivo de muitas críticas a Raul. Acusavam-no de ter se vendido ao sistema com uma música imbecil.



Foram poucos aqueles perceberam que a música continha pesadas críticas à burocracia do governo militar, que teimava em selar, registrar, carimbar, avaliar, rotular, adiando e atrapalhando todo tipo de atividade. Abaixo, umas das fontes de inspiração de Raul Seixas, um texto de Pierre-Joseph Proudhon um dos mais influentes teóricos do anarquismo:
“Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm o título, nem a ciência, nem a virtude (...).
Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patentiado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido. (...)”


5… 4… 3… 2…
– Parem! Esperem aí.
Onde é que vocês pensam que vão?


Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!!
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!!
Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar….
Pra Lua: a taxa é alta,
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim,
Sim, sim, sim.
O seu Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar….
Pra Lua: a taxa é alta,
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim,
Sim, sim, sim.
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!
Mas ora, vejam só, já estou gostando de vocês
Aventura como essa eu nunca experimentei!
O que eu queria mesmo era ir com vocês
Mas já que eu não posso:
Boa viagem, até outra vez.
Agora…
O Plunct Plact Zum
Pode partir sem problema algum
Plunct Plact Zum
Pode partir sem problema algum
(Boa viagem, meninos.
Boa viagem).






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