“Estratégia é conspiração para o sucesso”



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Encontro15.12.2017
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Estratégia é conspiração para o sucesso
Luiz Fernando da Silva Pinto, 64 anos, é professor da Fundação Getúlio Vargas. Em Concórdia desde de quinta-feira, dia 14, desenvolveu a disciplina Estratégia de Empresas no MBA em Gestão Empresarial – Senac/FVG – e, ontem à noite, deu palestra sobre pensamento estratégico no Clube 29 de Julho. Com os livros A Estratégia Romanov e os meninos-falcão e Sagres, a revolução estratégica, venceu duas vezes o prêmio Jabuti. Define que “estratégia é uma conspiração para o sucesso”. Nesta entrevista a O Jornal, afirma que “estratégico é aquele que simplifica os problemas”. Segundo o professor carioca, não existem problemas grandes, e sim, problemas que ainda não foram fatiados.
LF, como é conhecido, trabalhou muitos anos com o ex-ministro Mário Henrique Simonsen. Foi presidente da LBA – Legião Brasileira de Assistência – no governo de Ernesto Geisel e teve passagem rápida como secretário geral adjunto no Conselho de Desenvolvimento Social no governo de João Figueiredo. Aponta que o desafio do Brasil é retirar da pobreza de 30 a 40 milhões de habitantes, “estoque de pobres que vem desde 1940”.
O JORNAL – Qual a sua definição para pensamento estratégico?
Luiz Fernando da Silva Pinto – É uma arte, uma competência que vai nos colocar na hora certa, no lugar certo e onde as coisas devem acontecer. É um sentido de momento, de lugar, um sentido de timming extraordinário.
OJ – O senhor estuda o assunto há quanto tempo?
LF – Eu estudo o assunto desde que comecei a vida como escraviário – mistura de escravo com estagiário – do Mário Henrique Simonsen nos idos de 1961. Simonsen foi das pessoas mais importantes no pensamento estratégico do Brasil. Basicamente, o pensador estratégico é aquele que simplifica os problemas, que não vê problemas difíceis e entra sempre bem-humorado dentro da questão.
OJ – No estudo do pensamento estratégico o senhor tem buscado ensinamentos da história da humanidade.
LF – Fui muito influenciado por Peter Drucker. Ele diz que não existe nenhum problema hoje ou amanhã que não tenha sido resolvido no passado. Quando voltamos ao passado, tiramos muito da emoção do dado do presente ou a ansiedade em relação ao dado futuro. É um campo interessante para observar e trabalhar. Nós ficamos razoavelmente livres de emoções e ansiedades. Se de um lado é um fator bom, de outro lado existe um complicador, porque história é um pouco arroz de festa. Existem várias cortinas que escondem a cena. Você tem de ir com cuidado e abrindo uma, duas, três, quarto cortinas para cair no fato real, que não é trivial. Dentro dessa linha, eu estudei, basicamente, o Konosuke Matsushita e, para fazer isso, eu tinha de analisar o processo de formação estratégica do Japão. Depois, estudei Pedro o Grande, czar da Rússia, um dos mais importantes projetos estratégicos de todos os tempos. E, mais recentemente, Sagres, que é o maior projeto catalizado por uma mulher, Filipa de Lancaster, de onde resultou o caminho das Índias, a descoberta do Brasil e o mundo ressurgiu, seja para o bem, seja para o mal.
OJ – Quais os exemplos de pessoas com alto poder de pensamento estratégico?
LFCharles Chaplin, Pablo Picasso, Churchill, Kennedy, Roosvelt, Henry Ford, talvez o maior empresário de todos os tempos, e Matsushita. No Brasil histórico, Getúlio Vargas. No Brasil de hoje, existem quatro pessoas com brutal maturidade estratégica – Fernando Henrique Cardoso, o Presidente Lula, Antônio Carlos Magalhães e José Sarney. Sob o ponto de vista empresarial, a empresa de maior maturidade estratégica das que eu pontuei até hoje como professor da Fundação Getúlio Vargas é a Gerdau, bem na frente de todas as outras. Depois o banco Itaú, Ambev, Grupo Pão de Açúcar, Bradesco, Unibanco e Petrobras. Pontuei a Sadia agora recentemente em um curso do MBA e a empresa também alcançou uma nota muito alta.
OJ –A sua lista tem também algumas personalidades brasileiras?
LF A frase pode ser impiedosa, mas o rico é uma pessoa com maturidade estratégica. No Brasil, a pessoa interessante, do ponto de vista estratégico, é o Roberto Marinho, que alavancou aos 64 anos de idade, e, para conseguir financiamento, teve de colocar a sua casa lá no Cosme Velho em garantia. Ele arrancou aos 64, uma faixa etária em que muitos já estão pensando na sua aposentadoria merecida. Ronaldo, o fenômeno, é uma pessoa que, apesar de todos os problemas no joelho, nos próximos seis ou sete anos, vai ficar situado entre os dez melhores atacantes do mundo. Romário, que começa a se aproximar dos 900 gols, é uma pessoa com maturidade estratégica. A Gisele Bündchen, além de ser uma linda mulher, interessantíssima, conhece tudo sobre estratégia, e em um mundo difícil em que todas as mulheres são lindas. O iatismo, o hipismo, a ginástica brasileira são exemplos de maturidade estratégica.
OJ – E Santa Catarina?
LF – Estou chegando agora em Santa Catarina, mas deveria ter vindo há muito tempo. Das regiões em que pude vivenciar vários MBAs, o local com maior maturidade estratégica no Brasil é a grande Salvador, na Bahia, com o grupo de Antônio Carlos Magalhães. Lá, tanto oposição quanto situação têm maturidade estratégica. O Ceará, Manaus e o Rio de Janeiro têm maturidade estratégica. O Brasil tem cerca de 70 a 100 áreas geográficas que desenvolvem pensamento estratégico. À medida que esse desenvolvimento fique vigoroso, é lógico que haverá um transbordamento. Em Concórdia, nós pontuamos Santa Catarina, que obteve uma nota altíssima, o que coloca o estado entre os três ou quatro melhores.
OJ – E no mundo?
LF – Se pensamento estratégico significa competência também de acumular informações, não há nada comparável aos Estados Unidos. A concentração de informações converge para o Pentágono e, ao mesmo tempo, para todo o sistema de universidades e institutos de pesquisa. O império não é brincadeira em termos de pensamento estratégico. A Europa já percebeu isso com muita nitidez. Há o caso também dos Tigres Asiáticos, até pouco tempo conduzidos pelo Japão. Nova Zelândia, aparentemente, é o país do mundo Ocidental com maior maturidade estratégica. E, próximo de nós, o Chile, Canadá e Costa Rica. É claro que a maturidade estratégica tem repercussões no PIB, mas o mais importante é que ela tem repercussão na felicidade nacional bruta, à medida que contrai sensivelmente o número de pobres. A China retirou da pobreza 300 a 400 milhões de habitantes em 15 ou 20 anos. O desafio do Brasil é retirar da pobreza de 30 a 40 milhões de habitantes, estoque de pobres que vem desde 1940. Relativamente diminuiu, mas o número absoluto continua o mesmo.
OJ – Como o estrategista trata da solução de problemas?
LF – Destaco três características do estrategista. A primeira, ele tem de ter vontade. Não vai acontecer nada se a pessoa não tiver vontade. A segunda é que não existe inteligência individual estratégica, só existe inteligência coletiva. Tem de se acostumar que a inteligência dele vale alguma coisa, mas a dele somada com a da mulher, dos filhos, da mãe, vale muito mais do que a inteligência individual. A terceira, que é a mais importante, é ser um fatiador de problemas. Isto é, transformar grandes gorilas desafios, sejam problemas ou oportunidades, em macacos pequenininhos. Nada mais é do que a terceira lei de Descartes: a pessoa estar convencida de que não existem problemas grandes, e sim, problemas que ainda não foram fatiados.
OJ – Por que não pensamos estrategicamente?
LFA meu ver, porque tivemos 50 anos de inflação devastadora. Esse processo inflacionário fez com que pensássemos sempre no curto prazo, com honrosas exceções. A inflação nos presenteou com uma doença chamada pressentismo.
OJ –Qual a relação entre globalização e pensamento estratégico?
LF – Até 1989, uma pessoa poderia até sobreviver bem sem pensar estrategicamente, porque o mundo era razoavelmente lento. Aí veio o turbilhão da globalização. Segundo Peter Drucker, as oportunidades e ameaças giram com grande velocidade nesse turbilhão. O problema é que as oportunidades passam muito rápido e as ameaças são terríveis e vêm logo na nossa jugular. A única arma que temos para conviver com essa rapidade, mistura de rapidez com velocidade, é exatamente pensarmos estrategicamente.
OJ – O senhor tem um acervo de quase mil livros. Qual a utilidade?
LF – O livro é cada vez mais necessário; permite ao autor se aprofundar em um determinado tema. É o casamento de uma pessoa com o tema. A meu ver, o que produz o insight são vários livros vistos ao mesmo tempo, folheados em ma mesa ou no chão, uma multiconsulta. Isso a telinha digital não vai nos dar. O livro assume qualquer posição. Vai demorar muitos anos, senão décadas, até termos várias telas nos cercando ao mesmo tempo. Vai haver uma pressão muito grande da sociedade para haver o barateamento do livro. Precisamos de mais bibliotecas, regionais, centrais, locais. Acho que este vai ser o século do livro.

Fonte


O JORNAL. Estratégia é conspiração para o sucesso. O Jornal, Santa Catarina, 20 abr. 2005.





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