Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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A JORNADA

1

No dia em que a monja de sete anos estava para partir, a irmã Bursar tirou a enorme chave de ferro de seu peito e destrancou a despensa, e disse: “Venha”. Ela puxou da prensa três mudas de roupas negras, seis cami­solas, luvas e um xale. Ela também lhe passou a vassoura. Finalmente, para emergências, um cesto de coisas básicas ― ervas e raízes, tinturas, arruda, pomadas e bálsamos.

Havia papel, também, embora não muito; umas doze páginas ou algo assim, de diferentes formas e espessuras. Papel estava sempre faltando em toda parte de Oz. “Faça-o durar, trate-o com a devida importância”, advertiu a irmã Bursar. “Você é alguém especial, por todos os seus amuos e silêncios.” Ela encontrou uma caneta. Uma pluma de fênix, famosa pela durabilidade e a força da pena. Três potes de tinta preta, selados com salientes envoltórios de cera.

Oatsie Mão-Ferida estava esperando no ambulatório com a velha Mon­ja Superiora. O convento estava pagando uma quantia decente por esse ser­viço e Oatsie precisava da remuneração. Mas ela não gostou da aparência da taciturna monja que a irmã Bursar trouxe. “Esta é a sua passageira”, disse a Monja Superiora. “Seu nome é Irmã Santa Elphaba. Ela passou muitos anos em vida solitária e cuidando de doentes. O hábito de conversar está perdido. Mas já é tempo de ela mudar, e mudar é o que ela vai fazer. Você não terá problemas com ela.”

Oatsie olhou bem para a passageira e disse: “O Expresso da Trilha de Relva não garante a sobrevivência desta pessoa, Monja. Eu chefiei duas dúzias de viagens nesses últimos dez anos ou quase, e houve mais acidentes do que gosto de admitir”.

“Ela está partindo de livre e espontânea vontade”, disse a Monja Supe­riora. “Caso ela queira retornar de algum ponto, vamos recebê-la de volta. Ela é uma de nós.”

Ela não pareceu uma de coisa nenhuma para Oatsie, nem gente nem bi­cho, nem idiota nem intelectual. Irmã Santa Elphaba apenas olhava fixamente para o chão. Embora parecesse ter cerca de trinta anos, tinha uma aparência adoentada, adolescente.

“E há a bagagem ― você pode carregá-la?” A Monja Superiora apon­tou para a pequena pilha de suprimentos no imaculado espaço defronte ao monastério. Depois, virou-se para a monja que partia. “Doce filha do Deus Inominável”, disse a Monja Superiora, “Você nos deixa para realizar um exer­cício de expiação. Você acha que há uma penalidade a cumprir antes que possa encontrar a paz. O silêncio inquestionável do claustro não é mais o que você precisa. Você está retornando a você mesma. Portanto, deixamo-la ir com nosso amor e com nossas esperanças de que tenha sucesso. Vá com Deus, minha boa irmã.”

A passageira manteve seus olhos experientes no chão e não respondeu.

A Monja Superiora suspirou. “Devemos voltar às nossas devoções”. Ela tirou algumas notas de um rolo de dinheiro mantido nos recessos de seus véus, e passou-as para Oatsie Mão-Ferida. “Isso deve bastar, e até vai além.”

Era uma ótima quantia. Oatsie se aprumou por ganhar esse tanto para es­coltar essa mulher taciturna através dos Kells ― ganhar mais que de todo o resto do grupo que levaria. “A senhora é boa demais, Monja-Mãe”, ela disse. Pegou o dinheiro com sua mão firme, e fez um gesto de deferência com a frouxa.

“Ninguém é bom demais”, disse a Monja Superiora, mas simpaticamen­te, e se recolheu com rapidez surpreendente atrás das portas do monastério. A Irmã Bursar disse: “Você está livre agora, Irmã Elfinha, e oxalá todas as estrelas brilhem em seu caminho!”, e desapareceu do mesmo jeito. Oatsie se moveu para carregar a bagagem e os suprimentos para o vagão. Havia um pequeno, atarracado garoto maltrapilho dormindo atrás do baú. “Fora daqui”, disse Oatsie, mas o garoto murmurou: “Eu tenho de ir também, foi o que me disseram”.

Vendo que a Irmã Santa Elphaba nem confirmava nem negava esse plano, Oatsie começou a entender por que o pagamento para levar embora a monja verde havia sido mais que generoso.

O Claustro de Santa Glinda estava localizado em Pedras Ralas, doze milhas ao sul da Cidade Esmeralda. Era um monastério em posto avançado, sob a proteção do outro que ficava na cidade. A Irmã Santa Elphaba passara dois anos na cidade e cinco anos ali, de acordo com a Monja Superiora. “Você ainda quer ser chamada de Irmã, agora que foi libertada daquele santo cárce­re?”, perguntou Oatsie quando estalou as rédeas e atiçou os cavalos.

“Elfinha está bom”, disse a passageira.

“E o garoto, que nome ele tem?”

Elfinha deu de ombros.

A carruagem encontrou o resto da caravana a poucas milhas à frente. Havia quatro vagões ao todo, e quinze viajantes. Elfinha e o garoto foram os últimos a chegar. Oatsie Mão-Ferida delineou a rota proposta: ao sul pelas bordas do Rio Kells, a oeste através do Desfiladeiro de Kumbricia, ao norte pelas Pastagens Milenares, parando em Kiamo Ko, e depois hibernando num ponto mais a noroeste. O Vinkus era uma terra selvagem, Oatsie lhes disse, e havia grupos tribais a temer: os yunamatas, os scrows, os arjikis. E havia animais. E havia espíritos à solta. Eles precisariam ficar unidos. Precisariam confiar uns nos outros.

Elfinha não dava sinal de que escutasse alguma coisa. Ela brincava ocio­samente com a pluma de fênix e traçava desenhos no solo a seus pés, elabo­rando formas espiraladas como dragões retorcidos e fumaça ascendente. O garoto estava acocorado a oito ou dez pés de distância, cauteloso e fechado. Ele parecia ser seu pajem, pois carregava suas malas e atendia às suas necessi­dades, mas não olhavam um para o outro, nem se falavam. Oatsie achou isso estranho ao extremo, e esperou que não fosse augúrio de algo ruim.

O Expresso da Trilha de Relva partiu ao pôr-do-sol, e avançou umas poucas milhas até sua primeira parada para acampar num leito de rio. O grupo ― gillikeneses, na maioria ― tagarelava nervosamente, espantado ante a própria coragem de ir para tão longe da segurança de Oz central! Todos por diferentes motivos: negócio, necessidades de família, pagar uma dívida, matar um inimigo. O Vinkus era uma fronteira, e os winkies um povo bélico, sedento de sangue, que sabia pouco sobre o asseio de interiores ou as regras de etiqueta com os quais o grupo se deleitava em loas a si mesmo. Oatsie tomou parte da conversa por pouco tempo, mas ela sabia que dificilmente haveria entre eles quem não preferisse ter ficado onde estava e evitar as profundezas de todo o Vinkus. Exceto talvez aquela Elfinha, que estava cuidando muito bem de si mesma.

Deixaram a margem próspera de Gillikin para trás. O Vinkus começava com um emaranhado de seixos espalhados em úmido solo castanho. À noite a Estrela do Lagarto apontava a direção sul, margeando os Grandes Kells, indo para o perigoso Desfiladeiro de Kumbricia. Pinheiros e negras seivas-­estreladas se erguiam como dentes em cada aterro. Durante o dia eles eram acolhedores, por vezes davam sombra. À noite, porém, eles se erguiam como torres ameaçadoras, e abrigavam corujas predadoras e morcegos.

Elfinha ficava acordada à noite, em geral. A reflexão ia lhe voltando, talvez até se expandindo sob a amplidão selvagem, onde os pássaros cantavam em vozes desmaiadas, e os meteoros lançavam augúrios pelo céu. Às vezes ela tentava escrever com a pena de fênix; às vezes, ela sentava-se e deixava os pensamentos rolando, e não os registrava no papel.

A vida fora do claustro parecia acenar à sua frente com tanta particu­laridade ― a forma de seus últimos anos estava já se dissipando. Todo aquele tempo indiferenciado, lavando pisos de terracota sem mergulhar suas mãos no balde ― levava horas para cobrir um simples aposento, mas nenhum piso fora antes tão bem lavado. Fazer vinho, cuidar dos doentes, trabalhar na ala da enfermaria, que lhe fizera lembrar um pouco de Crage Hall. O benefício de um uniforme era que não se precisava lutar para ser original ― quanta ori­ginalidade poderia o Deus Inominável ou a Natureza criar? Podia-se afundar inconscientemente na rotina do dia-a-dia, podia-se achar um caminho pró­prio sem andar às apalpadelas. As pequenas mudanças ― o pássaro vermelho pousando no peitoril da janela, e era primavera ― as folhas para revolver com o ancinho no terraço, e era outono ― eram suficientes. Três anos de silêncio absoluto, dois anos de murmúrios, e então, transferida por decisão da Monja Superiora, dois anos na enfermaria para os doentes incuráveis.

Ali, por nove meses ― pensou Elfinha debaixo das estrelas, descrevendo a coisa para si mesma como se o fizesse para outra pessoa ― ela atendia aos moribundos, e àqueles desajeitados demais para morrer. Ela crescera ao ver a morte como um desenho, belo a seu modo. Uma forma humana é como uma folha, ela morre naturalmente a menos que algo interfira: primeiro isto, de­pois aquilo e finalmente isto. Ela podia ter continuado a ser enfermeira para sempre, cruzando pulsos num arranjo agradável sobre lençóis engomados, lendo as palavras absurdas das escrituras que pareciam ser de tanta valia. Ela sabia lidar com moribundos.

E então, havia um ano, um pálido e inválido Tibbett dera entrada no Lar para os Incuráveis. Ele não demorou muito a reconhecê-la mesmo debaixo de seu véu e de seus silêncios. Fraco, incapaz de defecar ou urinar sem ajuda, sua pele caindo aos pedaços e parecendo um pergaminho, era melhor que ela em matéria de viver. Egoisticamente, exigia que ela fosse um indivíduo, e se dirigia a ela chamando-a pelo nome. Ele brincava, recordava histórias, criticava velhos amigos por terem-no abandonado, notava suas diferenças em como ela mudava dia após dia, em como ela pensava. Fez com que lembrasse que, afinal, ela era um ser pensante. Sob o exame acurado daquela figura, ela foi recriada, contra a vontade, como um indivíduo. Ou quase.

Por fim ele morreu, e a Monja Superiora disse que era tempo de ela ir embora e reparar os seus erros, embora nem mesmo a Monja soubesse que erros eram esses. Quando teriam acontecido? ― bem, ela era ainda uma mu­lher jovem, poderia formar uma família. Pegar a sua vassoura e não esquecer: obediência e mistério.

“Você não dorme”, disse Oatsie uma noite ao ver Elfinha vigilante à luz das estrelas.

Mas, embora seus pensamentos fossem ricos e complicados, suas pala­vras eram pobres, e ela meramente grunhiu. Oatsie fez algumas piadas com as quais Elfinha tentou rir, mas Oatsie riu o bastante pelas duas. Grandes, fartas risadas. Isso a cansou.

“Esse cozinheiro não era mesmo uma peça rara?”, disse Oatsie, e contou algum episódio que parecia irrelevante, e riu com a própria história. Elfinha tentou achar engraçado, tentou rir, mas acima delas as estrelas ficavam mais densas no céu, parecendo-se mais com cintilantes cardumes que com grãozi­nhos de sal; giravam em seus percursos com um som de pena, de maldição, que ela gostaria tanto de ouvir. Não podia ouvi-lo; Oatsie era muita grosseira e estridente.

Havia muita coisa que odiar neste mundo, e coisas demais para amar.

Não demorou para que chegassem à beira do Rio Kells, uma perigosa fatia de água que se estendia como uma fenda dentro de uma nuvem de tem­pestade. Era todo cinzento, sem luz alguma. “É por isso”, disse Oatsie, “que nem os cavalos nem os viajantes bebem dessa água; é por isso que nunca foi captada em aquedutos e levada à Cidade Esmeralda. É água morta. E vocês pensavam que tinham visto de tudo.” Mesmo assim, os viajantes estavam impressionados. Uma muralha cor de alfazema se erguia em sua margem ocidental ― um primeiro sinal dos Grandes Kells, as montanhas que sepa­ravam o Vinkus do resto de Oz. Dali as montanhas apareciam de modo tão tênue que pareciam gás.

Oatsie demonstrou o uso do feitiço da neblina em caso de um ataque por um grupo de caçadores yunamatas. “Vamos ser atacados?”, perguntou o garoto que parecia ser o pajem de Elfinha. “Eu mato eles antes que ninguém fique sabendo o que está acontecendo.” O medo que brotou dele se espalhou entre os outros. “Em geral nós nos saímos bem”, disse Oatsie, “só precisamos ficar preparados. Eles podem ser amigos. Se formos amigáveis.”

A caravana vagueava de dia, quatro vagões mantendo uma certa dis­tância entre si, acompanhados por nove cavalos, duas vacas, um touro, uma novilha e vários frangos sem muita personalidade. O cozinheiro tinha um cachorro chamado Matalegria que parecia a Elfinha, ao contrário, um Fazalegria, uma coisa arquejante, farejadora. Algumas pessoas pensaram por mo­mentos que ele pudesse ser um Cachorro disfarçado, mas deixaram a idéia de lado. “Hah”, disse Elfinha aos outros, “vocês falaram com Animais tão ra­ramente que nem podem se lembrar mais da diferença?” Não, ele era apenas um cachorro, mas um muito glorioso cachorro “cachorrento”, cheio de fúrias e devoções exageradas. Matalegria era de uma espécie montanhosa, parte linster, parte collie, parte lenx terrier, e talvez parte lobo. Seu focinho se erguia como um rolinho de manteiga, em arestas e nervuras de um cinza-escuro. Ele não podia reprimir seu instinto de caçador, mas não pegava muita coisa. De noite, quando os vagões ficavam juntos, em posição de defesa, o fogo da cozinha no meio, os animais bem ali, do lado de fora, e a cantoria começava, Matalegria se escondia debaixo de algum vagão.

Oatsie ouviu o garoto dizer o seu nome ao cachorro. “Sou Liir”, disse ele. “Você pode ser meu cachorro, se quiser.” Ela teve de sorrir. O menino gordo não era bom para fazer amigos, e um menino solitário precisa mesmo de um cão.

O Rio Kells ficou para trás, fora de visão. Alguns se sentiram mais seguros longe daquilo. Quase ao mesmo tempo os Grandes Kells surgiram e se avultaram, agora com a cor da casca castanha de um melão amanhecido. Mas a trilha ainda serpenteava pelo vale, o Rio Vinkus à sua direita e as montanhas mais além.

Quando avançaram, Matalegria finalmente pegou um lagarto de areia do vale. Ele sangrou e ganiu, e foi tratado por envenenamento. Liir deixou-o ficar em seus braços, o que fez Elfinha ficar um pouco enciumada. Ela estava quase espantada por notar em si mesma um sentimento tão aborrecido e fora de moda como o ciúme.

O cozinheiro ficou com raiva de Matalegria preferir qualquer outra companhia à sua ― ele brandiu seu colherão para o alto como se apelasse para a cólera vingativa dos chefes das hordas angélicas do céu estrelado. Elfinha o achou um carniceiro, já que parecia não ter escrúpulos de caçar coelhos e comê-los. “Como é que você sabe se não são Coelhos?”, ela disse, e não tocou em nenhum naco daquela carne.

“Quietinha, você, ou eu vou cozinhar aquele menininho”, ele respondeu.

Ela tentou plantar em Oatsie a idéia de demitir o cozinheiro, mas Oat­sie não ouviu. “Estamos chegando ao Desfiladeiro de Kumbricia”, ela disse, “minha cabeça está voltada para outras coisas.”

Eles não podiam deixar de sentir o inquietante erotismo da paisagem. Pelo ângulo leste, o Desfiladeiro de Kumbricia parecia uma mulher deitada de costas, as pernas bem abertas, acolhendo a todos.

No alto das encostas, os galhos dos pinheiros tapavam o sol, as perei­ras selvagens emaranhavam seus galhos retorcidos, como se os envolvessem numa luta corporal. Uma repentina umidade, um novo clima particular ― a frota umedeceu, o ar mergulhava pesadamente na pele, como uma toalha mal lavada. Assim que entraram na floresta, os viajantes não puderam mais ver os montes. Tudo cheirava a samambaias e folhagens. E nas margens de um pequeno lago erguia-se uma árvore morta. Abrigava uma comunidade de abelhas, que exercia seu labor de música de câmara e mel.

“Quero levá-las com a gente”, disse Elfinha. “Vou conversar com elas e verei se estão interessadas em vir.”

Ela lembrou-se que tinha havido abelhas na horta de Crage Hall, e tam­bém no Claustro de Santa Glinda nas Pedras Ralas. Elfinha ficou arrebatada com elas. Mas Liir estava aterrorizado, e o cozinheiro ameaçou abandonar o grupo traumatizado pela impossibilidade de fazer um molho bechamel da mais alta qualidade naqueles ermos. Travou-se uma discussão. Um velho do grupo, que viajava para o oeste para morrer devido a alguma visão noturna, arriscou dizer como um pouco de mel iria melhorar o sabor do insípido chá ordinário servido na caravana. Uma glikkunesa que se casaria por correspon­dência concordou. Oatsie, dada a arroubos sentimentais quando isso era o menos esperado, votou pelo mel.

Assim, Elfinha subiu na árvore e conversou com as abelhas, e elas vie­ram todas juntas num enxame, mas a maioria dos viajantes ficou em outros vagões, subitamente assustados com qualquer salpico de poeira que lhes ro­çasse a pele.

Usando tambores e fumaça, enviaram um pedido para atrair a atenção de um rafique contratado, pois o tráfego de caravanas não era permitido entre as terras das diferentes tribos de Vinkus sem um guia que negociasse per­missões e taxas. Aborrecidos com a noite, reagindo à escuridão, os viajantes deram para discutir a lenda da Bruxa de Kumbric. Quem viera primeiro, a Fada Rainha Lurline ou a Bruxa de Kumbric?

Igo, o velho homem doente, citou o Ozíada, e lembrou a todos como a criação fora feita: o Dragão do Tempo criara o Sol e a Lua, e Lurline os amaldiçoara e dissera que seus filhos não conheceriam os próprios pais, e então a Bruxa de Kumbric veio, trazendo o dilúvio, a guerra, a disseminação do mal pelo mundo.

Oatsie Mangelhand discordou. Ela disse: “Seus velhos tolos, o Ozíada é apenas um fútil, romântico poema sobre lendas mais antigas e mais ásperas. O que vive na memória do povo é mais verdadeiro do que o que qualquer poeta artificioso diz. Na memória do povo o mal sempre derrota o bem”.

“Isso pode ser verdade?”, perguntou Igo, com interesse.

“É claro que há uma porção de contos de fada de infância que começam com “Uma vez no meio de uma floresta vivia uma velha bruxa” ou “O diabo um dia saiu a passeio e encontrou uma criança”, disse Oatsie, que estava de­monstrando ter alguma cultura e coragem. “Para os pobres coitados não há necessidade de se tecer fábulas sobre a razão de o mal aparecer num dado lugar; porque ele apenas aparece; ele apenas existe. Ninguém nunca sabe como a bruxa se tornou malvada, ou se essa era a escolha certa para ela ― será esta a escolha certa, realmente? Será que o demônio não luta para ser bom novamente, e, sendo assim, não é demônio coisa nenhuma? Em última análise, é uma questão de definições.”

“É bem verdade que há abundância de histórias sobre a Bruxa de Kum­bric”, concordou Igo. “Todas as outras bruxas acabam sendo uma sombra, uma filha, uma irmã, alguma descendente que entrou em decadência; a Bruxa de Kumbric é o modelo original que parece impossível ultrapassar.”

Elfinha lembrou a pintura em rolo de pergaminho da Bruxa de Kum­bric ― seria ela? ― encontrada na biblioteca do Três Rainhas, naquele verão de tempos atrás; plantada em sapatos brilhantes, escarranchando um continente, embalando ou estrangulando um animal.

“Eu não acredito na Bruxa de Kumbric, nem aqui no Desfiladeiro de Kumbricia”, jactou-se o cozinheiro.

“Você não acredita em Coelhos tampouco”, rosnou Elfinha, subitamente irritada. “A pergunta é, será que a Bruxa de Kumbric acredita em você?”

“Temperamental”, declarou Oatsie, e tentou abafar a coisa começando uma canção para todos cantarem. Elfinha bateu em retirada. Tudo isso se parecia demais com sua infância, discussões com seu pai e Nessarose sobre a origem do mal. Como se alguém pudesse saber! Seu pai costumava orques­trar provas sobre a existência do mal como meios para levar seu rebanho à conversão. Elfinha chegara a pensar, quando estava em Shiz, que, enquanto as mulheres eram água-de-colônia, os homens eram provas: para assegurar sua própria visão de si mesmos, e assim serem atraentes. Mas não era verdade que o mal estava além de qualquer prova, assim como a Bruxa de Kumbric estava além dos domínios da história conhecível?


2
O rafique chegou, um homem magro, calvo, com cicatrizes de guerra. Po­dia haver problemas pelo lado dos yunamatas neste ano, ele disse. “A caravana está chegando bem quando acabou uma temporada de sujas pilha­gens pela cavalaria da Cidade Esmeralda. Coisa dos winkies”, ele lamentou. Não estava claro se estava falando de uma questão local sobre uma desfeita de um bêbado para uma moça de Vinkus ou sobre um tráfico de escravos e áreas da reserva.

O acampamento se desfez, o lago ficou para trás, e eles seguiram pela floresta por metade de um dia. A luz do sol passava pelo dossel de quando em quando, mas era uma luz rala, parecida a uma gema de ovo, e parecia estar sempre nas paralelas do caminho, nunca incidindo sobre a trilha pela qual a caravana seguia. Era sinistra, como se Kumbricia em carne e osso estivesse se movimentando ao lado deles, oculta, proibida, passando de árvore para árvore, esgueirando-se entre as rochas, esperando nas profundezas sombrias, observando e escutando. O velho aflito fazia um lamento nasal, e rezava para poder sair dessa misteriosa floresta antes de morrer, ou seu espírito poderia nunca achar o caminho de volta. O menino chorava como uma menina. O cozinheiro torceu o pescoço de um frango.

Até as abelhas pararam de zumbir.

No meio da noite o cozinheiro desapareceu. Houve consternação entre todos, exceto Elfinha, que não se importou. Fora um seqüestro, ou um episó­dio de sonambulismo, ou um suicídio? Estariam os raivosos yunamatas por perto, e observando a todos? Seria Kumbricia em pessoa se vingando deles por tê-la discutido tão impenitentemente? Houve muitas opiniões, e os ovos do desjejum ficaram malfeitos e incomíveis.

Matalegria não notou o desaparecimento do cozinheiro. Ele se aninhou, rindo em seu sono comatoso, bem pertinho de Liir.

As abelhas entraram em alguma espécie de hibernação misteriosa den­tro da junção de tronco de árvore que era carregada junto à caravana para deixá-las felizes. Matalegria, ainda dolorido devido ao veneno do lagarto de areia, dormia vinte e duas horas por dia. Os viajantes, temerosos de serem ouvidos por desconhecidos, pararam de falar juntos.

À medida que a noitinha avançou, os pinheiros por fim começaram a escassear, e a floresta a mudar de pinhos para carvalhos cabeça-de-cervo, que, com seus galhos mais amplos, deixavam entrever mais ― um céu de amarelo lívido, mas, afinal, um céu ― e então chegaram à beira de um penhasco. Ti­nham subido mais alto do que qualquer um deles se apercebera; abaixo e além se estendia o resto do Desfiladeiro de Kumbricia, uma viagem de quatro ou cinco dias. O começo das Pastagens Milenares ficava muito além daquilo.

Ninguém estava reclamando da luz e do espaço que o céu permitia. Até Elfinha sentiu seu coração se aliviar, inesperadamente.

* * *


No meio da noite os yunamatas chegaram. Trouxeram como presentes frutas secas e cantaram canções tribais, e fizeram os que pareciam capazes de dançar se levantarem e entrarem na dança. Os viajantes estavam mais assus­tados com sua hospitalidade do que com o ataque que tinham esperado.

Tal como Elfinha supusera, os yunamatas pareciam um povo amável, submisso, tão cheios de temor e destemidos quanto colegiais ― ao menos, era o que demonstravam. Eram vivazes, opiniáticos; faziam-na lembrar os quadlings, com os quais fora criada. Talvez etnicamente fossem primos dis­tantes. Longas pestanas. Cotovelos estreitos. Pulsos flexíveis como os de be­bês. Cabeças oblongas e lábios finos concentrados ― mesmo com sua língua desconhecida, eles lhe pareciam familiares.

Os yunamatas partiram pela manhã, queixando-se rudemente da ruin­dade dos ovos do café do desjejum. O rafique disse que não dariam mais problema. Até ele parecia desapontado, como se sua função houvesse ficado às traças.

Não houve uma só palavra sobre o cozinheiro. Os yunamatas pareciam não saber nada sobre ele.

Enquanto a caravana continuava a sua descida, o céu de novo se abria, vivaz e outonal, amplo como o remorso. Dali até lá! ― o olho mal podia abranger tudo. A planície que abaixo se estendia, comparada às montanhas, parecia lisa como um lago.

O vento fazia vogas através dela, como se pronunciasse coisas numa linguagem de chicotadas e ondulações. Nenhuma vida selvagem se avistava dessa distância, embora fogos tribais se erguessem aqui e ali. O Desfiladeiro de Kumbricia fora deixado para trás, ou quase.

Então, um mensageiro yunamata veio em velozes pés descalços, che­gando do Desfiladeiro que ficara para trás, para trazer a notícia de que um corpo fora achado na base do penhasco. Talvez fosse o cozinheiro; julgava-se que fosse um homem, mas a superfície do cadáver ficara tão inchada devido às lesões que os indícios se perderam. “Foram as abelhas”, disse alguém, cheio de raiva.

“Oh, foram?”, soou a voz calma de Elfinha. “Elas ficaram dormindo por tanto tempo. Não teria havido gritos se elas houvessem atacado um homem no meio da noite? Será que as abelhas ferroaram sua garganta primeiro, para fazer com que as cordas vocais se calassem? Abelhas muito hábeis, essas.”

“Foram as abelhas”, foi o murmúrio que se ouviu, e a implicação era clara. Você também.

“Oh, esqueci-me do tamanho da imaginação humana”, Elfinha disse maldosamente. “Como ela é grande, afinal.”

Mas ela não estava aborrecida, não realmente. Pois Matalegria voltara a si, finalmente, e as abelhas tinham acordado também. Talvez as elevadas altitudes do topo do Desfiladeiro de Kumbricia fossem as responsáveis por tamanho sono. Elfinha começou a preferir a companhia deles à do resto dos viajantes. Enquanto eles despertavam, na descida dos montes, ela se sentia mais e mais desperta também.

O rafique apontou no horizonte várias espirais de fumaça que se amon­toavam. A princípio os viajantes pensaram que se tratasse de tornados, mas Oatsie os acalmou e alertou ao mesmo tempo: eram fogos noturnos de um grande acampamento. Scrow. Era a temporada de caça de outono, embora, em termos de bicho, nada houvesse sido visto exceto uma lebre ou uma raposa da relva (seu pêlo parecia uma forte pincelada de bronze no campo de um dourado diluído, e seus pés eram revestidos de meias negras como os de uma serviçal). Matalegria ficou extasiado com as possibilidades de luta; ele mal podia suportar ter de descansar à noite. Mesmo em seus sonhos ele rolava com suas presas de caça.

Os viajantes temiam os scrows mais do que tinham temido os yuna­matas. O rafique não dissera muita coisa para apaziguar seus medos. Ele era mais hesitante do que parecera a princípio; talvez o trabalho de negociar entre povos desconfiados exigisse mesmo essa cautela. Liir o idolatrava sem esperança, depois de uns poucos dias de viagem. Elfinha pensava: Coisas tão bobas, as crianças ― e tão embaraçosas ― porque elas vão mudando sem nenhuma vergonha, sem a necessidade de serem amadas ou algo assim. En­quanto os animais já nascem quem são, aceitam o fato, e a coisa é o que é. Eles vivem numa paz muito maior que a das pessoas.

Ela sentia em si um tremor de agradável ansiedade ao pensar em se aproximar dos scrows. Junto com muitas outras coisas, havia se esquecido de como a expectativa era agradável. Enquanto a noite caía, todo mundo parecia mais alerta, transbordando medo e excitação. Os céus palpitavam em azul-turquesa, mesmo à meia-noite. A luz das estrelas e as caudas de cometas alumiavam de prata esmerada as extremidades da relva interminável que havia lá embaixo. Como milhares de velas numa capela, apagadas, mas ainda alumiando.

Se alguém pudesse se afogar na relva, pensou Elfinha, poderia ser esta a melhor maneira de morrer.

3
Era meio-dia quando a caravana se encostou à margem do acampamento scrow. Uma comitiva da tribo conduziu-os para os limites deste, onde as tendas cor de areia se erguiam sobre a relva imaculada ― homens e mulheres a cavalo, sete ou oito deles, usando fitas azuis e pulseiras de marfim. Também surgiu uma mulher idosa, na certa de uma hierarquia superior, enorme como uma laje, carregada num palanquim de alguma espécie, a armação cheia de tambores e amuletos que tilintavam e finíssimos véus. Ela deixou o rafique e os paladinos da tribo trocarem cumprimentos e insultos. Depois de alguns momentos, grunhiu uma ordem e suas cortinas foram descidas, para que pudesse olhar. Tinha um lábio projetado, tão grande que se dobrava sobre si mesmo como uma torneira de cabeça para baixo numa bilha. Seus olhos eram circulados com kajal. Em seus ombros havia dois corvos de aparência indigesta. Os pés das aves eram acorrentados com elos dourados e ligados a laços que pendiam da gola ornamental, em que a idosa deixara pingar restos da fruta que estivera comendo enquanto esperava. Seus ombros estavam sal­picados dos dejetos dos corvos.

“A Princesa Nastoya”, disse o rafique por fim.

Ela era a mais imunda, a menos refinada das princesas, contudo, tinha alguma dignidade; mesmo o mais ardente dos democratas entre os viajantes se curvou. Ela riu de maneira rouquenha. Depois pediu a seus carregadores que a levassem embora para algum lugar menos tedioso.

O acampamento scrow era disposto em círculos concêntricos, com a tenda da Princesa bem no meio, enfeitada com extensões de baldaquins lis­trados e desbotados pelos dois lados. Era um pequeno palácio etéreo feito de sedas e musselina de algodão. Seus conselheiros e maridos de concubinato pareciam viver no círculo mais íntimo (e os maridos constituíam um grupo bem magricela, pensou Elfinha, mas talvez fossem escolhidos pela timidez e a magreza, para que ela, por contraste, parecesse sempre a maior). Além do ajuntamento da Princesa, havia umas quatrocentas tendas, o que devia equivaler a um milhar de pessoas morando juntas. Mil seres humanos, com sua pele de salmão cozido, seus olhos úmidos e estalados (mas sensitivos, dados a olhares baixos, para evitar confronto), seus belos narizes generosos e grandes ancas e amplos quadris roliços, idênticos em homens e mulheres.

Os viajantes da caravana, na maioria, ficaram grudados nas portas de seus vagões, imaginando um crime a cada nova tenda. Mas Elfinha achou impossível ficar alheia, com toda essa novidade acenando. Quando ela saiu caminhando, houve gritos sufocados, e os adultos timidamente recuaram para que ela passasse. Mas passaram-se só dez minutos para que contasse com sessenta crianças numa turba barulhenta, seguindo-a, correndo na frente, como uma nuvem de mosquitos.

O rafique aconselhara cautela, aconselhara retornar ao acampamento; mas a infância nos pântanos de Quadling havia tornado Elphaba não apenas ousada, era também curiosa. Havia mais maneiras de viver do que aquelas concedidas pelos nossos superiores.

Depois da refeição da noite, uma imponente delegação de velhos dignatários scrows aproximou-se do Expresso da Trilha de Relva e entabulou comprido palavrório com o rafique. No fim, o guia traduziu a mensagem: um pequeno grupo estava convidado ― chamado ― (intimado?) ― a visitar o santuário scrow. Levaria uma hora de camelo. Por seu estigma da cor da pele, presumivelmente, ou possivelmente pela coragem de dar uma caminhada solitária através da cidade de tendas dos scrows, Elfinha foi chamada a se juntar a Oatsie, ao rafique, a Igo pela idade venerável, e a um dos aventurei­ros do ramo das finanças ― chamado Filatabaco, ou talvez fosse apenas um apelido asqueroso.

À luz de tochas de madeira de salgueiro, os camelos, em cintilante jaez, cambaleavam e moviam-se pesadamente numa trilha batida. Era como subir e descer uma escada ao mesmo tempo. Elfinha sentou-se na relva, um ponto vantajoso sobre a grande superfície bruxuleante. Embora o oceano fosse ape­nas uma idéia surgida da mitologia, ela podia quase ver de onde ela procedia ― havia pequenos predadores da grama que se lançavam como peixes que saltassem das vagas espumantes, alcançando os vaga-lumes, abocanhando-os e depois caindo para trás com um borrifo seco. Morcegos passavam, fazendo um som trêmulo, engrolado, que terminava numa agonizante investida. A planície em si parecia parir cores noturnas: ora um heliotrópio, ora um verde­-bronze, ora uma cor parda misturada com vermelho e prata. A lua se erguia, uma deusa opalescente produzindo luz com sua aguda cimitarra maternal. Nada mais precisava ter acontecido; a Elphaba parecia que era suficiente sentir-se capaz de uma estranha resposta extática à cor suave e ao espaço seguro. Mas, não, era preciso continuar ― continuar.

Finalmente ela notava uma plantação de árvores, cuidadosamente cul­tivada nessa amplidão desolada. Primeiro um espruce de cerrado, contorcido pelos ventos em figuras nodosas de casca rachada e agulhas sibilantes - e com o odor pagão de seiva. Depois, surgiam sebes mais altas e, mais além, árvores de altura ainda maior. Era o desenho circular do acampamento scrow novamente.

O grupo passou por ele em silêncio, como se passasse por um labirinto, através de curvos corredores de moitas sussurrantes, movendo-se dos círcu­los exteriores para os interiores iluminados por lâmpadas de azeite presas a postes entalhados.

Dentro, no centro, estava a Princesa Nastoya cingida num traje nativo de couro e grama tornado mais impressionante por uma extensão de roxo listrado e branco atoalhado que ela devia ter barganhado com um viajante ou outro. Ela estava ali, distraída e respirando pesadamente, apoiando-se em resistentes cajados; em torno dela, pedras druídicas como dentes enfileirados lembravam uma jaula de pedra através da qual ela dificilmente poderia passar, devido a seu volume.

Os convidados se juntaram aos anfitriões no comer, beber e fumar de um cachimbo com um fornilho entalhado como uma cabeça de corvo. Os corvos se enfileiravam ao redor nos topos das pedras druídicas, vinte, trinta, quarenta? A cabeça de Elfinha girou, a lua se ergueu, a planície à noite, invisível dali daquele jardim oculto num labirinto verde, girava como a cabeça de uma criança. Ela quase podia ouvir o som do giro. Os velhos scrows cantavam uma arenga.

Quando a arenga se extinguiu, a Princesa Nastoya ergueu sua cabeça.

As enormes barbelas de carne velha abaixo de seu pequeno queixo ba­lançaram. Seu atoalhado caiu ao chão. Ela estava nua e velha e forte; o que tinha parecido tédio era paciência, memória, controle. Ela sacudiu o próprio cabelo para fora de sua cabeça e este se desenrolou em suas costas e desa­pareceu. Seus pés se moviam maciçamente, como se procurassem a melhor posição, como colunas, como pilares de pedra. Ela deixou os braços caírem para a frente e suas costas viraram um domo; no entanto, sua cabeça estava erguida, seus olhos eram os mais claros possíveis, seu nariz fungava podero­samente; ela era um Elefante.

Uma deusa-Aliá, Elfinha pensou, sua mente recuando em terror e de­leite, mas a Princesa Nastoya disse: “Não”. Ela falava através do rafique imó­vel; ele tinha obviamente visto isso antes, embora sob o efeito do álcool ele gaguejasse e tivesse de procurar as palavras.

Um por um os viajantes foram tendo suas intenções sondadas. “Dinheiro e comércio”, disse Filatabaco, levado pelo choque a ser hones­to: dinheiro e comércio e pilhagem e saque a qualquer custo.

“Um lugar para morrer onde eu possa descansar, e meu espírito ir em­bora”, arriscou Igo.

“Segurança e movimento, ficando fora de perigo”, disse Oatsie cora­josamente, pelo que ficou claro que ela queria dizer: fora do caminho dos homens.

O rafique deu um sinal de que a resposta de Elfinha ainda estava pendente.

Na presença de um tal Animal, Elfinha não podia ficar alheia. Assim, ela falou da melhor forma que pôde. “Retirar-me do mundo depois de ter certeza da segurança dos sobreviventes do meu amante. Encarar sua viúva, Sarima, com culpa e responsabilidade, e então me remover do mundo escuro.”

A Aliá pediu aos outros, exceto o rafique, que saíssem.

A Aliá ergueu sua tromba e cheirou o vento. Seus velhos olhos inchados piscaram lentamente e suas orelhas se moveram para a frente e para trás, revol­vendo o ar para captar nuances. Ela urinou abundantemente, num fluxo vapo­roso, com dignidade e displicência, os olhos firmemente fixos em Elphaba.

Através do rafique, a Aliá então disse: “Filha do dragão, eu também vivo sob efeito de um feitiço. Sei como ele pode ser quebrado, mas como um desafio, escolhi viver. Uma Aliá é uma coisa perseguida nestes tempos. Os scrows me acolheram. Eles têm venerado os elefantes desde um tempo em que ainda não existia linguagem, o tempo anterior ao início da história. Eles sabem que não sou uma deusa. Eles sabem que sou uma besta que escolhe o mágico encarceramento na forma humana para não ter de escolher a perigosa liberdade de minha própria forma poderosa.

“Quando os tempos são de provação, quando o ar está cheio de crise”, ela disse, “aqueles que são mais fiéis a si mesmos são as vítimas.”

Elfinha apenas ouvia, não conseguia falar.

“Mas a chance de salvar a você mesma pode ela própria ser mortífera”, disse a Princesa Nastoya.

Elfinha concordou, olhando para longe, olhando para trás.

“Eu lhe darei três corvos como seus membros de família”, disse a Prince­sa. “Você está escondida como uma bruxa agora. Isso é o que vejo.” Ela falou alguma coisa para os corvos, e três coisas sórdidas, de aparência maligna, vieram e ficaram esperando por perto.

“Uma bruxa?”, Elphaba disse. O que seu pai pensaria disso? “Escondida de quê?”

“Nós temos o mesmo inimigo”, respondeu a Princesa. “Estamos ambas em risco. Se você precisar de ajuda, mande os corvos. Se eu estiver viva, seja como uma velha monarca matriarcal, seja como uma Aliá livre, virei em seu socorro.”

“Por quê?”, perguntou Elfinha. “Porque nenhuma fuga ao mundo pode mascarar aquilo que está em seu rosto”, ela respondeu.

A Princesa disse mais. Havia anos ― mais que uma década ― que Elfi­nha ficara capaz de conversar com um Animal. Quem, Elfinha perguntou, a tinha enfeitiçado? Mas a Princesa Nastoya não disse ― em parte como auto­proteção, pois a morte do feiticeiro podia às vezes significar a revogação dos feitiços lançados, e sua maldição era a sua segurança.

“Mas a vida será digna de ser vivida na forma errada?”, disse Elfinha.

“O interior não muda”, ela respondeu, “exceto pelo auto-envolvi-mento. Do qual não é preciso ter medo, mas é preciso ter consciência.”

“Eu não tenho interior”, disse Elphaba.

“Alguma coisa disse àquelas abelhas para matarem o cozinheiro”, ela respondeu, com um brilho em seus olhos. Elphaba sentiu que empalidecia.

“Eu não!”, ela disse. “Não, não pode ter sido eu! E como é que você ficou sabendo?”

“Você disse alguma coisa, em algum nível. Você é uma mulher forte. E eu posso ouvir as abelhas, você sabe. Minhas orelhas são muito sensíveis.”

“Eu gostaria de ficar aqui com você”, disse Elphaba. “A vida tem sido muito dura. Se você pode me ouvir quando eu mesma não me ouço ― uma coisa que a Madre Superiora nunca poderia fazer ― você poderia me ajudar a não causar sofrimento neste mundo. Isso é tudo que eu quero ― não causar sofrimento.”

“Como você mesma admitiu, tem um trabalho a fazer”, disse a Princesa. Ela enrolou sua tromba em torno do rosto de Elphaba, sentindo seus contor­nos e verdades. “Vá e faça-o.”

“Posso voltar para ver você?”

Mas a Princesa não respondeu. Ela estava ficando cansada ― ela era uma coisa velha mesmo como Aliá. Sua tromba oscilou para trás e para a frente como um pêndulo num relógio. Então a grande mão-focinho se adiantou e se pôs com maravilhosa leveza e precisão nos ombros de Elphaba, e se enrolou um pouco em torno de seu pescoço. “Me escute, irmã”, ela disse. “Lembre disto: nada está escrito nas estrelas. Nem nestas estrelas, nem nas outras. Ninguém controla seu destino.”

Elphaba não pôde responder, tão chocada ficara com aquele toque. Ela bateu em retirada ao ser dispensada, completamente fora de si.

Depois, deu-se o retorno nos camelos através das cores trêmulas da relva noturna: hipnótico, vago e angustiante. Contudo, houvera algo de abençoado nessa noite. Elphaba tinha esque­cido a bênção também ― como tantas outras coisas.

4
Eles deixaram o acampamento dos scrows e a Princesa Nastoya para trás. O Expresso da Trilha de Relva se moveu em círculos em direção ao norte, agora, um amplo arco.

Igo morreu, e foi enterrado numa árida colina. “Dê ao seu espírito mo­vimento e vôo”, disse Elfinha na cerimônia.

O rafique admitiu mais tarde que pensara que um dos convidados da reunião obrigatória com a Princesa Nastoya seria sacrificado em assassinato ritual. Isso já acontecera anteriormente. A Princesa, embora cúmplice com seu dilema, não estava acima da idéia de vingança. Foi a honestidade de Filatabaco que o salvou, e ele era a escolha óbvia. Ou talvez Igo tivesse usado a iminência de sua morte mais próxima à superfície do que os humanos poderiam ver, e a Aliá tivesse se compadecido.

Os corvos eram irritantes; importunaram as abelhas, defecaram sobre o vagão todo, provocaram Matalegria. A glikkunesa, Raraynee, parou num poço, encontrou seu viúvo prometido-para-esposo, e deixou o Expresso da Trilha de Relva. O novo marido banguela já tinha seis filhos sem mãe, e eles se aproximaram de Raraynee como patinhos órfãos atrás de um cão de fazenda. Ficaram apenas dez viajantes.

“Agora, estamos entrando nas terras tribais dos arjiki”, disse o rafique.

O primeiro bando dos arjikis se aproximou deles alguns dias depois. Não usavam nada tão esplêndido como o que Fiyero usava, a exemplo das tatuagens azuis ― eram nômades, pastores, cercando as ovelhas das colinas ocidentais aos pés dos Grandes Kells para a contagem anual e, ao que parecia, para vendê-las no Leste. No entanto, sua bela aparência bastou para deixar o coração de Elphaba em pedaços. Sua selvageria. Sua estranheza. Isso deve ser uma punição na hora da minha morte, ela pensou.

O Expresso da Trilha da Relva agora estava reduzido a apenas dois va­gões: num deles, o rafique, Oatsie, Liir, o garoto, Filatabaco, o empreendedor, e um mecânico gillikinês chamado Kowpp. No outro, a própria Elfinha, e as abelhas, os corvos e Matalegria. Ela já fora, ao que parecia, aceita como uma bruxa. Não era um disfarce inteiramente desagradável.

Kiamo Ko ficava a apenas uma semana de viagem.

O Expresso da Trilha da Relva virou para a direção leste, rumando para os desfiladeiros de cinza-aço dos íngremes Grandes Kells. O inverno era menor aqui, e os últimos viajantes ficaram satisfeitos por as neves estarem se dissipando. Oatsie pretendia passar o fim do inverno num acampamento arjiki a umas vinte milhas à frente. Na primavera, ela voltaria à Cidade Es­meralda, seguindo a rota do norte através de Ugabu, e as Colinas de Pertha de Gillikin. Elfinha pensou em enviar um bilhete para Glinda, se depois de todos esses anos ela ainda estivesse lá ― mas, sentindo-se incapaz de decidir que sim, decidiu que não.

“Amanhã”, disse Oatsie, “veremos Kiamo Ko. A fortaleza da montanha pertencente ao clã governante dos arjikis. Você está pronta, Irmã Elfinha?”

Ela estava provocando, e Elfinha não gostava disso. “Não sou mais uma irmã. Sou uma bruxa”, ela disse, e tentou desejar coisas peçonhentas para Oat­sie. Mas Oatsie era uma pessoa mais forte que o cozinheiro, ao que parecia, pois apenas riu e seguiu seu caminho.

O Expresso da Trilha da Relva parou ao lado de um pequeno lago de montanha. Os outros disseram que a água era refrescante, embora fosse fria de gelar; Elfinha não sabia ou não se preocupava com isso. Mas no meio do lago havia uma ilha ― uma coisinha, do tamanho de um colchão, da qual brotava uma árvore sem folhas feito um guarda-chuva desprovido de sua parte de pano.

Antes que Elphaba pudesse se dar conta por completo ― a luz da noite chegava mais cedo nessa época do ano, e mais cedo ainda nas montanhas ― Matalegria havia mergulhado febrilmente na água, provocando espirros e nadando rumo à ilhota, atraído por algum pequeno movimento ou cheiro interessante que houvesse farejado. Ele esmiuçou os juncos, e então cravou seus dentes ― a mais lupina de suas feições ― suavemente sobre o crânio de um pequeno animal que estava na grama.

Elfinha não podia vê-lo, mas se parecia com um bebê.

Oatsie gritou, Liir tremeu como um montinho de geléia, Matalegria largou sua presa, mas apenas para agarrá-la novamente daí a pouco; ele estava babando sobre a cabeça da pequena coisa que pegara.

Não havia jeito de atravessar a água ― seria morte certa... Mas os pés de Elphaba foram em frente de qualquer modo...

Bateram com força na água, e a água com força respondeu...

E foi se tornando gelo enquanto à medida que ela entrava ― pé após pé de gelo para cada pé que ela enfiava. Uma extensão de prata se formou imediatamente, projetando-se feito viga de gelo, formando uma ponte fria e segura para a ilhota.

Onde Matalegria podia levar um pito, e o bebê ser salvo, embora ela não ousasse ter esperanças de que o conseguisse a tempo. Ela forçou as man­díbulas de Matalegria para separá-las, e arrancou a coisa dali. Esta tremeu de terror e de frio. Seus brilhantes olhos negros estavam alertas e vigilantes, prontos para repreender ou condenar ou amar, da mesma forma que uma criatura adulta capaz.

Os outros ficaram surpresos por vê-la, como ficaram surpresos de terem visto a forma de gelo, que talvez fosse resultado de alguma palavra mágica proferida à beira do lago de algum mágico ou bruxa que estivesse passando por ali. Era um pequeno macaco ― da variedade conhecida como macaco de neve. Um bebê abandonado por sua mãe e sua tribo, ou talvez separado destes por algum acidente?

Ele não tinha grande apreço por Matalegria, mas gostou do calor do vagão.


* * *

Eles acamparam a meio caminho da perigosa subida pela ladeira que levava a Kiamo Ko. O castelo se erguia em íngremes ângulos negros numa rocha negra. Elfinha via-o empoleirado acima deles como uma águia com as asas dobradas; suas torres de telhados cênicos, suas ameias e torreões, seus portões de ferro e janelas de fendas ― tudo denunciava a sua intenção original de comandar os sistemas hidráulicos. Abaixo dele serpenteava um poderoso tributário do Rio Vinkus no qual o Regente Ozma uma vez quisera construir uma represa e um aqueduto que levasse água ao centro de Oz ― até onde as secas eram mais ameaçadoras. O pai de Fiyero tomara essa fortaleza num cerco violento e a transformara numa propriedade dos príncipes de Arjiki, antes de morrer e deixar a liderança do clã para seu filho único, se Elphaba recordava bem.

A pequena bagagem foi feita, as abelhas zumbiam (as melodias que, semana após semana, lhe pareciam cada vez mais espantosas), Matalegria estava ainda amuado por não ter podido exercer seus instintos assassinos, os corvos sentiam que uma mudança estava por vir e não queriam comer o jantar. O macaco, que foi chamado Chistérico por causa do som que fazia, chilreou e estalejou dentes sem parar agora que estava aquecido e em segurança.

Em torno da fogueira do acampamento, adeuses foram ditos, alguns brindes, e mesmo algumas lamentações, foram feitos. O céu ficou mais escuro do que estava: talvez fosse o contraste com os picos nevados em derredor. Liir apareceu com um pacote de roupas e alguma espécie de instrumento musical, e disse adeuses também.

“Oh, então você vai ficar aqui, por acaso?”, disse Elfinha.

“Sim”, ele disse, “com você.”

“Com os corvos, com o macaco, com as abelhas, com o cão e com a bruxa?”, ela disse. “Comigo?”

“Para onde mais iria?”, ele perguntou.

“Tenho certeza que não sei”, ela respondeu.

“Eu tomo conta do cachorro”, ele disse calmamente. “Eu posso colher o mel para você.”

“Não faz diferença para mim”, ela disse.

“Tudo bem”, ele disse, e assim Liir se preparou para entrar na casa de seu pai.




OS PORTÕES DE JASPE DE

KIAMO KO


1

“Sarima”, disse a irmã mais nova, “acorde. Terminou a hora da soneca. Temos um convidado para a ceia, e eu preciso saber se temos de matar uma galinha. Há tão poucas, e o que servimos aos viajantes perdemos todo inverno em ovos... O que acha?”

A Viúva Princesa dos Arjikis gemeu. “Detalhes, detalhes”, ela disse, “não posso treinar você para resolver tudo sozinha!”

“Muito bem”, replicou a irmã, “eu decidirei, e você poderá dispensar o seu ovo da manhã quando estivermos na escassez.”

“Oh, Seis, não me dê ouvidos”, disse Sarima, “é só que estou tão pouco acordada. Quem é o convidado? Algum patriarca com mau hálito, que planeja nos aborrecer com histórias das caçadas que ele fez há cinqüenta anos? Por que permitimos essas coisas?”

“É uma mulher ― mais ou menos”, disse Seis.

“Isso sim é indesejável”, disse Sarima, sentando-se. “Não somos mais as ninfas rosadas que um dia fomos, Seis.” Do outro lado do quarto ela se via refletida no espelho do guarda-roupa: pálida como pudim de leite, seu rosto ainda bonito se aninhando em poças de gordura que caíam de acordo com as leis da gravidade. “Só porque você é a mais jovem, Seis, e pode ainda ajustar a sua cintura, não há necessidade de ser ferina.”

Seis fez beicinho. “Bem, é apenas uma mulher, então: fazemos ou não a galinha? Diga-me agora para que Quatro possa cortar a sua cabeça e depenar, ou não comeremos antes da meia-noite.”

“Teremos fruta e queijo e pão e peixe. Há peixe no poço, não é?” Sim, havia. Seis se virou para sair, mas se lembrou de dizer: “Eu lhe trouxe um copo de chá doce, está ali no seu toucador”.

“Abençoada seja. Agora, me diga, sem sarcasmo, por favor, como é nossa convidada, realmente?”

“Verde como o pecado, magra e curvada, mais velha que qualquer uma de nós. Vestida de preto como uma velha madre ― mas não tão velha. Imagino que tenha perto de oh, trinta, trinta e dois? Ela não disse o seu nome.”

“Verde? Que divino”, disse Sarima.

“Divino não é bem a palavra que me vem à cabeça”, disse Seis.

“Você não quer dizer verde de inveja ― você quer dizer realmente verde?”

“Talvez seja de inveja, não posso dizer, mas ela é verde com certeza. Legítimo verde capim.”

“Oh la. Bem, eu usarei branco nesta noite para não entrar em choque. Ela está sozinha?”

“Ela chegou com a caravana que vimos na descida do vale ontem. Ela parou por aqui com um pequeno bando de animais ― um cão-lobo, uma colméia de abelhas, um moleque, alguns corvos e um macaco-bebê.”

“O que ela fará com todos eles nas montanhas no inverno?”

“Pergunte você a ela.” Seis franziu o nariz. “Ela me faz tremer.”

“Até gelatina mal-feita faz você tremer. Quando será o jantar hoje à noite?”

“Sete repiques e meio. Ela vira meu estômago.”

Seis saiu, esgotando suas expressões de desgosto, e Sarima tomou seu chá na cama até que sua bexiga reclamou. Seis tinha avivado o fogo e fechado as cortinas, mas Sarima abriu-as novamente para olhar para o pátio lá embai­xo. Kiamo Ko se exibia orgulhosa em suas torres e torreões, construída em maciças saliências circulares que se erguiam da pedra da própria montanha. Depois que o clã dos arjikis arrebatara o edifício da comissão hidráulica, ameias serrilhadas tinham sido acrescentadas para fazer a defesa. A despeito das restaurações, o plano da casa era ainda simples. Era construída na for­ma genérica de um U, uma sala central com duas longas alas estreitas que contornavam um pátio elevado. Quando chovia, a água escorria abundante sobre as pedras redondas, e deslizava pelos portões entalhados de carvalho rijo e os painéis de jaspe, passando pelo enfermiço ajuntamento de casas da aldeia aninhadas nos muros exteriores do castelo. Nessa hora, o pátio era de um cinza-carvão. Frio e imundo com retalhos de feno e pedacinhos de folhas voejando ao vento. Havia uma luz na velha casinha do sapateiro, e fumaça se evolando da chaminé que acusava falta aguda de uma reforma ― como tudo mais nessa mansão decadente. Sarima estava contente pela casa propriamente não ter sido exibida à sua convidada. Como Viúva Princesa dos Arjikis, ela gozava do privilégio de dar boas-vindas ao viajante nas câmaras privadas de Kiamo Ko.

Depois do banho, ela se vestiu com um traje diáfano de pintas brancas, e pôs o seu belo colar que havia chegado, feito uma mensagem do Outro Mundo, de seu querido finado marido, meses depois do Incidente. Fugindo ao hábito, Sarima derramou algumas lágrimas admirando a si mesma dentro do confortável amplexo de sua gola segmentada, enfeitada pela jóia. Se esti­vesse muito paramentada do ponto de vista dessa viajante, ela poderia sempre disfarçar a coisa com um guardanapo. Mas ela ainda saberia que a jóia estava lá. Mesmo antes de suas lágrimas secarem ela estava murmurando, esperando ansiosamente pela novidade.

Ela deu uma olhadela nos filhos antes de descer. Estavam saltitantes; os estranhos sempre os deixavam assim. Irji e Manek, de doze e onze anos, já estavam quase velhos o suficiente pára saírem desse ninho de pombas peçonhentas. Irji era mole e chorava bastante, mas Manek era um pequeno combativo, sempre fora. Se ela os deixasse partir com o clã para as Pastagens, na migração de verão, ambos poderiam ter suas gargantas cortadas ― havia muitos homens do clã disputando a liderança para eles mesmos ou para os filhos. Portanto, Sarima os mantinha por perto.

Sua filha, Nor, de pernas longas e chupando o polegar até os nove anos, ainda precisava de um colo no qual se aninhar antes de ir dormir. Vestida para a refeição, Sarima se sentiu inclinada a não dar colo, mas se abrandou. Nor tinha um ceceio delicado e dizia zorrendo na zuva em vez de correndo na chuva. Ela fazia amizade com pedras e velas e hastes de capim que cresciam contra toda a lógica nas rachaduras das pedras de muro em torno das janelas. Ela suspirou e esfregou o rosto contra o seu colar e disse: “Tem um menino também, Mãe. Nós brincamos com ele no quintal do moinho”.

“Como ele é? Verde também?”

“Não. Ele é normal. Ele é um bebezão ― gordo e forte, e Manek jogou pedras nele para ver o quanto ele conseguiria desviar delas. Ele deixou o Manek fazer isso. Talvez você sendo gordo não se machuque?”

“Duvido disso. Qual é o nome dele?”

“Liir. Não é um nome esquisito?”

“Soa estrangeiro. E sua mãe?”

“Não sei o nome dela e não acho que ela seja mãe dele. Ele não disse nada quando a gente perguntou. Irji disse que ele deve ser um bastardo. Liir disse que não se importava. Ele é boa gente.” Ela levou seu polegar direito à boca, e com a sua mão esquerda tateou o tecido do roupão de Sarima bem abaixo da gola, até que encontrou um mamilo, e passou seu polegar sobre ele afetuosamente, como se fosse um bichinho de estimação. “Manek fez o menino abaixar as calças pra gente poder ter certeza de que a coisa dele não era verde.”

Sarima desaprovou ― em consideração à hospitalidade, se não fosse por mais nada ― mas foi compelida a perguntar: “E o que você viu?”

“Oh, bem, você sabe.” Nor virou a cabeça e colocou-a no pescoço da mãe, e então espirrou com o pó-de-arroz com o qual Sarima mantinha seus queixos protegidos de fricção. “Coisa de menino tem aparência estúpida. Me­nor que as de Manek e Irji. Mas não verde. Eu fiquei tão aborrecida que não olhei muito.”

“Nem eu olharia. Foi muito grosseiro.”

“Não fui eu que o obriguei a fazer isso. Foi Manek!”

“Bem, basta disso. Agora, vamos pra uma historinha antes de dormir. Eu tenho de descer, então vamos pra uma curta. O quê você quer ouvir, minha pequena?”

“Eu quero ouvir a história da Bruxa e os bebês-raposas.”

Com menos drama que habitualmente, Sarima se animou a narrar o conto de como os três bebês-raposas foram raptados e enjaulados e alimenta­dos até ficarem gordinhos, na preparação de uma caçarola de queijo-e-carne de filhote de raposa, e como a Bruxa foi buscar fogo no sol para cozinhá-los. Mas, quando ela voltou para a sua caverna, exausta e de posse da chama neces­sária, os filhotes de raposa levaram a melhor sobre ela cantando um acalanto para fazê-la dormir. Quando o braço da bruxa caiu, a chama que ela trouxera do sol queimou a porta da jaula, e os filhotes se evadiram. Então, eles uivaram chamando a velha mãe-lua para descer e ficar como uma porta irremovível na entrada da caverna. Sarima encerrou com o tradicional desfecho. “E lá a maléfica velha Bruxa ficou presa, por um tempão.”

“E ela não conseguiu sair?”, perguntou Nor, fazendo a sua parte no joguinho num estado quase hipnótico.

“Ainda não”, disse Sarima, beijando e mordendo sua filha no pulso, o que fez ambas darem risadinhas, e então as luzes se apagaram.

As escadas do apartamento privado de Sarima desciam sem corrimões para a fortaleza do castelo, alinhando-se primeiro a uma parede e, então, depois de uma curva, a mais outra. Ela desceu o primeiro lance cheia de graça e autodomínio, suas saias brancas se encapelando, seu colar uma pala de cores suaves e metais preciosos, seu rosto uma cuidadosa composição de boas-vindas.

Na plataforma, ela viu a viajante, sentada num banco num caramanchão, olhando para ela.

Ela desceu o segundo lance até o nível da laje, consciente do cinismo que fervilhava por baixo de sua leal recordação de Fiyero, consciente do aguilhão desse cinismo; consciente de sua beleza perdida; de seu peso; de sua tolice de reinar sobre nada além de crianças irritantes e irmãs mais jovens traidoras; da escassa pretensão de autoridade que mal mascarava seu medo do presente, do futuro e mesmo do passado.

“Como vai?”, ela conseguiu dizer.

“Você é Sarima”, disse a mulher, erguendo-se, seu queixo parecido a uma estalactite que se projetasse feito uma raiz de rutabaga apodrecida.

“É provável!”, ela disse, satisfeita pelo colar; parecia-lhe um escudo ago­ra, para proteger seu coração de ser perfurado por aquele queixo. “Saudações a você, minha amiga. Sim, eu sou Sarima, senhora de Kiamo Ko. De onde você vem, e como se chama?”

“Eu venho de algum lugar por trás do vento”, disse a mulher, “e eu tenho escondido o meu nome tão freqüentemente que não vou gostar de revelá-lo novamente para você.”

“Bem, você é bem-vinda aqui”, disse Sarima tão suavemente quanto pôde, “mas se não temos nada de que chamá-la, você ficará sendo a Titia. Você quer jantar? Nós a serviremos logo.”

“Eu não jantarei enquanto não nos falarmos”, disse a convidada. “Não debaixo de seu teto, derramando-me em fingimentos por uma noite; eu pre­feriria cair no fundo de um lago. Sarima, eu sei quem você é. Eu estudei com seu marido. Soube de você há uns doze anos ou quase.”

“É claro”, disse então Sarima, vendo as coisas se encaixando. Os velhos, bem guardados detalhes da vida de seu marido emergiram rapidamente em sua memória. “É claro que Fiyero falou de você ― e de sua irmã, Nessinha, certo? Nessarose. E da glamourosa Glinda, por quem achei que ele estivesse um tantinho apaixonado, e dos rapazes brincalhões invertidos, e de Avaric, e do sólido velho Boq! Eu tinha imaginado se aquele tempo feliz da vida de meu marido não seria sempre exclusivo, sempre dele e nunca meu ― é bom que você tenha vindo para lembrá-lo. Eu teria gostado de ter passado uma temporada ou outra em Shiz, mas temo que não tivesse miolos, nem minha família dispusesse de dinheiro para isso. Eu lembrei-me de você num minu­to, bem, a cor de sua pele, não há nada igual a ela, não é? Ou estou sendo provinciana demais?”

“Não, é única”, disse a convidada. “Antes que digamos umas dez frases de tolices bem-educadas uma para a outra, eu tenho de lhe contar uma coisa, Sarima. Eu acho que fui a causa da morte de Fiyero...”

“Bem, você não seria a única”, interrompeu Sarima, “é um passatempo nacional por aqui culpar-se pela morte de um príncipe. Uma oportunidade para aflição e expiação pública, que eu secretamente acredito que as pessoas saboreiem um pouquinho.”

A convidada torceu seus dedos, como se para abrir um espaço para si mesma nas opiniões de Sarima. “Eu posso lhe contar como, eu quero lhe contar...”

“Não a menos que eu queira ouvi-la, o que é prerrogativa minha. Esta é minha casa e eu escolho ouvir o que eu quero.”

“Você deve me ouvir, assim poderei ser perdoada”, disse a mulher, vi­rando seus ombros para cá e para lá, quase como se fosse uma besta de carga com uma canga invisível sobre si.

Sarima não gostava de ser acuada em sua própria casa. Haveria tempo suficiente para considerar essas implicações repentinas, quando ela se sentisse com vontade para isso. E não antes. Dizia a si mesma que estava no comando. E então podia dar-se ao luxo de ser amável.

“Se bem me lembro”, disse Sarima ― sua mente disputava uma corrida com a memória ― “você é aquela, Fiyero falou de você, é claro ― Elphaba, é isso ― você é aquela que não acreditava na existência da alma. Eu me lembro bem assim, então, o que há para perdoar, queridinha? Sei que você viajou cansativamente ― impossível chegar aqui sem viajar exaustivamente ― e você precisa de uma boa refeição quente e algumas noites de sono, e a gente poderá conversar em alguma manhã da próxima semana?”

Sarima juntou seu braço ao de Elphaba. “Mas eu esconderei seu nome das pessoas, se você prefere assim”, disse. Ela conduziu Elphaba através das altas portas de carvalho empenado na direção da sala de jantar e anunciou: “Olhem quem está aqui, Titia Hóspede”. As irmãs se postavam ao lado de suas cadeiras, famintas e curiosas e impacientes. Quatro tinha o colherão enfiado na sopeira, e o mexia; Seis se vestira de um roxo-avermelhado hostil; Dois e Três, as gêmeas, olhavam piamente para os seus cartões de oração; Cinco estava fumando e soprando anéis concêntricos na direção de uma travessa com um peixe amarelo sem olho que elas haviam pescado do lago subterrâneo. “Irmãs, exultemos, uma velha amiga de Fiyero veio comparti­lhar memórias queridas e avivar nossas vidas. Acolham-na como acolheram a mim.” Talvez fosse uma escolha infeliz de palavras, pois as irmãs todas se ressentiram e desprezaram Sarima. Por que ela se casara com alguém que morreria tão cedo e as condenara não só a ficar solteironas, mas também à privação e à negação?

Elphaba não falou palavra durante a refeição toda nem levantou os olhos de seu prato. Apesar disso, devorou o peixe e o queijo e as frutas. Sarima deduziu de seus modos alimentares que ela vivera debaixo de uma regra de silêncio quanto a refeições, e não ficou surpresa, mais tarde, ao ser informada sobre o monastério.

Tomaram um copo de um xerez precioso na sala de música, e Seis entreteve-as com um noturno agitado. A convidada parecia acabrunhada, o que deixava as irmãs felizes. Sarima suspirava. A única coisa que podia ser dita a respeito da convidada era esta: ela era mais velha que Sarima. Talvez, durante o curto tempo de sua estada, Elphaba pudesse sair daquele amuo e ficar sabendo como a vida de Sarima era problemática e cheia de provações. Seria bom conversar com alguém, mas não em reunião de família.

2
Uma semana se passou até que Sarima dissesse para Três: “Por favor, diga à nossa Titia Hóspede que eu gostaria de vê-la amanhã para uma peque­na refeição no Solar”. Sarima julgava que Elphaba já tivera tempo suficiente para perceber a medida das coisas. A sofrida mulher verde estava em alguma espécie de lentidão controlada, forçada. Ela se movia espasmodicamente, per­seguindo alguma coisa no pátio, batendo os pés até farelar, como se tentasse fazer buracos no piso com seus calcanhares. Seus cotovelos estavam sempre curvados em ângulos retos, e suas mãos se apertavam e desapertavam.

Sarima se sentiu mais forte que nunca, o que não era muito. Fazia-lhe bem ter uma mulher de sua idade por perto, não importando quão frustrada ela pudesse estar. As irmãs desaprovavam a cordialidade de Sarima, mas as passagens das montanhas altas já estavam bloqueadas devido ao inverno, e não se podia mandar um estranho embora sumariamente por aqueles vales traiçoeiros. As irmãs conferenciavam em sua sala, enquanto se ocupavam tricotando odiosos porta-vasinhos cinzentos para os pobres, que elas não achavam merecedores, ganharem na época de Lurlinemas. Ela é doente, di­ziam; ela é inerte, incompleta (ainda mais do que elas eram, era a conclusão não mencionada, uma idéia imensamente agradável); ela é amaldiçoada. E aquele balão gordo que passa por menino é seu filho, ou uma criança escrava, ou é um de seus animais domésticos? Por trás das costas de Sarima elas cha­mavam a mulher que vivia na casinha do sapateiro de Titia Bruxa, ecoando as velhas lendas de Kumbricia, que eram mais vis ― e mais persistentes ― nos Kells que em qualquer parte de Oz.

Foi Manek, o filho do meio de Sarima, quem ficou mais curioso. Numa manhã, enquanto todos os meninos se postavam nas ameias urinando à von­tade (um jogo pelo qual a pobre Nor tinha de fingir não estar interessada), Manek disse: “E se a gente mijasse na Titia? Será que ela gritaria?”.

“Ela te transformaria num sapo”, disse Liir.

“Não, eu quero dizer, será que isso a machucaria? Parece que água dá nela dores e tremores. Será que ela chega a beber? Ou a água faz sua parte de dentro doer?”

Liir, não especialmente uma criança observadora, disse: “Eu acho que ela não bebe. Às vezes ela lava as coisas, mas ela usa varas e escovas. Melhor a gente não mijar nela”.

“E o que ela faz com todas aquelas abelhas e o macaco? Eles são mágicos?”

“Sim”, disse Liir.

“Que tipo de mágicos?”

“Eu não sei.” Eles saíram da beira vertiginosa da ameia e Nor foi cor­rendo atrás. “Eu tenho uma palha mágica”, ela disse, segurando uma cerda marrom. “Da vassoura da Bruxa.”

“A vassoura é mágica?”, disse Manek a Liir.

“Sim. Pode varrer o chão bem depressa.”

“Pode falar? E enfeitiçada? O que ela diz?”

Eles ficaram mais interessados, e Liir corou diante de sua curiosidade. “Eu não posso dizer. É um segredo.”

“Vai continuar sendo um segredo se a gente te jogar da torre?”

Liir pensou. “O que você quer dizer?”

“Você conta ou a gente te joga.”

“Não me empurrem da torre, seus retardados.”

“Se a vassoura é mágica, ela virá voando e te salvará. Além disso, você é tão gordo que acho que vai quicar que nem uma bola.”

Irji e Nor riram disso, a despeito deles mesmos. Fazia uma imagem muito engraçada em suas cabeças.

“A gente só quer saber os segredos que a vassoura conta pra você”, disse Ma­nek com um grande sorriso. “Então, conta pra gente. Ou a gente te empurra.”

“Vocês não estão sendo justos, ele é boa companhia”, disse Nor. “Ve­nham, vamos procurar alguns ratos na despensa e fazer amigos.”

“Num minuto. Vamos empurrar Liir do telhado primeiro.”

“Não”, disse Nor, começando a chorar. “Vocês meninos são tão malva­dos. Você tem certeza de que a vassoura é mágica, Liir?”

Mas Liir agora não queria dizer mais nada.

Manek atirou um seixo do telhado e pareceu passar um longo tempo antes que se ouvisse o ping do impacto.

Numa questão de momentos, o rosto de Liir começara a apresentar bolsas profundamente negras sob os olhos. Ele mantinha as mãos caídas do lado como um traidor numa corte marcial. “A Bruxa ficará tão furiosa com vocês que ela os odiará”, Liir disse.

“Eu não acho”, disse Manek, dando um passo adiante. “Ela nem vai dar bola. Ela gosta mais do macaco que de você. Ela nem notará se você estiver morto.”

Liir ofegava. Embora houvesse acabado de urinar, a parte da frente de suas calças largas havia ficado escura de umidade. “Olhe, Irji”, disse Manek, e seu irmão mais velho olhou. “Ele não serve nem pra viver, não é? É como se não fosse fazer falta nenhuma. Vamos lá, Liir, me conta. O que a maldita da vassoura disse pra você?”

O torso superior de Liir inflava e desinflava como um fole. Ele sussur­rou, “A vassoura me contou ― que ― que ― vocês todos vão morrer!”

“Oh, é só isso”, disse Manek. “A gente já sabia disso. Todo mundo morre. A gente já sabia.”

“Vocês sabiam?" disse Liir, que não sabia.

“Venham”, Irji disse, “venham, vamos pegar alguns ratos na despensa e poderemos cortar seus rabinhos e usar a palha mágica de Nor para furar os olhos deles.”

“Não!”, disse Nor, mas Irji tinha surrupiado a sua palha. Manek e Irji davam-se encontrões, os membros soltos como os de marionetes, junto ao parapeito, descendo as escadas. Com um enorme, aflito suspiro, Liir se re­compôs e arrumou as suas roupas, e seguiu-os como um anão trabalhador forçado nas minas de esmeralda. Nor ficou para trás, seus braços cruzados em desafio, seu queixo trêmulo de frustração. Então ela cuspiu na murada e se sentiu melhor, e seguiu os meninos.
* * *

No meio da manhã, Seis levou a convidada até o solar. Com um sorri­so afetado pelas costas de Titia, ela depositou uma bandeja de biscoitinhos cruéis, duros como cimento, numa mesa coberta com um tapete que se tor­nara marrom e sem desenho definido. Sarima, tendo já se desincumbido do que era a sua rotina diária de abluções espirituais, sentia-se preparada.

“Você está aqui há uma semana e parece que isso vai durar mais”, disse Sarima, autorizando Seis a servir um pouco de café de raiz amarga antes de dispensá-la. “A trilha norte está toda coberta de neve no momento, e não há um refúgio seguro entre nós e as planícies. Os invernos são penosos nas montanhas, e conquanto possamos nos virar com nossas provisões e nos­sa própria companhia, valorizamos muito uma novidade. Leite? Eu não sei exatamente o que você pretendia. Uma vez que a sua visita já se encontra cumprida, quero dizer.”

“Há boatos sobre a existência de cavernas nestes Kells”, Elphaba disse, quase mais para si mesma que para Sarima. “Eu vivi por alguns anos no Claus­tro de Santa Glinda nas Pedras Ralas, nos arredores de Cidade Esmeralda. Os dignatários nos visitavam, e enquanto permanecêssemos sob voto de silêncio, ninguém poderia falar do que soubesse. Celas monásticas. Eu pensava, quan­do cheguei aqui, que eu poderia ser levada a uma caverna e... e...”

“E ser uma dona-de-casa”, disse Sarima, como se ir para as cavernas fosse tão costumeiro quanto casar e parir bebês. “Alguns fazem isso, eu bem sei. Há um velho ermitão no penhasco ocidental de Garrafa Quebrada ― é um pico que há nas proximidades ― que dizem estar lá há alguns anos, e ele regrediu a um momento mais primitivo da natureza. Da natureza dele, quero dizer.”

“Uma vida sem palavras”, Elfinha disse, olhando para o seu café sem tomá-lo.

“Dizem que esse ermitão se esqueceu tudo sobre higiene pessoal”, disse Sarima, “o que, considerando o que os meninos fedem quando ficam sem banho por algumas semanas, me parece ser uma defesa natural contra ataque de animais selvagens.”

“Eu não espero ficar aqui por muito tempo”, Elphaba disse, virando sua cabeça com um giro de pescoço que a fez parecer um papagaio e olhando para Sarima de um modo estranho. Oh, cuidado, pensou Sarima cautelosamente, embora tivesse uma tendência a gostar de sua hóspede: Cuidado, ela está to­mando a direção da discussão em suas próprias mãos. Isso não será bom. Mas a hóspede continuou: “Eu tinha pensado que ficaria uma ou duas noites, três talvez, e poderia encontrar um buraco para me esconder antes que o inverno tomasse conta. Eu estava trabalhando com o calendário errado, eu pensava em como, e quando, o inverno chega a Shiz e a Cidade Esmeralda. Mas vocês estão adiantados em seis semanas, aqui.”

“Adiantados no outono e atrasados na primavera, ai”, disse Sarima. Ela tirou seus pés da almofada e colocou-os no chão, bem firmes, para mostrar seriedade. “Agora, minha nova amiga, há algumas coisas que preciso dizer para você.”

“Tenho coisas a dizer também”, Elfinha disse, mas Sarima saiu na frente dessa vez.

“Você vai me julgar uma pessoa impolida, e estará certa, é claro. Oh, quando eu fui escolhida para ser noiva em criança, uma boa governanta foi contratada em Gillikin para me ensinar e ensinar minhas irmãs a como usar verbos e pronomes e talheres de salada. E mais tarde eu comecei a dominar a leitura. Mas a maior parte do que aprendi sobre comportamento polido foi com o que Fiyero foi generoso o bastante para me ensinar quando concluiu sua educação e retornou. Não há dúvida que cometo gafes sociais. Você tem todo o direito de rir em minhas costas.”

“Não sou dada a esse tipo de atitude”, replicou Elphaba.

“Vá que seja. Mas eu ainda tenho opiniões, e sou observadora, embora não seja escolarizada. Isso a despeito de minha vida protegida, casada aos sete anos, como você deve saber, criada e guardada atrás das cortinas do castelo. Confio no meu próprio senso das coisas e não mudo de idéia. Então, deixe­-me continuar”, ela disse, quando Elphaba tentou interrompê-la. “Há tempo de sobra e o sol é belo aqui, não é? No meu pequeno refúgio.”

“Parece-me que você veio aqui para ― vamos dizer ― aliviar-se de al­gum negócio pesado ou outro. Você traz isso na cara. Não se espante, minha querida, porque, se há um ar que reconheço, é o ar de alguém que carrega um fardo. Lembre-se, eu escuto minhas irmãs, ano após outro, quando elas graciosamente me revelam todas as maneiras pelas quais me odeiam, e por quê.” Ela sorriu, divertindo-se com a própria tirada. “Se você quer se livrar de seu fardo, jogue-o aos meus pés, ou sobre meus ombros. Você talvez queira chorar um pouco, dizer adeus, e então partir. E quando você partir daqui, você irá sumir no mundo.”

“Eu não farei uma coisa assim”, disse Elfinha.

“Você fará sim, mesmo que não saiba disso. Você não terá nada que ligue você ao mundo. Mas eu sei meus próprios limites, Titia Hóspede, e sei para que você veio. Você me contou. Você me contou lá na sala, você disse que se sentia responsável pela morte de Fiyero...”

“Eu...”

“Não fale. Não fale nada. Esta é minha casa, eu sou uma Viúva Princesa de Bosta de Pato nominalmente, mas eu tenho o direito de ouvir e de não ouvir. Mesmo que seja para fazer um visitante sentir-se melhor.”



“Eu...”

“Não fale.”

“Mas eu não quero lhe sobrecarregar, Sarima, eu quero é lhe tirar um peso contando a verdade ― se você me permitir, você é o maior e o mais leve deles; o perdão abençoa o doador tanto quanto o recebedor.”

“Eu farei de conta que não ouvi essa observação sobre eu ser o maior peso”, disse Sarima. “Mas, ainda tenho o direito de escolher. E eu acho que você me quer mal. Você me quer mal e nem sabe disso. Você quer me punir por alguma coisa. Talvez por não ter sido uma esposa boa o bastante para Fiyero. Você me quer mal e está se enganando ao pensar que isso possa ser um cursinho terapêutico de barrinhas de chocolate.”

“Você sabe como ele morreu, ao menos?”, disse Elphaba.

“Sei que foi em alguma ação violenta, sei que seu corpo nunca foi en­contrado, sei que isso aconteceu num ninho de amor”, disse Sarima, perdendo sua pose por um momento. “Eu não sei quem foi que fez isso exatamente, mas eu já conversei bastante sobre isso com aquele vil Sir Chuffrey para formar minha sólida opi...”

“Sir Chuffrey!”

“Eu disse não. Eu disse basta. Agora, tenho uma oferta a lhe fazer, Titia, se você me ouvir. Você e o menino podem se mudar para a torre a sudeste, se quiserem. Há um par de grandes quartos redondos com tetos altos, e boa ilu­minação, e vocês ficarão longe daquela casinha de sapateiro cheia de correntes de ar, e mais aquecidos. Você terá sua própria escada para ir e voltar da sala principal, e não incomodará as garotas nem elas vão perturbá-la. Vocês não podem ficar naquela casinha o inverno todo. O menino tem me parecido pá­lido e choroso, acho que está sempre resfriado. Você está numa condição tal, temo afirmar, que terá de aceitar minha palavra mais firme nessas questões. Eu não quero discutir meu marido ou os aspectos de sua morte com você.”

Elphaba parecia horrorizada, e derrotada. “Não tenho escolha além de aceitar”, ela disse, “ao menos temporariamente. Mas eu lhe aviso, eu pretendo me tornar tão completamente amiga sua que você mudará de opinião. E con­tinuo achando que você precisa saber de certas coisas, você precisa conversar sobre elas, tal como faço ― e não poderei partir por essa vastidão adentro até que tenha obtido de você a solene promessa de...”

“Basta!”, disse Sarima. “Chame o porteiro da guarita e peça a ele para levar a sua bagagem para a torre. Venha, eu lhe mostro. Você não tocou no seu café.” Ela parou. Por um momento embaraçoso, houve respeito e descon­fiança, em igual medida, fervilhando no tapete como a poeira aos raios de sol. “Venha”, disse Sarima, mais suavemente, “no mínimo você precisa se aquecer. Você deve sair daqui falando bem de nós, os ratos caipiras de Kiamo Ko.”

3
No que dizia respeito a Elphaba, aquilo era um quarto de bruxa, e ela se divertiu com ele. Como todos os bons quartos de bruxa nas histórias infantis, tinha paredes curvas, seguindo a forma essencial de uma torre. Tinha uma ampla janela que, por estar virada para o leste, longe do vento, podia ser destrancada e arreganhada sem que tudo e todos fossem levados pelos ares, pelos vales nevados. Mais além, os Grandes Kells eram uma fila de sentinelas, de um negro arroxeado quando o sol de inverno nascia atrás deles, virando painéis de um branco azulado à medida que o sol se encaminhava para o pino, e ficando dourados e avermelhados na tarde que caía. Havia de vez em quando alguns desmoronamentos ruidosos de gelo e pedras soltas.

O inverno dominava a casa. Elphaba logo aprendeu o bastante para ficar satisfeita com o alojamento, no mínimo por estar certa que nenhum outro quarto tinha um fogo mais quente. E, com exceção de Sarima, ela não se importava com as outras companhias que a casa oferecia. Sarima vivia na ala ocidental, com os filhos: os meninos Irji e Manek, a menina Nor. As cinco irmãs de Sarima viviam na ala oriental ― elas eram chamadas por números de 2 a 6, e se alguma vez chegaram a ter outros nomes, estes tinham murchado devido ao desuso. Por direito de sua condição de não-casáveis, as irmãs recla­mavam os melhores quartos do lugar, embora Sarima fosse a dona do Solar. Onde Liir se enrascava para dormir Elphaba não sabia, mas ele reaparecia toda manhã para trocar seus farrapos ao pé do poleiro dos corvos. E trazia chocolate para ela, também.

Os Lurlinemas se aproximavam, e surgiram ali algumas decorações gas­tas das quais o dourado desaparecera. As crianças passaram um dia inteiro amarrando bugigangas e brinquedos nas arcadas, fazendo os adultos baterem a cabeça e praguejarem. Manek e Irji pegaram alguns galhos de espruce e ramos novos de azevinho. Nor ficava em plano secundário e pintava cenas de vida feliz no castelo em folhas de papel que ela e Liir tinham encontrado no quarto da Titia Bruxa. Liir disse que ela não sabia desenhar, e por isso se esgueirou por ali e desapareceu, talvez para fugir de Manek e Irji. A casa ficou em silêncio até que se ouviu um ruído de panelas de cobre atiradas na cozinha. Nor foi correndo para ver o que era, e Liir saiu de algum cubículo oculto para olhar também.

Era Chistérico. O macaco estava comendo alguma provisão, e todas as irmãs, cozinhando pão de mel, jogavam nele montinhos de massa, tentando afastá-lo da roda que estava pendurada, os utensílios fazendo barulho ao serem chacoalhados, acima da mesa de trabalho.

“Como é que ele entrou aqui?”, disse Nor.

“Leva ele pra fora, Liir, chama ele!”, disse Dois. Mas Liir não tinha so­bre Chistérico mais autoridade que elas. O macaco fugiu para o topo de um guarda-roupa, daí para uma enorme vasilha de alimentos secos, e abriu uma gaveta, encontrando uma preciosa provisão de passas, com a qual encheu a boca. Seis disse: “Vão pegar a escada da sala, vocês dois, e tragam aqui”, mas quando eles a trouxeram, Chistérico estava de volta à roda, fazendo-a rodo­piar e retinir como um carrossel num carnaval.

Quatro pôs um pedaço de melão amassado numa tigela. Cinco e Três tiraram seus aventais, ficando prontas para enxotá-lo quando ele descesse. Chistérico estava ainda olhando para a fruta quando a porta abriu com estré­pito contra a parede e Elphaba entrou, com passos desajeitados. “Com toda essa comoção, como conseguem ouvir vocês mesmas pensando?”, ela gritou, e então percebeu a presença de Chistérico, subitamente servil e tomado de remorso, e das irmãs, aprumadas para pegá-lo na armadilha de seus aventais cheios de farinha.

“Que diabos ele fez?”, ela disse.

“Não precisa gritar”, disse Dois aborrecida, sussurrando, mas elas bai­xaram seus aventais.

“Estou perguntando, o que é isto? O que é que realmente está aconte­cendo aqui? Vocês todas se parecem com Matalegria, com sede de sangue nas caras! Vocês estão brancas de raiva desse pobre animal!”

“Eu acho que não é raiva, é farinha”, disse Cinco, o que fez com que elas dessem risadinhas.

“Suas imundas selvagens”, disse Elfinha. “Chistérico, venha cá, desça. Imediatamente. Vocês, mulheres, merecem ser solteironas, porque assim não trazem nenhuma selvagem criança rastejante a este mundo. Não me ponham nunca a mão nesse macaco, estão me ouvindo? E como foi que ele fugiu de meu quarto? Eu estava no Solar com a irmã de vocês.”

“Oh”, disse Nor, lembrando, “oh, Titia, sinto muito. Fomos nós.”

“Vocês?” Ela se virou e olhou para Nor pela primeira vez, e Nor não gostou muito daquilo. Ela se encolheu, encostando-se à porta do frio porão. “O quê vocês estavam querendo lá?”, disse Elfinha.

“Um pouco de papel”, disse Nor debilmente, e num desesperado jogo de tudo ou nada, disse: “Eu fiz algumas pinturas para todo mundo, quer ver? vem cá”.

Chistérico nos braços, Elphaba seguiu-os até a sala desconfortável, onde o vento que vinha por debaixo da porta da frente fazia os papéis flutuarem contra a pedra esculpida. As irmãs vieram também, seguindo-os a uma dis­tância segura.

Elfinha ficou muito quieta. “Este papel é meu”, ela disse. “Eu não os autorizei a usá-lo. Olhem, tem palavras no verso. Vocês sabem o que são palavras?”

“Claro que eu sei, você acha que sou estúpida?”, respondeu Nor agres­sivamente.

“Vocês deixem meus papéis em paz”, disse Elphaba. Então, ela e Chis­térico subiram os degraus, e a porta para a torre se fechou estrepitosamente na cara deles.

“Quem quer ajudar a enrolar o pão de mel?”, disse Dois, aliviada que crâ­nios não tivessem sido rachados. “E esta sala está muito bonita, passarinhos, estou certa que Preenella e Lurline ficarão impressionadas hoje à noite.” As crianças voltaram para a cozinha e fizeram imitações de pessoas em pão de mel, e também de corvos, macacos e cães, mas não conseguiam fazer abelhas, eram pequenas demais. Quando Irji e Manek vieram, espalhando grama ne­vada no piso de ardósia, ajudaram a fazer as formas de pão de mel também, mas faziam formas asquerosas que não mostravam às crianças mais novas, e continuaram engolindo a massa crua e rindo histericamente por isso, o que deixava todo mundo louco da vida.

De manhã as crianças acordaram e correram para o andar inferior para ver se Lurline e Preenella haviam passado por lá. Decerto, havia lá um cesto de vime marrom com uma fita verde e dourada sobre ele (um cesto e uma fita que as crianças de Sarima já tinham visto ano após ano), e dentro havia três pequenas caixas coloridas, cada uma com uma laranja, um boneco, um pequeno saco de bolas de gude e um rato de pão de mel.

“Onde está o meu?”, disse Liir.

“Não vejo nenhum com seu nome em cima”, disse Irji. “Olhe: Irji. Ma­nek. Nor. Acho que Preenella deixou algum pra você lá na sua velha casa. Onde é que você morava?”

“Eu não sei”, disse Liir, e começou a chorar.

“Aqui, você pode ficar com o rabinho do meu rato, só o rabinho”, disse Nor gentilmente. “Primeiro você tem de dizer: ‘Posso ficar com o rabinho de seu rato?’ ”

“Posso por favor ficar com o rabinho do seu rato?”, disse Liir, embora suas palavras soassem quase ininteligíveis.

“E eu prometo obedecê-lo.”

Liir continuou murmurando. A permuta foi finalmente consumada. De vergonha, Liir não mencionou o descaso. Sarima e as irmãs nunca o notaram.

Elphaba não mostrou seu rosto o dia todo, mas mandou uma mensagem dizendo que a Véspera de Lurlinemas e Lurlinemas faziam-na sentir-se mal, e estava de folga por uns dias em conforto solitário, e não queria ser perturbada nem com refeições nem com visitas, nem com barulho de espécie alguma.

Assim, enquanto Sarima se recolhia à sua capela particular para lembrar seu querido marido nesse dia sagrado, as irmãs e as crianças cantavam alegres cânticos o mais alto que podiam.


4
Poucas semanas depois, quando as crianças travavam batalhas de bolas de neve, e Sarima estava preparando algum grogue medicinal na cozinha, Elfinha deixou seu quarto por fim e desceu furtivamente as escadas e bateu à porta da sala das irmãs.

Elas não gostaram disso, mas sentiram-se obrigadas a acolhê-la. A ban­deja de prata com garrafas de licor forte, o precioso cristal carregado em lombo de burro da Casa de Dixxi em Gillikin até ali, o mais belo e ricamente escarlate dos tapetes nativos no piso, o luxo das lareiras a cada um dos lados do aposento, cada uma delas flamejando alegremente ― bem, elas teriam escondido um pouco disso caso houvessem sido informadas da visita. Tal como foi, Quatro teve de esconder entre as almofadas do sofá o volume de couro que ela lia em voz alta, uma história forte de uma pobre mulher jovem assediada por uma abundância de bonitos pretendentes. O livro tinha sido um presente de Fiyero, o melhor que ele mandara para as irmãs ― e também o único. “Você gostaria de tomar um pouco de cevada com limão?”, disse Seis, serviçal até o dia de sua morte, a menos que por sorte alguém morresse antes.

“Sim, tudo bem”, Elphaba disse.

“Sente-se ― neste assento aqui, vai achá-lo mais confortável.”

Elfinha não tinha o ar de quem procura conforto, mas ela se sentou no assento indicado, de qualquer modo, rija e pouco à vontade naquele aposento que mais parecia um casulo acolchoado.

Ela tomou o menor golinho possível de sua bebida, como se suspeitasse de algum veneno.

“Suponho que preciso pedir desculpas por aquele tropel por causa do Chistérico”, ela disse. “Sei que sou hóspede aqui em Kiamo Ko. Eu apenas perdi um pouco a cabeça.”

“Bem, foi bem isso que você fez”, começou Cinco, mas as outras disse­ram, “Oh, não foi nada, nós todas temos dias como esse, na verdade para nós acontece sempre no mesmo dia, tem sido assim há anos...”

“É muito censurável”, Elfinha disse com algum esforço. “Eu passei mui­tos anos sob voto de silêncio, e eu não aprendi ainda a regular a voz no volume permissível.

Além disso, aqui estamos numa cultura diferente, de certo modo.”

“Nós, arjikis, sempre nos orgulhamos de ser capazes de falar com qual­quer outro cidadão de Oz”, disse Dois. “Em casa, recebemos de maneira igua­litária tanto o maltrapilho vagabundo scrow da parte sul quanto a elite de Cidade Esmeralda da parte leste.” Não que elas tivessem saído alguma vez do Vinkus.

“Quer um bocadinho?”, disse Três, trazendo uma lata de frutas de marzipã.

“Não”, Elfinha disse, “mas estou pensando no que vocês poderiam me contar sobre a tristeza particular de sua irmã.”

Elas se aprumaram, atraídas pelo assunto, e desconfiadas.

“Eu gosto de meus papos com ela no Solar”, disse Elfinha, “mas toda vez que a conversa chega perto de seu falecido esposo ― a quem vocês podem perceber que conheci pessoalmente ― ela mostra má vontade para discutir qualquer coisa.”

“Oh, bem, foi tão triste”, disse Dois.

“Uma tragédia”, disse Três.

“Para ela”, disse Quatro.

“Para nós”, disse Cinco.

“Titia Hóspede, ponha um pouco de licor de laranja na sua cevada com limão”, disse Seis, “ele vem das ladeiras aromáticas dos Kells Menores e é um luxo absoluto.”

“Bem, só um pouquinho”, disse Elfinha, mas não bebericou o licor que Seis lhe oferecera. Pôs os cotovelos sobre os joelhos e inclinou-se para a frente e disse: “Por favor, me contem como ela soube da morte de Fiyero”.

Houve um silêncio. As irmãs evitaram lançar olhares umas para as ou­tras, ocupando-se com as pregas de suas saias. Depois de uma pausa, foi Dois que disse: “Aquele triste dia. Ainda dói na memória”.

As outras se mexeram em seus assentos, virando-se desrespeitosamente para ela. Elphaba piscou duas vezes, parecendo um de seus próprios corvos.

Dois contou a história, sem sentimento ou drama. Um dos colegas de negócio de Fiyero, um comerciante arjiki, viera até o desfiladeiro da montanha no primeiro degelo de primavera, em lombo de escarque. Ele pediu para se encontrar com Sarima e insistiu que as irmãs ficassem por perto para apoiá-la quando ela recebesse as más notícias. Ele contou a elas como, nos Lurline­mas, recebera em seu clube uma mensagem anônima revelando que Fiyero tinha sido assassinado. Era num endereço em área de má reputação ― não havia vizinhança residencial. O membro do clã contratou um par de brutos e arrombou a porta do armazém. Lá dentro havia um pequeno apartamento no andar superior, um ambiente para encontros furtivos, obviamente. (O membro do clã relatou isso sem hesitação, talvez por uma manobra para diminuir o impacto do fato.) Havia evidência de luta e maciças quantidades de sangue, tão espesso em alguns pontos que ainda estava pegajoso. O corpo tinha sido removido, e nunca foi recuperado. Elphaba apenas balançou a cabeça em sinal afirmativo, soturnamente, ao ouvir essa recapitulação.

“Por um ano”, continuou Dois, “nossa querida aflita Sarima recusou-se a crer que ele estivesse realmente morto. Nós não ficaríamos surpresas se surgisse um bilhete pedindo resgate. Mas, nos Lurlinemas seguintes, quando não apareceu notícia alguma sobre o caso, tivemos de aceitar o inevitável. Além disso, a liderança do clã foi tão longe quanto pôde com uma colabo­ração imprevista; eles requisitaram um simples chefe, e ele foi posto à frente da investigação, saindo-se bem. Quando Irji ficar adulto, ele poderá reclamar os direitos de progenitor, se for ousado o bastante; ele ainda não é ousado, de maneira alguma. Manek é o candidato mais óbvio, mas ele é apenas o segundo pela ordem.”

“E o que Sarima acredita que aconteceu?”, disse Elfinha. “E vocês? Todas vocês?”

Agora que a parte mais sombria da história havia sido contada, as outras irmãs sentiram que podiam chegar a um consenso. Vinha à tona que Sarima por alguns anos suspeitara que Fiyero tinha tido um caso de amor com uma antiga colega de escola chamada Glinda, uma garota gillikinesa de lendária beleza.

“Lendária?”, Elfinha disse.

“Ele nos contou como ela era encantadora, como era discreta, que graça e que brilho ela tinha...”

“Isso seria o equivalente a dizer que ele exaltava as qualidades de uma mulher com quem estaria cometendo adultério?”

“Os homens”, disse Dois, “como todas sabemos, são ao mesmo tempo cruéis e astuciosos. Que artimanhas ele teria melhor que essa de admitir fervorosamente e sempre que ele a admirava? Sarima não teria bases para acusá-lo de manha e trapaça. Ele nunca deixou de ser atencioso com ela...”

“A seu modo frio, mal-humorado, reservado, amargo”, Três se interpôs.

“Muito diferente daquilo que se lê nos romances”, disse Quatro.

“Em caso de se ler romances”, disse Cinco.

“O que não se faz aqui”, disse Seis, fechando seus lábios sobre uma pêra de marzipã.

“E então Sarima acredita que seu marido estava tendo um romance com essa... essa...”

“Essa mulher deslumbrante”, disse Dois. “Você deve tê-la conhecido, você não freqüentava Shiz?”

“Conheço-a um pouquinho”, disse Elfinha, sua boca se esquecendo de ficar fechada. Ela estava passando por maus bocados para tentar acompanhar as múltiplas narrações. “Não a vejo há anos.”

“E na mente de Sarima está claro o que aconteceu”, disse Dois. “Glinda era ― e, por tudo que sei, ainda é ― casada com um rico senhor mais velho chamado Sir Chuffrey. Ele deve ter suspeitado de alguma coisa, e a seguiu, e descobriu o que se passava. Então ele contratou uns bandidos assassinos para matar o bastardo. Quero dizer, o pobre Fiyero. Não faz sentido?”

“É totalmente plausível”, Elfinha disse lentamente. “Mas, há alguma prova disso?”

“Prova nenhuma”, disse Quatro. “Se houvesse, a honra da família teria exigido que Sir Chuffrey fosse assassinado por vingança. Mas ele deve ain­da estar gozando de boa saúde. Não, é apenas uma teoria, mas é nisso que Sarima acredita.”

“É a isso que ela se apega”, disse Seis.

“E por que não?”, disse Cinco.

“É direito dela”, disse Três.

“Tudo é direito dela”, disse Dois tristemente. “Além do mais, pense só nisso. Se seu marido tivesse sido assassinado, não seria mais fácil de suportar o fato se você achasse que de algum modo, mesmo que fosse só um pouqui­nho, ele bem que merecia?”

“Não”, Elfinha disse, “eu não acho que seria.”

“Nem nós”, admitiu Dois, “mas nós achamos que é o que ela pensa.”

“E vocês?”, Elfinha perguntou, estudando o desenho do tapete, os losan­gos de um vermelho sangüíneo, as franjas pontiagudas, os animais e folhas de acanto e os medalhões em relevo. “O que vocês pensam?”

“Dificilmente pode-se esperar de nós uma opinião unânime”, disse Dois, mas ela desembestou a falar de qualquer jeito. “Parece razoável supor que, sem que a gente soubesse, Fiyero se envolveu em algum movimento político na Cidade Esmeralda.”

“Uma estada que era para ser de um mês acabou durando quatro”, disse Quatro.

“Ele tinha ― afinidades políticas?”, disse Elphaba.

“Ele era o Príncipe dos Arjikis”, Cinco lembrou a todas. “Ele tinha liga­ções ― responsabilidades ― alianças ― que quem de nós poderia adivinhar? Era direito seu ter opiniões sobre coisas que nós não precisávamos saber.”

“Ele era simpatizante do Mágico?”, disse Elfinha.

“Você está dizendo que ele estava envolvido numa daquelas campanhas? Num daqueles ― genocídios? Primeiro os quadlings, depois os Animais?”, disse Três. “Você parece surpresa que saibamos dessas coisas. Você acha que vivíamos tão isoladas do resto de Oz?”

“Nós somos isoladas”, disse Dois. “Mas nós escutamos muita coisa. Gostamos de dar abrigo a viajantes quando eles cismam de parar por aqui. Sabemos muito bem como a vida pode ser podre por aí.”

“O Mágico é um déspota”, disse Quatro.

“Nossa casa é nosso castelo”, disse Cinco ao mesmo tempo. “Algum alheamento quanto a todas essas coisas é uma coisa saudável. Com isso, mantemos nossa fibra moral, ficamos imaculadas.”

Todas deram risadinhas de gozação ao mesmo tempo.

“Mas, vocês acham que Fiyero tinha uma opinião sobre o Mágico?”, Elphaba perguntou novamente, pressionando com alguma urgência.

“Ele guardava essas coisas só para si”, replicou Dois. “Em nome da doce Lurline, ele era um príncipe e um homem! ― e nós não éramos nada senão suas mais jovens e dependentes cunhadas! Você acha que ele faria confiden­cias conosco? Ele podia até ter sido um amigo íntimo do Mágico, por tudo que sabemos! Ele com certeza tinha ligações no Palácio, pois era um príncipe. Mesmo que apenas de nossa pequena tribo. O que ele fazia com essas ligações ― quem somos nós para dizer? Mas nós não achamos que ele morreu como vítima de um marido ciumento. Talvez estejamos nos resguardando, mas não achamos. Achamos que ele foi pego no fogo cruzado de alguma luta alheia. Ou que ele foi surpreendido no meio de um ato de traição de algum grupo esquentado ou outro. Ele era um homem bonito”, disse Dois, “e nenhuma de nós negaria isso, naquele tempo e agora. Mas ele era forte e reservado, e duvidamos que teria se afrouxado o bastante para manter um caso de amor.” Pelo menor dos gestos ― uma repuxada em seu abdômen e uma endireitada em seus ombros ― Dois deixou escapar o motivo de sua posição: Como ele poderia ter sucumbido aos encantos de Glinda se fora capaz de resistir às suas próprias cunhadas?

“Mas”, perguntou Elfinha a boca pequena, “vocês acham que ele traba­lhava como espião para alguém?”

“Por que seu corpo nunca foi encontrado?”, disse Dois. “Se tivesse sido por um ataque de ciúme, o corpo não precisaria ter sido removido. Talvez não tivesse morrido ainda. Talvez tivesse sido levado para uma sessão de tortura. Não, em nossa limitada experiência, achamos que isso leva jeito de ter sido uma traição de feitio político, não romântico.”

“Eu...”, disse Elphaba.

“Você ficou pálida, querida. Seis, traga um pouco d’água...”

“Não”, disse Elphaba. “É só que ― ninguém pensava nisso naquele mo­mento ― eu nunca. Devo lhes contar o pouco que sabia a respeito? E talvez vo­cês possam repassar para a Sarima.” Ela começou a narrar. “Eu vi Fiyero...”

Mas, no momento mais estranho possível, a solidariedade familiar deu as caras. “Querida Titia Hóspede”, disse Dois, num tom de responsabilidade, “estamos debaixo das ordens mais estritas de nossa irmã para não cansar você com conversinhas sobre Fiyero e as tristes circunstâncias de sua morte.” Era evidente que Dois tivera de travar uma luta consigo mesma para dizer isso, já que o apetite por ouvir o que Elphaba tinha a dizer era enorme. As barrigas ali presentes estavam roncando pela carne que estava por vir. Mas o decoro, ou o medo da cólera de Sarima quando ela descobrisse, venceu. “Não”, disse Dois novamente, “não, creio que não devemos mostrar um interesse indevido. Podemos não ouvir e não falaremos a Sarima do que ouvimos.”

No fim, Elphaba deixou-as ali, e saiu trôpega. “Numa outra ocasião”, ela continuou dizendo, “quando vocês estiverem prontas, quando ela estiver pron­ta, falaremos disso. Vocês entendem que isso é essencial; há tanta angústia de que ela poderia ser aliviada ― e que ela mesma poderia aliviar, também...”

“Adeus, por enquanto”, elas disseram, e a porta se fechou para ela. As chamas nas lareiras gêmeas se refletiram por todo o aposento, e elas tomaram suas posições de dignidade frustrada, por terem de obedecer à irmã mais velha ― que Sarima fosse para o quinto dos infernos.


5
O gelo grudava nos telhados, desalojava telhas e pingava sujeira nos apo­sentos particulares, na sala de música, nas torres. Elphaba deu para usar seu chapéu dentro de casa para evitar a queda casual de gelo em sua cabeça. Os corvos estavam com os bicos mofados e traziam algas entre as garras. As irmãs concluíram a leitura de seu romance, e coletivamente suspiraram ― por vida, por vida! ― e começaram a ler de novo, como vinham fazendo havia oito anos. Na feroz corrente de ar ascendente do vale, a neve parecia tanto estar caindo quanto subindo. As crianças adoravam isso.

Numa tarde melancólica Sarima enfeitou-se com agasalhos de lã verme­lha e, para matar o tédio, saiu a vagar por quartos mofados e em desuso. Ela localizou uma escada num eixo trapezoidal, oblíquo ― talvez essa alta alcova se encostasse a algum lado da cumeeira que não era visível, ela não era boa em imaginar arquitetura em três dimensões. De qualquer modo, ela subiu os degraus. No topo, através de uma tosca treliça, ela viu uma figura na clara penumbra. Sarima tossiu para não sobressaltá-la.

Elphaba se curvava quase em duas sobre um enorme fólio estendido num banco de carpinteiro. Ela se virou, surpresa, mas não muito, e disse: “Nós temos a mesma inclinação, que curioso”.

“Você encontrou alguns livros de que eu tinha me esquecido completa­mente”, disse Sarima. Ela sabia ler agora, mas não bem, e os livros faziam-na sentir-se inferior. “Eu não poderia lhe dizer do que eles tratam. Tantas palavras, você mal poderia imaginar que o mundo merecesse tamanho escrutínio.”

“Aqui diante de mim tenho uma geografia arcaica”, disse Elfinha, “e al­guns registros de pactos de usufruto entre várias famílias dos arjikis ― aposto que haveria chefes que ficariam muito felizes de vê-los. A menos que estejam anacrônicos. Alguns textos que Fiyero tinha em Shiz ― eu os reconheço tam­bém, do curso de estudos de ciências da vida.”

“E essa coisa grande ― páginas roxas e tinta prateada, que enorme.”

“Achei no piso do guarda-roupa. Parece ser um Livro das Sombras”, Elfinha disse, pondo a sua mão numa página apenas suavemente empenada com a umidade. Fazia um belo contraste, sua mão no pergaminho.

“O que é isso, além de belo?”

“Tal como posso entender”, Elfinha disse, “uma espécie de enciclopédia de coisas místicas. Magia; e do mundo dos espíritos; e de coisas vistas e não vistas; e de coisas passadas e futuras. Posso compreender apenas uma linha aqui ou ali. Repare como elas se misturam quando você olha.” Ela apontou um parágrafo de texto em letra manuscrita. Sarima verificou. Embora sua habilidade para ler fosse mínima, ela ficou boquiaberta com o que viu. As letras flutuavam e se rearranjavam na página, como se estivessem vivas. A página ia mudando de opinião à medida que era olhada. As letras se coalha­vam num grande emaranhado negro, como se fossem um monte de formigas. Então Elphaba virou uma página. “Aqui, esta seção é um bestiário.” Havia elegantes, diluídos desenhos em vermelho-sangue e folheados a ouro, nas elevações fronteiras e traseiras de (parecia) um anjo, com anotações em uma letra delgada sobre os aspectos aerodinâmicos do ente sagrado. As asas se dobravam para cima e para baixo e o anjo sorria com uma espécie de santidade atrevida. “E há uma receita nesta página. Ela diz: ‘De maçãs de casca negra e polpa branca: para encher o estômago de gula até a Morte’.”

“Eu me lembro deste livro agora”, Sarima disse. “Eu realmente lembro como veio parar aqui, eu mesma o pus aqui; eu tinha esquecido. Bem, os livros são tão fáceis de ser negligenciados, não são?”

Elfinha olhou pensativa, seus olhos se apertando debaixo das pétreas glabras sobrancelhas. “Conte-me, Sarima, por favor.”

A Viúva Princesa de Kiamo Ko ficou alvoroçada. Ela foi até uma pe­quena janela e tentou abri-la, mas incrustações de gelo a impediram. Assim ela sentou-se pesadamente num caixote e contou a história para Elphaba. Ela não se lembrava exatamente quando, mas fora há um longo tempo, quando todos eram jovens e esbeltos. O adorado Fiyero ainda estava vivo, mas estava distante, nas Pastagens Milenares, com a tribo. Queixando-se de uma dor de cabeça, ela estava completamente sozinha no castelo. O sino da ponte levadiça soou e ela foi ver quem era.

“Madame Morrible”, Elphaba disse. “Uma ou outra Bruxa de Kumbric.”

“Não, não era a Madame. Era um homem idoso usando túnica e pernei­ras, com um manto que precisava urgentemente de um reparo da costureira. Ele disse que era um feiticeiro, mas talvez fosse apenas um louco. Ele pediu uma refeição e um banho, coisas que lhe foram concedidas, e depois me disse que queria retribuí-las dando-me este livro. Disse a ele que, com um castelo para administrar, eu não tinha muito tempo para frivolidades, leituras e o mais. Ele disse que isso não importava.

Sarima soltou seus roupões, e traçou um desenho no pó frio numa pilha de códices próxima. “Ele me contou um caso fabuloso que me persuadiu a pegar o presente que me entregava. Revelou que era um livro de sabedoria, e que pertencia a um outro mundo, mas não estava seguro lá. Então, ele o trouxera para cá ― onde podia ficar escondido e fora de perigo.”

“Que monte de porcarias”, disse Elfinha. “Se tivesse vindo do outro mundo eu não seria capaz de ler nada do que estava escrito. E bem que pude ler um pouco.”

“Mesmo que seja mágico, como ele disse?”, disse Sarima. “Mas você sabe que acreditei nele. Ele disse que havia mais intercâmbio entre os mundos do que qualquer pessoa poderia acreditar, que nosso mundo possuía atributos do seu, e o seu do nosso, uma espécie de efeito de vazamento, ou talvez uma infecção. Ele tinha uma barba franzida branca e cinza, e modos muito amáveis e abstratos, e cheirava a alho e creme azedo.”

“Prova indiscutível de que era extraterreno...”

“Não zombe de mim”, disse Sarima brandamente, “você me pediu, então estou contando. Ele disse que o livro era poderoso demais para ser destruído, mas ameaçador demais ― para aquele outro mundo ― para ser preservado. En­tão, fizera uma viagem mágica ou qualquer coisa do gênero e viera para cá.”

“Kiamo Ko o chamou e ele não pôde resistir às suas atrações...”

“Ele disse que éramos isolados, e uma fortaleza”, disse Sarima, “e eu não podia discordar! E que diferença ia fazer para mim pegar outro livro? Nós simplesmente o trouxemos para cá, e o pusemos junto com o resto. Eu nem sei se falei a mais alguém sobre isso. Então, ele me abençoou e partiu. Ele se foi com um cajado de carvalho espinhento pela Trilha do Galho Preso.”

“Você pode realmente dizer que pensou que o homem que trouxe isto para cá era um feiticeiro?”, disse Elfinha. “E que este livro provém de... outro mundo? Você acredita mesmo em outros mundos?”

“Já acho um grande esforço acreditar neste em que vivo”, disse Sarima, “embora ele pareça estar aqui; então, por que deveria me fiar na minha dúvida sobre outros mundos? Você não acredita?”

“Bem que tentei, quando era criança”, disse Elfinha. “Fiz um esforço. O velho, estúpido, indistinto semblante do mundo da salvação ― o Outro Mundo ― eu não podia captá-lo, não conseguia focalizá-lo. Agora, penso apenas que são nossas próprias vidas que estão ocultas de nós. O mistério ― quem é aquela pessoa no espelho ― isso é chocante e insondável o bastante para mim.”

“Bem, ele era um feiticeiro, ou louco, fosse o que fosse, bem simpático.”

“Talvez fosse algum agente leal do Regente Ozma”, disse Elfinha. “Es­condendo aqui algum antigo tratado lurlinista. Antecipando um renascimen­to da monarquia, um golpe palaciano, preocupado com Ozma Tippetarius, que dizem ter sido seqüestrada e ter sucumbido a um feitiço do sono, ele teria vindo disfarçado para esconder seu documento num lugar bem distante, mas ainda recuperável...”

“Você está cheia de teorias de conspiração”, disse Sarima. “Notei isso com você. Este era um senhor idoso, muito idoso. E ele falava com um so­taque. Ele era certamente um mágico andarilho que vinha de outra parte. E ele não estava certo? A coisa tem ficado aqui, esquecida, por quanto tempo, afinal? Dez anos ou mais.”

“Posso pegar para olhar?”

“Eu não me importo. Ele nunca me disse para não lê-lo”, disse Sarima. “Naquele tempo eu talvez nem pudesse ler nada ― me esqueço. Mas olhe aquele belo anjo ali! Você fala seriamente quando diz que não acredita numa Outra Terra? Numa vida após a morte?”

“Bem o que precisamos.” Elphaba riu com desdém enquanto pegava o tomo. “Um Vale de Lágrimas pós-Vale de Lágrimas.”

6
Numa manhã, depois que Seis tinha tentado e desistido várias vezes de passar algumas lições para as crianças, Irji sugeriu um jogo de esconde­esconde entre paredes. Eles tiraram palhas e Nor perdeu, e aí ela escondeu seus olhos e contou. Quando ficou cansada de esperar, gritou: “Cem!”, e foi procurar.

Ela pegou Liir primeiro. Embora ele gostasse de desaparecer sozinho por longos intervalos, era ruim em se esconder quando isso era obrigatório. Assim, eles se juntaram para procurar os outros, e encontraram Irji no Solar de Sarima, agachado atrás dos folhos de veludo pendurados no poleiro de um grifo empalhado.

Mas Manek, o melhor na arte de se esconder, não pôde ser encontrado. Nem na cozinha, nem na sala de música, nem nas torres. Cheias de especu­lações, as crianças até ousaram descer ao bolorento porão.

“Há túneis daqui até o inferno”, disse Irji.

“Onde? Por quê?”, disse Nor, e Liir repetiu.

“São escondidos. Eu não sei onde. Mas todo mundo diz isso. Pergunte a Seis. Eu acho que é porque aqui já foi o quartel-general dos sistemas hi­dráulicos ― foi sim. O inferno queima tão ardido que eles precisam de água, e os demônios fizeram os túneis até aqui.”

Nor disse: “Olhe, Liir, aqui é o poço dos peixes”.

No centro de um aposento de abóbadas baixas, insalubre devido à umi­dade que gotejava em suas paredes de pedra, via-se um poço baixo com um tampo de madeira. Para ajudar, havia ali uma corrente e uma pedra para deslocar o tampo. Era brincadeira de criança destampar o poço.

“Lá embaixo”, disse Irji, “é onde pescamos os peixes que comemos. Nin­guém sabe se lá existe um lago inteiro ou se é um poço sem fundo, ou se por ele você pode ir diretamente pro inferno.” Ele moveu a vela acima, e apareceu um círculo de água negra fazendo um reflexo brilhante, em estilhaços e cír­culos de gelada luz branca.

“Seis diz que há uma carpa dourada aí”, disse Nor. “Ela a viu uma vez. É a coisa mais antiga que existe, ela pensou que fosse uma chaleira de metal flutuante que estivesse balançando na superfície, e então a carpa se virou e olhou para ela.”

“Talvez fosse uma chaleira de metal”, disse Liir.

“Chaleiras não têm olhos”, disse Nor.

“Seja como for, Manek aí não está”, disse Irji. “Está?” Ele chamou: “Alô, Manek”, e o eco rolou e se dissolveu na escuridão úmida.

“Talvez Manek tenha ido pro inferno por um desses túneis”, disse Liir.

Irji recolocou o tampo do poço do peixe. “Mas agora é com você, Nor, eu não vou olhar mais para baixo.”

Eles ficaram arrepiados, e correram de volta para cima. Quatro ralhou com eles por terem feito barulho demais.

Nor encontrou Manek por fim nas escadas do lado de fora da porta que dava para o quarto da Titia Hóspede. “Shh”, ele disse quando eles se aproxi­maram, e Nor deu uma batidinha nele para dizer: “Te pegamos”.

“Shh”, ele disse outra vez, com mais urgência. Eles se revezaram em turnos para olhar por uma rachadura na desgas­tada madeira da porta.

A Titia punha o dedo num livro, e murmurava coisas para si mesma, fazendo-as soar ora de um modo ora de outro. Na cômoda próxima a ela, Chistérico se acocorava num inquieto, mas obediente silêncio.

“O que está acontecendo?”, disse Nor.

“Ela está tentando lhe ensinar a falar”, disse Manek.

“Deixe-me olhar”, disse Liir.

“Diga espírito”, disse a Titia em uma voz gentil. “Diga espírito. Espírito. Espírito.”

Chistérico torceu sua boca para um lado, como se pensasse no que deveria fazer.

“Não há diferença”, disse a Titia para si mesma, ou talvez para Chis­térico. “Os elementos são os mesmos, os meandros são os mesmos; a pedra recorda; a água tem memória; o ar tem um passado pelo qual pode ser res­ponsabilizado; a chama renasce de si mesma como uma fênix. O que é um animal senão algo feito de pedra e água e fogo e éter! Lembre-se de como se fala, Chistérico. Você é animal, mas o Animal é seu primo, maldito. Diga espírito.”

Chistérico catou um piolho de seu peito e comeu-o.

“Espírito”, gritou a Titia, “há espírito, eu sei. Espírito!”

“Espito”, ou algo parecido, disse Chistérico.

Irji empurrou Manek para um lado e as crianças quase caíram no chão ao ver a Titia rindo e dançando e cantando. Ela agarrou Chistérico e o beijou, e disse: “Espírito, oh espírito, Chistérico! Há espírito! Diga espírito!”

“Espito, espito, espito”, disse Chistérico, sem se impressionar consigo mesmo. “Espita.”

Mas Matalegria despertou de uma soneca ao som da voz diferente.

“Espírito”, disse Titia.

“Espeto”, disse Chistérico pacientemente. “Espato. Espora. Esputo es­puto esputo. Espato, espeto, espito, espera, espada, espeta.”

“Espírito”, disse a Titia, “oh, meu Chistérico, nós ainda descobriremos um elo com o velho trabalho do Doutor Dillamond! Há um padrão comum a todos nós, pudéssemos nos aprofundar o bastante para vê-lo! Tudo não foi em vão! Espírito, meu amigo, espírito!”

“Esporte”, disse Chistérico.

As crianças não conseguiam parar de rir. Elas desceram as escadas rui­dosamente e foram parar no dormitório, e davam risadinhas abafadas debaixo dos cobertores.

Elas não mencionaram o que viram para Sarima ou para as irmãs. Fi­caram com medo que a Titia devido a isso interrompesse os ensinamentos, e todas queriam que Chistérico aprendesse a linguagem o suficiente para que pudesse brincar junto com elas.

Num dia sem vento, quando parecia que todos tinham de se evadir de Kiamo Ko ou morreriam de tédio, Sarima teve a idéia de que fossem esquiar num lago próximo. As irmãs concordaram, e desenterraram os enferrujados esquis que Fiyero lhes trouxera da Cidade Esmeralda. As irmãs cozinharam caramelos e prepararam cantis de chocolate, e até enfeitaram-se com fitas verdes e douradas, como se a ocasião fosse uma espécie de segundo Lurline­mas. Sarima se adornou com um roupão de veludo marrom guarnecido de bordas de pele, as crianças puseram calças e túnicas extras, e até Elphaba se juntou a todos, num manto espesso de brocados roxos e usando as pesadas botas de pele de bode dos arjikis, além de luvas, carregando a sua vassoura. Chistérico pegou carona num cesto de damascos secos. As irmãs, vestidas com os sisudos sobretudos dos homens da tribo, cintadas e abotoadas, for­mavam a retaguarda.

Os aldeões tinham tirado a neve do centro do lago. Era uma autêntica pista de salão de baile revestida de prata, ornamentada por mil arabescos, circundada por travesseiros e rolos para proporcionar um descanso seguro aos esquiadores que se esquecessem de como frear ou virar. A pleno sol, as montanhas pareciam se destacar como lâminas no fundo azul; grandes egretes e grifos de gelo se salientavam lá no alto. O rinque de patinação já estava barulhento devido aos gritos dos endiabrados e trôpegos adolescentes (aproveitando toda oportunidade para darem saltos acrobáticos e amontoa­rem-se uns sobre os outros confortavelmente em sugestivas posições). Seus pais se moviam mais lentamente, deslizando pelo gelo com mais cuidado. A multidão fez silêncio quando a proprietária de Kiamo Ko se aproximou, mas, como as crianças são crianças, o silêncio não durou muito.

Sarima se aventurou no gelo, suas irmãs formando um laço em torno dela com os braços dados. Volumosa como era, Sarima ficava nervosa temen­do cair, não se fiando em seus tornozelos, que não eram fortes. Mas dentro em pouco ela se lembrou como as coisas eram ― este pé, depois o outro, longas passadas langorosas ― e a desconfortável aproximação de classes sociais foi bem-sucedida. Elphaba se parecia com um de seus corvos: joelhos para a frente, cotovelos malhando, trapos se agitando, mãos enluvadas se juntando à procura de equilíbrio.

Depois que os adultos tiveram excitação em dose considerada suficiente (mas as crianças ainda estavam se aquecendo para a folia), Sarima e as irmãs e Elfinha desabaram dentro de peles de urso que a organização tinha provi­denciado para elas.

“No verão”, disse Sarima, “fazemos uma enorme fogueira e matamos al­guns porcos, antes que os homens desçam para as planícies, ou que os rapazes subam às montanhas para pastorear ovelhas e bodes. Todos vêm ao castelo para lambiscar o porco e tomar umas canecas de cerveja. E, claro, toda vez que aparece um leão da montanha ou algum urso particularmente perigoso, nós os usamos como guardas até que a besta seja morta ou desapareça.” Ela sorriu educadamente, de um modo discreto, a meia distância, embora os aldeões estivessem alheios ao pessoal do castelo no momento. “Titia querida, você está uma figura com esse roupão, e carregando essa vassoura.”

“Liir diz que é uma vassoura mágica”, disse Nor, que correra para jogar um punhado de flocos de neve granulada no rosto da mãe. Elphaba virou sua cabeça rapidamente e ergueu a sua gola para evitar o ricochete do espirro da neve. Nor sorriu com desfeita numa frase musical que evocava a de uma flauta de madeira, e fugiu em corrida desabalada.

“Então, conta pra nós como é que sua vassoura se tornou mágica”, disse Sarima.

“Eu nunca disse que ela é mágica. Eu a ganhei de uma monja idosa chamada Mãe Yackle. Ela me protegia, quando ainda estava lúcida, e dava-me ― bem, orientação, como eu suponho que vocês chamem a coisa.”

“Orientação”, disse Sarima.

“A velha monja disse que a vassoura seria o meu elo com meu destino”, disse Elfinha. “Entendi que ela queria dizer que meu destino era doméstico. Não mágico.”

“Entrar para a irmandade feminina”, Sarima bocejou.

“Eu nunca soube se Mãe Yackle era completamente louca ou era uma velha galinha sábia e profética”, disse Elfinha, mas as outras não estavam ouvindo, portanto, ela caiu em silêncio.

Daí a pouco Nor veio se arremessar ao colo da mãe novamente. “Conte-­me uma história, Mamãe”, ela disse. “Aqueles meninos são nojentos.”

“Meninos são criaturas vergonhosas”, concordou a sua mãe. “De vez em quando. Posso contar a história de quando você nasceu?”

“Não, essa não”, disse Nor, bocejando. “Uma história real. Conte-me aquela da Bruxa e dos bebês-raposa outra vez.”

Sarima recusou, sabendo muito bem que as crianças consideravam a Titia Hóspede uma bruxa. Mas Nor era, teimosa e Sarima cedeu, e narrou o conto. Elphaba ouviu. Seu pai lhe transmitira preceitos morais, pregando sermões sobre responsabilidade; a Babá lhe deitara muita falação; Nessaro­se gemera as suas prédicas. Mas ninguém lhe contara histórias quando era pequena. Ela se adiantou um pouco mais para ouvir o conto acima do ruído da multidão.

Sarima recitou o conto com escasso envolvimento dramático, mas, ainda assim, Elphaba sentiu uma ferroada ao ouvir o desfecho. “E lá a maléfica velha Bruxa ficou, por muito, muito tempo.”

“Ela conseguiu sair?”, recitou Nor, os olhos brilhando com o encanto do ritual.

“Ainda não”, respondeu Sarima, e avançou, fingindo que ia morder o pescoço de Nor. Nor guinchou e, com um bamboleio, se afastou, indo juntar­-se aos meninos.

“Acho uma coisa vergonhosa, mesmo que seja só uma fábula, propor uma vida eterna para o mal”, disse Elphaba. “Qualquer espécie de vida eterna é uma manipulação e uma chantagem. É vergonhoso o modo como os unio­nistas e os pagãos continuam falando do inferno para intimidar e do etéreo Outro Mundo para recompensar.”

“Não fale nada”, disse Sarima. “Porque, entre outras coisas, é lá que Fiyero estará esperando por mim. E você sabe disso.”

O queixo de Elphaba caiu. Quando ela menos esperava, Sarima sempre estava disposta a lhe surgir com um ataque-surpresa. “Na outra vida?”, disse Elfinha.

“Oh, que é que você tem contra isso?”, disse Sarima. “Tenho pena das almas do Outro Mundo quando forem chamadas para dar boas-vindas a você. Que maçã azeda você é, o tempo todo!”

7
“Ela é louca”, disse Manek, com um ar de saber do que estava falando. “Todo mundo sabe que não se pode ensinar um animal a falar.”

Eles estavam no estábulo de verão abandonado, pulando de um palhei­ro, erguendo lufadas de feno e ondas de neve na luz peculiar.

“Bem, o que ela está fazendo com o Chistérico, então?”, perguntou Irji. “Já que você está tão certo do que fala?”

“Ela está ensinando o macaco a imitar, feito um papagaio”, disse Manek.

“Eu acho que ela é mágica”, disse Nor.

“Você, você pensa que tudo é mágico”, Manek disse, “garotinha estúpida.”

“Bem, tudo é”, disse Nor, afastando-se dos meninos como que num comentário adicional a seu ceticismo.

“Você pensa realmente que ela é mágica?”, disse Manek a Liir. “Você a conhece melhor que qualquer um de nós. Ela é a sua mãe.”

“Ela é a minha Titia, não é?”, Liir disse.

“Ela é nossa Titia, ela é sua mãe.”

“Eu sei”, disse Irji, fingindo mergulhar no assunto para evitar outro pulo. “Liir é irmão de Chistérico. Liir é o que Chistérico era antes de ela lhe ensinar a falar. Você é um macaco, Liir.”

“Eu não sou um macaco”, disse Liir, “e eu não fui enfeitiçado.”

“Bem, vamos perguntar isso ao Chistérico”, disse Manek, “Não é hoje o dia em que a Titia tem café marcado com a Mamãe? Vamos conferir se o Chistérico aprendeu palavras o bastante para responder a algumas perguntas.”

Eles dispararam pela escada de pedra em espiral acima, rumo ao apar­tamento da Titia Bruxa.

De fato, ela saíra, e lá estava Chistérico mordiscando algumas nozes, e Matalegria cochilando junto ao fogo, rosnando em seu sono, e as abelhas zumbindo em seu coro incessante. As crianças não gostavam muito de abe­lhas, nem davam bola para Matalegria. Mesmo Liir havia perdido o seu in­teresse pelo cachorro, ao dispor de crianças para brincar. Mas Chistérico era um favorito. “Coisinha doce, oh, o bebezinho”, ela dizia. “Aqui, animalzinho, venha com a Titia Nor.” O macaco olhava com desconfiança, mas, então, com as articulações das mãos e os pés ágeis, ele disparava pelo chão e saltava para os braços da menina. Ele examinava seus ouvidos com prazer, e, de cima de seus ombros, lançava olhares perscrutadores sobre os meninos.

“Diz pra gente, Chistérico, a Titia Bruxa é mesmo mágica?”, disse Nor. “Conta pra gente quem ela é.”

“Olha a Bruxa”, dizia Chistérico, brincando com os dedos. “Que desgra­ça que.” Eles podiam jurar terem ouvido uma pergunta, pelo jeito como sua testa se enrugava feito sobrancelhas.

“Você está enfeitiçado?”, disse Manek.

“Feitiço ruim. Estraga feitiço”, respondeu Chistérico. “Joga fora.”

“Como é que podemos estragar o feitiço? Como faremos você voltar a ser um menino?”, perguntou Irji, o mais velho, mas tão fascinado quanto os outros. “Existe algum jeito especial?”

“Que jeito?”, disse Chistérico. “Pediu, danou. Por quê?”

“Diga-nos o que fazer”, disse Nor, fazendo-lhe um afago.

“Fazer, morrer”, disse Chistérico.

“Grande”, disse Irji. “Então, não podemos quebrar o feitiço que foi feito em você?”

“Oh, ele está só balbuciando”, Elphaba disse, que estava à porta. “Olhem só, estou com visitas que não convidei.”

“Oh, alô, Titia”, eles disseram. Sabiam que não deviam estar lá. “Ele está falando, ou coisa parecida. Ele está enfeitiçado.”

“No mais das vezes, está é repetindo o que vocês dizem”, disse Elphaba, aproximando-se. “Portanto, deixem-no em paz. Vocês não estão autorizados a entrar aqui.”

Eles disseram “desculpe”, e saíram. De volta ao quarto dos meninos, caíram no colchão e riram até chorar, e não conseguiam explicar o que era tão engraçado. Talvez fosse o alívio de terem escapados ilesos dos aposentos da Bruxa, embora não tivessem nada a fazer lá. As crianças chegaram à conclusão que não precisavam mais temer a Titia Bruxa.

8
Eles estavam cansados de ficar confinados em casa, mas, por fim, começara a chover em vez de só nevar lá fora. Brincavam bastante de esconde-es­conde, esperando a chuva parar para que pudessem sair.

Numa manhã, Nor foi a escolhida. Ela continuou a achar Manek facil­mente, porque Liir sempre se escondia perto dele e o delatava. Manek perdeu a paciência. “Eu sempre sou pego, porque você é tão desajeitado. Por que você não se esconde bem?”

“Não posso me esconder no poço*”, Liir disse, não entendendo.

“Oh, você pode sim”, disse Manek, deliciado.

O segundo round começou, e Manek levou Liir para baixo, descendo as escadas do porão. Este estava mais úmido que de costume, com a água do subsolo escorrendo pelas pedras da fundação. Quando tiraram o tampo do poço, notaram que o nível da água havia subido. Mas ainda estava a uns bons doze ou quatorze pés de profundidade.

“Isso vai servir direitinho”, Manek disse, “olhe, se passarmos a corda por este gancho, o balde vai ficar firme o bastante para você subir nele. Então, quando eu girar a manivela, o balde vai lentamente descer pela parede do poço. Eu vou pará-lo antes de ele chegar à água, não se preocupe. Então, porei o tampo sobre o poço e Nor vai procurar e procurar! Ela nunca será capaz de achar você.”

Liir então inspecionou o poço desagradavelmente pegajoso. “E se hou­ver aranhas lá embaixo?”

“Aranhas odeiam água”, disse Manek categoricamente. “Não se preocupe com elas.”

“Por que você mesmo não faz isso?”, disse Liir.

“Você não é forte o bastante para me baixar, este é o motivo”, disse Manek com paciência.

“Não se esconde muito longe”, disse Liir. “Não me desce fundo demais. Não fecha o tampo todinho, eu não gosto do escuro.”

“Você está sempre se queixando”, Manek disse, oferecendo-lhe uma mão. “É por isso que a gente não gosta de você, como sabe.”

“Bem, todo mundo é malvado comigo”, Liir disse.

“Desce de uma vez agora. Segura na corda com as duas mãos. Se o balde esbarrar na parede um pouco, você se afasta. Vou descer você devagarinho.”

“Onde é que você vai se esconder?”, Liir disse. “Não tem mais nenhum lugar neste porão.”

“Me esconderei debaixo das escadas. Ela nunca vai me achar nas som­bras, ela odeia aranhas.”

“Pensei que você tivesse dito que não havia aranhas!”

“Ela acha que há”, Manek disse. “Um, dois, três. Esta é mesmo uma grande idéia, Liir. Você é tão corajoso.” Ele grunhiu com o esforço. Dentro do balde, Liir era mais pesado do que ele imaginara, e a corda enrolava rapi­damente demais. Ela emperrava na junção entre o sarilho e os suportes, e o balde parava e se chocava contra a parede com um baque que fazia eco.

“Isso foi rápido demais”, vinha a voz de Liir, fantasmagórica no escuro.

“Oh, não seja um maricás”, Manek disse. “Agora shhh, eu vou girar o tam­po até no meio, assim ela não vai adivinhar nada. Não faça barulho nenhum.”

“Eu acho que tem peixe aqui embaixo.”

“Claro que tem, é um poço de peixe.”

“Bem, eu estou muito perto da água. Eles pulam?”

“Sim, eles pulam, e têm dentes afiados, seu bestinha, e eles gostam de molequinhos gordos”, disse Manek. “É claro que eles não pulam. Se eles pu­lassem, você acha que eu ia te expor a um perigo desses? Fala a verdade, você não confia totalmente em mim, não é mesmo?” Ele suspirou, como se estivesse desapontado de um modo além das palavras, e quando o tampo girou não em parte, mas por completo, cobrindo o poço, ele notou sem surpresa que Liir estava magoado demais para se queixar.

Manek se escondeu debaixo das escadas por alguns momentos. Quan­do Nor não desceu, decidiu que atrás das margens do altar da velha capela mofada haveria um lugar ainda melhor. “Volto logo, Liir”, ele sibilou, mas, como Liir não respondeu, supôs que o menino estivesse ainda lamuriando lá embaixo.

Sarima estava fazendo um raro turno na cozinha, preparando um en­sopado de legumes frescos com ingredientes da despensa. As irmãs estavam num recital de dança promovido lá entre elas no quarto de música do andar de cima. “Soa como uma manada de elefantes”, Sarima disse, quando a Titia Hóspede apareceu, procurando alguma coisa para beliscar.

“Eu não esperava encontrar você aqui”, disse Elphaba. “Você sabe, eu tenho uma queixa a fazer contra seus filhos.”

“Os doces pequenos vândalos, o que será que aprontaram agora?”, Sari­ma disse, nervosa. “Eles puseram aranhas em seus lençóis outra vez?”

“Eu não me importaria, caso fossem aranhas. No mínimo, os corvos as comeriam. Não, Sarima, as crianças xeretaram nos meus pertences, provoca­ram Chistérico sem misericórdia, e não me ouviram quando falei com elas. Não pode fazer nada a respeito?”

“Que é que posso fazer?”, disse Sarima. “Aqui, prove esta rutabaga, é boa pra dar aos cachorros!”

“Nem Matalegria tocaria num negócio desses”, concluiu Elphaba. “É melhor você usar cenouras. Eu acho que essas crianças são ingovernáveis, Sarima. Elas não deveriam estar na escola?”

“Oh, sim, numa vida melhor, elas estariam, mas, que jeito?”, disse a mãe placidamente. “Eu já lhe disse que são alvos perfeitos para os homens da tribo Arjiki. Já é muito ruim até deixá-los correr pelos penhascos perto de Kiamo Ko no verão, eu nunca sei quando serão descobertos, aprisionados, e sangrados como porcos, e trazidos para casa apenas para o enterro. É o preço da viuvez, Titia; a gente deve fazer o melhor que puder.”

“Eu fui uma boa filha”, Elfinha disse, resolutamente. “Eu tomei conta de minha irmãzinha, que nasceu horrivelmente desfigurada. Obedeci a meu pai, e a minha mãe, até que ela morreu. Vaguei e labutei como criança missionária e dei testemunhos do Deus Inominável, muito embora fosse uma descrente, em essência. Eu acreditava na obediência, e não acho que isso me feriu.”

“Então, o que foi que a feriu?”, perguntou Sarima, espirituosamente.

“Você não entenderá”, disse Elfinha, “por isso não vou nem dizer. Mas, sejam quais forem os motivos, suas crianças são ingovernáveis. Eu desaprovo seus métodos frouxos.”

“Oh, as crianças são boas de coração”, Sarima disse, raspando as ce­nouras. “São tão inocentes e alegres. Fico alegre de vê-las correndo pela casa numa brincadeira ou noutra. Depressa demais esses dias preciosos vão passar, cara Titia, e então teremos saudade dos tempos em que a casa vivia cheia dos repiques das risadas infantis.”

“Risadas demoníacas.”

“Há alguma coisa naturalmente boa nas crianças”, disse Sarima convic­tamente, inflamada pelo assunto. “Você conhece a história daquela pequena Ozma, que há anos foi deposta pelo Mágico? Dizem que ela está escondida em algum lugar, congelada numa caverna ― talvez até mesmo aqui nos Kells, até onde eu saiba. Foi preservada em sua inocência infantil porque o Mágico não teve coragem de matá-la. Um dia ela voltará para governar Oz, e ela será a melhor e mais sábia soberana de todos os tempos, devido à sabedoria de sua tenra idade.”

“Eu nunca acreditei em salvadores infantis”, Elphaba disse. “Até onde sei, são as crianças que precisam de salvação.”

“Você está irritada só porque as crianças têm espíritos elevados.”

“Seus filhos são é uns duendes encapetados”, Elfinha disse, num tom desaprovador.

“Meus filhos não são maus, nem minhas irmãs e eu fomos crianças más.”

“Seus filhos não são bons”, disse Elfinha.

“Bem, como é que você julga Liir nesse aspecto, então?”

“Oh, Liir”, Elfinha disse, e fez uma expressão, e disse pfaaah, com sua língua e as mãos. Sarima estava prestes a abordar isso ― um assunto que sempre a deixara curiosa ― quando Três entrou correndo na cozinha.

“As passagens devem ter derretido mais cedo que de costume”, ela disse, “porque a gente avistou uma caravana lutando para passar pela Trilha do Galho Preso, vinda lá do norte! Ela vai chegar aqui amanhã!”

“Oh, beleza”, Sarima disse, “e o castelo nesta bagunça! Isso sempre acon­tece. Por que a gente nunca aprende? Rápido, chame as crianças e vamos ter de dar um jeito de esfregá-las e limpá-las. A gente nunca sabe, Titia, pode ser um visitante de alta honra. A gente tem de ficar preparada.”

Manek e Nor e Irji deixaram correndo a sua brincadeira. Três contou lhes a notícia, e eles imediatamente tiveram de subir à torre mais alta para ver o que podiam avistar através da chuva branda, e para acenar com aventais e lenços. Sim, havia uma caravana, cinco ou seis escarques e um pequeno vagão, avançando através da neve e da lama, enfrentando problemas ao va­dear as correntezas, parando para consertar uma roda fendida, parando para alimentar os animais! Era um prazer maravilhoso, e, durante toda a refeição de sopa de legumes do jantar, as crianças jogaram conversa fora falando das surpresas que poderiam encontrar entre os passageiros da caravana. “Eles nunca deixaram de achar que o pai ainda voltará”, disse Sarima, em cochicho para Elphaba. “Essa excitação toda é uma esperança para eles, embora não se lembrem disso.”

“Onde está o Liir?”, perguntou Quatro, “é um perfeito desperdício de uma boa sopa quando ele não aparece a tempo. Ele não vai conseguir nada se vier gemendo me pedir depois. Crianças, onde está o Liir?”

“Ele estava brincando com a gente no começo. Talvez tenha pegado no sono”, disse Irji.

“Vamos fazer uma fogueira e um sinal de fumaça com um alô para os viajantes”, disse Manek, saindo aos pulos da mesa.


9
Era hora do almoço quando os escarques e o vagão começaram a ascensão final e penosa do penhasco rumo ao portão de ferro e aos portões de jaspe e carvalho do castelo. Os aldeões saíram de suas choças e ajudaram a empurrar a caravana com seu peso, fazendo-a atravessar os sulcos de lama e gelo, até que por fim ela se aprumou e cruzou a ponte levadiça erguida. El­phaba, com a curiosidade espicaçada como todo mundo, ficou com a Viúva Princesa dos Arjikis e suas irmãs num parapeito acima da rudemente enta­lhada porta frontal. As crianças esperavam no pátio de pedras redondas logo abaixo, todas, exceto Liir.

O líder da caravana, um homem jovem grisalho, fez a mais apagada mesura montanhesa para Sarima. Os escarques defecaram mole nas pedras do pátio, para deleite das crianças, que nunca tinham visto os excrementos daquela espécie. Então, o líder se dirigiu à cabine e abriu a porta, e subiu para dentro. Podiam ouvir a sua voz, erguida a bom volume como se conversasse com alguém que tivesse dificuldade para escutar.

Esperaram. O céu era de um azul penetrante, na verdade quase um azul de primavera, e os pingentes de gelo pendurados nos beirais, como perigosos punhais, derretiam-se rapidamente. As irmãs todas encolheram as barrigas, maldizendo algum pedaço extra de pão de mel, o creme melado no café, desejando ostentar a melhor das aparências. Por favor, doce Lurlina, dá-nos a graça de um homem.

O líder saiu novamente, e estendeu uma mão, e ajudou uma figura a apear da cabine: uma velha figura de membros rachados, vestindo saias des­botadas e um gorro horrivelmente fora de moda, mesmo do ponto de vista provinciano. Mas Elphaba se adiantou, cortando o ar com seu queixo pon­tudo e seu nariz de machadinha, e farejando como um animal. A visitante se virou e o sol bateu em seu rosto.

“Pela glória divina”, disse Elfinha, perdendo o fôlego. “É minha velha Babá!” E ela deixou o parapeito para correr e agarrar a idosa em seus braços.

“Sentimentos humanos, olhem só”, disse Quatro, com desprezo. “Eu não a supunha capaz dessas coisas.” Pois a Titia Hóspede estava soluçando de prazer.

O líder da caravana não ficou para a refeição, mas a Babá com suas valises e baús tinha a clara intenção de não ir para outro lugar que não fosse aquele. Ela se alojou num pequeno quarto mofado abaixo do de Elphaba, e levou o tempo infindável que os idosos gastam para fazer a sua toalete. Quando ela ficou pronta para ser apresentável, o jantar foi servido. Uma velha galinha de corte, feita mais de fibras que de carne, se estendia num pires com pimentas sobre uma das travessas de receber visitas. As crianças estavam vestidas nos trinques, e dessa vez autorizadas a jantar naquele aposento. A Babá entrou de braço dado com Elphaba, e sentou-se ao seu lado esquerdo. Devido a essa ser uma visita para Elfinha, as irmãs tinham amavelmente colocado o porta-guardanapo de Elphaba na ponta da mesa, no oposto de Sarima ― um lugar que por costume era deixado vago, em honra ao pobre falecido Fiyero. Foi um grande erro, e elas o reconheceram imediatamente, já que Elphaba nunca abria mão de seu lugar habitual. Mas, por ora, tudo eram sorrisos e hospitalidade saborosa. O único pequeno aborrecimento (além do de a Babá não ser um jovem pretendente à procura de noiva) era que Liir ainda se obstinava em sua atitude de mal-humorado sumiço. As crianças não sabiam onde ele estava.

A Babá era uma idosa cansada e caduca, a pele rachada como a de um sabão seco, os cabelos fininhos e as mãos de um branco amarelado com veias tão salientes quanto os cordões em torno de um queijo de cabra de Arjiki. Ela comunicou de modo ofegante, com muitas pausas para respirar e refletir, que soubera por alguém chamado Crope, da Cidade Esmeralda, que sua velha afilhada Elphaba tinha ajudado Tibbett em seus últimos dias no Claustro de Santa Glinda na periferia da Cidade Esmeralda. Ninguém da família tinha notícias de Elphaba havia anos, e a Babá decidira que era tarefa exclusivamente sua sair à procura dela. As monjas a princípio foram relutantes em informá-la, mas a Babá persistiu, e então esperou até que uma nova caravana estivesse pronta para partir. As monjas revelaram que Elphaba tinha uma missão em Kiamo Ko, e a Babá conseguiu passagem na primavera seguinte. E ali estava ela.

“E do mundo exterior?”, perguntou Dois ansiosamente. Deixe essas duas se pegarem com assuntos de família quando tiverem tempo.

“O que você quer dizer?”, disse a Babá.

“Política, ciência, moda, as artes, o centro dominante!”, disse Dois.

“Bem, nosso magnífico Mágico coroou-se Imperador”, disse a Babá. “Vocês sabiam disso?”

Não sabiam. “Autorizado por quem?”, perguntou Cinco, escarninha. “E, ademais, Imperador de quê?”

“Não há ninguém que tenha mais autoridade que ele, como ele mesmo afirmou”, disse a Babá calmamente, “e quem vai discutir com isso? Do jeito que as coisas são, ele é o encarregado de distribuir as honrarias anualmente. Aí, ele apenas decretou uma honraria extra para si mesmo. Quanto ao de que ele é Imperador, não sei. Algumas pessoas dizem que isso implica em ambições expansionistas. Mas, até onde ele poderá se expandir ― eu não poderia dizer; não poderia mesmo. Até o deserto? Além dele, a Quox, Ix ou Fliann?”

“Ou ele desejará ter um maior controle sobre terras que ele governa apenas frouxamente”, perguntou Elphaba, “como o Vinkus?” Ela sentiu um calafrio, como se uma velha ferida bem abaixo de suas costelas a fisgasse.

“Ninguém está particularmente feliz”, disse a Babá. “Há um recruta­mento forçado agora, e a Tropa da Tormenta ameaça exceder em número o Exército Real. Ninguém sabe se não estará havendo uma luta interna pelo poder, e se o Mágico não estará se preparando para alguma tomada de poder definitiva. Quem pode ter uma opinião firmada sobre essas coisas? Velhas e mulheres como somos?”, ela sorriu ao incluí-las todas. As irmãs e Sarima fuzilaram-na com o olhar mais cheio de juventude que puderam ostentar.

10

O dia seguinte mal teve uma aurora, tão escuro, tão ameaçador em vagas nuvens ameaçadoras de chuva se mostrou. Na sala de visitas, esperando que a Babá despertasse e continuasse sua obrigação de entretê-las, as irmãs e Sarima discutiam quais novos fatos sobre a Titia Hóspede elas tinham conhecido. “Elphaba”, refletiu Dois. “É um nome bem bonitinho. De onde será que vem?”

“Eu me lembro”, disse Cinco, que em certa época entrara numa fase debilmente religiosa ao perceber que as possibilidades de casamento estavam se apagando. “Eu tive uma Vida dos Santos uma vez. Santa Elphaba da Ca­choeira ― ela foi uma mística da terra de Munchkin, há seis ou sete séculos. Vocês não se lembram? Ela queria rezar, mas tinha uma tal beleza que os homens de sua terra ficavam importunando-a em busca de... atenção.”

Todas suspiraram, em coro.

“Para preservar a sua santidade, ela foi para uma floresta desolada com suas escrituras sagradas e um simples cacho de uvas. As bestas selvagens ameaçaram-na, e os homens selvagens também a perseguiram, e ela sofria com as aflições. Foi quando chegou a uma enorme cachoeira que caía de um rochedo. Ela disse: “Esta é a minha caverna”, e tirou todas as suas roupas, e atravessou a tela de água que caía. Depois dela, havia uma caverna escavada pela força da água. Ela lá se estabeleceu, e, com a ajuda da luz que era coada através da parede de água, lia seu livro sagrado e meditava sobre questões espirituais. Ela comia algumas uvas de vez em quando. Quando, por fim, o alimento acabou, ela saiu da caverna. Centenas de anos haviam se passado. Havia uma aldeia erguida às margens do rio, e até mesmo uma represa nas proximidades. Os aldeões tremeram de horror, porque, quando crianças, ti­nham todos brincado na caverna atrás da cachoeira ― amantes ali marcaram encontro ― ali haviam ocorrido assassinatos e outros atos repugnantes ― um tesouro ali fora enterrado ― e ninguém nunca chegara a ver Santa Elphaba em seu nu esplendor. Mas tudo que Santa Elphaba teve de fazer foi abrir a boca e falar seus velhos sermões, e todos souberam que só podia ser ela, e construíram uma capela em sua honra. Ela abençoou as crianças e os velhos, e ouviu as confissões dos de meia-idade, e curou alguns doentes e alimentou alguns famintos, toda essa espécie de coisa, e então desapareceu novamente por trás da cachoeira com outro cacho de uvas. Acho que dessa vez levou um cacho maior. E isso foi a última coisa que dela se soube.”

“Então, pode-se desaparecer e não estar morta”, disse Sarima, olhando pela janela, com um ar um pouco sonhador, para a chuva.

“Se você for uma santa”, disse Dois, prontamente.

“Se você acredita mesmo nisso”, disse Elphaba, que tinha entrado na sala de visitas no fim da narração. “A ressuscitada Santa Elphaba deve ter sido alguma namoradeira da cidade próxima que queria oferecer aos crédulos camponeses uma boa transadinha.”

“Essa sua mania de duvidar, deixa tudo desprovido de esperança”, Sari­ma disse, aversiva. “Titia, de vez em quando você me mata, realmente.”

“Eu acho que seria encantador chamar você de Elphaba”, disse Seis, “porque é uma história encantadora. E foi bom saber seu nome verdadeiro pelos lábios da Babá.”

“Nem tente”, disse Elfinha. “Se a Babá não pode evitar, tudo bem; ela é uma anciã e isso é difícil de mudar. Mas você não.”

Seis franziu seus lábios como se estivesse para articular uma argumen­tação, mas nesse exato momento ouviu-se um ruído de pés no andar inferior, e Nor e Irji irromperam na sala.

“A gente achou o Liir!”, eles disseram. “Venham, a gente acha que ele está morto! Ele está caído no poço dos peixes!”

Todas desceram as escadas que levavam ao porão. Chistérico fora quem o achara. O nariz do macaco de neve tinha enrugado quando ele e os meninos passavam pelo poço dos peixes, e ele gemera, e choramingara, e tentara puxar com força a cobertura pesada. Nor e Irji tiveram a idéia de baixá-lo no balde então, mas quando eles giraram o tampo para descobrir o poço, o lúgubre brilho da luz na pálida carne humana os aterrorizara.

Manek veio correndo quando ouviu o barulho de sua mãe e dos outros exclamando diante do poço. Puxaram Liir da água. A água subira, o que complementava o contínuo derretimento da neve e a chuva adicional. Liir parecia um cadáver abandonado numa correnteza, intumescido. “Oh, é onde ele estava”, disse Manek numa voz de gozação. “Vocês sabem que ele disse que queria descer nesse poço um dia.”

“Vão embora, crianças, vocês não elevem ver isso, vão para cima”, Sarima disse, ralhando com eles. “Vamos agora, comportem-se, o lugar de vocês é lá em cima”. Eles não sabiam para que estavam olhando e estavam com medo de olhar mais de perto.

“Não posso acreditar nisso, é tão terrível”, disse Manek de um modo excitado, e Elphaba lançou-lhe um olhar penetrante, cheio de ódio.

“Obedeça a sua mãe”, ela disse bruscamente, e Manek fez uma cara de nojo, mas ele e Irji e Nor correram para o andar superior, e se acotovelaram na porta aberta lá no topo para ouvir, e observar.

“Oh, quem daqui tem a arte da medicina nas mãos, você tem, Titia?”, perguntou Sarima. “Vamos rápido, pode ainda restar algum tempo para ele. Você tem as artes, não tem, você estudou as ciências da vida! O que você pode fazer?”

“Irji, vá buscar a Babá, diga a ela que é uma emergência”, gritou Elfinha. “Vamos levá-lo para a cozinha, com carinho, agora. Não, Sarima, eu não sei o suficiente.”

“Use seus feitiços, use sua mágica!”, exclamou Cinco.

“Ressuscite-o”, pressionou Seis, e Três acrescentou, “Você é capaz disso, não seja hipócrita e tímida com seu dom agora!”



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