Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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Numa noite nevoenta de fim de verão, cerca de três anos depois da gra­duação na Universidade de Shiz, Fiyero parou na capela unionista da Praça de Santa Glinda, para passar algum tempo até se encontrar com um conterrâneo seu na ópera.

Fiyero não fora levado ao unionismo como estudante, mas tinha de­senvolvido um olho apreciador para os afrescos que adornavam os cubículos das velhas capelas. Ele esperava encontrar um retrato de Santa Glinda. Ele não via Glinda dos Arduennas das Terras Altas desde a sua formatura ― ela tinha se graduado no ano anterior. Mas ele esperava que não fosse sacrílego acender uma vela devota em frente ao retrato de Santa Glinda, e ter em mente o nome da jovem.

Um ofício terminava, e a congregação de sensíveis rapazes na adolescên­cia e avós cobertas de xales negros saía lentamente da capela. Fiyero esperou até que a tocadora de lira da nave terminasse de dedilhar um hábil minueto, e aí se aproximou dela. “Peço perdão ― eu sou um visitante do oeste.” Bem óbvio, com a rica cor de ocre de sua pele e as suas marcas tribais. “Eu não vejo um atendente ― um oficial de igreja ― um sacristão, seja lá qual for a palavra ― nem acho um panfleto para me informar ― eu estava procurando um ícone de Santa Glinda.”

O rosto dela permaneceu sério. “Você terá sorte se isso não houver sido coberto por um cartaz de Nosso Glorioso Mágico. Sou uma instrumentista itinerante, que passa por aqui só de vez em quando. Mas, acho que você pode dar uma conferida na última nave; há ali um oratório para Santa Glinda, ou havia. Boa sorte.”

Localizando-a ― um espaço tumular com uma fenda de arqueiro em vez de uma janela ― Fiyero viu, iluminada por uma rósea luz de santuário, uma nevoenta imagem da Santa, um pouco pendida para a direita. O retrato era meramente sentimental e não vigorosamente primitivo, uma decepção. O dano causado pelas águas deixara grandes manchas brancas como falhas de lavagem a sabão nos sagrados trajes da Santa. Ele não conseguia se lem­brar de sua lenda particular, nem o modo elevado pelo qual ela fora levada à morte em consideração à salvação de sua alma e para a edificação de seus admiradores.

Mas aí ele viu, nas sombras profundas, que o oratório tinha a presença de um penitente. A cabeça se curvava em oração, e ele estava para se retirar quando lhe ocorreu, com sobressalto, que sabia quem era aquela figura.

“Elphaba!”, ele disse.

Ela virou sua cabeça lentamente; um xale rendado caiu em seus ombros. Seu cabelo estava preso em laçada na sua cabeça, com presilhas de marfim. Seus olhos se cruzaram uma ou duas vezes lentamente, como se ela estivesse indo em direção a ele, vinda de uma grande distância. Ele havia interrom­pido a sua oração ― não se lembrava que fosse religiosa ―, talvez ela não o reconhecesse.

“Elphaba, é Fiyero”, ele disse, rumando para a porta, bloqueando a sua saí­da, e também a luz ― de repente, ele não podia ver seu rosto, e se perguntava se teria ouvido corretamente o que ela dissera: “Queira desculpar-me, senhor?”.

“Elphaba ― sou Fiyero ― estivemos juntos em Shiz”, ele disse. “Minha esplêndida Elfinha ― como vai você?”

“Senhor, acho que está me confundindo com outra pessoa”, ela disse, com a voz de Elphaba.

“Elphaba, a Terceira Descendente do Thropp, se bem recordo a nomen­clatura”, ele disse, rindo decididamente: “Eu não estou enganado, de modo algum. Eu sou Fiyero dos Arjikis ― você me conhece, você se lembra de mim! Das aulas do Doutor Nikidik em ciências da vida!”.

“Você se confundiu”, ela disse, “senhor.” Esta última palavra soou um pouco como advertência sarcástica, bem ao gênero de Elphaba. “Agora, não se importa se eu desejar ficar em paz, fazendo a minha devoção?” Ela pôs o seu xale sobre a cabeça, e ajeitou-o para cair em suas têmporas. O queixo em perfil poderia fatiar um salame, e mesmo na luz débil ele sabia que não estava equivocado.

“O que é isso?”, ele disse. “Elfinha ― bem, Senhorita Elphaba, se preferir ― não me expulse assim. É claro que é você. Não há disfarce para alguém como você. Que joguinho é esse que está fazendo?”

Ela não respondeu em palavras, mas, mostrando seu rosário ostensiva­mente, estava lhe pedindo que sumisse.

“Não vou embora”, ele disse.

“Está interrompendo minha meditação, senhor”, ela disse suavemente: “Será que vou ter de chamar o sacristão e botar o senhor para fora?”

“Eu a encontrarei lá fora”, ele disse. “Quanto tempo leva para você ter­minar essa reza? Meia, uma hora? Esperarei.”

“Uma hora, então, do outro lado da rua; há uma pequena fonte pública com alguns bancos. Conversarei com você por cinco minutos, apenas cinco minutos, e lhe mostrarei que você cometeu um equívoco. Não um equívoco sério, mas que fica cada vez mais irritante para mim.”

“Perdoe se me intrometi. Numa hora, então ― Elphaba.” Ele não ia deixá-la bater em retirada, fosse qual fosse o jogo que estivesse jogando. No entanto, ele se afastou, e se dirigiu à musicista que estava por trás da nave. “Há alguma outra saída deste edifício além das portas principais?”, ele per­guntou, a voz se sobrepondo aos jorros de seus arpejos. Quando ela achou conveniente lhe responder, ergueu a cabeça e moveu os olhos. “A porta ao lado do claustro das freiras não é aberta ao público, mas você pode pegar uma saída de serviço por ali.”

Ele esperou à sombra de um pilar. Dentro de uns quarenta minutos, uma figura oculta sob um manto entrou na capela e rumou, apoiando-se numa bengala, diretamente para o oratório que Elphaba ocupava. Ele estava distante demais para ouvir as palavras que fossem trocadas, ou qualquer outra coisa. (Talvez o recém-chegado fosse simplesmente outro devoto de Santa Glinda, e quisesse solidão para orar.) A figura não se demorou; foi-se embora tão agilmente quanto suas juntas enrijecidas poderiam permitir.

Fiyero deixou cair uma oferenda na pobre caixa ― uma cédula, para evitar o tinido de uma moeda. Numa parte da cidade tão infestada de mise­ráveis, sua situação de relativa riqueza requeria a dádiva penitencial, embora sua motivação fosse caracterizada mais por culpa que por caridade. Então, ele deslizou pela porta lateral, entrando num grande jardim de claustro. Algumas mulheres velhas em cadeiras de rodas riam lá no fundo e não o notaram. Ele imaginou se Elphaba não pertenceria a essa comunidade de freiras monásti­cas ― monjas, eram chamadas.

Ele agora se lembrava que elas eram mulheres vivendo na mais parado­xal das instituições: uma comunidade de ermitões. Aparentemente, porém, seus votos de silêncio eram revogados quando chegavam à decadência de anciãs. Ele concluiu que Elphaba não podia ter mudado tanto em cinco anos. Então, ele saiu pela passagem de serviço, indo para a rua.

Três minutos se passaram, e Elphaba emergiu da saída de serviço, como ele suspeitava que ela faria. Ela tinha a intenção de evitá-lo! Por que, por quê? A última vez que a vira ― ele se lembrava bem! ― fora no dia do funeral de Ama Clutch, e da festa de bebedeira no boteco. Ela fora para a Cidade Esme­ralda em alguma missão obscura, da qual nunca retornara, enquanto ele fora arrastado para os estupefacientes terrores e alegrias do Clube de Filosofia. Houve boato de que o bisavô, o Eminente Thropp, havia contratado agentes para procurar por ela em Shiz, na Cidade Esmeralda. De Elphaba mesmo nunca veio um postal, uma mensagem, nem uma só pista. Nessarose ficara inconsolável a princípio, e depois começara a se ressentir por a irmã tê-la feito sofrer com tal separação. Nessa se perdeu nas profundezas da religião, a tal ponto que seus amigos começaram a evitá-la.

Amanhã Fiyero pediria desculpas por ter perdido a ópera e feito seu colega de negócios esperar. Hoje, não perderia Elphaba de vista. Enquanto ela ia apressada pelas ruas, olhando para trás mais que uma vez para ver se alguém a seguia, ele pensou: se você estivesse tentando perder-se de alguém, se você realmente pensasse que havia alguém em seus calcanhares, era essa a hora certa do dia para fazê-lo ― não por causa das sombras, mas por causa da luz. Elphaba seguia dobrando esquinas ao sol de verão que, reluzente, disparava setas ofuscantes de luz sobre as ruas laterais, através das arcadas e ao longo dos muros dos jardins.

Mas ele tinha muitos anos de prática de rastrear animais sob condições similares ― nenhum lugar de Oz tinha o sol como tão grande adversário quanto as Pastagens Milenares. Ele sabia como olhar de esguelha e manter a persistência do movimento, e esquecer a idéia de identificar pela forma. Ele sabia também como esconder-se ao longo do caminho sem dar na pinta ou perder o equilíbrio, como se agachar subitamente, como procurar outras pistas de que a presa começara a se mover novamente ― os pássaros assus­tados, uma mudança de som, o vento rompendo. Ela não ia se perder dele, e tampouco conseguiria notar que ele estava em seu rastro.

Assim, ele deu voltas por meia cidade, desde o elegante centro cita­dino ao distrito comercial de baixos aluguéis, em cujas portas sombrias os destituídos erguiam seus lares fedorentos. A uma distância mínima de uma barraca de exército, Elphaba parou diante de algum pequeno armazém de cereais coberto de tábuas, localizou uma chave em algum bolso interno, e abriu a porta.

Ele a chamou de uma curta distância, numa voz comum: “Fabala!”. Mes­mo no ato de se virar, ela tomou ciência de que estava se revelando e tentou recompor a expressão. Mas, era tarde demais. Tinha demonstrado que o re­conhecia, e percebeu. O pé dele estava bloqueando o caminho antes que ela pudesse bater-lhe a pesada porta na cara.

“Você está metida em alguma encrenca?”, ele perguntou.

“Deixe-me em paz”, ela disse. “Por favor. Por favor.”

“Você está com problemas, deixe-me entrar.”

“Você é o problema. Cai fora.” Suas últimas dúvidas sumiram. Ele arrombou a porta com seu ombro.

“Você está me transformando num monstro”, ele disse, grunhindo com o esforço ― ela era forte. “Não vou roubá-la nem estuprá-la. Eu apenas ― não vou ― ser ignorado desse jeito. Por quê?”

Ela então desistiu, e ele caiu estupidamente sobre a parede de tijolos sem reboco do vão da escada, como um personagem bobo se esborrachando num trecho de vaudeville. “Eu me lembrava de você como um cara cheio de delicadeza e graça”, ela disse. “Você queria pegar alguma coisa por acaso, ou estudou para ser desastrado?”

“Ora, vamos”, ele disse, “você força um cara a se comportar como um caipira desajeitado, você não dá chance a ninguém. Não fique tão surpresa. Eu ainda posso ter um pouco de graça. Eu posso fazer delicadezas. Um mo­mentinho só.”

“Shiz ficou em você”, ela disse, com as sobrancelhas erguidas, mas zom­beteira; ela não estava realmente surpresa. “Ouça só as afetações de escola su­perior. Onde está o rapaz do interior cheirando a uma charmosa ingenuidade como um almíscar bem selecionado?”

“Você me parece bem também”, ele disse, um pouco magoado. “Você mora neste vão de escada ou nós vamos a algum outro lugar um pouquinho mais confortável?”

Ela praguejou e escalou os degraus; eles estavam cobertos de excremen­tos de rato e tiras de palha de embrulho. Uma baça luz noturna era filtrada pelas janelas de vidro de um cinzento enfarruscado. Numa curva da escada um gato branco estava esperando, desdenhoso e hostil como todos de sua espécie. “Malky, Malky, miau, miau”, disse Elphaba ao passar por ele, e o bicho se dignou a segui-la até a porta arqueada no topo da escada.

“Da casa?”, disse Fiyero.

“Oh, essa é boa”, disse Elphaba. “Bem, logo serei tomada por bruxa, como sou tomada por outras coisas. Por que não? Aqui, Malky, um leitinho.”

O aposento era grande e parecia apenas casualmente arrumado para moradia. Originariamente um depósito de mercadorias, fora construído com portas duplas que podiam abrir para fora, para receber ou entregar sacos de cereal que eram transportados por guincho até a rua. A única luz natural incidia sobre um par de janelas de vidro numa clarabóia aberta em quatro ou cinco polegadas. Penas de pombo e uma torrente de dejetos brancos e sanguinolentos no assoalho lá embaixo. Oito ou dez caixotes em círculo, servindo como assentos. Uma cama de enrolar. Roupas dobradas num baú. Algumas plumas estranhas, lascas de ossos, dentes enfileirados, e uma pata murcha de ave, castanha e enrolada como uma tira de bife: estas coisas esta­vam penduradas em pregos na parede, e arranjadas como arte decorativa ou como objetos de feitiçaria. Uma mesa de madeira de salgueiro ― uma bela peça de mobília, aquela! ― cujos três pés arqueados terminavam em patas de corça elegantemente entalhadas. Alguns pratos de lata, vermelhos com pon­tinhos brancos, alguma comida embrulhada com pano e barbante. Uma pilha de livros ao lado da cama. Um gato de brinquedo amarrado a um cordão. De maior efeito, e mais horrível, havia a caveira de um elefante pendurada num caibro, e um buquê de rosas de um rosado cremoso, secas, emergia de um bu­raco central na carcaça do crânio ― como os miolos explodidos de um animal moribundo, ele não podia deixar de pensar, lembrando-se dos interesses de juventude de Elphaba. Ou talvez uma homenagem às pretensas habilidades mágicas dos elefantes?

Abaixo disso estava pendurada uma tosca fôrma oval de vidro, riscada e lascada, usada como espelho, talvez, embora seu potencial para refletir não parecesse confiável.

“Então, este é o seu lar”, disse Fiyero enquanto Elphaba trazia um pouco de comida para o gato e continuava indiferente a ele.

“Não me faça perguntas e eu não direi mentiras”, ela disse.

“Posso me sentar?”

“Essa é uma pergunta” ― mas ela estava rindo ― “oh, bem, então, sente­-se por uns dez minutos e me fale de você. Entre tantos, por que foi logo você quem se tornou sofisticado?”

“As aparências enganam”, ele disse. “Eu posso usar o traje e adotar a linguagem rebuscada, mas no fundo continuo sendo um membro da tribo de arjiki.”

“Como é a sua vida?”

“Tem aí alguma coisa para beber? Não álcool ― eu tenho apenas sede.”

“Eu não tenho água corrente. Eu não uso. Há algum leite duvidoso por aí ― ao menos o Malky pode encará-lo ― ou talvez haja uma garrafa de cerveja preta ali no alto da prateleira ― sirva-se.”

Ela tomou um pouco da cerveja de uma panela de barro, deixando o resto para ele.

Ele fez o mais conciso dos esboços de sua vida. De sua esposa, Sarima, a noiva de infância, que crescera e se tornara fecunda ― tiveram três filhos. Dos velhos centros administrativos das usinas hidráulicas do Escritório de Obras Públicas em Kiamo Ko, que, por emboscada e ocupação, seu pai ha­via transformado no reduto de um chefe e numa fortaleza tribal tal como nos tempos do Regente Ozma. Da atordoante vida esquizóide de ter de se mudar todo ano das Pastagens Milenares na primavera e no verão, quando o clã caçava e festejava, para um outono e inverno mais seguros em Kiamo Ko. “Um príncipe de Arjiki pode ter negócios aqui em Cidade Esmeralda?”, disse Elphaba. “Se forem financeiros, você deveria estar em Shiz. O negócio desta cidade é militarismo, meu velho amigo. Que é que você faz?”

“Você já sabe o bastante a meu respeito”, ele disse. “Também sei bancar o melindroso e enganador, se tudo se trata de fingimento e não segredos muito sérios.” Ele supôs que o negócio trivial de acordos comerciais não impressio­naria a sua velha amiga; ele se envergonhava por suas atividades não serem mais audaciosas ou emocionantes. “Mas, eu segui vivendo. E você, Elfinha?”

Ela não disse nada por uns momentos. Improvisou um pouco de salsi­cha seca e algum pão envelhecido, e pegou umas laranjas e limão, e colocou tudo sem cerimônia na mesa. Na atmosfera infestada de traças, ela parecia mais uma sombra que uma pessoa; sua pele verde parecia exoticamente suave, como folhas de primavera em seu mais suave aspecto, e alisada, como o cobre. Ele teve uma ânsia sem precedentes de agarrá-la pelo pulso e fazê-la parar de se movimentar ― se não para fazê-la falar, ao menos para imobilizá-la, a fim de poder olhar para ela.

“Coma essa coisa”, ela disse por fim. “Eu não tenho fome. Você come, vamos lá.”

“Diga-me uma coisa”, ele pediu. “Você nos deixou em Shiz ― desapare­ceu como a neblina da manhã. Por que, para onde e para quê?”

“Como você é poético”, ela disse. “Tenho a impressão de que a poesia é a forma mais elevada de auto-engano.”

“Não mude de assunto.”

Mas ela estava agitada. Seus dedos se contorciam; ela chamou o gato, e se irritou com ele e fez com que se escafedesse de seu colo. Finalmente, disse: “Oh, bem, foi tudo isso, então. Mas você não vai nunca mais voltar aqui. Eu não quero procurar um outro lugar, este é bom demais para mim. Você promete não revelar?”.

“Vou concordar apenas em pensar na promessa, é tudo. Como posso prometer mais que isso? Eu não sei nada ainda.”

Ela disse, apressadamente: “Bem, eu estava de saco cheio de Shiz. A morte do Doutor Dillamond me deixou vexada, e todo mundo lamentava, mas ninguém fazia nada. Não mesmo. Não era o lugar certo para mim, de qualquer jeito, com todas aquelas garotas cretinas. Embora eu goste de Glin­da. Como ela anda?”.

“Não tenho tido contato. Continuo esperando abordá-la algum dia em alguma recepção do Palácio ou qualquer outra. Fiquei sabendo informalmen­te que ela se casou com um baronete de Paltos.”

Elphaba pareceu perturbada e suas costas se enrijeceram. “Apenas um baronete? Nem um barão ou visconde, pelo menos? Que decepção. Suas aspirações iniciais não deram resultado, então.” Tentando ser engraçada, sua observação era dura e deselegante. “Ela se tornou mãe?”

“Eu não sei. Sou eu quem pergunta agora, lembra?”

“Sim, mas recepções no Palácio?”, ela disse. “Você está mancomunado com o Nosso Glorioso Mágico?”

“Soube que ele é um recluso, na maior parte do tempo. Nunca o co­nheci”, Fiyero disse. “Ele aparece de vez em quando na ópera e ouve a música por trás de um biombo portátil. Em seus próprios jantares sociais ele janta à parte, numa câmara ao lado, atrás de uma grelha de mármore entalhado. Vi só o perfil de um homem imponente que caminhava por um passeio público. Se era o Mágico, é tudo que conheço dele. Mas, você, você: você. Por que rompeu com todos nós?”

“Eu os amava demais para continuar tendo contato com vocês.”

“O que isso significa?”

“Não me pergunte”, ela disse, debatendo-se um pouco, seus braços como remos agitados na azulada escuridão da noite de verão.

“Pergunto sim. Você continuou vivendo aqui desde então? Durante cinco anos? Você estuda? Você trabalha?” Ele esfregava os braços ao tentar imaginar: o que ela estaria fazendo? “Você está associada à Liga de Proteção dos Animais ou a alguma daquelas pequenas organizações humanitárias rebeldes?”

“Eu nunca uso as palavras humanista e humanitária, já que me parece que ser humano é ser capaz dos mais hediondos crimes na natureza.”

“Você está fugindo outra vez.”

“É o meu trabalho”, ela disse. “Aí está, é uma pista para você, querido Fiyero.”

“Aumente isso.”

“Eu fui para a clandestinidade”, ela disse suavemente, “e ainda estou nela. Você é a primeira pessoa a violar meu anonimato desde que eu disse adeus para Galinda há cinco anos. Por aí você pode compreender por que não posso dizer mais nada, ou por que você não pode me ver novamente. Por tudo que sei você me levaria à Tropa da Tormenta.”

“Hah! Aqueles milicos! Você pensa muito mal de mim se acha que eu...”

“Como eu sei, como eu posso saber?” Ela contorceu seus dedos, fechan­do-os uns contra os outros, formando um quebra-cabeça de varetas verdes. “Eles marcham com aquelas botas sobre os pobres e os oprimidos. Eles ater­rorizam as famílias no meio da madrugada e desaparecem com os dissidentes ― e arrebentam as impressoras com seus machados ― e fazem julgamentos gozadores por traição à meia-noite e executam os condenados pela manhã. Eles investigam cada pedaço desta bela e falsa cidade. Eles fazem uma boa colheita de vítimas mensalmente. E o governo pelo terror. Neste exato mo­mento, podem estar pelas ruas, se juntando. Nunca me perseguiram, mas podem ter perseguido você.”

“Você não é tão difícil de ser perseguida como pensa”, ele disse. “Você é boa na coisa, mas nem tanto. Eu posso lhe ensinar umas coisinhas.”

“Aposto que pode”, ela disse, “mas não vai, porque não vamos encontrar­-nos outra vez. É perigoso demais, tanto para você quanto para mim. É o que quero dizer quando digo que eu amava demais a todos vocês para manter algum contato. Você acha que a Tropa da Tormenta é incapaz de torturar amigos e familiares para obter informações pertinentes? Você tem uma mu­lher e filhos, e eu sou simplesmente uma velha amiga de colégio que conheceu. Muito inteligente você me seguir. Não me faça isso outra vez, está bem? Vou mudar de endereço se notar que você está me seguindo. Posso sair daqui agora mesmo, e estar longe em trinta segundos. Faz parte do meu treinamento.”

“Não faça isso comigo”, ele disse.

“Somos velhos amigos”, ela disse, “mas não somos nem especialmente bons amigos. Não transforme isso num encontro sentimental. É um prazer rever você, mas eu não vou querer que isso aconteça de novo. Tome conta de você mesmo e cuidado ao estabelecer altas ligações com os bastardos, por­que, quando a revolução chegar, não vai haver misericórdia para bajuladores lambe-cus.”

“Aos ― quantos? vinte e três anos? ― você está bancando a Senhora Rebelde?”, ele disse. “Não é conveniente.”

“É inconveniente mesmo”, ela concordou. “Uma palavra perfeita para minha nova vida. Inconveniente. Eu, que sempre fui inconveniente, acabei ficando à margem das conveniências. Embora eu assinale que você tem a mesma idade que eu, e esteja bancando o arrogante, como um príncipe. Mas, você já comeu? Temos de nos despedir agora.”

“Não vamos nos despedir”, ele disse, firmemente. Ele queria pegar as mãos dela nas suas ― ele não se lembrava de jamais tê-la tocado. Corrigiu-se ― ele sabia que nunca a tinha tocado.

Era quase como se ela pudesse ler o seu pensamento. “Você sabe quem você é”, ela disse, “mas não sabe quem eu sou. Você não pode ― quero dizer que você não pode e não pode ― porque é uma coisa proibida para um, e, para o outro, trata-se de uma impossibilidade. Vá com Deus, se é que eles usam essa frase lá no Vinkus ― se lá isso não significar um xingamento. Vá com Deus, Fiyero.”

Ela lhe passou seu traje para a ópera, e estendeu sua mão para apertar a sua. Ele apanhou sua mão, olhou em seu rosto, que só por um segundo se abrira. O que ele viu nele fez com que se arrepiasse e aquecesse, em estontean­te simultaneidade, com a forma e a intensidade da carência que ali havia.

“Que é que você sabe do Boq?”, ela perguntou, na vez seguinte em que se encontraram.

“Você simplesmente não vai responder a nada do que eu lhe perguntar sobre você mesma, não é?”, ele disse. Ele se reclinava com os pés sobre a sua mesa. “Por que você finalmente aceitou que eu voltasse se permanece muda como uma prisioneira?”

“Eu gostava de Boq, isso é tudo.” Ela riu. “Deixei você voltar para poder arrancar informações a respeito dele e dos outros.”

Ele contou a ela o que sabia. Boq havia se casado com a Senhorita Milla, entre outras viradas surpreendentes. Ela fora arrastada para Pedras do Ninho, e odiara a coisa. Várias vezes tentara suicídio. “Suas cartas mandadas nos festejos de Lurlinemas todo ano são histéricas; elas registram suas tentativas de se matar como uma espécie de relatório anual de família.”

“Isso me faz pensar o que minha mãe não terá passado, nas mesmas cir­cunstâncias”, disse Elphaba. “A infância privilegiada num grande lar da classe superior, e, depois, o rude choque de uma vida de penúria lá na terra-de-­ninguém. No caso de mamãe, a mudança de Solos de Colwen para Margens Agitadas, e daí para os pântanos de Quadling. É realmente uma penitência da espécie mais dura.”

“Tal mãe, tal filha”, disse Fiyero. “Você também não deixou uma boa quan­tidade de privilégios, para viver aqui, feito um caracol? Escondida e reclusa?”

“Lembro-me da primeira vez que o vi”, ela disse, pingando gotas de vinagre sobre as raízes e vegetais que preparava para a ceia. “Foi na sala de aula daquele ― qual era o nome? ― Doutor...”

“Doutor Nikidik”, disse Fiyero. Ele avermelhara.

“Você tinha aquelas belas marcas no rosto ― nunca vira nada igual. Você calculou aquela entrada para ganhar lugar em nossos corações?”

“Juro por minha honra que, se pudesse ter feito qualquer outra coisa, teria sido melhor. Eu estava ao mesmo tempo mortificado e aterrorizado. Sabe que cheguei a pensar que aqueles chifres enfeitiçados iam me matar? E o vaidoso Crope e o ágil Tibbett foram a minha salvação.”

“Crope e Tibbett! Tibbett e Crope! Eu me esquecera deles. Como estão?”

“Tibbett nunca mais foi o mesmo depois daquela aprontada no Clube de Filosofia. Crope, eu acho, passou a trabalhar numa casa de leilão de artes, e ainda dá umas flertadinhas com a turma do teatro. Eu o vejo de vez em quando nesses lugares. Não conversamos.”

“Nossa, você está severo!” Ela riu. “Claro que, sendo tão interessada em sexo quanto qualquer ser humano, eu sempre me pus a imaginar o que vocês teriam achado do Clube de Filosofia. Você sabe, em outra vida eu bem que gostaria de rever a turma toda. E Glinda, querida Glinda. E mesmo o nojento Avaric. O que foi feito dele?”

“Com Avaric eu ainda converso. Na maior parte do ano, ele fica lá nas terras do margrave, mas tem uma casa em Shiz. E, quando ele vem à Cidade Esmeralda, freqüentamos o mesmo clube.”

“Ele continua um grosseirão presunçoso?”

“Nossa, você é que dá uma de severa agora!”

“Suponho que sim.” Eles fizeram a ceia. Fiyero esperou que ela pergun­tasse mais sobre a sua família. Mas eram as suas respectivas famílias que eles estavam escondendo um do outro, aparentemente: a esposa e os filhos dele em Vinkus, e, dela, o círculo de agitadores e revolucionários.

Da próxima vez que voltasse, ele pensou, deveria usar uma camisa aber­ta no pescoço, para que ela pudesse ver que a tatuagem de diamantes azuis em seu rosto continuava inviolável perto de seu peito... Já que ela parecera apreciar aquilo.

“Com certeza, você não fica o outono inteiro aqui em Cidade Esmeral­da?”, ela perguntou numa certa noite, quando o frio estava chegando.

“Mandei dizer a Sarima que os negócios estão me prendendo aqui in­definidamente. Ela não se importa. Como iria se importar? Arrancada de um imundo caravançarai e casada já em criancinha com um príncipe de Arjiki? Sua família não era estúpida. Ela tem comida, criados, e as sólidas muralhas de pedra de Kiamo Ko como defesa contra as outras tribos. Ela está ficando um pouquinho gorda depois do terceiro filho. Ela realmente nem nota se eu estou ou não em casa ― bem, ela tem cinco irmãs, e todas moram juntas. Casei-me com um harém.”

“Não!”, Elphaba parecia intrigada e um pouco embaraçada com a idéia.

“Você está certa, não, não é bem assim. Sarima disse uma ou duas ve­zes que suas irmãs mais jovens podiam e teriam prazer em esgotar minhas energias à noite. Depois que você ultrapassa os Grandes Kells, o tabu contra essa prática não é tão forte quanto parece ser no resto de Oz, portanto, pare de me olhar com essa cara de chocada.”

“Não posso evitar. Você fez isso?”

“Eu fiz o que?” Ele estava provocando-a.

“Você dormiu com suas cunhadas?”

“Não”, ele disse. “Não por causa de elevados padrões morais, ou por falta de interesse. É só porque Sarima é uma mulher sagaz, e tudo em casamento é compromisso. Eu ficaria sob controle dela muito mais do que já estou.”

“E isso é uma coisa ruim?”

“Você não é casada, portanto, não sabe: sim, é uma coisa ruim.”

“Eu sou casada”, ela disse, “só que não com um homem.”

Ele ergueu as sobrancelhas. Ela pôs as mãos em seu rosto. Ele nunca a vira daquele jeito ― como se suas palavras houvessem chocado a ela mesma. Ela teve de virar sua cabeça por um momento, limpar a sua garganta, assoar o nariz. “Oh, merda, lágrimas, elas ardem como fogo”, ela gritou, subitamente tomada de fúria, e correu em busca de um cobertor para enxugar seus olhos antes que a umidade salgada descesse pelo seu rosto.

Ela ficou curva como uma mulher idosa, um braço ao contrário, o co­bertor caindo de seu rosto ao chão. “Elfinha, Elfinha”, ele disse, horrorizado, e cambaleou em direção a ela, abraçando-a. O cobertor ficou no meio deles, da cabeça aos pés, mas quase se queimou com a chama, ou se transformou em rosas, ou numa fonte de champanhe e incenso. Estranho como as mais ricas imagens surgem naturalmente na cabeça quando o próprio corpo se encontra no seu máximo despertar...

“Não”, ela gritou, “não, não, eu não sou um harém, eu não sou uma mulher, eu não sou nem mesmo uma pessoa, não.” Mas, seus braços se move­ram por vontade própria, como velas de um moinho de vento, como aqueles chifres enfeitiçados, não para matá-lo, mas para prendê-lo apaixonadamente, para encostá-lo à parede.

Malky, com um raro gesto de discrição, subiu ao peitoril da janela e olhou para outra direção.

O romance entre os dois desenrolou-se no aposento acima do pequeno armazém de cereais abandonado enquanto o tempo de outono vinha a passos trôpegos do leste: num dia havia calor, noutro dia sol, e depois eram quatro dias de ventos gelados e chuva fina.

Dias se enfileiravam sem que eles pudessem se ver. “Eu tenho compro­missos, eu tenho trabalho, confie em mim ou eu vou desaparecer de sua vida”, ela dizia. “Escreverei para Glinda e lhe perguntarei como fazer o feitiço de de­saparecer numa nuvem de fumaça. Estou provocando, mas falo sério, Fiyero.”

Fiyero + Fae, ele escrevia na farinha que transbordava quando ela enro­lava massinha de pastel. Fae, ela tinha sussurrado, como se para impedir que o gato ouvisse, era seu nome de código. Ninguém em sua célula podia saber o nome verdadeiro que o companheiro tinha.

Ela não deixava que ele a visse nua na claridade, mas, desde que tampou­co podia visitá-la durante o dia, mal chegava a ser um problema. Ela esperava por ele nas noites combinadas, nua debaixo do cobertor, lendo ensaios de teoria política ou filosofia moral. “Eu não sei se os entendo, leio-os como se fossem poesia”, ela admitiu uma vez. “Gosto do som das palavras, mas não espero que minha penosa e tortuosa impressão do mundo seja mudada por aquilo que eu leio.”

“E pela maneira como você vive, ela não muda?”, ele perguntou, apagan­do a luz e se livrando das roupas.

“Você pensa que tudo isso é novo para mim”, ela disse, suspirando. “Você pensa que sou tão virgem.”

“Você não sangrou da primeira vez”, ele observou. “Então, o que eu ia pensar?”

“Eu sei o que você pensa”, ela disse. “Mas, quão experiente és, oh, Senhor Fiyero, Príncipe Arjiki de Kiamo Ko, Supremo Guardião das Pastagens Mi­lenares, Chefe dos Chefes nos Grandes Kells?”

“Eu sou massa em suas mãos”, ele disse, confiantemente. “Eu me casei com uma criança prometida e, para preservar a minha força, não tinha sido infiel. Até agora. Você não é como ela”, ele disse. “Você não sente como ela, eu não sinto o mesmo. Você é mais secreta.”

“Eu não existo”, ela disse, “portanto, você também não está sendo infiel.”

“Vamos não ser infiéis agora mesmo, então”, ele disse. “Mal posso es­perar”, enlaçando as suas costas, descendo ao plano firme de seu estômago. Ela sempre conduzia aquelas mãos para seus magros, expressivos seios; não queria ser tocada por mão alguma abaixo de sua cintura. Eles se moviam juntos, como diamantes azuis num campo verdejante.

Ele não tinha o bastante que fazer ao longo dos dias. Sendo o chefe do povo de Arjiki, sabia que era do interesse político deste permanecer ligado inelutavelmente ao centro comercial da Cidade Esmeralda. No entanto, os in­teresses comerciais de Arjiki requeriam apenas que Fiyero aparecesse social­mente, em reuniões de empresa e recepções financeiras. O resto do tempo ele apenas vagueava pela cidade, procurando afrescos de Santa Glinda e outros santos. Elphaba-Fabala-Elfinha-Fae nunca lhe contara o que estava fazendo na capela de Santa Glinda ligada ao monastério na Praça de Santa Glinda.

Um dia ele encontrou Avaric e almoçaram juntos. Avaric sugeriu um show de garotas como sobremesa, e Fiyero declinou. Avaric estava opiniático, cínico, corrupto e bonitão como sempre. Não extrairia dele conversa provei­tosa que pudesse levar a Elphaba.

O vento arrancava as folhas das árvores. A Tropa da Tormenta conti­nuava a empurrar os Animais e colaboradores para fora da cidade. As taxas dos bancos de Gillikin estavam nas alturas ― bom para investidores, mau para aqueles que tomavam empréstimos. Execuções de hipotecas num monte de valiosas propriedades do centro da cidade. Bem depressa o comércio come­çou a acender as luzes verdes e douradas de Lurlinemas, tentando atrair os cautelosos e deprimidos cidadãos ao interior das lojas.

Mais que tudo, ele queria caminhar pelas ruas da Cidade Esmeralda com Elphaba ao lado ― não havia lugar melhor para apaixonados, especial­mente quando ao crepúsculo as luzes das lojas se acendiam, reluzindo em ouro sobre o céu de um azul-purpúreo da noitinha. Ele nunca estivera apaixo­nado, e só agora o notava. Isso o humilhava. Isso o assustava. Não conseguia suportar quando a ausência forçada chegava a quatro ou cinco dias.

“"Beijos para Irji, Manek e Nor”, ele escrevia no fim de sua carta semanal para Sarima, que não podia respondê-la porque, entre outras coisas, nunca fora alfabetizada. De certo modo, o silêncio da esposa parecia-lhe uma tácita aprovação de seu interlúdio extraconjugal. Ele não escrevia beijos para ela, tampouco. Esperava que os chocolates cumprissem esse papel.

Ele rolava, puxando o cobertor para seu lado; ela o puxava de volta para si. O ar no aposento era tão frio que parecia enregelar. Malky, na ponta, tolerava as pernas que se debatiam a fim de ir ficando por perto, recebendo calor, dando o que nos gatos passa por afeição.

“Minha querida Fae”, disse Fiyero. “Acho que você já sabe disso, e eu não vou me tornar um co-conspirador do que quer que você esteja fazendo ― reduzindo multas de biblioteca ou revogando a necessidade de coleiras para gatos ou seja lá o que seja. Mas eu mantenho meus ouvidos atentos. Os quadlings estão sob as patas da milícia avançada outra vez. Ao menos é o que ouço dizer lá no saguão do clube, entre jornais e murmúrios. Parece que uma divisão do exército entrou no Estado de Quadling, chegando até Qhoyre, efetuando alguma espécie de missão arrebenta-e-queima. Seu pai, seu irmão e Nessarose ― eles ainda vivem por lá?”

Elphaba ficou sem resposta, por um momento. Ela parecia estar pen­sando não só no que iria dizer, mas talvez até no que era possível lembrar. Sua expressão era de espanto, até de irritação. Ela disse: “Vivemos em Qhoyre um certo tempo, quando eu tinha perto de dez anos. É uma pequena cidade engraçada, construída em solo encharcado. Metade das ruas são canais. Os telhados são baixos, as janelas são grelhadas ou com venezianas para dar privacidade e ventilação, o ar é úmido e a flora excessiva ― folhas de palmas em formato de enormes rodelas, quase parecidas a travesseiros acolchoados, fazendo um som característico ao baterem umas nas outras ao vento ― tirr, tirr, tirr, tirr”.

“Eu não sei se restou muito de Qhoyre”, disse Fiyero cuidadosamente. “Se o boato que eu ouvi tiver fundamento.”

“Não, Papai não está lá agora, graças ― graças a sei lá quem, a sei lá o que, graças a nada”, continuou Elphaba. “A menos que as coisas tenham mudado. O bom povo de Qhoyre não foi lá muito receptivo aos esforços missionários. Convidavam Papai e eu, serviam-nos bolinhos úmidos e chá morno de hortelã vermelha. Nós nos sentávamos em almofadas baixas e emboloradas, espan­tando lagartixas e aranhas para os cantos mais escuros. Papai se punha a falar monotonamente sobre a generosa natureza do Deus Inominável, emitindo seu ponto de vista xenofílico básico. Ele me apontava como prova. Eu sorria com horrível doçura e cantava um hino - a única música que Papai aprovava. Eu era miseravelmente tímida e envergonhada de minha cor, mas Papai me convencera do valor desse trabalho. Invariavelmente, os gentis cidadãos de Qhoyre sucumbiam por causa de sua hospitalidade. Aceitavam fazer orações ao Deus Inominável, mas você não podia dizer que o faziam de coração. Eu acho que eu percebia muito mais - de um modo bem menos desanimador que o meu pai ― como nós tínhamos pouca penetração”.

“Então, onde eles estão agora? Papa, Nessarose e o garoto ― seu irmão, qual é mesmo o nome dele?”

“Shell, este é o seu nome. Bem, Papai sentiu que seu trabalho seria mais efetivo ao sul do Estado de Quadling, bem lá nos confins. Tivemos uma série de pequenas moradas modestas em torno de Ovvels ― as Choupanas de Ovvels, como as chamávamos ―, que era uma zona agreste lúgubre, primi­tiva, cheia de sanguinária beleza.”

Diante da expressão intrigada de Fiyero, Elphaba prosseguiu. “Quero dizer, há quinze, vinte anos, Fiyero, os especuladores de Cidade Esmeralda descobriram lá depósitos de rubi. Primeiro foi sob o Regente Ozma, e, en­tão, depois do golpe, sob o governo do Mágico: as mesmas práticas sujas de negócios.

Embora, sob o Regente Ozma, a exploração não exigisse crime e brutali­dade. Usando elefantes, os engenheiros transportaram seixos, obstruíram nas­centes, aperfeiçoaram um complicado sistema de mineração a três pés abaixo de terrenos encharcados de água salobra. Papai achava que esse desarranjo na comunidade pantanosa abria um terreno perfeitamente propício para o tra­balho missionário. E ele estava certo. Os quadlings lutaram contra o Mágico com proclamações precárias, recorreram aos totens, mas suas únicas armas militares eram estilingues. Por isso, agruparam-se em torno do meu pai. Ele os converteu, e eles foram à luta com o zelo dos recém-convertidos. Foram desapropriados e desapareceram. Tudo com a bênção da graça unionista.”

“Nossa, como você é amarga.”

“Ele foi um instrumento. Meu querido pai me usou ― e a Nessarose um pouco menos, por causa de seu problema para se mover ―, ele me usou como objeto de sua pedagogia. Com a aparência que eu tinha, mesmo sa­bendo cantar ― confiavam nele em parte como reação à minha esquisitice. Se o Deus Inominável podia amar a mim, amaria muito mais a eles, os não deformados.”

“Então, minha querida, você não se importa com onde ele possa estar, ou com o que esteja acontecendo com ele agora?”

“Como você pode dizer isso?” Ela se ergueu, bufando. “Eu amava o velho bastardo cheio de viseiras. Ele realmente acreditava naquilo que pregava. Ele chegava a achar que o cadáver de um quadling, encontrado a flutuar em algum laguinho de água salobra ― desde que portasse uma tatuagem em alguma parte a indicar que era um convertido ―, era muito melhor que um sobrevi­vente. Sentia que a morte do coitado não passava de um simples passaporte para a assembléia do Outro Mundo, presidida pelo Deus Inominável, que ele fornecera. Acho que considerava isso trabalho bem-feito.”

“E você não acha?” Fiyero tinha uma vida espiritual bem anêmica; sen­tia-se desqualificado para emitir uma opinião sobre a vocação do pai de El­phaba.

“Talvez fosse trabalho bem-feito”, ela disse tristemente. “Como posso saber? Mas não era trabalho bem-feito para mim. Povoado após povoado, fomos ceifando os convertidos. Povoado após povoado, as turmas de en­genheiros vinham, para detonar a vida comunitária. Não houve clamor de protesto algum em toda Oz. Ninguém ouviria. Quem se importava com os quadlings?”

“Mas o que o levou para lá, a princípio?”

“Ele e Mamãe tinham tido um amigo, um quadling, que morrera em minha casa ― um quadling andarilho, um soprador de vidro.” Elphaba fez uma carranca e fechou os olhos, e nada mais disse. Fiyero beijou as pontas de seus dedos. Beijou o V entre seu polegar e seu indicador, lambeu-o como se fosse fatia de limão. Ela recuou, em entrega, para deixá-lo desfrutar muito mais de seu corpo.

Um pouco depois, ele disse: “Mas, Elfinha-Fabala-Fae ― você não está mesmo preocupada com seu pai e Nessarose e o irmão pequeno ― esqueci o nome?”

“Meu pai persegue causas perdidas. Isso dá a seu fracasso na vida al­guma justificativa. Por uns tempos, ele se proclamou um profeta do retorno do último, perdido embrião da estirpe de Ozma. Isso agora acabou. E meu irmão Shell ― é possível que esteja perto dos quinze anos agora. Olha, Fiyero, como posso me preocupar com eles enquanto me preocupo com os compro­missos assumidos aqui? Eu não posso sobrevoar Oz ― naquele famoso cabo de vassoura, como uma bruxa das fábulas! ―, eu escolhi a clandestinidade exatamente para não ter de me preocupar com isso. Ademais, sei o que acon­tecerá com Nessarose. Mais cedo ou mais tarde.”

“E que será?”

“Quando meu bisavô finalmente pifar, ela será o próximo Eminente Thropp.”

“Você está no páreo, também. Não é mais velha que ela?”

“Eu desapareci, queridinho, num passe de mágica, sumi numa nuvem de fumaça. Esqueça isso. E, você sabe, isso será bom para Nessarose. Ela será uma espécie de rainha local lá em Pedras do Ninho.”

“Parece que ela seguiu um curso de feitiçaria, você sabia? Em Shiz?”

“Não, não sabia. Bem, bravos para ela. Se alguma vez ela descer daquele pedestal ― aquele que traz escrito nas bordas a frase A CAMPEÃ DA RE­TIDÃO MORAL ―, se ela chegar a se permitir ser a piranha que realmente é, ela será a Piranha do Leste. A Babá e a comitiva devota de Solos de Colwen lhe darão apoio.”

“Pensei que você gostasse dela!”

“Você não reconhece afeição debaixo de seu nariz?”, disse Elphaba, zom­beteira. “Eu amo a Nessie. Ela é um pé no saco, ela é intoleravelmente correta, ela é uma nojenta peça rara. Eu sou devotada a ela.”

“Ela será a Eminente Thropp.”

“Melhor ela do que eu”, disse Elphaba secamente. “Só para dar um exemplo, ela tem muito bom gosto em matéria de sapatos.”

Numa noite, entrando pela clarabóia, a luz da Lua cheia caía plena­mente sobre a adormecida Elphaba. Fiyero havia despertado e fora se aliviar num urinol do aposento. Malky estava caçando ratos nas escadas. Ao voltar, ele contemplou as formas de sua amante, mais peroladas que verdes nessa noite. Uma vez ele lhe dera um lenço de franjas de seda tradicional em Vinkus ― rosas sobre um fundo negro ― e o enrolara em sua cintura, e desde então isso se tornara um costume ao fazerem amor. Dessa vez, ao dormir, ela o er­guera, e ele admirava a curva de seu flanco, a suave fragilidade de seu joelho, o tornozelo ossudo. Havia ainda no ar um pouco de perfume, e havia um odor resinoso, animalesco, misturado a um cheiro que vinha do oceano místico e a outro, doce, disfarçado, de pêlos eriçados por sexo. Ele se sentara ao lado da cama e a olhava. Seu pêlos púbicos cresciam, mais roxos que negros, em pequenos cachos cintilantes, um tanto diferentes dos de Sarima. Havia uma sombra estranha perto da virilha ― momentaneamente aturdido, ele pensou se algum de seus diamantes azuis não teria, no calor do sexo, se fundido à pele de Elphaba ― ou se aquilo não seria uma cicatriz?

Mas, nesse exato momento, ela despertou, e, à luz do luar, cobriu-se com o cobertor. Ela sorriu para ele, sonolenta, e o chamou. “Yero, meu Yero”, e isso o derreteu.

Apesar disso, por vezes ela era de uma fúria!

“Eu não ficaria surpresa se o bife de porco que você está devorando agora, com gula tão indiferente, tivesse sido retalhado de um Porco”, ela o alfinetou uma vez.

“Só porque você já comeu, não precisa arruinar o meu apetite”, ele pro­testou mansamente. Os Animais livres não estavam em muita evidência no seu território natal, e as poucas bestas racionais que conhecera em Shiz, à ex­ceção daquelas que vira naquela noite no Clube de Filosofia, tinham lhe cau­sado pouca impressão. A situação aflita dos Animais não o comovia muito.

“Eis uma boa razão para a gente não se apaixonar: ficamos cegos. O amor é uma distração maldosa.”

“Agora, você estragou o meu almoço.” Ele deu o resto do bife de porco para Malky. “Que tanto você sabe sobre maldade? Você está meio que brin­cando no meio dessa rede de renegados, não está? Você é uma novata.”

“Eu sei muito bem isto: o mal dos homens é que seu poder aumenta a estupidez e a cegueira”, ela disse.

“E o das mulheres?”

“As mulheres são mais fracas, mas sua fraqueza é cheia de astúcia e uma certeza moral igualmente rígida. Já que seu espaço para luta é menor, sua capacidade de dano é menos alarmante. Embora sejam mais íntimas, são mais traiçoeiras.”

“E quanto ao meu potencial maléfico?”, disse Fiyero, sentindo-se atin­gido e incomodado. “E quanto ao seu?”

“O potencial maléfico de Fiyero consiste em acreditar convictamente na própria bondade.”

“E o seu?”

“Em pensar através de epigramas.”

“Você tirou seu corpo fora com jeitinho”, ele disse, subitamente um pouco irritado. “É isso que a sua rede secreta a incumbiu de fazer? Produzir epigramas espirituosos?”

“Oh, há grandes coisas sendo feitas”, ela disse, vagamente. “Eu não esta­rei no centro das ações, mas serei de auxílio nas margens, acredite.”

“Do que você está falando? De um golpe de Estado?”

“Não se meta, e permanecerá inocente. Tal como você quer ser.” Isso era desprezível da parte dela.

“Um assassinato? E o que acontecerá se você matar algum General Açougueiro? O que isso a tornará? Uma santa? Uma santa da revolução? Ou uma mártir, se for morta em campanha?”

Ela não respondeu. Balançou sua cabeça estreita, irritada, e depois jogou seu xale rosado no quarto como se este a tivesse enraivecido.

“E se algum transeunte inocente for atingido quando você apontar para o General Matador de Porcos?”

“Eu nada sei sobre mártires e pouco me importo com eles”, ela disse. “Tudo isso me cheira a um plano mais elevado, a uma cosmologia ― uma coisa na qual não acredito. Se não compreendemos o plano em que estamos, como é que um plano mais alto faria sentido? Mas, se eu acreditasse no martírio, suponho que lhe diria que você só pode ser um mártir se souber pelo que está morrendo, e fazer disso uma escolha.”

“Ah, então há vítimas inocentes nesse negócio. Aqueles que não esco­lhem morrer, mas entram na linha de fogo.”

“Há... haverá... acidentes, eu acho.”

“Existe angústia, remorso, em seu exaltado círculo? Existe nele alguma coisa parecida com erro? Existe algum senso de tragédia?”

“Fiyero, seu bobo desleal, a tragédia está bem em volta de nós. Preo­cupar-se com algo menor que isso é distração. Qualquer conseqüência da luta será culpa deles, não nossa. Nós não abraçamos a violência, mas não negamos a sua existência ― como poderíamos negar quando seus efeitos estão aí, bem visíveis? Se existe pecado, esse tipo de negação se enquadra bem no conceito...”

“Ah ― agora eu ouvi a palavra que eu nunca esperava que você dissesse.”

“Negação? Pecado?”

“Não. Nós.”

“Eu não sei por quê...”

“A solitária desertora de Crage Hall se tornou institucional? Uma garota da turma? Uma jogadora pertencente a um time? Nossa pioneira Senhorita Rainha dos Solitários?”

“Você não compreende. Há uma missão, mas não há agentes, há um jogo, mas não jogadores. Eu não tenho colegas. Eu não tenho um eu. Nunca tive, aliás, mas isso não vem ao caso. Sou apenas um espasmo muscular num grande organismo.”

“Hah! Logo você, a mais individual, a mais isolada, a mais real...”

“Tal como todos, você se refere à minha aparência. E tira um sarro dela.”

“Eu adoro sua aparência e a admiro, Fae.”

Eles se despediram sem palavras naquele dia, e ele passou a noite no salão de apostas, perdendo dinheiro.

Quando voltou para vê-la, ele trouxe três velas verdes e três douradas e decorou seu aposento em comemoração aos festejos de Lurline. “Eu não acredito em festas religiosas”, ela disse, e, dando o braço a torcer, “mas, ficou bonito.”

“Você não tem alma”, ele a provocou.

“Você tem razão”, ela respondeu orgulhosamente. “Eu não pensava que isso transparecesse.”

“Agora, você está fazendo um jogo de palavras.”

“Não”, ela disse. “Que prova posso ter da existência de uma alma?”

“Como você poderia ter uma consciência se não tivesse uma alma?”, ele perguntou, a despeito dele mesmo ― porque o que desejava era manter as coisas num plano mais leve, voltar a um terreno mais seguro depois do último episódio de corpo-a-corpo moral e desavença.

“Como pode um passarinho alimentar seus filhotes se ele não tem cons­ciência do antes e do depois? Uma consciência, Yero, meu herói, é apenas o ser consciente de uma outra dimensão, a do tempo. O que você chama de cons­ciência eu prefiro chamar de instinto. Os passarinhos alimentam seus filhotes sem saber por que, sem chorar pelo fato de que tudo que nasceu deve morrer, oh, soluços, soluços. Faço meu trabalho com uma motivação similar: o movi­mento visceral em direção ao que é bom, justo e seguro. Sou só mais um animal no meio do rebanho, isso é tudo. Sou uma folha descartável da árvore.”

“Já que seu trabalho é terrorismo, esse é o argumento mais extremista para cometer crimes que eu já tive oportunidade de ouvir. Você está fugindo a toda responsabilidade individual. É tão ruim quanto aqueles que sacrificam sua vontade pessoal aos pântanos sombrios da vontade desconhecida de al­gum deus insondável. Se você suprime a noção de pessoa, suprime também a noção de culpabilidade individual.”

“O que é pior, Fiyero? Suprimir a noção de pessoa ou suprimir, através de tortura e encarceramento, pessoas realmente vivas? Olha: você se preocu­paria com salvar algum precioso retrato sentimental num museu de belas-­artes quando a cidade toda ao redor estivesse pegando fogo e pessoas reais estivessem sendo queimadas até morrer? Mantenha alguma proporção dentro disso!”

“Mas até um transeunte inocente ― vamos dizer, alguma chata senhora de sociedade ― é uma pessoa real, não um retrato. Sua metáfora é desatenta e depreciativa, é uma desculpa cega para o crime.”

“Uma senhora de sociedade escolheu desfilar como um retrato vivo. Ela deve ser tratada como tal. E seu dever. A negação disso, esse é seu mal, para voltarmos à discussão do outro dia. Digo que salve o transeunte inocente se puder, mesmo que seja uma senhora de sociedade, mesmo se for um capitão de indústria que esteja prosperando poderosamente com esses movimentos repressivos ― mas não, não, não à custa de outras pessoas, mais reais. E, se você não puder salvá-los, não salvará, ora. Tudo tem seu preço.”

“Eu não acredito nesse conceito de pessoas ‘reais’ e mais ‘reais’.”

“Você não?” Ela sorriu, mas não foi um belo sorriso. “Quando eu desa­parecer novamente, queridinho, é certeza de que eu serei menos real do que sou agora.” Ela pareceu simular o ato sexual.contra ele; ele virou sua cabeça, surpreso com a força da aversão que sentira.

Mais tarde, naquela noite, quando tinham se reconciliado, ela sofreu um ataque de tontura e suores doloridos. Não deixou que ele a tocasse. “Você de­via ir embora, não sou digna de você”, ela gemeu, e dentro em pouco, quando estava mais calma, murmurou, antes de cair no sono novamente: “Eu amo tanto você, Fiyero, mas você não entende: ter nascido com um talento e uma inclinação para a bondade é a aberração”.

Ela estava certa. Ele não entendia. Ele enxugou seu rosto com uma toalha seca e ficou bem perto dela. Havia gelo na clarabóia, e eles dormiram debaixo de seus cobertores de inverno para se aquecer.

Numa tarde animada, ele mandou, num pacote conciliador, luminosos brinquedos de madeira para os filhos e um colar de pedras preciosas para Sarima. O trem de carga contornava os Grandes Kells pela rota do norte. Não entregaria os presentes pelos festejos de Lurline em Kiamo Ko até que fosse primavera, mas ele podia alegar tê-los enviado antes. Se as neves se dissipassem, ele estaria em casa nessa ocasião, inquieto e impaciente nos altos quartos estreitos da fortaleza da montanha, mas ele obteria o crédito por sua consideração. E talvez o merecesse, por que não? Com certeza, Sarima estaria passando pelos seus desânimos de inverno (diferentes de seus humores de primavera, seu tédio de verão e de sua congênita condição outonal). Um colar poderia talvez reanimá-la, um pouquinho ao menos.

Ele parou para um tomar um café num ponto fora dos lugares de rotina o bastante para ser a um só tempo boêmio e caro. A gerência se desculpava: o jardim de inverno, habitualmente aquecido com caldeiras e adornado com caras flores de estufa, tinha sido alvo de uma explosão na noite anterior. “O bairro está transtornado; quem poderia imaginar?”, disse o gerente, tocando o cotovelo de Fiyero. “Dizia-se que Nosso Glorioso Mágico havia erradicado a desordem civil: não era bem esse o objetivo dos toques de recolher e das leis de restrição?”

Fiyero não tinha vontade de comentar, e o gerente tomou seu silêncio como concordância. “Mudei algumas mesas para minha sala particular depois das escadas, se você não se incomodar com se apertar lá no meio das relíquias de família”, ele disse, mostrando o caminho. “Achar um bom munchkinês para ajudar a reparar o dano está ficando mais difícil, também. O toque tiqueta­queante do munchkinês, não há nada melhor. Mas, um monte dos nossos amigos do setor de serviços voltou para suas fazendas no leste. Assustados com a violência que sofreram ― bem, tantos deles são tão pequenos, não acha que é como se eles provocassem a violência? ― são todos covardes.” Ele se in­terrompeu para dizer, “Posso notar que você não tem parentes munchkineses, ou não teria feito esse comentário.”

“Minha mulher é de Pedras do Ninho”, disse Fiyero, mentindo de modo inconvincente, mas tocando no ponto nevrálgico.

“Eu recomendo o frapê de cereja e chocolate hoje, fresco e delicioso”, disse o gerente, refugiando-se na formalidade arrependida, e empurrando uma cadeira para uma mesa próxima às velhas janelas altas. Fiyero sentou-­se e olhou para fora. Uma persiana enfeitada fora danificada e não podia se dobrar sobre a parede externa como antes, mas havia ainda uma vista considerável. Telhados, canos de chaminé ornamentais, o estranho caixilho da janela elevada cheio de escuros amores-perfeitos de inverno, e pombos voando e trançando como senhores do céu.

O gerente era um representante de uma espécie peculiar; depois de muitas gerações na Cidade Esmeralda, essa espécie parecia uma ramificação étnica à parte. As pinturas de sua família mostravam os claros e meditativos olhos de avelã, e as refinadas e recuadas entradas capilares idênticas em ho­mens e mulheres (e puxadas nos couros cabeludos das crianças também, à moda da classe média ansiosa de ascensão da Cidade Esmeralda). A visão dos afetados garotos vestidos em seda cor-de-rosa carregando seus cãezinhos de estimação de cabecinhas frisadas, e das garotinhas usando ruge pesado e decotes em V feito mulheres adultas (o que deixava à mostra sua ingênua ausência de seios), Fiyero sentiu, de novo, uma repentina saudade de seus filhos frios e distantes. Embora danificados por sua particular vida de família ― e quem não o era? ―, em sua memória Irji, Manek e Nor mantinham mais integridade que esses príncipes de estufa de uma família pretensiosa.

Mas aquilo era cruel, e ele estava sendo afetado por uma convenção artística, não por crianças de verdade. Ele dirigiu seu olhar para a vista da janela quando ouviu um pedido, para evitar artimanhas sujas, para evitar as outras pessoas no salão.

Tomar café no jardim de inverno abaixo geralmente oferecia o bônus de uma vista de muros de tijolo cobertos de parreiras, arbustos e uma ou outra estátua de mármore de algum improvavelmente belo e vulnerável efebo nu. Contudo, de um lance acima, podia-se ver, além do muro, uma ruazinha in­terna. Parte dela era um estábulo, outra um toalete contíguo, aparentemente; e bem dentro do alcance de sua visão aparecia o muro quebrado pela explosão. Alguma espécie de torcida rede de arame farpado fora erguida na abertura, que levava a um pátio de escola.

Enquanto observava, uma das portas.da escola adjacente foi empurrada, e um pequeno grupo emergiu, tremendo e espreguiçando à luz do sol. Parecia haver ali ― Fiyero examinou ― um par de mulheres idosas e alguns machos adolescentes do Estado de Quadling, os bigodes juvenis fazendo uma sombra azulada contra sua bela pele de um rosa-ferrugem. Cinco, seis, sete quadlings ― e um par de homens corpulentos que podiam ser parcialmente gillikineses, era difícil saber ― e uma família de ursos. Não ― de Ursos. Pequeninos Ursos Vermelhos, um pai e uma mãe e um filhote.

O pequeno Urso rumou infalivelmente em direção a algumas bolas e arcos que estavam ao pé da escada. Os quadlings formaram um círculo e começaram a dançar e cantar. Os mais velhos, com passos artríticos, jun­tavam suas mãos às dos mais jovens e se moviam num formato de pernas afastadas, para dentro e para fora, como se formassem a face de um relógio que revertesse o sentido dos ponteiros. Os troncudos gillikineses dividiam um cigarro e olhavam para a barreira de arame farpado junto aos destroços do muro. Os Ursos Vermelhos estavam mais apáticos. O macho se sentava à beira de um cercado de areia, esfregando seus olhos e penteando o pelame abaixo de seu queixo. A fêmea se movia para a frente e para trás, chutando a bola para manter seu filhote na brincadeira e depois dando uns tapas na cabeça abaixada de seu companheiro.

Fiyero bebericava seu drinque e olhava mais. Se havia ali, vamos dizer, uns doze prisioneiros, e apenas uma cerca de arame entre eles e a liberdade, por que não fugiam? Por que estavam isolados em suas espécies e grupos raciais?

Depois de uns dez minutos, as portas se abriram novamente e um mem­bro da Tropa da Tormenta entrou, garboso e ― sim, Fiyero tinha de admitir, finalmente ― aterrorizante. Aterrorizante em seu uniforme vermelho-tijolo com botas verdes, e a cruz de esmeralda que ocupava o centro da camisa, uma correia vertical da virilha à alta gola engomada, outra correia de axila a axila através dos peitorais. Era apenas um jovem cujo cabelo cacheado era tão louro que chegava a parecer branco ao sol de inverno. Plantou-se de pernas abertas no degrau da varanda da escola.

Embora Fiyero nada pudesse ouvir pela janela fechada, o soldado apa­rentemente deu uma ordem. Os Ursos se enrijeceram e o filhote começou a gemer e a se agarrar na própria bola. Os gillikineses se aproximaram e se mostraram docilmente disponíveis. Os quadlings ignoraram a ordem e continuaram com a sua dança. Eles balançavam seus quadris, e punham os braços à altura dos ombros, mexendo suas mãos numa mensagem semafóri­ca, embora o que ela significasse Fiyero pudesse apenas imaginar. Ele nunca tinha visto um quadling.

O soldado da Tropa da Tormenta ergueu a voz. Ele trazia um porrete numa laçada de couro na cintura. O filhote se escondeu por trás do pai, e podia-se ver a mãe a resmungar.

Unam-se, Fiyero se surpreendeu pensando, mal se julgando capaz de ter um pensamento desses. Unam-se como uma equipe ― vocês são doze e ele é um só. Serão suas diferenças que mantêm vocês submissos? Ou haverá lá dentro parentes que serão torturados se vocês abrirem uma brecha para a liberdade?

Era tudo especulação; Fiyero não podia notar a dinâmica da situação, mas ele estava concentrado. Percebeu que sua mão estava aberta, a palma posta contra o vidro da janela. Lá embaixo, devido aos Ursos não terem-se levantado para ficar em fila, o soldado ergueu seu porrete e baixou-o no crâ­nio do filhote. O corpo de Fiyero estremeceu, ele derrubou seu drinque e a xícara se quebrou, cacos de porcelana se espalhando no escorregadio piso de carvalho com desenhos em formato de espinha de peixe.

O gerente surgiu detrás de uma porta verde de baeta e emitiu um som de desaprovação, e fechou as cortinas, mas não antes que Fiyero visse uma última coisa. Recuando de tal modo que parecia nunca haver caçado e matado animais nas Pastagens Milenares, ele desviou seus olhos e eles se dirigiram para o alto, onde teve um vislumbre de formas claras e esmaecidas de rostos ­duas ou três dúzias de crianças nas janelas mais altas da escola, olhando para baixo com fascinação e boquiabertas diante da cena no pátio de recreio.

“Eles não têm consideração pelos vizinhos que têm um negócio a tocar, contas a pagar e entes queridos a alimentar”, alfinetou o gerente. “Não precisa ver essas palhaçadas enquanto toma seu café, senhor.”

“A destruição em seu jardim de inverno”, disse Fiyero. “Isso foi alguém tentando quebrar seu muro para entrar naquele pátio, e tirá-los vivos dali.”

Fiyero não tomou a xícara de chocolate com cereja que veio em substi­tuição à quebrada. Ouviram-se gritos torturantes da mãe Ursa, e depois se fez um silêncio no mundo exterior além daquelas pesadas cortinas de damasco. Foi um acidente eu ter visto isso, Fiyero pensou, olhando para o gerente com novos olhos. Ou o mundo apenas se revela a você, repetidas vezes, assim que você está pronto para lançar um novo olhar para ele?

Ele queria contar a Elfinha o que tinha visto, mas recuou, por moti­vos que não conseguiu definir. De certo modo, para equilibrar as afeições recíprocas, ele sentia que ela precisava uma identidade separada da sua. Se ele se convertesse à sua causa, ela poderia desaparecer. Ele não queria correr esse risco. Mas a visão do urso espancado o perseguia. Ele apertou Elfinha o mais forte que pôde, tentando comunicar uma paixão mais profunda sem dizer nada.

Ele notou, também, que, quando ela estava agitada, era mais liberal ao fazer amor. Começou a ser capaz de notar quando ela ia dizer: “Não até a semana que vem”. Ela parecia mais generosa, mais estimulante, como se es­tivesse talvez praticando um exercício purificador antes de desaparecer por alguns dias. Numa manhã, quando ele se pusera a roubar um pouco do leite do gato para seu café, ela esfregou algum tipo de óleo na pele, estremecendo, sensitiva, e disse por sobre seus ombros de suave mármore verde: “Duas se­manas, meu querido. Meu bichinho, como dizia meu pai. Eu preciso desse intervalo de privacidade agora”.

Ele sentiu uma angústia súbita, uma premonição de que ela iria deixá-lo. Era um meio de ela arranjar duas semanas para reorganizar sua vida. “Não!”, ele disse. “Não vai dar, Fae-Fae. Não está certo, é tempo demais.”

“Precisamos disso.” Ela explicou: "Não eu e você, mas os outros nós. Obviamente eu não posso lhe contar o que vamos fazer, mas os planos da missão de outono estão por se concretizar. Haverá um episódio ― não posso dizer mais ― e devo ficar disponível para a rede o tempo todo.”

“Um golpe?”, ele disse. “Um assassinato? Uma bomba? Um seqüestro? O quê? Diga apenas a natureza da coisa, não as particularidades, o que será?”

“Não é apenas que não possa lhe contar”, ela disse. “É que também não sei. Serei esclarecida só sobre meu pequeno papel, e o desempenharei. Só sei que é uma complicada manobra, com um monte de peças interligadas.”

“Você é o dardo?”, ele disse. “Você é a faca? O estopim?”

Ela disse (embora ele não estivesse convencido): “Meu queridinho, meu boneco, eu sou verde demais para me expor num lugar público e fazer uma coisa errada. É tudo previsível demais. Os guardas de segurança me vigiam como corujas de olho num rato. Minha mera presença provoca alarme e vi­gilância redobrada. Não, não, o papel que eu desempenharei será o de uma criada, prestando um pequeno auxílio nas sombras”.

“Não faça isso”, ele disse.

“Você é egoísta”, ela disse, “e você é um covarde. Eu amo você, doçura, mas suas queixas quanto a esse assunto são equivocadas. Você só quer preser­var minha insignificante vida, você nem tem um sentimento moral sobre se estou agindo certo ou errado. Não que eu queira que você tenha, não que eu me importe com o que você pense. Mas eu apenas observo, suas objeções são da espécie mais débil. Agora, isso não é mais coisa para ser discutida. Duas semanas a partir de hoje, você pode voltar.”

“Essa ― ação ― será completada por eles? Quem decide?”

“Eu não sei o que é ainda, e também nem sei quem decide, portanto, não me pergunte.”

“Fae...” De repente, ele não gostava mais de seu nome de código. “Elpha­ba, você não sabe mesmo quem está puxando as cordas que fazem você se mo­ver? Como é que você sabe que não está sendo manipulada pelo Mágico?”

“Você se porta como um novato nisso, levando em conta o seu status de um príncipe tribal!”, ela disse. “Como eu não notaria se estivesse sendo um peão no xadrez do Mágico? Eu pude perceber quando estava sendo mani­pulada por aquela megera, Madame Morrible. Eu aprendi um pouco sobre prevaricação e sinceridade em Crage Hall. Me dê um crédito por ter passado alguns anos nisso, Fiyero.”

“Você não pode me dizer com certeza quem é ou quem não é o chefe.”

“Papai não sabia o nome de seu Deus Inominável”, ela disse, erguendo-­se e esfregando óleo em seu estômago e entre as pernas, mas modestamente, virando as costas para ele, “A questão nunca é o quem, não é? E sempre o porquê.”

“Como você é informada? Como eles dizem a você o que deve fazer?”

“Olha, você sabe que eu não posso dizer.”

“Eu sei que pode.”

Ela se virou: “Esfregue óleo em meus seios, sim?”

“Eu não sou esse machão estúpido, Elphaba.”

“Você é sim” ― ela riu, mas com afeto ―, “venha.”

Era um amanhecer, o vento rugia e chegava a fazer tremer as tábuas do assoalho. O frio céu acima do vidro era de um azul-rosado de espécie rara. Ela livrou-se de sua timidez como de uma camisola, e no líquido clãrão da luz do sol nas velhas tábuas, ela ergueu as suas mãos ― como se, no terror do conflito iminente, ela tivesse por fim entendido que era bela. A seu modo.

O desmoronar de sua reserva o assustava mais que qualquer outra coisa.

Ele pegou um pouco de óleo de coco e aqueceu-o em suas palmas, e deslizou suas mãos como animais de couro aveludado sobre seus pequenos, receptivos seios. Os mamilos se ergueram, o rubor se espalhou. Ele já estava todo vestido, mas afoitamente se precipitou sobre a forma suavemente resis­tente de Elphaba. Uma de suas mãos deslizou por suas costas; ela se arqueou contra ele, gemendo. Mas talvez, dessa vez, não por carência?

Mesmo assim, ele enfiou a mão em suas nádegas, apalpou seu rosto, e foi além, apalpando o ponto onde um músculo se ressaltava em curva, pre­ciosamente, sentiu o suavíssimo esboço do pêlo a produzir suas sombras en­trecruzadas, a girar em direção ao vórtice. Ele conduziu a sua mão inteligente, lendo os sinais de sua resistência.

“Eu tenho quatro companheiros”, ela disse subitamente, livrando-se o bastante para não se desligar dele, mas para desencorajá-lo um pouco. “Oh, coração, eu tenho quatro camaradas; eles não sabem quem é o líder de nossa célula, tudo é feito no escuro, com uma máscara para encobrir a voz e distor­cer os rostos. Se eu soubesse mais, a Tropa da Tormenta poderia me pegar e arrancar essas informações sob tortura, não compreende?”

“Qual é o objetivo de vocês?”, ele tomou fôlego, beijando-a, afrouxando as calças novamente, como se fosse pela primeira vez, a língua trilhando o funil de seu ouvido.

“Matar o Mágico”, ela respondeu, enlaçando-o pelas pernas. “Eu não sou a ponta da flecha, eu não sou o dardo, eu sou apenas a haste da lança, a aljava...” Ela derramou mais óleo em sua mão e enquanto eles deslizavam e caíam na luz, untou-o de óleo, tornando-o mais ágil e ansioso, levando-o para mais fundo dela do que nunca.

“Mesmo depois de todo este tempo comigo, você poderia ser um agente secreto do Palácio”, ela disse depois.

“Não sou”, ele disse. “Eu sou bom.”


❈ ❈ ❈
Caiu um pouco de neve numa semana, e um pouquinho mais na outra. A festa de Lurlinemas se aproximava. As capelas unionistas, tendo apropria­do e transformado a parte mais visível das velhas crenças pagas, erguiam-se despudoradamente em verde e ouro, adornadas por velas verdes e gongos de ouro e grinaldas de frutas verdes e douradas. Ao longo da Rua dos Co­merciantes, lojas procuravam superar umas às outras (e até as igrejas) com a decoração, exibindo roupas da moda e inúteis e caras quinquilharias. Nas vitrines, figuras de papel machê evocavam a Boa Fada Lurline em sua car­ruagem alada, e a sua ajudante, a fadinha Preenella, que distribuía delícias embrulhadas para presente de sua espaçosa cesta mágica.

Ele se perguntava, repetidamente, se estava ou não apaixonado por El­phaba.

E ainda se indagava por que demorara tanto a fazer-se essa pergunta, depois de dois meses de uma ligação apaixonada; e se sabia o que as palavras realmente queriam dizer; e se isso realmente tinha alguma importância.

Escolheu mais presentes para os filhos e para a amuada Sarima, aquela bem-alimentada mal-agradecida, aquele monstro. Ele sentia um pouco a falta dela; seus sentimentos por Elphaba pareciam não competir com os que trazia por Sarima, mas complementá-los. Elphaba mostrava a orgulhosa indepen­dência das mulheres da montanha de Arjiki que Sarima, casada ainda tão menina, nunca desenvolvera. E Elfinha não era apenas um diferente (para não dizer original) tipo provincial ― ela parecia um avanço no gênero, ela parecia, por vezes, pertencer a uma espécie diferente. Ele se surpreendeu com uma ereção descomunal ao recordar aquele último encontro, e teve de se esconder atrás de alguns lenços femininos de uma loja até que aquilo baixasse.

Comprou três, quatro, seis dos lenços para Sarima, que nunca os usava. E comprou seis para Elphaba, que era usuária.

A garota da loja, uma obtusa anã munchkinesa que teve de subir numa cadeira para alcançar a caixa registradora, disse por sobre seu ombro: “Só um momentinho, senhora”. Ele se virou para dar espaço no balcão a outro freguês.

“Mas, Mestre Fiyero!”, exclamou Glinda.

“Senhorita Glinda”, ele disse, estupefato. “Que surpresa.”

“Uma dúzia de lenços”, ela disse. “Olhe, Crope, veja só quem está aqui!”

E ali estava Crope, um pouco papudo, embora não tivesse ainda vinte e cinco anos ― ou não? ― a olhar com uma expressão envergonhada de perto de um mostruário de objetos de pena e pluma.

“Vamos tomar um chá”, disse Glinda, “vamos. Venha agora. Pague esta bela senhorinha e já vamos sair.” Em suas volumosas saias, ela farfalhava como um grupo de bailarinas.

Não se lembrava de tê-la conhecido assim tão frívola; talvez fosse o efeito da vida de casada. Ele olhou de esguelha para Crope, que estava revi­rando os olhos atrás dela.

“Vá pondo isto na conta de Sir Chuffrey, e mais isto, e isto”, Glinda dizia, amontoando coisas no balcão, “e mande para nossos aposentos no Clube de Florinthwaithe. Vou precisar para o jantar, de modo que arranje alguém para levar logo, se puder. Que gracinha. Tão gentil. Blablablá. Rapazes, sigam-me.”

Ela agarrou Fiyero com mão decidida e conduziu-o para fora; Crope a seguiu feito um cãozinho de estimação. O Clube Florinthwaithe era a apenas uma rua ou duas longe dali e eles poderiam ter facilmente carregado os pacotes. Glinda saltitava e subia ruidosamente a grande escadaria para a Sala de Carvalho, fazendo barulho o bastante para que todas as mulheres no local a recompensassem com um olhar de reprovação.

“Agora, você aí, Crope, faça o papel de Mãe e nos sirva quando formos atendidos, e caro Fiyero, você fique aqui, bem perto de mim, isto é, não for casado demais.”

Eles pediram chá; Glinda, aos poucos, foi se acostumando à presença dele e começou a se acalmar.

“Mas, realmente, quem pensaria uma coisa dessas?”, ela disse, apanhan­do um biscoito e pondo-o de volta na mesa, por umas oito vezes. “Nós éramos os grandes e os bons em Shiz, realmente. Olhe só para você, Fiyero ― você é um príncipe, não é mesmo? Devemos lhe chamar Sua Alteza? Eu acho que nunca conseguiria. E você ainda está casado com aquela menininha?”

“Ela agora está crescida, e nós temos uma família”, Fiyero lhe explicou cautelosamente. “Três filhos.”

“E ela por certo está aqui. Preciso conhecê-la.”

“Não, ela está em nossa casa de inverno nos Grandes Kells.”

“Então, acho que você está tendo algum caso”, disse Glinda, “porque parece tão feliz. Com quem? Alguém que eu conheça?”

“Fico feliz por vê-la”, ele disse; e de fato se sentia assim. Ela parecia maravilhosa. Ela se completara. Aquela beleza fantasmagórica aumentara, mas não ficara vulgar. Era agora mais mulher que garota carente, e mais esposa que mulher. Seu cabelo era cortado curto, num estilo masculinizado, muito apropriado, e havia algo como uma tiara em seus cachos. “E, agora, você é uma feiticeira.”

“Oh, mais ou menos”, ela disse. “Posso ao menos conseguir que aquela garçonete traga logo as tortas e a geléia? Não posso. Sim, posso assinar uma centena de cartões de saudação para as ocasiões de festa de uma vez só. Mas é um talento muito menor, garanto-lhe. A feitiçaria é altamente superestimada na opinião pública. Não fosse assim, por que o Mágico não mandaria seus adversários magicamente para o inferno? Não, estou satisfeita com tentar ser uma boa companheira para meu Chuffrey. Ele está no câmbio hoje, resolvendo suas coisinhas financeiras. Oh, você ficou sabendo quem está na cidade hoje? Essa é boa demais, conte a ele, Crope.”

Crope, surpreso por ter sido contemplado com uma brecha, engasgou com a boca cheia de chá. Glinda se antecipou. “Nessarose! Pode acreditar? Ela está na casa de sua família lá na rua do Baixo Mennipin ― um endereço que teve grande relevo na década passada, devo acrescentar. Nós a vimos onde, Crope, onde? Foi no Empório do Café...”

“Foi no Jardim de Gelo...”

“Não, eu me lembro, foi no Cabaré da Cidade de Lantejoulas! Fiyero, você sabe, fomos lá ver aquela velha Sillipede, você se lembra? Não, não se lembra não, posso ver na sua cara. Ela era a cantora que estava se apresentan­do no Festival de Canção e Sentimento de Oz no dia em que o Glorioso Má­gico desceu dos céus num balão e orquestrou aquele golpe! Ela está fazendo ainda uma de suas inumeráveis excursões de volta ao mundo artístico. Ela é um pouco brega, atualmente, mas, nossa, era divertidíssima. E lá, numa mesa melhor do que a que tínhamos conseguido, vou lhe contar, estava a Nessie! Ela estava com seu avô, ou será o bisavô? O Eminente Thropp? Ele deve ser arquicentenário, a esta altura. Eu fiquei chocada por vê-la até que percebi que ela foi apenas para lhe servir de acompanhante. Ela não queria saber de mú­sica ― ele ficou de cara fechada e rezando durante o entreato todo. E a Babá estava lá também. Quem teria imaginado isso, Fiyero ― você é um príncipe, e Nessarose está a pouco de se tornar a próxima Eminente Thropp, e Avaric, é claro, o Margrave de Dez Campos, e a humildezinha de mim casada com o Sir Chuffrey, detentor do mais inútil título e da maior pasta ministerial nas Colinas de Pertha?” Glinda quase parou para respirar, mas voltou a investir amavelmente: “E Crope, é claro, querido Crope. Crope, conte a Fiyero tudo sobre você, ele está louco por saber, estou notando”.

Realmente, Fiyero estava interessado, ao menos para ter um descanso daquela falação em stacatto.

“Ele é tímido”, Glinda prosseguiu, “tímido, tímido, tímido, sempre foi.” Fiyero e Crope trocaram olhares e tentaram impedir que suas bocas se con­traíssem. “Ele é dono de um pequeno palácio avant-garde, um apartamen­to improvisado no andar superior da sala de cirurgia de um médico, pode imaginar? Vistas assombrosas, as mais belas vistas da Cidade Esmeralda, e nesta época do ano ele dá suas pinceladinhas na pintura, não é, querido? Faz pintura, faz o desenho do cenário de alguma pequena opereta musical aqui e ali. Quando éramos jovens, pensávamos que o mundo girava em torno de Shiz. Você sabe que há teatro de fato por aqui agora? O Mágico tornou isto uma cidade muito mais cosmopolita, não acha?”

“É bom te ver, Fiyero”, disse Crope, “diga alguma coisa você mesmo, rápido, antes que seja tarde demais.”

“Seu mal-educado, você zomba cruelmente de mim”, entoou Glinda. “Eu vou contar pra ele seu pequeno caso ― bem, deixa pra lá. Não sou tão malvada.”

“Não há nada a dizer”, disse Fiyero, sentindo-se ainda mais taciturno e nativo de Vinkus do que se sentia quando chegara pela primeira vez em Shiz. “Eu gosto de minha vida, eu chefio meu clã quando precisam de mim, o que não é tão freqüente. Meus filhos são saudáveis. Minha esposa é ― bem, eu não sei...”

“Fértil”, acrescentou Glinda.

“Sim”. Ele riu. “Ela é fértil e eu a amo, e não posso ficar muito com vocês, já que devo me encontrar com alguém para uma conferência de negócios do outro lado da cidade.”

“Devemos nos ver”, disse Glinda, parecendo de repente queixosa, apa­rentando solidão. “Oh, Fiyero, não somos velhos ainda, mas somos velhos o bastante para sermos já velhos amigos, não somos? Olhe, sei que estou muito nervosa, como uma debutante que esqueceu de passar seu perfume favorito. Sinto muito. É que aquela foi uma época tão boa, mesmo com toda a sua estranheza e tristeza ― e a vida não é a mesma atualmente. É maravilhosa, mas não é a mesma.”

“Eu sei”, ele disse, “mas não sei se vou poder vê-la de novo. Há tão pouco tempo, e eu tenho de voltar para Kiamo Ko. Estou longe de lá desde o último verão.”

“Olhe, nós todos estamos aqui, eu e Chuffrey, Crope, Nessarose, você ― Avaric está por aí, a gente poderia fazê-lo juntar-se a nós! Poderíamos nos reunir, fazer um jantar tranqüilo em nossas casas. Prometo não ser tão tagarela. Por favor, Fiyero, por favor, Sua Alteza. Seria uma tamanha honra para mim.” Ela virou sua cabeça para cima e encostou um dedo no queixo, elegantemente, e ele notou que ela travava uma luta com a linguagem de sua classe para expressar algo real.

“Se eu achar que posso, eu lhe informarei, mas, por favor, você não deve ficar contando com isso”, ele disse. “Haverá outras ocasiões. Eu não costumo ficar na cidade por tanto tempo ― é uma ocasião excepcional. Meus filhos estão esperando ― você tem filhos, Glinda?”

“Chuffrey é tão estéril como duas nozes cozidas”, disse Glinda, fazendo Crope engasgar com o chá outra vez. “Antes que você vá ― noto que você está se aprontando para cair fora ― querido, querido Fiyero ― o que é que você sabe de Elphaba?”

Mas ele estava preparado para essa pergunta, e controlara o rosto para que ficasse neutro, e disse apenas: “Eis um nome que não ouço todo dia. Ela chegou a reaparecer? Com certeza Nessarose sabe alguma coisa”.

“Nessarose diz que se sua irmã realmente aparecer, ela cuspirá em seu rosto”, Glinda observou, “assim, devemos todos rezar para que Nessarose nun­ca perca a sua fé, porque isso significaria a evaporação de toda aquela tole­rância e delicadeza. Eu acho que ela mataria Elphaba. Nessa foi abandonada, rejeitada, forçada a cuidar de seu pai demente, da herança do avô, daquele irmão, daquela Babá, daquela casa, da turma toda ― e você nem pode dizer que com uma só mão, porque ela não tem mão nenhuma!”

“Eu acho que vi Elphaba uma vez”, disse Crope.

“Oh?”, disse Fiyero e Glinda juntos, e Glinda continuou: “Essa você nunca me contou, Crope”.

“Eu não tinha certeza”, ele disse. “Eu estava no trole que corre ao lado da piscina espelhada do Palácio. Estava chovendo ― foi há alguns anos ― e vi uma figura lutando com um grande guarda-chuva. Achei que ela estava para ser levada pelo vento. Uma rajada virou o guarda-chuva às avessas e o rosto, um rosto esverdeado que foi a razão de eu ter notado a pessoa, abaixou-se para evitar o espirro da água de chuva ― vocês devem se lembrar como Elphaba odiava ficar molhada.”

“Ela era alérgica à água”, Glinda opinou. “Eu nunca soube como ela se mantinha tão limpa, e eu era sua colega de quarto.”

“Óleo, acho”, disse Fiyero. Ambos olharam para ele. “Isto é, lá no Vinkus”, ele gaguejou, “os mais velhos esfregam óleo em vez de água na pele ― e eu sempre supus que era isso o que Elphaba fazia. Eu não sei. Glinda, se for para eu me encontrar com você novamente, o que seria um dia apropriado?”

Ela enfiou a mão na bolsa à procura de um diário. Crope aproveitou a oportunidade para se inclinar e dizer a Fiyero: “É bom de verdade ver você, como sabe”.

“Bom ver você também”, disse Fiyero, surpreso com aquela sinceridade. “Se um dia você for aos Grandes Kells, apareça para ficar em Kiamo Ko com a gente. E só mandar um aviso, já que ficamos lá apenas por meio ano.”

“Isso é bem seu gênero, Crope, os animais selvagens do incivilizado Vinkus”, disse Glinda. “Fico só pensando nas possibilidades de fazer moda, todas aquelas tiras e franjas de couro e tal, podiam interessá-lo, mas não consigo vê-lo como o Mister Rapaz da Montanha.”

“Não, provavelmente não”, concordou Crope. “A menos que ofereça fa­bulosos cafés a cada quatro ou cinco quarteirões, não acho que uma paisagem seja desenvolvida o bastante para habitação humana.”

Fiyero trocou um aperto de mãos com Crope e então, lembrando-se dos boatos sobre a deterioração do pobre Tibbett, beijou-o; ele passou os braços em torno de Glinda e beijou-a firmemente. Ela enlaçou seu braço no dele e conduziu-o para a porta.

“Deixa eu me livrar de Crope e ter você de volta, só para mim mesma”, ela disse numa voz baixa, seu murmúrio se transformando em algo mais sério. “Não posso lhe contar tudo, caro Fiyero. O passado parece ao mesmo tempo mais misterioso e mais compreensível com você diante de mim. Sinto que há coisas que eu ainda poderia saber. Eu não quero lamentar, querido, isso nunca! Mas já estamos nos despedindo.” Ela segurou a mão dele entre as suas. “Algo está acontecendo em sua vida. Não sou tão boba quanto pareço. Algo bom e ruim ao mesmo tempo. Talvez eu possa ajudar.”

“Você sempre foi muito amável”, ele disse, e fez um sinal para o porteiro chamar uma carruagem. “Como lamento não conhecer Sir Chuffrey.”

Ele saiu pela porta, atravessou a calçada de mármore da entrada, e vi­rou-se para saudá-la com o chapéu. Parada em frente às portas (os porteiros mantinham-nas abertas para que ele tivesse uma boa visão), ela era uma mulher calma, resignada, nem transparente nem insignificante ― era até mes­mo, podia-se dizer, uma mulher cheia de graça. “Se você a vir”, disse Glinda debilmente, “diga que ainda sinto falta dela.”

Ele não voltou a ver Glinda. Ele não voltou a aparecer no Clube Florin­thwaithe. Ele não deu nenhuma passadinha pela casa de família do Thropp na rua do Baixo Mennipin (embora se sentisse dolorosamente tentado). Ele não parou nenhum vendedor de ingressos para tentar conseguir entrada para a triunfante quarta excursão anual de retorno da cantora Sillipede. Ele o que fez foi acabar entrando na Capela de Santa Glinda na Praça de Santa Glinda, da qual podia ouvir de vez em quando as monjas enclausuradas cantando e sussurrando como um enxame de abelhas.

Quando as duas semanas finalmente passaram, e a cidade estava en­feitada para as tolas festividades de Lurline, ele foi ver Elphaba, meio na expectativa de que ela houvesse desaparecido.

Mas ela estava lá, firme e amorosa e no meio do preparo de uma torta de legumes para ele. Seu precioso Malky punha os pés na farinha e deixa­va marcas das patinhas pelo aposento inteiro. Eles conversaram, um pouco constrangidos, até que Malky virou a tigela de vegetais, e isso fez com que ambos rissem.

Ele não lhe falou de Glinda. Como poderia? Elphaba trabalhara tão duro para mantê-los todos ignorantes do que ela fazia, e agora estava enga­jada na maior missão de sua vida, a coisa em que vinha trabalhando havia cinco anos. Ele não aprovava a anarquia (bem, ele sabia que duvidava pre­guiçosamente de tudo; a dúvida tinha mais eficiência, do ponto de vista da energia, que a convicção). Mas, mesmo depois de ter visto o filhote de Urso ser espancado, ele tinha de manter uma relação imparcial e cautelosa com o Poder que estava no trono ― em consideração à sua tribo.

Fiyero não queria também tornar a vida de Elfinha mais dura do que já era. E sua necessidade de ficar confortavelmente ao lado dela superava sua necessidade de revelar. Então, não lhe disse tampouco que Nessarose e a Babá estavam, ou haviam estado, na cidade. (Por tudo que sabia, racionalizou silenciosamente, podiam já ter ido embora.)

“Eu fico pensando”, ela disse naquela noite, enquanto as estrelas vigia­vam através do estranho desenho de gelo na clarabóia, “Fico pensando se você não deveria sair da cidade antes da Véspera de Lurlinemas.”

“O conflito então vai explodir?”

“Eu não lhe disse, não conheço o plano completo; não posso conhecer; não devo conhecer. Mas, talvez algum tumulto vá acontecer. Talvez fosse melhor você ir embora.”

“Não vou e você não pode me obrigar.”

“Tenho feito cursos de feitiçaria por correspondência em paralelo, eu vou virar fumaça e transformar você em pedra.”

“Quer dizer que vai me deixar duro? Eu já estou duro.”

“Pare. Pare.”

“Oh, sua malévola, você me enfeitiçou, olhe, ele tem vontade própria...”

“Fiyero, pare. Pare. Agora, olhe, eu estou falando sério. Quero saber onde você estará na véspera de Lurlinemas. Só para ter certeza de que não será ferido. Me diga.”

“Quer dizer que não ficaremos juntos?”

“Será noite de trabalho para mim", ela disse soturnamente. “Verei você no dia seguinte.”

“Esperarei você aqui.”

“Não, não esperará. Acho que disfarçamos nossos rastros muito bem, mas, mesmo nessa data, haverá uma possibilidade de aparecer alguém para me pegar. Não ― você fica lá em seu clube e toma um banho. Tome um belo banho longo e frio. Entendeu? Nem pense em sair. Dizem que estará nevando na época, pelo jeito.”

“É Véspera de Lurlinemas! Eu não vou passar o feriado numa banheira completamente sozinho.”

“Bem, contrate alguma companhia, veja só se vou me importar com isso.”

“Como se você não se importasse.”

“Só fique longe de toda atividade social, quero dizer teatro ou multi­dões, ou mesmo restaurantes, por favor, me promete isso?”

“Se você fosse mais precisa, eu poderia ser mais cuidadoso.”

“Você seria mais cuidadoso se deixasse a cidade por completo.”

“Você seria mais cuidadosa se me dissesse...”

“Desista disso, vamos parar. Eu não acho que queira nem saber onde você estará, nem vir a pensar numa coisa dessas. Só quero que você esteja em segurança. Você ficará a salvo? Você ficará recluso, longe das embriagadoras comemorações pagãs?”

“Posso ir à capela e rezar por você?”

“Não.” Ela o olhou de maneira tão feroz que ele não teve coragem de provocá-la novamente.

“Por que é que eu devo me manter tão a salvo?”, ele perguntou a ela, mas estava quase praticando um monólogo. O que há em minha vida que seja digno de ser preservado? Com uma boa mulher lá nas montanhas, tão serviçal quanto uma velha colher, de coração seco por ter sido aterrorizada com a obrigação de um casamento desde que tinha seis anos de idade? Com três filhos tão inibidos com seu pai, o Príncipe dos Arjikis, que nem mesmo se aproximam dele? Com um clã aflito movendo-se daqui para lá, enfrentando sempre as mesmas disputas, conduzindo os mesmos rebanhos, rezando as mesmas orações, repetindo o que vem fazendo há quinhentos anos? E eu, com uma mente superficial e dispersiva, sem engenho para falar ou criar hábitos, sem nenhum apreço especial pelo mundo? O que poderá tornar minha vida digna de ser preservada?

“Eu amo você”, disse Elphaba.

“Então, é isso que vale, é isso aí”, ele lhe respondeu, e achou a resposta para si mesmo. “E eu também amo você. Portanto, prometo ser cuidadoso.”

Cuidadoso com nós dois, ele pensou.
❈ ❈ ❈
Então, ele passou a persegui-la novamente. O amor faz com que nos tornemos todos uns caçadores. Ela se encobria com longas saias negras, como as usadas por mulheres religiosas, e escondia o cabelo no interior de um cha­péu de aba larga com uma copa em forma de cone. Levava um lenço negro, roxo e dourado, amarrado em seu pescoço, embora precisasse mais que um lenço para disfarçar aquela proa adorável que era o seu nariz. Usava elegantes, apertadas luvas, um tipo de acessório mais bonito do que aqueles que habi­tualmente comprava, embora temesse que lhe fosse dar um controle menos ágil de suas mãos. Seus pés estavam enfiados em grandes botas de biqueiras de aço, do tipo usado pelos mineiros do Glikkus.

Se você não soubesse que ela era verde, seria difícil notar ― nessa inter­minável tarde escura, debaixo dessas dolorosas rajadas de neve.

Ela não olhava para trás; talvez não se importasse com estar sendo perseguida. Seu percurso a levava a circundar algumas das maiores praças da cidade. Ela se ocultava por um momento na Capela de Santa Glinda perto do monastério, aquela em que ele a vira pela primeira vez. Talvez estivesse recebendo instruções de última hora, mas ela não proporcionava a ele (nem a ninguém) a oportunidade de surpreendê-la em algum deslize. Voltava para a rua em um ou dois minutinhos.

Ou talvez ― que fosse fulminado por este pensamento ― ela estaria na verdade rezando para obter orientação e força?

Ela cruzava a Ponte do Tribunal, vagava ao longo do Aterro do Rio Ozma e cortava em diagonal através dos jardins de rosa abandonados da Alameda Real. A neve a importunava; a silhueta de suas finas pernas longas e escuras enfiadas naquelas botas enormes e cômicas se delineava contra o fundo de brancura do Parque dos Cervos de Oz (agora, naturalmente, desprovido de Cervos e mesmo de cervos). Ela marchava, cabeça abaixada, passando pelos cenotáfios e obeliscos e placas de memoriais erguidos em honra aos Magníficos Mortos, aventurando-se aqui e ali. As décadas ― Fiyero pensou, tão apaixonado ou tão temeroso por ela que ele podia tomar a coisa por amor ―, as décadas ali registradas não percebiam a sua passagem. Elas se miravam umas às outras do alto de seus engastes fixos e não notavam a revolução andando a passos largos entre elas, a caminho de seu destino.

Mas o Mágico não devia ser o seu objetivo. Ela devia ter revelado a verdade ao dizer que ela era inexperiente demais, e muito óbvia, para ser escolhida como assassina do Mágico. Ela devia estar envolvida em alguma tática diversionista, ou com a busca de algum possível sucessor ou aliado de alto nível. Pois à noite o Mágico estaria inaugurando a antimonárquica, revisionista Exposição de Luta e Virtude na Academia de Arte e Mecânica próxima ao Palácio. No entanto, no extremo da estrada para Shiz, Elphaba se pôs a caminhar lateralmente, longe do distrito do Palácio, cortando através do pequeno, elegante distrito de Refúgio de Ouro. As residências dos corruptos ricos eram vigiadas por mercenários, e ela passou imperceptivelmente por suas calçadas e pelos trabalhadores de estábulo que estavam do lado de fora varrendo a neve com suas vassouras. Ela não olhava para cima ou para baixo ou para trás sobre o ombro. Fiyero achou que, naquela perseguição, ele era a figura mais ostensiva, andando a passos largos na neve, com sua capa de ópera, a uns cem passos atrás dela.

No limite do Refúgio de Ouro havia um primoroso teatro de pedras azuis, o Mística da Mulher. Na praça frívola, porém elegante, que ficava diante dele, luzes claras de douradas e verdes lantejoulas apareciam em profusão, penduradas de poste a poste. Algum oratório de feriado estava programado ― ele conseguia ler apenas ESGOTADO na tábua que ficava defronte ― e as portas ainda não tinham sido abertas. A multidão estava se aglomerando, alguns ambulantes vendiam chocolate quente em altos copos de cerâmica, e uma horda de adolescentes arrogantes se divertia e importunava algumas pes­soas idosas cantando uma paródia de um velho hino unionista da temporada. A neve caía sobre todos, nas luzes, no teatro, nas multidões; aterrissava no chocolate quente, engrossava o mingau, punha gelo nos tijolos.

Corajosamente, tolamente ― sem decisão ou escolha, ao que parecia ― Fiyero subiu os degraus de uma biblioteca particular próxima, para ficar de olho em Elphaba, que sumira entre a multidão. Haveria um assassinato no teatro? Haveria um incêndio premeditado, com os sibaritas inocentes sendo assados como castanhas? Haveria um simples alvo, uma vítima designada, ou rolaria sangueira e catástrofe, quanto mais e pior, melhor?

Ele não sabia se estava ali para evitar o que ela estava para fazer, ou para salvar quem quer que fosse da calamidade, ou para ajudar alguém que fosse ferido acidentalmente, ou mesmo só para testemunhar os acontecimentos, para, assim, ficar sabendo mais sobre ela. E amá-la ou não amá-la, mas, afinal, saber qual das duas coisas escolher.

Ela estava circulando pela multidão, como se tentasse localizar alguém. Ele acreditava, incrivelmente, que ela não sabia que ele estava atrás dela ― se­ria ela tão determinada em achar a vítima certa, e ele tão incapaz? Ela não sentiria a presença de seu amado na mesma praça a céu aberto a caminhar com ela enquanto o vento soprava as cortinas de neve?

Uma falange de soldados da Tropa da Tormenta surgiu de uma aléia entre o teatro e uma escola vizinha. Eles tomaram seus lugares diante das barreiras de porta de vidro. Elphaba escalou os degraus de um antigo mercado de lã, uma espécie de quiosque de pedra. Fiyero viu que ela trazia algo sob o manto. Explosivos? Algum apetrecho mágico?

Ela teria companheiros espalhados ali pela praça? Estariam se comuni­cando uns com os outros? A multidão continuava a engrossar, à medida que a hora do oratório se aproximava. Dentro das portas de vidro, a gerência da casa se ocupava aprumando estacas e estendendo cordas de veludo para promover uma entrada de gala no vestíbulo. Ninguém espremia e dava empurrões em espaços públicos como os muito ricos, Fiyero bem sabia.

Uma carruagem veio do canto de um prédio no lado oposto da pra­ça. Não podia ir diretamente às portas do teatro, já que as multidões eram muito densas, mas procedia como se isso fosse possível. Sentindo a presença de alguma autoridade, a multidão recuou e parou um pouco. Poderia ser o evasivo Mágico, ou alguma visita não anunciada? Um cocheiro, portando um capuz de pele, abriu rapidamente a porta, e estendeu sua mão para ajudar o passageiro a apear.

Fiyero prendeu o fôlego; Elphaba virou madeira petrificada. Era esse o alvo.

Pondo os pés na rua coberta de neve, numa vaga provocadora de marés de seda negra e lantejoulas prateadas, surgiu uma mulher enorme; ela era im­periosa e augusta, era Madame Morrible, ninguém mais; Fiyero a reconheceu, embora a tivesse visto uma única vez.

Ele viu que Elphaba sabia que era essa a pessoa que ela tinha de matar; ela sabia disso; num instante, tudo ficou absolutamente claro. Se ela fosse pega e capturada e submetida a interrogatórios, sua motivação não poderia ser mais maravilhosa ― ela era apenas uma estudante enlouquecida do Crage Hall dirigido por Madame Morrible, ela carregava rancor, ela nunca esque­cera. Era perfeito demais.

Mas estaria Madame Morrible envolvida em intriga com o Mágico? Ou era apenas uma manobra diversionista, para desviar a atenção das autoridades de algum alvo mais urgente?

A capa de Elphaba se mexeu; sua mão se enfiou nela, como se estivesse preparando alguma coisa. Madame Morrible estava resmungando uma sau­dação para a multidão, a qual, embora não necessariamente sabendo quem era ela, apreciava o espetáculo, se não a grandeza, de sua chegada.

A Diretora do Crage Hall deu quatro passos em direção ao teatro, agar­rada ao braço de um lacaio automático, e Elphaba se moveu um pouco mais para a frente em seu posto no mercado de lã. Seu queixo agora se projetava agudamente para fora do lenço, seu nariz também se salientando; era como se ela fosse capaz de cortar Madame Morrible em pedacinhos, usando apenas as lâminas serrilhadas de suas feições naturais. Suas mãos continuaram a procurar coisas debaixo da capa.

Mas, então, foram abertas as portas frontais do edifício pelo qual Ma­dame Morrible estava passando ― não do teatro, mas da escola adjacente, o Seminário Feminino de Madame Testane. Delas saiu um pequeno e tumul­tuado ajuntamento de estudantes de classe alta. O que elas estavam fazendo na escola na véspera de Lurlinemas? Fiyero percebeu que Elphaba estava violentamente surpresa. As garotas eram seis ou sete, pequenas massas in­formes e cremosas de feminilidade incipiente, revestidas com luvas de pele, enfiadas em lenços de pele e equilibradas em botas com bordas de pele. Elas estavam rindo e cantando, rouca e firmemente como as mulheres adultas que ainda se tornariam, e no meio delas havia uma figura de pantomima, alguém que interpretava a fada Preenella. Era um homem, seguindo a convenção, um homem maquilado de maneira boba feito um palhaço, usando um busto postiço de gozação, e uma peruca e saias extravagantes, e um chapéu de pa­lha, carregando uma enorme cesta que transbordava de quinquilharias. “Oh, sociedade...”, ele flautou para Madame Morrible, “a boa Fada Preenella pode ter um presente para o Felizardo Pedestre.”

Por um momento, Fiyero pensou que o homem em farrapos ia tirar uma faca de algum lugar e matar Madame Morrible bem em frente às crianças. Mas, não, a espionagem era organizada, mas nem tanto ― era um acidente ver­dadeiro, um imprevisto. Eles não haviam imaginado que ali haveria um evento escolar naquela noite, nem que surgiria um grupo estridente de estudantes rebocando ansiosamente um ator vestido com saias e falando em falsete.

Fiyero virou-se para observar Elphaba. O rosto dela travava intensa luta com a incredulidade. As crianças estavam bem no caminho do que quer que ela estivesse por fazer. Elas eram um pequeno grupo indisciplinado, brin­cando em torno de Preenella, pulando sobre ele/ela, apoderando-se dos pre­sentes. Eram o contexto acidental ― ruidosas, inocentes filhas de magnatas, déspotas e generais carniceiros.

Ele via Elphaba penando, ele via suas mãos lutando uma com a outra, para fazer qualquer coisa, ou para se abster de fazê-la ― fosse o que essa coisa fosse.

Madame Morrible seguiu avante, como uma enorme embarcação num desfile de Dia da Recordação, e as portas do teatro se abriram para ela. Ela passou grandiosamente para um lado mais seguro. Lá fora, as crianças dan­çavam e cantavam na neve, a multidão ondulava numa ou noutra direção.

O público formou fila para entrar no teatro. As crianças berravam sua canção nas ruas, inundadas de alegria e ânsia. A carruagem que trouxera Ma­dame Morrible estava pronta para estacionar em frente ao teatro e começar a sua longa espera pelo retorno da Diretora. Fiyero estava imóvel, incerto, não sabendo se havia um plano alternativo, se Elphaba guardava alguma coisa na manga, se o teatro ia explodir.

Então, ele começou a ficar apreensivo com a possibilidade de, nos pou­cos minutos em que a perdera de vista, ela haver sido cercada pela Tropa da Tormenta. Poderiam ter sumido com ela tão rapidamente? O que ele faria se ela se tornasse um dos desaparecidos?

Num passo rápido, ele se encaminhou às ruas. Misericordiosamente, achou um veículo de aluguel à espera, e fez com que este o levasse diretamente para a rua de armazéns adjacente à guarnição militar do nono distrito da cidade.

Num estado de profunda agitação, ele chegou ao pequeno ninho de ave de rapina no alto do armazém de cereais onde Elphaba se ocultava. Ao subir as escadas, seus intestinos subitamente viraram água, e foi só com muito esforço que ele conseguiu chegar ao reservado do vaso. Suas vísceras se esva­ziaram ruidosa e liquidamente, enquanto ele segurava o rosto repleto de suor. O gato estava empoleirado sobre o armário, de olhos arregalados para ele. Esvaziado, purificado, e ao menos razoavelmente refeito, ele tentou agradá-lo com uma tigela de leite. O gato não a quis.

Encontrou algumas bolachas secas, comeu-as penosamente, e então pu­xou a corrente para abrir a clarabóia, para arejar o aposento. Uns fragmen­tos de neve caíram e se depositaram ali, sem se derreter, era aquele frio do maldito lugar. Ele se moveu para acender um fogo, abrindo a porta de ferro do fogão.

O fogo se ergueu, e flamejou, e as sombras se destacaram como se fos­sem movidas por vontade própria, mas eram rápidas, atravessavam o apo­sento diante dele sem que ele pudesse discernir o que eram. Exceto que havia três, ou quatro, ou cinco, e que estavam usando roupas escuras, e tinham os rostos escurecidos como carvão, e suas cabeças estavam envoltas em lenços coloridos como aqueles que comprara para Elphaba, para Sarima. No ombro de uma delas viu a cintilação de uma dragona dourada: era um membro de alta patente da Tropa da Tormenta. Havia um cacete, e ele desceu sobre a sua cabeça, como o coice de um cavalo, como o ramo quebrado de uma árvo­re atingida por um raio. Devia sentir dor, mas estava surpreso demais para notar. Aquilo devia ser sangue, esguichando uma mancha cor de rubi sobre o gato branco, fazendo-o recuar. Ele viu os olhos do bicho se abrirem, duas luas de um verde-dourado, combinando com a época, e o gato então fugiu pela clarabóia aberta e se perdeu na noite nevada.

A monja mais jovem era obrigada a abrir a porta do convento se a cam­painha soasse durante as refeições. De fato, já estava recolhendo as sobras de sopa de abóbora e biscoitos de centeio, as outras monjas rumando, num âni­mo disciplinado, em direção à capela do monastério no pavimento superior. Ela hesitou antes de se decidir por atender à campainha ― dentro de mais uns três minutos, também deveria se perder em devoções, e o som da campainha teria passado despercebido. Ela preferia, francamente, lavar os pratos. Mas o espírito do feriado a forçava a ser caridosa.

Ela abriu a porta enorme para encontrar uma figura encurvada como um macaco no canto escuro da varanda de pedra. Mais além, a neve enrugava a fachada da Igreja de Santa Glinda adjacente, fazendo-a parecer um reflexo na água, destacando apenas o lado certo. As ruas estavam vazias e um ruído de corais era filtrado pela igreja iluminada à luz das velas.

“O que é?”, disse a noviça, lembrando-se então de acrescentar: “Feliz Lurlinemas, meu amigo”.

Assim que viu o sangue nos estranhos punhos verdes, e a raiva naquele olhar, a decência associada ao feriado obrigou-a a levar a criatura para dentro. Mas ela ouvia as suas irmãs reunidas na sua capela particular, e a monja-mãe começara a cantar um prelúdio em seu prateado contralto. Era o primeiro grande evento litúrgico da noviça desde que se tornara membro da comuni­dade, e ela não queria perder um momentinho que fosse.

“Venha comigo, bonequinha”, ela disse, e a criatura ― uma mulher jovem só um ano ou dois mais velha que ela ― conseguiu se endireitar o bastante para andar, ou mancar, como um aleijado, como uma pessoa tão mal-ali­mentada que suas extremidades não podiam ser flexionadas e seus membros pareciam prestes a rachar.

A noviça parou num lavatório para enxaguar o sangue dos pulsos, e para se assegurar de que aquilo era coisa espirrada pela decapitação de alguma galinha para uma ceia do feriado, e não uma triste tentativa de suicídio. Mas a estranha recuou à visão da água, e pareceu tão desconcertada e infeliz que a noviça parou. Ela optou por uma toalha seca.

As monjas estavam começando as antífonas no pavimento superior! Que coisa irritante! A noviça escolheu a linha de menor resistência. Ela arrastou a coisa desamparada para o salão de inverno, onde as velhas empregadas apo­sentadas viviam suas vidas numa névoa de amnésia e discretamente plantavam moitas de plantas ornamentais, cujo doce miasma ajudava a mascarar odores de velhice e incontinência. As idosas viviam num tempo todo próprio, não podendo ser levadas lá para o alto, para a capela sagrada, de modo algum.

“Olhe, eu vou colocá-la aqui”, ela disse à mulher. “Eu não sei se você precisa de santuário ou alimento ou um banho ou um perdão, o que for. Mas, você pode ficar aqui, quente e enxuta e segura e silenciosa. Voltarei para cá depois da meia-noite. É por causa do dia de festa, como vê. É o ofício de vigília. Fique e aguarde, e tenha esperanças.”

Ela pôs a perseguida e assombrada mulher numa cadeira macia, e trouxe um cobertor. A maioria das idosas estava roncando, as cabeças tombando nos seios, babando suavemente em peitilhos enfeitados de frutinhas e folhas verdes e douradas. Algumas desfiavam as contas dos rosários. O pátio, que em geral ficava aberto no verão, estava agora protegido do inverno por painéis de vidro, e por isso parecia um tanque quadrado para peixes num aquário; a neve caindo sobre ele sempre infundia tranqüilidade às idosas.

“Olhe, você pode ver a neve, branca como a graça do Deus Inominável”, disse a noviça, lembrando os requisitos pastorais. “Pense nisso, e descanse, e durma. Aqui está um travesseiro. Aqui está uma almofada para seus pés. Lá em cima, nós vamos estar cantando e saudando o Deus Inominável. Rezarei por você.”

“Não...”, disse a hóspede fantasmagoricamente verde, e então deixou sua cabeça cair repentinamente sobre o travesseiro.

“O prazer é meu”, disse a noviça, um pouco agressivamente, e bateu em retirada, bem a tempo de pegar o hino em andamento.

Por um momento, o salão de inverno ficou em silêncio. Era como um aquário em que um peixe novo houvesse sido introduzido. A neve caía como que movida por uma máquina, amável e hipnotizante, com um sussurro tê­nue. Os botões das plantas ornamentais se fechavam um pouco à medida que o frio aumentava no salão. Lâmpadas de óleo lançavam suas funéreas fitas crepes no ar. No outro lado do jardim ― pouco visível através da neve e das duas janelas ― uma monja decrépita, com uma compreensão mais precisa do calendário que as suas irmãs, começou a murmurar um insolente velho hino pagão a Lurline.

Uma das idosas se aproximou à trêmula figura da recém-chegada, avan­çando aos poucos numa cadeira de rodas. Ela se encostou e farejou. Do manto de um cobertor xadrez, azul e marfim, ela pôs desajeitadamente suas velhas mãos sobre os descansos. Daí, alcançou e tocou a mão de Elphaba.



“Bem, a pobre bonequinha está doente, a pobre bonequinha está cansa­da”, disse a coisa vetusta. Suas mãos tatearam, como as da noviça, à procura de feridas nos pulsos. Nada. “Embora esteja intacta, a pobre bonequinha está sofrendo”, ela disse, como se aprovasse. Uma cúpula de couro cabeludo recém-raspado apontou debaixo do capuz do cobertor. “A pobre bonequinha está fraca, a pobre bonequinha está vacilando”, ela continuou. Ela chacoalhou um pouco e pressionou as mãos de Elphaba entre as suas, como que para aquecê-las, mas era duvidoso que seu anêmico e incompetente velho sistema circulatório pudesse aquecer um estranho quando mal podia aquecer a si mesmo. Mesmo assim, ela prosseguiu. “A pobre marionete é a desgraça em pessoa”, ela murmurou. “Felizes festas para todos. Venha, minha querida, encoste-se no peito da velha Mãe. A Velha Monja-Mãe vai dar um jeito nas coisas.” Ela nem podia puxar Elphaba de sua posição de sofrimento insone e sem sonhos. Ela conseguia apenas manter as mãos de Elphaba fortemente agarradas às suas, como uma sépala se encaixa nas dobras de uma pétala tenra. “Venha, minha preciosa, e tudo ficará bem. Descanse no peito da louca Mãe Yackle. Mãe Yackle tomará conta de você.”





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