Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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Boq prendeu a respiração.

“Mas você é baixo!”, ela concluiu. “Você é um munchkinês, pelo amor de Deus!”

Ele a beijou, beijou, beijou, beijou pedacinho a pedacinho.

No dia seguinte Elphaba, Galinda, Boq e Grommetik ― e, natural-mente, Ama Clutch ― fizeram a viagem de seis horas de volta a Shiz com pouco mais que uma dúzia de palavras trocadas entre eles. Avaric ficou para trás desfrutando Pfanee e Shenshen. A chuva amaldiçoada cobria os arredores de Shiz, e as augustas fachadas de Crage Hall e Briscoe Hall estavam quase invisíveis de tão cobertas pela névoa quando eles chegaram, finalmente, em casa.

6
Boq não teve tempo ou vontade de fazer comentários sobre seu romance quando viu Crope e Tibbett. O bibliotecário rinoceronte, que até aí prestara escassa atenção nos rapazes ou em seu rendimento no verão, subitamente dera-se conta de quão pouco fora obtido, e era só reumáticas bufadas e olhos vigilantes. Os rapazes conversavam pouco, escovavam e limpavam os pergaminhos, e esfregavam óleo de frango d’água nas encadernações de couro e poliam os fechos de metal. Faltavam poucos dias para que esse tédio acabasse.

Numa tarde, Boq deixou seu olhar se deter num códice que estava manuseando. Geralmente, ele trabalhava sem atentar para o assunto dos materiais com que estava lidando, mas seu olho foi atraído pelo traço em vermelho vivo aplicado na ilustração. Era um quadro ― de talvez quatrocentos, quinhentos anos? ― de uma Bruxa de Kumbric. Alguma preocupação ou ansiedade visionária quanto à magia havia inspirado o pincel de um monge. A Bruxa ficava num istmo que ligava duas terras rochosas, e se estendia sobre os dois lados de mar azul-cerúleo, com lábios branqueados por ondas de um vigor e uma particularidade surpreendentes. Segurava em suas mãos um animal de espécie irreconhecível, embora ele estivesse claramente afundado, ou quase afundado. Ela o embalava num braço que, sem considerar a real flexibilidade do esqueleto, circundava afetuosamente as costas úmidas e cheias de ferrões peludos do animal. Com sua outra mão, tirava um seio de seu manto, oferecendo de mamar à criatura. Sua expressão era difícil de decifrar, ou teria a mão do monge manchado, ou o peso do passar dos anos e da sujeira teriam dado a ela um esfumo de simpatia? Ela era quase maternal, como se acalentasse uma criança desamparada. Seu olhar era interiorizado, ou melancólico, ou algo mais. Mas, seus pés não combinavam com sua expressão, pois estavam plantados na praia estreita com garras bem fechadas, que apontavam nos sapatos cor de prata, cujo brilho de moedas-do-reino tinha atraído o olhar de Boq a princípio. Ademais, os pés estavam virados em ângulos de noventa graus para as canelas. Eles mostravam em perfil, como imagens de espelho, calcanhares unidos e dedos apontando em direções opostas, feito uma postura de balé. O traje era de um azul esmaecido de aurora. Ele adivinhou, pelos tons esmaltados do trabalho, que o documento não era aberto havia séculos.

Dramaticamente, ou teologicamente, essa imagem parecia alguma espécie de híbrido dos mitos da criação dos Animais. Ali estavam as águas do dilúvio, derivassem elas das lendas de Lurline ou das do Deus Inominável, estivessem elas emergindo ou afundando. A Bruxa de Kumbric estaria interferindo ou executando o destino traçado dos animais? Embora num texto muito rabiscado e arcaico para que Boq pudesse decifrá-lo, talvez esse documento oferecesse fundamento à fábula de um feitiço da Bruxa de Kumbric que dera aos Animais os dons da fala, da memória e do remorso. Talvez ele simplesmente a refutasse, mas com brilho. Por qualquer ângulo que fosse olhado, havia nele o sincretismo do mito, o apetite feliz por ampliar a abrangência da narrativa que este possui. Talvez essa pintura fosse a sugestão de algum monge assustado de que os Animais houvessem recebido as suas forças ainda por uma outra espécie de batismo, amamentados pela teta da Bruxa de Kumbric? Induzidos pelo leite da Bruxa?

Esse tipo de análise não era o seu ponto forte. Ele tivera tempos difíceis o bastante analisando os nutrientes e as pragas comuns da cevada. Ele faria o impensável e entregaria esse verdadeiro pergaminho ao Doutor Dillamond. Seria valioso saber o que ele significava.

Ou talvez, pensou enquanto caminhava rapidamente à procura de Elphaba, com a coisa escondida com segurança no fundo do bolso de sua capa e bem distante da biblioteca do Três Rainhas, talvez a Bruxa não estivesse alimentando o animal encharcado, mas matando-o? E se estivesse sacrificando-o para deter o dilúvio?

A arte estava muito, muito além de seu entendimento.

Ele tinha recorrido a Ama Clutch no bazar e pedido a ela que entregasse um bilhete a Elphaba. A boa mulher lhe parecera mais simpática que de costume; estaria Galinda tecendo louvores a ele na privacidade de seu quarto?

Era a primeira vez que ele via o engraçado feijão verde saltador desde que retornara a Shiz. E lá estava ela, pontual, chegando ao café tal como fora combinado, num vestido cinza que mais lembrava o de um fantasma, com um pulôver tricotado que estava puído nas mangas e um guarda-chuva masculino, grande e negro e semelhante a uma lança quando fechado. Elphaba sentou-se com uma pose travessa desgraciosa e examinou o pergaminho. Ela o olhou com mais atenção que aquela que daria depois a Boq. Mas ela escutou a sua exegese, e achou-a frágil. “O que impede essa mulher do quadro de ser a Fada Rainha Lurline?”, ela perguntou.

“Bem, não há aparatos de glamour. Quero dizer, o nimbo dourado do cabelo. A elegância. As asas transparentes. A varinha de condão.”

“Esses sapatos cor de prata são bem berrantes.” Ela mastigou um bis-coito seco.

“Não me parece um retrato de determinação ou ― o que quero dizer ― gênese. Parece reativo ao invés de ativo. Essa figura está no mínimo confusa, não acha?”

“Você tem ficado demais na companhia de Crope e Tibbett, volte para a sua cevada”, ela disse, acertando o alvo. “Você está ficando vago e artístico. Mas eu darei isso ao Doutor Dillamond. Eu lhe juro, ele continua fazendo progressos. O negócio de lentes opostas abriu todo um novo mundo de arquitetura corpuscular. Ele me deixou olhar uma vez, mas eu não entendi nada muito além de ênfase e viés, cor e pulso. Está muito animado. O problema que encontro agora é fazê-lo parar ― ele está no limiar de fundar um ramo inteiramente novo do conhecimento, e as descobertas diárias provocam centenas de novas questões. Clínicas, teóricas, hipotéticas, empíricas, até ontológicas, suponho. Ele fica acordado até tarde nos laboratórios. Podemos ver suas luzes acesas quando ele puxa as cortinas à noite.”

“Bem, ele precisa de mais alguma coisa de nós? Tenho apenas mais dois dias de biblioteca, e então as aulas começam.”

“Eu não consigo chamá-lo à realidade. Eu acho que ele está apenas juntando aquilo que já possui.”

“E quanto a Galinda, então”, ele disse, “se a questão da espionagem para nós está encerrada por enquanto? Como ela está? Ela pergunta de mim?”

Elphaba permitiu-se olhar para Boq. “Não. Galinda não disse realmente nada sobre você. Para lhe dar esperanças que você não merece, devo acrescentar que ela mal fala qualquer coisa comigo, também. Ela vive num aborrecimento sombrio.”

“Quando a verei de novo?”

“Isso significa tanto assim para você?” Ela sorriu palidamente. “Boq, ela significa tanto assim para você?”

“Ela é o meu mundo”, ele respondeu.

“Seu mundo é muito pequeno se ficar resumido a ela.”

“Você não pode criticar o tamanho de um mundo. Não posso evitar e não posso deter e não posso negar o que sinto.”

“Devo dizer que você me parece bobo”, ela disse, secando as últimas gotas de chá morno de sua xícara. “Devo dizer que você ainda olhará para esse verão em retrospecto e se envergonhará. Ela pode ser adorável, Boq ― não, ela é adorável, concordo ―, mas você merece uma garota doze vezes melhor.” Ante a expressão chocada de Boq, ela ergueu as suas mãos. “Não é comigo! Eu não quero dizer eu! Por favor, esse olhar chocado não! Me poupe!”

Mas ele não tinha certeza se acreditava nela. Elphaba apanhou suas coisas e foi-se embora depressa, topando na escarradeira com estardalhaço, brandindo o seu grande guarda-chuva bem em cima do jornal de alguém. Ela não olhava para os lados enquanto avançava pela Praça da Ferrovia e foi quase ceifada por um velho Boi que guiava um incômodo triciclo.


7
Ao rever Elphaba e Galinda, tempos depois, todas as idéias românticas de Boq desapareceram. Aconteceu no pequeno parque triangular à saída de Crage Hall. Ela passava por ali casualmente, outra vez, e nessa ocasião com Avaric a reboque. Os portões haviam sido abertos e Ama Vimp se precipitara para fora, cara branca e nariz escorrendo, e uma leva de garotas se esparramou a seguir. Entre elas estavam Elphaba e Galinda e Shenshen e Pfannee e Milla. Livres de seus muros, as garotas se ajuntavam em círculos de bate-papo, ou ficavam sob as árvores, agitadas, ou beijavam-se umas às outras, e choravam e enxugavam-se mutuamente os olhos.

Boq e Avaric correram em direção às suas amigas. Elphaba tinha os ombros altos, como a canga ossuda de um gato, e seu rosto era o único que continuava seco. Ela ficava a boa distância de Galinda e as outras. Boq ansiava por tomar Galinda em seus braços, mas ela não olhou para ele mais que uma vez antes de mergulhar seu rosto na gola de peles de Milla.

“O que é? O que aconteceu?”, disse Avaric. “Senhorita Shenshen, Senhorita Pfannee?”

“É horrível demais”, elas gritaram, e Galinda balançou a cabeça, e encostou seu nariz confusamente junto à linha do ombro da blusa de Milla. “Os policiais estão lá, e um médico, mas parece que...”

“O quê?”, disse Boq, e virou-se para o lado de Elphaba. “Elfinha, que é isso, quê?”

“Eles descobriram”, ela disse. Seus olhos estavam esgazeados como os da velha porcelana de Shiz. “De algum modo, os bastardos descobriram.”

O portão se abriu novamente, com um rangido, e pétalas de flores de trepadeiras de início de outono, azuis e roxas, desceram dançando sobre o muro do colégio. Elas pendiam, e dançavam como borboletas, e caíam lentamente, enquanto três policiais vestindo capas e um médico trajando negro surgiam, carregando uma padiola. Um cobertor branco envolvia o paciente, mas o vento que sacudia as pétalas virou uma ponta do cobertor e puxou-a, fazendo uma dobra triangular. As garotas todas soltaram um berro e Ama Vimp correu para prender o cobertor, mas, à luz do sol, todos tinham notado e visto os ombros torcidos e a cabeça lançada para trás do Doutor Dillamond. Sua garganta estava ainda envolta em cordões endurecidos pelo sangue negro, nos lugares onde fora retalhada tão cuidadosamente como se ele tivesse passado por um matadouro.

Boq sentou-se, desgostoso e assustado, desejando não haver visto a morte, como se esta fosse uma horrível ferida desfrutável. Mas os policiais e o médico não tinham pressa, não havia razão para apressarem-se agora. Boq encostou-se ao muro, e Avaric, que nunca vira o Bode, apertou as mãos de Boq fortemente com uma mão, cobrindo seu rosto com a outra.

Dentro em pouco, Galinda e Elphaba afundaram-se ao lado dele, e houve choro, algum choro prolongado, antes que as palavras pudessem sair. Por fim, Galinda contou a história.

“Fomos para a cama na noite passada ― e Ama Clutch se levantou para fechar as cortinas. Como sempre faz. E ela olha para lá embaixo e diz sempre lá para si mesma: ‘Bem, as luzes estão acesas, o Doutor Bode está lá outra vez’. Então, ela observa um pouco mais, por todo o pátio, e diz: ‘Bem, não é engraçado?’, e eu não presto atenção, fico só olhando, mas Elphaba diz: ‘Que é que é engraçado, Ama Clutch?’. E Ama Clutch puxa a cortina com muita força e diz numa voz cômica: ‘Oh, nada, minhas patinhas. Só vou descer um pouco para examinar e ter certeza de que tudo anda bem. Enquanto vocês ficam aí na cama.’ Ela diz boa-noite e sai, e não sei se ela vai para lá ou o quê, mas nós duas caímos no sono e de manhã ela não está lá para servir o chá. Ela sempre serve o chá! Sempre!”

Galinda se derramou em lágrimas, afundando-se e erguendo-se dos joelhos e tentando rasgar seu traje de seda negra com as dragonas e os bilros brancos. Elphaba, de olho tão seco quanto uma pedra do deserto, continuou.

“Esperamos até depois do café-da-manhã, mas daí fomos procurar a Madame Morrible”, disse Elphaba, “e lhe dissemos que não sabíamos onde Ama Clutch estava. E Madame Morrible disse que Ama Clutch havia tido uma recaída durante a noite e se recuperava na enfermaria. Ela não ia deixar a gente entrar, em princípio, mas daí, quando o Doutor Dillamond não apareceu para nossa primeira aula do semestre, vagamos por ali e simples-mente demos um jeito de entrar. Ama Clutch estava num leito hospitalar. Seu rosto parecia cômico, como a última panqueca da fornada, do jeito que fica quando dá pra desandar. Perguntamos: ‘Ama Clutch, Ama Clutch, o que aconteceu com você?’. Ela não respondeu nada, embora seus olhos estivessem abertos. Ela não parecia ouvir-nos. Pensamos que ela estivesse dormindo ou sofrerá um choque, mas sua respiração era normal e sua cor era boa, embora seu rosto parecesse esquisito. Daí, quando estávamos já saindo, ela se virou e olhou para o lado da cama.

“Perto de uma garrafa de remédio e um copo de limonada havia um comprido prego enferrujado numa bandeja de prata. Ela estendeu uma mão trêmula até o prego e pegou-o e segurou-o na palma da mão, terna-mente, e conversou com ele. Ela disse alguma coisa como: ‘Oh, bem, então, eu sei que você não tinha a intenção de perfurar meu pé ano passado. Você apenas tentava atrair a minha atenção. É isso o que o mau comportamento geralmente é, só um punhadinho de amor extra que a gente reclama. Bem, não se preocupe, Prego, porque vou amá-lo na quantidade que você precisa. E, depois que eu tirar uma sonequinha, você poderá me contar como aconteceu de estar virado para cima lá na plataforma da estação ferroviária em Frottica, porque parece um grande avanço sobre os primeiros anos como um simples gancho de aviso de FECHADO PARA A TEMPO-RADA naquele hotel encardido de que você me falou’.”



Mas Boq não ouvia esse blábláblá. Ele não ia entrar na história de um Prego vivo enquanto um Bode morto estava sendo carpido por histéricos membros da faculdade. Boq não conseguiu ouvir os sons das orações pelo repouso da alma do Animal. Ele não conseguiu ver a partida do cadáver, quando o levaram embora em silêncio. Pois ficara claro, com um vislumbre do rosto impassível do Bode, que aquilo que dava ao doutor uma aparência animada, fosse o que fosse, já havia desaparecido.



O CÍRCULO INFLUENTE

1

Não havia dúvida na cabeça de ninguém que vira o cadáver que a palavra, a palavra apropriada para aquilo era assassinato, O modo com que o pêlo acima do pescoço tinha se arqueado, aglutinando-se como o pincel de pintura que um pedreiro não tivesse limpado; o cru e âmbar oco dos olhos. A história oficial era que o doutor havia quebrado uma lente de aumento e tropeçado nela, cortando uma artéria ao fazê-lo ― mas ninguém acreditava nisso.

A única pessoa em que poderiam pensar para saber alguma coisa, Ama Clutch, só fazia sorrir quando iam visitá-la, com punhados de belas folhas amareladas ou um prato das mais frescas uvas de Pertha. Ela devorava as uvas e punha-se a conversar com as folhas. Era uma enfermidade que ninguém nunca havia conhecido.

Glinda ― pois, como uma espécie de desculpa atrasada por sua aspereza inicial com o martirizado Bode, ela agora se referia a si mesma do modo com que ele uma vez a chamara ― Glinda parecia haver emudecido diante da realidade de Ama Clutch. Ela não a visitava, nem discutia a pobre condição da mulher, e, assim, era Elphaba que ia sorrateiramente vê-la uma ou duas vezes ao dia. Boq supunha que Ama Clutch padecia de uma moléstia passageira. Mas, três semanas depois, Madame Morrible começou a ficar preocupada com o fato de Elphaba e Glinda ― ainda colegas de quarto ― não terem acompanhante. Ela sugeriu o dormitório coletivo para ambas. Glinda, que não queria ver mais Madame Morrible em particular, balançou a cabeça e aceitou o rebaixamento. Foi Elphaba quem apareceu com uma solução, mais para salvar algum fiapo de dignidade de Galinda.

Foi assim que, dez dias depois, Boq descobriu-se, no pátio do Galo e Abóboras, a esperar o coche do meio de semana que chegaria da Cidade Esmeralda. Madame Morrible não permitira que Elphaba e Galinda fossem com ele ― portanto, tinha que descobrir por si mesmo quais dos sete passageiros que apeariam eram a Babá e Nessarose. As deformidades da irmã de Elphaba eram bem disfarçadas, Elphaba lhe dissera; Nessarose podia até descer de uma carruagem com graça, desde que o degrau fosse seguro e o chão liso.

Ele encontrou-as e disse alô. A Babá parecia mais compota de ameixa que mulher; vermelha e flácida, sua velha pele parecia pronta a se rachar nas dobras dos cantos da boca, nos rebites carnosos à beira dos olhos. Mais que uma vintena de anos nas terras ruins de Quadling a tornaram letárgica, descuidada e saturada de ressentimento. Na sua idade, ela já devia ter sido recolhida a algum cálido borralho. “É bom ver um pequeno munchkinês”, ela murmurou a Boq. “É como nos velhos tempos.” Então, ela se virou e disse para as sombras: “Venha, minha boneca”.

Se não tivesse sido avisado, Boq não tomaria Nessarose por irmã de Elphaba. Ela não era verde de maneira alguma, ou mesmo de um branco azulado como alguma boa pessoa atacada de má circulação. Nessarose desceu da carruagem elegantemente, cautelosamente, estranhamente, ajustando seu calcanhar e seus dedos no degrau de ferro. Caminhando daquele modo esquisito, ela chamava a atenção para seus pés, o que afastava os olhares do torso, ao menos a princípio.

Os pés aterrissaram no solo, ali postos com uma intenção furiosa de obter equilíbrio, e Nessarose se ergueu à sua frente. Ela era tal como Elphaba dissera: magnífica, rosada, esguia como um ramo de trigo, e sem braços. O xale acadêmico sobre seus ombros estava habilidosamente dobrado para amenizar o choque.

“Alô, bom senhor”, ela disse, balançando a cabeça ligeiramente. “As valises estão lá em cima. Pode tirá-las para nós?” Sua voz era tão suave e untuosa quanto a de Elphaba cheia de arestas. A Babá empurrou Nessarose delicadamente em direção ao coche que Boq conseguira. Ele via agora que Nessarose não se movimentava bem sem ser amparada por uma mão firme.

“Então, agora a Babá aqui tem de cuidar das garotas em sua vida escolar”, disse a Babá para Boq enquanto avançavam. “Que remédio, com a santa mãe delas em seu túmulo encharcado nesses anos todos, e o pai com o juízo perdido. Bem, a família sempre foi brilhante, e o brilho, como você sabe, decai brilhantemente. A loucura é o modo mais brilhante de se decair. O mais idoso, o Eminente Thropp, está vivo ainda, e sensível como uma velha lâmina de charrua. Sobreviveu à sua filha e à sua neta. Elphaba é a Terceira Descendente do Thropp. Ela será a Eminência um dia. Como um munchkinês, você sabe dessas coisas.”

“Bá, não faça fuxico, isso me magoa”, disse Nessarose.

“Oh, minha lindinha, não fique choramingando. Este Boq é um velho amigo, ou tão bom quanto um”, disse a Babá. “Lá pelos pântanos do inferno de Quadling, meu amigo, perdemos a arte da conversação. Nós coaxamos em coro com o que restou do povo-rã.”

“Vou ter uma dor de cabeça de tão envergonhada”, disse Nessarose, charmosamente.

“Mas eu conheci a Elfinha quando ela era pequenininha”, disse Boq. “Eu sou de Margens Agitadas de Pedras do Caminho. Devo ter conhecido você também.”

“No começo, eu preferia residir em Selos de Colwen”, disse a Babá. “Eu era um auxílio fundamental para a Senhora Partra, a Segunda Descendente do Thropp. Mas, de vez em quando, visitava Margens Agitadas. Assim, devo tê-lo conhecido quando você era ainda menino de andar sem calças.”

“Como vai?”, disse Nessarose.

“O nome é Boq”, disse ele.

“Esta é Nessarose”, disse a Babá, como se fosse muito doloroso para a jovem apresentar-se por si mesma. “Ela estava por vir para Shiz no próximo ano, mas soubemos que há um problema com uma orientadora gilli-kinesa que tombou em serviço. Então, a Babá aqui é chamada para resolver, e pode ela deixar sua queridinha vir sozinha? Você vê o motivo.”

“Um triste mistério, que esperamos esclarecer”, disse Boq.

Em Crage Hall, Boq testemunhou o reencontro das irmãs, que foi caloroso e gratificante. Madame Morrible pôs seu autômato Grommetik em ação para servir chá e biscoitos para as descendentes do Thropp, e para a Babá, Boq e Glinda. Boq, que havia começado a se preocupar com a fuga de Glinda para o silêncio, ficou aliviado ao vê-la lançar um agudo e experiente olhar sobre o elegante vestido de Nessarose. Como podia ser, ele supunha que Glinda pensasse, que duas irmãs fossem deformadas e se vestissem de maneiras tão diferentes? Elphaba usava a mais humilde de suas roupas escuras; hoje, vestia um roxo profundo que era quase negro. Nessarose, equilibrada num sofá perto da Babá, que a ajudava erguendo xícaras de chá e quebrando pedaços amanteigados de rosquinhas, vestia sedas verdes, da cor do musgo, da esmeralda, e rosas verdes e amarelas. A verde Elphaba, sentada ao seu lado e servindo-lhe de apoio quando ela jogava sua cabeça para trás para engolir seu chá, parecia um acessório de moda.

“A solução toda é altamente fora do comum”, Madame Morrible dizia, “mas, ai, nós não temos quartos em número ilimitado para resolver cada caso em particular.

Deixaremos a Senhorita Elphaba e a Senhorita Galinda ― é Glinda agora, não, querida? Que original ― deixaremos essas duas velhas companheiras tal como estão, e vamos colocá-la, Senhorita Nessarose, com sua Babá, no quarto ao lado, aquele que a pobre Ama Clutch ocupava. É pequeno, mas vocês devem considerá-lo aconchegante.”

“Mas, e quando Ama Clutch se recuperar?”, disse Glinda.

“Oh, mas, minha querida”, disse Madame Morrible, “que confiança os jovens possuem! Comovente, mesmo.” Ela prosseguiu, numa voz mais afiada. “Você já tinha me falado das recorrências de prazo indefinido desse tipo raro de condição patológica. Eu posso apenas supor que a coisa degenerou numa espécie de recaída permanente.” Ela mastigava um biscoito a seu modo lento, como um peixe, suas bochechas se abrindo e fechando como as abas de couro de um fole. “Claro, podemos todos ter esperanças. Mas temo que não mais que isso.”

“E podemos rezar”, Nessarose disse.

“Oh, bem, sim, isso”, disse a Diretora. “Isso não precisa ser mencionado entre gente bem nascida, Senhorita Nessarose.”

Boq notou que Nessarose e Elphaba coraram. Glinda pediu licença e se retirou. A habitual agonia de pânico que Boq sentia quando ela partia foi amenizada por saber que a veria novamente nas aulas de ciências da vida na semana seguinte, pois, com as novas proibições quanto a contratação de Animais, os colégios tinham decidido dar palestras para todos os estudantes de todos os estabelecimentos de uma vez só. Boq veria Glinda na primeira palestra co-educacional a ser ministrada em Shiz. Ele mal podia esperar.

Apesar disso, ela havia mudado. Ela certamente havia mudado.


2
Glinda estava mudada. Ela própria o sabia. Ela chegara em Shiz como uma coisa fútil, bobinha e agora se descobria num antro de víboras. Talvez fosse por falha sua. Ela inventara uma doença inexistente para Ama Clutch, e Ama Clutch fora acometida realmente por ela. Seria isso prova de uma habilidade inerente para a feitiçaria? Glinda optara por se especializar em feitiçaria nesse ano, e aceitara como punição que Madame Morrible não houvesse mudado a sua companheira de quarto, como prometera. Glinda não se importava mais. Ao lado da morte do Doutor Dillamond, os vários outros assuntos pareciam insignificantes.

Mas ela também não confiava em Madame Morrible. Glinda não contara a ninguém, além da diretora, aquela estúpida e extravagante mentira. Assim, ela não admitiria mais que Madame Morrible detivesse uma posição de mando em sua vida. E Glinda ainda não tinha coragem de contar seu crime não-intencional a ninguém. Enquanto ela padecia, Boq, a irritante mosquinha, ficava zanzando ao redor dela em busca de atenção. Ela lamentava ter deixado que ele a beijasse. Que erro! Bem, tudo isso havia ficado lá para trás, agora, eram apenas tremores que haviam precedido o desastre social. Ela agora via as Senhoritas Pfannee etc. como realmente eram ― superficiais, egoístas, vaidosas ― e não teria mais relações com elas.

Assim, Elphaba, que não era mais um risco social, tinha todo o potencial para tornar-se uma amiga verdadeira. Se ficar sobrecarregada com essa boneca quebrada, que era a sua irmã mais nova, não atrapalharia demais. Fora apenas com ferroadas que Glinda conseguira arrancar de Elphaba informações sobre a sua irmã, a fim de que pudesse ficar preparada para a sua chegada e a ampliação de seu círculo social.

“Ela nasceu em Solos de Colwen, quando eu tinha perto de três anos”, Elphaba lhe contara. “Minha família havia retornado a Solos de Colwen para uma breve estada. Era numa daquelas épocas de seca intensa. Papai nos disse, tempos mais tarde, depois que mamãe morrera, que o nascimento de Nessarose coincidira com um breve reaparecimento de água potável nos arredores. Fez-se danças pagãs e houve um sacrifício humano.”

Glinda fixara os olhos em Elphaba, que parecia a um só tempo precipitada e sem vontade de falar.

“Um amigo deles, um soprador de vidro de Quadling. A multidão, in-citada por alguns agitadores do populacho adeptos da fé no prazer e num relógio profético, caiu sobre ele e o matou. Um homem chamado Coração de Tartaruga.” Elphaba pressionara a palma de suas mãos sobre os coturnos de seus sapatos de segunda mão de um preto retinto, mantendo os olhos experientes no chão. “Eu acho que foi por isso que os meus pais se tornaram missionários para o povo do Estado de Quadling, não retornando nunca mais a Solos de Colwen ou à Terra de Munchkin.”

“Mas a sua mãe morreu quando a criança nasceu?”, disse Glinda. “Como ela pôde ter sido uma missionária?”

“Ela sobreviveu por cinco anos ainda”, disse Elphaba, olhando para as dobras de seu vestido, como se a história fosse um embaraço. “Ela morreu quando nosso irmão mais novo nasceu. Meu pai o batizou de Shell, por causa de Coração de Tartaruga, eu acho. Assim, Shell e Nessarose e eu vivemos como crianças ciganas, mudando de povoado a povoado de Quadling com a Babá e nosso pai, Frex. Ele pregava, e a Babá nos ensinava e criava e mantinha a casa tal como sempre fora, o que não dava muito trabalho. Enquanto isso, os homens do Mágico começaram a drenar as terras ruins para chegar aos depósitos de rubis. Isso nunca funcionou, é claro. Eles deram para perseguir os quadlings e matá-los, fechando-os em campos de concentração para se protegerem e matá-los de inanição. Eles devastaram as terras ruins, pilharam os rubis e partiram. Meu pai ficou meio louco com eles. Nunca houve por lá rubis o bastante para justificar o esforço; ainda não temos nenhum sistema de canais para transportar aquela lendária água do Vinkus pela região toda até a Terra de Munchkin. Depois da seca, depois de alguns adiamentos promissores, a coisa continua sem solução. Os Animais são chamados de volta para as terras de seus ancestrais, uma estratégia para dar aos fazendeiros algum senso de controle sobre alguma coisa. É uma sistemática marginalização de populações inteiras, Glinda, e é isso o que significa o reinado do Mágico.”

“Nós estamos falando sobre a sua infância”, disse Glinda.

“Bem, é isso, e tudo isso é parte dela. Você não pode separar sua vida particular da política”, Elphaba disse. “Você quer saber o que nós comíamos? Como brincávamos?”

“Eu quero saber como é Nessarose, como é Shell”, disse Glinda.

“Nessarose é uma semi-inválida cheia de força de vontade”, disse Elphaba. “Ela é muito inteligente, e pensa que é santa. Ela herdou o gosto de meu pai por religião. Ela é boa para tomar conta de outras pessoas porque nunca aprendeu a tomar conta de si mesma. Bem, ela nem pode fazê-lo. Meu pai me incumbiu de cuidar dela na maior parte de minha infância. O que ela fará quando a Babá morrer, não sei. Suponho que terei de tomar conta dela novamente.”

“Oh, que perspectiva de vida medonha”, disse Glinda, antes que pudesse se controlar.

Mas Elphaba apenas balançou a cabeça, soturna. “Não posso seguir com esta conversa”, ela disse.

“Quanto a Shell”, continuou Glinda, imaginando em que ferida recente ela podia ter pisado.

“Macho e branco e o resto”, ela disse. “Ele tem agora perto de uns dez anos, eu imagino. Ele ficará em casa e tomará conta de nosso pai. Ele é um menino, do jeito que os meninos são. Um pouco besta, talvez, mas ele não teve as vantagens que tivemos.”

“Quais foram?”, perguntou Glinda de imediato.

“Mesmo que por breve tempo”, disse Elphaba, “nós tivemos uma mãe. Uma mulher frívola, bêbada, imaginativa, incerta, desesperada, corajosa, teimosa, protetora. Nós a tivemos. Melena. Shell não teve mãe alguma exceto a Babá, que fez o melhor que pôde.”

“E quem era o favorito de sua mãe?”, disse Glinda.

“Não posso te dizer isso”, disse Elphaba casualmente, “não sei. Teria sido Shell, provavelmente, visto ele ser menino. Mas ela morreu sem conhecê-lo, e, assim, não teve nem esse pequeno consolo.”

“E o favorito de seu pai?”

“Oh, aí é fácil”, disse Elphaba, erguendo-se e procurando seus livros na pasta, e se preparando para bater em retirada, interrompendo a conversa por aí mesmo. “É Nessarose. Você entenderá isso quando conhecê-la. Ela seria a favorita de qualquer um.” Ela caiu fora do quarto com não mais que um breve aceno dos dedos verdes, em sinal de despedida.

Glinda não estava tão certa de que a irmã de Elphaba seria uma favorita para ela. Nessarose parecia tão carente. A Babá era exageradamente solícita, e Elphaba continuava a sugerir ajustamentos em seus arranjos domésticos para aperfeiçoar as coisas. Colocar as cortinas neste ângulo em vez daquele, manter o sol longe da bela pele de Nessarose. Podemos ficar com a lâmpada de óleo a uma altura em que Nessarose possa ler? Shh, nada de conversinhas tarde da noite; Nessarose já se recolheu e ela tem um sono tão leve.

Glinda estava um pouco espantada com a beleza bizarra de Nessarose. A irmã de Elphaba se vestia bem (se não extravagantemente). Ela desviava a atenção sobre si mesma, contudo, por um sistema de pequenos tiques sociais ― a cabeça abaixada num repentino ataque de devoção, os olhos piscando. Era especialmente comovente ― e irritante ― ter de enxugar um fio de lágrimas provocado por alguma epifania na rica vida espiritual do interior de Nessarose, da qual os espectadores não podiam ter uma vaga idéia. O que alguém poderia dizer?

Glinda começou a se desinteressar por seus estudos. A feitiçaria vinha sendo ensinada por uma nova instrutora desajeitada chamada Senhorita Greyling. Ela tinha uma arrebatada veneração pela matéria, mas, como logo ficou visível, pouca habilidade natural. “Em seu sentido mais elementar, um feitiço nada mais é que uma receita de mudança”, ela entoava afetadamente para os alunos. Mas, quando o frango que ela tentou transformar num pedaço de torrada se transformou numa mistura de grãos de café co-locada numa folha de alface em forma de xícara, os estudantes anotaram lá para si que não deveriam nunca aceitar um convite para jantar na casa dela.

No fundo da sala, esgueirando-se com pretensa invisibilidade para que pudesse melhor observar, Madame Morrible balançava a cabeça e ria. Uma ou duas vezes não pôde se abster de interferir. “Longe de mim dar palpites na sala de visitas da feiticeira”, clamava, “ainda assim, Senhorita Greyling, não terá omitido as etapas de ligação e persuasão? Estou apenas perguntando. Deixe-me experimentar. Você sabe que tenho um prazer especial em nosso treinamento de feitiçaria.” Inevitavelmente, a Senhorita Greyling se penitenciava do que restara de alguma demonstração anterior, ou deixava a sua crista baixar, desmoronando numa pilha de vergonha e mortificação. As garotas davam risadinhas, e não sentiam que estivessem aprendendo muita coisa.

Ou estavam? O bom da falta de jeito da Senhorita Greyling era que as autorizava a não sentirem medo de tentar por si mesmas. E ela não economizava entusiasmo se uma estudante conseguia realizar a tarefa do dia. A primeira vez em que Glinda conseguiu fazer desaparecer um carretel de linha com um feitiço de invisibilidade, mesmo por segundinhos, a Senhorita Greyling bateu palmas e pulou para cima e para baixo e quebrou uma ponta traseira do sapato. Era gratificante, e estimulante.

“Não que eu faça objeção”, disse Elphaba um dia, quando ela e Glinda (e, inevitavelmente, a Babá) estavam sentadas debaixo de uma árvore de fruta-pérola perto do Canal do Suicídio. “Mas eu tenho de perguntar. Como será que a universidade continua a ensinar feitiçaria se seu decreto original era tão estritamente unionista?”

“Bem, não há nada inerentemente religioso ou não-religioso no caso da feitiçaria”, disse Glinda. “Haverá? Também não há nada nela que lembre a fé no prazer.”

“Feitiços, transformações, aparições? É tudo entretenimento”, disse Elphaba. “É teatro.”

“Bem, pode parecer teatro, e nas mãos da Senhorita Greyling se parece mais é com mau teatro”, admitiu Glinda. “Mas o âmago da coisa não está relacionado ao uso. É mais uma habilidade prática, como ― como ler e escrever. Não é bem que você possa, é mais o que você lê ou escreve. Ou, se você me perdoar o jogo de palavras, o feitiço que você lança.”

“Papai desaprovava vigorosamente”, Nessarose disse, nos tons adocicados da fé inquebrantável. “Papai sempre dizia que a magia é a prestidigitação do diabo. Ele dizia que a fé no prazer não era mais um exercício para afastar as massas do verdadeiro objeto de sua devoção.”

“Essa é uma conversa unionista”, disse Glinda, sem se mostrar ofendida. “Uma opinião sensata, se aquilo a que você se opõe são os charlatões e os mágicos de rua. Mas, a feitiçaria não tem de ser isso, necessariamente. Que dizer das bruxas comuns que vivem em Glikkus? Dizem que elas enfeitiçam as vacas que importaram de Munchkin para que não cheguem mugindo à beira de algum precipício. Quem poderia dar-se ao luxo de co-locar uma cerca em cada uma das beiras de abismo que existem? A magia é então uma habilidade local, uma contribuição para o bem-estar da comunidade. Não tem de suplantar a religião.”

“Pode não ter de”, disse Nessarose, “mas se tende a suplantar, então não temos o dever de desconfiar?”

“Oh, desconfiar, tudo bem, também fico precavida até com a água que bebo, pode estar envenenada”, disse Glinda. “Isso não significa que eu vá parar de tomar água.”

“Bem, eu não acho que isso seja uma questão tão importante”, disse Elphaba. “Eu acho que a feitiçaria é trivial. É relacionada no mais das vezes só consigo mesma, não vai além.”

Glinda se concentrou com empenho e tentou fazer com que o sanduíche que estava no lado esquerdo de Elphaba se elevasse sobre o canal. Ela conseguiu apenas explodir a coisa numa pequena combustão de maionese e cenoura esfrangalhada e azeitonas picadas. Nessarose perdeu o equilíbrio de tanto rir, e a Babá teve de ancorá-la novamente. Elphaba ficou coberta com pedaços de comida, que tirava de sobre si e ia comendo, para o nojo e a diversão de todos. “Tudo isso são apenas efeitos, Glinda”, ela disse. “Não há nada de ontologicamente interessante na magia. Não que eu acredite em unionismo tampouco”, ela clamou. “Eu sou uma ateísta e uma espiritualista.”

“Você diz isso só para chocar e escandalizar”, disse Nessarose, empertigada. “Glinda, não ouça nada do que ela fala. Ela sempre faz isso, geralmente para deixar papai fulo de raiva.”

“Papai não está aqui”, Elphaba lembrou à sua irmã.

“Eu assumo o lugar dele e fico ofendida”, disse Nessarose. “Muito bom franzir o nariz para o unionismo quando o Deus Inominável nos deu um nariz. É bem engraçado, não, Glinda? Infantil.” Ela parecia estar cuspindo fúria.

“Papai não está aqui”, disse Elphaba novamente, num tom que chegava a soar como um pedido de desculpas. “Você não precisa sair em defesa pública das obsessões que ele tinha.”

“O que você chama de obsessões dele são meus artigos de fé”, ela disse com uma fria clareza.

“Bem, você não é uma feiticeira ruim, para uma principiante”, disse Elphaba, virando-se em direção a Glinda. “Foi uma bela bagunça, a que você fez com meu almoço.”

“Obrigada”, disse Glinda. “Eu não tinha a intenção de manchar você. Mas eu estou melhorando, não estou? E melhorando em público.”

“Uma exibição chocante”, Nessarose disse. “Exatamente o que papai deplorava na feitiçaria. A atração está toda na superfície.”

“Eu concordo, ainda tem gosto de azeitona”, Elphaba disse, achando um resto de azeitona preta na manga da camisa e segurando-o na ponta do dedo para colocá-lo junto à boca da irmã. “Quer provar, Nessa?”

Mas Nessarose virou seu rosto e se afundou numa prece silenciosa.


3
Alguns dias depois, Boq se esforçou por atrair a atenção de Elphaba no encerramento de sua aula de ciências da vida, e eles se encontraram por fim no caramanchão do corredor principal. “O quê você acha desse novo Doutor Nikidik?”, ele perguntou.

“Eu acho que é difícil de escutar”, ela disse, “mas é porque eu ainda quero ouvir o Doutor Dillamond e não consigo acreditar que ele morreu.” Em seu rosto havia um ar de soturna submissão a uma dura realidade.

“Bem, essa é uma das coisas que me deixam curioso”, ele disse. “Você me falou sobre o avanço do Doutor Dillamond. Você sabe se seu laboratório já foi desocupado? Talvez haja lá alguma coisa digna de encontrar. Você tomava notas para ele, elas não poderiam ser a base de alguma proposta, ou de no mínimo algum futuro estudo?”

Ela olhou para ele com uma expressão rija, vigorosa. “Você acha que eu já não estou muito à frente de você?”, ela perguntou. “É claro que fui fuçar por lá bem no dia em que seu corpo foi encontrado. Antes que alguém pudesse vedar a porta com cadeados e interdições mágicas. Boq, você me toma por boba?”

“Não, eu não acho que você seja boba, então, me diga o que você descobriu”, ele disse.

“Suas descobertas estão bem escondidas”, ela disse, “e embora haja lacunas colossais em meu treinamento, eu estou estudando-as a meu modo.”

“Você quer dizer que não vai mostrá-las para mim?” Ele estava chocado.

“A coisa nunca foi de seu interesse particular”, ela disse. “Além disso, até que haja algo para provar, qual é o ponto? Eu não acho que o Doutor Dillamond houvesse chegado a ele, ainda.”

“Eu sou um munchkinês”, ele respondeu orgulhosamente. “Olha, Elfinha, você mais ou menos me convenceu daquilo que o Mágico está querendo fazer. O confinamento dos Animais em fazendas ― para dar aos insatisfeitos fazendeiros de Munchkin a impressão de que está fazendo algo por eles ― e também para obter trabalho forçado para a escavação de novos poços inúteis. É torpe. Mas isso afeta Pedras do Caminho e as cidadezinhas de onde vim. Eu tenho o direito de saber o que você sabe. Talvez possamos decifrar juntos, trabalhar por uma mudança.”

“Você tem muito a perder”, ela disse. “Eu vou fazer isso sozinha.”

“Fazer o que sozinha?”

Ela apenas balançou a cabeça. “Quanto menos você souber, melhor, e eu digo isso para a sua segurança. Quem quer que tenha assassinado o Doutor Dillamond não quer que suas descobertas se tornem públicas. Que espécie de amiga eu seria para você se o pusesse em risco?”

“Que espécie de amigo eu seria para você se eu não insistisse?”, ele retrucou.

Mas ela não lhe contou. Quando ele se sentou ao lado dela pelo resto da aula e passou-lhe pequenas anotações, ela a todas ignorou. Mais tarde ele pensou que poderiam ter gerado um verdadeiro impasse em sua amizade se não houvesse ocorrido um estranho ataque ao professor novato durante aquela mesma aula.

O Doutor Nikidik estava palestrando sobre a Força da Vida. Enrolando em cada punho os dois cachos separados de sua longa barba irregular, ele falava em tons sussurrantes de tal modo que apenas metade de cada sentença chegava ao fundo da sala de aula. Nenhum estudante em particular conseguia seguir seus raciocínios. Quando o Doutor Nikidick tirou uma pequena garrafa do bolso de seu colete e murmurou alguma coisa sobre “Extrato de Intenção Biológica”, apenas os estudantes da fila dianteira se levantaram e ergueram seus olhos. Para Boq e Elphaba, o murmúrio soava como: “Um pouco de tempero para a sopa hum, hum, como se a criação fosse um inconcluído hum, hum, hum, não obstante as obrigações de todos os seres sensíveis hum, hum, hum, e então como um pequeno exercício para os que não estão ouvindo lá atrás do hum, hum, hum, observem um pequeno milagre mundano, cortesia de hum, hum, hum.”

Um arrepio de excitação havia despertado a todos. O Doutor desar-rolhava a garrafa embaçada e fazia um movimento espasmódico. Todos podiam ver uma pequena lufada de pó, como uma efervescência de talco, ir se transformando num penacho que ondulava no ar acima do pescoço da garrafa. O Doutor agitou um pouco as suas mãos, para fazer as correntes de ar subirem num redemoinho. Mantendo alguma rara espécie de coerência espacial, o penacho começou a se revolver. Os ooohs que os estudantes se sentiam inclinados a emitir foram todos adiados. O Doutor Nikidick apontava um dedo em sua direção para que se calassem, e eles podiam perceber por quê. Uma vasta entrada de fôlego mudaria o padrão das correntes de ar e desviaria a substância flutuante do pó. Mas os estudantes começaram a rir, a despeito deles mesmos. Acima do palco, em meio aos padronizados símbolos cerimoniais de chifres de cervos e trompas de bronze trançadas, pendiam quatro retratos a óleo dos pais fundadores das Torres de Ozma. Em seus trajes arcaicos e expressões sisudas, eles olhavam para os estudantes de hoje. Se essa “intenção biológica” fosse para ser aplicada num dos pais fundadores, o que ele diria, vendo homens e mulheres reunidos como estudantes na grande sala? O que ele teria a dizer sobre qualquer coisa? Era um grande momento de expectativa.

Mas quando uma porta lateral do palco se abriu, a mecânica das correntes de ar foi perturbada. Um estudante olhava para dentro, espantado. Era um novo estudante, bizarramente vestido com perneiras de camurça e uma camisa branca de algodão, com um desenho de diamantes azuis tatuado na pele escura de seu rosto e de suas mãos. Ninguém nunca o vira, nem vira ninguém como ele. Boq agarrou a mão de Elphaba firmemente e sussurrou: “Olha! Um winkie!”.

E assim parecia, um estudante vindo da Terra de Vinkus, num estranho traje cerimonial, chegando atrasado à aula, abrindo a porta errada, confuso e penitente, mas a porta se fechara atrás dele e se trancara deste lado, e não havia por perto assentos disponíveis nas filas dianteiras. Assim, ele se deixou cair onde estava e sentou-se com as costas voltadas para a porta, esperando, sem dúvida alguma, não ser muito notado.

“Maldito seja, a coisa foi com certeza afetada”, disse o Doutor Nikidik. “Seu estúpido, por que você não veio para a aula na hora certa?”

A névoa brilhante, quase do tamanho de um buquê de flores, tinha virado para cima numa corrente, e se desviado das fileiras dos dignitários há muito falecidos que esperavam uma oportunidade inesperada de discursar novamente. Em vez disso, cobriu um dos suportes dos chifres de cervos, parecendo pendurar-se por um momento nas pontas retorcidas. “Bem, eu nem posso esperar ouvir uma palavra de sabedoria da boca deles, e eu me recuso a desperdiçar mais desse artigo precioso em demonstrações de classe”, disse o Doutor Nikidik. “A pesquisa ainda está incompleta e eu pensei que hum, hum, hum. Deixarei que vocês descubram por si mesmos se hum, hum, hum. Eu nunca ia querer prejudicar os seus hum, hum, hum.”

Os chifres de repente se retorceram convulsivamente na parede, e se projetaram violentamente para longe do painel de carvalho. Deram uma cambalhota e caíram no chão ruidosamente, aos sons dos gritos e risadas dos estudantes, especialmente porque, por um momento, o Doutor Nikidik não atinara com o motivo do tumulto. Ele se virou a tempo de ver os chifres se endireitarem e esperarem, trêmulos, torcidos, no tablado, como um galo de briga em pose bélica e preparado para entrar no ringue.

“Oh, bem, não olhem para mim”, disse o Doutor Nikidik, recolhendo seus livros, “Eu não pedi nada de vocês. Se há algum culpado, é aquele ali.” E ele casualmente apontou para o estudante de Vinkus, que estava agachado, de olhos tão arregalados que os mais cínicos dos estudantes mais velhos começaram a suspeitar que tudo aquilo era uma armação.

Os chifres permaneciam armados e se moviam ligeiros, meio de lado, pelo tablado. Enquanto os estudantes se erguiam num grito unânime, os chifres se arremetiam, descontrolados, sobre o corpo do rapazinho de Vinkus e o fixavam contra a porta trancada. Um suporte do painel atingiu-o no pescoço, prendendo-o numa canga em formato de V, e o outro se empinou no ar para atingi-lo no rosto.

O Doutor Nikidik tentou se mover ligeiro, e desmontou em seus joelhos artríticos, mas, antes que ele pudesse se endireitar, dois rapazes estavam no tablado, saindo da primeira fila, agarrando os chifres e se atracando com eles no chão. O rapaz de Vinkus soltou um berro numa língua estrangeira. “Aqueles são o Crope e o Tibbett!”, disse Boq, sacudindo o ombro de Elphaba: “Olha!”. Os estudantes de feitiçaria se erguiam todos de suas cadeiras e tentavam lançar feitiços sobre os chifres assassinos, e Crope e Tibbett perdiam o controle dos chifres e daí a pouco o recuperavam, até que por fim conseguiram quebrar uma ponta de um deles, e daí foram quebrando outra, e os pedaços, ainda agitados, caíram no chão do tablado sem mais demora.

“Oh, coitado do sujeito”, disse Boq, pois o estudante de Vinkus estava tendo um colapso e chorava copiosamente por trás de suas mãos tatuadas com diamantes azuis. “Eu nunca tinha visto um estudante de Vinkus. Que medonha acolhida em Shiz.”

O ataque ao estudante de Vinkus provocou falatório e especulação. Na aula de feitiçaria, no dia seguinte, Glinda pediu à Senhorita Greyling que explicasse uma coisa. “Como pôde o ‘Extrato de Intenção Biológica’ do Doutor Nikidik ou o que quer que fosse, como pôde ser ensinado debaixo da chancela de ciências da vida quando se portava como um feitiço de primeira? Qual é realmente a diferença entre ciência e feitiçaria?”

“Ah”, disse a Senhorita Greyling, escolhendo esse momento para aplicar-se no cuidado de seu cabelo. “A ciência, minhas queridas, é a dissecação sistemática da natureza, para reduzi-la a partes funcionais que mais ou menos obedecem a leis universais. A feitiçaria se move na direção oposta. Ela não rasga, ela remenda. Ela é síntese, mais que análise. Ela constrói de novo em vez de ficar só revelando o que é velho. Nas mãos de alguém realmente talentoso” ― a esta altura, ela se espetou com um grampo e ganiu ― “ela significa Arte. Pode-se realmente chamá-la como a Maior ou a Mais Bela das Artes. Ultrapassa as Belas Artes da pintura e do drama e da declamação. Não faz pose ou representa o mundo. Ela o transforma. Uma vocação muito nobre.” Ela começou a choramingar docemente sob a força de sua própria retórica. “Pode haver um desejo maior que o de mudar o mundo? Não traçar projetos Utópicos, mas realmente ditar mudanças? Revisar o malformado, remediar os equívocos, justificar as margens desse erro esfarrapado que é o universo? Viver através da feitiçaria?”

Na hora do chá, ainda estupefata e divertida, Glinda relatou o pequeno discurso apaixonado da Senhorita Greyling às duas irmãs Thropp. Nessarose disse: “Apenas o Deus Inominável cria, Glinda. Se a Senhorita Greyling confunde feitiçaria com criação, ela corre o risco de corromper seus princípios morais.”

“Bem”, disse Glinda, pensando em Ama Clutch, que estava acometida pela doença mental que ela imaginara para a mulher uma vez, “meus princípios morais não estão na melhor forma para serem corrompidos, Nessa.”

“Então, se a feitiçaria pode ser de grande auxílio, deve ajudá-la a re-construir o seu caráter”, disse Nessarose firmemente. “Se você se empenhar nessa direção, suspeito que tudo dará certo no fim. Use seu talento para a magia, não seja usada por ele.”

Glinda suspeitava que Nessarose estava desenvolvendo uma aptidão para ser superior de um modo secante. Ela estremeceu, mesmo tendo levado a sugestão a sério.

Mas Elphaba disse: “Glinda, essa foi uma boa pergunta. Bem que eu queria que a Senhorita Greyling a tivesse respondido. Aquele pequeno pesadelo com os chifres pareceu mais magia que ciência para mim, também. Pobre daquele rapazinho de Vinkus! Vamos fazer essa pergunta ao Doutor Nikidik na semana que vem?”.

“Quem é que teria coragem para fazer isso?”, gritou Glinda. “A Senhorita Greyling é no mínimo ridícula. Já o Doutor Nikidik, com aquele adorável jeito incoerente de resmungar e murmurar que ele tem ― é tão distinto.”

Na aula de ciências da vida da semana seguinte, todos os olhos estavam voltados para o rapaz de Vinkus. Ele chegou cedo e se acomodou na sacada, tão longe da estante quanto possível. Boq tinha quanto aos nômades toda a desconfiança dos fazendeiros estabelecidos. Mas tinha de reconhecer que a expressão nos olhos do novo estudante era inteligente. Avaric, deslizando para a cadeira próxima a Boq, disse: “Ele é um príncipe, segundo ouvi dizer. Um príncipe sem tostão ou trono. Um nobre empobrecido. Em sua tribo particular, eu quero dizer. Ele fica em Torres de Ozma e seu nome é Fiyero. Ele é um winkie verdadeiro, puro-sangue. Que será que ele pensa da civilização?”

“Se aquilo que aconteceu aqui na semana passada era civilização, ele deve estar suspirando por suas origens bárbaras”, disse Elphaba da cadeira do outro lado de Boq.

“Para que ele está usando aquela pintura boba?”, disse Avaric. “Ele apenas chama a atenção para si mesmo, com aquilo. E aquela pele. Eu que não ia querer ter uma pele cor de merda.”

“Que coisa pra se dizer!”, disse Elphaba. “Se você quer saber, acho que é uma opinião merdosa.”

“Oh, por favor”, disse Boq. “Vamos calar a boca.”

“Eu tinha me esquecido, Elfinha, que pele é um assunto que lhe diz respeito também”, disse Avaric.

“Deixe-me fora disso”, ela disse. “Nós acabamos de almoçar, e você me dá dispepsia, Avaric. Você e os feijões que comemos no almoço.”

“Vou mudar de cadeira”, avisou Boq, mas o Doutor Nikidik chegou nesse exato momento, e a classe se levantou no sinal de respeito habitual, voltando a sentar-se ruidosamente, comunicativa, conversando sem parar.

Por um momento, Elphaba ergueu sua mão para chamar a atenção do Doutor, mas ela estava sentada muito lá atrás e ele estava murmurando sobre algum outro assunto. Ela finalmente se inclinou para Boq e disse: “No recreio, mudarei de cadeira e irei para a frente e ele me notará”. Então, a classe observou quando o Doutor Nikidik finalizou seu preâmbulo inaudível e acenou a um estudante para que abrisse a mesma porta ao lado do palco na qual Fiyero tropeçara na semana anterior.

Entrou por ela um rapaz do Três Rainhas empurrando uma mesa como se fosse uma bandeja de chá. Sobre ela, agachado como se procurasse fazer-se tão pequeno quanto possível, havia um filhote de leão. Mesmo de lá da sacada dava para se sentir o terror do animal. Sua cauda, um pequeno chicote da cor de amendoins amassados, açoitava de lá para cá, e seus ombros se arqueavam. Não havia ainda sinal de juba, ele era muito pequeno. Mas a cabeça amarelo-castanho se contorcia de um modo ou de outro, como se avaliasse as ameaças ao redor. Ele abriu sua boca em um pequeno uivo aterrorizado, a forma infantil de um rugido adulto. Por toda a sala de aula os corações se derreteram e as pessoas disseram: “Ohhhh”.

“Pouca coisa mais que um gatinho”, disse o Doutor Nikidik. “Pensei em chamá-lo de Prrr, mas ele treme mais do que ronrona, então eu o chamei de Brrr.”

A criatura olhou para o Doutor Nikidik, e se afastou para a ponta oposta do carrinho.

“Agora a questão da manhã é esta”, disse o Doutor Nikidik. “Citando um pouco dos interesses algo equivocados do Doutor Dillamond, quem hum, hum. Quem pode me dizer se isso é um Animal ou um animal?”

Elphaba não esperou para ser chamada. Ela se levantou na sacada e lançou sua resposta numa voz clara e forte. “Doutor Nikidik, a pergunta que o senhor fez é quem pode dizer se esse é um Animal ou um animal. Me parece que a resposta é que a mãe do bicho é a única que pode responder. Onde está a mãe dele?”

Um burburinho de espanto. “Afundou no pântano das semânticas sintáticas, bem vejo”, disse o Doutor alegremente. Ele falou mais alto, como se houvesse percebido só agora que havia naquela sala uma sacada. “Bem observado, Senhorita. Deixe-me refazer a pergunta. Alguém aqui arriscaria emitir uma hipótese sobre a natureza deste espécime? E dar uma razão para a designação que fizer? Vemos diante de nós um animal numa idade tenra, muito antes que qualquer um desses seres bestiais possa dominar a linguagem, se a linguagem fizesse parte de sua estrutura. Antes da linguagem ― supondo que houvesse uma ― seria um Animal?”

“Eu repito minha pergunta, Doutor”, reafirmou Elphaba. “Esse é um filhote muito jovem. Onde está a sua mãe? Por que foi tirado de sua mãe em idade tão tenra? Como ele poderá se alimentar?”

“Essas são perguntas impertinentes para a questão acadêmica ora abordada”, disse o Doutor. “Contudo, o coração dos jovens sangra facilmente. A mãe, devemos dizer, morreu numa explosão tristemente marcada. Vamos presumir, em consideração ao argumento, que não havia meio de discernir se a mãe era uma Leoa ou uma leoa. Afinal, tal como vocês devem ter sabido, alguns Animais estão voltando à vida selvagem para escapar às implicações das leis em vigor.”

Elphaba sentou-se, perplexa. “Isso não me parece justo”, ela disse a Boq e Avaric. “Em consideração à ciência, arrastar um filhote para cá sem a sua mãe. Olhem como ele parece aterrorizado. Ele está tremendo. E não é de frio.”

Outros estudantes começaram a arriscar opiniões, mas o Doutor as descartava uma por uma. O ponto em questão era que, aparentemente, sem a linguagem e chaves contextuais, em suas etapas infantis uma besta não era claramente Animal ou animal.

“Isso tem uma implicação política”, disse Elphaba ruidosamente. “Eu pensei que a matéria era ciências da vida, não acontecimentos da atualidade.”

Boq e Avaric fizeram com que se calasse. Ela estava ganhando uma terrível reputação como gritalhona.

O Doutor não voltou a citar o episódio depois que todos haviam digerido o ponto em questão. Mas, finalmente, ele se virou e disse: “Agora, vocês pensam que, se pudéssemos cauterizar aquela parte do cérebro que desenvolve a linguagem, poderíamos eliminar a idéia de dor e, portanto, a sua existência? Testes iniciais nesse filhote de leão mostram resultados interessantes”. Ele tinha apanhado um pequeno martelo com uma cabeça de borracha e uma seringa. O animal se ergueu e silvou, e depois recuou e caiu no chão, e correu como um raio em direção à porta, que havia sido fechada e trancada deste lado tal como na semana anterior.

Mas não foi apenas Elphaba que se levantou para gritar. Quase uma dúzia de estudantes estavam gritando com o Doutor. “Dor? Eliminar a dor? Olhe para a coisa, está aterrorizada! Ela já sente dor! Não faça isso, o que você é, louco?”

O Doutor parou, apertando de forma visível o fecho de sua pasta. “Eu não vou presidir uma tão chocante recusa ao aprendizado!”, ele disse, afrontado. “Vocês estão regredindo a conclusões descuidadas baseadas em sentimentos e não em observação. Tragam a besta aqui. Tragam-na de volta. Jovem senhora, eu insisto. Eu ficarei completamente contrariado.”

Mas duas garotas de Briscoe Hall desobedeceram e fugiram da sala de aula carregando o leão enfurecido num avental. A sala degenerou em tumulto e o Doutor Nikidik escapuliu do palco. Elphaba virou-se para Boq e disse: “Bem, acho que não vou fazer a boa pergunta de Glinda sobre a diferença entre a ciência e a magia, vou? Descemos a uma escala bem diferente hoje”. Mas sua voz estava trêmula.

“Você sentiu por aquele animal, não foi?”. Boq estava comovido. “Elfinha, você está tremendo. Não digo isso de uma maneira insultuosa, mas você quase ficou branca de paixão. Venha, vamos nos esconder e pegar um chá no café da Praça da Ferrovia, em comemoração aos velhos tempos.”


4
Talvez qualquer aproximação acidental de pessoas tenha um curto período de graça, que vai da timidez e do preconceito no início a uma eventual repugnância e traição no fim. Para Boq, parecia que sua obsessão de verão com a então Galinda fazia sentido apenas como introdução para essa subseqüente e mais madura acomodação que encontrou num círculo de amigos que começou a se sentir inevitável e permanentemente unido.

Ainda não fora permitido o acesso de rapazes ao Crage Hall, nem as garotas tinham acesso às escolas masculinas, mas a área urbana central de Shiz se tornara uma extensão das salas de aula e palestra nas quais eles estavam autorizados a se misturar. Numa tarde de meio de semana, numa manhã de fim de semana, encontravam-se às margens do canal com uma garrafa de vinho, ou num café ou num boteco de estudantes, ou caminhavam e discutiam pontos da arquitetura de Shiz, ou riam dos excessos de seus professores. Boq e Avaric, Elphaba e Nessarose (com a Babá), Glinda, e às vezes Pfannee e Shenshen e Milla, e às vezes Crope e Tibbett. E Crope trouxe Fiyero consigo e apresentou-o, o que gelou Tibbett por mais ou menos uma semana até a noite em que Fiyero disse, a seu modo tímido e cerimonioso: “É claro ― eu fui casado por uns tempos. Nós nos casamos bem jovens lá em Vinkus”. Os outros ficaram espantados com a notícia, e se sentiram ainda mais jovens.

Para sermos exatos, Elphaba e Avaric alfinetavam-se um ao outro implacavelmente. Nessarose abusava da paciência de todos com suas arengas religiosas. A torrente de observações picantes de Crope e Tibbett fez com que fossem atirados no canal mais que uma vez. Mas Boq estava aliviado por descobrir que sua paixonite por Glinda estava se dissipando um pouco. Ela se sentava junto a uma toalha de piquenique com um ar de autoconfiança, e desviava as conversas de si mesma. Ele amara a garota que amava o seu próprio glamour, e essa garota parecia haver desaparecido. Mas ele estava feliz por ter Glinda como uma amiga. Bem, em resumo: ele amara Galinda e essa agora era Glinda. Alguém que ele não podia mais entender completamente. Caso encerrado.

Era um círculo influente.

Todas as jovens evitavam Madame Morrible quando podiam. Numa certa noite fria, contudo, Grommetik foi à procura das irmãs Thropp. A Babá se zangou e enrolou os cordões de um avental novo na cintura, e empurrou Nessarose e Elphaba escada abaixo em direção à sala da Direto-ra. “Eu odeio esse Grommetik”, disse Nessarose. “Como é que ele funciona mesmo? É mecânica ou magia, ou alguma combinação dos dois?”

“Eu sempre imaginei uma porção de absurdos ― que havia um anão ali dentro, ou uma família de elfos acrobatas, cada um comandando um membro”, disse Elphaba. “Toda vez que Grommetik se aproxima, minha mão sente uma estranha ânsia de pegar um martelo.”

“Eu não consigo imaginar”, disse Nessarose. “Que uma mão possua ânsias, quero dizer.”

“Silêncio, vocês duas, a coisa tem ouvidos”, disse a Babá.

Madame Morrible lançava um olhar sobre os jornais de negócios, fazendo algumas anotações laterais, antes de se dignar a prestar atenção às suas estudantes. “Isso não me tomará senão um momentinho”, ela disse. “Eu tenho uma carta de seu querido pai, e um pacote para vocês. Achei que era mais amável dar as notícias pessoalmente.”

“Notícias?”, disse Nessarose, ficando pálida.

“Ele podia ter escrito tanto a nós quanto à senhora”, disse Elphaba.

Madame Morrible a ignorou. “Ele escreve para perguntar da saúde e do progresso de Nessarose, e para dizer a vocês duas que entrará em jejum e penitência pelo retorno de Ozma Tippetarius.”

“Oh, a garotinha abençoada”, disse a Babá, se entusiasmando ao ver surgir um de seus assuntos favoritos. “Quando o Mágico tomou o Palácio de assalto há tantos anos e prendeu o Regente Ozma, nós todos pensamos que a santa filha de Ozma revidaria com um raio na cabeça do Mágico. Mas, dizem que ela se evadiu e congelou numa caverna, como Lurline. Será que Frexpar foi capaz de derretê-la ― será que soou a hora de ela retornar?”

“Por favor”, disse Madame Morrible às irmãs, depois de dar um olhar azedo de relance para a Babá: “Eu não as chamei aqui para que sua Babá se pusesse a discutir essa apocrifia contemporânea, nem para caluniar nosso glorioso Mágico. A transição de poder foi pacífica. Que a saúde do Regente Ozma tenha sido afetada quando ocorreu a tomada da casa foi uma me-ra coincidência, nada mais. Quanto ao poder de seu pai para despertar a desaparecida criança real de algum insubstancial estado de sonolência ― bem, vocês mais ou menos admitiram para mim que seu pai é excêntrico, se não louco. Posso apenas desejar a ele que tenha saúde em suas atividades. Mas sinto que é meu dever dizer a vocês, garotas, que nós não acolhemos atitudes indisciplinadas em Crage Hall. Espero que vocês não tenham importado os anseios monárquicos de seu pai para os dormitórios daqui”.

“Nós devemos reverência ao Deus Inominável, não ao Mágico nem a algum possível remanescente da Família Real”, Nessarose disse orgulhosa-mente.

“Não tenho nenhuma posição quanto a esse assunto”, murmurou Elphaba, “exceto que papai adora causas perdidas.”

“Muito bem”, disse a Diretora. “É assim que deve ser. Agora, recebi um pacote para vocês.” Ela o passou para Elphaba, mas acrescentou: “É para Nessarose, eu acho”.

“Abra, Elfinha, por favor”, disse Nessarose. A Babá se encostou para ver.

Elphaba desfez o cordão e abriu uma caixa de madeira. De uma pilha de fitas de madeira, ela tirou um sapato, e depois outro. Eram prateados? ― ou azuis? ― ou então vermelhos? ― laqueados com um brilho de casca de confeito no polimento? Era difícil de perceber e não importava; o efeito era deslumbrante. Até Madame Morrible perdeu o fôlego ante o seu esplendor. A superfície dos sapatos parecia pulsar com centenas de reflexos e refrações. À luz do fogo, era como olhar para corpúsculos ferventes de sangue colocados sob uma lente de aumento.

“Ele escreve que os comprou para você de alguma vendedora ambulante desdentada no subúrbio de Ovvels”, disse Madame Morrible, “e que ele os revestiu com contas de vidro prateado feitas por ele mesmo ― ou que alguém o ensinou a fazer...”

“Coração de Tartaruga”, disse a Babá, soturna.

“― e” ― Madame Morrible deu uma pancadinha na carta, olhando furtivamente ― “ele diz que quis dar alguma coisa especial antes que você partisse para a universidade, mas nas súbitas circunstâncias da doença de Ama Clutch... blablablá... ele ficou desprevenido. Assim, ele os envia para a sua Nessarose para que mantenha seus belos pés aquecidos e enxutos e belos, e os manda com todo o amor.”

Elphaba enfiou seus dedos através dos arabescos formados pelas fitas de madeira. Não havia nada mais na caixa, nada para ela.

“Não são maravilhosos?”, Nessarose exclamou. “Elfinha, coloque-os nos meus pés, me faria esse favor? Oh, como eles reluzem!”

Elphaba ficou de joelhos diante de sua irmã. Nessarose sentou-se, fazendo uma pose tão regia quanto uma Ozma, a espinha ereta e o rosto brilhando. Elphaba ergueu os pés de sua irmã e tirou-lhe os chinelos domésticos comuns, e substituiu-os pelos sapatos deslumbrantes.

“Quanta consideração ele tem por mim!”, disse Nessarose.

“Boa coisa você poder se apoiar nos seus dois pés”, disse a Babá a Elphaba, e pôs sua velha mão indulgente sobre as suas omoplatas, mas Elphaba a repeliu.

“Eles são pra lá de maravilhosos”, disse Elphaba, exagerando. “Nessarose, eles foram feitos para você. Servem como um sonho.”

“Oh, Elfinha, não fique contrariada”, Nessarose disse, olhando para seus pés. “Não arruíne minha felicidade com ressentimento, está bem? Ele sabe que você não precisa desse tipo de coisa...”

“Claro que não”, disse Elphaba. “É claro que eu não preciso.”

Naquela noite os amigos correram o risco de ultrapassar o toque de recolher pedindo mais uma garrafa de vinho. A Babá desaprovou e reclamou, mas como entornou sua porção tão bem quanto os outros, foi controlada. Fiyero contou a história de como havia se casado aos sete anos com uma garota de uma tribo vizinha. Todos ficaram boquiabertos com sua aparente falta de vergonha. Ele vira sua noiva apenas uma vez, por acaso, quando os dois tinham perto de nove anos. “Eu não vou me unir fisicamente a ela até que tenha vinte anos, e eu estou só com dezoito”, acrescentou. Com o alívio de imaginar que ele podia ser ainda tão virgem quanto o resto da turma, eles pediram mais outra garrafa.

As velas tremulavam, uma leve chuva outonal caía. Embora o aposento fosse seco, Elphaba se cobrira com o seu manto como se antecipasse a caminhada que faria para casa. Ela fora afetada pela indiferença de Frex. Ela e Nessarose começaram a contar histórias engraçadas sobre o pai, como se para provar a si mesmas e a todo mundo que não havia nada fora do lugar. Nessarose, que bebia pouco, até se permitiu dar umas risadas. “Apesar de minha aparência, ou talvez por causa dela, ele sempre me chamou de seu bichinho bonito”, ela disse, aludindo à sua falta de braços pela primeira vez em público. “Ele dizia: ‘Vem cá, meu bichinho, e deixa eu te dar um pedaço de maçã’. E eu ia andando da melhor maneira que podia, tombando e vacilando se a Babá ou Elfinha ou a Mamãe não estavam ali para me ajudar, e caía no colo de meu pai, e me apoiava nele sorrindo, e ele punha pedacinhos da fruta na minha boca.”

“De que ele te chamava, Elfinha?”, perguntou Glinda.

“Ele a chamava de Fabala”, interrompeu Nessarose.

“Em casa, em casa apenas”, Elphaba disse.

“É verdade, você é a pequena Fabala de seu pai”, murmurou a Babá, quase que falando só consigo mesma, fora do círculo das faces sorridentes. “Pequena Fabala, pequena Elphaba, Elfinha.”

“Ele nunca me chamou de bichinho”, disse Elphaba, erguendo seu copo para a irmã. “Mas todos sabemos que ele disse a verdade, já que Nessarose é a mascote da família. Por isso, ganhou aqueles sapatos esplêndidos.”

Nessarose corou e aceitou uma torrada. “Ah, mas enquanto eu obtinha essa atenção devido à minha condição, você cativava o coração dele quando cantava”, ela disse.

“Cativava seu coração? Hah. Você quer dizer que eu desempenhava uma função necessária.”

Mas os outros disseram a Elphaba: “Oh, então você sabe cantar? Ora essa! Cante, cante, você vai ter de cantar! Mais uma garrafa, mais um copo, recuem as cadeiras, e antes de irmos embora, você vai ter de cantar! Vamos lá!”

“Só se todos cantarem juntos”, disse Elphaba, bancando a mandona. “Boq? Alguma ciranda de Munchkin? Avaric, uma balada gillikinesa? Glinda? Babá, um acalanto?”

“Sabemos um monte de porcarias, se você for, vamos atrás”, disseram Crope e Tibbett.

“E eu cantarei um canto de caça de Vinkus” disse Fiyero. Todos riram com prazer e bateram em suas costas. Então, Elphaba teve de ficar em pé, pôr sua cadeira de lado, limpar a sua garganta e fazer um som na mão fechada, e começar. Como se estivesse cantando outra vez para seu pai, depois de tanto tempo.

A dona do bar bateu com um trapo em alguns velhos barulhentos para que ficassem quietos, e os jogadores de dardos baixaram os braços. O ambiente todo silenciou. Elphaba cantou uma cançoneta ali onde estava, de saudade e de estranhamento, de dias remotos e futuros. Os desconhecidos fecharam os olhos para ouvir.

Boq também. Elphaba tinha uma voz aceitável. Ele viu o lugar imaginário que ela invocava, uma terra onde a injustiça e a crueldade coletiva e a ordem despótica e a mão empobrecedora da seca não se uniam para pegar todos pelos colarinhos. Não, ele não estava lhe dando crédito: Elphaba tinha uma boa voz. Era controlada e sensível e não histriônica. Ele ouviu até o fim, e a canção se apagou no silêncio de um boteco respeitoso. Mais tarde, pensou: A melodia se apagou como um arco-íris depois de uma tempestade, ou como ventos finalmente apaziguados; e o que restou foi calma e promessa e consolo.

“Você canta agora, você prometeu”, gritou Elphaba, apontando Fiyero, mas ninguém queria cantar novamente, porque ela o fizera tão bem. Nessarose pediu a Babá que enxugasse uma lágrima que aparecera no canto de seu olho.

“Elphaba diz que não é religiosa, mas vejam com que sentimento ela canta sobre a vida após a morte”, disse Nessarose, e dessa vez ninguém se sentiu disposto a objetar.

5
Numa certa manhã bem cedo, quando o mundo parecia ter ficado grisalho de tanta geada, Grommetik chegou com um bilhete para Glinda. Ama Clutch, ao que parecia, estava nas últimas. Glinda e suas colegas de quarto correram para a enfermaria.

A Diretora encontrou-as lá, e levou-as para uma alcova sem janelas. Ama Clutch estava se debatendo na cama e conversando com a fronha. “Não me provoque”, ela dizia raivosamente, “pois o que posso fazer por você? Vou abusar de sua boa vontade, patinha, e colocar meus cachos oleosos sobre seu fino tecido e cravarei meus dentes nas suas bordas de laçarotes aplicados! Você será uma estúpida se permitir isso, eu garanto! Eu não me importo com questões de serviço! É tudo tapeação, te juro, tapeação!”

“Ama Clutch, Ama Clutch, sou eu”, disse Glinda. “Ouça, querida, sou eu! É sua pequena Galinda.”

Ama Clutch virou a sua cabeça de um lado para outro. “Seu protesto é insultante para seus antepassados!”, ela continuou, dirigindo seus olhos para a fronha outra vez. “Aquelas plantações de algodão nas margens do Água Mansa não se deixaram colher para que você pudesse se estender aqui como uma esteira e deixasse qualquer pessoa imunda babar sobre você com papo-furado de noite! Não faz um pingo de sentido!”

“Ama!”, Glinda chorava. “Por favor! Você está delirando!”

“Aha, você vê que eu não tenho nada a dizer sobre isso”, disse Ama Clutch com satisfação.

“Volte a si, Ama, volte a si, uma vez mais antes de ir embora!”

“Oh, doce Lurline, isso é horrível”, a Babá dizia. “Queridinhas, se eu ficar desse jeito, vocês façam o favor de me envenenar, está bem?”

“Ela está indo embora, eu bem vejo”, Elphaba disse. “Eu vi o bastante disso no Estado de Quadling, eu conheço os sinais. Glinda, diga o que você precisa dizer, rapidamente.”

“Madame Morrible, posso ter um pouco de privacidade?”, Glinda disse.

“Eu ficarei ao seu lado e lhe darei apoio. É meu dever para com minhas garotas”, disse a Diretora, pousando as mãos roliças com decisão em sua cintura. Mas Elphaba e a Babá levantaram-se e foram levando-a para fora da alcova, em direção à sala, atravessando a porta, fechando-a e trancando-a. A Babá foi cacarejando o tempo todo, dizendo: “Que delicadeza da sua parte, Madame Diretora, mas não é preciso. Não é preciso mesmo”.

Glinda agarrou a mão de Ama Clutch. Gotas de suor branco estavam se formando como água de tomate na testa da empregada. Ela lutou por afastar a mão de Glinda, mas sua força estava se esvaindo. “Ama Clutch, você está morrendo”, Glinda disse, “e isso é culpa minha.”

“Oh, pare com isso”, Elphaba disse.

“É sim”, Glinda disse com fúria. “É sim”.

“Não quero discutir isso”, disse Elphaba, “quero dizer que deve tirar você mesma dessa conversa; esta é a morte dela, não a sua entrevista com o Deus Inominável. Vamos lá. Faça alguma coisa!”

Glinda agarrou as mãos, as duas mãos, com mais força ainda. “Eu vou fazer uma mágica para trazer você de volta”, ela disse, entre os dentes que rangiam. “Ama Clutch, você faça como eu digo! Ainda sou a sua patroa e é melhor que você me obedeça! Agora, ouça este feitiço e comporte-se!”

Os dentes de Ama rangeram, os olhos viraram, e o queixo se transformou numa ponta, como se tentasse empalar algum demônio invisível que estivesse no ar acima de sua cama. Os olhos de Glinda se fecharam e seus maxilares se agitaram, e uma fieira de sons, sílabas incoerentes até para ela mesma, foi se desenrolando de seus lábios lívidos.

“Espero que você não vá explodi-la como fez com o sanduíche”, resmungou Elphaba.

Glinda ignorou isso. Ela zumbia e atuava, ela se agitava e arquejava. As pálpebras de Ama Clutch se moveram tão freneticamente sobre os olhos fechados que parecia que suas órbitas estavam mascando seus próprios olhos. “Magicordium senssus ovinda clenx”, Glinda concluiu bem alto, “e se isso não funcionar, desisto; mesmo os cheiros e sinos de um equipamento completo não ajudariam, eu acho.”

Em seu leito de palha Ama Clutch caiu de costas. Um pouco de sangue escorreu do canto de cada olho. Mas o frenético movimento giratório do foco havia cessado. “Oh, minha querida”, ela murmurou, “então, você está bem, ou eu estou morta agora?”

“Ainda não”, disse Glinda. “Sim, querida Ama, sim, estou bem. Mas, meu amor, eu acho que você está partindo.”

“Claro que estou, o Vento está aqui, você não ouve?”, Ama Clutch disse. “Não importa. Oh, lá está a Elfinha também. Adeus, minhas filhotas. Fiquem longe do Vento até que o tempo melhore ou serão sopradas na direção errada.”

Glinda disse: “Ama Clutch, eu tenho uma coisa para lhe dizer ― eu tenho de lhe pedir desculpas...”.

Mas Elphaba avançou, tirando Glinda da linha de visão de Ama Clutch, e disse: “Ama Clutch, antes que você vá, conte-nos quem matou o Doutor Dillamond”.

“Claro que vocês sabem”, Ama Clurch disse.

“Dê-nos certeza”, Elphaba disse.

“Bem, eu vi, quero dizer, quase vi. Tinha acabado de acontecer e a faca ainda estava lá” ― Ama Clutch lutava penosamente por fôlego ― “manchada com o sangue que não tivera tempo de secar.”

“O que você viu? Isso é importante.”

“Eu vi a faca no ar, eu vi o Vento chegar para levar o Doutor Dillamond embora, eu vi a coisa mecânica se virar e o tempo do Bode se findou.”

“Foi Grommetik, não foi?”, Elphaba murmurou, tentando fazer com que a idosa dissesse as palavras esperadas.

“Bem, é o que eu estou dizendo, patinha”, disse Ama Clutch.

“E ele viu a senhora, ele se virou na sota direção?”, gritou Glinda. “Foi isso que a adoeceu, Ama Clutch?”

“Era minha hora de ficar doente”, disse Ama Clutch gentilmente, “então, eu não podia me queixar. E agora é minha hora de morrer, por isso me deixe. Só aperte a minha mão, querida.”

“Mas a culpa é minha...” começou Glinda.

“Seria melhor para mim que você se calasse, doce Galinda, minha filhotinha”, disse Ama Clutch docemente, e afagou a mão de Glinda. Depois, fechou seus olhos e aspirou e expirou algumas vezes. Elas ficaram no quarto numa espécie de silêncio que parecia um pouco o da classe operária de Gillikin, embora fosse difícil, mais tarde, explicar por quê. Lá fora, Madame Morrible subia e descia as tábuas do assoalho, contando os passos. Então, elas imaginaram ouvir um Vento, ou o eco de um Vento, e Ama Clutch se foi, e a ultra-submissa fronha soltou um pequeno derramamento de sumo humano da beira de sua boca afrouxada.

6
O funeral foi modesto, o cumprimento da louvação e sepultamento de praxe. As amigas íntimas de Glinda compareceram, preenchendo dois bancos, e na segunda fileira da capela um bando de Amas compunham um cortejo profissional. O resto da capela estava vazio.

Depois que o cadáver em seu lençol dobrado deslizou pelo escorrega-douro lubrificado em direção ao forno crematório, carpideiras e confrades se recolheram à sala particular de Madame Morrible, onde ela provou que não autorizara gastos com os refrescos. O chá era de um estoque antigo, mofado como serragem, os biscoitos eram duros, e não havia creme de açafrão nem geléia de tamorna. Glinda disse, reprovadora, à Diretora: “Nem mesmo uma tigelinha de creme?”. E Madame Morrible respondeu: “Minha jovem, eu tento poupar minhas protegidas do pior em matéria de carências alimentares fazendo compras criteriosas e me abstendo pessoalmente, mas não sou inteiramente responsável pela sua ignorância. Se as pessoas obedecessem o Mágico em caráter absoluto, haveria abundância. Você não percebe que as condições estão se tornando escassas e as vacas estão morrendo de inanição a duzentas milhas daqui? Isso torna o creme de açafrão muito caro no mercado”. Glinda começou a se afastar, mas Madame Morrible alcançou-a com um lance dos dedos acolchoados, bulbosos e enfeitados de jóias. O toque fez o sangue de Glinda esfriar. “Eu gostaria de conversar com você, e com a Senhorita Nessarose e a Senhorita Elphaba”, disse a Diretora. “Depois que os convidados se retirarem. Por favor, aguarde.”

“Fomos intimadas a uma conversa”, sussurrou Glinda às irmãs Thropp. “Temos de soltar o berro.”

“Nem uma palavra sobre o que Ama Clutch disse ― ou que ela ficou lúcida”, disse Elphaba ansiosamente. “Entenderam isso, Nessa? Bá?”

Todas concordaram. Boq e Avaric, dizendo adeusinhos, disseram que o grupo voltaria a se reunir no boteco da Parada do Regente. As garotas aceitaram se encontrar com eles lá depois da conversa com a Diretora. Elas pretendiam fazer um memorial mais honesto para Ama Clutch no Pêssego e Rins.

Quando a pequena multidão se dispersou, apenas Grommetik ficando para limpar as xícaras e as migalhas, Madame Morrible em pessoa acendeu a lareira ― um gesto de simpatia que não passou despercebido a ninguém ― e mandou Grommetik embora. “Mais tarde, coisinha”, ela disse, “mais tarde. Vá se lubrificar em algum reservado por aí.” Grommetik saiu rodando com um ar ofendido, se tal era possível. Elphaba teve de controlar uma gana de dar-lhe um pontapé com a ponta de sua vigorosa bota preta.

“Saia você também, Babá”, Madame Morrible disse. “Faça uma pequena pausa em seu trabalho.”

“Oh, não”, a Babá disse. “A Babá aqui não abandona a sua Nessa.”

“Abandona, sim. Sua irmã é perfeitamente capaz de tomar conta dela sozinha”, disse a Diretora. “Não é mesmo, Senhorita Elphaba? A própria alma da caridade.”

Elphaba abriu a boca ― a palavra alma sempre a provocara, Glinda sabia ― mas fechou-a novamente. Ela fez um sinal trêmulo indicando a porta. Sem uma palavra, a Babá levantou-se para sair, mas antes que a porta fechasse, ela disse: “Não é lugar para eu reclamar, mas, realmente: faltar creme? Num funeral?”.

“Socorro”, disse Madame Morrible quando a porta fechou, mas Glinda não tinha certeza se isso era uma crítica a serviçais em geral ou um lampejo de simpatia. A Diretora recuperou-se arrumando as abas, aberturas e cadarços de seu vistoso blusão social. Coberta de lantejoulas de um alaranjado-cobre, ela parecia uma deusa peixe-dourado enorme, estofada, de ponta-cabeça. Como será que teria conseguido o cargo de Diretora?, Glinda pensava.

“Agora que Ama Clutch se tornou cinzas, vamos, digo, devemos seguir em frente com coragem”, Madame Morrible começou. “Minhas jovens, posso lhes pedir que recontem a triste história de suas últimas palavras? É uma terapia essencial para que vocês se recuperem da aflição.”

As garotas não olharam umas para as outras. Glinda, que nessa situação era a porta-voz, tomou fôlego e disse: “Oh, ela só expeliu absurdos no fim”.

“Não é surpresa, vindo de uma coisa velha caduca”, disse Madame Morrible, “mas, que espécie de absurdo?”

“Nós não conseguimos entender”, disse Glinda.

“Pensei se ela não teria falado da morte do Bode.”

Glinda disse: “Oh, o Bode? Bem, eu mal pude notar...”

“Suspeitei que, na condição insana em que ela se encontrava, pudesse querer retornar ao momento crítico. Os moribundos com freqüência tentam extrair sentido, no seu derradeiro momento, do enigma de suas vidas. Esforço inútil, é claro. Sem dúvida, Ama Clutch estava intrigada por tudo que lhe aconteceu, o corpo do Bode, o sangue. E Grommetik.”

“Oh?”, disse Glinda, debilmente. As irmãs ao seu lado tomavam todo o cuidado para não parecerem nervosas.

“Naquela terrível manhã eu estava em pé cedo ― fazendo minhas meditações espirituais ― e notei a luz no laboratório do Doutor Dillamond. Assim, mandei Grommetik para lá com um estimulante bule de chá para o velho Bode. Grommetik encontrou o Animal caído sobre uma lente quebrada; parece que ele deu um passo em falso e cortou sua própria veia jugular. Um acidente tão triste, devido ao zelo (para não dizer o orgulho) acadêmico e a uma lastimável falta de senso comum. Descanso, nós todos precisamos de descanso, mesmo os mais brilhantes entre nós precisam de descanso. Grommetik, em sua confusão, sentiu o pulso ― nada descobriu ― e eu suponho que foi justo quando Ama Clutch chegou. Deparou-se com o querido Grommetik salpicado pelos jorros de uma forte pulsação circulatória. Ama Clutch chegou de lugar nenhum e estava extrapolando suas incumbências, devo acrescentar, mas não vamos falar mal dos mortos, não é?”

Glinda engoliu as suas lágrimas, e não mencionou que Ama Clutch mencionara ter visto alguma coisa fora do comum na noite anterior, e que saíra para observar.

“Sempre achei que o choque de ver aquele sangue todo deve ter sido a gota d’água que fez com que Ama Clutch piorasse em sua enfermidade. Incidentalmente, vocês podem entender por que eu dispensei Grommetik agora há pouco. Ele está ainda muito sensível ao caso e desconfia, eu creio, que Ama Clutch o julgou responsável pela horrível morte do bode.”

Glinda disse, com hesitação: “Madame Morrible, a senhora deve saber que Ama Clutch não padeceu nunca dessa doença que lhe descrevi. Eu a inventei. Mas eu não a reforcei. Não a envolvi nisso, nem ela ficou sabendo”.

Elphaba olhou para Madame Morrible firmemente, embora mantivesse uma aparência de interesse moderado. As pestanas de Nessarose palpitavam. Se Madame Morrible já tinha ciência do que Glinda acabara de revelar, seu rosto não a traía. Ela tinha a aparência tão imperturbável quanto a de um barco amarrado num ancoradouro. “Bem, isso apenas dá peso às minhas observações”, ela admitiu. “Há um poder imaginativo, mesmo profético, em seu destacado pequeno círculo social, Senhorita Glinda.”

A Diretora se levantou, as saias farfalhando, como o vento através de um campo de trigo. “O que eu digo agora é da mais estrita confidencia. Eu espero que minhas jovens obedeçam ao meu comando. Estamos de acordo?” Ela pareceu tomar o silêncio atordoado das três como aceitação. Olhou para elas detidamente. Era por isso que ela se parecia com um peixe, Glinda pensou subitamente. Ela nunca piscava.

“Devido à autoridade que me foi investida por alguém elevado demais para que eu possa citar, fui incumbida de uma tarefa crucial”, disse a Diretora. “Uma tarefa essencial para a segurança interna de Oz. Eu tenho trabalhado para cumprir essa tarefa já há alguns anos, e o tempo chegou, e os recursos estão à minha disposição.” Ela escrutinou-as. Eram elas os recursos.

“Vocês não repetirão o que ouviram nesta sala”, ela disse. “Vocês não deverão ter nem querer, nem escolha, nem capacidade de repetir. Estou envolvendo cada uma de vocês num casulo fechado como proteção para essa matéria muito delicada. Não” ― ela ergueu uma mão a um protesto de Elphaba ― “não, vocês não têm o direito de objetar. O feito já está feito e vocês devem ouvir e ficar abertas àquilo que vou dizer.”

Glinda tentou examinar-se para sentir se ficara envolvida, ou fechada, ou se não tremia sob o efeito de algum feitiço. Mas ela se sentia apenas assustada e jovem, o que deveria ser mais ou menos a mesma coisa. Ela olhou de relance para as duas irmãs. Nessarose em seus sapatos deslumbrantes estava na cadeira, as narinas se dilatando em medo ou excitação. Elphaba, do outro lado, parecia tão impassível e contrariada como sempre.

“Vocês vivem num pequeno útero aqui, num pequeno ninho bem prote­gido, garota com garota. Oh, eu sei que vocês têm uns garotos bobos sempre por perto, coisas desprezíveis. Bons para uma coisa só e nem para esta são muito confiáveis. Mas, estou digressionando. Devo dizer é que vocês sabem pouco ou nada da situação do país hoje. Vocês não têm uma idéia do grau de inquietação a que as coisas chegaram. Comunidades marginalizadas, grupos étnicos uns contra os outros, banqueiros contra fazendeiros e fábricas contra lojas. Oz é um vulcão fervilhante ameaçando entrar em erupção e queimar­-nos com seu próprio pus venenoso.

“Nosso Mágico parece forte o bastante para enfrentar isso. Ah, mas será mesmo? Ele tem o domínio da política interna. Ele não é frouxo nas negocia­ções de taxas de câmbio com as sanguessugas de Ev ou Jemmicoe ou Fliann. Ele governa a Cidade Esmeralda com uma diligência e uma habilidade que o decadente e arrogante clã de Ozma nunca nem sonhou possuir. Sem ele, teríamos sido varridos para longe por uma chuva de fogo, há anos. Não de­vemos ficar senão agradecidos. Um pulso forte faz maravilhas numa situação de decadência. Caminhe suavemente, mas leve junto um bom porrete. Vejo que estou sendo ofensiva. Bem, um homem é sempre bom quando julgado pela face externa do poder, não é?

“Sim. Mas as coisas não são sempre como parecem ser. E ficou claro, de repente, que o saco de truques do Mágico não funcionará para sempre. Há no horizonte iminentes levantes populares ― daquele tipo insensível, estúpido, no qual pessoas fortemente obtusas se deliciam em ser mortas em considera­ção a mudanças políticas que serão revertidas dentro de uma década. É uma coisa que dá um tal significado a vidas insignificantes, não é? Não se pode imaginar nenhum outro motivo para isso. De qualquer modo, o Mágico pre­cisa de novos agentes. Ele tem necessidade de alguns generais. Pessoas com habilidades para exercer o poder. Pessoas com iniciativa.

“Em resumo, mulheres.”

“Eu chamei vocês três aqui. Vocês não são mulheres ainda, mas o mo­mento em que serão está se aproximando, mais depressa do que possam ima­ginar. A despeito de minha opinião quanto ao comportamento de vocês, tive de escolhê-las. Há em vocês muito mais do que aquilo que os olhos podem ver. Senhorita Nessarose, sendo a mais jovem, você é a mais indecifrável para mim, mas, assim que superar esse encantador hábito da fé, vai desenvolver uma autoridade feroz. Seu defeito corporal não conta aqui. Senhorita Elpha­ba, você é um caso isolado, e mesmo com minha fala cativante, fica aí rumi­nando desprezo por tudo que eu digo. Isso é evidência de um grande poder interior e força de vontade, uma coisa que respeito profundamente mesmo quando dirigida contra mim. Você não mostrou sinal algum de interesse por feitiçaria e não afirmo que você tenha qualquer aptidão natural para isso. Mas sua esplêndida atitude e espírito de lobo solitário pode ser utilizada, oh sim se pode, e você não precisará viver uma vida de fúria reprimida. E Senhorita Glinda: você se surpreendeu com os talentos que possui para a feitiçaria. Eu sabia que ia surpreender-se. Eu tive a esperança de que suas inclinações pudessem contagiar a Senhorita Elphaba, mas o fato de elas não terem con­tagiado é a prova mais firme do caráter de ferro da Senhorita Elphaba.

“Vejo em seus olhos que você questiona meus métodos. Você pensa, um tanto revoltada: será que a Horrível Morrible não terá feito o prego perfurar o pé de minha Ama Clutch, fazendo com que eu fosse forçada a dividir um quarto com Elphaba? Ela não terá feito Ama Clutch descer para encontrar o Bode morto, a melhor maneira de tirá-la do caminho e assim colocar a Babá e Nessarose no cenário? Quanta lisonja a senhora ainda pensar que eu tenho tal poder.”

A Diretora fez uma pausa e quase ficou ruborizada, o que nela era al­guma coisa tão difícil quanto o separar da nata numa chama muito elevada. “Sou uma subordinada a serviço de superiores”, ela continuou, “e meu talento especial é estimular o aparecimento de talentos. A meu próprio modo mo­desto, a vocação para a educação me chamou, e aqui faço minhas pequenas contribuições à história.

“Agora, para ser mais específica. Quero que vocês reflitam sobre seus futuros. Eu gostaria de chamá-las, de batizá-las como se fossem um Trio de Adeptas. Nessa trajetória, gostaria de designá-las para missões ministeriais de bastidores nas diferentes partes do país. Fui investida de poder para fazer isso, lembrem-se, por aqueles cujas solas de botas eu não sou digna de lamber.” Mas ela parecia presunçosa, como se no fundo se julgasse muito digna sim da atenção dessas forças misteriosas. “Vamos dizer que vocês serão parceiras secretas do mais alto nível do governo. Vocês serão anônimas embaixadoras da paz, ajudando a restringir os elementos insubordináveis entre nossas po­pulações civilizadas. Nada foi decidido ainda, é claro, e vocês têm direito a dizer algo sobre a questão, dizer a mim, e a ninguém mais que seja, como foi traçado ― mas gostaria que vocês refletissem sobre isso. Eu preciso ― even­tualmente ― colocar uma Adepta em algum ponto estratégico de Gillikin. Senhorita Glinda, com sua posição social de médio alcance e suas ambições transparentes, você pode se ajustar tanto aos bailes de margraves quanto estar à vontade em chiqueiros. Oh, não se embarace assim, você tem sangue bom apenas por um lado e nem é uma linhagem tão refinada. A Adepta de Gillikin, Senhorita Glinda? Não cairá bem?”

Glinda apenas ouvia. “Senhorita Elphaba”, disse Madame Morrible, “cheia do desprezo adolescente que vem da posição herdada, você é, todavia a Terceira Descendente do Thropp, e seu bisavô, o Eminente Thropp, já está senil. Um dia herdará o que restou de Solos de Colwen, o pretensioso reduto em Pedras do Ninho, e poderia ajustar-se no papel da Adepta de Munchkin. A despeito da infeliz condição de sua pele ― na realidade, talvez em razão dela ― você desenvolveu um voluntarismo e uma iconoclastia que têm um apelo dis­creto quando não inspiram repulsas. Isso será proveitoso. Acredite em mim.”

“E Senhorita Nessarose”, ela continuou, “tendo sido criada no Estado de Quadling, você quererá retornar para lá com a Babá. A situação social em Quadling é uma total confusão, que dizer de um décimo da população anfíbia esborrachada, mas pode melhorar, em certa medida, e vai precisar haver alguém lá para supervisionar as minas de rubi. Precisamos de alguém para cuidar das coisas lá no Sul. Assim que você se recuperar de sua mania religiosa, será um arranjo perfeito. Você não espera viver na alta sociedade de modo algum, não sem braços. Afinal, como conseguiria dançar?

“Quanto ao Vinkus, não achamos que precisaremos de uma Adepta posicionada lá, ao menos não durante as suas existências. Os planos princi­pais deixam de fora qualquer povoamento apreciável naquele lugar esquecido por Deus.”

Aqui a Diretora parou de falar e olhou ao redor. “Oh, garotas. Sei que são jovens. Sei o quanto isso as aflige. No entanto, não precisam ver isso como uma sentença de prisão, mas como uma oportunidade. Perguntem a si mesmas: como poderei chegar a uma posição de proeminência e responsabi­lidade, embora silenciosa? Como poderão meus talentos desabrochar? Como, minhas queridas, como eu poderei ajudar meu Oz?”

O pé de Elphaba se mexeu, atingiu a ponta de uma mesa lateral, e uma xícara com pires caiu no chão e se espatifou.

“Vocês são tão previsíveis”, disse Madame Morrible, suspirando. “E isso que faz meu trabalho tão fácil. Agora, garotas, presas como estão a um jura­mento de silêncio, peço-lhes que se retirem e meditem sobre o que eu disse. Por favor, nem mesmo tentem discutir a coisa juntas, ou isso lhes dará dor de cabeça e cólicas. Não conseguirão fazer isso. Em algum dia do próximo semestre chamarei cada uma de vocês aqui e vocês me darão a resposta. E se vocês escolherem não ajudar o seu país nesta hora de necessidade...”. Ela apertou suas mãos numa paródia de desespero. “Bem, vocês não são os únicos peixes que há no mar, são?”

A tarde havia se tornado ameaçadora, com montículos de nuvens cor de ameixa ao norte, aparecendo no céu mais para além das agulhas e cam­panários das torres de pedras azuis. A temperatura caíra vinte graus des­de o início da manhã, e as garotas conservavam seus xales bem apertados enquanto caminhavam em direção ao boteco. A Babá, tremendo ao vento tempestuoso, gritou: “E o que a velha intrometida tinha a dizer que eu fui proibida de ouvir?”.

Mas, não havia nada que pudessem dizer. Glinda não conseguia nem olhar para as outras. “Ergueremos um copo de champanhe para Ama Clutch”, disse Elphaba finalmente, “quando chegarmos ao Pêssego e Rins.”

“Eu pedirei uma colher cheia de creme verdadeiro”, disse a Babá. “Que mão-de-vaca aquela velha porca é. Não tem respeito pelos mortos.”

Mas Glinda achava que a fala da Madame tivera um efeito mais pro­fundo, cortara mais fundo do que ela podia entender. Não era apenas que elas não podiam comentar a respeito. Ela já começara a sentir mais ― não encontrando palavras, vacilando em seus pensamentos, falhando em relacio­nar a entrevista à sua memória. Havia a tal proposta. Era uma proposta, não era? De alguma questionável tarefa no (não era isso?) serviço civil? Fazendo alguma coisa ― dançar nos bailes, o que não fazia muito sentido. Um tanto de risada, um copo de champanhe, um belo homem tirando a faixa da cin­tura e pressionando os punhos engomados sobre seu pescoço, enxugando as lágrimas em formas de rubis de seus olhos... Fale macio, mas carregue um porrete grande. Ou não era uma proposta, mas uma profecia? Um pequeno encorajamento amigável para alguma coisa futura? E ela estava sozinha, as outras não tinham escutado. Madame Morrible falara diretamente com ela. Uma prova adorável do... potencial de Glinda. A oportunidade de subir na vida. Caminhe suave, mas case com um bem-dotado. Um homem tirando a sua gravata de noite numa cama, pegando seus botões de diamantes, em­purrando-os com o nariz pelo declive da parte superior de seu pescoço... Era um sonho, Madame Morrible não devia ter dito isso! Ela devia estar confusa de aflição. Pobre Ama Clutch. Tinha tido apenas uma discreta palavra de condolência da querida e devotada Diretora, que achava tão difícil falar em público. Mas a língua de um homem entre as suas pernas, uma colher cheia de creme de açafrão...

Nessarose disse: “Peguem-na, eu não posso, eu sou...”, e ela caiu so­bre o peito da Babá, e Glinda desmaiou ao mesmo tempo. Elphaba lançou os braços fortes e apanhou Glinda no meio do desmaio. Glinda não havia perdido a consciência de fato, mas a desconfortável proximidade física do rosto rapace de Elphaba depois desse indesejável ato de desejo fazia com que sentisse vontade de tremer de repugnância e ronronar ao mesmo tempo. “Fique firme, garota, aqui não”, disse Elphaba, “resista, vamos!”. Resistir era exatamente o que Glinda não queria fazer. Mas, afinal, na sombra de uma carroça de maçãs, perto do mercado onde os mercadores vendiam o último peixe do dia, baratinho, bem, não era bem o melhor lugar. “Vamos, vê se endurece”, disse Elphaba, parecendo puxar as palavras do fundo da garganta. “Vamos, Glinda ― você tem boa cabeça ― vamos lá! Eu te amo muito, sai dessa, sua idiota!”

“Bem, realmente”, ela disse, enquanto Elphaba a colocava numa pilha de palha de embrulho mofada. “Não precisa ser tão romântica assim!” Mas ela se sentiu melhor, como se uma onda de mal-estar tivesse acabado de passar.

“Vocês, garotas, eu lhes digo, esses desmaios, eles vêm desses sapatos apertados”, disse a Babá, zangando-se e afrouxando os sapatos glamorosos de Nessarose. “Gente sensível deve usar couro ou madeira.” Ela massageou os peitos dos pés de Nessarose por um momento, e Nessarose gemeu e arqueou suas costas, mas começou a respirar normalmente em alguns minutos.

“Bem-vindas de volta a Oz”, disse a Babá daí a pouco. “Que comidinhas vocês todas andaram beliscando, lá com a Diretora?”

“Vamos, eles estão esperando”, disse Elphaba. “Não faz sentido ficar demorando. De todo jeito, estou com medo que comece a chover.”

No Pêssego e Rins, o resto da turma havia confiscado uma mesa na alcova a vários degraus acima do primeiro piso. Eles estavam bem entretidos com suas taças àquela altura da tarde, e estava claro que lágrimas haviam sido derramadas. Avaric estava encostado preguiçosamente a uma parede de tijolos do antro de estudantes, os braços em torno de Fiyero e suas pernas estendidas no colo de Shenshen. Boq e Crope discutiam sobre alguma coisa, picuinha, e Tibbett estava cantando uma canção interminável para Pfannee, que parecia mais era sentir vontade de atirar um dardo na polpa de sua coxa. “Ahhh, as mulheres”, grunhiu Avaric, e fez como se fosse levantar.

Eles cantavam e tagarelavam e pediam sanduíches, e Avaric deixou cair um número exagerado de moedas para pagar uma salva de creme de açafrão, em memória de Ama Clutch. O dinheiro fez maravilhas e o creme foi encon­trado na despensa, o que deu a Glinda um sentimento de desconforto, embora ela não soubesse por quê. Eles punham os montinhos de terra voadores com colheres nas bocas uns dos outros, esculpiam com eles, misturavam-nos no champanhe, lançavam-nos em bolinhas uns sobre os outros, até que o gerente do bar viesse e lhes dissesse para pararem com a bagunça. Eles obedeciam, resmungando. Não sabiam que era a última vez que estariam todos juntos, senão teriam ficado um pouco mais.

Uma chuva rápida viera e se fora, mas as ruas ainda estavam barulhentas devido às enxurradas, e a luz das lâmpadas cintilava e dançava nos montícu­los saltitantes de água de um negro prateado entre as pedras. Imaginando o possível bandido a vagar pelas sombras, ou o andarilho faminto emboscado ali por perto, eles ficavam bem juntos uns dos outros. “Eu tenho uma idéia”, disse Avaric, pondo um pé aqui e outro ali, como se fosse flexível feito um homem de palha. “Quem é homem o bastante para ir ao Clube de Filosofia nesta noite?”

“Oh, não, você não”, disse a Babá, que não bebera muito.

“Eu quero ir”, Nessarose lamentou, mais bamba que o habitual.

“Você nem sabe o que isso é”, disse Boq, dando uma risadinha e um soluço.

“Eu não me importo, eu não quero ir embora”, disse Nessarose. “Nós só temos uns aos outros, e eu não quero ser abandonada, e eu não quero ir para casa!”

“Quieta, Nessa, quieta, quieta, minha linda”, disse Elphaba. “Aquilo não é lugar para você, nem para mim. Venha, vamos para casa. Glinda, venha.”

“Eu não tenho mais Ama agora”, disse Glinda, de olhos arregalados, esticando um dedo ameaçador sobre Elphaba. “Eu sou minha própria agente. Eu quero ir para o Clube de Filosofia e ver se é verdade.”

“O resto pode fazer o que quiser, mas nós vamos para casa”, disse El­phaba.

Glinda desviou-se de Elphaba, que se dirigia a um Boq que aparenta­va muita incerteza. “Agora, Boq, você não quer ir àquele lugar desagradável, quer?” Elphaba dizia. “Vamos lá, não deixe os rapazes obrigarem você a fazer uma coisa que não deseja.”

“Você não me conhece”, ele disse, parecendo dirigir a palavra mais para um poste de amarrar animais. “Elfinha, como você sabe o que eu quero? A menos que eu próprio descubra? Hmmm?”

“Venha conosco”, disse Fiyero para Elphaba. “Por favor, se nós lhe pe­dirmos educadamente?”

“Eu quero ir também”, gemeu Glinda.

“Oh, venha, Glindinha”, disse Boq, “talvez eles levem a gente. Em con­sideração aos velhos tempos, que nunca existiram.”

Os outros tinham despertado um sonolento condutor de carruagem de aluguel e contratado seus serviços. “Boq, Glinda, Elfinha, venham”, Avaric chamou da janelinha. “Cadê a coragem de vocês?”

“Boq, pense bem nisso”, Elphaba pressionava.

“Eu sempre penso, eu nunca sinto, eu nunca vivo”, ele gemeu. “Não posso simplesmente viver de vez em quando? Uma vez só? Só porque sou baixo não sou uma criança, Elfinha!”

“Não até agora”, disse Elphaba. Meio falsa hoje, pensou Glinda, e se retorceu toda para subir no carro de aluguel. Mas Elphaba agarrou-a pelo cotovelo e a girou. “Você não pode”, ela sussurrou. “Nós vamos para a Cidade Esmeralda.”

“Eu vou ao Clube de Filosofia com meus amigos...”

“Nesta noite”, sibilou Elphaba, “sua pequena idiota, nós não temos tem­po a desperdiçar com sexo!”

A Babá já havia levado Nessarose embora, e o condutor estalou suas rédeas e o veículo moveu-se pesadamente e afastou-se. Glinda tropeçou e disse: “Que você estava quase para dizer? O que ia dizer?”.

“Eu já disse e não vou dizer de novo”, disse Elphaba. “Minha querida, eu e você vamos voltar a Crage Hall nesta noite apenas para arrumar uma valise. Depois, cairemos fora.”

“Mas os portões estarão fechados...”

“Vamos sair pelo muro da horta”, disse Elphaba, “e vamos ver o Mágico, haja o que houver e aconteça o diabo que acontecer.”

7
Boq não podia acreditar que finalmente estava indo ao Clube de Filosofia. Ele esperava não vomitar num momento crucial. Esperava lembrar-se da coisa toda no dia seguinte, ou ao menos de algum grãozinho fundamental dela, apesar da dor de cabeça que se formava vingativamente nos ocos de suas têmporas.

O lugar era discreto, embora fosse a espelunca mais conhecida de Shiz. Ocultava-se sob uma fachada de janelas com painéis. Dois Macacos de chá­cara vagavam vigilantes na rua defronte, dando porradas em causadores de problemas que tinham ficado até fora de hora. Avaric contou os integrantes do grupo conforme iam apeando da carruagem. “Shenshen, Crope, eu, Boq, Tibbett, Fiyero e Pfannee. Rapaz, como nós todos coubemos nesse carro em que nunca caberíamos, dá o que pensar.” Pagou o condutor e lhe passou uma gorjeta, ainda em alguma obscura homenagem a Ama Clutch, e então foi para a frente do grupo de companheiros. “Vamos, estamos na idade certa e no ponto certo de embriaguez”, ele disse, e disse ao rosto oculto nas sombras da janela: “Sete. Somos sete, bom senhor”.

O rosto apontou fora do vidro e olhou de soslaio para ele. “O nome é Yackle, e eu não sou nem senhor nem sou bom. Que tipo você quer nesta noite, Senhor Fulano?” Quem falava através do painel era uma idosa, com dentes escassos e uma brilhante peruca branca e rosa que caía por um lado de sua calva perolada.

“Tipo?”, disse Avaric, e, então, ostentando mais coragem: “Qualquer tipo”

“Eu quero dizer os ingressos, pão docinho. Fazer pose e tocar desafina­do no salão, ou armar um puteiro nas velhas adegas?”

“Tudo que houver”, disse Avaric.

“Você compreende as regras da casa? As portas fechadas, a política de você-só-brinca-se-pagar?”

“Dê-nos sete ingressos, e vamos logo com isso. Não somos bobos.”

“Vocês nunca são bobos”, disse a mulher bestial. “Bem, então aqui estão vocês, e venha o que vier. Ou quem vier.” Ela afetou uma postura de virtuosa, como se fosse a pintura de uma santa virgem unionista. “Entrem e sejam salvos.”

A porta se abriu, e eles desceram um lance de degraus de tijolos irregu­lares. No patamar do lance havia um anão que carregava um albornoz roxo. Ele olhou para seus ingressos e disse: “De onde vocês são, almofadinhas? De fora da cidade?”.

“Somos todos da universidade”, disse Avaric.

“Uma turminha eclética. Bem, vocês têm ingressos com sete-de-dia­mantes. Vejam aqui, os sete diamantes vermelhos da ilustração, e aqui.” Ele disse: “Tomem um drinque na casa, vejam o show da mulher, e dancem um pouco se quiserem. A cada hora, mais ou menos, eu fecho esta porta para a rua e abro a outra”. Ele apontou para uma enorme porta de carvalho, barrada com duas monstruosas vigas fechadas por argolas de cadeados de ferro.” Vo­cês entram todos juntos ou não vão entrar de jeito nenhum. Essa é a regra da casa.”

Havia uma cantora cantando uma imitação de “O que será de Oz sem Ozma”, e zombando de si mesma com um boá de plumas cor de papagaio. Uma pequena banda de elfos ― elfos verdadeiros! ― soprava e arranhava em minúsculo acompanhamento. Boq nunca tinha visto um elfo, embora sou­besse que havia uma colônia deles não muito longe de Margens Agitadas. “Que esquisito”, ele disse, seguindo em frente. Eles pareciam macacos sem pêlos, e nada vestiam exceto pequenos bonés vermelhos, não apresentando características sexuais avaliáveis. Eram verdes como o pecado. Boq se virou para dizer: Olhe, Elfinha, é como se você tivesse tido uma boa ninhada de bebês, mas ele não a viu e aí se lembrou de que ela não tinha vindo. Nem Glinda, pelo jeito. Maldição.

Eles dançaram. A multidão era a mais heterogênea que Boq já vira na vida. Havia Animais, humanos, anões, elfos, e várias coisas robóticas de gênero incompleto ou experimental. Um esquadrão de rapazes louros bem apanhados circulava com canecos de vinho ordinário, que os amigos bebiam porque era gratuito.

“Eu não sei se eu quero fazer alguma coisa mais audaciosa que isto”, disse Pfannee para Boq a uma certa altura. “Quero dizer, olhe, aquela namo­rada de um Babuíno está quase pelada. Talvez seja o que chamamos de uma grande noite.”

“Você acha?”, disse Boq. “Quero dizer, eu estou na jogada, mas se você se sente incomodada...”. Oh, hurra, uma saída. Ele se sentia incomodado tam­bém. “Bem, vamos atrás do Avaric. Ele está por aí conduzindo a Shenshen.”

Mas, antes que eles pudessem abrir caminho na pista de dança apinha­da de gente, os elfos começaram a emitir um grito agourento de bruxa, e a cantora lançou os quadris para a frente e disse: “Este é o chamado de acasa­lamento, bonecos! Senhoras e gentis amigos! Vamos fazer, e eu quero dizer fazer mesmo” ― ela lia uma anotação em sua mão ― “carta seis de paus preta, três de paus preta, seis de copas vermelha, sete de diamantes vermelha, e ― em sua lua-de-mel, não é um doce?” ― ela simulou gagueira ― “dois de espadas preta. Vamos lá pra toca da felicidade infinita, gentis galináceos”.

“Avaric, não”, disse Boq.

Mas a idosa lá da frente, que se chamava Yackle, veio agitada pelo salão ― tendo, ao que tudo indicava, fechado a porta temporariamente ― e ela lembrou aos possuidores as cartas designadas, e os nomeou com um sorriso. “Montarias e cavaleiros, preparem-se”, ela disse, “aqui estamos, no finalzinho da noite! Alegrem-se, rapazes, não é um funeral, é uma diversão!” Tinha sido um funeral, Boq se lembrou, tentando invocar o caloroso, abnegado espírito de Ama Clutch. Mas o tempo de fugir, se esse tempo chegara a existir, havia passado.

Eles foram varridos para dentro das portas de carvalho e foram entran­do por uma passagem ligeiramente inclinada cujas paredes eram revestidas de veludo vermelho e azul. Uma alegre canção estava sendo executada mais adiante, uma melodia de dança sincopada. Um cheiro de folhas de tomilho assadas ― doce e envolvente, você quase podia senti-las abrindo suas bordas arroxeadas. Yackle os levava, e os vinte e três festeiros seguiam, num confuso estado de apreensão, exaltação e tesão. O anão seguia logo atrás. Boq tentava se manter frio, tanto quanto sua mente trôpega lhe permitia. Um Tigre ereto, usando botas altas e uma capa. Um par de banqueiros e suas consortes da noite, todos usando máscaras negras: como proteção contra chantagem ou como afrodisíaco? Um grupo de comerciantes de Ev e Fliann, a negócios na cidade. Um par de mulheres de dentes mais ou menos longos, enfeitadas como uma joalheria. O casal em lua-de-mel era de Glikkus. Boq esperava que sua turma não fosse tão debilóide quanto os dois. Quando lançou um olhar ao redor, viu que apenas Avaric e Shenshen pareciam ansiosos ― e Fiyero, talvez porque ele não tivesse ainda compreendido o que era aquilo. Os outros pareciam pouco mais que enjoados.

Eles entraram num pequeno teatro circular escuro, com o espaço para o público dividido em seis compartimentos. Acima, o teto se dissolvia numa escuridão de pedra. Velas finas e longas tremulavam, e uma música abafa­da era transmitida através das fissuras na parede, fazendo ainda maior uma atmosfera extraterrena de deslocamento e estranheza. Os compartimentos circundavam e davam de frente para o palco central, que estava coberto por um cortinado negro. Os compartimentos eram separados um do outro por tiras verticais de madeira de treliça e ripas de espelho. Todos os grupos es­tavam se misturando, todos os amigos e companheiros se separavam. Havia incenso no ar também? Ele parecia fazer a mente de Boq se partir ao meio, como palha de milho, e permitir que uma mente mais amena, mais compla­cente, emergisse. O mais suave, o mais vulnerável aspecto, a intenção oculta, o eu submisso.

Ele sentiu que estava cada vez menos e menos consciente, e que era mais e mais belo ficar assim. Por que ele ficara alarmado? Estava sentado num tamborete, e em volta dele no compartimento se encontravam, quase sobrenaturalmente próximos, um homem de máscara negra, uma Áspide que ele não notara antes, o Tigre cujo hálito chegara quente e carnoso em seu pescoço, uma bela colegial, ou era aquela noiva na noite de núpcias? Teria o compartimento todo se inclinado para a frente, como um balde suavemente oscilante? De qualquer modo, eles se encostavam juntos no tablado central, que era um altar de véus e sacrifícios. Boq afrouxou o seu colarinho e depois o seu cinto, sentiu o vivo apetite entre o coração e o estômago e o conseqüente enrijecimento do aparato lá embaixo. A música de flautas e assobios era para­lisante, ou era ele que observava e esperava e respirava tão, tão lentamente que a secreta área do seu interior, onde nada importava, deixava cair seu manto?

O anão, agora com um capuz mais escuro, apareceu no palco. De seu ponto vantajoso, ele podia ver todos os compartimentos, mas os farristas, se­parados em cada um deles, não podiam ver-se uns aos outros. O anão se inclinou e tocou uma mão ou outra que aqui e ali lhe dava boas-vindas, acenando. Chamou uma figura de mulher que estava num compartimento, de um outro chamou um homem (seria Tibbett?) e, no compartimento onde Boq estava, gesticulou para o Tigre. Boq sentiu pouco não haver sido escolhido quando viu o anão passar um frasco fumegante nas narinas dos três acólitos, e ajudá­-los a tirar as suas roupas. Havia algemas, e uma bandeja de óleos aromáticos e emolientes, e um baú cujo conteúdo permanecia misterioso. O anão colocou vendas negras em torno das cabeças dos engajados.

O Tigre andava de quatro e rosnava suavemente, atirando sua cabeça para a frente e para trás em aflição ou excitação. Tibbett ― pois era ele, embora quase inconsciente ― foi estendido de costas no piso do palco. O Tigre andou em largas passadas sobre ele e permaneceu impassível quando o anão e seus assistentes amarraram seus pulsos no peito, e seus tornozelos no pélvis do Tigre, de modo que Tibbett ficou pendurado à barriga do Tigre, como se fosse um porco no espeto, seu rosto enfiado no pêlo do peito do Animal.

A mulher foi colocada num tamborete virado, quase como uma enorme tigela inclinada, e o anão enfiou alguma coisa aromática e ágil nas regiões ocultas. Então, o anão apontou para Tibbett, que começava a se contorcer e gemer no peito do Tigre. “X agora será o Deus Inominável”, disse o anão, empurrando Tibbett pelas costelas. Depois, bateu no flanco do tigre com um chicote de montaria, e o Tigre avançou com esforço, colocando sua cabeça entre as pernas da mulher. “Y será o Dragão do Tempo em sua caverna”, disse o anão, batendo no Tigre outra vez.

Enquanto prendia a mulher numa meia-concha, esfregando os bicos de seus seios com uma pomada brilhante, passava a ela o chicote de montaria com o qual ela poderia açoitar os flancos e o rosto do Tigre. “E Z será a Bruxa de Kumbric, e veremos se ela existe nesta noite...” A multidão chegou mais perto, quase todos participantes, e o excitante senso de aventura fazia-os arrancar seus próprios botões, morder os próprios lábios e ir se encostando mais, mais e mais.

“Tantas são as variáveis em nossa equação”, disse o anão enquanto o aposento ficava ainda mais escuro. “Agora, sim, vamos começar o verdadeiro e clandestino estudo do conhecimento.”


8
Os industriais de Shiz, desde o princípio um tanto cautelosos quanto ao poder crescente do Mágico, tinham escolhido não estender a linha ferroviária de Shiz à Cidade Esmeralda como fora originalmente planejado. Portanto, levava uns bons três dias de viagem ir de Shiz à Cidade Esmeralda ― e isso quando o tempo estava em seu melhor, para os abastados que podiam pagar por uma constante muda de cavalos. Para Glinda e Elphaba levou mais de uma semana. Uma semana árida, branqueada pelo frio, em que os ventos de outono arrancavam as folhas das árvores com um bramido seco e um chocalhar dos frágeis, lamurientos ramos.

Elas descansavam, como outros viajantes de terceira classe, nos quar­tos modestos sobre as cozinhas das tabernas. Num simples catre, elas se ajuntavam para obter calor e estímulo e, Glinda dizia a si mesma, proteção. Os homens que cuidavam dos cavalos murmuravam e gritavam na área de estábulo abaixo, as moças da cozinha iam e vinham, barulhentas, em horas importunas. Glinda se sobressaltava como se estivesse num sonho terrível, e se aninhava ainda mais em Elphaba, que parecia nunca dormir à noite. De dia, Elphaba atenuava as longas horas passadas em carruagens de péssimas molas encostando-se ao seu ombro. A terra lá fora parecia menos suculenta e variada. As árvores eram ranzinzas, como se lutassem para conservar a sua força.

Mais à frente, o árido cerrado se mostrava domado pelas terras de cul­tivo. Campos de pastagem eram manchados pela presença de vacas, com suas espáduas atrofiadas e secas, seu surdo desespero. Um vazio se instalara nas fazendas. Glinda viu uma fazendeira parada à porta de casa, as mãos profun­damente enfiadas nos bolsos do avental, o rosto marcado pela aflição e a raiva diante do céu inútil. A mulher viu a carruagem passar, e seu rosto demonstrou um anseio de seguir dentro dela, de estar morta, de estar em qualquer outro lugar, menos nessa carcaça do que fora uma propriedade.

As fazendas davam lugar a moinhos desertos e granjas abandonadas. Então, abrupta e decisiva, a Cidade Esmeralda ergueu-se diante delas. Uma cidade de insistência, de afirmação abrangente. Não fazia sentido, cobrindo o horizonte, brotando como uma miragem nas terras planas monótonas da Oz central. Glinda odiou-a desde o primeiro momento em que a viu. Cidade presunçosa como um novo-rico. Ela supôs que era a sua superioridade gilli­kinesa que reagia. Ela estava contente por isso.

A carruagem passou por um dos portais do norte, e o tumulto da vida se ergueu novamente, mas numa clave urbana, menos restrita e indulgente que aquela de Shiz. A Cidade Esmeralda não se divertia consigo mesma, nem considerava a diversão uma atitude adequada a uma cidade. Sua autoconsi­deração elevada se refletia nos espaços públicos, praças cerimoniais, parques e fachadas e lagos espelhados. “Que imaturidade, que ausência de ironia” murmurou Glinda. “A pompa, a pretensão!”

Mas Elphaba, que tinha passado uma vez apenas pela Cidade Esmeral­da, a caminho de Shiz, não tinha interesse algum por arquitetura. Seus olhos estavam grudados nas pessoas. “Não há Animais”, ela disse, “não que você possa ver, ao menos. Talvez tenham ido todos para os subterrâneos.”

“Subterrâneos?”, disse Glinda, pensando em ameaças lendárias como o Rei Gnomo e sua colônia do subsolo, ou anões em suas minas de Glikkus, ou o Dragão do Tempo dos velhos mitos, sonhando o mundo de Oz lá de sua tumba fechada.

“Nos esconderijos”, disse Elphaba. “Veja, os pobres ― quero dizer, serão eles os pobres? Os famintos de Oz? Saídos das fazendas falidas? Ou eles são apenas ― o excedente? A descartável perfumaria humana? Olhe para eles, Glinda, essa é uma questão real. Os quadlings, mesmo não tendo nada, pareciam ― mais ― que estes...”

Longe do bulevar, quando começaram a trilhar aléias ramificadas, viram folhas de lata e papelão servindo como tetos para o dilúvio de indigentes. Muitos deles eram crianças, embora alguns fossem os minúsculos munchki­neses, e alguns fossem anões, e alguns fossem gillikineses vergados pela fome e pela seca. A carruagem se movia lentamente, e os rostos se erguiam. Um jovem glikkunês sem dentes e sem pés ou barrigas da perna, com seu coto de joelhos, dentro de uma caixa, mendigando. Uma quadling. “Olhe, uma quadling!”, disse Elphaba, agarrando o pulso de Glinda. Glinda teve o vis­lumbre de uma mulher de um vermelho queimado que usava um xale e que erguia uma pequena maçã para uma criança que estava pendurada numa tira em torno de seu pescoço. Três garotas gillikinesas vestidas como mulheres de aluguel. Mais crianças num amontoado, correndo e guinchando como porquinhos, arremetendo-se sobre um mercador, para bater a sua carteira. Mercadores esfarrapados empurrando carriolas. Guardas de quiosques cujas mercadorias ficavam trancadas sob grades de segurança. E uma espécie de milícia civil, se podia ser chamada assim, perambulando aos quartetos em cada quarteirão, brandindo porretes e espadas.

Pagaram o dono da carruagem e caminharam com seus pacotes de rou­pas em direção ao Palácio. Este se erguia, de um modo recuado, uma constru­ção de domos e minaretes, botaréus ostensivos no mármore verde, biombos de ágata azul nas janelas intervaladas. Centrais e mais destacados, os amplos e suaves dosséis do pagode se erguiam junto à Sala do Trono, cobertos por trabalhadas escamas de ouro puro, brilhantes na luz da tarde que se esvaía.

Cinco dias depois tinham passado pelo guardião do portal, pelas recep­cionistas e pela secretaria social. Tinham ficado horas a fio esperando por uma entrevista de três minutos com o Comandante-Geral das Audiências. Elphaba, com uma expressão dura, contraída, em seu rosto, ensaiara expelir as palavras “Madame Morrible” de seus lábios grampeados. “Amanhã às onze horas”, disse o Comandante-Geral. “Vocês terão direito a quatro minutos entre o Embaixador de Ix e a Matrona da Brigada de Nutrição da Guarda Social do Lar das Senhoras. É preciso observar o código de vestimenta.” Ele passou a ela um cartão de regulamentos que, estando elas desprovidas de traje social, foram obrigadas a ignorar.

Às três da tarde seguinte (tudo se atrasava), o Embaixador de Ix deixou a Sala do Trono parecendo agitado e raivoso. Glinda afofou as plumas arrui­nadas de seu chapéu de viagem pela octagésima vez, e suspirou: “Agora é você quem dirá o que deve ser dito”. Elphaba concordou. Para Glinda, ela parecia cansada, assustada, mas forte, como se sua constituição fosse de ferro e uísque em vez de osso e sangue. O Comandante-Geral de Audiências apareceu à entrada da porta do salão de espera.

“Vocês têm quatro minutos”, ele disse. “Não se aproximem até que sejam autorizadas a fazê-lo. Não falem, a menos que a palavra lhes seja dirigida. Não se metam a dar palpite a menos que seja para responder a um comentário ou a uma pergunta. Vocês podem se referir ao Mágico como ‘Sua Alteza’.”

“Isso me soa bem régio. Eu pensei que a monarquia havia sido...” Mas aí Glinda deu uma cotovelada em Elphaba para fazê-la calar-se. Realmente, Elphaba perdia o bom senso, de vez em quando. Elas não tinham chegado tão longe para serem expulsas devido a um radicalismo adolescente.

O Comandante-Geral não pareceu ter notado nada. Enquanto se apro­ximavam de um cenário de altas portas duplas, entalhadas com sinais sigilosos e outros hieróglifos ocultos, o Comandante-Geral mencionou: “O Mágico não está de bom humor hoje devido a notícias de uma rebelião no distrito de Ugabu no norte do Estado de Winkie. Eu ficaria preparado para o pior, se fosse vocês”. Dois estóicos guardas abriram as portas, então, e elas entraram.

Mas o trono não se estendia diante delas. Em vez disso, a antecâmara conduzia à esquerda, e depois da arcada havia uma outra, e outra. Era como olhar através do reflexo de um corredor de espelhos em que estes ficassem de frente um para o outro; dava uma desorientação interior. Ou, pensou Glinda, como passar pelas estreitas, tortuosas câmaras de um submarino. Elas per­correram o circuito de oito ou dez salões, cada um ligeiramente menor que o outro, cada um impregnado de uma luz coalhada que vinha das vidraças centralizadas acima. Por fim, as antecâmaras terminavam numa arcada den­tro de uma sala circular cavernosa, mais alta do que ampla, e escura como uma capela. Prateleiras de arcaico ferro batido sustentavam archotes de cera de abelha moldada que ardiam numa profusão de pavios, e o ar era rarefei­to e ligeiramente farinhoso. O Mágico estava ausente, embora eles tivessem visto o trono num tablado circular, cravejado de esmeraldas que brilhavam foscamente à luz das velas.

“Ele saiu para ir ao toalete”, disse Elphaba. “Bem, esperaremos.”

Elas ficaram na arcada, não se atrevendo a ir além dali sem serem con­vidadas.

“Se temos apenas quatro minutos, espero que isso não conte”, disse Glinda. “Quero dizer, tomou-nos dois minutos chegar de lá até aqui.”

“Nesta altura...”, disse Elphaba, e então fez “Shhhh”.

Glinda se calou. Ela não achou que escutara alguma coisa, então não estava certa de nada. Não havia mudança que ela pudesse discernir na pe­numbra, mas Elphaba parecia um cão pointer em alerta. Seu queixo se pro­jetava, sua cabeça estava erguida e suas narinas dilatadas, os olhos escuros examinando furtivamente e arregalando-se para tudo esquadrinhar.

“O quê?”, disse Glinda, “o quê?”

“O som de...”

Glinda não ouvia sons, a menos que fosse o ar quente que emanava das chamas nas sombras arrepiantes que havia entre os escuros caibros. Ou era o farfalhar de roupões de seda? Seria o Mágico se aproximando? Ela olhava para uma e outra direção. Não ― havia um farfalhar, uma espécie de silvo, como o de toucinho estalando numa frigideira. As chamas das velas subitamente penderam todas, obedecendo a um vento irritado que vinha da área do trono.

Então, o tablado foi atingido por grossas gotas de chuva, e um estre­mecimento de trovão caseiro que afetasse mais caldeiras de cozinha que tím­panos. No trono havia um esqueleto de luzes dançantes; a princípio, Glinda pensou que fosse um relâmpago, mas daí ela notou que eram ossos luminosos enganchados uns nos outros para sugerir alguma coisa vagamente humana, ou ao menos mamífera. A armadura da costela se dobrou e abriu como duas mãos gastas, e uma voz falou na tempestade, não de dentro do crânio, mas do olho escuro da tempestade onde o coração da criatura fulgurante devia ficar, no tabernáculo da armadura.

“Eu sou Oz, o Grande e Terrível”, a coisa disse, e fez tremer a sala com seu próprio eflúvio. “Quem são vocês?”

Glinda olhou de relance para Elphaba. “Vamos lá, Elfinha”, ela disse, acotovelando-a. Mas Elphaba parecia aterrorizada. Bem, claro, era devido à chuva. Ela tinha esse problema com tempestades.

“Quemmm sãããooo vocêssss?”, bramiu a coisa, o Mágico de Oz, fosse o que fosse.

“Elfinha”, silvou Glinda. E então disse: “Oh, seu coisa inútil, que só conversa e ― eu sou Glinda de Frottica, tenha a bondade, Sua Alteza, des­cendo em linha materna dos Arduennas das Terras Altas, e esta ao meu lado, tenha a bondade, é Elphaba, a Terceira Descendente do Thropp de Pedras do Ninho. Tenha a bondade”.

“E se eu não tiver a bondade?”

“Oh, realmente, foi criancice”, disse Glinda, ofegante. “Elfinha, vamos, eu não consigo dizer por que a gente veio aqui!”

Mas o comentário banal do Mágico pareceu tirar Elphaba de seu terror. Ficando onde estava à entrada da sala, agarrando a mão de Glinda como apoio, ela disse: “Somos alunas de Madame Morrible em Crage Hall em Shiz, Sua Alteza, e estamos de posse de informações vitais”.

“Estamos mesmo?”, disse Glinda. “Obrigada por me contar.”

A pequena chuva pareceu cessar um pouco, embora o quarto estivesse escuro como se houvesse ocorrido um eclipse. “Madame Morrible, aquele paradigma de paradoxos”, disse o Mágico. “Informações vitais da parte dela, como?”

“Não”, disse Elphaba. “Isto é, não cabe a nós interpretar o que ouvimos. Fofoca não é coisa confiável. Mas...”

“Fofoca é instrutivo”, disse o Mágico. “Revela para que lado o vento está soprando.” O vento então soprava na direção das garotas, e Elphaba recuava mais para evitar ser molhada. “Vão em frente, jovens, podem contar a fofoca.”

“Não, disse Elphaba. “Estamos aqui para uma finalidade mais importante.”

“Elfinha!”, disse Glinda. “Você quer que nos ponham na cadeia?”

“Quem são vocês para decidirem o que é importante?”, rugiu o Mágico.

“Eu fico de olhos abertos”, disse Elphaba. “Você não nos chamou aqui para ouvir conversa fiada; nós viemos aqui com nossa própria agenda.”

“Como sabem que eu não chamei vocês aqui?”

Bem, elas não sabiam, especialmente depois do que quer que houvesse acontecido com elas no chá com Madame Morrible. “Abaixe a voz, Elfinha”, sussurrou Glinda, “você o está deixando furioso.”

“E daí?”, Elphaba disse. “Eu estou furiosa.” Ela ergueu a voz novamente. “Eu tenho notícias do assassinato de um grande cientista e pensador, Sua Alteza. Tenho novas de importantes descobertas que ele vinha fazendo, e da supressão dessas descobertas. Eu tenho todo interesse em procurar a justiça e eu sei que Sua Alteza também, pois as espantosas revelações do Doutor Dillamond o ajudarão a reverter seus recentes julgamentos sobre os direitos dos Animais...”

“Doutor Dillamond?”, disse o Mágico. “Isso é tudo de que você tem para falar?”

“É sobre uma população inteira de Animais sistematicamente privados de seus...”

“Eu sei do Doutor Dillamond e sei de seu trabalho”, disseram os ossos brilhantes do Mágico, rindo com desdém. “Lixo derivativo, inautêntico, en­ganador. O que se pode esperar de um Animal acadêmico. Baseado em duvi­dosas idéias políticas. Empirismo, charlatanismo, infantilidade. Choradeira, arenga e retórica. Você foi talvez contagiada pelo seu entusiasmo? Pela sua paixão de Animal?” O esqueleto dançou uma jiga, ou talvez fosse um espasmo de desagrado. “Conheço os interesses e as descobertas dele. Sei muito pouco do que você chama de seu assassinato e eu pouco me importo.”

“Não sou escrava de emoções”, Elphaba disse firmemente. Ela estava puxando papéis da manga de sua camisa, de onde aparentemente os trazia enrolados em torno do braço. “"Isto não é propaganda, Sua Alteza. Isto é uma bem articulada Teoria da Inclinação da Consciência, tal como ele a chama. E Sua Alteza ficará espantado ao ver suas descobertas! Nenhum governo bem pensante poderá se dar ao luxo de ignorar as implica...”

“Você presumir que eu seja bem pensante é tocante”, disse o Mágico. “Pode deixar as coisas aí mesmo onde você está. A menos que prefira se aproximar?” O marionete reluzente arreganhou os dentes e abriu os braços. “Meu bichinho?”

Elphaba deixou cair os papéis. “Bom, meu Senhor”, ela disse numa voz ferina, pretensiosa: “Eu vou continuar considerando-o bem pensante, pois, se não o fizer, serei obrigada a me engajar em algum exército contra o senhor.”

“Oh, diabos, Elfinha”, disse Glinda, e falou mais alto, “ela não fala em nome de nós duas, Sua Alteza. Sou uma pessoa independente aqui.”

“Por favor”, disse Elphaba, a um só tempo suave e dura, orgulhosa e suplicante. Glinda se deu conta de que nunca havia visto Elphaba querendo alguma coisa. “Por favor, senhor. A opressão sobre os Animais vai além do suportável. Não é apenas o assassinato do Doutor Dillamond. É a repatriação forçada, essa ― essa escravização de Bestas livres. O senhor deve sair daí e ver o sofrimento que é. Há conversas por aí ― há a preocupação de que o próximo passo será a carnificina e o canibalismo. Isso não é mero ultraje adolescente. Por favor, senhor. Não é apenas emoção desatada. O que está acontecendo é imoral...”

“Eu não escuto quando alguém usa a palavra imoral”, disse o Mágico. “Nos jovens ela é ridícula, nos velhos ela é sentenciosa e reacionária e um sinal precoce de apoplexia. Na meia-idade, quem ama e teme a idéia de uma vida moral acima de tudo, é hipócrita.”

“Se não for imoral, que palavra posso usar que signifique errado?”, disse Elphaba.

“Tente misterioso e então relaxe um pouco. O caso, minha garotinha verde, é que não cabe a uma jovem, ou a um estudante, ou a um cidadão decre­tar o que é errado. Isso é atributo dos líderes, a razão de nossa existência.”

“Bem, então, nada me impede de assassinar o senhor, se eu não sei o que é errado.”

“Eu não acredito em assassinato, eu nem mesmo sei o que isso significa”, Glinda interrompeu. “Eu vou é dar o fora agora, enquanto ainda estou viva.”

“Esperem”, disse o Mágico. “Eu tenho uma coisa a lhes perguntar.”

Elas pararam. Ficaram assim por minutos. O esqueleto dedilhava suas costelas, tocando-as como se fossem as cordas frágeis de uma harpa. A música soou como pedras revirando num leito de rio. O esqueleto tirou os dentes ilu­minados de suas mandíbulas e fez malabarismo com eles. Depois, lançou-os sobre o assento do trono, onde eles explodiram em lampejos coloridos como confeitos. A chuva estava abrindo um escoadouro no chão, Glinda notou.

“Madame Morrible”, disse o Mágico. “Agente provocadora e tagarela, amiga íntima e companheira, professora e sacerdotisa. Diga-me por que ela as mandou para aqui.”

“Ela não nos mandou”, disse Elphaba.

“Você ao menos sabe o significado da palavra penhor?”, gritou o Mágico.

“Você sabe o que significa resistência?”, Elphaba retrucou.

Mas o Mágico apenas riu, em vez de eliminá-las ali mesmo. “O que ela quer de vocês?”

Glinda retomou a fala; não era sem tempo. “Uma educação decente. Apesar de seus modos bombásticos, ainda assim ela é boa administradora. Não deve ser fácil.” Elphaba estava olhando para ela de um modo estranho e oblíquo.

“Ela explicou a vocês...”

Glinda não entendeu por completo. “Nós somos apenas secundaris­tas. Nós apenas começamos a nos especializar. Eu em feitiçaria, Elphaba em ciências da vida.”

“Entendo.” O Mágico pareceu parar para refletir. “E depois que se for­marem no próximo ano?”

“Eu suponho que voltarei para Frottica e me casarei.”

“E você?”

Elphaba não respondeu.

O Mágico girou, estendeu seus fêmures e golpeou o assento do trono como se este fosse um tímpano. “Realmente, está ficando ridículo, é tudo espetáculo de fé no prazer”, disse Elphaba. Ela deu um passo ou dois para diante. “Dá licença, Sua Alteza? Antes que nosso tempo se encerre?”

O Mágico se virou. Seu crânio pegava fogo, um fogo não abrandado pela cortina de chuva que ia se adensando. “Direi uma última palavra”, o Mágico arriscou, numa voz que soava como um gemido, a voz de alguém que sentisse dor. “Eu citarei, do Ozíada, o relato heróico da antiga Oz.”

As garotas esperaram.

O Mágico de Oz recitou:
“Então, geleira trôpega, a velha Kumbricia

Roça o firmamento nu até que chova sangue.

Arranca a pele do sol e a come em brasa.

Enfia a lua em foice em seu paciente bolso.

E a joga fora, como pedra falsa que cresceu.

Caco por caco ela rearranja o mundo.

Parece o mesmo, diz, mas já não é.

Parece o que esperavam, mas não é.”

“Cuidado com aqueles a que servem", disse o Mágico de Oz. E então se foi, e os regos no chão abriram-se em borbotões, e as velas foram imediata­mente apagadas. Não havia nada que pudessem fazer além de voltar sobre seus passos.

Na carruagem, Glinda tinha se instalado e feito um pequeno ninho para elas no desejável banco da frente, protegendo o lugar de Elphaba dos outros passageiros. “Minha irmã”, ela mentiu: “Estou guardando este lugar para a minha irmã”. E como mudei, ela pensou, em um ano e pouco. Passei do desprezo que tinha pela garota colorida a proclamar que pertencemos ao mesmo sangue! Assim, a vida universitária muda você realmente, de um modo que você não pode imaginar. Eu devo ser a única pessoa em toda Co­linas de Pertha a ter visto uma vez nosso Mágico. Não por meu próprio esforço, não por minha iniciativa ― mesmo assim, estive lá. Eu fiz a coisa. E nós não estamos mortas.

Mas, não conseguimos muita coisa.

Então, apareceu Elfinha, finalmente, correndo pelas pedras do pavimen­to com seus cotovelos se salientando e seu magro torso ossudo enfrentando os elementos, como de hábito, com uma capa. Ela vinha pelo meio da multidão, afastando os passantes mais lerdos para poder passar, e Glinda empurrou a porta aberta. “Graças aos céus, pensei que você ia se atrasar”, ela disse. “O condutor está doido para partir. Você conseguiu um almoço para nós?”

Elphaba lançou em seu colo um par de laranjas, um naco de queijo im­penitente, e uma bisnaga de pão que encheu o compartimento de um ranço pungente. “Isso terá de dar até a sua parada nesta noite”, ela disse.

“Minha, minha?”, disse Glinda. “Que você quer dizer com isso? Você tem alguma coisa melhor para comer?”

“Algo pior, eu desconfio”, disse Elphaba, “mas algo que precisa ser feito. Eu vim para dizer adeus. Eu não vou voltar com você para Crage Hall. Eu acharei um lugar para estudar do meu jeito. Eu não farei parte da escola de Madame Morrible novamente.”

“Não, não”, protestou Glinda: “Não vou deixar você fazer isso! A Babá vai me comer viva! Nessarose morrerá! Madame Morrible vai ― Elfinha, não me faça isso. Não!”

“Diga a eles que raptei você e lhe obriguei a vir aqui, eles acreditarão nis­so, vindo de quem vem”, disse Elphaba. Ela estava plantada no piso do degrau. Uma gorda anã glikkunesa, tendo captado a essência do drama, mudou para o assento mais confortável próximo a Glinda. “Eles não precisam procurar por mim, Glinda, porque não vou ser fácil de encontrar. Vou descer.”

“Descer para onde? De volta ao Estado de Quadling?”

“Isso seria revelar”, Elphaba disse. “Mas não vou mentir para você, mi­nha querida. Não preciso mentir. Eu não sei ainda para onde irei. Eu não decidi, portanto, eu não tenho de mentir.”

“Elfinha, entre nesta carruagem, não seja uma louca”, Glinda gritou. O con­dutor estava ajustando as rédeas e gritando para Elphaba subir rapidamente.

“Você ficará bem”, disse Elphaba, “agora que é uma viajante experimen­tada. Essa é só uma pernada de volta numa viagem que você já conhece.” Ela pôs o seu rosto contra o de Glinda e o beijou. “Agüente as pontas, se você puder”, ela murmurou, e beijou-a novamente. “Agüente as pontas, minha querida.”

O condutor estalou as rédeas, e lançou um grito para partir. Glinda es­ticou sua cabeça para ver Elphaba desaparecer lá atrás, no meio da multidão. Levando em conta a sua compleição singular, foi espantoso vê-la rapidamen­te ficar camuflada no indigente mosaico urbano da Cidade Esmeralda. Ou talvez isso se devesse a algumas lágrimas bobas que estivessem embaçando a visão de Glinda. Elphaba não havia chorado, é claro. Sua cabeça tinha se virado rapidamente enquanto ela descia, não para esconder lágrimas, mas para amenizar a realidade de sua ausência. Mas a dor, no caso de Glinda, foi verdadeira.






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