Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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GALINDA

1

“Wittica, Settica, Curva de Wiccasand, Areia Vermelha, Casa de Dixxi, muda em Casa de Dixxi para Shiz; siga a bordo deste vagão por todos os pontos do Leste; Tenniken, Brox Hall, e todos os caminhos para Traum” ― o condutor parava para tomar fôlego e voltava a falar ― “próxima parada Wittica, Wittica chegando!”

Galinda apertou seu pacote de roupas junto ao peito. O velho bode que se estatelava no assento diante do dela estava perdendo a parada em Wittica. Ela estava satisfeita com o fato de os trens deixarem os passageiros sonolentos. Não queria continuar evitando o seu olhar. No último momento antes que ela entrasse no trem, sua conselheira, Ama Clutch, pisara num prego enferrujado e, aterrorizada com a síndrome da cara-paralisada, pedira permissão para ir à sala de cirurgia mais próxima para tomar remédios e ouvir palavras tranqüilizadoras. “É claro que eu posso ir para Shiz sozinha”, Galinda dissera friamente, “não se preocupe comigo, Ama Clutch”. E Ama Clutch não se preocupara. Galinda esperava que Ama Clutch sofresse uma pequena paralisia no queixo antes que ficasse bem o bastante para aparecer em Shiz e fazer o papel de companheira de Galinda perante qualquer acontecimento que estivesse por vir.

Seu próprio queixo estava duro, ela acreditava, revelando um aborrecimento enorme com a viagem de trem. Na verdade, ela nunca estivera mais que um dia de viagem de carruagem longe da casa de sua família na pequena cidade comercial de Frottica. A linha ferroviária, construída havia uma década, fizera com que as fazendas de laticínios fossem retalhadas em propriedades estatais para os comerciantes e fabricantes de Shiz. Mas a família de Galinda continuara a preferir a Gillikin rural, com seus covis de raposas, seus vales encharcados, seus isolados templos pagãos em honra a Lurline. Para eles, Shiz era uma ameaça urbana distante, e mesmo a comodidade do transporte ferroviário não os seduzia a assumir os riscos das complicações, curiosidades e costumes malignos da cidade.

Galinda não via o mundo verdejante que se descortinava pelo vidro do vagão; em vez dele, via seu próprio reflexo. Ela tinha a miopia da juventude. Raciocinava que, por ser bonita, era importante, embora o que ela importasse, e para quem, não fosse claro ainda. O vaivém de sua cabeça fazia os longos anéis cremosos de seus cabelos balançar, captando a luz, como uma pilha de moedas que se entrechocassem. Seus lábios eram perfeitos, tão bicudinhos como uma dedaleira a desabrochar, e coloridos de um rubro cintilante. Seu roupão de viagem verde almofadado em musselina ocre sugeria riqueza, enquanto o xale negro caindo tão bem em seus ombros era um sinal de suas inclinações acadêmicas. Afinal, ela estava a caminho de Shiz porque era inteligente.

Mas havia mais que uma maneira de ser inteligente. Ela tinha dezessete anos. A cidade inteira de Frottica a vira partir. A primeira garota de Pertha Hills a ser aceita em Shiz! Ela se saíra bem nos exames iniciais, escrevendo uma meditação em Aprendendo a Ética do Mundo Natural (“As Flores Ficam Sentidas ao Ser Colhidas para Formar um Buquê? As Chuvas Praticam Abstinência? Os Animais Podem Escolher Ser Bons? Ou: Uma Filosofia Moral para a Primavera.”) Ela extraíra citações da Ozíada em ex-cesso, e sua prosa arrebatada cativara a mesa de examinadores. Uma bolsa de estudos de três anos em Crage Hall. Não era um dos melhores colégios ― esses eram ainda fechados para mulheres. Mas era a Universidade de Shiz.

Seu companheiro no compartimento, despertando quando o condutor retornou, esticou os calcanhares para bocejar. “Você faria o favor de pegar a minha passagem, está na parte de cima”, ele disse. Galinda se ergueu e encontrou a passagem, consciente de que a velha coisa barbuda estava examinando sua atraente figura. “Aqui está”, ela disse, e ele respondeu, “Não para mim, queridinha, para o condutor. Sem polegares opostos, não tenho esperança de pegar um pedacinho de cartolina.”

O condutor perfurou a passagem e disse: “Você é o único animal que está autorizado a viajar de primeira classe”.

“Oh”, disse o bode. “Faço objeção ao termo animal. Mas as leis ainda permitem que eu viaje de primeira classe, presumo?”

“Dinheiro é dinheiro”, disse o condutor, sem má vontade, perfurando a passagem de Galinda e devolvendo-a a ela.

“Não, dinheiro não é dinheiro”, disse o bode, “não se levarmos em conta que minha passagem custou o dobro da dessa jovem senhora. Nesse caso, dinheiro é um visto. Acontece que eu tenho um aqui.”

“Indo para Shiz, não é?”, disse o condutor para Galinda, ignorando a observação do bode. “Eu posso notar pelo xale acadêmico.”

“Oh, bem, é algo a fazer”, disse Galinda. Ela não se importava de conversar com condutores. Mas quando ele se afastou, seguindo para o fundo do vagão, Galinda descobriu que gostava menos ainda do maligno olhar que o bode lançava sobre ela.

“Você espera aprender alguma coisa em Shiz?”, ele perguntou.

“Eu já aprendi a não falar com estranhos.”

“Então, eu vou me apresentar e não seremos mais estranhos. Eu sou Dillamond.”

“Não estou disposta a conhecê-lo.”

“Sou membro graduado da Universidade de Shiz, da Faculdade de Artes Biológicas.”

Você é um maltrapilho, mesmo para um bode, Galinda pensou. Dinheiro não é tudo. “Então, devo superar minha timidez natural. Meu nome é Galinda. Sou do clã de Arduenna pelo lado materno.”

“Deixe-me ser o primeiro a lhe dar boas-vindas a Shiz, Glinda. É o seu primeiro ano?”

“Por favor, é Galinda. A apropriada velha pronúncia gillikinesa, se você não se importa.” Ela não conseguia chamá-lo de senhor. Não com aquele horrível cavanhaque e aquele colete puído que parecia recortado do capacho de algum botequim.

“O que você acha dos Interditos propostos para viagem pelo Mágico?” Os olhos do bode eram untuosos, cálidos, e assustadores. Galinda não tinha a menor idéia do que eram Interditos. E foi franca. Dillamond ― será que era Doutor Dillamond? ― explicou em tom informal que o Mágico pensava em restringir a presença de Animais em transportes públicos, com exceção dos veículos designados para esse fim. Galinda respondeu que os animais tinham sempre gozado de serviços à parte. “Não, estou falando de Animais. Aqueles que possuem um espírito.”

“Oh, aqueles”, disse Galinda asperamente. “Bem, eu não consigo ver o problema.”

“Ora, ora”, disse Dilamond. “Não consegue mesmo?” O cavanhaque tremia; ele estava irritado. Ele começou a doutriná-la agressivamente sobre os Direitos Animais. Do jeito de as coisas iam, sua própria velha mãe não poderia viajar de primeira classe, e teria de usar um cercado para animais quando quisesse visitá-lo em Shiz. Se os Interditos do Mágico passassem pela Sala de Aprovação, como parecia que passariam, ele próprio seria intimado pela lei a abrir mão dos privilégios que ganhara através de anos de estudo, treinamento e economia. “Isso lá é certo para uma criatura dotada de espírito?”, ele disse. “Daqui para lá, de lá para cá, numa gaiolinha?”

“Concordo plenamente, viajar é tão instrutivo”, disse Galinda. Eles suportaram o resto da viagem, incluindo a mudança na plataforma em Casa de Dixxi, num gélido silêncio.

Vendo seu espanto com o tamanho e o alvoroço do terminal de Shiz, Dillamond ficou com pena e ofereceu-se para apanhar uma carruagem para levá-la a Crage Hall. Ela o seguiu, tentando parecer o menos mortificada possível. Sua bagagem foi logo atrás, nas costas de uma dupla de carrega-dores.

Shiz! Ela tentava não parecer deslumbrada. Todo mundo se agitando com suas ocupações, rindo e se afobando e se beijando, se enfiando em carruagens, enquanto os edifícios da Praça da Ferrovia, de pedras marrons e azuis e cobertos com trepadeiras e musgo, lançavam vapor suavemente à luz do sol. Os animais ― e os Animais! Ela mal se dera conta dos estranhos frangos que piavam filosoficamente em Frottica ― mas ali via um quarteto de zebras num café ao ar livre, vestidas vistosamente com faixas preto-e-branco de cetim no figurino de seu desenho natural; e um elefante em suas patas traseiras orientando o tráfego; e um tigre trajado em algum tipo de uniforme religioso exótico, uma espécie de monge ou monja ou freira ou qualquer coisa do gênero. Sim, sim, eram Zebras e Elefante e Tigre e o pretenso Bode. Ela teria de se acostumar a pronunciar as letras maiúsculas ou senão revelaria suas origens caipiras.

Compassivamente, Dillamond conseguiu-lhe uma carruagem com um condutor humano e levou-o a Grange Hall, pagando adiantado, pelo que Galinda tivera de esboçar um fraco sorriso de aprovação. “Nossos caminhos vão se cruzar outra vez”, disse Dillamond, galante embora meio áspero, como se lançando uma profecia, e desapareceu enquanto a carruagem seguia, sacolejante. Galinda se afundou novamente nas almofadas. Ela começou a lamentar que Ama Clutch tivesse perfurado seu pé com um prego.

Crage Hall ficava a apenas vinte minutos da Praça da Ferrovia. Atrás de seus próprios muros de pedra azul, o complexo se erguia com largas janelas de vidro pálido em formação de lanceta. Uma tessela de quatrifólios e multifólios tapados margeava com excesso a linha do telhado. A apreciação de arquitetura era uma paixão particular de Galinda, e ela olhava com cuidado para as características que podia identificar, embora as trepadeiras e os musgos tornassem indistintos muitos dos mais belos detalhes dos edifícios. Bem depressa ela ficava desorientada.

A Diretora de Crage Hall, uma mulher gillikinesa de cara de peixe, pertencente à classe mais alta, usando uma porção de pulseiras soltas, estava cumprimentando os recém-chegados no átrio. A Diretora fugia ao tom pardacento do traje profissional das mulheres que Galinda esperava encontrar. Em vez disso, a mulher imponente estava usando um roupão cor de groselha estampado com padrões de círculos de preto retinto sobre o corpete como se fossem sinais musicais em partituras soltas.

A sala de visitas estava cheia de belas jovens, todas vestidas de verde ou azul e carregando xales negros às costas como se fossem sombras cansadas. Galinda estava satisfeita com as vantagens naturais de seu cabelo louro, e se punha a uma janela para que a luz pudesse dar mais relevo aos seus anéis. Ela pouco bebericou o chá. Num cômodo ao lado, as Amas acompanhantes estavam se servindo de uma chaleira, e rindo e tagarelando já como se fossem velhas amigas de uma mesma aldeia. Era um tanto grotesco, aquelas mulheres desleixadas rindo uma para outra, fazendo um rebuliço de feira.

Galinda não lera o impresso delgado bem de perto. Ela não tinha percebido que haveria uma necessidade de “colegas de quarto”. Ou teriam seus pais pago algum extra para que ela pudesse ter um aposento particular? E onde ficaria Ama Clutch? Olhando ao redor, notava que algumas daquelas jovens embonecadas procediam de famílias muito melhores que a sua. Ah, as pérolas e diamantes que as cobriam! Galinda estava satisfeita de ter escolhido um simples colar de prata com suportes de metanito. Havia algo de vulgar em viajar coberta de jóias. Assim que percebeu essa verdade, ela transformou-a numa frase de efeito. A primeira perfeita oportunidade ela a usaria como prova de que era capaz de ter opiniões ― e de que era viajada. “A viajante excessivamente vestida traz mais interesse em ser vista do que em ver”, ela murmurava, experimentando seu efeito, “enquanto a verdadeira viajante sabe que o mundo novo à sua frente serve como o acessório mais apropriado.” Bom, muito bom.

Madame Morrible contava as cabeças, segurava uma xícara de chá e tangia todas para a Sala Principal. Ali Galinda percebeu que permitir a Ama Clutch que fosse à procura de ajuda médica tinha sido um enorme equívoco. Aparentemente, aquele bate-papo todo entre as Amas não fora frívolo e sociável. Elas tinham sido instruídas para sortear entre elas as jovens às quais deveriam fazer companhia. As Amas tinham sido instruídas a chegar mais rapidamente ao xis do problema do que as próprias estudantes. Ninguém falara por Galinda ― ela fora sem representação!

Depois das esquecíveis observações de boas-vindas, enquanto par a par as estudantes e Amas saíam para localizar seus alojamentos e neles se instalar, Galinda se descobriu pálida de embaraço. Ama Clutch, a velha tonta, a teria colocado habilidosamente junto de alguém com apenas alguns furos acima na escala social! Próxima o bastante para que Galinda não ficasse envergonhada, e acima o bastante para que a aproximação social fosse digna de ser empreendida. Mas agora, todas as melhores jovens estavam agregadas. Diamante com diamante, esmeralda com esmeralda, pelo que ela podia notar! Enquanto a sala se esvaziava, Galinda pensava se não deveria tomar a iniciativa de se adiantar e interromper Madame Morrible, explicando o problema. Galinda era, afinal de contas, uma Arduenna das Terras Altas, ao menos por um lado. Era um acidente medonho. Seus olhos estavam esgazeados.

Mas ela não teve coragem. Ficou empoleirada à beira da cadeira frágil, estupidificada. Exceto por ela, todo o centro da sala se esvaziara, e as jovens mais inibidas e dispensáveis tinham desaparecido, esgueirando-se pelas bordas, nas sombras. Cercada por uma fileira de obstáculos de cadeiras douradas vazias, Galinda fora deixada sozinha como uma valise não reclamada.

“Agora o resto de vocês ficou aqui sem Amas, vejo”, disse Madame Morrible, com o nariz um pouco torcido. “Já que exigimos acompanha-mento, vou indicar cada uma de vocês a um dos três dormitórios para calouros, que servem para quinze garotas cada. Não há discriminação social quanto aos dormitórios, posso acrescentar. Nenhuma.” Mas ela estava mentindo, e não era nem convincentemente.

Galinda finalmente se levantou. “Por favor, Madame Morrible, há um mal-entendido. Eu sou Galinda dos Arduennas. Minha Ama enfiou um prego em seu pé na viagem e foi detida por uns dias. Eu não fico na turma do dormitório, portanto.”

“Que triste para você”, disse Madame Morrible, sorrindo. “Tenho certeza de que sua Ama ficaria satisfeita de ser sua acompanhante no, digamos, Dormitório Rosa? Quarto andar à direita...”

“Não, ela não ficaria satisfeita”, interrompeu Galinda, tomando coragem completa. “Eu não estou aqui para ficar num dormitório Rosa ou qualquer outro. A senhora entendeu mal.”

“Eu não entendi mal, Senhorita Galinda”, disse Madame Morrible, parecendo-se mais e mais com um peixe à medida que seus olhos começavam a se arregalar. “Há acidente, há atraso, há decisões a ser tomadas. Como não foi equipada, por sua Ama, a tomar sua própria decisão, eu tenho autoridade para fazê-lo pela senhorita. Por favor, estamos ocupadas e eu devo classificar as outras jovens que vão se juntar a você no Dormitório Rosa...”

“Eu preciso ter uma conversa particular com a senhora, Madame”, disse Galinda, em desespero. “Para mim, companheiras de dormitório ou uma simples colega de quarto não faz diferença. Mas não posso recomendar que a senhora peça à minha Ama para supervisionar outras jovens por razões que não posso revelar em público.” Ela estava mentindo com tanta segurança quanto lhe era possível, e bem melhor que Madame Morrible, que parecia no mínimo intrigada.

“Está me parecendo impertinente, Senhorita Galinda”, ela disse suavemente.

“Eu ainda não importunei a senhora, Madame Morrible.” Galinda embrulhou sua fala atrevida com o mais doce de seus sorrisos.

Madame Morrible escolheu rir, graças a Lurline! “Uma fagulha de ousadia! Pode vir a meus aposentos nesta noite e me relatar a história das falhas de sua Ama, pois preciso saber quais foram. Mas quero lhe propor um compromisso, Senhorita Galinda. A menos que faça objeção, eu terei de pedir à sua Ama para acompanhar você e outra jovem que venha também desprovida de Ama. Pois, compreenda, todas as outras estudantes com Amas já fizeram suas duplas, e você ficou sendo a nota dissonante.”

“Estou certa de que minha Ama poderá fazer isso, no mínimo.”

Madame Morrible deu uma olhada na página com os nomes e disse: “Muito bem. Para se juntar à Senhorita Galinda dos Arduennas num quarto duplo... devo convidar a Terceira Descendente do Thropp, vinda de Pedras do Ninho, Elphaba?”

Ninguém se mexeu. “Elphaba?”, disse Madame Morrible novamente, ajustando suas pulseiras e pondo dois dedos na base de sua garganta.

A jovem estava lá no fundo da sala, uma pobretona com um vestido vermelho de vistosos arabescos, e com um par de botas de sola reforçada, dos usados por gente velha. A princípio, Galinda pensou que o que via era um jogo de luz, um reflexo dos edifícios adjacentes cobertos de trepadeiras e musgo. Mas quando Elphaba deu um passo adiante, puxando sua própria bagagem, ficou óbvio que ela era verde. Uma jovem de talhe sombrio com pele verde putrefata e cabelos pretos longos, que pareciam de uma estrangeira. “Uma munchkinesa de nascimento, embora com muitos anos passados na Terra de Quadling”, Madame Morrible leu em suas anotações. “Que fascinante para nós, Senhorita Elphaba. Ficaremos ansiosas por ouvir histórias de lugares e épocas exóticos. Senhorita Galinda e Senhorita Elphaba, aqui estão as suas chaves. Vocês podem ocupar o vinte e dois no segundo andar.”

Ela sorriu generosamente para Galinda quando as jovens se aproximaram. “Viajar é tão instrutivo”, ela entoou. Galinda ficou aterrorizada, a praga de suas próprias palavras voltava-se contra ela. Fez uma mesura e fugiu. Elphaba, com os olhos postos no chão, seguiu-a.

2
Quando Ama Clutch chegou no dia seguinte, com o pé enrolado numa bandagem três vezes maior que seu tamanho natural, Elphaba já havia tirado da mala seus poucos pertences. Estavam pendurados como trapos nos ganchos do armário; magras, informes peças, como que envergonhadas e jogadas para um canto pelos cintos cafonas, anquinhas engomadas e ombreiras e cotoveleiras almofadadas do guarda-roupa de Galinda. “Estou feliz como o quê de ser sua Ama também, isso não me importa”, disse a Ama, sorrindo largamente na direção de Elphaba, antes que Galinda tivesse uma oportunidade de chamá-la sozinha de lado e lembrá-la de que sua função implicava uma recusa. “É claro que meu pai está pagando você para ser a minha Ama”, disse Galinda significativamente, mas Ama Clutch respondeu: “Nem tanto assim, patinha, nem tanto assim. Eu posso tomar minhas próprias decisões”.

“Ama”, disse Galinda quando Elphaba tinha saído para usar as instalações de tirar bolor, “Ama, você está cega? Essa garota munchkinesa é verde.”

“Esquisito, né? Eu pensei que todos de lá fossem baixinhos. No entanto, ela tem uma altura apropriada. Acho que eles têm tamanhos variados. Oh, você ficou incomodada pelo verde? Bem, se você deixasse isso de lado, talvez fosse bom. Se você deixasse. Você está tomando uns ares mundanos, Galinda, mas ainda não conhece o mundo. Eu acho que é uma curtição. Por que não? Por que não, mesmo”

“Não é seu trabalho organizar minha educação, mundana ou qualquer outra, Ama Clutch!”

“Não, minha cara”, disse Ama Clutch, “você faz a confusão toda só por responsabilidade sua. Eu estou sendo simplesmente serviçal.”

Assim, Galinda ficou sem ação. A breve entrevista da noite anterior com Madame Morrible não havia oferecido nenhuma rota de fuga, tampouco. Galinda chegara pontualmente, vestindo uma saia salpicada de morfelina com corpete de renda, uma verdadeira visão, como dissera a si mesma, em púrpuras noturnos e azuis de meia-noite. Madame Morrible acolheu-a na sala de recepção, na qual um pequeno conjunto de cadeiras de couro e um canapé estavam colocados diante de uma lareira desnecessária.

A Diretora serviu chá de hortelã e ofereceu gengibre cristalizado embrulhado em folhas de fruta-pérola. Indicou uma cadeira para Galinda, mas ficou ela mesma junto ao consolo da lareira como uma caçadora de caça das grandes. Na melhor tradição da classe superior a desfrutar seus luxos, elas primeiro beberam em golinhos e mordiscaram delicadamente. Isso deu a Galinda a oportunidade de observar que Madame Morrible era parecida com um peixe não apenas no semblante, mas na vestimenta: seu folgado casaco de raposa de primeira classe brotava como uma enorme bexiga inflada da linha da nuca cheia de babados até os joelhos, onde estava forte-mente pregueado e ia diretamente ao chão, apertando a barriga das pernas e os tornozelos em caprichosas, anticlimáticas dobras. Ela olhava para o mundo como uma carpa gigante num clube masculino. E não uma carpa sensitiva, mas uma carpa aborrecida, monótona, que ali ficasse.

“Agora, vamos à sua Ama, minha cara. A razão pela qual ela é incapaz de supervisionar um dormitório. Sou toda ouvidos.”

Galinda levara a tarde toda se preparando. “Veja, Madame Diretora, eu não queria dizer isso em público. Mas Ama Clutch sofreu uma terrível queda no último verão quando estávamos fazendo um piquenique nas Colinas de Pertha. Ela tentou pegar um punhado de tomilho selvagem da montanha e despencou de cabeça de um rochedo. Ficou em coma semanas a fio, e quando abriu os olhos não tinha lembrança alguma do acidente. Se indagasse a respeito, ela nem sabia o que você estava dizendo. Amnésia por trauma.”

“Entendo. Que cansativo deve ter sido para você. Mas, por que isso a torna desqualificada para o trabalho que propus?”

“Ela ficou biruta. Ama Clutch, de vez em quando, fica confusa entre o que tem e o que não tem Vida. Ela se senta e fala com, oh, digamos, uma cadeira e então relata a história dela para a gente. Suas aspirações, suas re-servas...”

“Suas alegrias, suas dores”, disse Madame Morrible. “Que verdadeiro romance. A vida emocional da mobília. Nunca vi nada parecido.”

“Mas, tola quanto pareça, e embora seja causa para momentos de gozação, a doença que disso resultou é mais alarmante. Madame Morrible, eu devo lhe dizer que Ama Clutch às vezes se esquece de que as pessoas estão vivas. Ou os animais.” Galinda parou para pensar, e acrescentou: “Mesmo os Animais.”

“Continue, minha cara.”

“Tudo bem para mim, porque Ama tem sido minha Ama por toda a vida, e eu a conheço. Conheço seus modos. Mas às vezes ela se esquece de que uma pessoa está ali, ou precisa dela, ou mesmo que é uma pessoa. Uma vez ela esvaziou um guarda-roupa e jogou-o em cima de um empregado, quebrando as suas costas. Ela não percebeu o grito dele bem pertinho, bem a seus pés. Ela dobrou as roupas de dormir e conversou com a camisola da minha mãe, fazendo-lhe toda espécie de pergunta impertinente.”

“Que condição fascinante”, disse Madame Morrible. “E que vergonha para você, realmente.”

“Eu não podia permitir que ela aceitasse responsabilidade por quatorze outras garotas”, Galinda confidenciou. “Para mim, sozinha, não há problema. Eu amo a velha tola, de certo modo.”

Madame Morrible disse: “Mas, e quanto à sua colega de quarto? Você pode expor seu bem-estar a risco?”

“Eu não pedi por ela.” Galinda olhou para o olho vidrado, imóvel, da Diretora. “A pobre munchkinesa parece estar acostumada a uma vida de penúria. Ou ela vai se adaptar ou, suponho, vai fazer petição para que a senhora a tire do meu quarto. A menos, claro, que a senhora ache de seu dever tirá-la de lá para a sua própria segurança.”

Madame Morrible disse: “Eu suponho que se a Senhorita Elphaba não puder suportar a vida que nós lhe oferecemos, ela deixará Crage Hall por sua própria conta. Não acha?”

Era o nós em o que nós lhe oferecemos: Madame Morrible estava forçando-a a um compromisso. Ambas sabiam. Galinda lutava para manter a sua autonomia. Mas ela tinha apenas dezessete anos, e tinha sofrido aquela mesma indignidade de exclusão na Sala Principal havia poucas horas. Ela não sabia o que Madame Morrible podia ter contra Elphaba, a não ser pela sua aparência. Mas havia alguma coisa, havia claramente alguma coisa. O que era? Ela sentia que era errado de algum modo. “Não acha, minha cara?”, disse Madame Morrible, curvando-se um pouco para a frente como um peixe arqueado num pulo em câmera lenta.

“Bem, é claro, devemos fazer o que pudermos”, disse Galinda, tão vagamente quanto possível. Mas era ela quem parecia o peixe, e apanhado pelo mais inteligente dos anzóis.

Saindo das sombras da sala de recepção se aproximava uma pequena coisa que tiquetaqueava, com cerca de três pés de altura, feita de bronze lustrado, com uma placa de identificação parafusada em sua frente. A placa dizia Homem Mecânico de Smith e Tinker, em inscrição floreada. O ajudante mecânico recolheu as xícaras de chá vazias e, com um zumbido, afastou-se. Galinda não sabia quanto tempo ele havia permanecido lá, ou o que ele tinha ouvido, mas ela nunca gostara de criaturas tiquetaqueantes.

Elphaba tinha uma pasta do que Galinda chamava de leituras maçantes. Elphaba não se encurvava ― ela era muito esquelética para se encurvar ― mas se dobrava sobre si mesma, o cômico nariz verde enfiado nas folhas mofadas do livro. Ela brincava com seu cabelo enquanto lia, enrolando-o para cima e para baixo em torno de seus dedos tão magros e semelhantes a gravetos que pareciam quase os de um esqueleto. Seu cabelo nunca ficava ondulado, não importando com quanta freqüência Elphaba os enrolasse com as mãos. Era um cabelo bonito, de uma maneira esquisita, espantosa, com um brilho semelhante ao do pêlo de uma saudável porca. Seda negra. Café moído em filetes. Chuva noturna. Galinda, não dada a metáforas no geral, achava o cabelo de Elphaba fascinante, mais ainda porque no resto ela era tão feia.

Elas não conversavam muito. Galinda estava ocupada demais forjando alianças com as melhores estudantes, que haviam sido suas legítimas perspectivas como colegas de quarto. Sem dúvida ela podia mudar de quarto achando algum meio-termo, ou em todo caso no próximo outono. Assim, deixava Elphaba a sós, e voava para o saguão para bater papo com suas novas amigas. Milla, Pfannee, Shenshen. Tal como nos livros infantis sobre internatos, cada nova amiga era mais rica que a anterior.

A princípio, Galinda não mencionava quem era sua colega de quarto. E Elphaba não mostrava qualquer sinal de expectativa quanto à sua companhia, o que era um alívio. Mas o fuxico tinha de começar mais cedo ou mais tarde. A primeira onda de discussão sobre Elphaba dizia respeito a seu guarda-roupa e à sua evidente pobreza, como se suas colegas de classe estivessem acima de notar sua enfermiça e repulsiva cor. “Alguém me contou que Madame Morrible disse que a Senhorita Elphaba era a Terceira Descendente do Thropp de Pedras do Ninho”, disse Pfanee, que também era uma munchkinesa, mas de tronco inferior, não tamanho grande, como a família Thropp. “Os Thropps são altamente considerados em Pedras do Ninho e mesmo mais além. O Eminente Thropp reunificou a milícia da região e abriu a Estrada dos Tijolos Amarelos que o Regente Ozma planejava quando éramos pequenas ― antes da Gloriosa Revolução. Não havia grosserias no Eminente Thropp e sua família, incluindo sua neta Melena, podem estar certas.” Por grosserias, na certa, Pfnee estava se referindo à cor verde.

“Mas como os poderosos decaíram! Ela é tão maltrapilha quanto uma cigana”, observou Milla. “Vocês já viram roupas de tanto mau gosto? Sua ama deveria ser posta no olho da rua.”

“Ela não tem ama, eu acho”, disse Shenshen. Galinda, que tinha certeza, calou-se.

“Disseram que ela passou uns tempos no Estado de Quadling”, Milla continuou. “Talvez sua família tenha sido exilada como criminosos?”

“Ou eram especuladores no mercado de rubis”, disse Shenshen.

“Então, cadê a riqueza?”, cortou Milla. “Os especuladores de rubis se deram muito bem, Senhorita Shenshen. Nossa Senhorita Elphaba não tem duas fichas de permuta para esfregar e chamar de suas.”

“Talvez seja um tipo de vocação religiosa? Uma pobreza escolhida?”, sugeriu Pfannee, e diante desse absurdo todas jogaram as cabeças para trás e gargalharam estrondosamente.

Elphaba, se aproximando da manteigueira para apanhar uma xícara de café, fazia com que elas atingissem explosões ainda mais estridentes de riso. Elphaba não olhava para elas, mas todas as outras estudantes reparavam no que elas faziam, cada jovem desejando ser incluída no círculo fechado de sua diversão, que fazia as quatro novas amigas se sentirem tão bem.

Galinda estava lentamente chegando a um acordo com o aprendizado verdadeiro. Ela havia considerado sua admissão na Universidade de Shiz uma espécie de prova de seu brilhantismo, e acreditava que iria adornar as salas do saber com sua beleza e suas frases ocasionalmente inteligentes. Ela supunha, seriamente, que estava destinada a ser uma espécie de busto de mármore vivo: Esta é a Inteligência Jovem; admirem-Na. Ela Não é Adorável?

Não havia realmente ocorrido a Galinda que havia mais a aprender, e muito mais do que ela conseguiria assimilar. A educação que todas as novas garotas mais queriam, é claro, nada tinha a ver com Madame Morrible ou os Animais que jogavam conversa fora sobre estantes e margaridas. O que as garotas queriam não era equações ou citações ou orações ― elas queriam era desfrutar da própria Shiz. A vida citadina. A ampla, ofensiva armadura da vida e a própria Vida, entrelaçadas de modo inconsútil.

Galinda ficava aliviada por Elphaba nunca participar das saídas que as Amas organizavam. Desde que passou a parar freqüentemente num refeitório para uma refeição modesta, a brigada semanal ficou informalmente conhecida como a Sociedade do Comer e Marchar. O distrito universitário se inflamava pela cor do outono, que vinha não apenas das folhas secas, mas também das bandeirolas das fraternidades, que se agitavam nos topos de telhados e torres.

Galinda se embebia da arquitetura de Shiz. Aqui e ali, na maior parte em pátios fechados de colégios e ruas laterais, a mais velha arquitetura doméstica sobrevivente ainda se mantinha, a antiga taipa e as estruturas ex-postas de barrote se erguendo como avós paralíticos amparados por parentes mais jovens e mais robustos de ambos os lados. Então, em estonteante sucessão, em incomparáveis glórias: o Pedra de Sangue Medieval, o Mértico (tanto o mais antigo quanto o mais fantástico recente), o Gallantine com suas simetrias c restrições, o Gallantine Reformado com todas aquelas ogivas volumosas e frontões triangulares quebrados, o Pedra Azul Revivido, o Bombástico Imperial, e o Moderno Industrial, ou, como os críticos da imprensa liberal denominavam, o Estilo Cru Altamente Hostil, a forma propagada pelo modernizado Mágico de Oz.

Além da arquitetura, a excitação era moderada, para falar a verdade. Numa ocasião notável, que nenhuma jovem de Crage Hall presente jamais esquecera, os rapazes decanos do Colégio Três Rainhas além do canal, por farra e ousadia, tinham enchido a cara de cerveja no meio da tarde, contratado um Urso Branco violinista, e descido para dançar juntos debaixo dos salgueiros, usando nada além de suas apertadas ceroulas de algodão e seus cachecóis escolares. Foi deliciosamente pagão, já que tinham colocado uma velha estátua de madeira lascada de Lurline a Rainha das Fadas num banco de três pés, e ela parecia sorrir para a algazarra de corpos liberados. As jovens e as Amas fingiram ficar chocadas, mas sem convicção; elas se demoraram ali, observando, até que inspetores horrorizados do Três Rainhas vieram correndo para cercar os festeiros. Seminudez era uma coisa, mas lurlinismo público ― mesmo por brincadeira ― chegava a ser intoleravelmente retrógrado, até monárquico. E isso não era permitido no reinado do Mágico.

Numa noite de sábado, quando as Amas tiveram uma rara folga e saíram para um encontro de fé no prazer no Ticknor Circus, Galinda teve uma breve e boba discussão com Pfanee e Shenshen, depois da qual se re-tirou para seu dormitório, reclamando de uma dor de cabeça. Elphaba estava sentada na cama, enrolada em seu cobertor marrom de comissário. Ela estava inclinada sobre um livro, como de hábito, e seus cabelos pendiam como pequenos pedestais dos dois lados de seu rosto. Ela parecia a Galinda uma daquelas águas-fortes ― os livros de história natural estavam cheios delas ― de excêntricas mulheres winkies das montanhas que escondiam sua estranheza com um xale sobre a cabeça. Elphaba estava mascando as sementes de uma maçã, tendo comido todo o resto dela. “Bem, você parece bem acomodada, Senhorita Elphaba”, disse Galinda, desafiadoramente. Em três meses essa era a primeira observação que ela dirigia à sua companheira de quarto.

“Aparências são só aparências”, disse Elphaba, sem olhar para ela.

“Atrapalharia a sua concentração eu me sentar perto da lareira?”

“Você vai fazer sombra, se ficar ali.”

“Oh, lamento”, disse Galinda, e se mudou. “Não devemos fazer sombras, não é, quando palavras urgentes clamam por ser lidas?”

Elphaba já tinha voltado a ler, e não respondeu.

“Que diacho você está lendo, noite e dia?”

Era como se Elphaba estivesse emergindo do fundo de um plácido e isolado laguinho para tomar um pouco de ar. “Quando eu não leio a mesma coisa todo dia, você sabe, de noite fico lendo alguns dos sermões dos antigos pastores unionistas.”

“Por que alguém no mundo iria querer fazer isso?”

“Não sei. Eu nem mesmo sei se quero lê-los. Fico apenas lendo.”

“Mas, por quê? Senhorita Elphaba a Delirante, por que, por quê?”

Elphaba olhou para Galinda e sorriu. “Elphaba a Delirante. Gostei.”

Antes que ela tivesse tempo de preparar uma réplica, Galinda devolveu o sorriso, e ao mesmo tempo um vento furioso soprou granizo sobre o vidro da janela, e o trinco quebrou. Galinda pulou para fechar o caixilho, mas Elphaba correu apressada para o canto extremo do quarto, fugindo da umidade. “Dê-me o fecho do meu bagageiro de couro, Senhorita Elphaba, que está dentro da minha bolsa de escola ― lá na prateleira, atrás das caixas de chapéu ― sim ― e eu vou prender aqui até que possamos chamar o porteiro para vir consertar amanhã.” Elphaba achou a tira, mas, ao fazer isso, as caixas de chapéu despencaram, e três chapéus coloridos rolaram pelo chão frio. Enquanto Galinda subia, atrapalhada, numa cadeira, para manter a janela fechada novamente, Elphaba devolvia os chapéus às suas caixas. “Oh, experimente um, experimente”, disse Galinda. Ela queria era ter alguma coisa da qual dar risada, algo para contar às Senhoritas Pfanee e Shenshen, achando assim um caminho de volta às suas boas graças.

“Oh, não tenho coragem, Senhorita Galinda”, Elphaba disse, e foi pôr o chapéu à parte. “Não, experimente, eu insisto”, Galinda disse, “só por farra. Eu nunca a vi usando nada bonito.”

“Eu não uso coisas bonitas.”

“Qual é o problema?”, disse Galinda. “Vai ser só aqui. Ninguém mais precisa ver você.”

Elphaba ficou olhando para o fogo, mas virava a cabeça até os ombros para olhar longa e fixamente em Galinda, que ainda não tinha pulado da cadeira. A munchkinesa estava de camisola, um saco pardacento sem nenhum auxílio de borda rendada ou fitinhas. O rosto verde acima do tecido cinza-trigo parecia quase brilhar, e o glorioso cabelo negro longo e escorrido caía bem sobre onde os seios deveriam estar, se ela fosse de re-velar qualquer evidência de que os possuía.

Elphaba se parecia com alguma coisa entre um animal e um Animal, como alguma coisa maior que a vida, mas não propriamente Vida. Havia uma expectativa, mas nenhuma intuição, era isso? ― como uma criança que nunca se lembrasse de haver tido um sonho ouvindo agora alguém lhe desejar que tivesse bons sonhos. Era uma coisa que se poderia quase chamar de não-refinada, mas não num sentido social ― mais num sentido de a natureza não ter completado seu trabalho com Elphaba, não ter-se esforçado completamente para torná-la parecida o bastante consigo mesma.

“Oh, ponha o danado do chapéu, realmente”, disse Galinda, para quem, quando o assunto era introspecção, o bastante era o bastante.

Elphaba concordou. A coisa era uma adorável esfera comprada do melhor chapeleiro nas colinas de Pertha. Tinha babados cor de laranja e uma renda amarela que podia ser drapeada para atingir variados graus de disfarce. Na cabeça errada pareceria horripilante, e Galinda ansiava ter de morder seus lábios por dentro para não cair na gargalhada. Era o tipo de coisa superfeminina que os rapazes em pantomima usavam quando fingiam ser garotas.

Mas Elphaba deixou o enfeite açucarado cair em sua estranha cabeça pontuda, e olhou para Galinda outra vez por debaixo da aba larga. Ela ficou parecida a uma flor rara, sua pele como um caule em seu suave reflexo perolado, o chapéu uma excentricidade botânica. “Oh, Senhorita Elphaba”, disse Galinda, “sua terrível, você está bonita.”

“Oh, e agora você mentiu, então vá já confessar ao pastor unionista”, disse Elphaba. “Tem um espelho por aqui?”

“Claro que tem, fica lá embaixo no lavatório.”

“Não vou lá. Eu não vou querer ser vista por aquelas estúpidas usando isso.”

“Bem, então”, decidiu Galinda, “você pode achar um ângulo sem esconder a luz do fogo, e olhar em seu reflexo na janela escura?”

Ambas olharam para o verde e florido espectro refletido no velho vidro apagado, cercado pela escuridão, chacoalhado pela forte chuva lá fora. Uma folha de bordo, no formato de uma estrela com pontas rombudas, ou como um coração que crescera torto, subitamente atirado na noite e colado no reflexo no vidro, irradiando vermelho e refletindo a lareira, justamente onde o coração devia ficar ― ou assim parecia do ângulo pelo qual Galinda olhava.

“Fascinante”, ela disse. “Há alguma estranha qualidade exótica de beleza em você. Eu nunca pensei.”

“Surpresa”, disse Elphaba, e então ficou quase ruborizada, se um verde mais escuro pudesse ser tomado por rubor... “Quero dizer, surpresa, não beleza. É apenas surpresa.”

“Bem, o que você sabe?”

“Não é beleza.”

“Quem sou eu para discutir”, disse Galinda, sacudindo seus anéis e fazendo uma pose, e Elphaba até riu disso, e Galinda aderiu ao riso, em parte horrorizada enquanto o fazia. Elphaba então arrancou o chapéu, e recolocou o em sua caixa, e quando ela apanhou seu livro novamente, Galinda disse: “Então, o que é que a Beldade está lendo, afinal? Eu quero dizer, realmente, diga-me, por que os velhos sermões?”

“Meu pai é um pastor unionista”, disse Elphaba. “Eu estou apenas curiosa por saber o que significa isso, é só.”

“Por que não pergunta a ele?”

Elphaba não respondeu. Seu rosto assumiu um aspecto denso, ansioso, como o de uma coruja que estivesse pronta para apanhar um rato.

“Então, sobre o que os livros são? Alguma coisa interessante?”, disse Galinda. Não fazia sentido desistir de sua curiosidade agora, não havia nada mais a fazer e ela estava perturbada demais pela tempestade para dormir.

“Este aqui é uma reflexão sobre o bem e o mal”, disse Elphaba. “Se eles existem de fato.”

“Oh, chatice”, disse Galinda. “O mal existe, eu sei, e seu nome é Tédio, e os pastores são, dentre todos, o grupo que mais comete esse pecado.”

“Você acha isso mesmo?”

Galinda não tinha o costume de parar para considerar se acreditava ou não no que dizia; o importante era que a conversa fluísse. “Bem, eu não quis insultar seu pai, porque sei que ele é um divertido e esperto pastor.”

“Não, eu quero dizer, você acha que o mal realmente existe?”

“Bem, como vou saber o que penso?”

“Bem, pergunte a si mesma, Senhorita Galinda. O mal existe?”

“Eu não sei. Você que diga. O mal existe?”

“Não tenho esperança de saber.” O aspecto de Elphaba mudara um pouco para oblíquo e introspectivo, ou era o cabelo balançando para frente como um véu novamente?

“Por que você não pergunta a seu pai? Eu não entendo. Ele deve saber, é o trabalho dele.”

“Meu pai me ensinou bastante”, Elphaba disse lentamente. “Ele foi muito bem educado, de fato. Ele me ensinou a ler e escrever e pensar, e mais. Mas não o suficiente. Eu só acho, como nossos professores daqui, que os pastores são eficazes, bons para fazer perguntas que levam você a pensar. Não acho que eles podem ter as respostas. Não necessariamente.”

“Oh, bem, diga isso ao nosso pastor maçante em casa. Ele tem todas as respostas, e responsabilidades por elas, também.”

“Mas talvez haja alguma coisa no que você diz”, disse Elphaba. “Quero dizer, mal e aborrecimento. Mal e tédio. Mal e falta de estímulo. Mal e sangue parado.”

“Parece que você está escrevendo um poema. Por que uma garota estaria interessada no mal?”

“Eu não estou interessada nele. É apenas o assunto de que tratavam todos esses últimos sermões que li. Assim, eu penso naquilo que abordavam, só. Às vezes eles falam de dieta e não comer Animais, então, reflito sobre a coisa. Eu apenas gosto de refletir sobre o que leio. Você não?”

“Eu não leio muito bem. Assim, não acho que penso muito bem tampouco.” Galinda sorriu. “Apesar disso, me visto para arrasar.”

Não houve reação de Elphaba. Galinda, habitualmente satisfeita por saber o modo correto de conduzir toda conversa para um louvor a ela mesma, estava confusa, sem saber o que dizer. Ela mal e mal arriscou, irritada por ter de fazer um esforço. “Bem, que diabos aqueles velhos grosseiros pensavam sobre o mal, então?”

“É difícil dizer com exatidão. Eles pareciam obcecados por localizá-lo em alguma parte. Quero dizer, uma nascente má nas montanhas, uma fumaça ruim, sangue ruim nas veias indo de pai a filho. Eles se pareciam com os pioneiros exploradores de Oz, exceto que os mapas que faziam eram de substância invisível, muito incoerentes um com o outro.”

“E onde está localizado o mal?” Galinda perguntou, afundando em sua cama e fechando os olhos.

“Bem, eles não chegavam a um acordo, chegavam? Ou senão por que teriam de escrever sermões discutindo a respeito? Alguns diziam que o mal original era o vácuo causado pelo fato de a Rainha Fada Lurline haver abandonado o ser humano. Quando o bem se afasta, o espaço que ele ocupa se corrói e se transforma em mal, e talvez se pulverize e multiplique. De modo que toda coisa ruim se tornará um sinal da ausência da deusa.”

“Bem, eu não identificaria uma coisa ruim se ela caísse sobre mim”, disse Galinda.

“Os primeiros unionistas, que eram em grande parte mais lurlinistas que os unionistas de hoje, argumentavam que algum invisível foco de corrupção flutuava ao redor de suas moradas, um descendente direto da dor que o mundo sentiu quando Lurline se afastou. Como uma golfada de ar frio numa plácida noite quente. Uma alma perfeitamente cordial poderia apanhá-la ao andar e ficar infectada, e então ir matar um vizinho. Mas, então, seria falta sua se você estivesse andando por acaso no meio desse ar ruim? Se você não pudesse percebê-lo? Nunca houve um só conselho de unionistas que decidisse a questão de um modo ou de outro, e hoje em dia tanta gente nem mesmo acredita em Lurline.”

“Mas eles acreditam no mal ainda”, disse Galinda com um bocejo. “Não é engraçado, a deusa está ultrapassada, mas os atributos e implicações da deusa permanecem...”

“Você está pensando!”, Elphaba gritou. Galinda ergueu-se nos cotovelos, afetada pelo entusiasmo na voz de sua companheira de quarto.

“Eu estou a ponto de dormir, porque isso é profundamente maçante para mim”, Galinda disse, mas Elphaba estava rindo de orelha a orelha.
* * *
Pela manhã Ama Clutch regalou as duas com histórias da noite que passara fora. Havia uma jovem bruxa talentosa vestindo nada exceto roupas de baixo rosa-choque, enfeitadas com plumas e contas. Ela cantou canções para a platéia e recolheu dos ruborizados homens não-graduados das mesas próximas vales-refeição, que colocou nas dobras de seus seios. Fez um pouco de mágica doméstica, transformando água em suco de laranja, transformando repolhos em cenouras, e perseguindo e matando um aterrorizado porquinho, que esguichou champanhe em vez de sangue. A platéia toda tomou um golinho. Um terrível homem gordo e barbudo perseguiu a bruxa como se quisesse beijá-la ― oh, a coisa foi cômica demais, cômica demais! No fim, o elenco inteiro e a platéia juntos ficaram em pé e cantaram “O que Não Permitimos em Públicos Lugares (Na Verdade Está à Venda nas Bancas Mais Vulgares”). As Amas tiveram uma diversão fora do comum, todas.

“Realmente”, disse Galinda, torcendo o nariz. “A fé no prazer é tão ― tão comum.”

“Mas vejo que a janela quebrou”, disse Ama Clutch. “Espero que não tenham sido os garotos tentando entrar.”

“Ficou louca?”, disse Galinda. “Naquela tempestade?”

“Que tempestade?”, disse Ama Clutch. “Isso não faz sentido. A noite passada foi calma como um raio de lua.”

“Hah, isso é efeito de algum show”, disse Galinda. “Você foi tão contagiada pela fé no prazer que perdeu o juízo, Ama Clutch.” Desceram juntas para o desjejum, deixando Elphaba ainda dormindo, ou talvez fingindo que dormia. Apesar disso, enquanto caminhavam juntas pelos corredores, o sol através das amplas janelas fazendo faixas de luz nos pisos de ardósia fria, Galinda pensou seriamente no capricho do tempo. Seria mesmo possível para uma tempestade despencar numa parte da cidade e ignorar outra? Havia tanta coisa nesse mundo que ela não sabia.


“Ela não fez nada além de papear sobre o mal”, disse Galinda às suas amigas, ignorando os biscoitinhos amanteigados recheados com geléia de pé de charrua. “Alguma torneira lá por dentro foi aberta, e a conversa fiada jorrou dela. E, meninas, quando ela experimentou o meu chapéu, eu quase morri. Ela parecia a tia solteirona de alguém que tivesse retornado do túmulo, quero dizer, tão desmazelada como uma Vaca. Suportei a coisa só por vocês, para que pudesse lhes contar tudo; não fosse assim, eu teria morrido de rir ali mesmo. Foi demais!”

“Pobrezinha de você, ter de ser nossa espiã e suportar o vexame daquela coleguinha gafanhoto!”, disse Pfanee devotamente, apertando a mão de Galinda. “Você é boa demais!”

3
Numa noite ― a primeira noite de neve ― Madame Morrible realizou um sarau poético. Rapazes do Três Rainhas e Torres de Ozma foram convidados. Galinda desfilou seu roupão de seda vermelho-claro com o xale e os chinelos combinando e um leque gillikinês que recebera de herança, pintado com um desenho de samambaia e fênix. Ela chegou adiantada para pegar a cadeira estofada que melhor realçaria seu traje, e arrastou a cadeira até a altura das prateleiras de livros de modo que a luz das velas da biblioteca incidisse suavemente sobre ela. O resto das jovens ― não apenas as calouras, mas as secundanistas e as decanas ― entraram num grupo sussurrante e acomodaram-se em sofás e divas da mais bela sala de visitas de Crage Hall. Os rapazes que vieram eram um pouco decepcionantes; não eram tantos, e pareciam aterrorizados, ou davam risadinhas tolas uns para os outros. Então os professores e doutores chegaram, não apenas os Animais de Crage Hall, mas os professores dos rapazes também, que eram na maior parte humanos. As garotas começaram a ficar alegres por terem-se vestido bem, pois, enquanto os rapazes eram uma mancha indistinta, os professores exibiam solenes e charmosos sorrisos.

Mesmo algumas das Amas vieram, embora tenham ficado atrás de um biombo ao fundo da sala. O som de suas agulhas de tricotar trabalhando em ritmo rápido era tranqüilizador para Galinda, de certo modo. Ela sabia que Ama Clutch lá estava.

As portas duplas no fim da sala de visitas foram escancaradas por aquele pequeno caranguejo de bronze industrial que Galinda havia conhecido na sua primeira noite em Crage Hall. Tinha sido especialmente equipado para a ocasião; o odor cortante do polimento de metal podia ser detectado. Madame Morrible então fez uma entrada, severa e impressionante em um manto preto-carvão, que ela deixava cair até o chão (a coisinha o recolhia e lançava sobre um sofá de retaguarda); seu roupão era de um laranja flamejante, com cascas de caramujo do lago alinhavadas no conjunto. A despeito de si mesma, Galinda tinha de admirar o efeito. Em tons ainda mais untuosos que o habitual, Madame Morrible saudava as visitas e liderava polidos aplausos ao conceito da Poesia e Seus Civilizados Efeitos.

Então ela falou da nova forma de verso que vinha fazendo furor nos salões finos e nos antros de Shiz. “É conhecido como o Brando”, disse Madame Morrible, em seu sorriso de Diretora, que exibia uma impressionante fileira de dentes. “O Brando é um poema curto, de natureza enaltecedora. Ele emparelha uma seqüência de trinta linhas curtas, tendo como ar-remate um apotegma sem rima. A graça do poema está na revelação do contraste entre o argumento da rima e o dito do arremate. Por vezes eles podem se contradizer, mas sempre iluminam e, como toda poesia, santificam a vida.” Ela estava radiante como um farol na neblina. “Nesta noite, especialmente, um Brando pode servir como um anódino para os desagradáveis tumultos que soubemos que vêm acontecendo na capital da nação.” Os rapazes ficaram no mínimo alarmados, e todos os professores compreenderam, embora Galinda não tivesse conseguido notar em nenhuma das garotas uma percepção do que fosse “desagradáveis tumultos”. Madame Morrible estava jogando conversa fora.

Uma jovem do terceiro ano improvisou alguns acordes estridentes num teclado de cordas de martelo, e os convidados limparam suas gargantas e olharam para os sapatos. Galinda viu Elphaba chegando lá no fundo da sala, vestida com seu displicente traje vermelho de hábito, dois livros sob o braço e um lenço enrolado na cabeça. Ela afundou na última cadeira vazia, e mordeu uma maçã bem quando Madame Morrible estava tomando fôlego solenemente para começar.


Canta um hino à retidão.

Arrojada multidão.

Vai em grato rastejar

A atitude aprimorar.

Elevando o nosso bem,

Sermos só irmãos convém

Celebremos autoridade,

Fraternal comunidade

Unidos, restringiremos

O mal que em liberdade temos.

Nada há tão luminoso

Quanto o Poder generoso

Reprimindo o desastroso.

Desça o porrete e eleve a criança.
Madame Morrible abaixou sua cabeça para deixar claro que terminava. Houve um surdo rumor de comentários indistintos. Galinda, que não sabia muito de poesia, pensou que essa talvez fosse a maneira habitual de apreciá-la. Ela deu alguns resmungos para Shenshen, que se sentava numa cadeira de espaldar reto ao seu lado, com um ar hidrópico. A cera da vela comprida estava caindo no roupão branco de ombreiras de seda com dobras de chiffon verde-limão que ela usava, e o arruinaria, era quase certo, mas Galinda concluiu que a família de Shenshen tinha recursos para comprar outro para a amiga. Ficou impassível.

“Mais um”, disse Madame Morrible. “Mais um Brando.”

A sala ficou em silêncio, mas não estaria um pouco incomodada?
Ai! Punir a impropriedade

Com a guilhotina da piedade.

Para sanar a sociedade

Não aderir à saciedade

Em abusada felicidade.

Escolhe a sã sobriedade.

Age como se a divindade

Viesse em mistério e majestade

Saudada com sonoridade.

Deixa tua história especial

Erguer-se em forma comunal

Cujas virtudes exemplos dão

E os Bens Sociais só crescerão.

Os animais devem ser vistos e não ouvidos.
Novamente, houve rumor, mas era de uma natureza diferente agora, numa clave mais agressiva. O Doutor Dillamond pigarreou e bateu o casco fendido no chão, e foi ouvido a dizer: “Bem, isso não é poesia, é propaganda, e nem boa propaganda chega a ser”.

Elphaba foi para o lado de Galinda com sua cadeira sob o braço, e deixou-a cair entre Galinda e Shenshen. Encostou seu esqueleto às ripas do assento e se inclinou para Galinda e perguntou: “O que vocês acham disso?”

Era a primeira vez que Elphaba dirigia a palavra a Galinda em público. A mortificação brotou. “Eu não sei”, ela disse debilmente, olhando para outra direção.

“É uma perfídia, não é?”, disse Elphaba. “Quero dizer aquela última linha, você não poderia perceber por aquele tom elegante se a referência era aos Animais ou aos animais. Não admira o Doutor Dillamond estar furioso.”

E ele estava. O Doutor Dillamond olhava para toda a sala como se tentasse organizar a oposição. “Estou chocado, chocado”, ele disse. “Profundamente chocado”, emendou, e marchou para fora da sala. O professor Lenx, o javali que ensinava matemática, também saiu, chocando-se acidentalmente com um antigo aparador dourado ao tentar evitar pisar na cauda de renda amarela da Senhorita Milla. O Senhor Mikko, o macaco que ensinava história, se sentou desconsoladamente nas sombras, confuso e ferido demais em seu bem-estar para esboçar um movimento. “Bem”, disse Madame Morrible num tom carregado, “é previsível que a poesia, se for Poesia, incomode. É o Direito da Arte.”

“Eu acho que ela é pirada”, disse Elphaba. Galinda achou isso horrível demais. O que aconteceria se algum dos garotos cheios de espinhas visse Elphaba cochichando para ela? Ela nunca ergueria a cabeça em sociedade outra vez. Sua vida estava arruinada. “Shh, estou escutando, eu amo poesia”, Galinda lhe falou severamente. “Não converse comigo, você está arruinando a minha noite.”

Elphaba recuou, e terminou sua maçã, e ambas ficaram escutando. Os rumores e murmúrios aumentavam ao fim de cada poema, e os rapazes e garotas começaram a relaxar e olhar em volta uns para os outros.

Quando o último Brando da noite tinha-se finado (com o críptico aforismo “Uma bruxa prevenida vale por nove”), Madame Morrible se retirou ao som de aplausos desiguais. Ela autorizou seu serviçal de bronze a servir chá para os convidados, e depois para as jovens, e finalmente para as Amas. Num entrechoque de seda farfalhante com tilintantes cascas de caramujos do lago, ela recebia cumprimentos dos professores e alguns dos rapazes mais corajosos, e pedia-lhes para sentarem-se a seu lado para que pudesse apreciar suas críticas. “Digam mesmo a verdade. Eu exagerei na dramaticidade, não? É a minha maldição. O palco me chamava, mas eu escolhi uma vida de Serviço as Jovens.” Ela baixava suas pálpebras, tomada pela modéstia, enquanto sua platéia cativa murmurava um morno protesto.

Galinda ainda estava tentando livrar-se da companhia embaraçosa de Elphaba, que seguia falando sobre os Brandos e o que eles significavam, e como se fossem algo de proveito. “Como posso saber, como você pode saber, somos jovens primeiranistas, lembra?”, disse Galinda, ansiando por zarpar para o lugar onde Pfanee, Milla e Shenshen estavam espremendo limões nas xícaras de chá de alguns rapazes salientes.

“Bem, sua opinião é tão boa quanto a dela, acho”, disse Elphaba. “Esse é o poder verdadeiro da arte, eu acho. Não pregar sermão, mas lançar desafios. Senão, para que se preocupar?”

Um rapaz se aproximou delas. Galinda achou que ele não valia um grande olhar, mas qualquer coisa era melhor que a sanguessuga verde a seu lado. “Como vai?”, disse Galinda, nem esperando que ele tomasse coragem. “É tão bom conhecê-lo. Você deve ser de... vamos ver...”

“Bem, eu sou de Briscoe Hall, na verdade”, ele disse. “Mas sou munchkinês, de origem. Como pode notar.” E ela podia, porque ele mal chegava a seus ombros. Levando isso em conta, até que ele não tinha má aparência. Um ninho de rolos de algodão de cabelo dourado mal penteado, um sorriso de dentes regulares, um aspecto melhor que o de alguns outros. A túnica de noite que ele usava era de um azul caipira, mas havia salpicos de linhas prateadas sobre ela. A seu jeito, era bem apanhado. Suas botas estavam polidas e ele se curvava, pernas bem separadas, pés avançados.

“Isso é o que eu amo”, disse Galinda, “conhecer gente nova. Isso é o que Shiz tem de melhor. Eu sou gillikinesa.” Ela fazia por não acrescentar isso, claro, porque acreditava que a coisa ficava evidente por sua vestimenta. As jovens de Munchkin tinham o hábito de vestir-se mais discretamente, e isso era tão entranhado que em Shiz eram confundidas com criadas.

“Bem, então, alô para você”, disse o rapaz. “Meu nome é Mestre Boq.”

“Senhorita Galinda dos Arduennas das Terras Altas.”

“E você?”, disse Boq, virando-se para Elphaba. “Quem é você?”

“Estou saindo”, ela disse. “Bons sonhos, para todos.”

“Não, não se vá”, disse Boq. “Eu acho que a conheço.”

“Você não me conhece”, disse Elphaba, pensativa, ao virar-se. “Como é que me conheceria?”

“Você é a Senhorita Elfinha, não é?”

“Senhorita Elfinha!”, exclamou Galinda alegremente. “Que delícia!”

“Como você sabe quem eu sou?”, disse Elphaba. “Mestre Boq da Terra de Munchkin? Eu não o conheço.”

“Eu e você brincávamos juntos quando você era pequena”, disse Boq. “Meu pai era o prefeito da aldeia onde você nasceu. Você nasceu em Margens Agitadas, em Pedras do Caminho, não foi? Você é filha do pastor unionista, esqueci o nome dele.”

“Frex”, disse Elphaba. Ela olhava de esguelha, com cautela.

“Frexpar o Santo!” disse Boq. “Está certo. Sabe que ainda falam dele, e de sua mãe, e da noite em que o Relógio do Dragão do Tempo veio a Margens Agitadas? Eu tinha dois ou três anos e me levaram para vê-lo, mas não me lembro direito. Mas, recordo que você era parceira de brincadeiras comigo quando eu ainda usava calças curtas. Você se lembra de Gawnette? Era a mulher que cuidava da gente. E Bfee? Ele é meu pai. Lembra de Margens Agitadas?”

“Tudo isso é cortina de fumaça e jogo de adivinhação”, disse Elphaba. “Como posso contradizer? Deixe-me dizer o que aconteceu em sua vida antes do que você pode lembrar. Você nasceu como rã.” (Isso era indelicado, porque Boq tinha de fato um aspecto meio anfíbio.) “Foi sacrificado ao Relógio do Dragão do Tempo e se transformou num rapaz. Mas, na sua noite de núpcias, quando a sua mulher abrir as pernas, você se transformará de novo num girino e...”

“Senhorita Elphaba!”, exclamou Galinda, arreganhando o leque para espantar o rubor de vergonha de seu rosto. “Que língua!”

“Oh, bem, eu não tenho infância”, disse Elphaba. “Então você pode dizer o que quiser. Eu cresci na Terra de Quadling com o povo do pântano. Eu me esborracho quando ando. Você não quer conversar comigo. Converse com a Senhorita Galinda, ele é melhor em matéria de salões do que eu. Tenho de sair agora.” Elphaba fez uma saudação de boa noite e os deixou, quase como se fugisse.

“Por que ela disse tudo aquilo?”, disse Boq, sem embaraço, apenas com espanto, na voz. “Claro que me lembro dela. Quantas pessoas verdes há neste mundo?”

“É bem possível”, considerou Galinda, “que ela não gostou de ser re-conhecida por causa da cor da pele. Eu não sei com certeza, mas talvez ela se melindre por isso.”

“Ela deve saber que isso é o que as pessoas lembrariam.”

“Bem, até onde sei, você acertou no que disse sobre ela”, Galinda continuou. “Disseram-me que o avô dela era o Eminente Thropp de Solos de Colwen em Pedras do Ninho.”

“É ela”, Boq disse. “Elfinha. Pensei que nunca mais a veria.”

“Não quer um pouco mais de chá? Chamo o garçom para você”, Galinda disse. “Vamos nos sentar aqui e você me contará sobre a Terra de Munchkin. Estou trêmula de curiosidade.” Ela se empoleirou na cadeira-de-cores-combinadas e fez a sua melhor pose. Boq se sentou, e balançou a cabeça, como se estivesse perplexo com a aparição de Elphaba.

Quando Galinda se recolheu naquela noite, Elphaba já estava na cama, com os cobertores enrolados na cabeça, e emitindo um ronco obviamente teatral. Galinda, contrariada, jogou-se na cama murmurando um “sua corcunda”, irritada por ser ela a rejeitada por uma garota verde.

Na semana seguinte muito foi dito sobre a noite dos Brandos. O Doutor Dillamond interrompeu sua palestra de biologia para instigar seus alunos a darem uma resposta. As garotas não entendiam o que poderia ser uma resposta biológica à poesia e fizeram silêncio às suas principais questões. Ele finalmente explodiu: “Ninguém aqui faz a associação entre a ex-pressão daqueles pensamentos e o que está acontecendo atualmente na Cidade Esmeralda?”.

A Senhorita Pfanee, que não acreditava estar pagando a taxa escolar para ser repreendida, retrucou. “Não temos a menor noção do que possa estar acontecendo na Cidade Esmeralda! Pare de fazer charadas com a gente; se tiver algo para dizer, diga. Não berre desse jeito.”

O Doutor Dillamond arregalava os olhos na direção das janelas e parecia estar tentando controlar o seu temperamento. Os estudantes estavam empolgados pelo pequeno drama. Então o Bode se virou e, numa voz mais suave do que aquela que eles esperavam, contou-lhes que o Mágico de Oz tinha decretado Interditos na Mobilidade dos Animais, efetivados havia vá-rias semanas. Isso significava não apenas que os Animais teriam restrições em seu acesso às comodidades de viagem, alojamentos e serviços públicos.

A Mobilidade a que o decreto se referia era também profissional. Qualquer Animal adulto estava proibido de trabalhar no setor público. Na verdade, eles estavam sendo expulsos de volta para as fazendas ou florestas se quisessem ter trabalho remunerado.

“O que vocês pensam que Madame Morrible estava dizendo quando concluiu aquele Brando com o epigrama Os Animais devem ser vistos e não ouvidos?”, perguntou o Bode concisamente.

“Bem, qualquer um ficaria furioso”, disse Galinda. “Quero dizer, qualquer Animal. Mas, não parece que seu emprego esteja ameaçado, está? Aí está você, nos ensinando.”

“E quanto a meus filhos? E quanto às minhas crianças?”

“Você tem filhos? Pensei que não fosse casado.”

O Bode fechou os seus olhos. “Não sou casado, Senhorita Galinda. Mas poderia ser. Ou posso. Ou talvez eu tenha sobrinhos e sobrinhas. Eles já foram realmente banidos do estudo em Shiz porque não podem segurar um lápis com que escrever um ensaio. Quantos Animais a senhorita já viu neste paraíso da educação?” Bem, isso era verdade, não havia nenhum.

“Bem, acho que é bem horrível”, disse Galinda. “Por que o Mágico de Oz faria uma coisa dessas?”

“Porque, realmente”, disse o Bode.

“Não, realmente, por quê? É uma pergunta de fato. Eu não sei.”

“Nem eu.” O Bode se virou para sua tribuna e empurrou alguns papéis para lá e para cá, e então foi visto agarrando um guardanapo de uma prateleira mais baixa, e assoando o nariz. “Minhas avós eram cabras de leite numa fazenda em Gillikin. Através de toda uma vida de sacrifícios e labutas pagaram um professor local para me educar e tomar ditado quando fui para meus exames. Seus esforços estão perto de desmoronar.”

“Mas você ainda pode ensinar!”, disse Pfanee petulantemente.

“Estou por um fio, minha querida”, disse o Bode, e dispensou a classe mais cedo. Galinda se pegou olhando de relance para Elphaba, que trazia um estranho olhar fixo. Enquanto Galinda saía da sala de aula, Elphaba foi lá para a frente, onde o Doutor Dillamond estava tremendo em espasmos incontroláveis, os chifres abaixados.

Alguns dias depois, Madame Morrible deu uma de suas ocasionais palestras de abertura sobre Hinos Antigos e Louvores Pagãos. Ela propunha questionários, e a assembléia inteira ficou espantada ao ver Elphaba sair de sua costumeira posição fetal no fundo da sala e dirigir a palavra à Diretora.

“Madame Morrible, dê licença”, disse Elphaba, “nós não tivemos a oportunidade de discutir os Brandos que a senhora recitou no salão na semana passada.”

“Discutir”, disse Madame Morrible com um generoso, embora aversivo, chacoalhar de suas mãos cheias de pulseiras.

“Bem, pareceu-me que o Doutor Dillamond achou que eles eram de gosto duvidoso, devido aos Interditos para a Mobilidade dos Animais.”

“Ai, o Doutor Dillamond”, disse a Madame Morrible, “é um doutor. Ele não é um poeta. Ele é um Bode também, e eu posso lhes perguntar, garotas, seja viram um Bode que fosse grande autor de sonetos e baladas? Ai, cara Senhorita Elphaba, o Doutor Dillamond não conhece a convenção poética da ironia. Você gostaria de definir ironia para a classe, por favor?”

“Eu não acho que possa, Madame.”

“Ironia, dizem alguns, é a arte de justapor partes incongruentes. Re-quer uma distância consciente. A ironia pressupõe distanciamento, de que, ai, no caso dos Direitos Animais, devemos perdoar o Doutor Dillamond por estar desprovido.”

“Então, aquela frase a que ele fez objeção ― Animais devem ser vistos e não ouvidos ― ela era irônica?”, continuou Elphaba, analisando seus papéis e sem olhar para Madame Morrible. Galinda e suas colegas de classe estavam interessadíssimas, pois estava claro que cada uma das mulheres nos extremos opostos da sala teria gostado de ver a outra sucumbir a um súbito ataque do baço.

“Pode-se considerar que era um modo irônico, é uma escolha”, disse Madame Morrible.

“Qual é a sua escolha?”, disse Elphaba.

“Que impertinente!”, disse Madame Morrible.

“Bem, mas eu não tenho a intenção de ser impertinente. Eu quero aprender. Se a senhora ― se qualquer um ― achou que aquela declaração era verdadeira, então não estava em contradição, com a chatice autoritária que a precedeu. Era apenas argumento e conclusão, e não consigo ver onde estava a ironia.”

“Você não vê muito, Senhorita Elphaba”, disse Madame Morrible. “Você deve aprender a pôr-se no lugar de alguém mais culto, e olhar por esse ângulo. Estar preso à ignorância, estar circunscrito aos muros de uma perspicácia limitada, bem, isso é muito triste em alguém tão jovem e tão brilhante.” Ela cuspiu a última palavra, e pareceu a Galinda, de certo modo, um comentário baixo sobre a cor da pele de Elphaba, que hoje estava de fato lustrosa devido ao esforço de falar em público.

“Mas eu tentava me pôr no lugar do Doutor Dillamond”, disse Elphaba, quase lamentando, mas não entregando os pontos.

“No caso da interpretação poética, eu arrisco sugerir, deve realmente ser verdade. Os animais não devem ser ouvidos”, replicou Madame Morrible.

“A senhora está querendo dizer isso ironicamente?”, disse Elphaba, mas a Diretora se sentou com suas mãos sobre o rosto, e não voltou a erguê-lo pelo resto da sessão.


4
Quando o segundo semestre começou, e Galinda estava ainda carregando o fardo de ter Elphaba como colega de quarto, ela fez um breve protesto a Madame Morrible. Mas a Diretora não permitia mudança, não permitia um novo arranjo. “Transtorno demais para as minhas outras garotas”, ela disse. “A menos que você queira se mudar para o Dormitório Rosa. Sua Ama Clutch parece, aos meus olhos observadores, estar se recuperando das seqüelas que você descreveu quando nos conhecemos. Talvez agora ela possa supervisionar quinze garotas?”

“Não, não”, disse Galinda rapidamente. “Há recaídas de tempos em tempos, mas eu não as menciono. Eu não gosto de ser importuna.”

“Quanta consideração”, disse Madame Morrible. “Seja abençoada, doçura. Agora, minha cara, pergunto se poderíamos tirar um momento, já que veio para uma conversa, para discutir seus projetos acadêmicos para o próximo outono? Como sabe, o segundo ano é quando as garotas escolhem suas especialidades. Você já pensou nisso?”

“Muito pouco”, disse Galinda. “Francamente, pensei que meus talentos emergiriam naturalmente e tornariam claro se eu deveria tentar ciência natural, ou as artes, ou a feitiçaria, ou talvez apenas história. Não acho que sou talhada para o trabalho ministerial.”

“Não fico surpresa que alguém como você fique em dúvida”, disse Madame Morrible, o que não foi muito estimulante para Galinda. “Mas, posso sugerir a feitiçaria? Você poderia ser muito boa nisso. Eu me orgulho de conhecer essa espécie de coisa.”

“Pensarei nisso”, disse Galinda, embora seu apetite inicial por feitiça-ria houvesse esmorecido assim que soubera que terrível labuta era aprender feitiços e, pior ainda, entendê-los.

“Caso você escolha feitiçaria, talvez seja possível ― só possível ― encontrar para você uma nova colega de quarto”, disse Madame Morrible, “dado que a Senhorita Elphaba já me disse que os interesses dela vão na direção das ciências naturais.”

“Oh, bem, então, vou refletir seriamente sobre isso”, disse Galinda. Ela lutava com indefiníveis conflitos dentro dela. Madame Morrible, com toda aquela fala de classe mais alta e fabuloso guarda-roupa, parecia um tanto ― oh ― perigosa. Como se seu largo sorriso público fosse composto por um relance implícito de facas e lanças, como se sua voz profunda mascarasse o ruído surdo de explosões distantes. Galinda sempre se sentia incapaz de ver o quadro completo. Era desconcertante, e no mínimo para seu crédito sentia dentro de si o rasgar de algum tecido valioso ― seria a integridade? ― quando se sentava na sala de visitas de Madame Morrible e tomava de seu perfeito chá.

“Pois a irmã, pelo que sei, virá para Shiz”, concluía Madame Morrible alguns minutos depois, como se não tivesse havido um intervalo de silêncio, e muitos biscoitos saborosos comidos, “porque nada posso fazer para impedir uma coisa dessas. E isso, pelo que entendo, será horrível. Você não gostará. A irmã, sendo como é, terá de passar sem dúvida muito tempo no quarto da Senhorita Elphaba, terá de ajudá-la.” Ela sorria palidamente. Uma lufada de aroma de pó-de-arroz saía do flanco de seu pescoço, quase como se Madame Morrible pudesse emitir um agradável odor pessoal quando lhe desse na telha.

“A irmã sendo como é.” Madame Morrible estalava a língua, desaprovadora, e sacudia sua cabeça para trás e para a frente enquanto levava Galinda para a porta. “Chato, realmente, mas suponho que devamos nos unir e enfrentar isso. Esta é a fraternidade feminina, não é?” A Diretora apertou seu xale e pôs a mão afetuosamente no ombro de Galinda. Ela tremeu, e teve certeza de que Madame o sentiu, mas a Diretora não deu um sinal que fosse. “Mas, então, esse meu uso de fraternidade ― como é irônico. Espirituoso demais. Depois de um longo tempo, com certeza, e quando se ganhou um conhecimento maior, não há nada que se diga ou faça que não seja irônico no fim.” Ela apertou a espádua de Galinda como se fosse um guidão de bicicleta, quase de uma maneira mais brutal do que era a apropriada para uma mulher. “Só podemos esperar ― ha, ha ― que a irmã use alguns véus! Mas ainda falta um ano. Enquanto não acontecer, teremos tempo. Pense na feitiçaria, tá? Pense mesmo. Agora, adeus, meu amor, e bons sonhos.”

Galinda voltou para seu dormitório lentamente, pensando em como seria a irmã de Elphaba para provocar esses comentários ferinos sobre véus. Ela queria perguntar à própria Elphaba. Mas não conseguia pensar em como fazê-lo. Não tinha coragem.



BOQ

1


“Venha para fora”, disseram os rapazes. “Venha.” Eles estavam encostados na entrada para o quarto de Boq, num bando caótico, iluminados pela lâmpada de óleo do estúdio mais adiante. “Estamos enjoados de livros. Venha conosco.”

“Não posso”, disse Boq. “Estou atrasado em teoria da irrigação.”

“Foda-se a teoria da irrigação quando os botecos estão abertos”, disse o empetecado janota gillikinês chamado Avaric. “Você não vai melhorar suas notas atrasado desse jeito, com os exames quase terminados e os examinadores já quase ‘dando o prego’.”

“Não são as notas”, disse Boq. “É que eu não entendo a teoria ainda.”

“Vamos indo pro boteco, vamos indo pro boteco”, cantaram alguns rapazes que pareciam ter tido um porre inicial. “Foda-se, Boq, a cerveja espera, e já está ficando quente!”

“Digam qual o boteco, então, talvez eu possa ir pra lá dentro de uma hora”, disse Boq, firmemente sentado em sua cadeira e não colocando seus pés no banquinho, pois sabia que isso poderia incitar seus colegas de classe a erguê-lo nos ombros e carregá-lo para fora com eles para uma noite de farra. Sua baixa estatura parecia inspirar esse tipo de molecagem. Os pés diretos no chão faziam-no parecer mais plantado, ele imaginava.

“O Javali e Erva-Doce”, disse Avaric. “Tem uma nova bruxa se apresentando lá. Disseram que ela é quente. Ela é uma bruxa de Kumbric.”

“Hah”, disse Boq, não convencido. “Bem, vão e peguem um bom lugar. Eu irei quando puder.”

Os rapazes caíram fora, sacudindo as portas de outros amigos, entortando os retratos de rapazes mais velhos agora transformados em augustos patronos. Avaric ficou na entrada e esperou mais um minuto. “Podíamos nos livrar de alguns grosseirões e selecionarmos uma turma para irmos ao Clube da Filosofia”, ele disse, sedutoramente. “Mais tarde, quero dizer. É fim de semana, afinal de contas.”

“Oh, Avaric, vá tomar uma ducha fria”, disse Boq. “Você admitiu que estava curioso. Você admitiu. Então, por que não um trato de fim de semestre?”

“Lamento ter dito que estava curioso. Tenho curiosidade quanto à morte, também, mas posso esperar para descobrir o que é, obrigado. Suma, Avaric. Melhor ir se juntar aos seus amigos. Curta as palhaçadas de Kumbric que, aliás, penso que são propaganda enganosa. Os talentos da Bruxa de Kumbric caíram de moda há centenas de anos. Se é que um dia existiram.”

Avaric virou para cima a segunda gola de sua jaqueta-túnica. A parte de dentro era uma faixa de veludo fino de um vermelho profundo. Contra o elegante pescoço barbeado, a faixa parecia uma fita singular a indicar privilégio. Boq descobriu-se, novamente, fazendo comparações mentais entre ele mesmo e o belo Avaric, e concluindo ― bem, concluindo que era inferior. “Ora, Avaric”, ele disse, tão impaciente consigo mesmo quanto estava com seu amigo.

“Algo aconteceu com você”, disse Avaric. “Não sou tão bobo assim. O que há de errado?”

“Não há nada errado”, disse Boq.

“Diga-me pra cuidar de minha própria vida, diga que eu vá me foder, me peça pra cair fora, vamos lá, diga, mas não me diga que não tem nada errado. Porque você não é um mentiroso lá muito bom, e eu não sou tão estúpido. Mesmo sendo um dissipado gillikinês da nobreza decadente.” Sua expressão era suave, e Boq, por um momento, se sentiu tentado a falar. Sua boca se abriu como se ele pensasse no que estava para dizer, mas, ao som dos sinos das Torres de Ozma, no repique das horas, a cabeça de Avaric se virou por um momento. No que lhe dizia respeito, Avaric não estava inteiramente ali. Boq fechou sua boca, pensou um pouco mais, e disse: “Se quiser, chame de indiferença munchkinesa. Não vou mentir, Avaric, você é bom amigo demais para que eu o faça. Mas não há nada a dizer agora. Agora, saia e vá se divertir. Mas, tenha cuidado.” Ele estava quase acrescentando uma palavra de advertência quanto ao Clube de Filosofia, mas controlou-se. Se Avaric ficasse aborrecido, então a preocupação maternal de Boq poderia provocar fogo contrário e estimular Avaric a ir.

Avaric deu uns passos adiante e beijou-o nas bochechas e na testa, um costume de classe alta nortista que deixava Boq profundamente incomodado. Então, com uma piscada e um gesto obsceno, ele desapareceu.

O quarto de Boq dava para uma aléia de pedras arredondadas, através da qual Avaric e seus camaradas desciam bagunçando e trançando. Boq ficou para trás, nas sombras, mas não precisava ter-se preocupado; seus amigos já não pensavam nele. Tinham chegado a um ponto satisfatório em seus exames e recebido uma folga por alguns dias. Depois dos exames, o campus ficaria vazio, exceto pelas presenças dos professores mais fanáticos e dos alunos mais pobres. Boq já tinha passado por isso. Ele preferia estudar, no entanto, a escovar velhos manuscritos com uma escova de pêlo de texugo de cinco fios, o que ele fora obrigado a fazer na biblioteca do Três Rainhas por todo o verão.

Ao lado da aléia se estendia o muro de pedras azuis de um estábulo privado, pertencente a alguma mansão que ficava a umas poucas ruas de uma praça elegante. Além do telhado do estábulo, viam-se os topos copados de umas poucas árvores frutíferas, na horta da cozinha de Crage Hall, e acima delas as janelas lancetadas dos dormitórios e salas de aula. Quando as jovens se esqueciam de fechar suas cortinas ― o que acontecia com freqüência de pasmar ― podiam ser vistas em vários estágios de nudez. Nunca nuas de corpo inteiro, claro; nesse caso ele teria evitado olhar, ou teria dito severamente a si mesmo que era essa a melhor atitude a tomar. Mas, ah, o róseo e o azulado de roupas de baixo e camisolas, os babados dos trajes básicos, o farfalho das anquinhas e o frufru dos bustos. Era uma educação em matéria de lingerie, se não fosse algo mais. Boq, que não tinha irmãs, simplesmente olhava.

O dormitório do Crage Hall era distante o suficiente para que ele não distinguisse nenhuma garota em particular. E Boq estava cheio de desejo de ver sua paixonite outra vez. Maldição! Dupla maldição! Ele não conseguia se concentrar. Ele seria dispensado se prejudicasse seus exames! Ele causaria desgosto a seu pai, o velho Bfee, e à aldeia, e às outras aldeias.

Inferno e mais inferno. A vida era dura e a cevada pouca. Boq se viu de repente pulando o banquinho, agarrando sua capa de estudante, arremetendo-se pelos corredores, e descendo em giros pela escada de espiral de pedras na torre do canto. Ele não podia esperar mais. Ele tinha de fazer alguma coisa, e uma idéia lhe ocorrera.

Ele cumprimentou o porteiro por dever, passou pelo portão e virou à esquerda, e caminhou apressadamente pela estrada, no lusco-fusco, evitando o melhor que podia as generosas pilhas de estrume de cavalo. Com seus colegas de classe longe dali, divertindo-se, ao menos ele não estaria fazendo-se se de bobo do ponto de vista deles. Não havia viva alma em Briscoe. Então, ele virou à esquerda, e de novo à esquerda, e dentro em pouco caminhava pela aléia ao longo do estábulo. Um paiol de ripas, a ponta saliente de uma persiana maior, o suporte de um guincho. Boq era pequeno, mas era ágil também, e com poucos arranhões em suas articulações, conseguira pular na calha de lata do estábulo, e ali esperneava como um caranguejo do lago sobre o íngreme telhado pontudo.

Aha! Ele devia ter pensado nisso há semanas, meses! Mas a noite em que todos os rapazes teriam saído para festejar, a noite em que ele podia ter certeza de que não seria visto de Briscoe Hall, era essa noite, e talvez apenas essa. Alguma espécie de senso de destino fizera com que resistisse convictamente ao convite de Avaric. Pois agora estava montado no telhado do estábulo, e o vento que corria pelas folhas úmidas dos pés de azedinha e de pêra fazia uma suave fanfarra. E as garotas começavam a entrar lá no quarto ― como se houvessem ficado no corredor até que ele conseguisse a posição certa ― como se soubessem que ele estava vindo!

De perto elas não eram, no geral, assim tão bonitas...

Mas, onde estava aquela que o interessava?

E bonitas ou não, elas estavam nítidas. Os dedos que elas mergulhavam nas laçadas de seda, para desamarrá-las, os dedos dos quais tiravam as luvas, e desabotoavam manhosas fileiras de quarenta botões de pérola, os dedos que umas cediam às outras, mexendo nas íntimas rendas e nas partes pudendas das quais os rapazes de colégio sabiam apenas por mitologia! Os inesperados tufos de pêlos ― que suavidade! Como eram maravilhosamente animalescos! Suas mãos se apertavam e soltavam, como se tivessem vontade própria, mas famintas daquilo que ele mal conhecia ― e onde estava ela?

“Que diabos você está fazendo aí em cima?”

Então, ele escorregou, talvez porque estivesse deslumbrado, e talvez porque o destino, tendo sido tão bom ao premiá-lo com esse êxtase, por desforra, precisasse matá-lo agora. Seu pé lhe faltou e ele tentou se agarrar à chaminé, mas não conseguiu. Cabeça sobre as coxas, ele rolou como um brinquedo de criança, chocando-se contra a galharia da maldita pereira, que provavelmente salvou a sua vida, interrompendo sua queda. Ele aterrissou com um baque surdo num canteiro de alfaces, e o ar foi ruidosamente expelido dele, de um modo um tanto mortificante, através de todos os orifícios disponíveis.

“Oh, brilhante”, disse uma voz. “Neste ano as frutas estão caindo mais cedo.”

Ele teve uma última, perdida esperança de que a pessoa que falava fosse a sua amada. Tentou parecer composto, embora seus óculos tivessem despencado em algum outro lugar.

“Como vai?”, ele disse, incerto, sentando-se. “Não era assim que eu pretendia chegar.”

Descalça e de avental, ela saiu de trás de uma latada de uvas Pertha rosadas. Não era ela, não era a esperada. Era a outra. Ele podia notar isso até sem óculos. “Oh, é você”, ele disse, tentando não parecer desesperado.

Ela trazia uma peneira com algumas uvas minúsculas, das azedas que se usa em saladas rápidas. “Oh, é você”, ela disse, chegando mais perto. “Eu conheço você.”

“Mestre Boq, estou às suas ordens.”

“Você quer dizer, Mestre Boq, que está é nas minhas alfaces.” Ela catou seus óculos da rama dos feijões saltadores, e devolveu-os a ele.

“Como está você, Senhorita Elfinha?”

“Eu não estou ácida como uma uva e nem tão esborrachada como uma alface”, ela disse. “Como está, Mestre Boq?”

“Eu estou”, ele disse, “um tanto embaraçado. Vou arrumar algum problema aqui?”

“Posso dar um jeito nisso, se quiser.”

“Não tenha esse trabalho. Eu caio fora do mesmo jeito que cheguei.” Ele olhou para a pereira. “Coitada, eu quebrei alguns ramos de bom tamanho.”

“Pobrezinha da árvore. Por que você fez isso com ela?”

“Bem, eu estava apavorado”, ele disse, “e tinha uma opção: me jogar como uma ninfa da floresta pelas folhas, ou despencar silenciosamente do outro lado do estábulo, no meio da rua, e voltar à minha vida normal. O que você escolheria?”

“Ah, essa é a questão", ela disse, “mas sempre aprendi que a primeira coisa a fazer é negar a validade da questão. Eu, se estivesse assustada, nunca me jogaria silenciosamente na rua, nem despencaria ruidosamente nas árvores, rumo às alfaces. Eu me viraria do avesso para ficar mais leve, eu flutuaria até que a pressão do ar exterior tivesse me estabilizado. Daí, eu deixaria o lado interno da minha pele se acomodar no telhado, pondo um dedo do pé de cada vez.”

“E você então inverteria a sua pele?”, ele disse, surpreso.

“Depende de quem estivesse lá e o que quisessem, e se me desse na telha. Também depende de que cor o lado de dentro de minha pele ficasse. Como nunca me inverti, você sabe, eu não posso ter certeza. Sempre achei que deve ser horrível ficar cor de rosa e branco como uma porquinha.”

“Em geral é”, disse Boq. “Especialmente no banho. Você se sente como um bife mal passado...” Mas ele se interrompeu. O absurdo estava ficando muito pessoal. “Realmente, peço desculpas”, ele disse. “Eu assustei você e não queria isso.”

“Você estava olhando no topo das árvores, examinando a nova safra, suponho?”, ela disse, brincando.

“É verdade”, ele respondeu friamente.

“Você viu a árvore dos seus sonhos?”

“A árvore dos meus sonhos é dos meus sonhos, e eu não falo dela nem para os meus amigos nem para você, que eu mal conheço.”

“Oh, mas você me conhece. Nós estivemos juntos numa brincadeira de infância, no ano passado você lembrou que nos tínhamos conhecido. Ué, nós somos quase irmão e irmã. Você pode na certa descrever sua árvore favorita para mim, e eu direi se sei onde ela está.”

“Você está me gozando, Senhorita Elfinha.”

“Ué, não é o que eu pretendo, Boq.” Ela usou seu nome sem o honorífico de um modo amável, como se tentasse sublinhar o seu comentário anterior sobre eles serem feito irmãos. “Suspeito que você queira saber da Senhorita Galinda, a jovem gillikinesa que conheceu no matadouro poético da Madame Morrible no último outono.”

“Talvez você realmente me conheça mais do que penso.” Ele suspirou. “Posso ter esperança de que ela pense em mim?”

“Bem, esperança você pode ter”, disse Elphaba. “Seria mais eficaz você perguntar a ela e acabar com isso. Ao menos você saberia.”

“Mas você é amiga dela, não é? Você não sabe?”

“Você não vai querer confiar no que eu sei ou não sei”, disse Elphaba, “ou no que eu disser que sei. Eu poderia mentir. Eu poderia estar apaixonada por você, e trair minha colega de quarto mentindo sobre ela...”

“Ela é sua colega de quarto?”

“Está muito surpreso com isso?”

“Bem... não... apenas... apenas satisfeito.”

“Os cozinheiros devem estar lá tentando adivinhar que diálogos serão esses que estou travando com os aspargos”, Elphaba disse. “Posso dar um jeito de trazer a Senhorita Galinda até aqui alguma noite, se você quiser. De preferência o mais breve possível, de modo a acabar com a sua alegria de um modo mais claro e completo. Se é que é isso que irá acontecer”, ela disse, “mas, como digo, como poderei saber? Se não posso prever o que vamos ter de sobremesa, como posso prever as afeições de alguém?”

Marcaram um encontro para três noites a partir dali, e Boq agradeceu Elphaba ardentemente, apertando suas mãos com tal força que seus óculos caíram no nariz. “Você é uma grande e velha amiga, Elfinha, mesmo que eu não a tenha visto por quinze anos”, ele disse, devolvendo a ela seu nome sem o honorífico. Ela bateu em retirada, esgueirando-se por debaixo dos galhos da pereira, e desapareceu na trilha. Boq achou a saída para a horta da cozinha e voltou a seu dormitório, e releu seus livros, mas o problema não estava resolvido, não, não estava. O problema fora exacerbado. Ele não conseguia se concentrar. Ficou acordado até ouvir os estardalhaços, os pedidos de silêncio, e as cantorias murmuradas, feitos pelos rapazes embriagados ao retornarem a Briscoe Hall.

2
Avaric partira no verão, assim que os exames terminaram, e Boq tinha ou superestimado suas possibilidades ou fracassado, nos dois casos havendo pouco a perder agora. Esse primeiro encontro com Galinda poderia ser o último. Boq se preocupou com as roupas mais que o habitual, e obteve uma dica de como arrumar seu cabelo na nova moda que reinava nos cafés (uma fina faixa branca em torno da cabeça, empurrando seu cabelo direto do topo, de modo que caísse em anéis, como espuma transbordando de uma bacia de leite entornado). Ele engraxou seus sapatos várias vezes. Estava muito quente para usar sapatos, mas ele não tinha sandálias de noite. Que fosse do jeito que fosse.

Na noite marcada, ele refez o seu caminho e, no telhado do estábulo, descobriu que uma escada de apanhador de frutas fora deixada encostada no muro, assim, não precisava descer pelas folhas como um chimpanzé vertiginoso. Ele desceu cuidadosamente pelos primeiros degraus, e daí saltou valentemente pelo resto do caminho, evitando as alfaces dessa vez. Num banco sob os castanheiros lá estavam Elphaba, os joelhos dobrados em direção ao peito e os pés descalços esparramados no assento do banco, e Galinda, cujos tornozelos estavam caprichosamente cruzados e que se ocultava atrás de um leque de seda, olhando para outra direção.

“Bem, quem diria, uma visita”, disse Elphaba. “Que baita surpresa.”

“Boa noite, senhoras”, ele disse.

“Sua cabeça parece a de um porco-espinho em pânico, o que é que você fez?”, disse Elphaba. Uma olhadinha pelo menos Galinda se virou para dar, mas daí desapareceu novamente por trás do leque. Ela estaria tão nervosa? Seu coração estaria fraquejando?

“Bem, eu sou Porco-Espinho em parte, não lhe contei?”, disse Boq. “Pelo lado de meu avô. Ele acabou virando costeleta para a comitiva de Ozma numa temporada de caça, e uma lembrança saborosa para todos. A receita passa de mão em mão na família, registrada num álbum. Serve-se com queijo e molho de noz. Mmm.”

“Você é mesmo?”, disse Elphaba. Ela pôs o queixo nos joelhos. “Porco-Espinho no duro?”

“Não, foi uma brincadeira. Boa noite, Senhorita Galinda. Foi amável de sua parte concordar em se encontrar comigo de novo.”

“Isso é altamente impróprio”, disse Galinda. “Por um bom número de razões, como bem sabe, Mestre Boq. Mas minha colega de quarto não me deu sossego até que eu dissesse sim. Não posso dizer que estou satisfeita por encontrá-lo novamente.”

“Oh, diga, diga sim, talvez isso se torne verdade”, disse Elphaba. “Faça uma tentativa. Ele até que não é tão ruim. Para um rapaz pobre.”

“Eu estou satisfeita que você esteja tão interessado em mim, Mestre Boq”, disse a Senhorita Galinda, usando de cortesia. “Estou lisonjeada.” Era claro que ela não estava lisonjeada, estava era humilhada. “Mas você deve entender que não pode haver uma amizade especial entre nós. Tirando a questão dos meus sentimentos, há muitos obstáculos sociais para enfrentarmos. Eu concordei em vir apenas para que pudesse lhe dizer isso pessoalmente. Parecia a única atitude justa.”

“Parecia a única atitude justa e podia ser engraçado também”, disse Elphaba. “Eis porque eu vim junto.”

“Há a questão das culturas diferentes, para começar”, disse Galinda. “Eu sei que você é munchkinês. Eu sou uma gillikinesa. Precisarei me casar com alguém de minha própria terra. É o único jeito, sinto muito” ― ela baixou seu leque e ergueu sua mão, mostrando a palma, para interromper o protesto de Boq ― “e, além disso, você é um fazendeiro, da escola de agricultura, e eu quero um estadista ou um banqueiro das Torres de Ozma. É assim que as coisas são. Além do mais”, disse Galinda, “você é muito baixinho.”

“E que dizer de sua violação dos costumes vindo aqui desse jeito, e que dizer de sua burrice?”, disse Elphaba.

“Basta”, disse Galinda. “Isso é suficiente, Senhorita Elphaba.”

“Por favor, você é segura demais de si mesma”, disse Boq. “Se eu posso ter o atrevimento de dizer.”

“Você não é tão atrevido”, disse Elphaba, “você é quase tão atrevido quanto um chá feito de folhas usadas. Você está me decepcionando com essa resposta. Vamos, diga alguma coisa interessante. Estou começando a preferir ter ido à igreja.”

“Você está interrompendo”, disse Boq. “Senhorita Elfinha, você fez uma coisa maravilhosa encorajando a Senhorita Galinda a se encontrar comigo, mas devo lhe pedir para nos deixar a sós para resolver isso.”

“Nenhum de vocês dois vai entender o que o outro está dizendo”, disse Elphaba calmamente. “Sou uma munchkinesa por nascimento, se não por formação, e sou uma garota por acaso se não por escolha. Sou o árbitro natural entre vocês dois. Não acredito que vocês possam se entender sem mim. De fato, se eu sair desta horta, vocês deixarão de decifrar a linguagem de cada um completamente. Ela fala a língua dos Ricos, você fala a dos Pobres Esfarrapados. Além disso, paguei por esse espetáculo tentando convencer a Galinda por três dias corridos. Tenho de assistir.”

“Seria tão bom você ficar, Senhorita Elphaba”, disse Galinda. “Eu preciso de uma acompanhante quando estou com um rapaz.”

“Viu o que eu disse?”, Elphaba falou a Boq.

“Então, se você vai ficar, ao menos me deixe falar”, Boq disse. “Por favor, deixe-me falar, por uns minutos, Senhorita Galinda. O que você diz é verdade. Você é bem-nascida e eu sou comum. Você é gillikinesa e eu, munchkinês. Você tem um padrão social a obedecer, e eu também. E o meu não inclui me casar com uma jovem rica demais, estrangeira demais, exigente demais. Casamento não foi o que vim aqui para propor.”

“Estão vendo, fiz bem de não ter saído, a coisa está ficando boa”, disse Elphaba, mas fechou a matraca quando os dois olharam para ela, ferozes.

“Eu vim aqui para propor que nos encontrássemos de quando em quando, só isso”, disse Boq. “Que nos víssemos como amigos. Que, livres de expectativas, viéssemos a nos conhecer como bons amigos. Eu não nego que você me deslumbra com sua beleza. Você é a lua em tempos de plenitude; você é a fruta da árvore flamejante; você é a fênix em círculos de fogo...”

“Isso parece ensaiado”, disse Elphaba.

“Você é o oceano mitológico”, ele concluiu, jogando todos os ovos no cesto.

“Eu não sou muito ligada em poesia”, disse Galinda. “Mas você é muito amável.”

Ela pareceu ficar pouco animada com os cumprimentos. De qualquer modo, o leque se moveu mais rápido. “Eu não entendo realmente o trecho da amizade, como você diz, Mestre Boq, entre pessoas não-casadas da nossa idade. Me parece ― perturbador. Vejo que pode levar a complicações, especialmente quando você confessa uma quedinha a que eu não posso corresponder. Nem em um milhão de anos.”

“Estamos na idade da ousadia”, disse Boq. “É a melhor época que temos. Devemos viver no presente. Somos jovens e vivos.”

“Eu não sei se vivos explica tudo”, disse Elphaba. “Me parece uma coisa forçada.”

Galinda deu uma pancadinha na cabeça de Elphaba com seu leque, que foi fechado com habilidade e se reabriu com a desenvoltura de antes, um gesto de elegância experiente que impressionou a todos. “Você está sendo cansativa, Senhorita Elfinha. Eu aprecio a sua companhia, mas não preciso de um comentário a cada fala. Sou perfeitamente capaz de decidir sobre os méritos do discurso de Mestre Boq por mim mesma. Deixe-me examinar as idéias estúpidas que ele tem. Lurline dos céus, mal posso ouvir meus próprios pensamentos!”

Perdendo o controle, Galinda ficava mais bonita que nunca. Então, o velho provérbio estava certo, também. Boq estava aprendendo muito sobre garotas! O leque estava abaixado. Era um bom sinal? Se ela não tivesse alguma afeição por ele, teria posto um vestido com um decote que descia só um pouquinho mais abaixo do que ele ousaria desejar? E havia a essência de água de rosas que ela usava. Ele sentiu uma onda de possibilidade, uma inclinação a roçar seus lábios no ponto onde o ombro de Galinda se transformava em pescoço.

“Seus méritos”, ela dizia. “Bem, você é corajoso, suponho, e inteligente, para ter imaginado isso. Se Madame Morrible o encontrasse aqui, estaríamos numa grande encrenca. Claro que você não sabia disso, então, vamos cortar o corajoso. Fica apenas o inteligente. Você é inteligente e um pouco, oh, bem, eu quero dizer que, de aparência, você é...”

“Bonito?”, sugeriu Elphaba. “Vistoso?”

“Você é engraçado”, concluiu Galinda.

Boq ficou de queixo caído. “Engraçado?”, ele disse.

“Eu daria muito para chegar a engraçada”, disse Elphaba. “O máximo a que posso aspirar é estimulante, e quando as pessoas dizem isso, geral-mente se referem à digestão...”

“Bem, eu posso ser todas ou nenhuma das coisas que você diz”, disse Boq com firmeza, “mas você verá que eu sou persistente. Não deixarei você dizer não à nossa amizade, Galinda. Ela significa muito para mim.”

“Observem o animal macho rosnando na selva à procura de sua parceira”, disse Elphaba. “Vejam como o animal fêmea fica soltando risadinhas afetadas atrás de um arbusto enquanto se enfeita para dizer: ‘Perdão, querido, você disse alguma coisa?’ ”

“Elphaba!”, os dois gritaram com ela.

“Peço a palavra, patinha!”, disse uma voz atrás deles, e os três se viraram. Era alguma ajudante de meia-idade num avental listrado, seu fino ca-belo grisalho enrolado num laço na cabeça. “O que você está aprontando aqui?”

“Ama Clutch!”, Galinda disse. “Como pensou em me procurar aqui?”

“Aquele cozinheiro zebra me disse que um papinho animado andava rolando no quintal. Você acha que eles são cegos lá na cozinha? Agora, quem é esse aí? Isso não me parece muito bom, não para mim.”

Boq se aprumou. “Eu sou Mestre Boq de Margens Agitadas, Terra de Munchkin. Sou quase um graduado terceiranista de Briscoe Hall.”

Elphaba bocejou. “Isso é uma exibição?”

“Bem, eu estou chocada! Um convidado não se apresenta numa horta do quintal, por isso acho que o senhor veio sem convite! Senhor, saia já daqui, antes que eu chame os porteiros para retirá-lo!”

“Oh, Ama Clutch, não me faça uma cena”, disse Galinda, suspirando.

“Ele mal é desenvolvido o bastante para a gente se preocupar”, apontou Elphaba. “Olhe, ele ainda nem barba tem. E do que podemos deduzir...”

Boq disse prontamente: “Talvez tudo isso esteja errado. Eu não vim aqui para ser insultado. Perdão, Senhorita Galinda, se eu fracassei até em divertir a senhorita. E quanto a você, Senhorita Elphaba” ― a voz era tão fria quanto lhe era possível produzir, e mais fria que qualquer outra que ouvira em si mesmo ― “Eu estava enganado ao confiar em sua compaixão.”

“Espere para ver”, disse Elphaba. “O engano leva um tempo danado para ser provado, segundo minha própria experiência. Enquanto tal não acontece, por que você não dá uma aparecidinha de vez em quando?”

“Não haverá segunda vez para isso”, disse Ama Clutch, dando um puxão em Galinda, que estava se provando tão sedentária quanto cimento fixo. “Senhorita Elphaba, que vergonha a senhorita estimular um escândalo desses.”

“Nada foi feito aqui além de uma brincadeira, e brincadeira sem graça, até”, disse Elphaba. “Senhorita Galinda, você está me parecendo muito obstinada. Você está se plantando na horta na esperança de que a Visita desse Rapaz possa ocorrer novamente? Será que entendemos mal o seu interesse?”

Por fim, Galinda se aprumou com alguma dignidade. “Meu caro Mestre Boq”, ela falou, como se estivesse lendo um ditado, “minha intenção desde o princípio foi dissuadi-lo de me perseguir, para uma ligação romântica ou mesmo para uma amizade, como colocou. Não tive a intenção de feri-lo. Não é de meu feitio.” Ao ouvir isso, Elphaba revirou os olhos, mas dessa vez manteve a boca fechada, talvez porque Ama Clutch tivesse cravado as unhas no seu cotovelo. “Não vou me dignar a arranjar outro encontro como esse. Como Ama Clutch lembrou, está abaixo de mim.” Ama Clutch não havia dito isso exatamente, mas mesmo assim concordou, sombriamente. “Mas se nossos passos se cruzarem de um modo legítimo, Mestre Boq, farei a cortesia de ao menos não ignorá-lo. Confio em que ficará satisfeito com isso.”

“Nunca”, disse Boq com um sorriso, “mas é um começo.”

“E agora, boa noite”, disse Ama Clutch, em beneficio de todos, afastando as jovens dali. “Bons sonhos, Mestre Boq, e não volte!”

“Senhorita Elfinha, você é horrível”, ele ouviu Galinda dizer, enquanto Elphaba se virava e acenava um adeusinho com uma risada que ele não pôde entender claramente.

3
Assim começou o verão. Tendo sido aprovado nos exames, Boq estava livre para planejar um último ano em Briscoe Hall. Diariamente ele caminhava apressado para a biblioteca em Três Rainhas, onde, sob o olho vigilante de um Rinoceronte titânico, o bibliotecário do principal arquivo, ficava limpando velhos manuscritos que claramente não eram pesquisados mais que uma vez a cada século. Quando o Rino saía da sala, ele travava frívola conversação com os dois rapazes que ficavam de seu lado, tipos clássicos do Rainhas, cheios de jargão fuxiqueiro e referências arcanas, importunos e leais. Ele os apreciava quando estavam de bom humor, e detestava suas birras. Crope e Tibbett. Tibbett e Crope. Boq fingia estar confuso quando eles ficavam muito maliciosos e insinuantes, o que parecia acontecer uma vez por semana, mas eles sumiam rapidamente. Pelas tardes, levavam seus sanduíches de queijo às margens do Canal do Suicídio e contemplavam os cisnes. Os rapazes fortes em grupos, cruzando o canal para cima e para baixo na prática de esportes de verão, faziam Crope e Tibbett se envergonharem e esconderem os rostos na grama. Boq ria deles, não ofensivamente, e esperava que o destino colocasse Galinda de novo em seu caminho.

Não foi uma espera muito longa. Cerca de três semanas depois de sua conversa na horta, numa manhã ventosa de verão, um pequeno terremoto causou alguns danos menores na biblioteca do Três Rainhas, e o prédio teve de ser fechado para alguns reparos. Tibbett, Crope e Boq levaram seus sanduíches, com algumas xícaras de papel para tomar chá, junto com a manteigueira, e se esparramaram no seu lugar favorito nas margens relvadas do canal. Quinze minutos depois, apareceram, juntas, Ama Clutch e Galinda e duas outras garotas.

“Tenho certeza que a gente conhece você”, disse Ama Clutch enquanto Galinda ficava um passo atrás, recatada. Em casos como esse, era dever da serviçal declinar os nomes dos estranhos no grupo, a fim de que pudessem se cumprimentar pessoalmente. Ama Clutch registrou em voz alta que eles eram Mestre Boq, Crope e Tibbett, sendo apresentados às Senhoritas Galinda, Shenshen e Pfannee. Daí, Ama Clutch deu um passo adiante para permitir aos jovens que dirigissem palavras uns aos outros.

Boq se ergueu feito mola e fez uma pequena mesura, e Galinda disse: “Seguindo a minha promessa, Mestre Boq, posso lhe perguntar como tem passado?”.

“Muito bem, obrigado”, disse Boq.

“Ele está maduro como um pêssego”, disse Tibbett.

“Ele está francamente delicioso, aqui deste ângulo”, disse Crope, sentado a uns poucos passos, mas Boq se virou e os olhou com tamanha fúria que Crope e Tibbett se sentiram castigados, e caíram num enfado gozador.

“E você, Senhorita Galinda?”, continuou Boq, examinando o rosto bem composto da jovem. “Você está bem? Que emocionante ver você em Shiz para o verão.” Mas essa não era a coisa certa a dizer. As jovens mais finas iam para casa no verão, e Galinda como uma gillikinesa devia se ressentir profundamente de estar encalhada ali, como uma munchkinesa ou uma estudante comum! O leque entrou em ação. Os olhos se abaixaram. As senhoritas Shenshen e Pfannee tocaram o ombro de Galinda em muda simpatia. Mas ela reagiu.

“Minhas caras amigas, as Senhoritas Pfannee e Shenshen estão alugando uma casa para o mês de alto verão nas praias do Lago Chorge. Uma pequena casa de fantasia perto da vila de Vale do Nunca. Decidi passar minhas férias lá, em vez de fazer uma jornada cansativa de volta às colinas de Pertha.”

“Que delícia.” Ele viu as bordas oblíquas de suas unhas laqueadas, as pálpebras coloridas como mariposas, a esmaltada e polida suavidade do rosto, a sensitiva dobra de pele bem na fenda de seu lábio superior. Na luz da manhã de verão, ela ficava realçada de um modo perigoso e arrebatador.

“Fique firme”, disse Crope, e ele e Tibbett se levantaram e pegaram Boq por um cotovelo. Ele, então, lembrou-se de respirar. Apesar disso, não conseguia pensar em nada para dizer, e Ama Clutch estava virando sua bolsa sem parar em suas mãos.

“Nós temos nossos empregos”, disse Tibbett, tentando salvar a situação. “A biblioteca do Três Rainhas. Estamos fazendo a guarda doméstica da literatura. Somos as faxineiras da cultura. Está trabalhando, Senhorita Galinda?”

“Eu acho que devo dizer não”, disse Galinda. “Preciso de um descanso dos meus estudos. Foi um ano angustiante, angustiante. Meus olhos estão ainda cansados de tanta leitura.”

“E quanto a vocês, garotas?”, disse Crope, com uma displicência ultrajante. Mas, elas soltaram apenas risinhos afetados e se recusaram a falar e foram se afastando aos poucos. Era o encontro de sua amiga, não delas. Boq, recuperando a compostura, sentiu o grupo se deslocando em fuga outra vez. “E a Senhorita Elfinha?”, ele inquiriu, para tentar detê-las. “Como anda sua colega de quarto?”

“Voluntariosa e difícil”, disse Galinda severamente, pela primeira vez falando numa voz normal, não num tênue sussurro social. “Mas, graças a Lurline, ela tem um emprego, então, me dá um pouco de alívio. Está trabalhando no laboratório e na biblioteca sob as ordens do Doutor Dillamond. Você o conhece?”

“Doutor Dillamond? Se o conheço?”, disse Boq. “Ele é o mais notável professor de biologia de Shiz.”

“Por falar nisso”, disse Galinda, “ele é um bode.”

“Sim, sim. Eu gostaria que ele fosse nosso professor. Mesmo nossos mestres reconhecem a sua importância. Pelo jeito, há muito tempo, quando houve o reino do Regente, e mesmo antes, ele era convidado anualmente para dar palestras em Briscoe Hall. Mas as restrições mudaram até isso, portanto, nunca cheguei a conhecê-lo. Só tê-lo visto naquela noite poética, no ano passado, de passagem, foi uma coisa e tanto...”

“Bem, o fato é que ele continua por aí”, disse Galinda. “Brilhante ele pode ser, mas não percebe quando fica chato. De qualquer modo, a Senhorita Elfinha trabalha duro, fazendo uma coisa ou outra. Ela vai continuar com isso, também. Eu acho que é contagioso!”

“Bem, um laboratório, ele cria coisas”, disse Crope.

“Sim”, disse Tibbett, “e incidentalmente acrescento que você é adorável tal e qual a perda de fôlego por emoção de Boq. A causa disso deve ser uma imaginação hiperativa nascida de uma frustração afetiva e fisiológica...”

“Você sabe”, disse Boq, “entre a sua Senhorita Elfinha e meus ex-amigos aqui, não temos nenhuma esperança de amizade. Vamos organizar um duelo e matar-nos um ao outro, em vez disso? Contar dez passos, virar e atirar? Isso pouparia muito aborrecimento.”

Mas Galinda não aprovava esse tipo de gozação. Ela balançou a cabeça como que desfazendo a reunião, e o grupo de mulheres se afastou pela trilha de cascalhos, seguindo a curva do canal. Ouviu-se a Senhorita Shenshen dizer numa profunda, alentada voz: “Oh, minha querida, ele é doce, de um modo brincalhão”.

A voz desapareceu, Boq voltou a se apoiar em Crope e Tibbett, mas eles deram para lhe fazer cócegas e todos caíram numa pilha de sobras do almoço. E desde que não havia jeito de mudar aqueles dois, Boq abandonou o impulso de corrigi-los. Realmente, que diferença faziam suas caçoadas joviais se a Senhorita Galinda o achava tão impossível?

Uma ou duas semanas depois, numa tarde de folga, Boq foi à Praça da Ferrovia. Ele lá ficou num quiosque, observando. Cigarros, imitações de talismãs de amor, desenhos sem valor de mulheres se despindo, e pergaminhos pintados com bombásticos crepúsculos, encimados por slogans inspiradores. “Lurline Vive Dentro de Cada Coração.” “Seja fiel às Leis do Mágico, e as Leis do Mágico o Protegerão.” “Peço ao Deus Inominável que a Justiça Chegue a Oz.” Boq observou a variedade: os incitamentos eram pagãos, autoritários e unionistas.

Mas nada era diretamente simpático aos monarquistas, que haviam caído em ostracismo nos dezesseis ásperos anos depois que o Mágico arrebatara o poder das mãos do Regente Ozma. A frase de Ozma era de origem gillikinesa, e certamente devia haver ativos bolsões de resistência ao Mágico. Mas Gillikin tinha, na verdade, prosperado sob o poder do Mágico, de modo que os monarquistas permaneciam de bico calado. Além disso, todos tinham ouvido boatos sobre severas ações legais movidas contra os vira-casacas e revolucionários.

Boq comprou uma folha liberal publicada fora da Cidade Esmeralda ― velha de várias semanas, mas era a primeira que via ultimamente ― e se acomodou num café. Leu que a Milícia da Cidade Esmeralda havia suprimido alguns dissidentes Animais, que estavam promovendo um motim nos jardins do palácio. Ele procurou notícias das províncias, e encontrou um “tapa-buraco” sobre a Terra de Munchkin, que continuava a sofrer penúrias de pré-seca; trovoadas ocasionais molhavam os solos, mas a água era insuficiente ou afundava inutilmente no barro. Dizia-se que lagos subterrâneos ocultos subjaziam na região de Vinkus, que as reservas aquáticas de lá poderiam abastecer toda Oz. Mas a idéia de um sistema de canais que cruzasse o país inteiro fazia todos rirem. A despesa em que isso implicaria! Havia grande desacordo entre as Eminências e a Cidade Esmeralda sobre o que devia ser feito.

Secessão, pensou Boq, belicosamente, e, ao levantar os olhos, tinha diante de si Elphaba que, sozinha, sem uma Babá ou uma Ama, olhava para ele. “Que expressão deliciosa você traz no rosto, Boq”, disse ela. “É mais interessante que o amor.”

“É amor, de certo modo”, disse Boq, então caiu em si, e ergueu-se prontamente. “Quer ser minha convidada? Por favor, sente-se. A menos que você se preocupe por não estar trazendo acompanhante.”

Ela se sentou, parecendo um pouco adoentada, deixando que ele pedisse uma xícara de chá mineral. Ela trazia um pacote em papel pardo amarrado com barbante sob o braço. “Uns presentinhos para a minha irmã”, ela explicou. “Ela é como a Senhorita Galinda, gosta do encanto externo das coisas. Encontrei um xale de Vinkus num bazar, rosas vermelhas contra um fundo preto, com franjas pretas e verdes. Estou mandando para ela, junto com um par de meias listradas que Ama Clutch tricotou para mim.”

“Não sabia que você tinha uma irmã”, ele disse. “Ela estava na turma com que a gente brincava quando criança?”

“Ela é três anos mais nova”, Elphaba disse. “Ela virá para Crage Hall dentro em breve.”

“Ela é tão difícil como você?”

“Ela é difícil de um modo diferente. Ela é aleijada, gravemente, é minha Nessarose, e vai dar trabalho. Nem Madame Morrible conhece a completa extensão do problema. Mas, quando ela vier, serei uma jovem terceiranista e terei coragem de encarar a Diretora, imagino. Se algo me deixa fula da vida, é ver as pessoas tornando a vida difícil para Nessarose. A vida já é bastante difícil para ela.”

“Sua mãe está cuidando dela?”

“Minha mãe morreu. Meu pai cuida dela, nominalmente.”

“Nominalmente?”

“Ele é um religioso”, disse Elphaba, e fez o gesto de girar as palmas que significava que você pode pôr para funcionar os moinhos e moinhos que quiser, mas não haverá pedra de mó que possa produzir farinha se não houver grão algum para moer.

“Parece muito difícil para todos. Como sua mãe morreu?”

“Ela morreu quando a criança nasceu, e este é o fim do interrogatório.”

“Fale-me do Doutor Dillamond. Soube que você trabalha para ele.”

“Fale-me você de sua divertida campanha para conquistar o coração de Galinda, a Rainha do Gelo.”

Boq queria realmente saber alguma coisa sobre o Doutor Dillamond, mas foi desarmado pela observação de Elphaba. “Eu vou continuar, Elfinha, eu vou! Quando eu a vejo, fico tão tomado pelos desejos, é como fogo em minhas veias. Não posso falar, e as coisas em que penso são como visões. É como sonhar. É como flutuar em sonhos.”

“Eu não sonho.”

“Diga-me, será que há alguma esperança? O que ela diz? Será que ela chega a imaginar que seus sentimentos por mim podem mudar?”

Elphaba estava com os dois cotovelos apoiados na mesa, as mãos apertadas contra o rosto, os indicadores postos um contra o outro sobre seus finos lábios acinzentados. “Você sabe, Boq”, ela disse, “o problema é que eu aprendi a admirar Galinda. Debaixo de seu amor deslumbrado por si mesma, existe uma mente que se esforça por funcionar. Ela de fato reflete sobre as coisas. Quando sua mente realmente está trabalhando, ela pode, se induzida, pensar em você — até, desconfio, com algum afeto. Eu disse que desconfio. Eu não sei. Mas, quando ela retorna a si mesma, quero dizer, quando retorna à garota que passa duas horas enrolando os cachos daquele belo cabelo, é como se a Galinda inteligente se enfiasse em algum armário interno e fechasse a porta. Ou como se ela batesse em histérica retirada de coisas que são grandes demais para ela. Gosto dela das duas maneiras, mas acho isso bem esquisito. Eu não me importaria de deixar isso pra lá, mas eu não sei que atitude tomar.”

“Eu acho que você está sendo dura com ela, e você é seguramente ferina demais”, disse Boq, seriamente. “Se ela estivesse aqui conosco, acho que ficaria estarrecida vendo-a falar tão livremente.”

“Tento apenas me comportar como uma amiga deve se comportar. Certo, eu não tenho muita prática.”

“Bem, ponho em dúvida sua amizade comigo, se você considera Galinda sua amiga, e se é desse jeito que você retalha um amigo em sua ausência.”

Embora Boq estivesse irritado, achava que essa era uma discussão mais animada que a conversinha fiada convencional que ele e Galinda tinham mantido até ali. Ele não queria espantar Elphaba com críticas. “Estou pedindo outro chá mineral para você”, ele disse, numa voz de mando, na verdade tal e qual a voz de seu pai, “e aí você me falará um pouco do Doutor Dillamond.”

“Deixa pra lá esse chá, eu ainda estou cuidando deste aqui, e aposto que você não tem mais dinheiro que eu”, disse Elphaba, “mas eu lhe falarei do Doutor Dillamond. A menos que você esteja ofendido demais com o gume e o enfoque das minhas opiniões.”

“Por favor, talvez eu esteja errado”, disse Boq. “Olhe, é um belo dia, nós dois estamos fora do campus. Como é que você conseguiu sair sozinha, por falar nisso? Sua saída foi autorizada por Madame Morrible?”

“Tente adivinhar”, ela disse, rindo. “Desde que ficou claro que você poderia ir e vir de Crage Hall pegando o caminho da horta e do telhado do estábulo vizinho, concluí que eu podia também. Ninguém vai dar por minha falta.”

“É difícil para mim acreditar”, ele disse, ousadamente, “porque você não é do tipo que combina com pular árvores. Mas, agora, me fale do Doutor Dillamond. Ele é meu ídolo.”

Ela suspirou, e finalmente pôs o pacote sobre a mesa, e se preparou para uma longa conversa, Ela lhe contou do trabalho do Doutor Dillamond com essências naturais, tentando determinar por metodologia científica qual era a verdadeira diferença entre os tecidos dos animais e dos Animais, e entre os tecidos dos Animais e dos humanos. A literatura sobre o assunto, tal como aprendera fazendo ela mesma o percurso, estava toda expressa em termos unionistas, e em termos pagãos anteriores a estes, que não resistiam a exame científico. “Não esqueça que Shiz no princípio foi um monastério unionista”, disse Elphaba, “assim, apesar da atitude de vale-tudo entre a elite educacional, ainda prevalecem camadas de preconceito unionista.”

“Mas eu sou um unionista”, disse Boq, “e eu não vejo o conflito. O Deus Inominável se acomoda a muitas maneiras de ser, não apenas a humana. Você está falando de um sutil preconceito contra Animais, entrelaçado a alguns primitivos conceitos unionistas, e ainda em funcionamento hoje em dia?”

“Com certeza é isso o que o Doutor Dillamond acha. E ele próprio é um unionista. Explique esse paradoxo e eu ficarei satisfeita em me converter. Admiro o Bode intensamente. Mas o interesse real dessa coisa para mim é o viés político. Se ele puder isolar algum pedacinho da arquitetura biológica para provar que não há diferença nenhuma lá no fundo dos invisíveis bolsões da carne humana e da Animal ― que não há diferença entre nós ― ou mesmo entre nós todos, se você levar em conta a carne dos animais comuns também ― bem, você pode deduzir as implicações.”

“Não”, disse Boq. “Eu acho que não consigo.”

“Como podem os Interditos da Mobilidade Animal serem sustentados se o Doutor Dillamond puder provar, cientificamente, que não há nenhuma diferença intrínseca entre humanos e Animais?”

“Oh, esse é um projeto para algum impossível futuro utópico”, disse Boq.

“Pense nisso”, disse Elphaba. “Pense, Boq. Com quais argumentos o Mágico poderia continuar a decretar esses Interditos?”

“Como ele poderia ser convencido a não fazê-lo? O Mágico dissolveu a Sala de Aprovação indefinidamente. Eu não acho, Elfinha, que o Mágico esteja aberto a argumentos diversificados, nem mesmo quando oferecidos por um Animal augusto como o Doutor Dillamond.”

“Mas é claro que ele deve estar. Ele é um homem no poder, sua função é levar em conta as oportunidades de conhecimento. Quando o Doutor Dillamond obtiver a prova, ele escreverá ao Mágico e começará a fazer lobbies pela mudança. Não há dúvida que ele fará o que puder para que os Animais do país saibam o que ele está pretendendo, também. Ele não é bobo.”

“Bem, eu não disse que ele é um bobo”, disse Boq. “Mas, em quanto você acha que ele pode estar se aproximando da evidência concreta?”

“Eu sou uma estudante auxiliar”, disse Elphaba. “Eu nem entendo o que ele quer dizer. Sou apenas uma secretária, uma amanuense ― você sabe que ele não consegue escrever, não pode manejar uma caneta com seus cascos. Eu faço anotações e arquivo e corro para a biblioteca de Crage Hall para fazer pesquisas.”

“A biblioteca de Briscoe Hall seria um lugar melhor para caçar esse tipo de material”, disse Boq. “Mesmo a de Três Rainhas, onde trabalho neste verão, tem pilhas de documentos das observações dos monges sobre vida animal e vegetal.”

“Sei que eu não tenho uma aparência tradicional”, disse Elphaba, “mas creio que devido ao fato de ser uma garota eu esteja excluída da biblioteca de Briscoe Hall. E que devido ao fato de ser um Animal, o Doutor Dillamond também o esteja. Portanto, essas fontes valiosas estão fora do nosso alcance.”

“Bem”, disse Boq, displicentemente, “se vocês souberem exatamente o que querem... eu tenho acesso às pilhas das duas bibliotecas.”

“E quando o bom Doutor concluir sua investigação da diferença entre Animais e gente, eu vou propor a ele que aplique os mesmos argumentos no campo das diferenças entre os sexos”, disse Elphaba. Então ela se deu conta do que Boq dissera, e estendeu-lhe a mão, quase o tocando. “Oh, Boq. Boq. Em nome do Doutor Dillamond, aceito sua generosa oferta de ajuda. Vou conseguir a primeira lista de fontes a pesquisar ainda nesta semana. Apenas deixe meu nome de fora disso. Eu não me importo muito em atrair a ira da Horrível Madame Morrible sobre mim, mas eu não quero que ela desforre sua irritação sobre minha irmã, Nessarose.”

Ela engoliu o resto de seu chá, apanhou seu pacote, e se retirou quase antes que Boq pudesse se levantar. Vários fregueses, que prolongavam suas pequenas refeições lendo seus próprios jornais ou romances, pararam para olhar a jovem deselegante que empurrava as portas. Quando Boq voltou a sentar-se, ainda mal se dando conta da coisa em que acabara de entrar, percebeu, lenta e detalhadamente, que nessa manhã não havia Animais tomando seu chá da manhã ali. Não havia Animal de espécie alguma.

4
Nos anos vindouros ― e Boq viveria uma vida longa ― ele se lembraria do resto do verão como algo marcado pelo cheiro do mofo de velhos livros, um tempo em que antigos manuscritos nadavam diante de seus olhos. Ele investigou sozinho as pilhas emboloradas, ele flutuou sobre as gavetas de mogno cheias de pergaminhos. Ao longo de toda a estação, as janelas em forma de losango entre fasquias e cruzetas de pedras azuis foram diluídas cada vez mais pelas manchas de chuva leve, mas contínua, quase tão quebradiça e irritante como areia. Aparentemente, a chuva não chegava lá na Terra de Munchkin ― mas Boq tentava não pensar nisso.

Crope e Tibbett foram coagidos a pesquisar para o Doutor Dillamond, também. A princípio tiveram de ser dissuadidos de insistir na pilhagem de apetrechos de disfarce ― falsos pincenês, perucas empoadas, mantos de golas altas, todos fáceis de encontrar no bem abastecido cofre da Sociedade Terpsicoreana e Teatral dos Estudantes do Três Rainhas. Mas, quando foram convencidos da seriedade da missão, engajaram-se nela com gosto. Uma vez por semana se encontravam com Boq e Elphaba no café da Praça da Ferrovia. Elphaba aparecia, durante essas semanas nevoentas, completamente enrolada num manto marrom com um capuz e um véu que escondiam tudo, exceto seus olhos. Ela usava luvas cinzentas longas e puídas que se gabava de ter comprado de segunda mão de uma funerária, baratas por terem sido usadas em serviços fúnebres. Ela forrara suas pernas de varas de bambu com meias de algodão de dupla espessura. A primeira vez que Boq viu Elphaba desse jeito, disse: “Eu acabo de lutar para convencer Crope e Tibbett de abrir mão de suas tralhas de espionagem, e você me aparece igual à Bruxa de Kumbric original.”

“Não me visto para a aprovação de vocês, rapazes”, ela disse, tirando seu manto e dobrando-o às avessas de modo que a lã molhada nunca a tocasse. Quando um freguês qualquer passava, espirrando água de um guarda-chuva, Elphaba sempre recuava, esquivando-se mesmo se fosse atingida por gotas esparsas.

“É por convicção religiosa, Elfinha, que você se mantém tão seca?”, disse Boq.

“Eu já lhe disse, eu não compreendo religião, embora convicção seja um conceito que estou começando a entender. Em todo caso, alguém com uma convicção religiosa verdadeira é, digamos, um sentenciado convicto, e merece a cadeia.”

“Deriva daí”, observou Crope, “sua aversão a toda espécie de água. Sem você saber disso, pode ser um salpico de pia batismal que você teme, pois aí a sua liberdade de uma agnóstica livre-pensadora seria diminuída.”

“Eu pensei que vocês viviam absorvidos demais por si mesmos para notarem minha patologia espiritual”, disse Elphaba. “Agora, turma, o que temos pra hoje?”

Boq sempre pensava: que bom se Galinda estivesse aqui também. Pois a camaradagem espontânea que crescera entre eles durante aquelas semanas era tão refrescante ― um modelo de conforto e mesmo inteligência. Contra a convenção, eles tinham abolido o uso de honoríficos. Eles interpelavam-se e riam e sentiam-se corajosos e importantes devido à natureza secreta de sua missão. Crope e Tibbett pouco ligavam para Animais ou Interditos ― eram ambos rapazes da Cidade Esmeralda, filhos, respectivamente, de um coletor de impostos e de um conselheiro de segurança do palácio ― mas a crença apaixonada de Elphaba naquele trabalho os animava. Ele imaginava Galinda formando fileiras com eles, perdendo sua reserva de classe superior, deixando seus olhos brilhar com um propósito secreto e compartilhado.

“Pensei que conhecesse todas as formas de paixão”, Elphaba disse numa tarde clara. “Quero dizer, sendo criada com um pastor unionista como pai, você acaba achando que a teologia é o fundamento sobre o qual todos os outros pensamentos e crenças se baseiam. Mas, rapazes! ― nesta semana, o Doutor Dillamond fez alguma espécie de avanço científico. Não sei bem o que foi, mas envolvia lentes manipuladoras, um par delas, de modo que ele podia perscrutar partículas de tecido que ele tinha colocado num vidro transparente e iluminado com luz de vela. Ele começou a ditar, e ele estava tão excitado que cantava suas descobertas; ele compunha árias inspiradas naquilo que estava vendo! Recitativos sobre estrutura, sobre cor, sobre as formas básicas de vida orgânica. Ele tem uma horrível voz de lixa, como você pode imaginar num Bode; mas como ele gorjeava! Trêmulo nas anotações, vibrato nas interpretações e sostenuto nas implicações: longas, triunfantes vogais abertas de felicidade pela descoberta! Eu estava certa de que alguém acabaria ouvindo. Eu cantei com ele, eu li as suas notas para ele como uma estudante de composição musical.”

O bom Doutor estava encorajado por suas descobertas, e ele pedia que a pesquisa deles ficasse mais e mais direcionada. Ele não queria anunciar qualquer avanço até que houvesse descoberto o meio mais politicamente vantajoso de apresentá-lo. Próximo ao fim do verão, o impulso era encontrar os relatórios dos lurlinistas e primeiros unionistas sobre como os Animais e os animais haviam sido criados e diferenciados. “Não é uma questão de revelar uma teoria científica elaborada por um grupo pré-científico de monges unionistas e sacerdotes e sacerdotisas pagãos”, explicou Elphaba. “Mas o Doutor Dillamond quer autenticar a maneira pela qual nossos ancestrais pensavam sobre isso. O Direito do Mágico de impor leis injustas poderá ser melhor enfrentado se soubermos como os velhos lunáticos explicavam a coisa para eles mesmos.”

Era um exercício interessante.

“De uma forma ou de outra, nós todos conhecemos alguns mitos de origem que precedem a Ozíada”, disse Tibbett, jogando suas louras melenas para trás com um floreio teatral. “O mais coerente deles traz nossa cara pretensa Lurline Rainha das Fadas fazendo uma viagem. Ela estava cansada de viajar pelo ar. Ela parou e invocou das areias do deserto uma fonte de água que estava oculta nas profundezas das dunas secas do solo. A água obedeceu em tal abundância que, da Terra de Oz em toda a sua febril variedade, brotou quase instantaneamente. Lurline mergulhou num estupor e subiu para um longo repouso no topo do Monte Runcible. Quando ela despertou, urinou copiosamente, e isso se tornou o Rio Gillikin, a correr pelas vastas extensões da Grande Floresta de Gillikin e a contornar as margens orientais do Vinkus, vindo a desembocar em Água Mansa. Os animais eram terrícolas e, portanto, de uma ordem inferior à de Lurline e sua comitiva. Não me olhem desse jeito, eu sei o que essa palavra quer dizer ― eu pesquisei. Significa aquilo que vive na terra ou perto dela.

“Os animais surgiram como coágulos de terra enrolados que foram desalojados da exuberante vida vegetal. Quando Lurline se aliviou, os animais pensaram que a torrente furiosa fosse um dilúvio, mandado para afundar seu mundo recém-nascido, e desesperaram da existência. Em pânico, atiraram-se nas águas e tentaram atravessar a urina de Lurline a nado. Aqueles que ficaram intimidados e voltaram à terra permaneceram animais, bestas de carga, abatidos devido à carne, caçados por esporte, avaliados como possível lucro, admirados pela inocência. Aqueles que continuaram nadando e chegaram à praia mais distante receberam os dons da consciência e da linguagem.”

“Que dom, ser capaz de imaginar sua própria morte”, resmungou Crope.

“Então, tornaram-se Animais. A convenção, desde o começo da história, estabelece uma divisão entre os animais e os Animais.”

“Batismo pelo mijo”, disse Elphaba. “Não será uma maneira sutil de explicar os talentos dos Animais e denegri-los ao mesmo tempo?”

“E que é que dizem dos animais que se afogaram?”, perguntou Boq. “Eles devem ter sido os verdadeiros perdedores.”

“Ou os mártires.”

“Ou os fantasmas que vivem em subterrâneos agora e interrompem o suprimento de água para que os campos da Terra de Munchkin fiquem secos.”

Todos riram e mais chá foi trazido à sua mesa.

“Descobri algumas escrituras mais recentes com um viés mais unionista”, Boq disse. “Elas contam uma história que imagino que seja derivada da literatura pagã, mas foi um pouco expurgada. O dilúvio, ocorrendo algum tempo depois da criação e antes do advento da humanidade, não foi uma mijada monumental de Lurline, mas o mar de lágrimas chorado pelo Deus Inominável na única visita que fez a Oz. O Deus Inominável percebeu o sofrimento que se abateria sobre a terra indefinidamente, e gritou de dor. Oz toda estava afundada em ondas de água salgada de uma milha de profundidade. Os animais conseguiam flutuar valendo-se de uma barca estranha, a árvore de raízes para cima. Aqueles que engoliram das lágrimas do Deus Inominável em quantidade suficiente se impregnaram de uma simpatia notável por seus parentes mais próximos, e começaram a construir jangadas dos destroços. Salvaram sua espécie por obra de misericórdia e, devido à sua bondade, tornaram-se um novo e consciente grupo: os Animais.”

“Um outro tipo de batismo, pelo lado de dentro”, disse Tibbett. “Ingestão. Gosto disso.”

“E quanto à fé no prazer?”, disse Crope. “Uma bruxa ou um feiticeiro podem pegar um animal e, através de um feitiço, transformá-lo em Animal?”

“Bem, essa é a coisa que eu tenho pesquisado”, disse Elphaba. “Os adeptos da fé no prazer dizem que se algo ― Lurline ou o Deus Inominável ― fez a coisa uma vez, a magia pode fazê-la de novo. Eles chegam a insinuar que a distinção original entre Animais e animais foi um feitiço da Bruxa de Kumbric, tão forte e duradouro que nunca se esgotou. Isso é propaganda perigosa, maldade encarnada. Ninguém sabe se existe uma coisa como a Bruxa de Kumbric, e deixa pra lá se algum dia existiu. Quanto a mim, penso que é uma parte do ciclo lurlinista que se desligou do conjunto e se desenvolveu independentemente. Besteira total. Não temos prova de que a magia seja tão poderosa...”

“Não temos prova de que o Deus seja tão poderoso”, interrompeu Tibbett.

“Me parece um argumento tão bom contra o Deus quanto contra a magia”, disse Elphaba, “mas, não tem importância. A questão é que, se for um duradouro feitiço de Kumbric, que venha se arrastando há séculos, pode ser reversível. Ou pode ser percebido como reversível, o que é igualmente ruim. Nesse ínterim, enquanto os feiticeiros estão ocupados experimentando seus encantos e feitiços, os Animais estão perdendo seus direitos, um a um. De um modo lento o bastante para que fique difícil se notar que é uma campanha política coerente. É um cenário perigoso, um que o Doutor Dillamond não percebeu...”

A essa altura da conversa, Elphaba puxou a parte do albornoz de seu manto sobre a cabeça e desapareceu nas sombras de suas dobras. “O quê?” disse Boq, mas ela pôs um dedo sobre os lábios. Crope e Tibbett, como que seguindo uma deixa, deram para representar alguma palhaçada tal como serem seqüestrados por piratas do deserto e obrigados a dançar o fandango trajados apenas com grilhões de escravos. Boq não viu nada errado: um par de escriturários lendo as formalidades do dia, algumas senhoras gentis com suas limonadas e romances, uma criatura tiquetaqueante comprando grãos de café pelo peso, uma paródia de um velho professor tentando resolver algum teorema pelo ato de arrumar e rearrumar cubos de açúcar que estavam ao lado de sua faca de manteiga.

Momentos depois, Elphaba relaxou. “Aquela coisa tiquetaqueante trabalha em Crage Hall. Acho que se chama Grommetik. Serve à Madame Morrible como um boneco doente de amor pela dona. Não acho que me viu.”

Mas ela estava nervosa demais para continuar a conversa, e depois que ficou claro quais seriam suas próximas tarefas, o grupo se dispersou pelas ruas nevoentas.


5
Duas semanas antes que Briscoe Hall reabrisse para o segundo semestre, Avaric retornou de sua casa, o sítio do Margrave de Dez Campos. Ele zombou de Boq por ter estreitado relações de amizade com rapazes do Três Rainhas, e sob outras circunstâncias Boq provavelmente teria deixado sua nova aliança com Crope e Tibbett se desfazer. Mas eles estavam todos engajados na pesquisa para o Doutor Dillamong agora, e Boq simples-mente ignorou os escárnios de Avaric.

Elphaba disse um dia que havia recebido uma carta de Galinda, que viajara com as amigas para o Lago Chorge. “Você acredita numa coisa dessas? ― ela propôs que eu pegasse uma carruagem e fosse visitá-la num fim de semana”, disse Elphaba. “Ela deve estar realmente pra lá de enfadada com aquelas garotas de sociedade.”

“Bem, Elfinha, quando você irá?”, perguntou Boq.

“Nunca”, disse Elphaba. “Este nosso trabalho é importante demais.”

“Deixe-me ver a carta.”

“Não está comigo.”

“Traga-a, então.”

“O que é que você está querendo?”

“Talvez ela precise de você. Ela parece estar sempre precisando de você.”

“Ela precisar de mim?”, Elphaba riu, bem alto e asperamente. “Bem sei que você está louco de amor e me sinto um pouco responsável por isso. Eu lhe mostrarei a carta na semana que vem. Mas não vou fazer isso só pra lhe dar uma emoção vicariante, Boq. Ou se é amigo ou não.”

Na outra semana ela entregou a carta.
Minha cara Senhorita Elphaba,

Fui autorizada a lhe escrever por minhas anfitriãs, as Senhoritas Pfannee de Pfann Hall e Shenshen do Clã de Minkos. Estamos passando um verão adorável no Lago Chorge. O ar é tranqüilo e doce e tudo é completamente agradável. Se quiser nos visitar por três ou quatro dias antes de as aulas recomeçarem, sabemos que tem trabalhado duro por todo o verão. Poderia ser uma pequena mudança. Se gostar da idéia de vir, não é preciso escrever para fazer uma visita. E só pegar a carruagem em Vale do Nunca e vir a pé ou alugar uma carruagem menor, de dois lugares, fica a só uma ou duas milhas pela ponte. A casa é de luxo, coberta por rosas e hera, conhecida como o “Capricho dos Pinhais”.

Quem não adoraria um lugar desses! Eu espero que você venha mesmo! Tenho a esperança de que você venha por razões que não ouso escrever. Não posso recomendar-lhe acompanhantes, pois Ama Clutch já se encontra aqui, e também estão aqui Ama Clipp e Ama Vimp. Você pode decidir. Esperamos por longas horas de conversa divertida. Sempre sua amiga querida,
Senhorita Galinda das Arduennas das Terras Altas

33, Alto Verão, meio-dia em Capricho dos Pinhais.


“Mas, você deve ir!”, Boq gritou. “Olha só como ela escreve para você!”

“Ela escreve como alguém que não tem o hábito de escrever”, Elphaba observou.

“Eu espero que você venha mesmo!”, ela diz. “Ela precisa de você, Elphaba. Insisto em que você vá!”

“Oh, você insiste? Por que não vai você mesmo, então?”, disse Elphaba.

“Eu não poderia ir, não tendo sido convidado.”

“Bem, isso é fácil de resolver. Eu escreverei e direi a ela para convidar você”, Elphaba procurou um lápis em seu bolso.

“Não me trate como bobo, Senhorita Elphaba”, disse Boq severa-mente. “Isso deve ser levado a sério.”

“Você está louco de amor e iludido”, disse Elphaba. “E eu não gosto disso de você ter voltado a me chamar de ‘Senhorita Elphaba’ para me punir por discordar de você. Além disso, não posso ir. Eu não tenho acompanhante.”

“Serei seu acompanhante.”

“Hah! Como se Madame Morrible permitisse uma coisa dessas!”

“Bem ― que tal” ― Boq olhou em derredor ― “que tal meu amigo Avaric? Ele é filho do margrave. Devido a essa posição, é imaculado. Até Madame Morrible se acovardaria diante do filho de um margrave."

“Madame Morrible não se acovardaria nem diante de um furacão. Ademais, você não tem consideração por mim? Não me agrada muito a idéia de viajar com esse Avaric.”

“Elfinha”, disse Boq, “você me deve essa. Eu venho lhe ajudando todo o verão, e pedi a Crope e Tibbett que a ajudassem também. Agora, é hora de me pagar. Você pedirá ao Doutor Dillamond para ficar uns dias fora, e eu pedirei o mesmo a Avaric, que está arrebentando de vontade de fazer alguma coisa. Nós três iremos para o Lago Chorge. Avaric e eu alugaremos um quarto numa taberna, e ficaremos um tempinho. Tempo suficiente para ter certeza de que a Senhorita Galinda está bem.”

“É com você que me preocupo, não com ela”, disse Elphaba, mas Boq viu que tinha vencido.

Madame Morrible não queria liberar Elphaba aos cuidados de Avaric. “Seu querido pai nunca me perdoaria”, ela disse. “Mas eu não sou a Madame Horrível que você julga que sou. Oh, sim, eu bem sei como me chama por aí, Senhorita Elphaba. Tão divertido, tão juvenil! Eu me preocupo com seu bem-estar. E com toda essa trabalheira no verão todo, vejo que ficou, oh, como dizer, verde-grisalha? Portanto, farei uma proposta de compromisso. Desde que você convença Mestre Avaric e Mestre Boq a viajar com você e meu pequenino Grommetik, que deixarei a seus cuidados cuidando também de você, permitirei seu pequeno folguedo de verão.”

Elphaba, Boq e Avaric foram no coche, e Grommetik foi levado lá em cima, com a bagagem. Elphaba procurava os olhos de Boq de vez em quando, fazendo uma careta, mas ignorava Avaric, por quem sentira uma aversão instantânea.

Quando terminou de preencher as formalidades, Avaric provocou Boq sobre a viagem. “Eu devia ter notado quando parti em férias de verão que você estava sucumbindo às dores do amor! Você me apareceu com aquela carranca de queixo duro e isso me enganou. Pensei que era tuberculose, no mínimo. Você devia ter saído comigo naquela noite antes da minha partida! Uma visita ao Clube de Filosofia teria sido exatamente o que o médico prescreveria.”

Boq estava mortificado por ver uma espelunca daquelas ser mencionada na presença de uma mulher. Mas Elphaba pareceu não se ofender. Talvez não soubesse o que o clube era. Ele tentou desviar Avaric desse assunto.

“Você não conhece a Senhorita Galinda, mas vai achá-la encantadora”, ele disse. “Eu garanto.” E ela provavelmente achará você encantador, ele pensou, um pouco mais tarde. Mas ele estava disposto a até mesmo conviver com isso, se tivesse de ser o preço para ajudar Galinda a sair de uma situação complicada.

Avaric se dirigiu a Elphaba com desprezo. “Senhorita Elphaba”, disse formalmente, “seu nome por acaso significa que há sangue de elfo na família?”

“Que idéia original”, disse Elphaba. “Se houvesse, suponho que meus membros seriam tão quebradiços quanto massa não-cozida, e se romperiam com a mais leve das pressões. Você se importaria de fazer um pouco de força?" Ela ofereceu um antebraço, tão verde quanto um limão na prima-vera. “Faça, eu estou pedindo, assim poderemos esclarecer essa questão de uma vez por todas. Concluiremos que a força relativa que você necessita para quebrar meu braço ― oposta a outros braços que você quebrou ― é proporcional à relativa quantidade de sangue humano versus sangue de elfo nas minhas veias.”

“É claro que eu não vou tocar em você”, disse Avaric, esforçando-se por dar às coisas mais de um sentido.

“O elfo que há em mim lamenta”, disse Elphaba. “Se você tivesse me desmembrado, eu poderia ter sido mandada de volta a Shiz em pequenos pedaços e sido poupada do tédio desta féria forçada. E de certas companhias.”

“Oh, Elfinha”, Boq suspirou. “Isso não é um bom começo, como sabe.”

“Eu acho que está excelente”, disse Avaric, olhando com ferocidade.

“Eu não sabia que a amizade exigia tanto assim”, retrucou Elphaba a Boq. “Antes, eu estava bem melhor.”

Era tarde avançada quando chegaram a Vale do Nunca e se alojaram na taberna, e pegaram a pé o caminho às margens do lago para Capricho dos Pinhais.

Duas mulheres idosas estavam ao sol no pórtico, descascando feijões-de-cerca e quebra-punhos. Aquela que Boq reconheceu foi Ama Clutch, a acompanhante de Galinda; a outra devia ser a conselheira da Senhorita Shenshen ou da Senhorita Pfannee. Elas se assustaram ao ver a procissão que chegava, e Ama Clutch deu alguns passos adiante, os feijões-de-cerca caindo de seu colo. “Bem, ora essa”, ela disse enquanto eles subiam, “é a Senhorita Elphaba em carne e osso. Pelas barbas do meu tio. Por essa eu não esperava.” Ela foi avante, e apertou Elphaba em seus braços. Elphaba ficou tão rija como uma figura de gesso.

“Dê-nos um minutinho para recuperar o fôlego, patinhos”, disse Ama Clutch. “O que, pelos santos céus, você está fazendo aqui, Senhorita Elphaba? Não parece possível.”

“Fui convidada pela Senhorita Galinda”, disse Elphaba, “e meus companheiros de viagem aqui insistiram em me acompanhar. Então, senti-me forçada a aceitar.”

“Não sei nada disso”, disse Ama Clutch. “Senhorita Elphaba, deixe-me levar essa bagagem pesada e providenciar algo limpo para você se vestir. Você deve estar exausta da viagem. Os cavalheiros aí na certa ficarão na aldeia. Mas, agora, as garotas estão na casinha de verão na beira do lago.”

Os viajantes seguiram por uma trilha interrompida por degraus de pedra nas partes mais íngremes. Grommetik andava devagar, e foi deixado lá para trás, e ninguém sentiu vontade de se retardar e dar uma mãozinha a uma figura de pele dura e pensamentos mecânicos. Margeando o renque final de moitas de azevinho, eles chegaram ao quiosque.

Era um esboço de casa de troncos rústicos, seis lados abertos ao vento, ornada com galhos em forma de arabescos, tendo o Lago Chorge como um poderoso campo azul ao fundo. As garotas estavam sentadas nos degraus e em cadeiras de vime, e Ama Clipp estava absorta em algum trabalhinho de mão envolvendo três agulhas e muitas cores de linha.

“Senhorita Galinda!”, irrompeu Boq, precisando que a sua fosse a primeira voz a ser ouvida.

As garotas ergueram as cabeças. Em evanescentes camisolas de verão, livres de cintos e anquinhas, pareciam pássaros a ponto de levantar vôo.

“Cruz-credo!”, disse Galinda, de queixo caído. “O que você está fazendo aqui?”

“Eu não estou prevenida!”, gritou Shenshen, chamando a atenção para seus pés descalços e seus pálidos tornozelos expostos.

Pfannee mordeu um canto de seu lábio e tentou converter seu sorriso afetado num sorriso de boas-vindas.

“Eu não vou ficar muito tempo”, disse Elphaba. “A propósito, meninas, este é o Mestre Avaric, Descendente do Margrave de Dez Campos, Gillikin. E este é o Mestre Boq da Terra de Munchkin. Ambos vêm de Briscoe Hall. Mestre Avaric, como se você já não pudesse notar pela ex-pressão apaixonada no rosto de Mestre Boq, estas são a Senhorita Galinda das Arduennas e a Senhorita Shenshen e a Senhorita Pfannee, que podem declinar seus pedigrees perfeitamente bem.”

“Mas, que encanto, que brincadeira”, disse a Senhorita Shenshen. “Senhorita Elphaba que-nunca-nos-dá-a-mínima, você se redimiu pelo resto da vida por essa surpresa agradável. Como estão, cavalheiros?”

“Mas”, gaguejou Galinda, “mas, por que vocês vieram? O que há de errado?”

“Estou aqui porque estupidamente mencionei seu convite ao Mestre Boq, que o interpretou como um sinal do Deus Inominável de que deveríamos vir.”

Mas, a essa altura, a Senhorita Pfannee não pôde mais se controlar, e caiu no chão do quiosque, contorcendo-se de rir. “O quê?”, disse Shenshen, “o quê?”

“Mas, de que convite você está falando?”

“Eu não preciso lhe mostrar”, disse Elphaba. Pela primeira vez desde que Boq a conhecera, ela se mostrou confusa. “Com certeza não preciso trazê-lo...”

“Acho que armaram para que eu ficasse mortificada”, disse Galinda, lançando um olhar feroz para a desamparada Pfannee. “Estou sendo humilhada por esporte. Isso não é engraçado, Senhorita Pfannee! Eu estou quase ― quase dando um pontapé em você!”

Foi quando Grommetik se arremeteu pela margem das moitas de aze-vinho. A visão da estúpida coisa acobreada balançando junto a um degrau de pedra fez Shenshen despencar junto a uma coluna e se juntar a Pfannee numa gargalhada incontrolável. Até Ama Clutch se pôs a sorrir enquanto recolhia os pertences das garotas.

“Mas, o que está acontecendo?”, disse Elphaba.

“Você nasceu para me dar azar?”, Galinda disse, chorosa, para sua colega de quarto. “Eu pedi a sua companhia?”

“Não”, disse Boq. “Não, Senhorita Galinda, por favor, não diga outra palavra. Você está furiosa.”

“Fui ― eu ― que ― escrevi ― a ― carta”, arquejou Pfannee, em meio às suas explosões de gargalhada. Avaric começou a rir, e os olhos de Elphaba ficaram arregalados e meio fora de foco.

“Você quer dizer que não me convidou para visitá-la aqui?”, disse Elphaba a Galinda.

“Oh, querida, não, eu não convidei”, disse Galinda. Em sua raiva, ela começava a recuperar um pouco do controle, mesmo assim, imaginou Boq, o erro fora cometido com boa intenção. “Minha querida Senhorita Elphaba, eu não teria nem sonhado expô-la a crueldades tão impensadas como as que essas garotas aprontam umas com as outras e comigo só por diversão. Além disso, você não faria sentido num lugar desses.”

“Mas, eu fui convidada”, disse Elphaba. “Senhorita Pfannee, foi você, em vez da senhorita Galinda, que escreveu aquela carta?”

“E você engoliu!”, riu Pfannee, deliciada.

“Bem, esta é a sua casa e eu aceito o convite, mesmo que tenha sido escrito sob falsas intenções”, Elphaba disse, sua voz tranqüilamente convicta enquanto olhava fixamente para os olhos apertados da Senhorita Pfannee. “Vou lá desfazer as minhas malas.”

Com passadas largas, ela se afastou. Somente Grommetik a seguiu. O ar azedou com as coisas não-ditas. Pouco a pouco a histeria de Pfannee foi se aquietando, e ela apenas bufava e respirava com dificuldade, e por fim se tranqüilizou, deitando-se despenteada, vaporosamente, no chão de laje do quiosque.

“Bem, vocês não precisam ficar me perfurando com suas fungadas de desprezo”, ela disse por fim. “Foi uma brincadeira.”

Elphaba ficou em seu quarto por um dia. Galinda ia e vinha, ocupada com um jantar. Ela veio e ficou por alguns minutos. Os rapazes se puseram a nadar e remar no lago com as garotas. Boq tentou insuflar em si mesmo um interesse por Shenshen ou Pfannee, que, claro, eram coquetes o bastante. Mas as duas pareciam encantadas era com Avaric.

Por fim, Boq encurralou Galinda na varanda e reclamou que ela conversasse com ele. Ela concordou, um pouco de sua conduta recatada re-tornando, e eles se sentaram a uma pequena distância um do outro numa cadeira de balanço. “Suponho que eu seja culpado por não ter notado essa artimanha”, disse Boq. “Elfinha não estava querendo aceitar o convite. Eu que forcei.”

“O que significa esse Elfinha agora?”, disse Galinda. “O que se passou de fato nesse verão, posso perguntar?”

“Nós nos tornamos amigos.”

“Bem, posso jurar que já tinha notado isso. Por que você a forçou a aceitar o convite? Você não sabia que eu não escreveria uma coisa daquelas?”

“Como poderia saber? Você é a colega de quarto dela.”

“Por ordens expressas da Madame Morrible, não por escolha minha! Faço questão de lembrar isso!”

“Eu não sabia. Vocês pareciam unidas.”

Ela fungou, fez um bico, mas parecia ser uma observação que dirigia apenas a si mesma.

Boq continuou: “Se você foi tão miseravelmente humilhada, por que não vai embora?”.

“Talvez eu faça isso mesmo”, ela disse. “Estou pensando. Elphaba diz que partir é admitir a derrota. No entanto, se ela sair de seu esconderijo e começar a enturmar com o resto de vocês ― e comigo ― a brincadeira ficará insuportável. Elas não gostam dela”, explicou.

“Bem, nem você gosta, é o que acho!”, disse Boq, num sussurro explosivo.

“É diferente, eu tenho direito e razão”, ela replicou. “Eu sou forçada a me relacionar com ela! E tudo porque minha Ama estúpida pisou num prego enferrujado na estação ferroviária de Frottica e perdeu o rumo! Minha carreira acadêmica toda virando fumaça por causa do descuido de minha Ama! Quando eu for uma feiticeira, vou me vingar dela por isso!”

“Você poderia dizer que Elphaba nos trouxe juntos”, disse Boq suavemente. “Sou tão chegado a ela como sou chegado a você.”

Galinda pareceu a ponto de desistir. Ela recostou sua cabeça nas almofadas aveludadas da cadeira de balanço e disse: “Boq, você sabe que, a despeito de tudo, eu o acho um tantinho doce. Você é um tantinho doce e um tantinho encantador e um tantinho irritante e um tantinho viciante.”



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