Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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A RAIZ DO MAL

Deitada numa cama amarrotada, a esposa disse: “Eu acho que hoje é o dia. Olhe só como estou fraca”.

“Hoje? Isso seria bem de acordo com você, perversa e inconveniente”, disse seu marido, caçoando dela, parado na soleira e olhando para longe, para o lago, os campos, os declives da floresta mais além. Ele avistava apenas as chaminés de Margens Agitadas, de onde subia a fumaça dos alimentos que se preparavam para o desjejum. “O pior momento possível para o meu sacerdócio. Naturalmente.”

A esposa bocejou. “Não há muita escolha. É o que eu sei. Seu corpo fica deste tamanho e vai crescendo ― se você não pode acomodar a coisa, querido, então é melhor sair do caminho. Porque ela tem um rumo próprio e nada vai detê-la agora.” Ela se ergueu, tentando ver melhor por cima da proeminência de sua barriga. “Sinto-me uma refém de mim mesma. Ou do bebê.”

“Pratique um pouco de autocontrole.” Ele se aproximou dela e ajudou-a a sentar-se. “Pense nisso como num exercício espiritual. Vigilância dos sentidos. Continência ética e corporal.”

“Autocontrole?” Ela riu, chegando pouco a pouco à beira da cama. “Eu já nem tenho mais auto... Sou apenas uma hospedeira do parasita. Onde está meu auto, afinal? Onde será que eu deixei essa coisa antiga?”

“Pense em mim.” O tom de voz tinha mudado; ele falava sério.

“Frex” ― ela o afrontou ― “quando o vulcão está pronto, não tem pastor neste mundo que possa aquietá-lo.”

“O que meus confrades vão dizer?”

“Eles vão se reunir e dizer: ‘Irmão Frexpar, como foi que você permitiu que sua mulher parisse seu primeiro filho bem quando tinha um problema comunitário para resolver? Mas que falta de consideração de sua parte; demonstra uma falta de autoridade. Está demitido de sua posição’.” Ela zombava dele, já que não havia ninguém que pudesse demiti-lo. O bispo mais próximo estava longe demais para prestar atenção aos problemas particulares de um clérigo unionista residente no interior.

“É uma ocasião tão terrivelmente inoportuna!”

“Penso que você tem metade da culpa por essa ocasião”, ela disse. “Quero dizer, depois de tudo que fez, Frex.”

“É natural pensar assim, mas eu me pergunto...”

“Você se pergunta?” Ela riu, jogando a cabeça bem para trás. A linha que partia de sua orelha para o côncavo abaixo de sua garganta fez Frex compará-la a uma elegante concha de prata. Mesmo no desleixo da manhã, com uma barriga grande como uma chata, ela era majestosa.

Seus cabelos tinham o brilho laqueado de folhas molhadas de carvalho caídas ao sol. Ele a acusava de ter nascido para o privilégio e admirava seus esforços para superá-lo ― e ao mesmo tempo a amava também.

“Você quer dizer que se pergunta se é o pai” ― ela se agarrou no enxergão; Frex apanhou seu outro braço e puxou-a, endireitando-a como pôde; “ou você questiona a paternidade dos homens em geral?” Ela estava em pé, monumental, uma ilha ambulante. Empurrando a porta num passo de lesma, ela se riu dessa idéia. Ele ouviu sua risada lá de fora enquanto foi se vestindo para a batalha diária.

Frex penteou sua barba e azeitou seu couro cabeludo. Prendeu uma fivela de osso e couro cru na nuca, para manter o cabelo longe de seu rosto, porque suas expressões hoje tinham de ser lidas a distância. Não poderia haver vagueza nos significados. Aplicou um pouco de pó de carvão para escurecer suas sobrancelhas, deu uma esfregada de cera vermelha em suas bochechas flácidas. Escureceu seus lábios. Um pastor bonito atraía mais fiéis do que um que fosse sem graça.

Na cozinha Melena flutuava suavemente, não com a habitual gravidade decorrente da gravidez, mas como se estivesse inflada, um enorme balão transportando suas cordas através da sujeira. Ela carregava uma frigideira numa mão e alguns ovos e maços peludos de cebolinhas de outono na outra. Cantava para si mesma, mas só em frases curtas. Frex não devia ouvi-la.

Com sua sóbria toga bem apertada ao colarinho, suas sandálias presas às perneiras, Frex tirou de seu esconderijo ― embaixo de uma cômoda ― o relatório a ele enviado por um pastor confrade morador na aldeia de Três Árvores Mortas. Escondeu as páginas escuras dentro de um bolsinho de seu traje. Vinha mantendo-as escondidas de sua esposa, temendo que ela se interessasse ― fosse para ver a graça, se era divertido, ou para sofrer a co-moção, se fosse aterrador.

Enquanto Frex respirava profundamente, preparando seus pulmões para um dia repleto de oratória, Melena balançava uma colher de madeira na frigideira e remexia os ovos. O tinido dos cincerros soava através do lago.

Ela não o ouvia; ou ouvia outra coisa, uma coisa que só era audível dentro dela. Era um som sem melodia ― como uma música irreal, lembrada por seu efeito, mas não por suas quebras e recorrências harmônicas. Ela imaginava que era o filho lá dentro dela, cantarolando feliz. Ela sabia que ele seria uma criança dada a cantar.

Melena ouvia Frex lá dentro, começando a improvisar, se aquecendo, decorando as frases de efeito de sua argumentação, convencendo-se a si mesmo de sua correção.

Como era mesmo aquele provérbio, o que sua Babá cantava para ela, havia muitos anos, no berço?


“Nascido na matina,

desgraça repentina;

Nascido pela tarde,

malvado que até arde;

Nascido na noitinha,

desgosto se avizinha;

Se à noite for nascido,

igual ao amanhecido”


Mas ela se lembrava disso como brincadeira, afetuosamente. Desgosto é o final lógico da vida, e, no entanto, continuamos a ter bebês.

Não, disse a Babá, um eco na cabeça de Melena (e categoricamente, como de costume): Não, não, sua garotinha mimada. Nós não continuamos a ter bebês, é bem óbvio. Só temos bebês quando somos jovens o bastante para desconhecer como a vida pode ficar sombria. Depois que percebemos a verdadeira extensão da coisa ― aprendemos lentamente, nós, mulheres ―, secamos de desgosto e interrompemos sensatamente a produção.

Mas os homens não secam, Melena objetou; eles podem ser pais até morrer.

Ah, somos lerdas para aprender, a Babá se opôs. Mas eles não aprendem de jeito nenhum.

“Desjejum”, disse Melena, despejando os ovos num prato de madeira. Seu filho não seria tão burro como a maioria dos homens. Ela o criaria para desafiar a marcha inexorável do desgosto.

“É uma época de crise para a nossa sociedade”, declarava Frex. Para um homem que condenava os prazeres mundanos, ele até que comia com elegância. Ela amava observar o arabesco formado por seus dedos e os dois garfos. Suspeitava que debaixo de seu íntegro ascetismo ele possuísse uma aspiração oculta pelas volúpias da vida.

“Todo dia é dia de grande crise para a nossa sociedade.” Ela zombava dele, respondendo nos termos que os homens costumam usar. Pobre coisa obtusa, ele não ouvia de jeito nenhum a ironia em sua voz.

“Estamos numa encruzilhada. A idolatria cresce. Os valores tradicionais estão em perigo. A verdade está ameaçada e a virtude foi abandonada.”

Ele não estava conversando com ela, mas ensaiando seu discurso contra o próximo espetáculo de violência e magia. Havia em Frex um lado que beirava o desespero; ao contrário da maioria dos homens, ele era hábil para manejá-lo em seu próprio benefício. Com alguma dificuldade, ela conseguiu sentar-se num banco. Corais completos cantavam mudamente dentro de sua cabeça! Será que isso era costumeiro numa mulher que entraria em trabalho de parto? Ela gostaria de perguntar sobre isso às mulheres intrometidas do lugar, que viriam nessa tarde murmurar sobre a sua condição. Mas não ousava. Não podia se livrar de seu belo sotaque, que elas achavam afetado ― mas podia evitar parecer ignorante nesses aspectos tão básicos.

Frex percebeu seu silêncio. “Você não está com raiva por eu ir trabalhar hoje, está?”

“Com raiva?” Ela ergueu suas sobrancelhas, como se nunca tivesse tido uma idéia semelhante.

“A História rasteja atrás dos passos trôpegos das pequenas vidas individuais”, disse Frex, “e ao mesmo tempo as forças eternas convergem. Não se pode atuar nas duas arenas de uma vez só.”

“Nosso filho pode muito bem não ter uma vida pequena.”

“Agora não é hora para discussão. Você pretende me distrair de meu trabalho sagrado de hoje? Estamos diante da presença do mal verdadeiro em Margens Agitadas. Eu não conseguiria mais viver comigo mesmo se ignorasse esse fato.” Ele falava com convicção, e foi devido a essa intensidade que ela se apaixonara por ele; mas, com certeza, era devido a essa mesma intensidade que o odiava também.

“As ameaças são constantes ― voltarão novamente.” Sua última palavra sobre o assunto. “Já seu filho nascerá uma vez só, e se esse dilúvio re-virando dentro de mim é um sinal, eu acho que vai ser hoje.”

“Haverá outros filhos.”

Ela se virou para que ele não visse a raiva em seu rosto.

Mas não pôde sustentar a fúria contra ele. Talvez fosse essa a sua fraqueza moral. (Via de regra, não era muito dada a se preocupar com fraquezas morais; ter como marido um pastor parecia suficiente para suprir o pensamento moral de um casal.) Deslizou melancolicamente para o silêncio. Frex beliscou a comida.

“É o demônio”, disse ele, suspirando. “O demônio está chegando.”

“Não me diga uma coisa dessas no dia em que nosso filho está para nascer!”

“Refiro-me à tentação que está lá em Margens Agitadas! E você sabe o que quero dizer, Melena!”

“Palavras são palavras, e o dito já foi dito”, ela respondeu. “Não exijo toda a sua atenção, Frex, mas eu preciso de um pouquinho dela!” Ela deixou cair a frigideira com ruído no banco que ficava encostado à parede da casa.

“Bem, é assim mesmo”, ele disse. “Contra o que você acha que estou lutando hoje? Como vou convencer meus fiéis a se afastarem do deslumbrante espetáculo da idolatria? Provavelmente, vou voltar hoje à noite vencido por uma atração de impacto maior ainda. Você pode conquistar uma criança hoje. Quanto a mim, posso fracassar.” No entanto, ao dizer isso, ainda parecia orgulhoso; fracassar tendo como causa uma elevada questão moral era satisfatório para ele. Como é que isso poderia ser comparado à carne, ao sangue, à confusão e ao estardalhaço de ter um bebê?

Por fim, ele se levantou para sair. Um vento vinha por cima do lago agora, atingindo as partes mais elevadas das colunas de fumaça da cozinha. Elas pareciam funis de água girando os drenos em estreitas e focalizadas espirais, pensou Melena.

“Fique tranqüila, meu amor”, disse Frex, embora mantivesse sua se-vera expressão pública da cabeça aos pés.

“Sim.” Melena suspirou. A criança deu-lhe um soco lá dentro, no fundo, e ela teve de correr para a casinha de fora outra vez. “Seja um santo, e eu ficarei aqui pensando em você ― minha espinha dorsal, meu escudo. E também tente não ser assassinado.”

“Só se for pela vontade de Deus Inominável”, disse Frex.

“Pela minha também”, disse ela, blasfemando.

“Aplique sua vontade àquilo que é necessário”, ele respondeu. Agora, ele era o pastor e ela a pecadora, uma combinação que ela particularmente não apreciava.

“Adeus”, disse ela, e preferiu o mau cheiro e o alívio da casinha a ficar lhe acenando a distância enquanto ele dava passadas largas em direção à estrada de Margens Agitadas.




O RELÓGIO DO

DRAGÃO DO TEMPO



Frex se preocupava com Melena mais do que ela supunha. Ele parou na primeira cabana de pescador que encontrou e falou com o homem à soleira da porta. Será que uma ou duas mulheres não poderiam passar o dia e, se fosse necessário, a noite, com Melena? Seria uma caridade. Frex se inclinava para pedir o favor com um toque de gratidão na voz, sabendo silenciosamente que Melena não era muito apreciada nesses lugares.

Então, antes de seguir para o extremo de Água Mortiça e em direção a Margens Agitadas, ele parou junto a uma árvore caída e tirou duas cartas de sua bolsinha de pano.

O remetente era um primo distante de Frex, também pastor. Havia algumas semanas, o primo gastara tempo e tinta valiosos na descrição do que vinha sendo chamado de O Relógio do Dragão do Tempo. Frex preparara-se para a sagrada missão do dia relendo sobre o relógio idolatrado.
Escrevo com pressa, Irmão Frexpar, para registrar minhas impressões antes que desapareçam.

O Relógio do Dragão do Tempo está montado num vagão e é tão alto como uma girafa. Não é nada além de um teatro improvisado, cambaleante, disposto nos quatro lados com caramanchões e arcos de proscênio. No teto há um dragão com mecanismo de relógio, um artefato de couro pintado de verde, com garras prateadas, olhos de rubi. Sua pele é feita de centenas de discos de cobre, bronze e ferro sobrepostos. Debaixo das flexíveis dobras de suas escamas há uma armadura controlada pelo mecanismo do relógio. O Dragão do Tempo cobre em círculos seu pedestal, dobra suas estreitas asas de couro (fazem um som parecido ao de um fole) e vomita bolas sulfurosas de um alaranjado flamejante e fedorento.

Logo abaixo dele, expostos em dúzias de portas, janelas e pórticos, vê-se bonecos, marionetes, estatuetas. Criaturas de contos folclóricos. Caricaturas de camponeses e figuras da realeza. Animais e fadas e santos ― os santos de nossa união, Irmão Frexpar, roubados debaixo de nossos narizes! Eu fico furioso. As figuras se movem em rodas dentadas. Elas circulam para dentro e para fora. Elas se curvam na cintura, dançam e param e brincam, flertando umas com as outras.
Quem teria elaborado esse Dragão do Tempo, esse falso oráculo, esse instrumento de propaganda para o mal que desafiava o poder da união e do Deus Inominável? Os manipuladores do relógio eram um anão e alguns lacaios de cintura fina que pareciam ter capacidade mental apenas para tirar o chapéu. Quem por trás do anão e de seus lacaios decorativos estaria tirando proveito da coisa?

A segunda carta do primo avisava que o relógio estava seguindo rumo a Margens Agitadas. Contava uma história mais específica.


O espetáculo começou com um dedilhar de cordas e um chacoalhar de ossos. O público se aproximou, extasiado. Dentro de uma janela iluminada no palco, vimos uma cama de casal, com os bonecos de uma esposa e um marido. O marido estava sonolento e a esposa suspirava. Fazia um movimento com suas mãos entalhadas para sugerir que o marido era decepcionante de tão malservido. A platéia dava risadas estridentes. Aí, a esposa-boneca se recolheu para dormir. Quando ela roncou, o marido-boneco saiu furtivamente da cama.

Nessa altura, lá em cima, o Dragão se moveu na base, e apontou suas garras para a multidão, indicando ― sem sombra de dúvida ― um humilde cavador de poços chamado Grine que havia sido um marido fiel, embora indiferente. Então, o dragão recuou e estendeu dois dedos num gesto de venha-cá, isolando uma viúva chamada Letta e sua filha, moça de dentes pontiagudos. A multidão murmurou e se afastou de Grine, Letta e da moça ruborizada, como se houvesse sido subitamente contagiada por feridas purulentas.

O Dragão parou de novo, mas descortinou uma asa sobre outra arcada, que se iluminou para revelar o marido-boneco, que vagava pela noite. Junto a ele vinha uma viúva-boneca, com cabelo enfeitado e roupa de cores berrantes, arrastando atrás de si uma filha com maus dentes que protestava. A viúva beijou o marido-boneco e baixou suas calças de couro. Ele estava equipado com dois apetrechos de atributos masculinos, um pela frente e outro pendurado na base de sua espinha. A viúva colocou a sua filha na miniatura bélica da frente, e procurou tirar vantagem para si do dispositivo menos ameaçador que estava atrás. Os três bonecos pulavam e balançavam, emitindo guinchos de alegria. Quando a viúva-boneca e sua filha terminaram, desmontaram e beijaram o marido-boneco.

E aí deram joelhadas nele, ao mesmo tempo, para a frente e para trás. Afetado em suas molas e dobradiças, ele tentava recuperar todas as partes danificadas.

A platéia rugia. Grine, o verdadeiro cavador de poços, suava em bicas grandes como uvas. Letta fingia dar gargalhadas, mas sua filha já havia desaparecido, de tão envergonhada. Antes que a noite findasse, Grine foi procurado por seus vizinhos agitados e investigado por sua grotesca anomalia. Letta foi evitada. Sua filha parece ter desaparecido por completo. Suspeita-se o pior.

Felizmente, Grine não foi assassinado. No entanto, quem pode dizer como nossas almas foram afetadas por terem testemunhado um drama tão cruel? Todas as almas são reféns de seus invólucros humanos, mas as almas devem se aviltar e padecer com tamanha indignidade, não concorda?

Às vezes, parecia a Frex que qualquer bruxa itinerante e qualquer profeta tagarela e desdentado de Oz que pudesse lançar o mais transparente dos feitiços tinha se aproveitado dos cafundós de Pedras do Caminho para abrir um negócio. Ele sabia que os moradores de Margens Agitadas eram ignorantes. Suas vidas eram duras e suas esperanças escassas. Enquanto a seca se arrastava, a fé tradicional da união sofria erosão. Frex estava ciente de que o Relógio do Dragão do Tempo combinava os atrativos da ingenuidade e da magia ― e teria de se valer das mais profundas reservas de sua convicção religiosa para combatê-lo. Se sua congregação se provasse vulnerável à assim chamada fé no prazer, sucumbindo ao espetáculo e à violência ― bem, que é que se poderia esperar?

Ele tinha de vencer. Ele era o pastor daqueles fiéis. Ele tinha extraído seus dentes e enterrado seus bebês e benzido seus trens de cozinha por muito tempo. Ele tinha se humilhado por eles. Ele tinha vagado com uma barba em desalinho e uma cuia de mendigo de povoado a povoado, deixando a pobre Melena sozinha a cuidar de seu posto por várias semanas, certa vez. Sacrificara-se por eles. Eles não podiam ser influenciados por essa criatura do Dragão do Tempo. Eles lhe deviam isso.



Ele seguiu caminhando, ombros ajustados, queixo erguido, o estômago num revolto azedo. O céu estava escurecido pela areia e sujeira que ondulavam no ar. O vento soprava no alto das colinas com um trêmulo gemido, como se tentasse transpor uma fissura de rocha, em algum espinhaço que ficava além de qualquer coisa que Frex pudesse enxergar.

O NASCIMENTO DE UMA BRUXA

Era já quase noite quando Frex sentiu-se com coragem o bastante para entrar no povoado em ruínas de Margens Agitadas. Ele suava profusa-mente. Firmava seus calcanhares e bombeava seus punhos apertados, e clamava num tom rouco, carregado. “Escutai, vós de pouca fé! Uni-vos enquanto é tempo, pois a tentação se anuncia para testar-vos dolorosa-mente!” As palavras eram arcaicas, até ridículas, mas funcionavam, pois já se aproximavam dele os pescadores taciturnos, retirando suas redes vazias da doca. Já se chegavam os fazendeiros de subsistência, cujas pobres terras mal tinham se formado ao longo desse ano seco. Antes mesmo que ele tivesse começado o discurso, já olhavam para ele com caras de tão culpados quanto a própria culpa.

Eles seguiram-no até os raquíticos degraus da casa de conserto das canoas. Frex sabia que todos esperavam que o maligno relógio chegasse a qualquer momento; o mexerico era tão contagioso quanto a peste. Ele vociferava sobre a multidão para aumentar a expectativa sedenta. “Sois tolos como recém-nascidos que engatinham, estendendo as mãos para tocar em belas brasas! Sois como ovas do útero do dragão, prontas para sugar tetas de fogo!” Essas eram imprecações clássicas já desgastadas e soaram frouxas nessa noite; ele estava cansado e não em sua melhor forma.

“Irmão Frexpar”, disse Bfee, o prefeito de Margens Agitadas, “poderia por favor reduzir um pouco a sua lenga-lenga até que possamos ver que nova forma a tentação poderá assumir?”

“Vocês não têm fibra para resistir a novas formas”, disse Frex, cuspindo.

“Mas não foi você nosso mestre competente todos esses anos?” disse Bfee. “Nós nunca tivemos uma oportunidade tão boa como essa de provar-nos contra o pecado! Esperamos ansiosamente pela... pela prova espiritual que isso significará.”

Os pescadores riam e zombavam, e Frex intensificava sua carranca, mas ao ouvir o som de rodas inabituais nos sulcos pedregosos da estrada, todos viraram suas cabeças e caíram em silêncio. Ele perdera a atenção do público mesmo antes de começar.

O relógio vinha puxado por quatro cavalos e escoltado pelo anão e sua corte de jovens sicários. Seu amplo teto era coroado pelo dragão. Mas que monstro! Parecia aprumado como se estivesse pronto para saltar, como se realmente possuísse vida. O revestimento do palanquim era decorado com cores carnavalescas, folheadas a ouro. Os pescadores iam ficando boquiabertos à medida que ele se aproximava.

Antes que o anão pudesse anunciar quando a apresentação se daria, antes que o grupo de jovens pudesse dar as suas cartas, Frex encostou-se no degrau mais baixo da coisa ― um palco dobrável. Por que isso é chamado de relógio? A única aparência de relógio que tem é rasa, estúpida e perdida em todos esses detalhes tapeadores. Ademais, os ponteiros não se movem; olhem, vejam por vocês mesmos! Estão pintados para permanecer em um minuto antes da meia-noite! Tudo que vocês vêem aqui é pura mecânica, meus amigos: sei disso como fato consumado. Vocês vêem o crescimento de campos de trigo mecânicos, luas minguantes de cera, um vulcão a expelir um pano vermelho revestido de lantejoulas pretas e vermelhas. Com todo esse aparato falso, por que não colocar um par de braços giratórios na frente do relógio? Por que não? Eu pergunto a você, sim, você, Gawnette, e você, Stoy, e você, Perippa. Por que não há um relógio verdadeiro aqui?”

Eles não escutavam, nem Gawnette nem Stoy nem Perippa, nem os outros. Estavam ocupados demais em arregalar os olhos de expectativa.

“A resposta, com certeza, é que o relógio não foi feito para medir o tempo terreno, mas o tempo da alma. O tempo da redenção e da condenação. Para a alma, cada instante é um minuto a menos de julgamento.”

“Um minuto a menos de julgamento, meus amigos! Se vocês morressem nos próximos sessenta segundos, gostariam de passar a eternidade nas sufocantes profundezas reservadas aos idolatras?”

“Barulhão medonho vai rolar por aqui esta noite”, disse alguém nas sombras ― e os espectadores riram. Acima de Frex ― ele girou para ver ― de uma pequena porta, emergiu latindo um cachorro-boneco, com o cabelo tão escuro e crespo quanto o de Frex. O cachorro saltava de uma mola, e o volume de seu latido era irritantemente alto. As risadas aumentaram. A noite ficara mais escura, e ficava menos fácil para Frex distinguir quem estava rindo, quem agora gritava para que ele se afastasse a fim de que o público pudesse ver.

Ele não se movia, portanto, foi mandado embora de seu posto sem maior cerimônia. O anão fez uma saudação poética ao público. “Todas as nossas vidas são atividades sem sentido; nós nos entocamos como ratos e nos contorcemos como ratos vida afora e como ratos somos lançados em nossos túmulos, no final. De vez em quando, por que não ouvirmos a voz de uma profecia, ou vermos a execução de um milagre? Por sob a aparente falsidade e indignidade de nossas vidas de ratos, um padrão e um significado humildes ainda podem ser percebidos! Aproxime-se, minha gente querida, e observe o que um pouquinho de conhecimento extra augura para nossas vidas! O Dragão do Tempo vê o antes e o além e o oculto de seu quinhão de anos neste mundo! Olhe o que ele tem a lhes mostrar!”

A multidão se aproximava. A lua se erguera, sua luz semelhante ao olho de um deus raivoso e vingativo. “Parem, deixem-me passar”, Frex clamava; era pior do que ele tinha imaginado. Ele nunca tinha sido maltratado pela sua própria congregação.

O relógio revelou a história de um homem publicamente virtuoso, com barba como lã de cordeiro e cachos de cabelos pretos, que pregava a simplicidade, a pobreza e a generosidade enquanto ocultava um cofre de ouro e esmeraldas ― nas dobras do peito de uma delicada filha de gente de sangue azul. O crápula foi sendo varrido com uma longa estaca de ferro do jeito mais brutal e entregado a seu faminto rebanho como um Pedaço de Pastor Assado.

“Isso é uma apelação aos seus piores instintos!” Frex vociferou, seus braços dobrados e seu rosto roxo de fúria.

Mas agora que a escuridão era quase total, alguém veio por trás dele para calá-lo. Um braço cercou seu pescoço. Ele se virou para ver qual paroquiano danado tomara tais liberdades, mas todos os rostos estavam cobertos por capuzes. Levou uma joelhada na virilha e dobrou-se, seu rosto caindo no pó. Um pé chutou-o direto entre as nádegas e as vísceras. O resto da multidão, contudo, não estava notando. Os espectadores uivavam de alegria com algum outro entretenimento posto em ação pelo Dragão do Relógio. Uma mulher simpática, envolta num xale de viúva, agarrou seu braço e tirou-o dali ― ele estava muito abobalhado, dolorido demais para se firmar e entender quem era. “Vou lhe colocar no fundo de um porão, debaixo de um saco de aniagem, juro que vou”, murmurou a boa senhora,porque logo eles vão perseguir você com forcados, pelo jeito que a coisa está ficando! Vão procurar você na casinha de pastor, mas não vão procurar no meu quarto de dormir.”

“Melena”, ele agourou, “eles a pegarão!”

“Ela será ajudada também”, disse sua vizinha.

“Nós, mulheres, podemos cuidar disso, eu acho!”

Na casinha de pastor, Melena lutava para ficar consciente enquanto duas parteiras entravam e saíam de foco diante dela. Uma era a esposa de um pescador, a outra uma velha encarquilhada; faziam turnos pondo as mãos em sua testa, examinando o meio de suas pernas, e lançando olhares furtivos sobre as pequenas jóias e tesouros que Melena tinha lutado por trazer para casa ao vir dos Solos de Colwen. “Masca esta pasta de folhas de alfineteiro, patinha, faz isso, tá? Você ficará inconsciente rapidinho”, disse a esposa do pescador. “Você vai relaxar, o preciosinho vai nascer, e tudo estará bem de manhã. Pensei que você cheirava a água de rosas e orvalho de fada, mas você fede como todos nós. Masca, minha querida, masca.”

Ao som de uma batida na porta, a velha ergueu culposamente seus olhos, afastando-os da arca diante da qual se ajoelhara e que esquadrinhara implacavelmente. Deixou a tampa se fechar com um estrépito e adotou uma posição fingida de quem estivesse rezando, com os olhos fechados. “Entre”, ela convidou.

Uma moça de pele macia e corada entrou. “Oh, eu esperava encontrar alguém aqui”, ela disse. “Como ela está?”

“Quase pronta, e o bebê também”, respondeu a esposa do pescador. “Só mais uma hora, eu calculo.”

“Bem, me disseram para avisá-las. Os homens estão bêbados e caçando por aí. Foram incitados por aquele Dragão do Relógio Mágico, como vocês sabem, e procuram Frex para matá-lo. Foi o relógio que mandou. Eles estão zanzando aqui por perto. Seria melhor a gente esconder a mulher ― ela pode ser transportada?”

Não, não posso ser transportada, pensou Melena, e se os camponeses acharem Frex para matá-lo, será bom e ruim para mim, porque nunca senti uma dor tão fora do comum, que me fizesse ver sangue diante de meus olhos, como esta que sinto agora. Matem o meu marido por ter me aprontado esta. A esse pensamento, ela sorriu num lampejo de alívio e desmaiou.

“Vamos deixá-la aqui e fugir!” disse a moça. “O relógio disse que era para matá-la também, e matar o pequeno dragão que ela vai parir. Eu não quero ser pega.”

“Temos nossas reputações a manter”, disse a esposa do pesca-dor. “Não podemos abandonar essa coisa metida a dama no meio do parto. Eu não me importo com o que qualquer relógio diz.”

A velha, com sua cabeça de novo enfiada na arca, disse: “Alguém aí quer uma verdadeira renda de Gillikin?”

“Há um carrinho de carregar feno no campo lá embaixo, mas vamos fazer isso agora”, disse a esposa do pescador. “Venham, me ajudem a ir buscá-lo. Você, sua velha mãe bruxa, tira a cara daí dos panos de linho, e venha umedecer este belo rostinho rosa. Certo, vamos lá.”

Poucos minutos depois, a velha encarquilhada, a esposa e a moça estavam empurrando ruidosamente um carrinho de feno por um caminho raramente usado que passava pelas hastes e folhas castanhas das florestas outonais. O vento tinha aumentado. Assobiava sobre os morros desprovidos de árvores de Colinas de Pano. Melena, escarrapachada entre cobertores, arquejava e gemia em dor inconsciente.

Ouviram uma turba bêbada passar, com forcados e archotes, e as mulheres ficaram mudas e aterrorizadas, ouvindo as maldições engroladas. Então, puseram-se a caminho com uma urgência ainda maior e chegaram a um bosque nevoento ― bem à beira de um cemitério para cadáveres não-consagrados. Dentro dele viram os contornos diluídos do relógio. Fora deixado lá pelo anão por uma questão de segurança ― nada bobo, ele; podia adivinhar que esse canto particular do mundo era o último lugar que os aldeões agitados procurariam nessa noite. “O anão e seus lacaios estavam bebendo na taberna também”, disse a moça, sem fôlego. “Não há ninguém aqui que possa deter-nos!”

A velha disse: “Então, você anda espiando os homens pelas janelas da taberna, sua piranha?” Ela empurrou e abriu a porta na retaguarda do relógio.

Achou um espaço ocupado. Pêndulos se dependuravam na penumbra de forma ameaçadora. Enormes rodas dentadas pareciam preparadas para fatiar qualquer invasor em rodelas de salsicha. “Venham, ponham-na aqui dentro”, disse a velha.

A noite de tochas e nevoeiro deu lugar, no amanhecer, a amplas e escarpadas nuvens de tempestade, dançantes esqueletos de relâmpagos. Lampejos de céu azul apareciam fugazmente, embora de vez em quando chovesse tão forte que o que parecia cair não era água, mas pingos de lama. As parteiras, rastejando com mãos e joelhos lá atrás do vagão do relógio, conseguiram enfim liberar o fardo. Protegeram a criança do gotejamento de calha. “Vejam, um arco-íris”, disse a mais velha, meneando a cabeça. Um lenço enfermiço de luz colorida pendia do céu.

O que elas viram, esfregando os resquícios do saco amniótico e o sangue da pele ― seria apenas um engano causado pela luz? Afinal, passada a tempestade, a grama parecia palpitar com sua própria cor, as rosas zumbiam e pairavam com louca glória em seus caules. Mas mesmo com esses efeitos de luz e atmosfera, as parteiras não podiam negar o que viam. Por baixo da excreção dos fluidos da mãe, a criança cintilava com um escandaloso tom esmeralda-pálido.

Não houve nenhum gemido, nenhum latido de fúria de recém-nas-cido. A criança abriu sua boca, respirou, e se manteve imperturbável. “Geme, seu demônio”, disse a velha, “é seu primeiro trabalho.” O bebê ignorava suas obrigações.

“Outro menino voluntarioso”, disse a esposa do pescador, suspirando. “Devemos matá-lo?”

“Não seja tão ruim com ele”, disse a velha, “é uma menina.”

“Hah”, disse a moça de vista turva, “olhem de novo, aí está o cata-vento.”

Por um momento elas entraram em discórdia, mesmo com a criança nua diante delas. Só depois de uma segunda e terceira esfregada ficou claro que a criança era de fato feminina. Talvez durante o parto um pouco de eflúvio orgânico houvesse sido captado e rapidamente secado no lugar da fenda. Assim que foi enrolada numa toalha, notou-se que ela era belamente formada, com uma longa cabeça elegante, antebraços lindamente torneados, pequenas nádegas boas de beliscar, dedos espertos com pequenas unhas que arranhavam.

E um inegável toque de verde na pele. Havia um rubor salmão nas bochechas e na barriga, um efeito de bege em torno das pálpebras apertadas, uma listra amarelo-castanho no couro cabeludo revelando o padrão de cabelo escasso. Mas o efeito principal era o de se estar diante de um vegetal.

“Olha aí o que a gente arrumou para ter problemas”, disse a moça. “Uma pequena porção verde de manteiga. Por que não a matamos? Vocês sabem o que as pessoas vão dizer.”

“Acho que ela é podre”, disse a esposa do pescador, e examinou para ver se encontrava a raiz de uma cauda, contando os dedos das mãos e dos pés. “Fede como esterco.”

“É esterco mesmo que você está cheirando, sua idiota. Você está se agachando numa bosta de vaca.”

“É doente, é frágil, deve ser essa a razão da cor. Vamos jogá-la no charco, vamos afogar a coisa. A mãe nunca saberá. Está desacordada há horas em seus desmaios de grande dama.”

Deram risadinhas. Embalaram a criança na curva de seus braços, passando-a de uma para outra no teste de peso e equilíbrio. Matá-la seria o mais bondoso plano de ação. A questão era como.

Então a criança abriu a boca, e a esposa do pescador distraidamente deu-lhe um dedo para fazer agrado, e ela mordeu o dedo para arrancá-lo, aproveitando a fraqueza momentânea. Ela quase engasgou na golfada de sangue. O dígito caiu de sua boca sobre a lama como um carretel. As mulheres se puseram imediatamente em ação. A esposa do pescador investiu sobre a menina para estrangulá-la, e a velha e a moça se arrojaram na defesa. O dedo foi retirado da lama com uma escavação e empurrado para dentro de um bolso de avental, talvez para ser recolocado na mão que o per”era. "É um pinto, ela acabou de notar que não tinha um”, gritou a moça, e caiu no chão de tanto rir. “Oh, que se cuide o primeiro menino estúpido que tentar se satisfazer com ela! Ela vai cortar seu tenro broto com uma tesoura para guardar de recordação!”

As parteiras se arrastaram de volta para o relógio e deixaram a coisa no colo da mãe, medrosas de cogitar de um crime de misericórdia devido ao pavor do que o bebê ainda poderia morder. “Talvez ela retalhe uma teta dessa vez, isso vai trazer a Dona Sonolenta Delicadeza de volta à realidade bem depressa”, a velha cacarejou. “Que criança, chupa sangue antes mesmo da primeira mamada no leite da mãe!” Deixaram uma panelinha de barro com água por perto e, protegidas pela rajada da tempestade seguinte, foram embora de vez para procurar seus filhos e maridos e irmãos, e repreendê-los e surrá-los se estivessem à mão, ou enterrá-los se não os encontrassem.

Nas sombras, a criança, de olhos arregalados, erguia a cabeça para olhar para os dentes lubrificados e regulares do relógio do tempo.



MOLÉSTIAS E REMÉDIOS

Melena passou dias sem conseguir olhar para a coisa. Ela a segurava por dever de mãe. Esperava que o manancial de afeição maternal brotasse e a dominasse. Não chorava. Mascava folhas de alfineteiro, para flutuar muito longe do desastre.

Era uma ela. Era uma mulher. Melena praticava mutações em seu pensamento quando estava sozinha. O fardo contraído e infeliz não era masculino; não era neutro; era uma mulher. A coisa dormia, parecendo uma pilha de folhas de repolho lavadas e deixadas para enxugar sobre a mesa.

Em pânico, Melena escreveu para Solos de Colwen para tirar a Babá de sua aposentadoria. Frex se adiantou, indo de carroça apanhar a Babá na estação do caminho de Ponta de Espato. Na viagem de volta, ela perguntou a Frex o que andava errado.

“O que há de errado.” Ele suspirou e ficou perdido em pensamentos. A Babá percebeu que tinha escolhido mal as palavras; agora Frex estava desatento. Ele começou a resmungar de modo genérico sobre a natureza do mal. Um vácuo provocado pela inexplicável ausência do Deus Inominável e dentro do qual o veneno espiritual deve se alojar. Um vórtice.

“Estou perguntando qual é o estado da criança!”, retorquiu a Babá, explosivamente. “Não é sobre o universo, mas sobre uma simples criança que eu quero saber alguma coisa, se é que vou ser de alguma ajuda! Por que Melena chama a mim e não à mãe dela? Por que não há uma carta para seu avô? Ele é o Eminente Thropp, pelo amor de Deus! Melena não deve ter esquecido seus deveres tão completamente, ou a vida no campo é pior do que pensávamos?”

“É pior do que nós pensávamos”, disse Frex, sombrio. “O bebê ― é melhor se preparar, Bá, para não dar um grito —, o bebê é desgraçado.”

“Desgraçado?” A mão da Babá ficou mais apertada em sua valise e ela olhou para as árvores de folhas avermelhadas de fruta-pérola que ladeavam a estrada. “Frex, pode me contar tudo.”

“É uma menina”, disse Frex.

“Desgraça de fato”, disse a Babá, brincando, mas Frex, como sempre, não via graça. “Bem, pelo menos o legado da família fica preservado para outra geração. Ela tem todos os membros?”

“Sim.”


“Alguma coisa além do necessário?”

“Não.”


“Está mamando?”

“Nós não deixamos. Tem dentes fora do comum, Bá. Tem dentes de tubarão, ou algo parecido.”

“Bem, ela não será a primeira criança a ser criada com uma garrafa ou um trapo em vez de um peito, não se preocupe com isso.”

“A cor é que está errada”, disse Frex.

“Qual cor é a cor errada?”

Por uns momentos, Frex conseguia apenas balançar a cabeça. A Babá não gostou e na verdade não gostava dele, mas procurou atenuar. “Frex, não pode ser tão ruim assim. Sempre há uma solução. Diga para mim.”

“É verde”, ele disse, finalmente. “Bá, a coisa é verde como musgo.”

“Ela é verde, você quer dizer. É uma ela, pelos céus.”

“Não é pelos céus.” Frex começou a chorar. “O céu não vai melhorar por esse fato, Bá; o céu não aprova. O que nós vamos fazer?”

“Cale-se.” A Babá detestava ver homem chorando. “Não pode ser tão horrível assim. Não tem uma pitada de sangue ruim nas veias de Melena. Qualquer praga que a criança tenha, o tratamento da Babá aqui dará um jeito. Confie em mim.”

“Confiei no Deus Inominável”, soluçou Frex,

‘Nós não trabalhamos sempre com propósitos iguais, Deus e eu”, disse a Babá. Sabia que era blasfemo, mas não conseguia resistir a fazer uma pilhéria ao perceber que a guarda de Frex estava baixa. “Mas não se preocupe, eu não vou soprar uma palavra que seja à família de Melena. Vamos resolver a coisa num relâmpago, e ninguém precisará ficar sabendo. O bebê tem um nome?”

“Elphaba”, ele disse.

“Por Santa Elphaba da Cachoeira?”

“Sim.”

“Um belo nome antigo. Vocês usarão o apelido comum Fabala, suponho.”



“Quem pode saber se ela vai chegar a viver o bastante para ter um apelido.” Soava como se Frex tivesse a esperança de que isso acontecesse.

“Paisagem interessante, estamos ainda em Pedras do Caminho?”, a Babá perguntou, para mudar de assunto. Mas Frex se fechara por dentro, mal se importando em guiar os cavalos pelo caminho certo. O campo estava sujo, esburacado, pisoteado pelos roceiros; a Babá começou a desejar não ter-se vestido com sua melhor roupa de viagem. Os ladrões de estrada podiam achar que encontrariam ouro numa mulher mais velha de aparência tão refinada, e teriam razão em suas suposições, pois a Babá portava uma liga dourada surrupiada havia anos do toucador de grande dama. Que humilhação, se a liga fosse levada anos depois da coxa bem torneada, embora envelhecida, que ela tinha! Mas os medos da Babá eram infundados, pois a carroça chegou, sem incidentes, ao quintal da casinha do pastor.

“Deixe-me ver o bebê primeiro”, a Babá disse. “Será mais fácil e mais justo com Melena se eu souber com que estamos lidando.” E isso não foi difícil de arranjar, pois Melena estava alheia ao problema graças às folhas de alfineteiro, enquanto o bebê numa cesta sobre a mesa gemia suavemente.

A Babá pegou uma cadeira para que não se machucasse ao desmaiar e cair de costas. “Frex, ponha a cesta no chão onde eu possa olhar para dentro.” Frex fez a obrigação, e então saiu para devolver a carroça e os cavalos a Bfee, que raramente precisava deles para suas obrigações de prefeito, mas os emprestava para ganhar alguns dividendos eleitorais.

A criança estava envolta em panos de linho, ela viu, e a boca e os ouvidos estavam amarrados com uma tipóia. O nariz parecia uma saliência de cogumelo venenoso, pressionada para o alto por necessidade de ar, e os olhos estavam abertos.

A Babá se aproximou mais. A criança não poderia ter, o quê, três semanas de vida? No entanto, enquanto ela se movia de lá para cá, olhando para o seu perfil de um ângulo ou de outro, como se quisesse avaliar o formato do cérebro, os olhos da menina seguiam cada movimento seu. Eram castanhos e profundos, de uma cor de terra carregada, salpicada de mica. Havia um entrecruzamento de frágeis linhas vermelhas a cada ângulo suave onde as pálpebras se encontravam, como se a menina estivesse rompendo as linhas de sangue com o exercício de observar e entender.

E a pele, ah, sim, a pele era verde como o pecado. Não era uma cor feia, a Babá pensou. Só que não era uma cor humana.

Ela estendeu as mãos e passou o dedo pelo rosto do bebê. A criança recuou, e sua espinha arqueou, e o pano que a envolvia com segurança do pescoço ao dedão do pé partiu-se e abriu como palha de milho. A Babá rangia os dentes e estava decidida a não ser intimidada. O bebê tinha-se exposto, do esterno à virilha, e a pele de seu peito era da mesma cor in-confundível. “Vocês ao menos tocaram nessa criança?” murmurou a Babá. Ela pôs a palma da mão sobre o peito arfante do bebê, os dedos cobrindo os quase invisíveis bicos dos seios, e aí deslizou sua mão a fim de examinar o aparato logo abaixo. A criança estava molhada e manchada, mas podia-se sentir que era feita de acordo com o padrão tradicional. A pele era o mesmo milagre de maleável suavidade da pele que Melena tivera quando menina.

“Venha com a Babá, sua coisinha horrível.” A Babá se abaixou para pegar o bebê, com tralha e tudo.

O bebê se virou para evitar o toque. A sua cabeça bateu no fundo empalhado do cesto.

“Você dançou lá dentro do útero, eu bem que noto”, disse a Babá, “com que música terá sido? Músculos tão bem desenvolvidos! Não, você não vai fugir de mim. Venha cá, pequeno demônio. A Babá não dá bola. A Babá gosta de você.” Ela mentia feio, mas ao contrário de Frex, ela acreditava que algumas mentiras eram sancionadas pelo céu.

E ela manteve as mãos sobre Elphaba, e ainda colocou-a em seu colo. E ali a Babá esperou, cantarolou e de vez em quando olhava para longe, para além da janela, para se recuperar e se impedir de vomitar. Ela esfregava a barriga do bebê para acalmá-lo, mas não havia jeito de acalmá-lo, ao menos não por enquanto.

Pela tarde, Melena se apoiou em seus cotovelos quando a Babá trouxe uma bandeja com chá e pão. “Já me acomodei na casa”, disse a Babá, “e já fiz amizade com sua queridinha. Agora, volte a si, doçura, e deixe-me dar-lhe um beijo.”

“Oh, Bá!”, Melena se permitiu ser mimada. “Obrigada por vir. A senhora viu o monstrinho?”

“Ela é adorável”, disse a Babá.

“Não minta e não disfarce”, disse Melena. “Se quiser ajudar, terá de ser honesta.”

“Se eu vou ajudar, você é que terá de ser honesta”, disse a Babá. “Não precisamos entrar no assunto agora, mas eu terei de saber tudo, meu doce. Assim, decidiremos o que tiver de ser feito.” Bebericaram seu chá, e porque Elphaba havia adormecido, pareceu por uns momentos que voltavam aos velhos dias de Solos de Colwen, quando Melena voltava para casa de seus passeios vespertinos com graciosos jovens bem-nascidos com os quais flertava e se gabava da beleza masculina deles a uma Babá que fingia não tê-la notado.

Na realidade, com o passar das semanas, a Babá notou algumas coisas bem perturbadoras no bebê.

Para começar, ela tentou tirar as bandagens, mas Elphaba parecia determinada a morder e arrancar as suas mãos, e os dentes dentro daquela bela boca de lábios finos eram realmente monstruosos. Ela abriria um buraco ali na cesta se fosse deixada sem vigilância. Ela se virava contra o próprio ombro e o retalhava em carne viva. Ela parecia um ser que estivesse se estrangulando. “Não se pode arranjar um barbeiro para vir extrair os dentes?”, a Babá perguntava. “Ao menos até que o bebê aprenda a ter auto-controle?”

“A senhora está maluca”, Melena disse. “Vai correr pelo vale todo que ela é verde como abobrinha. Vamos manter o queixo amarrado para cima até resolvermos o problema da pele.”

“Como diabos foi que a pele dela saiu verde?”, a Babá se perguntava, estupidamente, porque Melena ficava branca e Frex avermelhava, e o bebê prendia a respiração como se tentasse ficar azul para satisfazer a todos.

A Babá decidiu ter uma conversa com Frex mais além, no quintal. Depois do duplo choque do nascimento e de seu malogro público, ele ainda não estava pronto para engajamentos profissionais e lá ficava, esculpindo rosários com cascas de carvalho, entalhando e inscrevendo emblemas da Inominabilidade de Deus pelos troncos afora. A Babá escondera Elphaba bem dentro da casa ― ela tinha um medo irracional de ser ouvida oniscientemente e, pior ainda, compreendida, pela menina ― e saíra fuçando no quintal à procura de uma abóbora para a ceia.

“Frex, eu não suponho que exista verde nos antepassados de sua família”, ela começou, sabendo muito bem que o avô poderoso de Melena teria confirmado uma tal predisposição antes de concordar em deixar sua neta casar-se com um pastor unionista ― entre todas as escolhas que ela tinha!

“Nossa família nada tem a ver com o dinheiro e com os poderes terrenos”, disse Frex, não se ofendendo dessa vez. “Mas eu descendo em linha direta de seis pastores antes de mim, de pai a filho. Somos tão bem considerados em nossos círculos espirituais quanto a família de Melena nos salões finos e na corte de Ozma. E não, não há verde em nenhuma parte. Nunca ouvi falar disso em minha família.”

A Babá concordou e disse: “Bem, tudo bem, eu estava só perguntando. Eu sei que você é mais santo que os mártires gnomos”.

“Mas”, disse Frex humildemente, “Bá, eu acho que fui o causador desse problema. Minha língua escorregou no dia do nascimento da menina ― anunciei que o demônio estava chegando. Eu queria dizer o Relógio do Dragão do Tempo. Mas vamos supor que essas palavras abriram a porta para o demônio...”

“A criança não é um demônio!”, respondeu a Babá, asperamente. Não é anjo tampouco, ela pensou, mas guardou o pensamento só para si.

“Por outro lado”, Frex continuou, soando mais seguro, “ela pode ter sido amaldiçoada acidentalmente por Melena, que interpretou mal minha observação e chorou por isso. Talvez Melena tenha aberto dentro de si uma janela pela qual um duende desgarrado entrou e coloriu a criança.”

“Bem no dia em que ela estava para nascer?” disse a Babá. “Um duende muito capacitado. Será que sua bondade é tão exaltada que atrai sempre os mais poderosos entre os Espíritos da Aberração?”

Frex deu de ombros. Há algumas semanas teria concordado, mas sua confiança agora estava arruinada pelo fracasso abjeto que sofrerá em Margens Agitadas. Ele não se atrevia a sugerir o que temia: que a anomalia da criança era um castigo por seu fracasso em proteger seus fiéis da fé no prazer.

“Bem...”, a Babá perguntou a bem dizer, “se com tal maldição o bem foi arruinado, através do que o mal poderá ser remediado?”

“Um exorcismo”, disse Frex.

“Você está autorizado para isso?”

“Se eu for bem-sucedido em modificar a criança, saberemos que estou autorizado”, disse Frex. Mas agora que tinha um objetivo, seu ânimo se iluminava. Ele passaria alguns dias jejuando, pesquisando orações e recolhendo subsídios para o ritual arcano.

Quando ele saiu para as florestas e Elphaba cochilava, a Babá se empoleirou ao lado do duro colchão de casamento de Melena.

“Frex está pensando se a profecia dele de que o demônio estava chegando não teria feito uma janela se abrir em você, deixando passar uma coisa maligna para estragar o bebê”, disse a Babá. Ela estava fazendo uma ponta de renda de crochê, desajeitada; nunca tivera muito jeito para trabalhinhos, mas gostava de lidar com a agulha de marfim polido do crochê. “Eu cá me pergunto se você não teria aberto outra janela?”

Melena, grogue com as folhas de alfineteiro como de hábito, ergueu uma sobrancelha, confusa.

“Você dormiu com algum sujeito que não fosse o Frex?” a Babá perguntou.

“Não seja louca!”, disse Melena.

“Eu a conheço, benzinho”, disse a Babá. “Não estou dizendo que você não seja uma boa esposa. Mas nos tempos em que os rapazes ficavam zumbindo feito zangões no pomar da casa dos seus pais, você trocava suas perfumadas roupas de baixo mais de uma vez por dia. Não a estou rebaixando. Mas não finja para mim que seus apetites não eram bem sadios.”

Melena afundou o rosto no travesseiro. “Oh, naqueles tempos!”, ela gemeu. “Não é que eu não ame o Frex! Mas eu odeio ser superior a esses idiotas roceiros daqui!”

“Bem, agora que essa filha verde traz você ao nível deles, você deveria ficar satisfeita”, disse a Babá, insinuante.

“Bá, eu amo o Frex. Mas ele me deixa sozinha com tanta freqüência! Eu ficaria muito feliz se algum vendedor ambulante passasse e me vendes-se mais que uma cafeteira de lata! Eu pagaria bem por alguém que fosse menos santo e tivesse mais imaginação!”

“É uma questão para o futuro”, disse a Babá, sensatamente. “Estou lhe perguntando é do passado. O passado recente. A partir do seu casa-mento.”

Mas o rosto de Melena ficara vago e apagado. Ela concordava, ela dava de ombros, ela balançava a cabeça.

“A teoria óbvia envolve um elfo”, disse a Babá.

“Eu não iria transar com um elfo!”, Melena berrou.

“Nem eu”, disse a Babá, “mas o verde faz a gente pensar. Há elfos aqui por perto?”

“Há bandos barulhentos deles por aí, elfos das árvores, em algum lugar lá pelo alto das colinas, mas talvez sejam mais débeis mentais que os bons moradores de Margens Agitadas. Verdade, Bá, nunca vi nenhum, ou se vi, foi a distância. A idéia é repulsiva. Elfos riem de tudo, a senhora sabia? Um deles cai de um carvalho e esmaga o crânio como um nabo podre, e os outros se juntam para rir do coitado e daí a pouco já se esqueceram dele. E um insulto seu a mera insinuação de uma coisa dessas.”

“Pois se acostume com a idéia, se não acharmos uma saída desse atoleiro.”

“Bem, a resposta é não.”

“Então, outra pessoa. Algum sujeito bonito o bastante para os padrões locais, trazendo um germe que talvez você tenha contraído.”

Melena ficou chocada. Ela não havia pensado em sua própria saúde desde que Elphaba nascera. Será que ela estava em perigo?

“A verdade”, disse a Babá. “Temos de saber.”

“A verdade”, disse Melena de um modo distante. “Bem, impossível sabê-la.”

“Que é que você está tentando dizer?”

“Eu não sei a resposta para a sua pergunta.” E Melena explicou. Sim, a sua casa estava fora da trilha mais usada, e claro que ela nunca fora além dos mais lacônicos cumprimentos com os fazendeiros, pescadores e cretinos em geral do lugar. Mas apareciam nas colinas e florestas mais viajantes do que você poderia acreditar. Muitas vezes ela ficara, alheia e solitária, enquanto Frex estava ausente em suas pregações, e se consolara oferecendo a algum forasteiro de passagem uma refeição simples e uma conversa animadora.

“E que mais?”

Mas nesses dias maçantes, Melena murmurava, dera para mascar folhas de alfineteiro. Quando acordava de seu torpor, o sol estava se pondo ou Frex estava por ali de cara fechada ou sorrindo para ela, pouca coisa conseguia lembrar.

“Você está querendo dizer que caiu no pecado do adultério e não tem nem a vantagem de uma boa lembrança apimentada do que fez?”, a Babá estava escandalizada.

“Eu não sei o que fiz!” disse Melena. “Eu não tinha escolha, quero dizer que não tinha como fazê-la com um pensamento claro. Mas eu me lembro de uma vez em que um vendedor ambulante com um sotaque engraçado me deu um trago de alguma infusão embriagadora de uma garrafa de vidro verde. E eu tive uns sonhos de uma rara expansão, Bá, do Outro Mundo, realmente ― cidades de vidro e neblina ― ruído e cor ― que eu tentei lembrar.”

“Então, você bem que poderia ter sido estuprada por elfos. Seu avô não ficará lá muito satisfeito em saber do jeito que Frex toma conta de você.”

“Pare!”, gritou Melena.

“Bem, eu não sei o que deve ser feito!” A Babá estava perdendo a calma, por fim. “Todo mundo está sendo irresponsável! Se você não se lembra se seus votos de casamento foram ou não quebrados, não há bem nenhum em agir como uma santa ofendida.”

“A gente sempre pode afogar o bebê e recomeçar.”

“Você que tente afogar aquela coisa”, murmurou a Babá. “E eu terei pena do pobre lago que for usado para isso.”

Mais tarde, a Babá examinou minuciosamente a pequena coleção de remédios de Melena ― ervas, pastilhas, raízes, aguardentes, folhas. Ela pensava, sem muita esperança, se poderia inventar alguma coisa que pudesse branquear a pele da menina. Por trás da gaveta, a Babá achou a garrafa de vidro verde de que Melena falara. A luz era ruim e sua vista não era boa, mas ela conseguiu distinguir as palavras ELIXIR MILAGROSO num pedaço de papel grudado na frente.

Embora fosse dotada de uma habilidade inata para curar, a Babá se sentia incapaz de fazer uma poção para mudar a pele. Banhar a criança em leite de vaca não tornara a pele branca, tampouco. Mas a criança não deixava de modo algum que a enfiassem num balde de água do lago; ela se contorcia e se esquivava como um gato em pânico. A Babá seguiu usando o leite de vaca. Ele deixava um horrível cheiro azedo se ela não o esfregas-se e tirasse completamente com um pano.

Frex organizou um exorcismo. Envolvia velas e hinos. A Babá observou de uma certa distância. O homem ficava com os olhos lacrimejantes, transpirava com o esforço, embora as manhãs estivessem mais e mais frias. Elphaba dormia envolta em seus panos no meio do tapete, indiferente ao sacramento.

Nada acontecia. Frex se rendia, exausto e desgastado, e embalava sua filha verde dentro da curva de seus braços, como se finalmente abraçasse a prova de algum pecado não descoberto. O rosto de Melena se enrijecia.

Havia apenas uma coisa a tentar. A Babá tomou coragem de trazê-la à tona no dia em que estava para retornar a Solos de Colwen.

“Vemos que os tratamentos rústicos não funcionam”, disse ela, “e que a intervenção espiritual falhou. Você tem coragem de pensar em feitiçaria? Haverá por aqui alguém que pudesse tirar a peçonha verde da criança com artes mágicas?”

Frex pulou para cima da mulher, brandindo os punhos. A Babá caiu de costas de seu banco, e Melena se precipitou sobre ela, gritando. “Como se atreve!” gritou Frex. “Nesta família! A menina verde já não é ofensa o bastante? A feitiçaria é o refúgio dos amorais; quando não é charlatanismo desvairado, é mortalmente perigosa! Contratos com os demônios!”

A Babá dizia: “Oooh, Deus me defenda! Você, bom homem, não conhece o uso do fogo contra fogo?”.

“Bá, já basta”, disse Melena.

“Batendo numa velha frágil”, disse a Babá, magoada. “Que apenas tentava ajudar.”

Na manhã seguinte, a Babá arrumou a sua valise. Não havia mais nada que pudesse fazer, e ela não estava querendo viver o resto de sua vida com um ermitão fanático e um bebê estragado, mesmo em consideração a Melena.

Frex levou-a de volta à estalagem em Ponta de Espato, para a carruagem pontual conduzi-la para casa. A Babá sabia que Melena podia ainda estar pensando em matar a criança, mas tinha lá as suas dúvidas. Segurava a sua valise junto ao peito largo, temendo os bandidos outra vez. Dentro dela escondia sua liga dourada (poderia sempre alegar que fora posta lá sem que ela soubesse, conquanto fosse difícil alegar que fora posta em sua perna nas mesmas circunstâncias). Ela também se apoderara da agulha de crochê de marfim, de três dos rosários de oração de Frex, porque gostava dos entalhes, e da bela garrafa de vidro verde deixada por algum vendedor itinerante que oferecia, pelo jeito, sonhos, paixão e sonolência.

Não sabia o que pensar. Seria Elphaba um fruto dos demônios? Seria ela um meio-elfo? Seria um castigo para o fracasso de seu pai como pastor, ou para a moral frouxa e a memória curta de sua mãe? Ou seria simplesmente uma enfermidade física, uma praga como uma maçã deformada ou um bezerro de cinco patas? A Babá bem sabia que sua visão do mundo era nebulosa e caótica, prejudicada por demônios, fé e crendice popular. Todavia, não escapava à sua atenção que Melena e Frex tinham acreditado de maneira intransigente que teriam um menino. Frex era o sétimo filho de um sétimo filho, e para piorar essa equação poderosa, ele descendia de seis pastores de uma série. Qual criança dos dois (ou de qualquer um dos dois) sexos ousaria seguir uma linha tão auspiciosa?

Talvez, pensou a Babá, a pequena e verde Elphaba houvesse escolhido seu próprio sexo, e sua própria cor, e que seus pais fossem para o inferno.




O SOPRADOR DE

VIDRO DE QUADLING



Por um curto e úmido mês, no começo do ano seguinte, a seca se dissipou. A primavera transbordou como água verde de poço, espumando nas sebes, borbulhando à beira da estrada, salpicando o teto da casa com grinaldas de hera e flores de trepadeira. Melena vagava pelo quintal num estado de tranqüilo pouco-vestir, para poder sentir o sol em sua pele pálida e o profundo calor de que sentira falta o inverno todo. Presa com correias em sua cadeira à soleira da porta, Elphaba, agora com um ano e meio de idade, batia nos peixinhos de seu desjejum com o bojo da colher. “Oh, coma a coisa, não a esmague”, dizia Melena, mas com suavidade. Desde que a tipóia do queixo fora retirada, mãe e filha começaram a prestar alguma atenção uma à outra. Para sua surpresa, Melena às vezes achava Elphaba afetuosa, do jeito que um bebê deve ser.

Essa paisagem era a única coisa que ela vira desde que deixara a elegante mansão de sua família ― a superfície varrida pelo vento do lago de Água Mortiça, as distantes casinhas de pedra escura e as chaminés de Margens Agitadas do outro lado, as colinas se estendendo em torpor mais além. Ela enlouquecia; o mundo não era nada além de água e carência. Se uma bagunça de elfos acontecesse ali no quintal, ela saltaria para junto deles para ter companhia, para fazer sexo ou cometer um crime.

“Seu pai é uma fraude”, ela disse para Elphaba. “Ausente, cuidando de si, todo o inverno deixando-me só você como companhia. Coma essa papinha, pois você não vai conseguir outra se jogá-la no chão.”

Elphaba pegava o peixe e o jogava no chão.

“Seu pai é um charlatão”, continuava Melena. “Ele foi muito bom de cama para um homem religioso, e foi assim que eu soube seu segredo. Homens santos devem estar acima dos prazeres terrenos, mas seu pai gostava de sua farrinha da meia-noite. Era uma vez! Não devemos nunca lhe contar que sabemos que ele é uma farsa, isso partiria seu coração. Não queremos partir seu coração, queremos?” E aí Melena irrompia em gargalhada estrondosa.

O rosto de Elphaba não sorria, imutável. Ela apontava para o peixe.

“Papinha. Papinha caiu no chão. Papinha agora é pros insetos”, Me-lena dizia. Ela deixava a gola de seu roupão de primavera cair um pouco mais e a canga rosa de seus ombros nus girava. “Vamos passear hoje à beira do lago pra você morrer afogada?”

Mas Elphaba nunca se afogava, nunca, porque ela nem mesmo chegava perto do lago.

“Talvez a gente possa dar uma voltinha de barco e aí você cai!” Melena gritava.

Elphaba virava a cabeça para um lado como se escutasse alguma parte de sua mãe que não estivesse intoxicada pelas folhas e pelo vinho.

O sol saía de trás de uma nuvem. Elphaba franzia as sobrancelhas. O roupão de Melena escorregava. Seus seios abriam caminho por entre os sujos folhos da gola.

Olhem para mim, pensava Melena, mostrando meus peitos para uma criança a quem não posso dar leite por medo de amputação. Eu que era a rosa de Pedras do Ninho. Eu que fui a beldade da minha geração! E agora estou reduzida a companhias que nem sequer desejo, minha garotinha torta e espinhenta. É mais um gafanhoto que uma menina, com essas pequenas coxas angulosas, essas sobrancelhas arqueadas, esses dedos agressivos. Ela está no momento de aprender como qualquer outra criança, mas não encontra deleite neste mundo: empurra e quebra e mordisca sem nenhum prazer. Como se tivesse a missão de provar e avaliar todos os desaponta-mentos da vida, dos quais Margens Agitadas é generosamente suprido. Peço perdão ao Deus Inominável, ela é um horror, ela é. Ela é.

“Ou a gente podia dar uma caminhada pelos bosques hoje e colher as últimas bagas do inverno.” Melena se sentia cheia de culpa por sua falta de sentimento materno. “Podemos fazer uma torta com elas. Podemos colocá-las numa torta? Vamos fazer isso, benzinho?”

Elphaba ainda não falava, mas ela balançou a cabeça e começou a ficar agitada para descer. Melena começou um joguinho de bater palmas de que ela não tomou conhecimento. A criança grunhia e apontava para o chão, e arqueava suas longas pernas elegantes para explicar seu desejo. Então, dava sinais em direção ao portão que levava do quintal da cozinha para o galinheiro.

Havia um homem encostado às estacas do portão, de aparência tímida e faminta, com uma pele da cor das rosas ao crepúsculo: um vermelho sombrio, do tom da penumbra. Ele trazia um par de sacolas de couro nos ombros e costas, e um cajado de andarilho, e um rosto perigosamente bonito e desprovido de expressão. Melena soltou um grito penetrante e se re-compôs, colocando sua voz num registro mais baixo. Havia muito tempo não falava com ninguém e só dirigira a palavra uma vez a um caminhante queixoso. “Deus do céu, você nos assustou!”, gritou. “Está procurando comida?” Ela perdera o jeito do convívio social. Por exemplo, seus seios não deviam apontar para o homem daquele jeito. Contudo, não fechou seu roupão.

“Favor perdoar a aparência repentina de um desconhecido ao portão de uma dama”, disse o homem.

“Perdoado, é claro”, ela disse impacientemente. “Venha para cá onde eu possa vê-lo melhor ― venha, venha!”

Elphaba vira tão poucas outras pessoas em sua vida que escondeu um olho atrás da colher e ficou espiando com o outro.

O homem se aproximou. Seus movimentos revelavam a falta de jeito de quem está exausto. Ele era largo de tornozelos e tinha pés grossos, esbelto de cintura e ombros, e o pescoço também era grosso ― como se tivesse sido fabricado num torno mecânico e trabalhado depressa demais nas extremidades. Suas mãos, depositando as sacolas no chão, pareciam animais com opiniões próprias. Eram descomunais e esplêndidas.

“Viajante não sabe onde está”, disse o homem. “Duas noites para cruzar as colinas de Milharais da Baixada. Para procurar a taberna em Três Árvores Mortas. Para descansar.”

“Você está perdido, você errou o caminho”, disse Melena, decidindo não ficar espantada com suas palavras desordenadas. “Não tem importância. Deixa eu lhe fazer uma comida e me conte a sua história.” Ela passava as mãos pelos cabelos, que uma vez tinham sido considerados tão preciosos quanto bronze esculpido. Limpos ao menos eles estavam.

O homem era polido e bem apanhado. Quando tirou seu boné, seus cabelos caíram em meadas oleosas, rubras como a aurora. Ele se lavou na bomba de água, despindo-se da camisa, e Melena percebeu que era bom ver de novo os quadris de um homem (Frex, louvado fosse, dera para ficar roliço nesse ano e pouco que transcorrera desde o nascimento de Elphaba). Será que todos de Quadling tinham esse delicioso cor-de-rosa sombreado? O nome do homem, Melena ficou sabendo, era Coração de Tartaruga, e ele era um soprador de vidro de Ovvels, no pouco conhecido Estado de Qua-dling.

Ela finalmente guardou seus seios, embora com relutância. Elphaba emitiu um grito prolongado para que ela a soltasse, e, sem hesitar, o visitante desafivelou-a e jogou-a para o alto e pegou-a novamente. A criança cacarejava de surpresa, de prazer até, e Coração de Tartaruga repetiu o truque. Melena tirou proveito da concentração do homem na pirralha para pegar os peixinhos não comidos da sujeira do chão e limpá-los. Ela os deixou cair no meio dos ovos e da raiz de alcatrão amassada, esperando que Elphaba não aprendesse a falar de repente e a deixasse embaraçada. Ela era bem o tipo de criança que faria isso.

Mas Elphaba estava por demais encantada com esse homem para bagunçar ou fazer birra. Ela nem mesmo se queixou quando Coração de Tartaruga finalmente foi até o banco e sentou-se para comer. Ela engatinhava entre suas macias panturrilhas desprovidas de pêlos (porque ele tirara as suas meias) e murmurava alguma musiquinha de sua própria lavra com um sorriso afetado e satisfeito no rosto. Melena se descobriu com ciúme de uma fêmea que não contava ainda com dois anos de idade. Ela não teria achado nada ruim sentar-se no chão entre as pernas de Coração de Tartaruga.

“Nunca conheci ninguém de Quadling”, ela disse, num tom alto demais, brilhante demais. Os meses de solidão tinham-na feito esquecer suas boas maneiras. “Minha família nunca recebeu um morador de Quadling para jantar em casa ― não que houvesse muitos, ou nenhum, que eu soubesse, nas chácaras vizinhas à nossa propriedade. Havia histórias que pintavam os de Quadling como dissimulados e incapazes de dizer a verdade.”

“Como pode um quadling responder a uma tal acusação se um quadling é sempre dado à mentira?” Ele sorriu para ela.

Ela se derreteu como manteiga em pão quente. “Acreditarei em qualquer coisa que você diga.”

Ele lhe contou de sua vida nos asilos de Ovvels, as casas apodrecendo suavemente no pântano, a colheita de caracóis e escuras ervas daninhas, os costumes da vida comunitária e da veneração dos ancestrais. “Então, vocês acreditam que seus ancestrais vivem com vocês?” ela alfinetou. “Não quero ser intrometida, mas é que fiquei interessada em religião a despeito de mim mesma.”

“A dama não acredita que seus ancestrais estejam ao seu lado?”

Ela mal podia se concentrar na questão, tão claros eram os olhos do homem, e tão maravilhoso era ser chamada de dama.

Seus ombros se endireitaram. “Meus ancestrais mais próximos não poderiam estar mais distantes”, ela admitiu. “Quero dizer, meus pais ainda estão vivos, mas tão desinteressantes para mim que não faria diferença se estivessem mortos.”

“Quando mortos poderão visitar a dama com freqüência.”

“Não serão bem-vindos. Caiam fora.” Ela riu, enxotando. “Você quer dizer fantasmas? Melhor que não apareçam. Isso é o que eu chamo o pior dos dois mundos ― se é que há Outro Mundo.”

“Há um outro mundo”, ele disse com toda convicção.

Ela ficou arrepiada. Ergueu Elphaba e apertou-a firmemente entre os braços. Elphaba vergou como um invertebrado em seus braços, nem reagindo nem retribuindo ao abraço, só se esquivando da novidade de estar sendo tocada. “Você é um vidente?”, disse Melena.

“Coração de Tartaruga sopra vidro”, ele disse. Ele parecia querer dizer que aquela era a resposta.

Melena repentinamente lembrou-se dos sonhos que tinha, de lugares exóticos que sabia que era limitada demais para inventar. “Casada com um pastor, e não sei se acredito em outro mundo”, ela admitiu. Ela não quisera dizer que era casada, embora achasse que estava implícito, devido à criança.

Mas Coração de Tartaruga havia parado de falar. Ele baixara o prato (tinha posto os peixinhos à parte) e tirou de suas sacolas um potinho, um cachimbo, e alguns sacos de areia, bicarbonato de sódio, cal e outros minerais. “Pode Coração de Tartaruga agradecer à dama por sua boa acolhida?” ele perguntou; ela concordou.

Ele acendeu o fogo da cozinha, escolheu e misturou seus ingredientes, e arrumou os utensílios, e limpou o fornilho de seu cachimbo com um paninho especial dobrado em sua própria bolsa de tabaco. Elphaba, imóvel como uma moita, com as mãos verdes nos verdes dedos do pé, ficava observando com curiosidade em seu rosto contorcido.

Melena nunca tinha visto o vidro ser soprado, e também nunca vira papel sendo feito, nem roupa sendo tecida, nem toras sendo arrancadas a machados dos troncos das árvores. Parecia-lhe tão maravilhoso quanto as histórias locais do relógio itinerante que tinha enfeitiçado seu marido, levando-o àquela paralisia profissional da qual ele não tinha ainda escapado completamente ― embora vivesse tentando.

Coração de Tartaruga murmurava uma nota musical através do nariz ou do cachimbo enquanto soprava um bulbo irregular de um gelo esverdeado. A coisa fumegava e sibilava no ar. Ele sabia o que fazer; era um feiticeiro na arte do vidro; Melena teve de colocar Elphaba para trás para protegê-la de queimar suas mãos enquanto tentava pegá-la.

Num tempo que pareceu nem ter passado, no que parecia mágica, o vidro passou de semilíquido e abstrato para uma realidade concreta e fria.

Era um círculo liso e impuro, como um prato ligeiramente oblongo. Ao longo do tempo todo em que Coração de Tartaruga trabalhou nele, Melena pensou em sua própria personalidade, indo do éter da juventude à casca endurecida da maturidade, transparentemente vazia. Vulnerável, também. Mas antes que se perdesse em remorsos, Coração de Tartaruga tomou suas duas mãos e passou-as bem perto, sem tocar, na superfície lisa do vidro.

“Dama conversar com seus ancestrais”, ele disse. Mas ela não queria lutar para se comunicar com gente velha mortalmente aborrecida no Outro Mundo, não enquanto aquelas mãos enormes cobriam as suas. Ela respirava pelo nariz para suprimir o cheiro do desjejum em sua boca não lavada (fruta e um copo ― ou dois de vinho?). Ela achava que ia desmaiar.

“Olhe para o vidro”, ele a pressionou. Ela conseguia olhar apenas para seu pescoço e seu queixo cor de mel de framboesa. Ele olhava para ela. Elphaba se aproximou, firmou-se com uma mão pequena em seu joelho e observou também.

“Marido está chegando”, disse Coração de Tartaruga. Era uma profecia feita através do prato de vidro ou ele estava lhe fazendo uma pergunta? Mas ele continuou: “Marido está viajando de burro para trazer mulher velha visitar você. Espera visita de ancestral?”

“É velha ama-de-leite, provavelmente”, Melena disse. Ela estava caindo em sua sintaxe deformada com desavergonhada simpatia. “Você vê isso aí?”

Ele concordou. Elphaba concordou também, mas com o quê?

“Quanto tempo teremos até que ele chegue aqui?”, ela perguntou.

“Até a noite.”

Não trocaram mais uma só palavra até o pôr-do-sol. Abafaram o fogo e carregaram Elphaba para o arnês, e sentaram-na diante do vidro esfriado, que penduraram num fio como uma lente ou um espelho. A coisa parecia hipnotizá-la e acalmá-la; ela nem mesmo ficava roendo, alheia, seus pulsos e dedos do pé. Eles deixaram a porta da casa aberta para que, de quando em quando, pudessem olhar da cama para vigiar a criança que, na claridade de um dia de sol, não seria capaz de focalizar seus olhos para ver nas sombras da casa, e que, de qualquer modo, nunca fora de se virar para ver. Co-ração de Tartaruga estava insuportavelmente belo. Melena enroscou-se como cobra-dragão, cobriu-o com sua boca, derramou-o em suas mãos, aqueceu e esfriou e deu forma à sua luminosidade. Ele preenchia o seu vazio.

Estavam banhados, vestidos, com a ceia quase toda feita, quando o burro soltou um zurro a uma milha na descida do lago. Melena ficou corada. Coração de Tartaruga voltou para seu cachimbo, soprando novamente. Elphaba se virou e olhou para a direção do agudo anúncio do burro. Seus lábios, que sempre pareciam quase negros contra a cor de maçã nova de sua pele, torceram-se num aperto, mascando-se. Ela mordeu o lábio de baixo como se fizesse isso para pensar, mas não sangrou; tinha aprendido a usar os dentes de algum modo, através de tentativa e erro. Pôs sua mão no disco brilhante. O círculo de vidro captou o derradeiro azul do céu, até ficar parecido com um espelho mágico tendo por dentro nada além de água de um frio prateado.





GEOGRAFIAS DO VISTO E

DO NÃO-VISTO



Ao longo do caminho, desde Ponta de Espato, onde Frex fora ao encontro da sua carruagem, a Babá se queixou. Lumbago, rins fracos, espinhelas caídas, gengivas doloridas, dor de cadeiras. Frex queria dizer: E que dizer de seu ego inchado? Embora houvesse ficado fora de circulação por um tempo, sabia que a observação seria rude. A Babá dava uma de impaciente e se paparicava, firmando-se com determinação em seu assento até que chegaram à pequena casa perto de Margens Agitadas.

Melena cumprimentou Frex com afetada timidez. “Meu escudo, minha espinha dorsal”, murmurou. Ela estava delgada depois de um inverno duro, as maçãs de seu rosto mais proeminentes. Sua pele parecia purificada pela pincelada de um artista ― mas ela sempre tivera a aparência de uma água-forte em carne humana. Era habitualmente expansiva em seus beijos e ele achou sua reserva alarmante, até que notou que havia um desconhecido nas sombras. Então, apresentações feitas, a Babá e Melena se agitaram para colocar uma refeição na mesa, e Frex pôs lá fora um pouco de aveia para o pobre cavalo que tivera de puxar a carroça. Quando terminou, foi sentar-se junto à filha à luz do anoitecer de primavera.

Elphaba ficou cautelosa ao lado do pai. Ele tirou de sua bolsa um presentinho que tinha entalhado para ela, um pequeno pardal com um bico gracioso e asas erguidas. “Olhe, Fabala”, ele sussurrou (Melena detestava o derivativo, por isso ele o usava: era seu laço particular com Elphaba, o pacto pai-filha contra o mundo.) “Olhe o que eu achei na floresta. Um passarinho de madeira de bordo.”

A criança pegou a coisa em suas mãos. Tocou-a suavemente, e pôs sua cabeça na boca. Frex se enrijeceu para ouvir o inevitável estilhaçar da madeira, e para conter seu suspiro de desapontamento. Mas Elphaba não mordeu. Ela chupou a cabeça e tornou a olhá-la. Molhada, parecia ter mais vida.

“Você gostou”, disse Frex.

Ela concordou, e começou a apalpar as asas. Agora que estava distraída, Frex podia colocá-la em seus joelhos. Ele enfiou seu queixo de barba ondulada carinhosamente no cabelo da menina ― cheirava a sabão, a fumaça de lenha e a torrada fresca, cheiro bom e saudável ― e fechou os olhos. Era bom estar em casa.

Ele passara o inverno numa cabana de pastor de ovelhas abandonada na direção do vento em Cabeça de Grifo. Orando e jejuando, movendo-se para o fundo e para longe de si. E por que não? Em sua terra natal, sentira o desprezo do povo de todo o claustrofóbico vale de Água Mortiça; eles haviam associado a história escandalosa do pastor corrupto ao nascimento da criança deformada. Tinham tirado suas próprias conclusões. Evitavam seus ofícios na capela. Portanto, a escolha de uma vida de ermitão, ao menos a pequenos intervalos, lhe parecera a um só tempo penitência e preparo para uma outra coisa, algo que logo viria ― mas, o quê?

Ele sabia que essa vida não era a que Melena havia esperado ao casar-se com ele. Como seus antepassados, Frex parecia talhado para uma posição de examinador ou mesmo, eventualmente, de bispo. Ele havia imaginado a felicidade que Melena teria como uma dama de sociedade, presidindo jantares festivos, bailes de caridade e chás episcopais. Em vez disso, ele a via à luz da lareira, raspando uma última, mole cenoura de inverno, dentro de uma panela de peixe ― e aí ela se exauria, como a cônjuge de um casamento difícil numa fria e sombria zona lacustre. Frex percebia que ela não lamentava que ele se retirasse de tempos em tempos para que ela pudesse se alegrar ao vê-lo de volta.

Enquanto ruminava esses pensamentos, sua barba fazia cócegas no pescoço de Elphaba, e ela abocanhava as asas de seu pardal de madeira. Chupava nelas como se assobiasse. Desviando-se dele, ela correu para uma lente de vidro pendurada no beiral que se projetava, e deu um tapa nela.

“Não, você vai quebrar!” disse-lhe o pai.

“Não conseguir quebrar aquilo.” O viajante, o visitante de Quadling, vinha da bacia, onde estivera se lavando.

“Ela acabou de aleijar o seu brinquedo”, Frex disse, apontando para a imitação de pássaro danificada.

“Ela se satisfaz com coisas despedaçadas”, Coração de Tartaruga disse. “Eu acho. A menininha brincar melhor com pedaços quebrados.

Frex não entendeu lá muito bem, mas concordou. Ele sabia que os meses que permanecera distante da voz humana deixavam-no a princípio desajeitado. O menino da taberna, que subira a Cabeça de Grifo para entregar o pedido da Babá para ser apanhada em Ponta de Espato, tinha obviamente julgado que Frex fosse um selvagem, um ser gutural e descabelado. Frex teve de citar um pouco do Ozíada para provar alguma humanidade: “Terra do verde abandono, terra da infindável relva" - foi tudo que lhe veio à lembrança.

“Por que ela não conseguiria quebrá-la?”, perguntou Frex.

“Porque não a fiz para ser quebrada”, respondeu Coração de Tartaruga. Mas ele sorria para Frex, sem agressividade. E Elphaba vagava ao redor com o vidro brilhante como se fosse um brinquedo, captando sombras, reflexos, luzes em sua superfície imperfeita, como se estivesse brincando.

“Aonde você vai?”, perguntou Frex, bem quando Coração de Tartaruga lhe dizia, “De onde você é?”

“Sou da Terra de Munchkin”, disse Frex.

“Eu pensar que todos os de Munchkin ser mais baixos que eu e você.”

“Os camponeses, os fazendeiros, sim”, Frex disse, “mas qualquer um com antepassados dignos de nota casou-se com gente mais alta em alguma parte. E você? Você é do Estado de Quadling.”

“Sim”, disse o quadling. Seu cabelo avermelhado tinha sido lavado e secava como um nimbo aéreo. Frex estava contente por ver Melena tão generosa a ponto de oferecer a um andarilho água para se banhar. Talvez ela estivesse, afinal, se adaptando à vida do lugar. Porque, por Deus, um quadling figurava no escalão social tão baixo quanto era possível para alguém que ainda fosse humano.

“Mas eu entender”, disse o quadling. “Ovvels é um mundo pequeno. Até eu partir, eu não saber das colinas, uma atrás da outra e dos espinhaços circulares em torno de um mundo tão amplo. As manchas muito distantes ferir meus olhos, por isso eu não via. Favor o senhor me descrever o mundo que conhece.”

Frex pegou uma varinha. No solo, desenhou um ovo a seu lado. “O que me ensinaram nas lições”, ele disse. “Dentro do círculo fica Oz. Faça um X” ― ele fez, dentro do oval ― “e, grosso modo, você tem uma torta dividida em quatro partes. O topo é Gillikin. Cheia de cidades e universidades e teatros, a vida civilizada, como dizem. E as indústrias.” Ele se moveu no sentido horário. “Ao leste fica a Terra de Munchkin, onde estamos no momento. Terra agrícola, a cesta básica de Oz, exceto quando se desce para o sul montanhoso ― esses traços, no distrito de Pedras do Caminho, são as colinas que você está escalando.” Ele batia com a varinha e designava. “Direto ao sul do centro de Oz está o Estado de Quadling. Terras ruins, me disseram ― pantanosas, inúteis, infestadas de insetos e ares febris.” Coração de Tartaruga ficou espantado ao ouvir isso, mas concordou. “Depois, o Oeste, o que chamam de Estado de Winkie. Não sei muito a respeito, exceto que é seco e desabitado.”

“E ao redor?”

“Desertos de arenito a norte e oeste, desertos de pedras manchadas a leste e sul. Dizia-se que as areias do deserto eram mortalmente venenosas; é apenas propaganda rotineira. Mantém os invasores de Ev e Quox receosos de entrar.

A Terra de Munchkin é um rico e desejável território agrícola, e Gilli-kin também não é má. No Glikkus, aqui em cima,” ― ele esboçou linhas no noroeste, na fronteira entre Gillikin e a Terra Munchkin ― “ficam as minas de esmeralda e os famosos canais de Glikkus. Eu sei que há uma disputa para saber se o Glikkus pertence a Munchkin ou a Gillikin, mas não tenho uma opinião a respeito.”

Coração de Tartaruga movia suas mãos sobre o desenho no chão, flexionando suas palmas, como se estivesse lendo o mapa mais acima. “Mas, aqui?” ele disse. “O que fica aqui?”

Frex pensou que ele se referisse ao céu sobre Oz. “O reino do Deus Inominável?”, ele disse. “O Outro Mundo? Você pertence à união?”

“Coração de Tartaruga é soprador de vidro”, ele disse.

“Eu quero dizer, em termos de religião.”

Coração de Tartaruga baixou sua cabeça e evitou o olhar de Frex. “Coração de Tartaruga não saber de que nome chamar isso.”

“Eu não conheço os quadlings” disse Frex, animando-se com uma possível conversão. “Mas os de Gillikin e Munchkin são amplamente unionistas. Desde que o paganismo Lurlinista acabou. Por séculos, santuários e capelas unionistas têm-se espalhado por Oz. Não há nenhum no Estado de Quadling?”

“Coração de Tartaruga não reconhecer o que é isso”, ele disse.

“E agora respeitáveis unionistas estão convertendo-se aos montes à fé no prazer”, disse Frex, rindo, desdenhoso, “ou mesmo ao tiktokismo, que é difícil até de qualificar como religião. Para os ignorantes, tudo é espetáculo, hoje em dia. Os antigos monges e monjas sabiam seus lugares no universo reconhecendo a fonte da vida como sublime demais para ser nomeada ―, e agora nós suspiramos nas barras do manto de qualquer mago mofado que apareça. Hedonistas, anarquistas, solipisistas! A liberdade individual e o entretenimento são tudo! Como se a feitiçaria tivesse algum componente moral! Feitiços, mágica vagabunda de rua, dispositivos de som e luz com propulsão industrial, falsos ilusionistas! Charlatões, nababos da necromancia, das sabedorias químicas e herbáceas, hedonistas impostores! Vendendo suas receitas de pântano e aforismos de velhas e seus encantamentos de ginasianos! Isso me deixa doente.”

Coração de Tartaruga disse: “Coração de Tartaruga pode lhe trazer um pouco de água, Coração de Tartaruga pode lhe fazer repousar?”. Ele punha os dedos macios como pele de bezerro sobre o pescoço de Frex. Frex tremia e percebia que estivera gritando. A Babá e Melena observavam lá da porta com uma panela de peixe, silenciosas.

“É uma figura de retórica, eu não estou doente”, ele disse, mas estava comovido pela preocupação demonstrada pelo estrangeiro. “Acho que agora vamos comer.”

E foi o que fizeram. Elphaba ignorou sua comida, exceto para espetar os olhos do peixe cozido, arrancá-los e tentar enfiá-los no seu passarinho já sem asas. A Babá resmungava jovialmente sobre o vento que vinha do lago, seus arrepios, sua espinhela, sua digestão. Seus gases pareciam estar só um pouquinho além e Frex se moveu, tão discretamente quanto possível, para ficar contra o vento. Acabou por sentar-se perto do quadling no banco.

“Então, tudo ficou claro para você?” Frex apontou um garfo para o mapa de Oz.

“Onde ficará a Cidade Esmeralda?” disse o quadling, ossos de peixe escapando por entre seus lábios.

“Bem no centro”, Frex disse.

“E lá está Ozma”, disse Coração de Tartaruga.

“Ozma, a imperatriz consagrada de Oz, ou algo assim”, disse Frex, “embora o Deus Inominável deva ser o rei de tudo, em nossos corações.”

“Como pode uma criatura sem nome reinar...” começou Coração de Tartaruga.

“Nada de teologia na hora do jantar”, interrompeu Melena, “é uma regra da casa que data do começo de nosso casamento, Coração de Tartaruga, e nós a obedecemos.”

“Além disso, eu guardo certa devoção a Lurline.” A Babá lançou o rosto na direção de Frex. “Gente velha como eu está autorizada a isso. Você conhece algo sobre Lurline, estrangeiro?”

Coração de Tartaruga balançou a cabeça.

“Se não pudermos conversar sobre teologia, tampouco conversaremos sobre essa porcaria de besteira pagã...” começou Frex, mas a Babá, sendo uma visita e invocando um toque de surdez quando lhe era conveniente, fez que não ouviu.

“Lurline é a Rainha das Fadas que voava sobre os secos desertos e pintalgava sobre eles a verde Terra de Oz. Ela deixou sua filha Ozma à frente do reino em sua ausência e prometeu retornar quando este vivesse sua hora mais difícil.”

“Hah!”, disse Frex.

“Sem essa de fazer hahs para mim.” A Babá fungou. “Tenho tanto direito às minhas crenças quanto você, Frexpar, o Santo, às suas. Pelo menos elas não me metem em confusão como as suas.”

“Bá, controle seu temperamento”, disse Melena, gostando da coisa.

“É disparate”, disse Frex. “Ozma reina na Cidade Esmeralda, e qualquer um que a tenha visto, ou visto pinturas dela, sabe que ela é de origem gillikinesa. Ela tem a mesma testa bem ampla, os dentes frontais ligeira-mente separados, o frisado de cabelo loiro crespo, as rápidas mudanças de humor ― geralmente para raiva. Tudo característico do povo de Gillikin. Você a viu, Melena, diga a ele.”

“Oh, ela é elegante a seu modo”, Melena admitiu.

“A filha de uma Rainha das Fadas?”, disse Coração de Tartaruga.

“Mais besteira”, disse Frex.

“Não é besteira!”, explodiu a Babá.

“Acham que ela renasce de si mesma indefinidamente, como uma fênix”, disse Frex. “Hah, hah e duplo hah. Decorreram trezentos anos de Ozmas muito diferentes. Ozma, a Mentirosa, era uma monja dedicada, que ditava regras, fazendo-as descer por um balde da câmara mais alta do quarto de um mosteiro. Ela era tão desvairada quanto um besouro jogado no chão. Ozma, a Guerreira, conquistou o Glikkus ao menos uma vez, e confiscou as esmeraldas com as quais decoraria a Cidade Esmeralda. Ozma, a Bibliotecária, nada fez senão ler genealogias pela vida toda. Então veio Ozma, a Pouco Adorada, que mantinha arminhos domesticados. Ela sobretaxou os fazendeiros para começar o sistema rodoviário dos tijolos amarelos que eles ainda lutam para completar, e boa sorte, é o que lhes digo.”

“Quem é Ozma agora?”, perguntou Coração de Tartaruga.

“Na verdade”, disse Melena, “eu tive o prazer de conhecer a Ozma mais recente numa temporada social na Cidade Esmeralda ― meu avô, o Eminente Thropp, tinha uma casa na cidade. No inverno em que completei quinze anos, eu debutei na sociedade de lá. Ela era Ozma, a Biliosa, por causa de um estômago doente. Ela era do tamanho de uma baleia branca de lago, mas se vestia belamente. Eu a vi com seu marido, Pastorius, no Festival de Canção e Sentimento de Oz.”

“Ela não é mais a Rainha?”, perguntou Coração de Tartaruga, confuso.

“Ela morreu num acidente infeliz envolvendo veneno de rato”, disse Frex.

“Morreu”, disse a Babá, “ou seu espírito foi de encontro ao de sua filha, Ozma Tippetarius.”

“A Ozma atual tem a mesma idade de Elphaba”, disse Melena, “assim, seu pai, Pastorius, é o Regente Ozma. O bom homem vai reinar até que Ozma Tippetarius tenha idade suficiente para assumir o trono.”

Coração de Tartaruga balançou a cabeça. Frex estava aborrecido porque tinham passado tempo demais conversando sobre o governo temporal e ignorado o reino eterno, e a Babá foi atacada por uma indigestão a qual todos lamentaram, para falar em termos olfativos.

De qualquer modo, mesmo estando irritado, Frex estava feliz por estar em casa. Por causa da beleza de Melena ― nessa noite, ela estava tão luminosa quanto o sol que deixava o céu ― e por causa da surpresa da presença de Coração de Tartaruga, sorrindo e sem autoconsciência perto dele. Talvez por causa do vácuo religioso de Coração de Tartaruga, que Frex considerava desafiador e atraente, quase tentador.

“Então há o dragão embaixo de Oz, numa caverna escondida”, a Babá estava dizendo para Coração de Tartaruga. “O dragão que sonhou este mundo, e que vai atear fogo nele quando despertar...”

“Pára com essa baboseira supersticiosa!”, gritou Frex.

Elphaba, de quatro pés, avançava pelas tábuas irregulares do assoalho. Ela arreganhava os dentes ― como se soubesse o que era um dragão, como se fingisse ser um ― e rugia. Sua pele verde a tornava ainda mais convincente, como se ela fosse uma filha de dragão. Ela rugiu novamente ― “Oh, querida, não”, disse Frex ― e fez xixi no chão, e cheirou sua urina com satisfação e repulsa.




BRINCADEIRA DE CRIANÇA

Numa tarde indo para o fim do verão, a Babá disse: “Um animal se aproxima. Eu o vi na penumbra várias vezes, escondido nas samambaias. Que espécie de criaturas são nativas dessas colinas, afinal?”.

“Você não vai achar nada maior que um geômio”, disse Melena. Elas estavam na beira do riacho, lavando roupa. A umidade da pequena prima-vera cessara havia tempo, e a seca outra vez pousava sua mão avara sobre a região. A corrente era apenas um magro fio de água. Elphaba, que não chegava perto da água, estava despindo um pé de pêra selvagem de sua safra mirrada. Ela se agarrava ao tronco com suas mãos e pés virados para fora, e erguia a cabeça, apanhando a fruta azeda com seus dentes, e então cuspia as sementes e o pedúnculo no chão.

“Esse a que me refiro é maior que um geômio”, disse a Babá. “Creia em mim. Vocês não têm ursos, não? Bem que podia ter sido um filhote de urso, embora se movesse com grande rapidez.”

“Não há ursos por aqui. Há boatos de que existem tigres da rocha no topo das colinas, mas me dizem que nenhum foi avistado em eras. E tigres da rocha são notoriamente ariscos e tímidos. Eles não se aproximam das moradas humanas.”

“Um lobo então? Não há lobos?” A Babá deixou o lençol cair na água. “Podia ter sido um lobo.”

“Bá, a senhora pensa que está no deserto. Pedras do Caminho é desolada, concordo, mas é domesticada e improdutiva para tudo isso. A senhora está me alarmando com sua conversa sobre lobo e tigre.”

Elphaba, que ainda não falava, fazia um rosnado surdo na cavidade de sua garganta.

“Não gosto disso”, disse a Babá. “Vamos parar e secar essas coisas lá na casa. Já bastou. Além disso, há outras coisas que eu quero lhe dizer. Vamos dar a criança para Coração de Tartaruga cuidar e ir para outro lugar.” Ela estremeceu. “Outro lugar mais seguro.”

“O que a senhora tem a dizer, pode dizer ao alcance de Elphaba”, disse Melena. “A senhora sabe que ela não entende uma só palavra.”

“Você confunde não falar com não ouvir”, disse a Babá. “Eu acho que ela entende plenamente.”

“Olhe, ela está lambuzando o pescoço com fruta, como se fosse uma colônia...”

“Como uma pintura de guerra, você quer dizer.”

“Oh, Bá teimosa, pare de ser boba e esfregue melhor esses lençóis. Estão imundos.”

“Eu nem preciso perguntar de quem é esse suor e esse vazamento...”

“Oh, não, a senhora não precisa perguntar, mas não venha me passar sermão...”

“Mas você sabe que Frex vai notar mais cedo ou mais tarde. Essas vigorosas sonecas da tarde que você tira ― bem, você sempre teve uma quedinha para o sujeito bem servido de salsicha e ovos cozidos...”

“Bá, vamos, isso não é de sua conta.”

“Tanto pior”, disse a Babá, suspirando. “Envelhecer não é mesmo uma tapeação cruel? Eu trocaria minhas tão penosamente conquistadas pérolas da sabedoria por uma boa brincadeirinha com o Tio Pau de Bandeira algum dia.”

Melena, de mão cheia, atirou água no rosto da Babá para fazê-la calar. Ela cegou e disse: “Bem, é seu terreno, plante nele o que escolher e colha o que resultar. Estou querendo é falar da criança, afinal”.

A menina estava agora acocorada atrás do pé de pêra, olhos apertados e fixos em alguma coisa a distância. Ela se parecia com uma esfinge, com uma besta mitológica de pedra, pensou Melena. Uma mosca chegou a pousar em seu rosto e caminhou sobre a ponta de seu nariz, e ela não se encolheu ou contorceu. Então, subitamente, saltou em direção a um objeto preciso, como um gato verde nu perseguindo uma borboleta invisível.

“Que a senhora quer dizer sobre ela?”

“Melena, ela precisa se acostumar com outras crianças. Ela começará a falar um pouquinho se vir que as outras crias estão falando.”

“Conversa entre crianças é um conceito superestimado.”

“Não seja precipitada. Você sabe que ela precisa se acostumar a outras pessoas que não nós. Ela nunca terá vida fácil por causa disso, a menos que se livre da pele verde conforme for crescendo. Ela precisa dos hábitos de conversação. Olhe, eu lhe dou tarefinhas para fazer, eu gorjeio cantigas infantis para ela. Melena, por que ela não responde como as outras crianças?”

“Ela é chata. Há crianças assim.”

“Ela devia ter seus bonecos para brincar. O senso de divertimento deles poderia contagiá-la.”

“Francamente, Frex não espera que uma filha dele se interesse por divertimento”, disse Melena. “O divertimento é levado a sério demais neste mundo, Bá. Eu concordo com ele nesse ponto.”

“Então, as suas enroscadas com Coração de Tartaruga são o quê: práticas de exercícios devocionais?”

“Eu lhe disse para não ser traiçoeira, por favor!” Melena fixava a atenção na toalha, batendo-a com aborrecimento. A Babá continuava com o assunto; ela tinha alguma coisa em mente. E havia posto o dedo na ferida, pois sob essa ferida se movimentava Coração de Tartaruga, entrando pelas sombras frias da casa quando Melena estava cansada de uma manhã de trabalho na horta. Ele a cobria com um senso de dever sagrado, e quando os dois tombavam ofegantes nos lençóis da cama, ela não atirava de lado apenas as roupas de baixo. Ela perdia seu senso de vergonha.

Sabia que a coisa não seguia a razão convencional. Apesar disso, se um tribunal de pastores unionistas a convocasse para um julgamento por adultério, ela contaria a verdade. De algum modo Coração de Tartaruga a salvara e restaurara seu senso de graça, de esperança no mundo. Sua crença na benevolência das coisas havia se espatifado quando a pequena e verde Elphaba virará um ser. A criança era uma punição extravagante por um pecado tão pequeno que ela nem mesmo sabia se o havia cometido.

Não fora o sexo que a salvara, embora o sexo fosse vigoroso, até assustador. O que a salvara foi Coração de Tartaruga não ter ficado corado quando Frex aparecera, foi ele não recuar diante da bestial pequena Elphaba. Ele se estabelecera no quintal ao lado, soprando vidro e labutando, como se a vida o tivesse trazido ali só para redimir Melena. Qualquer outro lugar para onde ele estivesse indo ficara esquecido.

“Muito bem, sua velha vaca intrometida”, disse Melena. “Em matéria de argumento, o que a senhora propõe?”

“Devemos levar Elfinha para Margens Agitadas e encontrar algumas crianças pequenas para brincar com ela.”

Melena caiu das pernas. “Mas a senhora deve estar brincando!”, ela gritou. “Lerda e deliberada como Elphaba é, aqui pelo menos está protegida! Eu posso não ser capaz de dar muito calor maternal, mas eu a alimento, Bá, e eu a impeço de ferir-se! Que cruel, impor o mundo exterior a ela! Uma criança verde será um convite aberto ao desprezo e a maus-tratos. E as crianças são mais malvadas que os adultos, elas não têm senso de restrição. Com esse raciocínio, seria o mesmo que jogá-la no lago, de que ela tem tanto medo.”

“Não, não, não”, disse a Babá, pondo suas mãos gordas sobre seus próprios joelhos; sua voz estava densa de determinação. “Agora eu vou discutir com você sobre isso, Melena, até que você ceda. O tempo, com sua sabedoria, vai aproximar você de meu modo de pensar. Me escute. Me escute. Você é apenas uma garotinha rica e mimada que saltou de aulas de música para aulas de dança com crianças da vizinhança igualmente riquinhas e estúpidas. É claro que há crueldade neste mundo.. Mas Elphaba deve aprender quem ela é e deve encarar a crueldade bem cedo. E haverá menos crueldade do que você pensa.”

“Não banque a Babá Santa comigo. Eu não vou entrar nessa.”

“A Babá não vai desistir”, disse ela, com a mesma ferocidade. “Tenho uma visão de longo alcance de sua felicidade bem como da dela, e creia, se você não lhe der as armas e armaduras com as quais se defender do desprezo, ela tornará sua vida tão infeliz como a dela infalivelmente será.”

“E ela aprenderá a ter armas e armaduras com os sujos diabretes de Margens Agitadas?”

“Zombaria. Divertimento. Caçoada. Sorriso.”

“Ora, por favor.”

“Eu não estou longe de chantagear você para esse fim, Melena”, disse a Babá. “Eu posso dar um pulo a Margens Agitadas nesta tarde e descobrir onde Frex está realizando a sua reunião de retorno e sussurrar umas palavrinhas a ele. Enquanto Frex estiver ocupado tentando despertar o ardor religioso dos preguiçosos de Margens Agitadas, será que não ficará interessado em saber o que sua esposa está fazendo com Coração de Tartaruga?”

“Você é uma miserável diaba velha! Você é uma vilã repulsiva e desleal!”, gritou Melena.

A Babá sorriu, orgulhosa. “Não passa de amanhã”, ela disse, “Vamos lá amanhã e faremos Elphaba começar a viver.”

Pela manhã um vento forte e implacável despencou a galope das alturas. Revolveu as velhas folhas e os restos das colheitas malogradas e dos pomares. A Babá jogou um xale sobre seus ombros redondos e pôs um gorro na cabeça. Seus olhos estavam cheios de animais pelos cantos; ela continuou se virando para ver se via algum felino furtivo ou uma raposa se dissolvendo em coágulos de folhas mortas e escombros.

A Babá achara um cajado de abrunheiro para ajudá-la a atravessar as pedras e buracos do caminho, mas ela contava estar preparada para brandi-lo contra alguma besta faminta. “A terra está seca e fria”, ela observou, quase que só para si mesma. “E tão pouca chuva! É claro que os animais selvagens sairão dos montes. Vamos caminhar juntas, nada de correr na minha frente, sua verdinha.”

Fizeram a marcha em silêncio: a Babá com medo, Melena com raiva de perder sua diversão das tardes e Elphaba como um brinquedo de corda, um pé solidamente em frente do outro. As margens do lago tinham recuado, e algumas das docas naturais eram agora caminhos sobre seixos e podridões secas, com as águas sendo empurradas para além de seu alcance.

A cabana de Gawnette era de pedra preta, com um telhado moldado de sapé. Por causa das cadeiras doentes, Gawnette não estava em forma para puxar as redes de pesca ou para se ajoelhar no trabalho nas desoladas hortas. Ela era dona de uma mistura de pequenas crianças em vários graus de nudez, de gritaria, aborrecimento e agitação, que se espalhavam num pequeno bando pelo quintal sujo. Ela olhou para a família do pastor, que se aproximava.

“Bom dia, e você deve ser Gawnette”, disse a Babá alegremente. Ela estava satisfeita por ter aberto o portão e ficado em segurança dentro do jardim, mesmo o dessa choça. “O irmão Frexpar disse que nós a encontra-ríamos aqui.”

“Doce Lurline, o que dizem é verdade!”, disse Gawnette, fazendo um sinal da cruz sobre Elphaba. “Pensei que eram mentiras maldosas, e aqui está ela!”

A criança tinha diminuído a marcha para andar. Havia ali meninos e meninas, de cara escura ou branca, todos imundos, todos ávidos por alguma novidade. Embora continuassem andando, brincando de algum jogo de resistência ou faz-de-conta, não tiravam os olhos de Elphaba.

“Você sabe que esta aqui é Melena ― claro que sabe ― e eu sou sua Babá”, disse. “Temos prazer em conhecê-la, Gawnette.” Ela deu uma olhada de esguelha para Melena e mordeu seu lábio superior, sorrindo.

“Muito prazer, sem dúvida”, disse Melena, rígida.

“E precisamos de algum conselho, pois você é bem recomendada”, disse a Babá. “A menininha tem problemas, e, por melhor que possamos pensar, não temos tido boas idéias.”

Gawnette inclinou-se um pouco mais, desconfiada.

“A criança é verde”, sussurrou a Babá confidencialmente. “Você pode não ter notado, distraída por seu encanto e sua simpatia. É claro que sabemos que o bom povo de Margens Agitadas não deixará que uma coisa dessas o incomode. Mas devido a ser verde, ela é tímida. Olhe para ela. Pequena tartaruga verde assustada. Precisamos desenvolvê-la, fazê-la feliz, e não sabemos como.”

“Ela é verde mesmo”, disse Gawnette. “Não admira o inútil irmão Frexpar ter-se afastado de sua pregação por tanto tempo!” Ela jogou sua cabeça para trás e disparou a rir rouca e grosseiramente. “E só agora tomou coragem de recomeçar! Bem, ele tem culhões de fato!”

“O irmão Frexpar”, interrompeu Melena friamente, “nos lembra as Escrituras: ‘Ninguém sabe a cor de uma alma’. Gawnette, ele sugeriu que eu lhe recordasse precisamente esse texto.”

“Não diga”, murmurou Gawnette, sentindo-se punida. “Bem, então, o que vocês querem comigo?”

“Que ela brinque, que ela aprenda, que ela venha aqui e seja orientada por você. Você sabe mais do que nós”, disse a Babá.

A astuciosa vaca velha, pensou Melena. Ela está tentando a mais rara das estratégias, contar a verdade e fazê-la parecer plausível. Elas se sentaram.

“Eu não sei se eles a aceitarão”, disse Gawnette, soltando-se um pouco. “E vocês sabem que minhas cadeiras não me deixam saltar e ir detê-los quando eles correm.”

“Veremos. E é claro que haverá alguma remuneração, um dinheirinho, Melena concorda totalmente”, disse a Babá. O pedaço de horta improdutivo tinha chamado a sua atenção. Aquilo era a pobreza. A Babá deu um empurrão em Elphaba. “Bem, vá, criança, e veja como é.”

A menina não se movia, não piscava. As crianças se aproximaram dela. Havia cinco meninos e duas meninas. “Que cãozinho feio!”, disse um dos meninos mais velhos. Ele tocou Elphaba no ombro.

“Brinque direito agora”, disse Melena, quase saltando, mas a Babá conteve a sua mão para dizer: “Fique sentada.”

“Pega, vamos pegar!”, disse o menino, “quem é a mosca verde?”

“Esta não, esta não!” As outras crianças gritaram e correram para tocar Elphaba com suas mãos, e então fugiram. Ela ficou parada por um momento, insegura, as próprias mãos pendidas e agarradas, e então correu alguns passos, e parou.

“É isso aí, exercício saudável”, disse a Babá, aprovando. “Gawnette, você é um gênio.”

“Conheço meus franguinhos”, disse Gawnette. “Não diga que eu não conheço.”

Como um rebanho, as crianças voltaram à carga, dando pegadinhas e depois se afastando, correndo, mas a menina não as seguiu. Assim, aproximaram-se dela de novo.

“É verdade que vocês tem um quadling imundo feito rã morando lá também?”, disse Gawnette. “É verdade que ele come apenas grama e esterco?”

“Que foi que disse?”, gritou Melena.

“É o que dizem por aí, é verdade?”, disse Gawnette.

“Ele é um bom homem.”

“Mas é um quadling?”

“Bem ― sim.”

“Não o traga aqui então, porque ele espalha uma praga”, disse Gawnette.

“Eles não espalham coisa alguma”, protestou Melena.

“Não joga, Elphabinha querida”, a Babá alertou.

“Eu digo apenas o que ouvi dizer. Dizem que de noite, quando os quadlings dormem, suas almas saem pelas bocas e vagam por aí.”

“Gente estúpida diz um monte de coisas estúpidas.” Melena foi rude e falou alto demais. “Eu nunca vi sua alma sair de sua boca enquanto ele dormia, e eu tive um monte de oportu...”

“Querida, nada de pedras”, gritou a Babá. “Nenhuma das outras crianças tem pedras na mão.”

“Agora elas têm”, observou Gawnette.

“Ele é a pessoa mais sensível que eu já conheci”, disse Melena.

“Sensível não é lá muita coisa para a mulher de um pescador”, disse Gawnette. “Como é que é para um pastor e para a mulher do pastor?”

“Agora apareceu sangue, que vexame”, disse a Babá. “Crianças, deixem a Elfinha de lado para que eu possa limpar o corte. E eu que não trouxe um pano. Gawnette?”

“Sangrar é bom para eles, tira um pouco a fome”, disse Gawnette. “Considero sensível uma coisa muito superior a estúpido”, disse Melena, fervendo.

“Sem morder”, disse Gawnette a um de seus menininhos, e, então, vendo Elphaba abrir a boca para retaliar, ergueu-se prontamente, com cadeiras doentes ou não, e berrou, “não morda, pelo amor de Deus!”

“Crianças não são mesmo divinas?”, disse a Babá.






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