Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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PRÓLOGO

NA ESTRADA DOS

TIJOLOS AMARELOS


A uma milha acima de Oz, a Bruxa se equilibrava à beira do vento, como se fosse uma partícula integrante da Terra, erguida e arremessada a distância pelo ar turbulento. Nuvens de tempestade brancas e roxas se amontoavam a seu redor. Lá embaixo, a Estrada dos Tijolos Amarelos se dobrava e encurvava, como um laço frouxo. Embora as tempestades de inverno e as ferramentas dos agitadores houvessem danificado a estrada, esta ainda conduzia, sem esmorecer, à Cidade Esmeralda. A Bruxa via os companheiros caminhando com dificuldade, contornando as partes tombadas, margeando valas, dando saltos quando o caminho se abria. Pareciam inconscientes de seu destino. Mas não cabia à Bruxa alertá-los.

Ela usou a vassoura como uma espécie de balaústre, descendo do céu feito um de seus macacos voadores. Com isso, acabou caindo no galho mais alto de um salgueiro escuro. Logo abaixo, ocultas pelos ramos, suas presas tinham parado para descansar. A Bruxa enfiou sua vassoura sob o braço. Rastejante e silenciosa, ela desceu ágil e prontamente, até que parou pouco acima deles. O vento agitava as gavinhas oscilantes da árvore. A Bruxa olhou e escutou.

As presas eram quatro. Ela viu uma enorme espécie de Gato ― era um Leão, não era? ― e um reluzente lenhador. O Homem de Lata estava tirando piolhos da juba do Leão, e o Leão grunhia e se contorcia com a irritação. Um Espantalho animado se recostava preguiçosamente ao lado, soprando cabecinhas de dentes-de-leão ao vento. Não se via a menina, escondida pelas cortinas ondulantes do salgueiro.

“Na certa, considerando o que dizem, é a irmã sobrevivente que ficou louca”, disse o Leão. “Que Bruxa! Psicologicamente deformada; possuída pelos demônios. Insana. Uma figura nada agradável.”

“Ela foi castrada ao nascer”, respondeu o Homem de Lata calma-mente. “Ela nasceu hermafrodita; ou talvez inteiramente masculina.”

“Ora, você vê castração por toda parte”, disse o Leão.

“Só repito o que o povo diz”, disse o Homem de Lata.

“Todo mundo tem direito a uma opinião”, disse o Leão, excitado. “Ela foi privada do amor da mãe, foi o que eu ouvi dizer. Foi uma criança mal-tratada. Ficou viciada em remédio por causa de sua pele.”

“Ela foi infeliz no amor”, disse o Homem de Lata, “tal como todos nós”. Fez uma pausa e pôs sua mão no meio do peito, como se estivesse aflito.

“Ela é uma mulher que prefere outras mulheres”, disse o Espantalho, sentando-se.

“Ela é a amante rejeitada de um homem casado.”

“Ela é um homem casado.”

A Bruxa ficou tão atordoada que quase soltou a mão que apertava o galho. A última coisa que a preocupava era fuxico. No entanto, ela ficara longe por tanto tempo que se espantou com as enérgicas opiniões daqueles sujeitinhos insignificantes.

“Ela é uma déspota. Uma tirana perigosa”, disse o Leão com convicção.

O Homem de Lata puxou um cacho da juba mais do que era necessário. “Tudo é perigoso para você, seu covarde. Ouvi dizer que ela é uma dona de casa exemplar para os famosos winkies.”

“Quem quer que ela seja, deve estar lamentando a morte de sua irmã”, disse a menina, numa voz sombria, carregada de significado e sincera demais para alguém tão jovem. A pele da Bruxa formigou.

“Não se meta a simpática agora. Eu não consigo.” O Homem de Lata suspirou, um pouco cinicamente.

“Mas, Dorothy está certa”, disse o Espantalho. “Ninguém escapa ao sofrimento.”

A Bruxa estava profundamente aborrecida com essas condescendências que lhe faziam. Ela se movia em torno do tronco da árvore, esticando-se para tentar enxergar a menina. O vento estava aumentando e o Espantalho tremia. Enquanto o Homem de Lata continuava a remexer nos cachos do Leão, ele se encostou no animal, que o abraçou ternamente. “Tempestade no horizonte”, disse o Espantalho.

A milhas de distância, trovões ecoavam. “Tem uma bruxa à vista!” disse o Homem de Lata, fazendo cócegas no Leão. O Leão ficou assustado e rolou sobre o Espantalho, choramingando, e o Homem de Lata desabou em cima dos dois.

“Bons amigos, vamos ter de nos prevenir contra essa tempestade!”, disse a menina.

Os ventos que se levantavam removeram por fim a cortina de folhagem, e a Bruxa pôde enxergar a menina. Ela estava agachada, com seus braços agarrados aos joelhos. Não era uma garota bonitinha, mas uma garota de fazenda de bom tamanho, vestida de xadrez azul e branco e avental. Em seu colo, um cãozinho comum se aninhava e gania.

“A tempestade faz você ficar desconfiada. É natural, depois do que passou”, disse o Homem de Lata. “Relaxe.”

Os dedos da Bruxa se cravaram na casca da árvore. Ela ainda não conseguia ver o rosto da menina, apenas seus fortes antebraços e o topo de sua cabeça, onde o cabelo negro estava arrumado em um rabo-de-cavalo. Ela tinha de levar a impressão a sério, ou era apenas uma semente de den-te-de-leão que fora soprada ao acaso e pega no lado errado do vento? Se pudesse ver o rosto da menina, a Bruxa sentia que saberia a resposta.

Mas, enquanto a Bruxa esticava o pescoço lá do tronco da árvore, a garota virava seu rosto, escapando. “A tempestade está chegando e vem rapidamente.” A apreensão em sua voz aumentava à medida que o vento rugia. Ela tinha uma veemência rouca, como alguém que argumentasse sob a ameaça de lágrimas iminentes. “Conheço tempestades, sei como elas pe-gam a gente!”

“Nós estamos a salvo aqui”, disse o Homem de Lata.

“Claro que não” respondeu a menina, “porque a árvore é o ponto mais elevado do lugar, e se o raio cair, vai cair bem aqui.” Ela agarrou seu cão. “A gente não viu um abrigo lá em cima na estrada? Vem, vem; Espantalho, se um raio cair, você vai queimar mais rápido que todo mundo! Vem!”

Ela já se pusera a correr, meio desajeitada, e seus companheiros a seguiam no pânico crescente. Quando os primeiros pingos firmes de chuva caíram, a Bruxa conseguiu ver não o rosto da menina, mas seus sapatos. Eram os sapatos de sua irmã. Eles reluziam, mesmo na tarde escura. Reluziam como diamantes amarelos, e brasas de sangue, e estrelas pontiagudas.

Se tivesse visto os sapatos primeiro, a Bruxa nunca teria podido ouvir a menina e seus amigos. Mas as pernas da menina tinham ficado enfiadas debaixo de sua blusa. Agora, a Bruxa se lembrava de sua necessidade. Os sapatos deviam pertencer a ela! ― ela não tinha durado o bastante, ela não os tinha ganhado? A Bruxa bem que gostaria de ter caído do céu direto na cabeça da menina, e brigado para tirar aqueles sapatos de seus pés impertinentes, se houvesse sido possível.

Mas a tempestade da qual os companheiros fugiam, cada vez mais depressa e para longe da Estrada dos Tijolos Amarelos, incomodava a Bruxa mais que o fizera com a menina que corria no meio da chuva e o Espanta-lho que poderia se queimar. A Bruxa não podia se aventurar num aguaceiro tão feroz e penetrante. Em vez disso, tinha de se espremer toda entre algumas raízes expostas do salgueiro negro, onde nenhuma água iria colocá-la em risco, e esperar a tempestade passar.

Ela ia renascer. Sempre que fora preciso, ela o conseguira. O punitivo clima político de Oz a tinha vencido, secado e expulsado ― como uma planta ela vagueara, aparentemente desidratada demais para formar raiz. Mas era certo que a maldição estava na Terra de Oz, não nela. Embora Oz lhe tivesse dado uma vida deformada, não a tinha tornado também muito engenhosa?

Não importava que os companheiros tivessem fugido. A Bruxa podia esperar. Eles acabariam se reencontrando.






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