Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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“Eu não posso ressuscitá-lo”, disse Elphaba, “Eu não posso! Eu não tenho aptidão para a feitiçaria! Eu nunca tive! Foi tudo uma tola armação de Madame Morrible, que eu rejeitei!” As seis irmãs olharam para ela de esguelha.

Irji escoltou a Babá até a cozinha, Nor trouxe a vassoura, Manek trouxe o Livro das Sombras, e as irmãs e Sarima trouxeram o corpo de Liir, gote­jante e inchado, e estenderam-no na tábua do abatedouro. “Oh, agora, quem é este?”, a Babá se espantou, mas começou a trabalhar bombeando as pernas e os braços, e pôs Sarima para pressionar o abdômen.

Elphaba folheou rapidamente o Livro das Sombras, contorceu seu rosto e bateu nas próprias têmporas com seus pulsos, e lastimou: “Mas eu não te­nho experiência pessoal com uma alma ― como vou encontrar a dele se nem sei com que uma alma se parece?”

“Ele está mesmo mais gordo que de costume”, disse Irji.

“Se você furar os olhos dele com uma palha mágica da vassoura mágica, a alma retornará”, disse Manek.

“Eu me pergunto por que será que ele entrou no poço dos peixes?”, disse Nor. “Eu nunca entraria.”

“Santa Lurlina, tende misericórdia, misericórdia!”, disse Sarima, cho­rando, e as irmãs começaram a murmurar o ofício dos mortos, louvando o Deus Inominável pela vida que partira.

“A Babá não pode fazer tudo”, disse asperamente a Babá, “Elphaba, dê uma ajuda! Você é igualzinha à sua mãe quando acontece uma crise! Ponha a sua boca na dele e sopre ar dentro dos pulmões do menino! Vamos!”

Elphaba enxugou a umidade do rosto pastoso de Liir com a borda da manga de sua blusa. O rosto se fixava no ponto para onde era empurrado. Ela fez uma careta, e cuspiu alguma coisa dentro de um balde, e então afundou a sua boca na boca da criança, e respirou fundo, empurrando pela passagem azeda seu próprio ar azedo. Seus dedos se enrijeceram, agarrados nos lados da tábua do abatedouro, arrancando lascas, como se ela estivesse num êxtase de tensão sexual. Chistérico respirava junto com ela, golfada após golfada.

“Ele cheira como peixe”, Nor disse, respirando fundo.

“É com isso que você se parece quando se afoga, eu preferiria queimar até morrer”, disse Irji.

“Eu simplesmente não vou morrer”, Manek disse, “e ninguém vai me fazer mudar de idéia.”

O corpo de Liir começou a dar sinais de sufocamento. Pensaram a prin­cípio que era uma reação involuntária, o ar da boca de Elphaba engolido e de novo expelido, e saiu uma pequena corrente de alguma coisa repugnante amarelada. Então, as pálpebras do menino se moveram, e sua boca se mexeu por vontade própria.

“Oh, misericórdia”, Sarima murmurou. “É um milagre. Obrigada, Lur­lina! Abençoada seja!”

“Não saímos da encrenca ainda”, disse a Babá. “Ele ainda pode morrer de frio. Rápido, tirem as roupas dele.”

As crianças observaram a tola indignação das mulheres adultas arrancando as estúpidas calças e a túnica de Liir. Elas esfregaram banha de porco no corpo todo do menino. Isso deu às crianças um pretexto para risadinhas abafadas, e fez com que Irji se sentisse muito cômico em suas calças, pela primeira vez em sua vida. Então, envolveram Liir num cobertor de lã, o que gerou uma grande bagunça, e prepararam-se para pô-lo na cama.

“Onde ele dorme?”, disse Sarima.

Todos se entreolharam. As irmãs olharam para Elphaba, e Elphaba olhou para as crianças. “Oh, às vezes no chão do nosso quarto, às vezes no chão do quarto da Nor”, disse Manek.

“Ele quer dormir na minha cama também, mas eu o empurro pra fora”, disse Nor. “Ele é gordo demais, não sobraria lugar para mim e para as minhas bonecas.”

“Ele não tem nem mesmo uma cama?”, Sarima friamente perguntou a Elphaba.

“Bem, não me pergunte, esta é a sua casa”, disse Elfinha.

E Liir se agitou de algum modo, e disse: “O peixe falou comigo. Eu falei com o peixe. O peixe dourado falou comigo. Ela disse que era...”

“Quieto, pequenino”, disse a Babá, “vai ter tempo pra isso mais tarde.” Ela lançou um olhar feroz para as mulheres e as crianças na cozinha. “Bem, não seria preciso chamar a Babá para achar para ele uma cama apropriada, mas se não há mais nenhuma para ele, o menino pode subir para o meu quarto, e eu dormirei no chão!”

“Claro que não, mas que idéia”, começou Sarima, agitando-se.

“Bárbaras, vocês todas!”, gritou a Babá.

Pelo que ninguém em Kiamo Ko jamais conseguiu perdoá-la.

Sarima repreendeu a Titia Hóspede severamente pelo que aconteceu com Liir. Elphaba tentou dizer que isso não fora causado por ela, não era culpa sua. “Foi brincadeira de algum menino, algum jogo, alguma provocação”, ela disse. Suas acusações passaram, e elas começaram a conversar sobre as diferenças entre meninos e meninas.

Sarima contou à Titia Hóspede o que ela sabia sobre o rito de inicia­ção dos meninos na tribo. “Eles são levados para as pastagens, e deixados lá com nada senão uma tanga e um instrumento musical. Exige-se que eles invoquem os espíritos e os animais dentro da noite, para conversar com eles, para aprender com eles, para acalmá-los se precisam de paz, para lutar com eles se precisam de luta. O menino que morre à noite dá prova clara de falta de discernimento para decidir se a sua companhia precisa de luta ou de paz. Então, é correto que ele morra jovem e não seja um peso para a tribo com a sua estupidez.”

“O que os meninos dizem dos espíritos que se aproximam deles?”, per­guntou a Titia Hóspede.

“Os meninos falam muito pouco, especialmente sobre o mundo dos espíritos”, ela respondeu. “Contudo, você colhe o que dá para colher. E eu acho que alguns espíritos são muito pacientes, muito desgastantes, muito obstinados. A sabedoria supõe que deveria haver conflito, hostilidade, bata­lha, mas eu penso cá comigo se, em contato com os espíritos, os meninos não precisariam era de uma boa ajuda de raiva fria.”

“Raiva fria?”

“Oh, sim, você não conhece a distinção? As mães tribais sempre dizem a seus filhos que há duas espécies de raiva: a quente e a fria. Meninos e meninas experimentam as duas, mas, à medida que crescem, as raivas se separam de acordo com o sexo. Os meninos precisam de raiva quente para sobreviver. Eles precisam da inclinação para lutar, o impulso para enfiar a faca na carne, a energia e a iniciativa da fúria. É uma exigência de caça, de defesa, de orgulho. Talvez de sexo, também.”

“Sim, eu sei”, disse Elphaba, relembrando.

Sarima ficou ruborizada e pareceu infeliz, e continuou: “E as meninas precisam de raiva fria. Elas precisam da fervura branda, do ressentimento constante, do talento para evitar a absolvição, para evitar o compromisso. Elas precisam saber quando dizer alguma coisa da qual nunca, nunca irão voltar atrás. É a compensação para uma liberdade de ação menor no mundo. Cruze o caminho de um homem e você lutará, um de vocês vencerá, haverá um ajuste e uma continuidade ― ou você ficará lá, morto. Cruze o caminho de uma mulher e o universo mudou, mais uma vez, pois a raiva fria exige uma eterna vigilância em todos os aspectos da desfeita e da ofensa”. Ela olhou ferozmente para Elphaba, alfinetando-a com acusações não exprimidas sobre Fiyero, sobre Liir.

Elphaba refletiu sobre isso. Ela pensou na raiva quente e na raiva fria, e se era dividida entre os sexos, e qual ela sentia, se sentira as duas, se alguma vez as tinha sentido. Pensou na sua mãe que morrera jovem, e em seu pai com suas obsessões. Ela pensou na raiva que o Doutor Dillamond tinha sentido ― uma raiva que o levara ao estudo e à pesquisa. Pensou na raiva que Madame Morrible mal podia disfarçar, quando tentava seduzir as garotas do colégio para entrar no serviço secreto do governo.

Ela sentou-se e pensou nisso na manhã seguinte enquanto observava o sol aumentar em intensidade e brilhar, vitorioso, sobre os montes de neve nos salpicados telhados logo abaixo. Ela observava o sol sangrar a água do gelo da geleira. Calor e frio trabalhando juntos para formar uma geleira. Calor e raiva fria trabalhando juntos para fazer uma fúria, uma fúria digna o bastante para que fosse usada como uma arma contra as velhas coisas que ainda precisavam ser combatidas.

De uma certa forma ― sem nenhum meio de prová-la, naturalmente ―, ela sempre se sentira capaz de raiva quente quanto qualquer homem. Mas, para ser bem-sucedido, é preciso ter acesso às duas formas...

Liir sobreviveu, mas Manek não. A geleira sobre a qual Elphaba treinou seu olhar afiado, pensando nas armas que eram necessárias para enfrentar tal abuso ― partiu-se feito uma lança a partir do beiral, e caiu zunindo, atingindo o crânio do menino quando ele saiu para procurar algum novo meio de fazer mal a Liir.




REBELIÕES

1

Eles estão te chamando de bruxa, você sabe?”, disse a Babá. “Agora, por que será que fazem isso?”

“Bobeira e estupidez”, disse Elphaba. “Quando eu cheguei, me sentia distanciada do meu nome depois dos meus anos no monastério, quando eu era chamada de Irmã Santa Elphaba. Elphaba parecia o nome de alguém que desaparecera havia muitos anos. Pedi que me chamassem de Titia. Embora eu nunca tivesse sentido vontade de ser a Titia de ninguém, nem soubesse como isso era. Nunca tive tias ou tios.”

“Hmmm”, disse a Babá, “eu não acho que você tenha muito de uma bruxa. Sua mãe ficaria escandalizada, Deus guarde a sua alma. Seu pai também.”

Elas estavam caminhando no pomar de maçãs. Uma nuvem de flores deixava o ar repleto de perfume. As abelhas da Bruxa estavam tendo um dia de festa, zumbindo com força. Matalegria sentou-se, sacudindo a cauda, à sombra da pedra tumular de Manek, erguida junto ao muro. Os corvos se revezavam em corridas pelo ar, espantando todos os outros pássaros, à exceção das águias. Irji e Nor e Liir, por insistência da Babá, foram levados à escola da aldeia. Kiamo Ko ficava numa bem-aventurada tranqüilidade até o meio-dia.

A Babá tinha setenta e oito anos. Ela caminhava com uma bengala. Não desistira de seus pequenos esforços no sentido de se embelezar, embora agora eles parecessem mais arruiná-la que dignificá-la. Seu pó-de-arroz era espesso demais, o rubro de seus lábios manchava e ficava fora de lugar, e o frágil xale rendado era inútil devido às características do vale. Por seu lado, a Babá achava que Elphaba estava com uma aparência ruim, como se seu formato estivesse às avessas. Pálida. Uma desintegração de adoentada. Ela parecia não se importar nem um pouco com seu belo cabelo, mantendo-o escondido lá no alto, debaixo daquele chapéu ridículo. E o seu roupão negro bem que andava precisando de uma lavagem e secagem.

Elas se detiveram junto a um muro torto e se encostaram nele. As irmãs os estavam colhendo flores a uns poucos campos mais além, e Sarima, inchada como um balão, as acompanhava. Em seu escuro roupão de luto, ela lembrava um enorme perigoso casulo que se desprendera de seu suporte. Era bom ouvir sua risada novamente, mesmo que fosse falsa; a luz tinha esse estranho efeito purificador sobre todo mundo, mesmo sobre Elphaba.

A Babá contara a Elfinha sobre a sua família. O Eminente Thropp finalmente morrera. Na ausência de Elphaba, que todos supunham morta, o manto de Eminência ficara para Nessarose. Assim, a irmã mais nova esta­va agora confinada em Solos de Colwen, emitindo declarações dogmáticas sobre fé e culpa. Frex estava lá com ela também, sua carreira de pastor quase pelo fim. À medida que ele desistia dos esforços, sua mente ia recuperando o equilíbrio. Shell? Ele vinha e voltava. Abundavam boatos de que se tornara um agitador na luta da terra de Munchkin para separar-se de Oz. Ele crescera bonito e bem, na suspeita opinião da Babá: membros saudáveis, pele clara, fala direta, bom coração. Estava agora nas primícias dos vinte anos.

“E o que Nessarose pensa da secessão?”, Elfinha tinha perguntado. “Sua opinião sobre isso será importante, agora que ela é a Eminente Thropp.”

A Babá relatou que Nessarose se tornara muito mais inteligente do que qualquer um previra. Ela mantinha cartas na manga e emitia vagas de­clarações sobre a causa revolucionária, declarações que poderiam ser lidas de vários modos, dependendo do público. A Babá dava como certo que Nessa­rose tinha a intenção de construir alguma espécie de teocracia, incorporando às leis governamentais da terra de Munchkin sua restritiva interpretação do unionismo. “Seu próprio santo pai não sabe se isso será bom ou ruim, e faz silêncio a respeito do assunto. Ele não é muito dado à política, ele prefere o reino místico.” Havia, segundo a Babá observara, até um certo apoio aos planos de Nessarose entre os nativos. Mas, como Nessarose controlava bem as suas observações, as forças armadas do Mágico que tinham guarnição na área não encontravam pretexto para prendê-la. “Ela é perita, uma verdadeira adepta, nisso. Shiz a ensinou bem. Anda muito bem com os próprios pés, agora.”

Essas palavras causaram arrepios na espinha de Elphaba. Estaria Nessa­rose bem agora capitulando a alguma espécie de feitiço que Madame Morrible lançara sobre ela, naqueles nebulosos anos atrás na sala de Crage Hall? Seria ela na verdade um peão de xadrez, uma Adepta do Mágico ou de Madame Morrible? Será que ela sabia por que fazia o que fazia? Nesse aspecto, não seria ela mesma, Elphaba, nada além da peça do jogo de um poder maior e maléfico?

A recordação das propostas de Madame Morrible para as suas carreiras ― dela, de Nessarose e de Glinda ― voltara à memória de Elfinha com um choque que viera depois da recuperação de Liir de sua extenuação e quase afogamento no inverno anterior. Quando o menino se refizera o suficiente para responder a perguntas sobre como fora parar no fundo do poço dos pei­xes, ele só conseguira dizer: “O peixe falou comigo, ela me disse para descer”. Elfinha sabia no coração que fora Manek, o horrivelmente maldoso Manek, que torturara o menino implacável e abertamente o inverno todo. Ela não se importava com o fato de ele haver morrido, mesmo sendo o filho precioso de Fiyero. Qualquer torturador era fichinha para geleiras bem afiadas. Mas ela tivera de parar para pensar, engolindo seco, com o que Liir lhe dissera depois. Ele dissera: “O peixe me contou que ele era mágico. Ele disse que Fiyero era meu pai, e que Irji e Manek e Nor são meus irmãos e minha irmã.”

“Peixe dourado não fala, meu doce”, Sarima disse. “Você está imagi­nando coisas. Você ficou lá em baixo tempo demais e seu cérebro se encheu de água.”

Elphaba ficara ansiosa em relação a Liir, uma estranha, infeliz com­pulsão. Quem era esse menino que vivia ao seu lado? Oh, ela sabia mais ou menos de onde ele viera, mas quem ele era ― parecia fazer uma diferença, pela primeira vez em sua vida. Ela se aproximara e colocara a mão em seu ombro. Ele a tirara dali; não estava acostumado com um tal gesto. E ela se sentira rejeitada.

“Quer ver meu rato de estimação, Liir?”, disse Nor, que fora calorosa com o menino durante a sua convalescença. Liir sempre escolhia a compa­nhia de seus pares, alheio ao questionamento dos adultos, e fora impossível arrancar dele informações sobre sua experiência penosa. Ele não parecia mui­to mudado, exceto pelo fato de que, com Manek morto, podia vaguear por Kiamo Ko com maior animação e liberdade.

E Sarima olhara para Elphaba, e Elphaba pensara que a hora de sua libertação estava por perto, enfim. “Que bobagem desse menino, ele é decep­cionante”, Sarima dissera por fim. “A idéia de Fiyero ser seu pai. Fiyero não tinha um grama de gordura em seu corpo, e olhe só para esse menino.”

Debaixo das condições que ela estabelecera para a sua hospedagem, Elphaba não podia forçar Sarima a mudar de opinião, mas ela olhou fixo para a sua anfitriã, desejando que ela aceitasse os fatos. Mas ela não aceitara. “E quem poderia ser a mãe?”, disse Sarima brandamente, tocando a bainha de sua saia com suavidade. “É um absurdo além de todas as palavras.”

Pela primeira vez, Elfinha desejou que Liir tivesse ao menos uma su­gestão de verde em sua pele.

Sarima se retirara, para chorar na sua capela pelo seu marido, pelo seu segundo filho.

E os termos do aprisionamento de Elfinha ― como uma traidora inde­sejável, como uma monja exilada, como uma mãe infeliz, como uma rebelde fracassada, como uma Bruxa disfarçada ― permaneceram imutáveis.

Mas a idéia de um Peixe Dourado ou uma Carpa no poço de peixes revelando aquelas coisas para Liir ― havia qualquer possibilidade de uma coisa dessas? Ou teria Madame Morrible a habilidade de mudar de forma, de viver na escuridão fria, de deslizar por ali e observar o que Elphaba fazia? Liir não tinha imaginação para falar de tal coisa, ele não poderia ter chegado àquilo sozinho. Poderia?

Quando ela fora olhar no poço de peixes, muitas vezes em todas as horas do dia ou da noite, a velha carpa ― ou Carpa ― estava fora de vista.

“Estou contente por saber que Nessarose anda com seus próprios pés”, disse Elphaba por fim, voltando do mundo de suas reflexões para a realidade do pomar. A Babá estava roendo um pedaço de açúcar-cande.

“Eu disse isso literalmente, você sabe”, disse a Babá no meio de sua saliva. “Ela não precisa mais ser carregada. Nem figurativa nem literalmente. Ela consegue ficar em pé sozinha, firmar-se e sentar-se.”

“Sem a ajuda dos braços? Eu não acredito nisso”, disse a Bruxa.

“Você terá de acreditar. Você se lembra daquele par de sapatos que Frex enfeitou para ela?”

Claro que Elphaba se lembrava! Os belos sapatos! O sinal da devoção de seu pai à sua segunda filha, de seu desejo de realçar a sua beleza e afastar as atenções que se voltassem sobre a sua deformidade.

“Bem, a velha Glinda dos Arduennas, lembra-se dela? Casada com Sir Chuffrey, e fracassada, na minha humilde opinião. Ela veio a Solos de Colwen há alguns anos. Ela e Nessarose passaram ótimas horas matando as saudades, recordando os tempos de colégio. E ela calçou justamente aqueles sapatos como numa espécie de encantamento. Não me pergunte nada. A magia nunca foi minha praia. Os sapatos permitiram a Nessarose sentar-se, firmar-se em pé e caminhar sem apoio. Ela nunca fica sem eles. Ela afirma que eles lhe transmitem virtudes morais também, mas então acho que desse artigo ela tem mais do que precisa. Você ficaria surpresa ao ver como os munchkineses deram para ficar supersticiosos, ultimamente.” A Babá suspirou. “Foi por isso que fiquei livre para sair à procura de você, queridinha. Os sapatos mágicos me tornaram redundante. A Babá ficou sem emprego.”

“Você é velha demais para trabalhar, fique sentada e aproveite o sol”, disse Elphaba. “Pode ficar por aqui quanto tempo quiser.”

“Você fala como se esta fosse a sua casa”, disse a Babá. “Como se você tivesse o direito de fazer tais convites.”

“Até que eu possa partir, esta é a minha casa”, disse Elfinha. “Não posso evitar.”

A Babá entrefechou os olhos e olhou para o alto das montanhas, que à luz do meio-dia parecia um chifre polido. “Essa é muito boa, pensar em você como uma Bruxa, de uma certa maneira, e em sua irmã tentando se estabelecer como Santa residente. Quem teria pensado numa coisa dessas, lá naqueles anos lamacentos nos pântanos de Quadling? Não acredito que você seja uma bruxa, não importa o que você diga. Mas uma coisa eu quero saber. Liir é seu filho?”

Elphaba tremeu, embora seu coração, no mais profundo de sua reserva de frieza, manifestasse desgosto com energia quente. “Não é uma pergunta que eu possa responder”, ela disse, tristemente.

“Você não precisa esconder nada de mim, queridinha. Lembre-se, a Babá foi enfermeira e confidente de sua mãe também, e uma mulher mais sociável e sensual que ela estou ainda por encontrar. As convenções não a prendiam, nem na juventude nem depois de casada.”

“Eu não acho que queira saber dessas coisas”, disse Elfinha.

“Então, vamos falar de Liir. Que diabos quer você dizer, afirmando que não pode responder a uma pergunta tão simples quanto essa? Ou você o concebeu e pariu, ou não. Por tudo que sei deste mundo, não há outras histórias.”

“O que quero dizer”, disse Elphaba, “e a única observação que farei so­bre isso é esta. Quando eu cheguei ao monastério, sob os bons serviços da Mãe Yackle, eu não estava em condições de saber o que estava acontecendo comigo, e passei quase um ano num sono de morta. É bem possível que eu tenha levado um filho comigo e dado à luz. Eu era outra doente com um ano inteiro para recuperação. Assim que assumi meus deveres, trabalhei com os enfermos e os moribundos, e também com as crianças abandonadas. Eu não tinha mais relações com Liir que com qualquer outra daquelas dúzias de pirralhos. Quando deixei o monastério para vir para cá, foi sob a condição de que traria Liir comigo. Eu não questionei a ordem ― não se questiona as ordens de superiores. Eu não tenho calor maternal com relação ao menino” ― ela engoliu, para caso isso não fosse mais verdade ― “e eu não sinto que te­nha passado pela experiência de parir uma criança. Eu não acredito que seja completamente capaz disso, na verdade, embora eu esteja disposta a admitir que seja simplesmente ignorância e cegueira de minha parte. Mas isso é tudo que posso dizer a respeito. Não direi mais, nem você o fará.”

“Você tem uma obrigação de ser maternal com ele então, a despeito do mistério?”

“As únicas obrigações a que me sujeito são aquelas que escolho para mim mesma. E isso, Bá, é isso.”

“Você está muito ácida, essa situação a deixa infeliz. Mas, se acha que vim para cá para criar outra geração de Thropps, esqueça. A Babá está em seu período senil agora, lembre-se, e feliz assim.”

Mas Elphaba não pôde deixar de notar nas semanas seguintes que a Babá começou a satisfazer às necessidades de Liir de modo mais afetuoso que aquele com que tratava Nor e Irji. Elphaba registrou o fato com vergo­nha, pois ela também viu como Liir respondeu à atenção da Babá com boa vontade.

Ao contar episódios das façanhas de Shell ― seu velho coração vivaz palpitando quase visivelmente debaixo de seu peito ― a Babá revelou detalhes das campanhas do Mágico. Isso deixou Elphaba furiosa, pois até aí vinha mantendo a esperança de perder o interesse pelas ações dos homens maus.


* * *

A Babá fuxicou sobre o Mágico haver montado uma nova espécie de acampamento para a juventude, o Jardim do Imperador ― uma bela, eufe­mística denominação. Todas as crianças munchkinesas de quatro a dez anos foram obrigadas a aderir, em residências por um mês de verão. As crianças prestavam juramento de segredo ― um grande jogo para elas, sem dúvida. A Babá contou uma história cheia de longos desdobramentos, mais apropria­da para velhas desdentadas sentadas em volta de uma lareira que para uma mesa de jantar com eretas e reprimidas solteironas arjikis, de como Shell, o querido desconhecido irmão Shell, se disfarçou como um vendedor de batatas fazendo entregas. E atravessou os portões. Oh, as muitas aventuras divertidas de um libertino! A filha adolescente do General do Acampamento num roupão, os inventivos álibis de Shell, seus flertes, suas escapadas por um triz! Quase sendo descoberto em suas relações ― por crianças! Que farra! A Babá permanecia, no fundo, uma velha camponesa bocuda, apesar de seus ares de importância. Elphaba pensava: Ela mal compreende que está falando de doutrinação, traição, recrutamento forçado de crianças numa guerra de baixo nível. Com a recém-descoberta preocupação quanto ao fato de Liir estar ainda pairando nos limiares da vida, movendo-se desajeitada e afetuosamente através de seus dias, ela achava essas histórias de crianças doutrinadas hor­ríveis e repugnantes.

Ela foi ao Livro das Sombras e escancarou sua capa maciça ― ornamen­tada de couro com argolas de cadeado e pregadores dourados, revestida de lâmina de prata ― e examinou os tomos para encontrar o que torna as pessoas sedentas por tanta autoridade e força. Seria a crua natureza da besta interior, o animal humano dentro do Ser Humano?

Ela procurou uma receita para derrubar um regime. Encontrou muita coisa sobre poder e destruição, mas pouco sobre estratégia.

O Livro das Sombras descrevia o envenenamento dos lábios que se aproximam dos copos, o enfeitiçamento dos degraus de uma escada para fazê-los vergar, a incitação de um cãozinho de estimação de um monarca para que desse uma mordida num lugar indesejável. Sugeria a inserção noturna, através de qualquer orifício apropriado, de uma invenção demoníaca, um fio parecido a uma corda de piano, em parte tênia em parte estopim aceso, para causar uma morte particularmente dolorosa. Tudo isso parecia de um ilusionismo carnavalesco para Elphaba. O que era mais interessante, em seu entender, era um pequeno desenho que ela vira perto de uma seção denomi­nada Características do Demônio. O desenho ― feito, a acreditar na crédula Sarima, num outro mundo ― era um esboço inteligente de uma mulher-de­mônio de rosto cheio. Manuscritas de modo angular, cheio de ramificações, com elegantes serifas afuniladas, estavam as palavras UIVO DO CHACAL. Elphaba olhou novamente. Ela viu uma criatura em parte mulher, em parte chacal dos campos, suas mandíbulas arreganhadas, suas garras dianteiras erguidas para dilacerar o coração que saía de uma teia de aranha. E a criatura fazia com que ela lembrasse da velha Mãe Yackle do monastério.

Teorias de conspiração, como Sarima dissera, pareciam assombrar seus pensamentos. Ela virou a página.

Não havia nada no Livro das Sombras sobre como derrubar um tirano ― nada que fosse útil. Legiões de anjos superiores não eram coisas que pu­dessem lhe dar respostas. Não havia naquelas páginas nada que descrevesse por que homens e mulheres podiam ser tão horríveis. Ou tão maravilhosos ― se é que esta alternativa ainda pudesse ocorrer.

2
Na verdade, a família fora devastada pela morte de Manek. Havia um sentimento não confessado de que a vida de Liir, de algum modo, fora salva ao custo da vida de Manek. As irmãs tinham sofrido a mais temida das perdas: o roubo do Manek adulto de suas vidas. Seu triste fardo fora supor­tável nesses anos todos porque Manek iria ser o homem que Fiyero fora, e talvez até mais. Elas perceberam em retrospecto que tinham tido a esperança de que Manek recuperasse as glórias perdidas de Kiamo Ko.

O fraco Irji não tinha mais senso de destino que um cão da pradaria. E Nor era uma menina, mais frívola e distraída que estas costumam ser. Assim, Sarima, debaixo de seus gestos extasiados de aceitação da vida (suas alegrias, suas dores, seus mistérios, tal como ela gostava de fantasiar), ficou ainda mais alheia. Nunca fora chegada às suas irmãs, e agora começara a tomar suas refeições sozinha no Solar.

Irji e Nor, que tinham gostado de unirem-se de tempos em tempos numa espécie de aliança contra a maldade dominadora de Manek, tinham agora menos coisas a uni-los. Irji começou a vagar pela velha capela unionista, ensinando-se a ler melhor pelo estudo de mofados hinários e breviários. Nor não gostava da capela ― ela achava que o fantasma de Manek permanecera lá, já que fora lá o último lugar em que ela vira o corpo do menino numa mortalha descoberta ― então, tentou se engraçar com a Titia Bruxa ― mas sem proveito. “Você é dada a fazer mal ao Chistérico”, protestou Elfinha, “e eu tenho mais que fazer. Vai encher o saco de outro.” Ela simulou dar um pontapé em Nor, que, choramingando e gritando como se este houvesse de fato a atingido, foi embora apavorada.

Nor dera para vagar ― agora que o verão se aproximava ― pelo vale elevado, aquele com o rio em sua base ― e subia pelo outro lado, onde as ovelhas pastavam a melhor grama que teriam no ano todo. No passado, teria ido para lá na companhia dos irmãos, ou teria sido proibida de fazer a esca­lada sozinha. Mas, nesse ano, ninguém estava prestando atenção a ela para proibi-la de nada. Ela não se importaria de sofrer uma proibição, não teria nem mesmo se incomodado com uma correia que a prendesse. Andava se sentindo solitária.

Um dia ela vagou para pontos particularmente distantes do vale, delei­tando-se com a força e a resistência de suas pernas fortes. Ela tinha apenas dez anos, mas eram dez anos robustos, maduros. Ela erguera a sua saia verde até a cintura, e porque o sol estava a pino e forte, tirara a sua blusa e a amar­rara como uma tiara em sua cabeça. Ela mal estufava seu peito aqui e ali para espantar alguma ovelha, e, de qualquer modo, esperava poder avistar um pastor a milhas de distância.

Como foi que, de todos os lugares de Oz, eu vim parar logo aqui, ela se perguntava, pisando no terreno da reflexão como uma novata. Aqui estou eu, uma menina numa montanha, nada além de vento e ovelhas e relva semelhan­te a um prado esmeralda, verde e dourado como os enfeites de Lurlinemas, sedoso por cima, tosco por baixo. Só eu e o sol e o vento. E aquele grupo de soldados vindo por detrás das rochas. Ela recuou e se abaixou na relva, recolocou a sua blusa, e se apoiou nos cotovelos, escondendo-se.

Não eram soldados como aqueles que ela já tinha visto. Não eram ho­mens arjikis em seus uniformes e capacetes cerimoniais, com suas lanças e escudos. Esses eram homens em uniformes e boinas marrons, com mosquetes ou coisas parecidas pendurados em seus ombros. Usavam um tipo de bota mais ou menos alto e impróprio para caminhadas pelos montes, e quando um deles parou e se pôs a perder tempo com um prego ou uma pedra em sua bota, seu braço desapareceu nela até a altura do cotovelo.

Havia uma listra verde na frente de seus uniformes, e uma barra a cru­zava, e Nor sentiu-se esfriar com um desconhecido senso de premonição. Ao mesmo tempo ela queria ser vista. O que Manek teria feito?, ela se pergun­tava. Irji fugiria, Liir ficaria espantado e tremeria, mas, Manek? Manek teria marchado na direção deles e descoberto o que estava acontecendo.

E ela assim faria. Examinou a blusa novamente para se certificar de que seus botões estavam fechados, e foi descendo o penhasco em passadas largas na direção dos homens. Quando ela conseguiu toda a atenção deles, e o ho­mem que tirara a bota já a tinha recolocado, começou a repensar a sensatez de seu plano. Mas era tarde demais para fugir agora.

“Salve”, ela disse de um modo formal, usando a linguagem do leste, não seu próprio vernáculo arjiki. “Salve e alto. Eu sou a Princesa Filha dos Arjikis, e isto em que vocês estão pisando com suas grandes botas pretas é o meu vale.”

Era meio-dia alto quando ela os conduziu para dentro dos domínios do castelo de Kiamo Ko. As irmãs estavam em seu pátio de lavar roupas no verão, batendo tapetes elas mesmas porque não confiavam que as lavadeiras nativas tratassem-nos com o devido cuidado. O som de botas a ressoar nas pedras fez as irmãs correrem por uma arcada, todas ruborizadas e empoeiradas, o cabelo enrolado em lenços de algodão. Elphaba ouviu o barulho, também, e escancarou a janela, arregalando os olhos. “Não dêem um passo adiante antes que eu desça”, ela gritou, “ou eu as transformarei em roedores. Nor, afaste-se deles. Todas vocês, afastem-se.”

“Vou buscar a Viúva Princesa”, disse Dois, “se isso os agrada, cavalheiros.”

Mas quando Sarima chegou, com resquícios sonolentos de um cochi­lo, Elphaba já tinha descido, a vassoura sobre o ombro, suas sobrancelhas erguidas até o crânio. “Vocês não são bem-vindos aqui”, parecendo mais que nunca uma Bruxa em suas saias monacais, “então, como é que querem ser tratados? Quem está na chefia? Você? Quem é o mais velho à frente dessa missão? Você?”

“Se me faz um favor, Madame”, disse alguém, um rijo homem gillikinês de cerca de trinta anos. “Eu sou o Comandante ― o nome é Pedra Cereja ― e estou sob as ordens do Imperador para requisitar uma casa grande o bastante para abrigar nosso grupo enquanto estivermos neste distrito de Kells. Esta­mos fazendo uma inspeção das passagens para as Pastagens Milenares.” Ele tirou de dentro de sua camisa um documento manchado de suor.

“Eu que os encontrei, Titia Bruxa”, disse Nor orgulhosamente.

“Vá embora. Vá pra dentro”, disse Elphaba para a garota. “Vocês, ho­mens, não são bem-vindos aqui e a menina não tem o direito de convidá-los. Virem de volta e marchem para além daquela ponte levadiça imediatamente.” O rosto de Nor empalideceu.

“Isso não é um pedido, é uma ordem”, disse o Comandante Pedra Cereja num tom arrependido.

“Isso não é uma sugestão, é um aviso”, disse Elphaba. “Vão embora, ou sofram as conseqüências.”

Sarima, a essa altura, tinha se recuperado o bastante para dar um passo avante, suas irmãs cochichando, empolgadas, a seu redor. “Titia Bruxa”, ela disse, “você se esqueceu do código das montanhas, o mesmo pelo qual você pôde se alojar aqui, e sua velha Babá depois. Nós não mandamos visitas em­bora. Por favor, senhores, perdoem nossa amiga melindrosa. E perdoem-nos. Faz muito tempo que não vemos soldados em uniforme.”

As irmãs se enfeitaram o melhor que podiam ao ouvir esse curto pro­nunciamento.

“Eu não vou aceitar isso, Sarima”, Elphaba disse, “você nunca saiu daqui, você não sabe quem são esses homens ou o que eles vão fazer! Eu não vou aceitar isso, ouviu bem?”

“É o espírito elevado, a determinação, que a torna tão agradável de ter por perto”, disse Sarima um tanto maldosamente, já que em geral ela real­mente gostava da companhia de Elphaba. Mas ela não gostava de ter sua autoridade usurpada. “Cavalheiros, venham por aqui. Vou lhes mostrar onde podem se lavar.”

Irji não sabia bem o que fazer na presença de militares, e não se aproxi­mava muito. Se estava com medo de ser recrutado ou enfeitiçado, não sabia dizer. Levou um colchão de dormir à capela, e dormiu lá, agora que o tem­po era calorento o bastante. Na opinião da Babá, ele estava ficando biruta. “Acredite, depois de uma vida cuidando do devoto marido de sua mãe, Frex, e de sua irmã logo depois, reconheço um lunático religioso infalivelmente”, ela disse para Elphaba. “O menino devia era estar aprendendo lições de virilidade com esses homens, aconteça aqui o que acontecer.”

Por outro lado, Liir estava no paraíso. Ele seguia o Comandante Pedra Cereja por toda parte a menos que ele se virasse, e buscava água para os homens e engraxava as suas botas, num excesso de paixão indisfarçável. As perambulações que eles faziam, fazendo reconhecimento de terreno dos vales locais, mapeando os lugares para vadear o rio, apontando com precisão os pontos estratégicos, deram a Liir mais exercício e ar livre do que jamais tivera. Sua espinha, que estivera ameaçada de se tornar tão curva quanto o arco de uma harpa montanhesa, pareceu se aprumar. Os soldados eram indiferentes a ele, mas não eram manifestamente grosseiros, e Liir interpretava isso como aprovação e afeto.

As irmãs recuperaram um pouco do bom senso quando pararam de pensar que tipo de homem era esse que ingressava no exército. Mas não foi fácil.

Sarima, por sua vez, parecia indiferente à perturbação de sua rotina. Ela recorreu aos aldeões e requisitou seus favores para que a ajudassem a alimentar a hoste de soldados, e, numa mescla de ressentimento e medo, seus vizinhos apareceram com leite, ovos, queijos e legumes. Havia estocho ou garmota do poço de peixes quase toda noite. E os jogos de verão, natural­mente ― codorna, fênix da colina, pássaro Roca-bebê ―, nos quais os homens provaram perícia. A Babá suspeitava que o grupo de reconhecimento estava ajudando Sarima a superar seu sofrimento, trazendo-a no mínimo de volta à mesa da família.

Mas Elphaba estava furiosa com todos eles. Ela e o Comandante tinham discussões todo dia. Elfinha proibiu-o de permitir que Liir o seguisse de perto ― e proibiu o próprio Liir ― o que foi absolutamente sem efeito. Seus primeiros sentimentos verdadeiramente maternais foram de incompetência e de ser jocosamente ignorada como alguém inconseqüente. Ela não conseguia entender como a raça humana se desenvolvera para além de uma única ge­ração. Ela continuamente queria estrangular Liir, como um meio de salvá-lo de figuras paternais de fala macia.

À medida que Elfinha tentava com mais afinco esmiuçar a natureza de sua missão, fazendo uso de toda a amabilidade da esquivança, o Comandante Pedra Cereja ficava mais gélido e polido. A única coisa que Elphaba nunca conseguira dominar fora a cortesia de salão, e esse soldado ― de todas as pes­soas existentes ― era um mestre nisso. A coisa fazia com que se sentisse como se sentira entre as garotas de sociedade de Crage Hall. “Não preste atenção a esses soldados, eles irão embora uma hora dessas”, dizia a Babá, que estava numa época de sua vida em que tudo ou era a fatal crise derradeira ou um assunto de fato dispensável.

“Sarima diz que raramente vira qualquer das tropas do Mágico no Vinkus. Isto aqui foi sempre árido, sem vida, de pouco interesse para os fazendeiros e comerciantes da Oz do norte e do leste. As tribos aqui viveram por décadas, séculos, suponho, com nada a não ser um ocasional cartógrafo passando e batendo em retirada rapidamente. Você não acha que isso sugere uma espécie de missão por estes lados? Que mais essa movimentação pode sugerir?”

“Veja quanto tempo levou para que esses homens jovens se recupe­rassem de sua caminhada pelo interior”, disse a Babá. “Isso é com certeza apenas uma missão de reconhecimento, como eles afirmam. Eles pegarão as informações e partirão. Além disso, todo mundo me diz, o maldito lugar fica todo encharcado de neve e lama por dois terços do ano. Você é uma paranói­ca, sempre foi. O jeito com que você agarrava os quadlings que a gente usava como prosélitos, como se eles fossem seus brinquedos particulares! Como você ficou quando eles foram recolocados ou qualquer coisa assim! Isso cos­tumava dar uma preocupação sem-fim à sua mãe, acredite.”

“Está devidamente documentado que os quadlings foram exterminados, e nós fomos testemunhas”, disse Elphaba. “Você também, Bá.”

“Eu cuido de meus jovens, não posso cuidar do mundo”, disse a Babá, sorvendo uma xícara de chá e cocando o nariz de Matalegria. “Eu tomo conta de Liir, que é mais do que você faz.”

Elphaba não achou que valia a pena desancar a velha empregada. Ela foi folhear o Livro das Sombras novamente, tentando achar algum pequeno feitiço de aprisionamento com o qual pudesse fechar os portões do castelo para aqueles homens. Ela desejou ter ao menos por uma vez acompanhado uma aula de magia da Senhorita Greyling na universidade em Shiz.

“É claro que sua mãe ficava preocupada com você, ela sempre ficava, disse a Babá.” Você era uma coisinha tão esquisita. E as provações pelas quais a pobre mulher passou! Você me lembra ela agora, só que é mais rígida do que ela foi. Ela tinha realmente de que se queixar. Você sabe, ela ficou tão fula da vida com o fato de você ser uma menina ― ela estava tão convencida de que você seria um menino ― que me enviou para a Cidade Esmeralda para encontrar um elixir para garantir...” Mas a Babá parou, atrapalhada. “Ou foi aquele elixir para evitar que o filho seguinte nascesse verde? Sim, foi isso.”

“Por que ela queria que eu fosse um menino?”, disse Elphaba. “Eu te­ria concordado com ela se pudesse dar palpite nesse assunto. Não para ser simplista, mas isso sempre fez com que eu me sentisse horrível, saber como a desapontei tão cedo. Sem mencionar a aparência.”

“Oh, não a acuse de ter motivos odiosos”, disse a Babá. Ela tirou seus sapatos e esfregou por trás dos pés com a bengala. “Melena tinha odiado a sua vida em Solos de Colwen, você sabe. Foi por isso que ela maquinou se apaixonar por Frex e ir-se embora de lá. Seu avô, o Eminente Thropp, tinha deixado muito claro que ela herdaria o título. O título munchkinês passa atra­vés da linhagem feminina, a menos que não haja filhas. A posição da família, e todas as suas responsabilidades, passaria dele para a Senhora Partra, e daí para Melena, e então para a primeira filha que Melena tivesse. Sua mãe tinha a esperança de ter só filhos, para ficar longe daquele lugar.”

“Ela sempre falava disso tão afetuosamente!”, disse Elphaba, atônita.

“Oh, tudo é maravilhoso, uma vez que tenha passado. Mas, para uma pessoa jovem, educada no meio de toda aquela riqueza e responsabilidade ― bem, ela odiava aquilo. Ela manifestava sua revolta fazendo sexo bem cedo e com freqüência, com qualquer um que lhe desse na telha, e ela de bom grado fugiu com Frex, que foi o primeiro pretendente que a amou por si mesma e não por sua posição e herança. Ela achava que uma filha ia achar tudo igual­mente letal, por isso preferia filhos.”

“Mas, isso não faz sentido. Se ela tivesse filhos e não filhas, então, seu filho mais velho herdaria. Se eu fosse um menino sem irmãs, eu ainda estaria ‘envolvido’ na mesma bagunça.”

“Não necessariamente”, disse a Babá. “Sua mãe tinha uma irmã mais velha, que nascera com um problema congênito de superexcitação nervosa, talvez também com uma coisa faltando lá no departamento dos miolos. Ela foi criada fora de casa. Mas ela ficou adulta, e era saudável também, o bas­tante para procriar, e era possível que parisse uma filha. Se tivesse tido uma filha primeiro, esta teria herdado o título de Eminência, e a propriedade e as riquezas com ele.”

“Então, eu tenho uma tia louca”, disse a Bruxa. “Talvez a loucura reine na família toda. Onde ela está agora?”

“Morreu de gripe quando você ainda era uma criancinha, e não deixou herdeiro. Portanto, as esperanças de Melena foram por água abaixo. Mas era isso que ela pensava, naqueles atrevidos, corajosos dias de disparates juvenis.”

Elphaba tinha poucas lembranças de sua mãe, e elas eram às vezes calo­rosas, às vezes secas. “Mas, o que é isso de ela tomar remédio para evitar que Nessarose nascesse verde?”

“Eu consegui para ela uns tabletes na Cidade Esmeralda, de alguma mulher meio cigana”, disse. “Eu expliquei à criatura horrenda o que acontecera ― quero dizer, que você nascera com uma cor desgraçada, e com aqueles dentes ― graças a Lurline que sua segunda etapa foi mais humana! ― e a mulher cigana fez alguma profecia tola sobre duas irmãs que deveriam ser fundamentais na história de Oz. Ela me deu umas pílulas poderosas. Sempre me perguntei se aquelas pílulas não teriam causado o problema de Nessarose. Não mexi mais com poções ciganas, acredite. Nem com o que conhecíamos naqueles dias.” Ela sorriu, tendo há muito tempo se eximido de qualquer culpa no caso todo.

“O problema de Nessarose”, refletiu Elphaba. “Nossa mãe tomou algum remédio cigano, e pariu uma segunda filha sem braços. Ou verde ou aleijada. Mamãe não deu muita sorte com meninas, não é?”

“Shell, no entanto, é um refresco para os olhos sofridos”, disse a Babá, otimista. “Então, quem pode dizer que foi tudo falha de sua mãe? Primeiro houve a confusão sobre saber quem era realmente o pai de Nessarose, e depois as pílulas daquela idosa Yackle, e a melancolia de seu pai...”

“Idosa Yackle? O que você quer dizer com isso?”, perguntou Elphaba, assustando-se. “E quem diabos era o pai de Nessarose se o Papai não era?”

“Oh”, disse a Babá, “sirva-me uma outra xícara de chá e eu lhe contarei tudo. Você está crescida o bastante, e Melena morta há muito tempo.” Ela vagueou por uma história sobre o soprador de vidro de Quadling chamado Coração de Tartaruga, e pela incerteza de Melena sobre Nessarose ser filha dele ou de Frex, e por uma visita a Yackle, de quem ela não conseguia se lem­brar nada exceto o nome, as pílulas e a profecia, não se tira dente de galinha, e, portanto, parou de tentar. Ela não mencionou (e nunca o fizera) como Melena ficara deprimida quando Elphaba nascera. Não havia necessidade.

Elfinha ouviu tudo isso, impaciente e irritada. Por um lado, ela queria atirar tudo pela janela: o passado era imaterial. Por outro, as coisas assumiam uma ordem ligeiramente diferente agora. E aquela Yackle! O nome seria ape­nas uma coincidência? Ela se sentiu tentada a mostrar para a Babá o quadro do Uivo do Chacal no Livro das Sombras, mas resistiu. Não fazia sentido alarmar a velha mulher, ou enchê-la de pavores noturnos.

Assim, as duas mulheres extravasaram-se mutuamente e pouparam-se de observações dolorosas sobre o passado. Mas Elphaba começou a lamen­tar por Nessarose. Talvez Nessinha não quisesse a posição de Eminência, e estivesse tão encarcerada lá como sua irmã mais velha estava aqui. Talvez Elphaba devesse a ela a oportunidade de lhe oferecer liberdade. No entanto, quanto de fato pode alguém dever a outras pessoas? Seria um encadeamento interminável?

3
Nor estava além dela mesma. Num curto intervalo de tempo toda a sua vida fora mudada tão completamente. O mundo era mais mágico que nunca, mas parecia estar alojado no interior, não fora, dela mesma. Seu corpo estava esperando para arder e desabrochar, e ninguém parecia se importar ou perceber.

Liir havia se tornado um aguadeiro para os soldados expedicionários. Irji passava seu tempo compondo longos libretos devotos em louvor a Lurlina. Num estado de incerteza sobre os homens que ali faziam uma residência, as irmãs permaneciam confinadas em seus aposentos por sua própria vontade, embora tremessem de disponibilidade para o caso de as coisas mudarem. Nada podia mudar, como ditava a convenção, a menos que Sarima se casasse outra vez, e elas ficassem livres para ser cortejadas. Suas campanhas domés­ticas para aproximar o Comandante Pedra Cereja de Sarima, contudo, não tiveram sucesso. Elas redobraram seus esforços. Três até abordou a Titia Bruxa solicitando uma poção de amor da enciclopédia mágica. “Hah”, disse Elphaba, “só no dia que o sol nascer quadrado”, e isso foi tudo.

Nor, privada de companhia, deu para se aproximar do dormitório dos homens, tentando se estabelecer com tarefas que não pediam para Liir fazer, com as quais os homens não se importavam muito. Pendurou seus mantos ao sol. Poliu seus botões. Trouxe flores das colinas para eles. Preparou uma ban­deja de frutas de verão e queijo que pareceu agradá-los, especialmente quando a serviu ela mesma. Um soldado jovem, escuro, calvo, com um sorriso cativan­te, pediu a ela que estourasse os gomos da laranja diretamente em seus lábios, e chupou o suco de seus dedos, causando uma mistura de deleite e inveja nos outros. “Senta no meu colo”, ele disse, “e deixa eu te alimentar.” Ele ofereceu um morango a ela, mas ela não se sentou no seu colo ― e adorou recusar.

Um dia ela decidiu agradá-los com uma limpeza total do quarto. Eles estavam fora, fazendo um inventário dos vinhedos nos penhascos mais baixos e ficariam ausentes o dia todo. Cobriu-se de trapos, pôs-se a carregar baldes, e já que a Titia Bruxa se encontrava em profunda conversação com a Babá sobre, ao que parecia, Sarima, surrupiou a vassoura da Bruxa, devido às suas cerdas mais densas e ao seu maior alcance. E rumou para as barracas.

Ela não conseguia ler muito, portanto, ignorou as letras e os mapas que caíam das tiracolos deixadas negligentemente penduradas nas costas de uma cadeira. Ela arrumou os baús, e varreu, e no esforço levantou um monte de poeira, e ficou entusiasmada.

Tirou a sua blusa, e pendurou uma das capas duras dos homens sobre seus ombros bronzeados de sol. Esta exalava um tão imperativo aroma de masculinidade, mesmo depois de espanada, que ela quase desmaiou. Deitou­-se sobre um colchão de palha com a capa negligentemente aberta, a fim de poder imaginar que caía no sono, com a presença recíproca de um homem, e ver a bela linha de pele uniforme que corria por entre seus seios tenros. Ela pensou em fingir cair no sono. Mas sabia que não faria isso. Sentou-se, insatisfeita com as possibilidades, e estendeu a mão para agarrar a coisa mais próxima em que pudesse bater para desabafar a sua frustração ― que calhou de ser a vassoura.

O objeto estava fora de alcance, mas deu uma estocada para o lado dela. Veio pelo chão por sua própria vontade. Ela compreendeu. A vassoura era mágica.

Ela a tocou, meio a medo, como se tentasse adivinhar as intenções que o objeto possuía. No tato, não era diferente de nenhuma vassoura comum. Apenas se movia, como se fosse guiada pela mão de um espírito invisível. “De que árvore você foi tirada, de que campo você foi ceifada?”, ela perguntou à vassoura, quase ternamente, mas não esperava resposta e não obteve nenhu­ma. A vassoura tremeu, e se ergueu um pouco do chão, como se esperasse.

A capa tinha um capuz, e ela o baixou sobre seu rosto. Então, ela puxou para cima sua saia de verão, e lançou uma perna sobre a vassoura, para caval­gar nela como uma criança cavalga um cavalo de estimação.

A coisa se ergueu, hesitante, para que ela pudesse manter seu equilíbrio roçando as pontas dos pés no chão, corrigindo, corrigindo ― o centro de gravidade era alto, e a envergadura tão estreita. O topo da mão se inclinou ao máximo, e ela deslizou pelo cabo até chegar à ponta da vassoura, como se esta fosse um pouco como uma sela. Ela se preparou firmemente; suas per­nas, especialmente na coxa superior, davam a impressão de estar inchadas, o melhor que pudessem para apertar o cabo entre elas. A larga janela na outra extremidade do quarto estava aberta, para receber ar e luz, e a vassoura se moveu alguns pés cruzando o chão, até que atingiu o peitoril.

Então, a vassoura ergueu-se alguns pés, e carregou-a para fora da janela. O estômago de Nor apertou, e seus calcanhares bateram na parte de baixo. Misericordiosamente, ela saíra não no pátio do castelo, onde era provável que fosse vista, mas do outro lado, onde a terra não desaparecia completa e rapi­damente na distância. Nor gemia suavemente na estranheza e no êxtase da aventura. A capa se descortinava, expondo seu peito, e como um dia ela teria imaginado que queria ser vista sem uma blusa? “Oh, oh”, ela gritava, mas se era para a vassoura ou para algum espírito guardião, não sabia. Ela estremecia com a exposição e o choque, e a vassoura se erguia mais e mais alto, até que chegou ao nível da janela mais elevada, que ficava na torre da Bruxa.

A Bruxa e sua Babá estavam olhando, boquiabertas, com xícaras de chá a meio caminho de seus lábios.

“Você desça daí imediatamente”, ordenou a Bruxa. Nor não sabia se a ordem era dirigida a ela ou à vassoura. Ela não tinha rédeas para puxá-la, nem palavras mágicas para controlá-la. Contudo, a vassoura, aparentemente disciplinada, deu uma virada para trás, desceu, e fez uma aterrissagem um pouco desajeitada no chão das barracas dos homens. Nor saltou do veícu­lo, choramingando e tremendo, e se vestiu apropriadamente. Ela não queria tocar a vassoura outra vez, mas quando ela a pegou, a vida desaparecera do objeto, e ela o carregou até os aposentos da Bruxa esperando uma severa reprimenda.

“O que você estava fazendo com a minha vassoura?”, ladrou a Bruxa.

“Eu estava limpando os quartéis dos soldados”, Nor disparou a falar. “É uma bagunça tão grande, os papéis todos espalhados, suas roupas, seus mapas...”

“Mantenha suas mãos longe de minhas coisas, você”, disse a Bruxa. “Que tipo de papéis?”

“Projetos, mapas, cartas, eu não sei”, disse Nor, recuperando sua cora­gem, “vá olhar você mesma. Eu não prestei atenção.”

A Bruxa tomou a vassoura e pareceu estar considerando a possibilidade de bater em Nor com ela. “Não seja uma boba, Nor. Fique longe daqueles homens”, ela disse friamente. “Fique longe deles!” Ela ergueu a vassoura como um bastão. “Eles te magoarão assim que puderem cuspir em você. Fique longe deles, repito. E fique longe de mim!”

Elphaba lembrou-se que a vassoura lhe fora dada pela Mãe Yackle. Como mulher jovem, vira na velha monja uma inválida, uma senil, um aborre­cimento, mas agora reconsiderava e se perguntava se não havia na idosa mais do que a vista poderia alcançar. Teria aquela vassoura sido enfeitiçada por ela, com um vestígio de algum instinto Kumbricial? Ou teria Nor um poder se desenvolvendo nela, e o injetara na tola vassoura? Nor era aparentemente uma crente fervorosa na magia; talvez a vassoura só tivesse esperado alguém que acreditasse nela. Com Elphaba, será que voaria também?

Uma noite, quando todos já tinham se recolhido, Elphaba trouxe a vas­soura ao pátio. Sentiu-se um pouco boba, curvando-se sobre o objeto como uma criança sobre um cavalo de estimação. “Vamos, voe, sua estúpida”, ela murmurou. A vassoura se contorcia para a frente e para trás de um jeito as­sustador, suficiente para erguer vergões em suas coxas. “Não sou uma colegial inocente, pare com esse absurdo”, disse Elphaba. A vassoura ergueu-se por um pé e meio e depois jogou Elphaba para a ponta de seu cabo.

“Ponho fogo em você, e será seu fim”, disse Elphaba. “Sou velha demais para essa espécie de humilhação.”

Levou de cinco a seis noites de treino até que ela conseguisse controlá-la para pairar a uns seis pés do chão. Ela era desajeitada para a feitiçaria. Não estaria predestinada a ser desajeitada em tudo? Foi um prazer, finalmente, assustar as corujas e morcegos do estábulo de um modo bem desajuizado. E era bom estar longe de tudo. Quando sentiu mais confiança, ela voou por sobre o vale, indo longe, até os domínios da barragem que o Ozma Regente tentara erguer; descansou e esperou que não tivesse de voltar andando. Não precisou. A vassoura era resistente à sua intenção, mas ela conseguiu mantê-la atrelada ameaçando-a com o fogo.

Sentiu-se um verdadeiro anjo noturno.

No meio do verão, um comerciante arjiki apareceu com vasos e colhe­res e carretéis de linha, e trazia consigo algumas cartas deixadas num posto fronteiriço mais ao norte. Entre elas, havia um bilhete de Frex ― pelo jeito, a Babá tinha lhe contado sobre suas intenções de sair em caça de Elphaba, e ele escrevera ao monastério, que por sua vez remetera a carta para Kiamo Ko no Vinkus. Frex escrevera que Nessarose orquestrara uma revolta, e que a terra de Munchkin ― ou a maior parte dela, de qualquer modo ― tinha se separado de Oz, e se proclamado um Estado independente.

Nessarose, como a Eminente Thropp, tinha se tornado a líder política do Estado. Frex aparentemente achava que isso era um direito nato de Elphaba, e que ela deveria vir a Solos de Colwen e questionar sua irmã sobre o assunto. “Pode ser que ela não seja a mulher certa para essa função”, ele escreveu, embo­ra Elphaba tenha achado surpreendente a sua apreensão. Não era Nessarose a filha espiritualmente calorosa que Elfinha nunca conseguira ser?

Elphaba não tinha sede de liderança, e não queria desafiar Nessarose de modo algum. Mas agora que a vassoura parecia capaz de levá-la para grandes distâncias, ela pensou se não poderia voar à noite para Solos de Colwen, e passar alguns dias na companhia de Papai, Nessie e Shell novamente. Fazia doze anos que ela deixara Ness em Shiz, embriagada e soluçando, logo após a morte de Ama Clutch.

A Terra de Munchkin ficar livre das garras do Mágico! ― só por isso a viagem valeria. A coisa fazia com que Elphaba risse um pouco para si mesma, sentir seu velho desprezo pelo Mágico se disseminar. Talvez fosse isso que a cura significasse, afinal.

Por segurança, numa tarde Elphaba entrou nas barracas vazias dos soldados. Fuçou em seus papéis. Todos os documentos se relacionavam a questões de mapeamento e pesquisa geológica. Nada mais. Não parecia haver nenhum projeto oculto de ameaça aos arjikis ou a quaisquer outras tribos do Vinkus.

Quanto mais cedo ela partisse, mais rápido retornaria. E seria melhor que ninguém soubesse. Então, disse a todos que estava tirando um período de isolamento em sua torre, e que não queria nem comida nem visitas por alguns dias. Quando a meia-noite irrompeu, ela voou para Solos de Colwen, que agora era o lar de sua poderosa irmã.


4
Ela dormia de dia nas sombras dos estábulos, nas abas dos telhados, no abrigo das chaminés. Viajava de noite. No escuro, Oz se espalhava lá embaixo ― ela pairava sobre o reino a uns oitenta pés, em cálculos aproxi­mados ― e, por onde ela passava, a terra ia praticando suas transformações geográficas com a facilidade de um cenário de espetáculo de vaudeville que fosse se desenrolando. A passagem mais difícil fora ao descer pelos íngremes flancos dos Grandes Kells. Assim que ficou livre das montanhas, contudo, ela viu Oz se estendendo ao nível da rica planície aluvial do Rio Gillikin.

Ela voou por sobre o rio, sobre afluentes e ilhas intercomunicáveis, até que desembocou no Água Mansa, o maior lago de Oz. Manteve-se na direção da margem sul, e levou uma noite inteira para atravessá-lo, como se ele ser­penteasse infindavelmente em ondas de seda negra oleosa, por entre carriças e charcos. Teve problemas para achar a desembocadura do Rio Munchkin, que escoava no Lago Água Mansa pela direção leste. Assim que conseguiu, contudo, foi fácil localizar a Estrada dos Tijolos Amarelos. As terras cultiva­das apareciam logo além, ainda mais viçosas. Os efeitos da seca, tão drásticos em sua infância, haviam sido erradicados, e fazendas de diaristas e pequenas aldeias pareciam prosperar, alegres como cidades de algum brinquedo de criança, graciosas e aconchegantes na enrugada, plácida terra de solo arável e clima ameno.

Quanto mais ela se dirigiu para o leste, contudo, mais esburacada a estrada se tornou. Alavancas tinham arrancado tijolos, árvores tinham sido abatidas e muros compactos erguidos. Era como se algumas das pontes meno­res tivessem sido dinamitadas. Uma medida de segurança contra uma possível retaliação do exército do Mágico?

Sete dias depois de deixar os aposentos de Kiamo Ko, Elphaba entrou no povoado de Solos de Colwen, e dormiu debaixo de um loureiro verde. Quando despertou, perguntou a um comerciante onde ficava a casa grande, e ele lhe apontou o caminho, trêmulo, como se ela fosse um demônio. Então, uma pele verde ainda causa arrepios nos munchkineses, ela observou, e ca­minhou as poucas milhas restantes, chegando aos portões frontais de Solos de Colwen um pouco depois da hora do desjejum.

Ela ouvira sua mãe falar de Solos de Colwen, tristonha e raivosamente, enquanto chapinhavam com botas impermeáveis, afundadas umas seis po­legadas na água do Estado de Quadling. Os anos de Elfinha na presunçosa antigüidade de Shiz e na pompa da Cidade Esmeralda deviam tê-la preparado para entrar numa mansão imponente. Mas ela ficou assustada, até chocada, diante da grandiosidade de Solos de Colwen.

O portão era dourado, o vestíbulo limpo de qualquer vestígio de relva ou excremento, e uma bancada de santos de topiaria em vasos de terracota decorava a sacada acima da maciça porta da frente. Dignatários com fai­xas que denotavam novos postos de hierarquia e prestígio na Terra Livre de Munchkin, ela imaginou, se postavam em pequenos grupos a um lado. Com xícaras de café nas mãos, os oficiais, ao que parecia, tinham concluído uma reunião particular do conselho feita logo de manhãzinha. Ao passar o por­tão, homens armados de espadas avançaram decididamente e barraram seus passos. Começou a protestar ― o que foi imediatamente classificado como ameaça e loucura, ela notou ― e estava para ser expulsa quando uma figura apareceu de um canto de uma casinha ornamental, e mandou-os parar.

“Fabala!”, ele disse.

“Sim, Papai, eu estou aqui”, ela respondeu, com a polidez de uma filha.

Ela se virou. Os dignatários fizeram uma pausa em suas discussões, e recomeçaram, como se percebessem que ouvir a conversa desse encontro seria o máximo em grosseria. Os guardas baixaram sua barreira quando Frex se aproximou. Seu cabelo era fino e longo e preso por um apetrecho de couro cru, como sempre fora. Sua barba era de cor creme e chegava à sua cintura quando ele tirava as mãos de cima dela.

“Esta é a irmã da Eminência do Leste”, disse Frex, fixando os olhos em Elphaba, “e minha filha mais velha. Deixem-na passar, meus caros, agora e sempre que ela se aproximar daqui.” Ele se aproximou e pegou a sua mão, e virou sua cabeça como um pássaro para vê-la através de um olho capaz. O outro, como ela percebeu, estava morto.

“Venha, vamos nos cumprimentar na intimidade, longe dessa atenção toda”, disse Frex. “Palavra, Fabala, você ficou a cara da sua mãe nesses longos anos!” Ele juntou seu braço ao dela, e eles entraram no edifício por uma porta lateral, chegando a um pequeno salão decorado com sedas cor de açafrão e almofadas de veludo cor de ameixa. A porta se fechou atrás deles. Frex se abaixou cautelosamente no sofá e afagou o estofado próximo a ele. Ela se sentou, cansada, espantada com a riqueza de seu sentimento por ele. Estava repleta de carência. Mas, advertia-se, não se esqueça de que você é uma mu­lher madura.

“Eu sabia que você viria se eu escrevesse”, ele disse. “Fabala, eu sempre soube disso.” Ele a envolveu em seus braços, apertadamente. “Agora, eu posso chorar um pouquinho.” Quando ele terminou, perguntou-lhe para onde fora, o que fizera e por que nunca retornara.

“Eu não tinha certeza se haveria um lugar para onde retornar”, ela res­pondeu, percebendo a verdade de suas palavras enquanto falava. “Quando você acabou de converter uma cidade, Papai, você mudou para novos campos. Seu lar estava no pastoreio das almas; o meu nunca esteve. Além disso, eu tinha meu próprio trabalho a fazer.” Ela acrescentou, um momento depois, numa voz baixa: “Ou eu pensava que tinha”.

Ela mencionou que vivera anos na Cidade Esmeralda, mas não revelou o porquê.

“E a Babá estava certa? Você foi mesmo uma monja? Eu não a criei para uma tal submissão”, ele disse. “Estou surpreso. Tanto conformismo e obediência...”

“Não fui uma monja mais do que fui uma unionista”, ela o repreendeu gentilmente, “mas vivi com elas. Elas fizeram um bom trabalho, a despeito do equívoco ou da inspiração de suas crenças. Foi um tempo de recuperação de uma passagem difícil. E então, no ano passado, eu fui para o Vinkus, e acho que fiz meu lar por lá, embora não possa dizer por quanto tempo.”

“E o que você faz?”, ele disse. “Você está casada?”

“Eu sou uma bruxa”, ela respondeu. Ele recuou, desgostoso, perscrutan­do com o olho sadio para ver se ela estava falando por brincadeira.

“Fale-me de Nessinha antes que eu a veja, e de Shell”, ela disse. “Sua carta deu-me a impressão de que ela precisava de ajuda. Eu farei o que puder no tempo curto em que puder ficar aqui.”

Ele lhe falou da ascensão de sua irmã ao posto de Eminência, e da secessão que houvera na última primavera. “Sim, sim, eu sei disso, mas não sei o porquê”, ela disse, aguilhoando. Então, ele descreveu o incêndio de uma granja onde reuniões da oposição vinham sendo feitas, a denúncia do es­tupro de um par de moças munchkinesas depois de um baile do exército do Mágico que estava com uma guarnição perto de Armário do Dragão. Ele mencionou o massacre em Macieira Distante e a pesada taxação sobre as colheitas das fazendas. “A gota d’água”, ele disse, “até onde Nessie ficou sabendo, foi a intempestiva destruição de simples capelas do campo pelos soldados do Mágico.”

“Não parece a gota d’água”, disse Elphaba. “Um cômodo de fundos de uma mina de carvão não é um lugar tão santo para oração quanto uma capela? Quero dizer, segundo o ensinamento?”

“Bem, o ensinamento”, disse Frex. Ele deu de ombros; tais distinções estavam além de seu alcance, agora. “Nessinha ficou encolerizada, e mani­festou sua indignação, e antes que ela soubesse, a faísca se alastrou e pegou fogo. Dentro de uma semana, depois que deflagrou uma carta furiosa para o Imperador Mágico em pessoa ― um ato perigoso e indisciplinado ―, a febre revolucionária havia se aglutinado em torno dela. Isso aconteceu bem aqui no vestíbulo de Solos de Colwen. Foi magnífico, e você teria imaginado que Nessinha nascera para a dissidência. Ela se dirigiu aos homens mais velhos das comunidades rurais de perto e de longe, e manteve sua convicção reli­giosa sob controle, sensatamente, eu acho. Assim, seu apelo para que eles a apoiassem foi esmagadoramente respondido. Houve uma aprovação unânime para a secessão.”

Papai ficara pragmático depois de velho, Elphaba observou com alguma surpresa.

“Mas como você se livrou das patrulhas das fronteiras?”, ele perguntou. “Estando as coisas do jeito que estão ― esquentando cada vez mais, como dizem.”

“Eu só tive de voar por cima delas, um pequeno pássaro negro dentro da noite”, ela respondeu, sorrindo para ele, e tocando na sua mão. Estava vitrificada e de um rosa mosqueado, como uma lagosta do lago na fervura. “Mas o que eu não sei, Papai, é por que você me chamou aqui. O que espera que eu faça?”

“Eu achei que você poderia se unir à sua irmã em seu trono de autori­dade”, ele disse, com a esperança simplória de alguém cuja família estava de há muito separada. “Eu sei quem você é, Fabala. Eu duvido que você tenha mudado muito durante esses anos. Conheço sua astúcia e sua convicção. Eu também sei que Nessinha está à mercê de suas vozes religiosas, e ela poderia ter uma recaída e desfazer o grande bem que está fazendo neste momento ao ser uma figura central para a resistência. Se isso acontecer, as coisas não irão bem para ela.”

Então, estou aqui para me fazerem de Cristo, pensou Elphaba, para ser a linha de frente da defesa. Seu prazer se evaporou.

“E não irão bem para eles, os ansiosos que estão lhe dando apoio”, Frex disse, fazendo com a mão um sinal que significava a maior parte da Terra de Munchkin. Seu rosto se curvou ― seu sorriso era fruto de esforço também, ela pensou friamente ― e seus ombros caíram. “Eles passaram mais de uma geração sob a ditadura suave desse nosso Glorioso Mágico patife ― oh, até esqueço que estamos agora na Terra Livre de Munchkin ―, esses fazendeiros na certa subestimam a dimensão de uma eventual retaliação. Na verdade, Shell descobriu, por fontes fidedignas, que os estoques de cereais na Cidade Esmeralda são maciços, e que podemos ficar algum tempo sem a necessidade de um governo. Salvo o desbaratamento de algumas divisões de soldados na fronteira, e a prisão de alguns arruaceiros bêbados, tem sido uma dissidên­cia muito tranqüila até aqui. Estamos iludidos ao acreditar que estamos em segurança. Eu quero dizer que Nessinha está iludida também, acho. Você possui uma mente mais clara, foi o que sempre percebi. Você pode ajudá-la a se preparar, você pode oferecer a ela o equilíbrio e o apoio necessários.”

“Eu sempre fiz isso, Papai”, ela disse. “Na infância e no colégio. Agora, soube que ela poderia se virar sozinha.”

“Você soube de meus sapatos preciosos”, ele disse. “Comprei-o de uma velha decrépita, e então os restaurei para Nessa com minhas próprias mãos, usando as habilidades para lidar com vidro e metal que aprendi com Coração de Tartaruga. Fiz os sapatos com a intenção de dar a ela um pouco de beleza, mas não esperava que fossem enfeitiçados por outra pessoa. Não lamento que tenham sido. Mas, Nessa agora pensa que não precisa de mais ninguém, para se sustentar ou para apoiar seu governo. Ela escuta menos que nunca. Em alguns aspectos, acho que aqueles sapatos são perigosos.”

“Eu queria que os tivesse feito para mim, Papai”, ela disse numa voz surda.

“Você não precisava deles. Você tinha a sua voz, a intensidade, até mes­mo a sua crueldade, como escudo.”

“Minha crueldade!” Ela recuou.

“Oh, você era uma coisinha demoníaca”, disse Frex, “mas e daí?, as crian­ças crescem para desenvolver aquilo que são, dentro e fora das expectativas. Você era um terror quando se aproximou de outras crianças pela primeira vez. Você se acalmou apenas quando começamos a viajar e tinha de carregar o bebê. Foi Nessarose quem a domou, você sabe. Você tem de agradecer a ela; ela abrandou sua fúria com a carência óbvia que tinha. Você não se lembra disso, suponho.”

Elfinha não conseguia lembrar-se, ela não conseguia sequer pensar nes­sas coisas. Até a idéia de haver sido cruel lhe escapava. Em vez disso, tentava sentir afeto por seu pai, apesar do cansaço de ser obrigada a ser outra vez um subtenente, a serviço de sua querida e carente Nessarose. Ela estava era con­centrada na preocupação de seu pai com os cidadãos da Terra de Munchkin Sempre uma sensibilidade pastoral, a dele. Embora rejeitasse sua teologia, ela o adorava por seu senso de compromisso.

“Vou querer saber mais sobre Coração de Tartaruga algum dia”, ela disse num tom leve, “mas, agora, suponho que devo ir agradecer à minha irmã. E vou pensar no que o senhor disse, Papai. Eu não consigo me imaginar como parte de um triunvirato governamental, com você e Nessarose ― ou de um comitê, caso Shell entre nisso também. Mas suspenderei meu julgamento, por enquanto. E Shell, Papai, como ele está?”

“Atrás das linhas inimigas, dizem”, Frex respondeu enquanto ela se er­guia para sair. “Ele é um sem-juízo e estará entre os primeiros a morrer, quan­do a coisa de fato esquentar. Ele parece com você, em certos aspectos.”

“Ele ficou verde?”, ela perguntou, espantada.

“É tão irredutível quanto as manchas do pecado”, ele respondeu.

Nessarose estava isolada numa sala do pavimento superior, fazendo a sua meditação matutina. Frex providenciou para que Elphaba tivesse li­berdade para vagar pela casa e dependências. Afinal, houvesse sido outra a configuração dos eventos, Elphaba poderia estar (ou poderia ainda se tornar) a Eminente Thropp, a Eminência do Leste, a líder nominal da Terra Livre de Munchkin. Frex observava sua filha verde passando pelos corredores de mármore, carregando a sua vassoura como uma arrumadeira, olhando para os ormolus, os damascos, as flores frescas, os serviçais, os retratos. Sentia, como sempre sentira, uma pontada dolorida no fundo de seu peito pelas coisas ocultas e inconfessáveis que ele fizera de errado ao criá-la. Mas estava feliz por ela estar ali, enfim.

Elphaba encontrou o caminho para a capela particular no final de uma sala de mogno polido. Era mais barroca que antiga, e estava em meio a um trabalho de redecoração. Nessarose na certa mandara que os afrescos fossem cobertos de cal; talvez as imagens suculentas distraíssem as pessoas de suas tarefas de meditação. Elphaba sentou-se num banco ao lado, em meio a baldes de calcário e brochas de pintura e escadas. Ela não fingiu que estava rezando, embora se sentisse muito desconfortável com a situação toda. Fixou seu olhar, para focalizar sua mente, numa secção de grandes proporções que ainda exibia as suas imagens. Mostrava anjos rotundos levitando com a ajuda de asas de tamanho considerável. Seus trajes haviam sido recortados para acomodar a irregularidade anatômica, notou. Estavam mais para senhoras de corpos cheios, mas as asas não estavam se salientando com artérias reforçadas nem rachando nas pontas. O artista tinha levado em conta o comprimento e a largura ideais exigidos para que as obesas senhoras fossem guinchadas para o alto. A fórmula parecia equivaler a asas três vezes mais compridas que o braço, corrigidas talvez para se ajustar à imponência do conjunto. Se alguém pode abrir seu caminho para o Outro Mundo com um batimento de asas, por que não com uma vassoura?, ela pensou. E percebeu que devia estar mui­to cansada; normalmente, teria deixado de lado a especulação sem sentido quanto a esses absurdos unionistas sobre uma vida após a morte, um Além, um Outro Mundo.

Eu devo é me lembrar minhas lições no curso de ciências da vida, ela pensou. Todas as devastadoras fronteiras de conhecimento que o Doutor Dillamond estava por cruzar. Eu quase entendi alguma coisa daquilo tudo. Eu poderia costurar asas no Chistérico. Ele poderia voar comigo. Que farra.

Ela se ergueu e foi se encontrar com a irmã.

Nessarose ficou menos surpresa vendo a irmã do que Elfinha teria es­perado. Talvez fosse porque Nessa houvesse se acostumado a ser o centro das atenções, pensou. E de novo ela era mesmo o centro das atenções. “Querida Elfinha”, ela disse, erguendo os olhos de um par de livros idênticos que algum auxiliar deixara ali, um bem próximo ao outro, para que ela pudesse ler quatro páginas sem chamar alguém para ajudá-la a virar uma. “Dê-me um beijo.”

“Oh, você está aí, então”, Elphaba disse, condescendente. “Como está, Nessinha? Você está com boa aparência.”

Nessarose se levantou, exibindo os belos sapatos, e sorriu radiosamente. “A graça do Deus Inominável me enche de força, como sempre”, ela disse.

Mas Elphaba não estava disposta a se aborrecer. “Você evoluiu, você se ergueu, e não digo apenas quanto a seus pés”, ela disse. “A História a esco­lheu para desempenhar um papel nela, e você o aceitou. Fico orgulhosa com isso.”

“Não precisa se orgulhar”, disse Nessarose. “Mas, obrigada, querida. Eu achei que você provavelmente viria. O Papai obrigou você a vir para cá a fim de tomar conta de mim?”

“Ninguém me obrigou a vir para cá, mas Papai escreveu.”

“Então, depois de todos esses anos de isolamento, o tumulto político a traz de volta. Onde você estava?”

“Aqui e ali.”

“Você sabe que chegamos a pensar que você tinha morrido”, disse Nes­sarose. “Estenda aquele xale nos meus ombros e o prenda com um alfinete, por favor, para que eu não tenha de chamar uma criada. Eu me refiro àquela época medonha, medonha, em que você me abandonou em Shiz. Ainda estou furiosa com você devido àquilo, acabo de lembrar.” Ela franziu o lábio, afeta­damente; Elphaba ficou feliz ao notar que ela possuía ao menos um resíduo de senso de humor.

“Éramos todos jovens naqueles tempos, e talvez eu estivesse errada”, disse Elfinha. “Meu abandono não lhe causou nenhum dano duradouro, de qualquer modo. Ao menos não pelo que posso notar.”

“Tive de me virar com Madame Morrible sozinha, por dois anos. Glin­da foi de ajuda por algum tempo, aí se graduou e foi em frente. A Babá foi a minha salvação, mas ela já estava velha naquela época. Ela foi ao seu encontro recentemente, não foi? Bem, naqueles tempos eu me senti terrivelmente só. Apenas minha fé me sustentou.”

“Bem, a fé faz dessas coisas”, disse Elfinha, “quando você a possui.”

“Você fala como alguém que ainda vive nas terras sombrias da dúvida.”

“Na verdade, acho que temos a discutir coisas mais importantes que o estado de minha alma e a lacuna nela existente. Você está com uma revolução em suas mãos ― sinto, foi a força do hábito ― e você é a comandante geral residente. Parabéns!”

“Oh, eventos fatigantes do mundo enganador, sim, sim”, disse Nessarose. “Olhe, é uma beleza ali fora, nos jardins. Vamos caminhar e tomar um pouco de ar um pouquinho. Você parece verde de fome...”

“Tudo bem, eu mereço isso...”

“... e há tempo de sobra para entrar nos assuntos diplomáticos. Eu tenho uma reunião daqui a pouco, mas ainda há tempo para dar uma passeadinha. Você precisa conhecer este lugar. Deixe-me mostrá-lo a você.”

5
Elphaba só conseguiu obter a atenção de Nessarose por pequenas frações de tempo. Embora fosse desatenta quanto às exigências de sua liderança, Nessarose era muito consciente de sua agenda social, e passava horas prepa­rando-se para reuniões.

A princípio as discussões foram frívolas ― memórias da família, dos dias de escola. Elfinha estava impaciente para abordar o âmago da questão ali. Mas Nessarose não se deixava apressar. Às vezes deixava Elfinha plantada à espera enquanto mantinha audiências com os cidadãos. Elfinha não estava muito satisfeita com o que via.

Uma tarde uma mulher idosa de algum povoado no Cesto de Milho apareceu. Ela fez mesura de uma maneira muito nauseante e servil, e Nessa­rose pareceu reagir a isso com um brilho de glória. A mulher queixou-se de ter uma empregada que, tendo se apaixonado por um lenhador, queria deixar seu serviço para se casar. Mas a idosa já havia dado três filhos para o reforço de defesa da nova milícia local, e ela e a empregada eram a única mão-de-obra disponível para fazer a colheita. Se a empregada debandasse ao lado de seu lenhador, as colheitas seriam danificadas e ela ficaria arruinada. “E tudo em nome da liberdade”, ela concluiu amargamente.

“Bem, o que a senhora quer que eu faça?”, disse a Eminência do Leste.

“Eu posso lhe dar duas Ovelhas e uma Vaca”, disse a idosa.

“Eu tenho criação...”, disse Nessarose, mas Elphaba a interrompeu e disse: “A senhora quer dizer Ovelhas? Uma Vaca? Quer dizer Animais?”

“Animais de propriedade inteiramente minha”, a idosa respondeu, or­gulhosamente.

“Como é que a senhora pode ser dona de Animais?”, Elphaba perguntou, e cerrou os dentes. “Os Animais agora são bens móveis na terra de Munchkin?”

“Elfinha, por favor”, disse Nessarose, surdamente.

“O que fará para libertá-los?”, cobrou Elfinha, passionalmente.

“Eu já disse. Faça alguma coisa no caso desse lenhador.”

“O que a senhora quer que eu faça?”, interrompeu Nessarose, desgostosa por sua irmã estar usurpando seu papel de arbitra da justiça.

“Eu lhe trouxe o machado dele. Pensei que você poderia enfeitiçá-lo e fazer com que o matasse.”

“Que vergonha!”, disse Elphaba, mas Nessarose disse: “Oh, bem, isso não seria muito bom.”

“Muito bom?”, Elfinha disse. “Isso não seria muito bom de jeito ne­nhum, Nessinha.”

“Bem, você é quem define a justiça por aqui”, disse a idosa, resoluta­mente. “O que sugere?”

“Eu poderia enfeitiçar seu machado e fazê-lo escorregar”, disse Nessaro­se refletidamente, “só o bastante para cortar seu braço. Eu sei por experiência própria que uma pessoa sem um braço não é tão desejável para o sexo oposto quanto uma que tenha os dois.”

“Acho que dá”, disse a idosa, “mas, se isso não funcionar, voltarei aqui e você fará mais, pelo mesmo preço. Ovelhas e uma Vaca não saem baratas por aqui, como sabe.”

“Nessarose, você não é uma bruxa, não, não acredito nisso”, disse Elpha­ba. “Você não faz feitiços, de modo algum!”

“A pessoa virtuosa pode fazer milagres em nome do Deus Inominável”, disse Nessarose calmamente. “Mostre-me esse machado, se você o trouxe.”

A idosa estendeu um machado de lenhador, e Nessarose se ajoelhou perto dele, como se estivesse rezando. Era uma coisa estranha, até arrepiante, ver o delgado corpo desprovido de braços conseguir se projetar, sem amparo e fora de equilíbrio, e depois, com o feitiço já realizado, ser capaz de se en­direitar sozinho. Isso é por obra de certos sapatos, pensou Elfinha, discreta e amargamente. Glinda tem algum poder, por todo o seu deslumbramento social, ou talvez o poder provenha do amor de nosso pai por Nessinha. Ou uma mistura dos dois. E se Nessarose não estiver soprando areia nos olhos dessa velha trabalhadora, ela se tornou uma feiticeira também, seja qual for o nome que der a isso.

“Você é uma bruxa”, disse Elphaba novamente; não conseguiu calar-se. Talvez fosse um erro, já que a mulher idosa estava acabando de agradecer a Nessarose por seus esforços. “Trarei os Animais do estábulo”, ela disse. “Estão acorrentados na cidade”.

“Animais! Acorrentados!”, exclamou Elfinha, fervendo.

“Obrigado, Senhora Eminência”, disse a idosa. “A Eminência do Leste. Ou devo chamá-la de a Bruxa do Leste?” Ela riu com todos os dentes, tendo conse­guido o que queria, e saiu pela porta carregando o machado enfeitiçado sobre seu ombro do mesmo jeito que um jovem lenhador todo desenvolto faria.

Elas não conseguiram ficar sozinhas novamente por mais algum tempo. Elphaba foi então fazer uma ronda em torno do estábulo e dos abrigos até que encontrou um ajudante que pôde conduzi-la até as duas Ovelhas e a Vaca. Estavam num cercado com palha limpa, cada uma olhando para um canto diferente, ruminando abstrações.

“Vocês são os novos Animais, trazidos para cá por aquela velha diaba vingativa”, disse Elphaba. A Vaca olhava, confusa, como se estivesse desacos­tumada a ter quem lhe dirigisse a palavra. As Ovelhas não deram sinal de haver entendido.

“Que tipo de carne é a sua?”, disse a Vaca, com humor negro.

“Tenho vivido no Vinkus”, disse Elfinha. “Não há muitos Animais por lá. Uma vez fui agitadora no movimento popular pelos Direitos Animais ― eu não sei realmente como as coisas andam para os Animais munchkineses agora. O que vocês podem me dizer?”

“Posso lhe dizer para ir se meter com a própria vida”, disse a Vaca.

“E as Ovelhas?”

“Essas Ovelhas não podem lhe dizer nada, ficaram mudas.”

“Elas são ― ovelhas comuns? Isso acontece?”

“Fala-se de humanos que viram legumes ― ou nozes ― ou mesmo frutas”, disse a Vaca, “mas não querem dizer isso literalmente. As Ovelhas não viram ovelhas, elas viram Ovelhas mudas. Aliás, nem precisam ser discutidas aqui, já que não estão nem ouvindo.”

“Claro. Peço desculpas”, ela disse às Ovelhas, uma das quais piscou de modo funesto. À Vaca ela acrescentou: “Eu preferiria chamá-la pelo seu nome.”

“Desisti de usar meu nome em público”, disse a Vaca. “Não posso me arvorar a ter direitos individuais o bastante para ter um nome próprio. Re­servo-o para uso privado.”

“Eu entendo isso”, disse Elphaba. “Eu sinto o mesmo. Eu sou apenas a Bruxa agora.”

“Sua Eminência em pessoa?” Um fio viscoso de cuspe pingou do queixo da Vaca. “Fico lisonjeada. Não sabia que você chamava a si mesma de Bruxa, eu pensei que era apenas um desprezível apelido que se dizia pelas costas. A Bruxa do Leste.”

“Bem, não. Eu sou a irmã dela. Eu poderei ser a Bruxa do Oeste, se você achar melhor.” Ela sorriu. “Na verdade, eu não sabia que ela era tão depreciada.”

A Vaca tinha cometido uma gafe. “Asseguro que não quis desrespeitar a sua família”, ela disse. “Eu deveria ficar com a minha boca fechada e me concentrar em minha ruminação. O fato é que estou chocada ― ser vendida em troca de um feitiço de bruxa! Não há nada de errado com aquele lenhador ― oh, eu tenho ouvidos, eu tenho, embora eles se esquecem ― e a idéia de um simplório de bom coração como Nick Chopper ser ferido por um feitiço de bruxa ― sendo eu parte do custo da troca ― bem, é difícil imaginar como alguém poderia cair tão baixo na vida.”

“Eu vim para libertar vocês”, Elfinha disse.

“Com autoridade de quem?”, a Vaca bufou, desconfiada.

“Eu lhe disse, sou irmã da Eminente Thropp ― a Eminência do Leste.” Ela se corrigiu: “A Bruxa do Leste. É a minha prerrogativa aqui.”

“E livres para irmos para onde? Para fazermos o quê?”, disse a Vaca. “Iríamos daqui para o Monte de Estrume de Baixo e seríamos atreladas no­vamente. Sujeitas à escravidão sob o governo do Mágico, e a catecismos sob o poder da Eminente Thropp! Nós não nos misturamos com esses pequeninos e rastejantes munchkineses humanos.”

“Você ficou um pouco melancólica”, disse Elphaba.

“Você nunca ouviu falar da Vaca louca?”, ela respondeu. “Meu amor, meu úbere está ferido com o puxão diário dos humanos. Sou usada como torneira para dar leite de manhã à noite. Eu não posso nem querer uma coisa como ser montada por ― bem, não importa. Mas, pior ainda, meus filhos foram engordados com leite e abatidos para virarem vitela. Eu ouvia seus gritos lá no matadouro, os humanos nem se importaram de me afastar do alcance dos gritos!” Aqui, ela virou sua cabeça para a parede, e as Ovelhas vieram cada uma por um de seus lados, pressionando como um par vivo de calorosos suportes de livros junto a seus flancos mais baixos e a barriga.

Elphaba disse: “Eu não poderia ficar mais sentida nem mais envergo­nhada. Olha, eu estava trabalhando com o Doutor Dillamond ― você já ouviu falar dele? ― em Shiz, tempos atrás. Eu me dirigi ao próprio Mágico para protestar contra o que estava acontecendo...”.

“Oh, o Mágico não se importa com os de nossa espécie”, disse a Vaca, depois que tinha recuperado a sua compostura. “Eu não sinto vontade de conversar mais. Todo mundo está do seu lado enquanto precisa de você. A Eminente Nessarose provavelmente nos trouxe com o objetivo de nos enfiar em alguma procissão cerimonial religiosa. Meus flancos sedosos sempre ficam enfeitados com guirlandas ou coisas do gênero. E, depois, sabemos bem o que acontece.”

“Agora você deve estar enganada a esse respeito”, disse a Bruxa. “Disso eu discordo. Nessarose é uma unionista rigorosa. Os unionistas não praticam sacrifício de sangue...”

“Os tempos mudam”, disse a Vaca. “E ela tem uma população de se­guidores nervosos e mal-educados para apaziguar. O que, diga, por favor, funciona melhor que a carnificina ritual?”

“Mas, como foi que isso pôde chegar a esse ponto?”, disse a Bruxa. “Su­pondo que você esteja dizendo a verdade? Este é um estado rural. Vocês deveriam estar bem estabelecidas aqui.”

“Animais presos têm tempo de sobra para desenvolver teorias”, disse a Vaca. “Ouvi mais de uma criatura inteligente traçar uma ligação entre a ascensão do tiktokismo e a erosão do trabalho Animal tradicional. Nós não éramos bestas de carga, mas éramos bons trabalhadores confiáveis. Se nos tornamos dispensáveis como força de trabalho, era apenas questão de tempo para que nos tornássemos socialmente dispensáveis também. De qualquer modo, essa é uma teoria. Meu próprio modo de sentir me diz que há um verdadeiro mal surgindo no horizonte. O Mágico ergue o estandarte, e a sociedade segue o padrão como um bando de ovelhas. Perdão pela referência caluniosa”, ela disse, balançando a cabeça para suas companheiras de cercado. “Foi um deslize.”

Elphaba escancarou a porta do cercado. “Venham, vocês estão livres”, ela disse. “O que fazer disso é questão que só diz respeito a vocês. Se vocês ficarem, será problema de vocês.”

“É problema nosso se sairmos daqui, também. Você acha que uma Bru­xa que enfeitiça um machado para retalhar um ser humano se deteria diante um par de Ovelhas e uma velha Vaca aborrecida?”

“Mas esta pode ser a sua única chance!”, Elphaba gritou.

A Vaca saiu, e as Ovelhas a seguiram. “Nós voltaremos”, ela disse. “Esse é um exercício para a sua educação, não para a nossa. Grave minhas palavras, minha alcatra vai ser servida como raridade nos seus mais finos pratos de jantar de porcelana da Casa de Dixxi antes que o ano termine.” Ela mugiu uma última observação ― “Eu espero que vocês engasguem” ― e, com a cauda espantando as moscas, rebolando, ela se afastou.

6
“Uma embaixatriz do Glikkus, querida”, Nessarose disse, quando El­phaba pediu que marcassem uma reunião. “Realmente, não posso mandá-la embora. Ela veio para discutir pactos de defesa mútua em caso de o Glikkus se separar de Oz a seguir. Ela acha que há agentes secretos rastreando a sua família, e ela precisa partir em sua viagem de retorno hoje à noite. Mas nós jantaremos juntas, como nos velhos tempos? Você, eu e minha criada?”

Elphaba não teve escolha a não ser protelar mais uma tarde. Ela loca­lizou Frex e o persuadiu a sair a passeio para mais além dos lagos ornamen­tais e dos gramados primorosos, lá nos limites de Solos de Colwen, onde começavam as florestas. Ele caminhava de maneira tão rija, tão lenta, que era uma tortura; ela era uma caminhante de passos largos. Mas manteve-se controlada.

“O que você acha de sua irmã?”, ele lhe perguntou. “Depois de todos esses anos? Muito mudada?”

“Ela sempre foi autoconfiante, a seu modo”, Elfinha disse, com reserva.

“Eu nunca achei isso, e continuo não achando”, Frex disse. “Mas eu acho que ela fez uma boa coisa, e tem ficado melhor.”

“Por que você me pediu para vir aqui, realmente, papai?”, Elphaba disse. “Eu não tenho muito tempo a perder, você sabe. Você deve ser franco.”

“Você seria uma Eminência mais esperta que Nessinha”, ele disse. “E é seu direito congênito. Sim, eu sei que as leis estritas da herança do título não eram importantes para a sua mãe. Apenas acho que o povo da terra de Munchkin se sairia melhor com você no leme. Nessa é ― devota demais, se tal coisa existe. Devota demais para ser uma figura central na vida pública, de qualquer modo.”

“Esse deve ser o único aspecto em que eu puxei à minha mãe”, Elphaba disse, “mas uma posição herdada não é de interesse para mim, e não chega a me pesar o fato de ser a Eminência por direito. Há muito tempo abdiquei dessa posição na família. Nessarose tem todo o direito de abdicar da sua, e então Shell pode ser localizado para substituí-la. Ou, melhor ainda, essa tra­dição estúpida pode muito bem ser abolida, e vamos deixar os munchkineses governarem-se sozinhos até morrer.”

“Ninguém insinuou que um líder não seja tão bode expiatório quanto um humilde peão”, disse Frex. “Em todo caso, é possível. Mas eu estou falando de liderança, não de hierarquia e privilégio. Estou falando sobre a natureza dos tempos em que vivemos, e do trabalho que precisa ser feito. Fabala, você sempre foi a irmã mais capaz. Shell é um palhaço maluco, atualmente brin­cando de agente secreto, e Nessinha é uma garotinha melindrosa...”

“Oh, por favor”, ela disse, com desgosto. “Não é hora de superar isso?”

“Ela não superou”, ele disse, magoado. “Você a vê envolvida nos braços de um amante? Você a vê parindo seus próprios filhos, engajando-se na vida de um modo que faça sentido? Ela se esconde por trás de sua devoção do mesmo modo que um terrorista se esconde atrás de seus ideais...” Ele a viu reagir mal a essa frase, e parou.

“Eu conheci terroristas capazes de amar”, ela disse tranqüilamente, “e eu conheci boas monjas, solteironas e sem filhos, fazendo caridade para pessoas destruídas.”

“Você já viu Nessa ter alguma ligação adulta com alguém que não o Deus Inominável?”

“Olhe só quem fala”, ela disse. “Você teve sua mulher e seus filhos, mas eles ficaram em segundo lugar na ordem de prioridades quando surgiram os quadlings para ser convertidos.”

“Eu fiz o que tinha de ser feito”, ele disse rigidamente. “Não ouvirei sermões de minha própria filha.”

“Bem, também não ouvirei sermões seus sobre meus perpétuos deveres para com Nessinha. Eu dei a ela minha infância, eu a ajudei quando foi para Shiz. Ela fez sua vida do modo que queria, e ainda tem escolha e vontade livre até agora. E o mesmo pode-se dizer de seus seguidores, que podem depô-la e cortar a sua cabeça se suas preces forem um obstáculo no caminho deles.”

“Ela não é uma mulher poderosa”, Frex disse tristemente. Elfinha olhou­-o de esguelha, e pela primeira vez o viu como um fraco ― o tipo de velho que Irji, se sobrevivesse, se tornaria. Constantemente esperneando à margem dos acontecimentos, reagindo em vez de agindo, lamentando o passado e rezando pelo futuro em vez de se atirar com ânimo ao presente.

“Como foi que ela ficou assim?”, ela perguntou, tentando ser bondosa. “Tinha dois bons pais.”

Ele não respondeu a isso.

Eles continuaram caminhando e saíram das florestas pela margem de um campo de milho. Um par de colonos estava consertando uma cerca e erguendo um espantalho. “Tarde, Irmão Frexpar”, eles disseram, retirando seus bonés. Olharam meio de esguelha para Elphaba. Quando ela e seu pai retomaram a conversa fora do alcance de seus ouvidos, ela disse: “Eles estavam usando um pequeno talismã ou alguma coisa em suas túnicas, você notou? Parecia uma pequena boneca de palha ou coisa semelhante.”

“Oh, sim, o homem de palha”. Ele suspirou. “Outro costume pagão que havia desaparecido quase por completo, e então foi revivido durante a Grande Seca. Trabalhadores da roça ignorantes usam um homem de palha como um talismã contra as pestes da colheita: seca, corvos, insetos, podridão. Houve uma tradição de sacrifício humano em torno desse assunto.” Ele parou para tomar fôlego e enxugar o seu rosto. “Nosso amigo de família, Coração de Tartaruga, o quadling ― ele foi assassinado bem aqui em Solos de Colwen, no dia em que Nessarose nasceu. Um anão itinerante e um enorme relógio de entretenimento mecânico estavam fazendo apresentações naquele ano, e oferecendo uma válvula de escape para as mais feias tendências humanas. Chegamos bem na hora em que Coração de Tartaruga estava sendo captu­rado. Nunca me perdoarei por não ter notado o que estava para acontecer ― mas sua mãe estava em trabalho de parto, e nós havíamos saído da cidade. Eu não estava pensando claro o bastante sobre coisa nenhuma.”

Elphaba já tinha ouvido falar de tudo isso ― ou de algo parecido. “Você estava apaixonado por ele”, ela disse, para facilitar as coisas.

“Nós dois estávamos, nós o compartilhávamos”, disse Frex. “Sua mãe e eu. Foi há muito tempo e eu não sei mais por quê; eu não acho que na época soubesse tampouco. Eu não amei ninguém desde que sua mãe morreu, exceto, claro, meus filhos.”

“Que brutal história de sacrifícios”, ela disse. “Eu estava conversando com uma Vaca que acha que será sacrificada. Isso é possível?”

“Quanto mais civilizados ficamos, mais horrendos se tornam nossos entretenimentos”, disse Frex.

“E isso nunca mudará, ou não? Eu me lembro da etimologia da palavra Oz, ao menos como foi explicada numa aula de nossa Diretora, Madame Morrible. Ela disse que os acadêmicos se inclinavam a localizar a raiz do termo no cognato gillikinês oos, que embute uma carga de significados re­lacionados a crescimento, desenvolvimento, poder, geração. Até ooze, com seu substantivo companheiro distante vírus, julga-se que pertence à mesma família. Quanto mais velha fico, mais acertada essa derivação me parece.”

“E, no entanto, o poeta da Ozíada chama isto de ‘Terra do verde aban­dono, terra da relva infindável.’ ”

“Poetas são tão responsáveis pela construção de um império quanto quaisquer outros trabalhadores.”

“Às vezes, sinto que daria qualquer coisa para ir-me embora daqui, mas tremo ao pensar numa viagem através das areias letais.”

“Isso é apenas uma lenda”, disse Elfinha. “Papai, você me ensinou que as areias não são mais letais que esses campos. Isso me faz lembrar outra teoria, a de que Oz estaria relacionada à palavra oásis. O que os povos nômades do norte pensavam de Gillikin, num tempo além da imaginação, quando Oz foi descoberta e fundada. Agora olhe, Papai, você não precisa fugir para tão longe. O Vinkus é praticamente um outro país. Por que você não volta comigo?”

“Eu adoraria, meu bem”, ele disse. “Mas, como poderia abandonar Nes­sarose? Eu nunca conseguiria.”

“Mesmo que ela não seja filha sua, mas do Coração de Tartaruga?”, ela disse, ferindo por estar ferida.

“Especialmente por isso”, ele respondeu.

E Elphaba entendeu que, por não saber ao certo se Nessarose fora ge­rada por ele ou por Coração de Tartaruga, Frex decidira de algum modo subconsciente que ela era filha dos dois. Nessarose era a prova de sua breve união ― sua e, obviamente, de Melena também. Não importava quão inváli­da Nessarose fosse; ela seria sempre, sempre mais que Elphaba. Ela sempre significaria mais.

Elphaba e Nessarose estavam no quarto de dormir de Nessarose. Uma criada servia um pouco de sopa feita de estômago de vaca. Elfinha, que não era normalmente enjoada, não conseguiu comê-la. A criada elegantemente colocou pequenas porções na boca de Nessinha com uma colher.

“Não vou fazer rodeios”, Nessarose disse. “Eu gostaria que você se unisse a mim aqui como uma irmã-em-armas, para liderar meu círculo de conse­lheiros e me substituir em minha ausência se eu viajar.”

“Eu não sou querida na terra de Munchkin, pelo que vi até aqui”, disse Elphaba. “O povo é cruel e impressionado por hipocrisias, a pompa do lugar é opressiva, e eu acredito firmemente que você está sentada num barril de pólvora.”

“Mais razão para você ficar e me ajudar”, disse Nessarose. “Não fomos ambas criadas com a expectativa de uma vida de trabalho?”

“Seus sapatos a tornaram forte”, disse Elfinha. “Eu não sabia que sapatos podiam fazer isso. Eu não acho que você precisa de mim. Mas não perca esses sapatos.” Ela pensou: Seus sapatos lhe dão um equilíbrio antinatural. Você fica parecida com uma serpente erguida a partir da cauda.

“É verdade que você se lembra como eles eram?”

“Sim, mas eu sei que Glinda os aprimorou com uma palavra mágica, ou coisa do gênero.”

“Oh, aquela Glinda! Que tipo!” Nessinha engoliu e sorriu. “Bem, você pode ficar com meus sapatos, minha querida ― passando sobre meu cadáver. Eu reescreverei meu testamento e os legarei para você. Embora eu mal possa imaginar o que eles fariam por você. Eles não me deram novos braços. Talvez sapatos encantados não consigam mudar a cor de sua pele, mas farão você tão atraente que isso nem chegará a ter importância.”

“Eu já estou velha demais para ser tão atraente.”

“Ué, você ainda está na aurora da vida, e eu também!”, disse Nessarose, rindo. “Conte-me se você tem algum namorado numa iurta ou tenda ou bar­raca ou o que quer que possa ser chamado de casa lá no Vinkus. Vamos lá.”

“Eu tenho cismado com uma coisa, desde que vi você fazer aquele feitiço nesta manhã”, Elfinha disse. “O feitiço no machado.”

“Oh, certo. Batatas pequenas, quero aquela.”

“Você por acaso se lembra daquela ocasião em Shiz quando Madame Morrible disse que estava nos enfeitiçando? E que não poderíamos conversar umas com as outras sobre isso?”

“Vá em frente. Parece familiar. Ela era tão sinistra, não era? Uma mestra em tirania.”

“Ela disse que tinha nos escolhido ― eu, você e Glinda ― para ser Adeptas. Para ser agentes de alguém lá do alto. Para ser feiticeiras e, não tenho certeza, cúmplices secretas. Ela prometeu que teríamos uma posição elevada e atuante. Ela nos fez pensar que não poderíamos nunca discutir isso entre nós.”

“Oh, sim, aquilo. Eu lembro mesmo. Que bruxa ela era.”

“Bem, você acha que há alguma verdade nisso? Você acha que ela tinha o poder de nos obrigar ao silêncio? De nos tornar poderosas feiticeiras?”

“Ela tinha o poder de nos assustar até perder o juízo, mas nós éramos jovens e muito estúpidas, se bem me lembro.”

“Eu tive a impressão, naquela ocasião, que ela estava em conluio com o Mágico, e que ela mandou a sua coisa tiquetaqueante ― Grommetik, o nome acabou de me voltar, a memória não é mesmo uma coisa estranha? ― matar o Doutor Dillamond.”

“Você vê demônios armados com facas atrás de qualquer cadeira, você sempre foi assim”, Nessarose disse. “Eu não acho que Madame Morrible ti­vesse qualquer poder real. Ela era uma mulher manipuladora, mas seu poder era muito limitado, e, em nossa ingenuidade, nós a víamos como uma vilã. Ela era apenas cheia de si.”

“Estou pensando. Tentei dizer alguma coisa sobre o acontecimento de­pois. Nós todas não desmaiamos?”

“Nós éramos inocentes e horrivelmente sugestionáveis, Elfinha.”

“E Glinda casou-se com o dinheiro, como Madame Morrible disse. Sir Chuffrey ainda está vivo?”

“Se aquilo pode ser chamado de vida, sim. E Glinda é uma feiticeira, não há dúvida quanto a isso. Mas Madame Morrible estava apenas fazendo prognósticos sobre nós; ela viu nossos talentos, o que era previsível em se tratando de uma educadora, e aconselhou-nos sobre como aproveitá-los da melhor maneira possível. O que há de tão surpreendente nisso?”

“Ela tentou nos aliciar para o serviço secreto de algum mestre desco­nhecido. Eu não estou inventando isso, Nessinha.”

“Ela sabia como chegar a você, obviamente, apelando para seu senso de conspiração. Eu não me lembro dessa sedução absurda.”

Elphaba caiu em silêncio. Talvez Nessinha estivesse certa. E, no entanto, aqui estavam elas, uma dúzia de anos depois: duas Bruxas, de um certo modo. E Glinda uma feiticeira de utilidade pública. Era o suficiente para fazer El­finha voltar para Kiamo Ko e queimar aquele Livro das Sombras, e queimar a vassoura também, devido a isso.

“Ela sempre lembrou uma carpa para Glinda”, disse Nessarose. “Você lá pode ficar assustada com um peixe, depois de todos esses anos?”

“Uma vez eu vi num livro o desenho de um monstro do lago, ou um monstro do mar, se você acredita em oceanos”, disse Elfinha. “Eu não posso ter certeza de que monstros existem, mas eu preferiria passar minha vida em dúvida do que ser convencida pela experiência real.”

“Você disse a mesmíssima coisa sobre o Deus Inominável uma vez”, disse Nessarose, surdamente.

“Oh, por favor, não vá começar com isso.”

“Uma alma é coisa valiosa demais para ser ignorada, Elfinha.”

“Bem, não é ótimo que eu não tenha nenhuma, então? Assim, não há nem desordem nem rebuliço.”

“Você tem uma alma. Todo mundo tem.”

“E quanto à Vaca que você permutou hoje, e as Ovelhas?”

“Eu não estou falando de ordens inferiores.”

“Esse tipo de conversa me ofende, Nessinha. Eu libertei aqueles Ani­mais hoje, você sabe.”

Nessarose deu de ombros. “Você tem alguns direitos aqui em Solos de Colwen. Eu não vou sair por aí proibindo suas missões com pequenos animais.”

“Disseram coisas bem horríveis sobre como os Animais estão sendo tratados aqui. Pensei que era apenas na Cidade Esmeralda e em Gillikin; de algum modo, achei que a Terra de Munchkin, sendo mais rural, teria mais senso comum.”

“Sabe?”, disse Nessinha, dando sinal para que a criada limpasse a sua boca com um guardanapo, “uma vez, num ofício de oração, eu conheci um soldado. Ele havia perdido um membro numa campanha contra alguns rebel­des quadlings. Ele dizia que toda manhã batia no coto que restara no lugar onde ficava seu braço. Seu sangue tinia, e daí a poucos minutos surgia uma sensação de formigamento, e, assim, ele desenvolveu uma espécie de membro fantasma. Não foi de imediato, e nem de forma física: o que ele recuperou foi um senso do que ele havia sentido. A coisa chegava ao cotovelo, e então a sua memória, sua memória corporal, dos membros em espaço tridimensio­nal, se expandia, finalmente, descendo até seus dedos. Assim que o membro fantasma era colocado em seu lugar, isto é, mentalmente, ele podia encarar o dia como um homem aleijado. Além disso, ele conseguira um maior equi­líbrio físico.”

Elphaba, sentindo-se mais e mais uma verdadeira Bruxa, olhava para a sua irmã, esperando pelo desfecho.

“Eu tentei por uns tempos. Por meses, na verdade. A Babá massageou minhas pequenas saliências no lugar. Depois de muito trabalho da parte da coitada, eu comecei a desenvolver apenas o começo de uma impressão de como seria ter braços. Isso nunca foi muito longe, até que Glinda encantou estes sapatos. Agora ― eu não sei por que, talvez sejam muito apertados e minha circulação reclame ―, depois de ficar com eles por uma hora, possuo braços fantasmas. Pela primeira vez em minha vida. Só não posso sentir os dedos por completo.”

“Membros fantasmas”, disse Elfinha. “Bem, fico feliz por você.”

“Sabe? Se você se esbofeteasse, espiritualmente falando”, disse Nessaro­se, “poderia desenvolver uma alma fantasma, ou alguma coisa que se parecesse com uma. É um bom guia interno, uma alma. Acho que você poderia até reconhecer que não seria um fantasma de todo ― seria uma alma real.”

“Isso basta, Nessinha”, disse Elphaba. “Eu não quero discutir minhas experiências espirituais com você.”

“Por que você não fica aqui comigo, entra para meu grupo, e a batiza­mos?”, disse Nessarose, calorosamente.

“A água é profundamente dolorida para mim, como você bem sabe, e não vou discutir isso novamente. Eu não posso fazer aliança com nada que seja Inominável. É uma falsidade.”

“Você está se condenando a uma vida de tristeza”, Nessarose disse.

“Bem, com isso eu já me acostumei, e assim ao menos não há nada que possa surgir de imprevisto e me surpreender.” Elfinha abaixou o guardana­po. “Eu não posso ficar aqui, Nessinha. Não posso ajudar você. Eu tenho responsabilidades com minha própria vida no Vinkus, o qual você mostrou ter pouquíssimo interesse em conhecer. Oh, tudo bem, eu sei, uma revolu­ção ocorreu e você virou uma nova primeira-ministra ou coisa parecida, e, de todo mundo, você é quem mais tem direito a estar distraída. Ou você aceita o fardo da liderança ou deixa a coisa de lado, mas nos dois casos veja isso como uma escolha consciente, e não como um acidente da história, um martírio por descuido. Eu me preocupo por você, mas eu não posso ficar e ser seu faz-tudo.”

“Eu fui desajeitada e sincera. Não exija que eu me lembre de como ser fraternal num tempo tão curto...”

“Você teve Shell com quem praticar nesses anos todos”, Elphaba disse, severamente.

“É só isso, você se levanta e vai embora?” Nessarose se levantou também, daquele modo sinuoso, excêntrico, que era o seu. “Depois de doze anos de separação, temos três, quatro dias de reencontro e fica por isso mesmo?”

“Cuide-se bem”, Elfinha disse, e beijou a sua irmã nas duas faces. “Eu sei que você será uma boa Eminência pelo tempo que quiser ser.”

“Eu rezarei por sua alma”, prometeu Nessarose.

“E eu esperarei por seus sapatos”, Elfinha respondeu.

No seu caminho de saída, Elfinha pensou em ir dizer adeus a seu pai, e então decidiu que não o faria. Ela dissera a ele tudo que poderia revelar de si mesma. Eles tinham-na assediado, ao modo claustrofóbico e afetuoso comum nas famílias, e ela não queria mais saber disso.


7
Tomando a rota do norte por sobre os Madeleines, ela percebeu que pas­saria pelo Lago Chorge. Decidiu fazer uma parada lá, a meio caminho de casa, estimulada por notar que estava realmente feliz por ter sido obrigada a voltar. Ela contornou a margem do lago, procurando pelo Capricho dos Pinhais, mas não pôde distinguir o lugar entre as muitas vilas do balneário que tinham se espalhado desde aquela visita que fizera em sua juventude.

Mas não era a terra visível o que ela realmente via. Era o mundo em sua amplidão. As características que ele parecia ter, o modo como se referia a si mesmo. Como é que Nessarose podia crer no Deus Inominável? Por trás de cada aspecto do mundo o que há é um outro aspecto do mundo. Num certo sentido, não era isso que o Doutor Dillamond pesquisara quando vivo? Ele imaginara uma nova criação verdadeira do mundo, defensável por provas e experiências; ele descobrira como localizá-la. Mas, ela não era uma visionária. Por trás do papel marmorizado azul e branco do lago, por trás da diluída seda do céu, Elphaba não via nada.

Nada sobre a crua matéria da vida: a estrutura muscular das asas dos anjos, a ação dos pequenos vasos capilares requerida para lançar um olhar fixo. Nem sobre os pegajosos temas do firmamento: nada sobre o bem, se o Deus Inominável seria de fato bom. Nada sobre o mal, também.

Pois, quem estava sob controle de quem, realmente? E isso poderia chegar a ser sabido? Cada agente trabalhava em cumplicidade e antagonis­mo ― como o frio e o sol juntos criando uma mortal lança de gelo... Seria o Mágico um charlatão, uma fraude, um déspota dotado de poderes apenas humanos e falíveis? Será que ele controlava as Adeptas ― Nessarose e Glinda, e uma terceira não nomeada, que certamente não era ela ― ou isso era apenas uma coisa que Madame Morrible atribuía a ele, para mitigar seu ego óbvio, seu apetite pela aparência do poder?

E Madame Morrible? E Yackle? Haveria alguma ligação entre elas? Se­riam a mesma pessoa, seriam ásperas divindades, avatares de um poder das trevas, fragmentos de carne venenosos arrancados do corpo demoníaco da Bruxa de Kumbric? Ou seriam elas ― juntas ou separadamente ― a própria velha Kumbricia, ou algo parecido que se presumiria ter sobrevivido à heróica era da mitologia nestes caóticos, limitados dias atuais? Elas governariam o Mágico, movimentando-o como uma marionete?

Quem estava sob o domínio de quem?

E, enquanto você espera para saber, a geleira mortal, formada por todas as forças antagônicas, cai e enfia sua garra gelada na carne penetrável.

Ela deixou as costas de pinheirais do Lago Chorge num estado de alta frustração e energia. Não tendo confiança para decidir sobre questões de hierarquia política ou teológica, sentia-se impelida a fuçar naquelas velhas anotações que recolhera do laboratório do Doutor Dillamond um dia depois que ele fora assassinado. Precisava de alguma coisa concreta sob a ponta de seus dedos. Uma lente de aumento, uma faca cirúrgica, uma sonda esteri­lizada. Talvez agora ela estivesse madura o suficiente para entender com o que ele estivera lidando. Ele fora um unionista essencialista; ela, uma ateísta principiante. Mas ela ainda poderia tirar algum proveito de seu trabalho, depois de todo este tempo.

O vento esteve a seu favor ao cruzar os penhascos mais baixos dos Grandes Kells. Daí em diante, ela encontrou mais dificuldades, tanto em loca­lizar o seu caminho quanto em manter o seu assento firme. Um bom número de vezes teve de desmontar e andar. Felizmente, não estava muito frio, e nos vales fechados ela avistou pequenos grupos de nômades, que a mantiveram trilhando na direção certa. Ainda assim, ela estava empenhada nesse retorno já havia duas semanas, mesmo com o auxílio de uma vassoura. De tardezinha, com o sol ainda quente e alto, se fosse comparado aos hábitos que tinha no inverno, ela moveu-se penosamente pelo caminho que levava aos últimos penhascos, com Kiamo Ko surgindo em seu estreito perfil negro bem lá em cima. Sentiu-se uma criança erguendo a cabeça para olhar o topo do chapéu de um homem muito alto. Ansiosa por evitar formalidades e rebuliços, contornou a aldeia. Sem a vassoura, essa aproximação seria quase impossível; tal como era, mesmo a vassoura dava sinais de estar esgotada com o esforço. Ela deu uma parada no pomar, aproximou-se da porta de trás, e achou-a aberta, o que significava que as irmãs estavam fora, colhendo flores ou alguma tolice assim.

O lugar estava silencioso. Ela pegou uma maçã escurecida do aparador e subiu os degraus de sua torre sem escorregar em nenhum. Quando passou pelo quarto da Babá, girou a maçaneta da porta e disse: “Bá?”.

“Oh,”, ouviu-se um gritinho, “você me assustou!”

“Posso entrar?”

“Um minutinho.” Ouviu-se o som de mobília sendo desencostada da porta. “Bem, esta foi uma bela bagunça, Senhorita Elphaba! Indo embora e largando a gente aqui para ser assassinada, ou coisa parecida!”

“Do que você está falando? Deixe-me entrar.”

“E não diga uma palavra. Você nos deixou loucas de preocupação...” A última peça de móvel foi arranhando o chão, e a Babá escancarou a porta. “Você, mulher medonha e ingrata!” Ela caiu pesadamente em seus braços e arrebentou em lágrimas.

“Por favor, já tive drama em dose suficiente para o resto da minha vida”, disse Elphaba. “O que está acontecendo com vocês?”

Levou algum tempo para a Babá se acalmar. À procura de sais aromá­ticos, fez uma busca minuciosa em sua mala, tirando dela pequenas garrafas e bolsas em quantidade suficiente para abrir seu próprio negócio de farma­cêutica. Havia ali frascos de vidro azuis, níveas caixas de pílulas, envelopes de pele de cobra contendo pós e pílulas, e uma bela garrafa de vidro verde que trazia um velho rótulo rasgado, ELIXIR MILA...

Ela ministrou-se agentes tranqüilizantes e, quando conseguiu respirar novamente, disse: “Bem, você sabe -―minha querida ― você deve ter visto, suponho, que todo mundo desapareceu?”.

Elphaba franziu as sobrancelhas, mergulhada em confusão. E num medo crescente, repentino.

A Babá tomou um fôlego profundo. “Agora, não fique brava com a Babá. Não é culpa dela. Aqueles soldados de repente decidiram que seus exercícios estavam concluídos. Eu não sei como, talvez Nor tenha contado a eles que você havia partido? Ela contou para nós; ela dera para andar furtivamente por aí, à procura de sua vassoura, e dissera que você não estava mais lá. Assim, pode ter mencionado isso para eles. Você sabe como eles eram bons para ela, como eles a adoravam. Os soldados vieram à porta da frente e disseram que tinham de escoltar a família inteira, Sarima e suas irmãs e Nor e Irji, de volta a seu campo de base, onde quer que ele fique. Eles não iam me requisitar, disseram, o que me pareceu de fato um insulto, e manifestei isso a eles. Sarima perguntou por que, e aquele belo Comandante Pedra Cereja disse que era para a própria proteção da família. Caso um batalhão de choque chegasse, ele disse, não era bom que houvesse ainda ali algum membro da família real, ou poderia ocorrer algum acidente sangrento.”

“Chegasse um batalhão? Quando?” Elfinha bateu no peitoril da janela com a mão aberta.

“Estou tentando lhe dizer. Não tão cedo, ele disse; isso é apenas plane­jamento antecipado. Eles ficaram insistentes. Dispersaram os camponeses na aldeia ― eu não acho que houve alguma morte, tudo parecia bastante humano exceto pelas correntes ― e só eu fui deixada para trás, sendo velha demais para descer uma montanha, e, ademais, sem relações. Também deixaram Liir, já que ele não era uma ameaça e acho que sentiam afeto por ele. Mas, alguns dias depois, ele também desapareceu. Estou certa de que estava se sentindo desesperadamente só, e deve tê-los seguido até o campo de base.”

“E ninguém protestou?”, gritou Elfinha.

“Não grite comigo. Claro que protestaram. Bem, Sarima desmoronou, apagando-se feito morta, e Irji e Nor ficaram tomando conta dela. Mas as irmãs, aquele bando desbocado, fizeram barricadas na sala de jantar e pu­seram fogo numa ala da capela, tentando chamar atenção, e Três bateu na mão do Comandante Pedra Cereja com uma pedra pontiaguda, e quebrou todos os ossos daquele pulso, aposto. Cinco e Seis bateram o sino, mas os pastores ficam muito longe, e tudo aconteceu depressa demais. Dois escreveu mensagens e tentou amarrá-las nas patas dos seus corvos, mas eles não alça­ram vôo, só ficaram empoleirados nos peitoris das janelas de novo, as velhas criaturas inúteis. Quatro teve uma grande idéia com óleo fervente, mas não conseguiram manter a chama alta o bastante. Oh, rolou uma bela perseguição aqui por um dia ou dois, mas é claro que os soldados venceram. Os homens sempre vencem.”

A Babá prosseguiu petulantemente: “E todas nós pensamos que eles tinham emboscado você antes de tudo, para tirá-la do caminho. Você é a única aqui que tem poder, todo mundo sabe disso. Todos eles pensam que você é uma Bruxa. Os aldeões me disseram que, se você voltasse, era para entrar em contato com o povoado de Moinho de Vento Vermelho lá pelas baixadas da barragem, você sabe qual. Eles acham que você pode resgatar a sua família real, sã e salva. Eu disse que isso era uma confiança equivocada, que você não estaria interessada, mas eu prometi a eles que passaria a mensagem a você, então, aí está”.

Elphaba andou de um lado para outro. Desatou seu cabelo do laço costumeiro e sacudiu-o, como se tentasse livrar-se do que estava escutando. “E Chistérico?”, ela disse, por fim.

“Agachado atrás do piano na sala de música, sem dúvida nenhuma.”

“Bem, esta é uma bela de uma embrulhada.”

Ela andou, sentou, socou seu queixo, deu um chute no urinol da Babá e quebrou-o. “Em que fria eu entrei’, ela resmungou. “Temos a vassoura. Temos as abelhas. Temos o macaco. Temos Matalegria ― eles machucaram o Ma­talegria? Então, temos Matalegria. Temos os corvos. Temos a Babá. Temos os moradores da vila, se não foram feridos. Temos o questionável Livro das Sombras. Não é muito.”

“Não, não é”, disse a Babá, suspirando. “Ruim, ruim, eu diria.”

“Nós podemos resgatá-los”, disse Elfinha. “Nós conseguiremos.”

“Conte com a Babá", disse a Babá, “embora eu nunca tenha gostado des­sas irmãs, confesso.”

Elfinha apertou os punhos e tentou não bater em si mesma. “Liir se foi também”, ela disse. “Vim aqui para pedir desculpas a Sarima, e em troca perdi o Liir. Será que não presto para nada nesta vida?”



Kiamo Ko estava mortalmente silenciosa, a não ser pelo penoso resso­nar da Babá ao tirar uma soneca na cadeira de balanço. Matalegria batia a cauda no chão, feliz por ver a sua dona. Além das janelas, o céu se abria amplo e desesperançado. Elphaba estava muito cansada, mas não conseguia dormir. Pois, de quando em quando, ela imaginava ouvir o som da água batendo de leve nas beiradas do poço dos peixes, como se o lendário lago subterrâneo estivesse subindo para tragá-los a todos.





1

Mais tarde, houve muita discussão sobre o que as pessoas pensavam que havia acontecido. O barulho parecia ter vindo de todos os cantos do céu de uma só vez.

Jornalistas, armados com o vernáculo e com as escrituras apocalípticas, atra­palharam-se e foram derrotados pela coisa. “Uma deliqüescência engolfadora de ar encanado, enlouquecido...” “Um vulcão do invisível, sombriamente construído...”

Para os adeptos da fé no prazer com paixões tiktokistas, era o som de artefatos mecânicos estirando suas cordas e funcionando em louca velocidade. Era a liberação da energia vingativa.

Para os essencialistas, parecia que o mundo havia repentinamente se descoberto farto demais da vida, com células se rachando aos bilhões, mo­léculas se desunindo até a aniquilação, átomos estremecendo e explodindo em seus invólucros.

Para os supersticiosos, era o desmoronar do tempo. Era o esvair-se do mundo numa força crepuscular, que tinha a intenção de golpear o mundo em seu âmago de uma vez por todas.

Para os religiosos mais tradicionais, era o ataque-relâmpago das legiões de anjos vingativos, o medonho nome do Deus Inominável revelando-se por fim ― surpresa ― e a evaporação de todas as esperanças de misericórdia.

Um ou dois fingiram pensar que eram esquadrões de dragões voadores no ar, preparados para o ataque, libertando o céu de suas amarras pelo bater das asas tripartidas.

No curso de destruição que a coisa causou, ninguém teve a ousadia ou coragem (ou a experiência prévia) para sustentar e clamar haver reconheci­do o ato de terror pelo que realmente era: um vento retorcido numa trança giratória.

Em resumo: um tornado.

Foram perdidas as vidas de muitos munchkineses ― junto com milhas quadradas de solo agrícola com centenas de ano de cultivo. Os deslocamentos das reservas de areia do deserto oriental engolfaram várias aldeias sem deixar traço, e não houve sobreviventes para contar a história de seu sofrimento. Rodopiando como algo que saísse de um pesadelo, o funil de vento entrou em Oz a trinta milhas ao norte de Ponta de Espato, e delicadamente contornou Solos de Colwen, deixando cada pétala de rosa intocada e cada espinho em seu devido lugar. O tornado retalhou o Cesto de Milho, devastando a base da economia da nação renegada, e foi se extinguindo, como se cumprisse um desígnio, não apenas no extremo oriental da amplamente defunta Estrada dos Tijolos Amarelos, mas também no lugar preciso ― o povoado de Munch Cen­tral ― onde, nos exteriores de uma capela local, Nessarose distribuía prêmios para o perfeito comparecimento às aulas de educação religiosa. A tempestade fez desabar uma casa em sua cabeça.

Todas as crianças sobreviveram para rezar pela alma de Nessarose no ofício em louvor à sua memória. O perfeito comparecimento nunca fora mais perfeito.

Houve um grande número de piadas sobre o desastre, naturalmente. “Você não pode se esquivar ao destino”, alguém disse, “aquela casa tinha seu nome gravado nele.” “Aquela Nessarose, ela estava fazendo um sermão tão bom sobre lições religiosas, que a casa realmente veio abaixo!” “Todo mundo precisa crescer e deixar o lar algum dia, mas às vezes O LAR NÃO GOSTA DA IDÉIA,” “Que diferença há entre uma estrela e uma casa cadente?” “Uma que seja propícia satisfaz desejos e concede delícias, outra que seja viciosa esmaga bruxas horrorosas.” “O que é grande, grosso, faz a terra se mover, e quer se aproximar de você?” “Eu não sei, mas você pode me apresentar?”

Um redemoinho de tais proporções nunca fora visto em Oz. Vários grupos terroristas reivindicaram a autoria, especialmente quando chegaram notícias de que a Malvada Bruxa do Leste ― também conhecida como Emi­nente Thropp, dependendo da filiação política de cada um ― havia sido traga­da. A princípio, nem todos entenderam que a casa tinha passageiros. A mera presença de uma casa de padrão exótico, despencando quase intacta sobre o palanque armado para os dignitários visitantes, era o bastante para aumentar a credulidade. Que criaturas humanas pudessem haver sobrevivido a uma tal queda ou era patentemente inacreditável ou era clara prova da mão do Deus Inominável no acontecimento. Previsivelmente, surgiram algumas pessoas cegas que de repente gritaram: “Eu posso ver!”. Um Porco aleijado que ficou em pé e dançou uma jiga, apenas para ser piedosamente levado embora ― essa espécie de coisa. A garota desconhecida ― ela se chamava Dorothy ― foi, em virtude de sua sobrevivência, elevada ao posto de santidade viva. O cão foi considerado apenas importuno.

2
Quando a notícia da morte prematura de Nessarose chegou a Kiamo Ko por pombo-correio, a Bruxa estava profundamente envolvida com uma cirurgia de espécies, costurando as asas de um Pássaro Roca macho de crista branca num músculo traseiro de uma de suas atuais crias da prole de macacos da neve. Ela tinha mais ou menos aperfeiçoado o procedimento, após anos de fracassos desajeitados e hediondos, quando a morte por misericórdia parecia a única coisa justa a fazer à criatura que deles fora objeto. Os velhos livros de escola de ciências da vida, do curso do Doutor Nikidik, pertencentes a Fiyero, deram-lhe algumas orientações. O Livro das Sombras também fora de ajuda, se é que ela o estava lendo corretamente: ela descobrira feitiços que tinham a finalidade de convencer os nervos axiais a pensar em direção ao céu e não em direção às árvores. E, assim que conseguiu acertar, os macacos de asas pareceram ficar bem felizes com seu quinhão. Era coisa ainda por ser vista uma macaca da nova população gerar um bebê dotado de asas, mas ela conservava as suas esperanças.

Seguramente, os bichos aprenderam melhor a voar que a usar a lingua­gem. Chistérico, agora um patriarca no zoológico do castelo, estacionara nas palavras de uma sílaba, e ainda parecia não ter uma idéia clara do que estava dizendo.

Foi Chistérico, na verdade, quem levou a carta trazida pelo pombo à sala de cirurgia de Elphaba. A Bruxa o teve ao lado, segurando o cortador de folhas, enquanto virava a página. A breve mensagem de Shell falava a respeito do tornado e a informava da cerimônia em honra à memória da irmã, que fora programada para várias semanas mais tarde na esperança de que ela recebesse a mensagem a tempo de comparecer.

Ela pôs a mensagem de lado e voltou ao trabalho, expulsando de sua mente a aflição e o remorso. Era um trabalho cheio de manhas, a anexação de asas, e o sedativo que ela ministrara a este macaco não duraria a manhã toda. “Chistérico, é hora de ajudar a Babá a descer as escadas, e encontrar Liir se você puder, e dizer a ele que precisamos conversar na hora do almoço”, ela disse, rangendo os dentes, olhando de novo para seus próprios diagramas para se assegurar de que arrumara corretamente, da frente para trás, a superposi­ção dos grupos musculares.

Agora, era uma proeza quando a Babá conseguia chegar à sala de jantar uma vez ao dia. “Este é meu trabalho, isto e dormir, e a Babá faz os dois muito bem”, ela dizia todo meio-dia ao chegar, faminta devido aos esforços que tinha de fazer nas escadas. Liir trazia o queijo e o pão e o ocasional acompanhamen­to frio, que os três cortavam e mordiscavam, em geral de um modo insociável, antes de se atirarem às suas tarefas vespertinas.

Liir estava com quatorze anos, e insistiu que queria ir com a Bruxa para Solos de Colwen. “Eu nunca fui a lugar nenhum, exceto aquela vez com os soldados”, ele se queixou. “Você nunca me deixa fazer nada.”

“Alguém tem de ficar e tomar conta da Babá”, disse a Bruxa. “Não vai resolver nada a gente discutir isso agora.”

“Chistérico pode cuidar dela.”

“Chistérico não pode. Ele está ficando esquecido, e ele com a Babá seria o mesmo que botar fogo na casa e derrubá-la. Não, não há mais nada a dis­cutir, Liir; você não vai. Além disso, eu vou viajar em minha vassoura, acho, para chegar a tempo.”

“Você nunca me deixa fazer nada.”

“Você pode fazer a faxina.”

“Você sabe o que eu quero dizer.”

“Do que ele está reclamando agora, meu doce?”, perguntou a Babá em voz alta.

“De nada”, disse a Bruxa.

“O que é isso que você está dizendo?”

“Nada.”

“Você não vai contar para ela?”, disse Liir. “Ela ajudou a criar a Nessa­rose, não ajudou?”



“Ela é velha demais, ela não precisa saber. Ela tem oitenta e cinco anos, isso só vai perturbá-la.”

“Babá”, disse Liir, “Nessinha morreu.”

“Cale-se, moleque inútil, antes que eu arranque seus testículos com meu pé.”

“Nessinha fez o quê?”, berrou a Babá, com os olhos úmidos a fitá-los.

“Mesmo morreu morta”, entoou Chistérico.

“Fez o quê?”

“Nessinha MORREU”, disse Liir.

A Babá começou a chorar com a idéia mesmo antes de confirmá-la. “Isso pode ser verdade, Elfinha? Sua irmã está morta?”

“Liir, você vai me pagar por esta”, disse a Bruxa. “Sim, Bá, não posso mentir para você. Houve uma tempestade e um prédio desmoronou. Ela se foi placidamente, dizem.”

“Ela foi direto para o seio de Lurlina”, disse a Babá, soluçando. “A car­ruagem de ouro de Lurlina veio para levá-la de volta para casa.” Ela deu uma palmadinha no pedaço de queijo de seu prato, inexplicavelmente. Depois, passou manteiga num guardanapo e deu uma mordida. “Quando partiremos para o funeral?”

“Você é velha demais para viajar, querida. Eu parto dentro de alguns dias. Liir vai ficar e cuidar de você.

“Não vou, não”, disse Liir.

“Ele é um bom menino”, disse a Babá, “mas não tão bom quanto Nes­sarose. Oh, dia miserável! Liir, eu vou tomar meu chá no meu quarto, eu não posso ficar aqui e conversar com vocês como se nada tivesse acontecido.” Ela ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na cabeça de Chistérico. (O macaco era devotado a ela.) “Você sabe, querida”, ela disse à Bruxa, ‘Eu não acho que o menino tenha idade suficiente para perceber as minhas necessidades. E se o castelo for atacado novamente? Lembre-se o que aconteceu da última vez que você viajou.” Ela fez uma pequena careta acusadora.

“Bá, a milícia arjiki guarda este lugar dia e noite. O exército do Mágico está bem alojado na cidade de Moinho de Vento Vermelho lá embaixo. Eles não têm intenção de deixar aquele porto seguro e arriscar a aniquilação nesses desfiladeiros ― não depois do que fizeram. Aquela foi a escaramuça, aquela foi a missão deles. Agora, são apenas cães de vigia. Há auxiliares no posto da fronteira para informar se há sinais de invasão ou problema com os clãs das montanhas. Você sabe disso. Não há nada a temer.”

“Sou velha demais para ser levada em correntes como a pobre Sarima e a sua família”, a Babá disse. “E como você poderia me resgatar, se você não pôde trazê-los de volta?”

“Eu ainda estou trabalhando nisso’, disse a Bruxa no ouvido esquerdo da Babá.

“Sete anos. Você é muito teimosa. Minha opinião é que eles estão viran­do pó num túmulo só, nesses sete longos anos. Liir, você tem de dar graças a Lurline por não ter ficado com eles.”

“Eu tentei resgatá-los”, disse o obstinado Liir, que havia reescrito a fuga em sua própria mente para dar a si mesmo um papel mais heróico nela. Não era a saudade da companhia dos soldados, ele dizia a si mesmo, não, era o corajoso esforço de tentar salvar a família! Na verdade, o Comandante Pe­dra Cereja, com sua amabilidade, mantivera Liir amarrado e o deixara num saco no estábulo de alguém, para evitar que o tivessem de encarcerar com os outros. O Comandante não havia percebido que Liir era o filho bastardo de Fiyero, já que nem o próprio Liir sabia disso.

“Sim, bem, esse é um bom menino.” A Babá estava agora esquecida das tristes notícias, voltando a sua atenção para a tragédia que ela lembrava mais visceralmente. “Claro que fiz tudo que pude, mas a Babá era uma mulher idosa já naquela época. Elfinha, você acha que eles estão mortos?”

“Eu não descobri nada”, disse a Bruxa pela décima-milésima vez. “Se foram seqüestrados e levados para a Cidade Esmeralda ou se foram assassi­nados. Não consegui apurar. Você sabe disso, Bá. Subornei gente. Espionei. Contratei agentes para seguir toda a rota. Escrevi para a Princesa Nastoya dos Scrows para ouvir um conselho. Passei um ano seguindo toda pista falsa que surgiu. Você sabe disso. Não me torture com a lembrança de meu fracasso.”

“Foi fracasso meu, tenho certeza”, disse a Babá pacificamente; eles todos sabiam que ela não pensava assim em momento algum. “Eu devia ser mais jovem e vigorosa. Eu teria dito àquele Comandante Pedra Cereja o que eu pensava! E agora Sarima desapareceu, desapareceu, e suas irmãs também. Suponho que não seja falha nossa, realmente”, ela concluiu menos engenho­samente, lançando um olhar severo sobre a Bruxa. “Você tinha um lugar para ir, portanto, foi; quem pode criticar você por isso?”

Mas a imagem de Sarima acorrentada, Sarima como um cadáver em decomposição, ainda negando à Bruxa o perdão pela morte de Fiyero ― era tão dolorida quanto a água para ela. “Sai pra lá, velha megera”, disse a Bru­xá, “minha própria família deve me fustigar desse jeito? Vá tomar seu chá, demônio.”

A Bruxa se sentou, enfim, e pensou em Nessarose, e no que estava por vir. Ela tentara ficar alheia aos negócios do mundo político, mas sabia que uma mudança de liderança na terra de Munchkin poderia desequilibrar as coisas ― talvez até com resultado positivo. Sentia uma culposa leviandade em relação à morte da irmã.

Fez uma lista de coisas a levar para a cerimônia de louvor à memória de Nessarose. A primeira delas era uma página do Livro das Sombras. Em seu quarto, estudou cuidadosamente o enorme tomo mofado, e finalmente arrancou dele uma página especialmente misteriosa. Suas letras ainda con­tinuavam a se contorcer sob seus olhos, por vezes se misturando e se remis­turando, como se fossem formadas por uma colônia de formigas. Toda vez que ela olhava para o livro, emergia de uma página um sentido que no dia anterior havia sido não mais que ilegíveis ciscadas de galinha; e por vezes o sentido desaparecia assim que ela fixava os olhos. Ela indagaria seu pai, que, com seus olhos santos, enxergaria melhor a verdade.


3
Solos de Colwen estava coberta por cortinas negras e por bandeiras roxas. Quando a Bruxa chegou, foi saudada por um pouco acolhedor comitê de um homem só, um munchkinês barbudo chamado Nipp, que parecia encar­nar a um só tempo as funções de porteiro, zelador e ativo Primeiro-Ministro. “Sua linhagem não mais lhe permite quaisquer liberdades particulares na terra de Munchkin”, foi-lhe dito. “Com a morte de Nessarose, o título hono­rífico de Eminência foi enfim abolido.” A Bruxa não se importou muito, mas, por natureza, não era dada a aceitar uma sentença unilateral sem uma réplica. Ela respondeu: “Estará abolido quando eu decidir que está abolido”. Não que o honorífico fosse muito usado nos anos recentes; segundo a carta por vezes divagadora que ela recebera de Frex, Nessarose começara a se divertir com o estigma de “Maléfica Bruxa do Leste”, e o considerava uma penitência pública digna de uma pessoa com tanta elevação moral. Ela dera até mesmo para referir-se a si mesma daquela forma.

Nipp levou-a a seus aposentos. “Eu não preciso de muito”, disse a Ma­léfica Bruxa do Oeste (como, em contraste, ela permitiu-se ser chamada, ao menos por esses presunçosos munchkineses). “Uma cama por alguns dias, e gostaria de ver o meu pai e ir à cerimônia. Eu pegarei algumas coisas, e irei embora em breve. Agora, você sabe se nosso irmão, Shell, estará aqui?”

“Shell desapareceu de novo”, disse Nipp. “Ele deixou suas saudações, para que eu lhe retransmitisse. Há no Glikkus uma missão de que ele está incumbido, coisa que não pode esperar. Alguns daqui pensam que ele está é desertando, preocupado com uma mudança no governo, agora que a tirana morreu. E ele faz bem em se preocupar”, ele acrescentou friamente. “Você precisa de toalhas?”

“Eu não as uso”, disse a Bruxa. “Está tudo certo. Vá embora agora.” Ela estava muito cansada, e triste.

Aos sessenta e três anos, Frex estava mais calvo, e com a barba mais branca do que estivera na última vez em que ela o vira. Seus ombros se ar­queavam, como se tentassem encontrar um ao outro, sua cabeça afundava numa cavidade natural formada por uma espinha dorsal e um pescoço de­teriorados. Ele estava sentado na varanda, debaixo de um cobertor. “E quem é esta?”, ele disse quando a Bruxa subiu e sentou-se perto dele. Ela percebeu que sua vista estava arruinada.

“É sua outra filha, Papai”, ela disse, “aquela que partiu.”

“Fabala”, ele disse, “o que farei sem minha bela Nessarose? Como viverei sem meu bichinho?”

Ela segurou sua mão até que ele caiu no sono, e enxugou seu rosto, embora suas lágrimas ardessem em sua pele.

Os munchkineses libertados estavam destruindo a casa. A Bruxa não era dada a enfeites, mas parecia uma vergonha arruinar uma propriedade desse jeito. A profanação tinha vistas tão curtas; eles não sabiam que, não importava como houvessem decidido viver agora, Solos de Colwen poderia ser o prédio de seu parlamento?

Ela ficou ao lado do pai por algum tempo, mas eles não falaram mui­to. Numa manhã, quando ele estava mais alerta e enérgico que de costume, perguntou a ela se realmente era uma bruxa. “Oh, bem, o que é uma bruxa? Quem alguma vez confiou na linguagem nesta família?”, ela respondeu. “Pa­pai, você daria uma olhadinha numa coisa para mim? Você me dirá o que viu?” Ela tirou de um bolso escondido a página do Livro das Sombras e desdobrou­-a como um grande guardanapo em seu colo. Ele passou suas mãos sobre ela, como se pudesse apreender significados com a ponta dos dedos, e depois aproximou-a dele, perscrutando e olhando com os olhos apertados.

“O que você vê?”, ela perguntou. “Pode me revelar a natureza desse es­crito? É para o bem ou para o mal?”

“As inscrições são bastante claras, e amplas. Acho que sou capaz de entendê-las.” Ele virou a página de ponta-cabeça. “Mas, pequena Fabala, não consigo ler este alfabeto. É numa língua estrangeira. Você consegue?”

“Bem, de vez em quando eu me sinto capaz, mas é uma habilidade passageira”, disse a Bruxa, “não sei se são meus olhos ou é o manuscrito que está me pregando peças.”

“Você sempre teve olhos poderosos”, disse seu pai. “Mesmo quando en­gatinhava, você conseguia ver coisas que ninguém via.”

“Hah”, ela disse, “eu não sei o que você quer dizer com isso.”

“Você tinha um espelho que Coração de Tartaruga fez para você, e você olhava nele como se pudesse ver outros mundos, outros tempos.”

“Talvez eu estivesse olhando para mim mesma.”

Mas ambos sabiam que isso não era verdade, e Frex, pela primeira vez, disse isso. “Você não olhava para você mesma”, ele disse, “porque odiava isso. Você odiava a sua pele, suas feições pontiagudas, seus olhos estranhos.”

“Onde foi que aprendi esse ódio?”, ela perguntou.

“Ao nascer, você já o conhecia”, ele disse. “Era uma maldição. Você nasceu para amaldiçoar a minha vida.” Ele bateu de leve em sua mão, afetuosamente, como se não quisesse dizer nada de grave com isso. “Quando você perdeu seus estranhos dentes de bebê, e sua segunda dentição veio normalmente, nós todos nos tranqüilizamos um pouco. Mas nos dois primeiros anos ― até que Nessarose nascesse ― você era um monstrinho. Só quando a santa Nessarose foi dada a nós, até mais prejudicada que você, foi que você se estabilizou como uma criança normal.”

“Por que rogaram pragas para que eu fosse diferente?”, ela disse. “Você é um homem santo, você deve saber.”

“Você é meu fracasso”, ele disse. A despeito de suas palavras, ele estava atribuindo culpa mais a ela que a ele mesmo, embora ela não fosse ainda perspicaz o bastante para perceber como isso era feito. “Pelo que eu fracassei em fazer, você nasceu para me amaldiçoar. Mas, não se preocupe com isso agora”, ele acrescentou, “foi há tanto tempo.”

“E Nessarose?”, ela perguntou. “As ponderações e os balanços da vergo­nha e da culpa a afetaram em quanto?”

“Ela é um retrato da moral frouxa de sua mãe”, Frex disse, calmamente.

“E essa é a razão por que você podia amá-la tanto”, disse a Bruxa. “De­vido à fraqueza humana de mamãe não ser culpa sua.”

“Não leve a sério assim, você sempre agrava as coisas”, Frex disse. “E agora ela está morta, então, que mais importa?”

“Minha vida continua a existir.”

“Mas a minha está se esvaindo”, ele respondeu, tristemente. Assim, ela pôs a mão dele de volta no colo, e o beijou afetuosamente, e voltou a dobrar a página do Livro das Sombras e a enfiá-la em seu bolso. Então, virou-se para cumprimentar a pessoa que se aproximava deles, vinda pelo gramado. Ela pensou que era alguém trazendo o chá (Frex concordara em receber um certo número de privilégios, devido à sua idade e à brandura, e, ela supunha, à sua vocação), mas ela se levantou e baixou a frente de sua tosca saia negra quando viu quem era.

“Senhorita Glinda dos Arduennas”, ela disse, com o coração zumbindo.

“Oh, você veio, eu sabia que você viria”, disse Glinda. “Senhorita Elpha­ba, a derradeira e verdadeira Eminente Thropp, não importa o que digam por aí!”

Glinda se aproximou lentamente, devido à idade ou à timidez, ou por­que seu ridículo traje pesava tanto que era difícil para ela obter fôlego su­ficiente para passadas largas. Ela parecia um arbusto repleto de frutinhas “glindinescas”, foi tudo que a Bruxa pôde pensar; debaixo daquela saia devia haver uma anquinha do tamanho da cúpula da igreja de Santa Florix. Havia lantejoulas e debruns de pele e uma espécie de História de Oz, ao que parecia, bordada em pesponto nos seis ou sete panos ovóides em volta da saia toda. Mas, quanto ao rosto: debaixo da pele empoada, das rugas sob as pálpebras e a boca, havia a expressão de uma tímida colegial das Colinas de Pertha.

“Você não mudou nem um tiquinho”, disse Glinda. “Este é o seu pai?”

A Bruxa concordou, mas fez com que ela se calasse; Frex tinha apagado outra vez. “Venha, caminharemos nos jardins antes que eles arranquem as rosas com alguma heróica tentativa de erradicar a injustiça.” A Bruxa tomou o braço de Glinda. “Glinda, você está horrível com essas roupas. Pensei que você adquirira alguma sobriedade, ultimamente.”

“Quando nas províncias”, ela disse, “você tem de mostrar um pouco de estilo a esses caipiras. Não acho que está tão mal assim. Ou será que os sinos de seda no ombro não serão um pouquinho excessivos demais?”

“Excessivos sim”, concordou a Bruxa. “Alguém que vá correndo pegar as tesouras; isso é um desastre.”

Elas riram. “Minha querida, o que fizeram com este antigo lugar gran­dioso”, disse Glinda. “Olhe, aqueles frontões triangulares foram feitos para dar suporte a urnas mortuárias, e aqueles slogans revolucionários estão pintados por todo esse primoroso mirante. Espero que você tome alguma providência aqui, Elfinha. Não há um mirante que se compare a este fora da capital.”

“Eu nunca tive um amor à arquitetura como o seu, Glinda”, disse a Bru­xa. “Eu só leio os slogans: ELA PISOU EM NÓS. Por que eles não deviam pintar isso por todo o mirante? Se ela na verdade pisou em todos eles?”

“Tiranos vêm e vão, mirantes são eternos”, disse Glinda. “Eu posso lhe recomendar os mais finos restauradores no momento que você pedir.”

“Eu soube que você foi dos primeiros a aparecer”, disse a Bruxa, “quando Nessarose morreu. Como foi que isso aconteceu?”

“Sir Chuffrey ― meu maridinho ― tem alguns investimentos em ações no negócio de carne de porco, você sabe, e a Terra de Munchkin está tentando diversificar sua base econômica a fim de não ficar à mercê dos bancos de Gilli­kin e da Bolsa de Cereais da Cidade Esmeralda. Nunca se sabe que espécie de relação poderá se desenvolver entre a Terra de Munchkin e o resto de Oz, e é melhor ficar preparado. Assim, onde Sir Chuffrey faz negócios, eu faço filantropia. É uma parceria celestial. Sabe que tenho mais dinheiro até do que posso gastar?” Ela riu afetadamente e apertou o braço da Bruxa. “Eu nunca imaginei que fazer caridade pública fosse render tamanho progresso.”

“Então, você estava aqui, na terra de Munchkin?”

“Sim, eu fui a um orfanato nas praias de Mossmere, e por farra pensei em dar um passeio num parque de diversões ― há dragões por lá agora, e eu nunca vira um dragão ― então, eu estava a menos que doze milhas de distância quando a tempestade veio. Até lá tivemos ventos terríveis; não con­sigo imaginar como uma cerimônia poderia estar transcorrendo em Munch Central naquele momento. Em Mossmere, vários segmentos do parque foram fechados para os visitantes devido ao temor de que árvores caíssem e Animais fugissem...”

“Oh, então chamam a coisa de parque de diversões, com Animais?”, disse a Bruxa.

“Você deve ir, querida, é uma curtição. Bem, como eu dizia, a casa caiu como um raio em céu azul, e acho que digo isso literalmente ― se tivessem pressentido uma grande tempestade, certamente teriam cancelado o evento e corrido para um abrigo. De todo modo, o serviço de informações está muito avançado agora em algumas partes da Terra de Munchkin; Nessarose em pessoa supervisionou a criação de um sistema de faróis e sinais de código tiquetaqueantes, para alertar quanto a invasões do Mágico e problemas a oeste. Então, foi só uma questão de minutos para que as notícias fossem enviadas em todas as direções. Eu peguei uma Fênix Madura e pedi a ela que me trouxesse a Munch Central, e cheguei antes que os nativos tivessem entendido direito o que os atingira.”

“Fale-me disso”, disse a Bruxa.

“Você ficará satisfeita em saber que não houve sangue. Arrisco imaginar que houve maciços ferimentos internos, mas não houve sangue. Claro que os derradeiros poucos seguidores devotos de Nessarose acharam que isso quis dizer que seu espírito subiu intacto ao céu, e que ela sofreu pouco. Eu não imagino que ela tenha sofrido muito, não com aquele tipo de pancada na cabeça. Seus seguidores mais infelizes, que eram em maior número, acha­ram que era um ato gozador de Lurlina, libertando-os da forma particular de servidão fundamentalista a que Nessarose os submetia. Houve festança quando eu cheguei, e muita saudação para a garota e o cachorro que parecem ter morado na casa.

“Oh, quem é essa?”, disse a Bruxa, que não soubera dessa parte.

“Bem, você sabe como os munchkineses fazem mesura e rasgam seda, apesar de suas inclinações democráticas. Tão longo eu cheguei, já foram me paparicando, apresentando-me como uma bruxa. Tentei corrigi-los, uma fei­ticeira é realmente muito mais adequado, mas, deixa pra lá. Não houve dúvida quanto ao meu traje, ele os intimidou. Eu vestia um costume rosa-salmão naquele dia, e ele realmente combinava bem comigo.”

“Continue”, disse a Bruxa, que nunca gostara de conversas sobre rou­pas.

“Bem, a criança se apresentou: Dorothy do Kansas. Eu não conhecia o lugar, e disse a verdade. Ela parecia tão surpresa quanto os outros com o que acontecera, e ela tinha um cãozinho nojento latindo em seus calcanhares. Tatá ou Totó ou algo assim. Totó. Então, essa Dorothy estava em alguma espécie de estado de choque, posso lhe garantir. Uma garotinha bem grosseira, com pouco gosto para se vestir, mas suponho que na vida alguns só adquiram isso mais tarde.” Ela olhou de lado para a Bruxa. “Muito mais tarde, em alguns casos.” E as duas riram muito com aquilo.

“Dorothy supôs que devia tentar voltar para a sua casa, mas, como ela não conseguia lembrar se havia estudado alguma coisa sobre Oz na escola, nem eu recordar um lugar chamado Kansas, concluímos que ela deveria pro­curar ajuda em outro lugar. Os volúveis munchkineses pareciam dispostos a nomeá-la sucessora de Nessinha, o que teria enraivecido Nipp e todos aqueles ministros de Solos de Colwen que passaram suas carreiras manobrando para alcançar posições quando e se Nessarose estivesse para morrer. Além disso, devem estar acontecendo outros desdobramentos. Dorothy deve ter pegado o seu caminho.”

“Um olho para assuntos públicos, bem, não estou assim tão surpresa”, disse a Bruxa, na verdade completamente satisfeita. “Eu sempre soube que você devia estar fazendo isso em algum lugar, Glinda.”

“Bem, eu achei que o melhor procedimento seria tirar Dorothy da Terra de Munchkin antes que uma guerra civil tornasse esse lugar mais dividido do que já é. Há facções, você sabe, que apóiam a reanexação da Terra de Mun­chkin por Oz. Não faria nenhum bem à garota ser posta no fogo cruzado de interesses antagônicos.”

“Oh, ela não está aqui?”, disse a Bruxa. “Eu pensei que iria conhecê-la.”

“Dorothy? Agora você não vai se virar contra ela, vai?”, disse Glinda. “Ela é uma criança, na verdade. Grande pelos padrões munchkineses, é claro, mas uma coisinha atarracada, apesar disso. Ela é uma inocente, Elfinha; eu vejo pelo brilho em seu olhar que você está ficando tomada por sua velha mania paranóica outra vez. Ela não estava pilotando a casa, você sabe, ela estava presa nela. Esse é o tipo de luta em que você faria melhor não se intrometendo.”

A Bruxa suspirou. “Você pode estar certa. Você sabe, estou ficando acos­tumada a endurecer os músculos de manhã. Às vezes acho que a vingança é uma questão de formação de hábito também. Um endurecimento da atitude. Continuo tendo esperança que o Mágico será derrubado enquanto eu ainda for viva, e essa aspiração parece avessa à felicidade. Suponho que não possa ficar querendo me vingar da morte de uma irmã com quem eu nem me dava tão bem.”

“Especialmente se a morte foi um acidente”, Glinda disse.

“Glinda”, disse a Bruxa. “Sei que você deve se lembrar de Fiyero, e deve ter sabido de sua morte. Há quinze anos.”

“Claro”, disse ela. “Bem, eu soube que ele morreu, em circunstâncias misteriosas.”

“Eu conheci a sua esposa”, disse a Bruxa, “e suas cunhadas. Alguém me insinuou uma vez que ele estava tendo um caso com você na Cidade Esmeralda.”

Glinda ficou amarelo-rosa. “Minha cara”, ela disse. “Eu apreciava Fiyero e ele era um bom homem e um correto estadista. Mas, entre outras coisas, você deve se lembrar que ele tinha pele escura. Mesmo que eu fosse dada a flertar ― uma tendência que acho que raramente traz benefícios a uma pessoa ― você está outra vez sendo desconfiada e ranzinza ao suspeitar de mim com Fiyero! Que idéia!”

E a Bruxa percebeu, humilhada, que isso era certamente verdadeiro; a feia habilidade para o esnobismo estava renascendo em Glinda em seus anos maduros.

Mas, pelo seu lado, Glinda não tinha uma suspeita real de que a Bruxa a estivesse implicando no amor adúltero de Fiyero. Glinda era espalhafatosa demais para ouvir uma coisa dessas atentamente. A Bruxa, na verdade, a alar­mava um pouco. Não era apenas pela novidade de vê-la novamente, mas pelo estranho carisma que Elphaba possuía, capaz de sempre colocá-la em plano secundário. Também havia a empolgação, de fundo indefinível, que tornava Glinda tímida, e a fazia se precipitar em suas palavras, e falar numa falsa voz alta, como uma adolescente. Como alguém pode ser lançado rapidamente de volta à terrível incerteza de sua juventude!

Pois, quando ela escolheu lembrar-se de sua juventude toda, conseguiu trazer à memória uma vaga recordação daquele audacioso encontro com o Mágico. Ela pôde lembrar com mais clareza como ela e Elphaba tinham di­vidido uma cama na estrada para a Cidade Esmeralda. Como aquilo a fizera sentir-se corajosa, e como a deixara vulnerável também.

Elas caminharam por um trecho num silêncio inquieto.

“As coisas devem começar a melhorar agora”, disse a Bruxa, um pouco depois. “Quero dizer que a Terra de Munchkin ficará bagunçada só por algum tempo. Um tirano é uma coisa terrível, mas ele ou ela impõe uma ordem. A anarquia que vem depois da deposição de um tirano pode ser mais sanguiná­ria que a anterior. No entanto, as coisas podem se ajeitar. Papai sempre dizia que, quando deixados a si mesmos, os munchkineses tinham uma grande capacidade de senso comum. E Nessinha era, para efeitos práticos, uma es­trangeira. Ela foi criada no Estado de Quadling e, você sabe, ela pode ter sido metade quadling, como vim a saber. Ela foi uma rainha estrangeira nesta terra, apesar do título que herdou. Com seu desaparecimento, os munchkineses podem dar um jeito em si mesmos.”

“Que a alma dela seja abençoada”, disse Glinda. “Ou você ainda não acredita em alma?”

“Não posso fazer comentários sobre as almas dos outros”, disse a Bruxa.

Caminharam um pouco mais. Aqui e ali a Bruxa via, como antes, os totêmicos homens de palha, presos em túnicas, e erguidos como efígies nos cantos dos campos. “Eu os acho um pouco sinistros”, ela disse a Glinda. “Ago­ra, uma outra coisa que eu quero lhe perguntar; e eu perguntei isso a Nessa uma vez. Você se lembra de Madame Morrible encurralando-nos em sua sala de visitas, e propondo que nos tornássemos três Adeptas, três altas bruxas de Oz? Uma espécie de sacerdotisas locais, formulando um plano de ação pública por trás dos bastidores, contribuindo para a estabilidade ― ou a ins­tabilidade ― de Oz tal como era exigida por alguma indefinida autoridade mais elevada?”

“Oh, aquela farsa, aquele melodrama, como poderia esquecer?”, disse Glinda.

“Eu me pergunto se não fomos enfeitiçadas naquela ocasião? Você se lembra, ela disse que não poderíamos falar daquilo, e não parecia que pu­déssemos?”

“Bem, estamos falando a respeito, então, se havia alguma verdade na coisa, do que duvido, está certamente sem efeito, agora.”

“Mas, olhe o que aconteceu com a gente. Nessarose se tornou a Ma­léfica Bruxa do Leste ― você sabe que era assim que a chamavam, não finja ficar tão chocada ― e eu tenho uma fortaleza no Oeste, e parece que estou arregimentando os arjikis em torno de mim, à força de a família governante estar ausente ― e aí está você, bem estabelecida no Norte com suas contas bancárias e seus lendários talentos para a feitiçaria.”

“Lendários coisa nenhuma; quanto a isso, creio que sou admirada nos círculos apropriados”, disse Glinda. “Agora, minha memória é tão boa quanto a sua. E Madame Morrible propôs que eu fosse uma Adepta de Gillikin, mas que você fosse uma Adepta na Terra de Munchkin, e Nessa fosse uma Adepta no Estado de Quadling. Com o Vinkus ela nem se importava. Se ela estava vendo o futuro, via errado. Ela viu você e Nessa de forma totalmente errada.”

“Esqueça os detalhes”, disse a Bruxa acidamente. “Eu só quero dizer, Glinda, será que é possível que estejamos vivendo nossas vidas adultas por inteiro debaixo do feitiço lançado por alguém? Como poderíamos notar se fôssemos os peões do jogo mais obscuro de alguém? Eu sei, eu sei, eu posso ver no seu rosto: Elfinha, você está farejando teorias de conspiração outra vez Mas você estava lá. Você ouviu o que eu ouvi. Como você sabe se sua vida não tem sido manipulada pelos fios de alguma mágica maligna?”

“Bem, eu rezo bastante”, disse Glinda, “não com muita convicção, eu admito, mas eu tento. Acho que o Deus Inominável teria piedade de mim e me daria o benefício da dúvida, e me libertaria de algum feitiço, se eu aciden­talmente fosse enfeitiçada. Você não? Ou você ainda é tão atéia?”

“Eu sempre me senti como um joguete”, disse a Bruxa. “A cor de minha pele foi uma maldição, meus pais missionários me tornaram abstêmia e pas­sional, meus dias de escola me trouxeram,revolta com os crimes cometidos contra os Animais, minha vida amorosa implodiu e meu amante morreu, e se possuo alguma espécie de trabalho próprio, não o descobri ainda, exceto na frugalidade animal, se você puder chamá-la assim.”

“Eu não sou um joguete”, disse Glinda. “Eu assumo toda a responsabili­dade do mundo por minha própria tolice. Santo Deus, querida, tudo na vida é um feitiço. A gente sabe disso. Mas a gente tem uma margem de escolha.”

“Bem, eu fico em dúvida”, disse a Bruxa.

Elas continuaram caminhando. Grafites estavam pichadas aos lados dos blocos de suporte das estátuas. AGORA O SAPATO ESTÁ EM OUTRO PÉ. Glinda ironizou. “Frugalidade animal?”, ela disse.

Elas cruzaram uma pequena ponte. Pássaros azuis lançavam música sobre elas como um entretenimento sentimental.

“Eu mandei essa Dorothy, essa garota, para a Cidade Esmeralda”, disse Glinda. “Eu lhe disse que nunca tinha visto o Mágico ― bem, tive de mentir, não olhe para mim desse jeito; se eu dissesse a ela a verdade sobre ele, ela nunca sairia daqui. Eu disse a ela que pedisse a ele para que a levasse de volta para casa. Com esses espiões de reconhecimento por toda Oz, e sem dúvida mais além, ele deve saber onde fica o Kansas, estou certa disso. Ninguém mais sabe.”

“Foi uma coisa cruel”, disse a Bruxa.

“Ela é uma criança tão inofensiva, ninguém a leva a sério”, disse Glinda, displicentemente. “Se os munchkineses começarem a se agrupar aqui, a reu­nificação poderá ser um negócio muito mais sangrento do que esperamos.”

“Então, você tem esperanças de uma reunificação?”, murmurou a Bruxa, desgostosa. “Você a apóia?”

“Ademais”, Glinda prosseguiu alegremente, “em algum lugar dentro des­te meu peito empinado deve existir algum instinto maternal, pois eu dei a ela os sapatos de Nessa como uma espécie de proteção.”

“Você o quê?” A Bruxa girou e encarou Glinda. Por um momento fi­cou muda de raiva, mas só por um momento. “Ela não apenas vem do céu e derruba sua grande casa desajeitada sobre a minha irmã, mas pega os sapatos dela também? Glinda, não eram seus para que você os desse! Meu pai fez os sapatos para ela! E, ademais, Nessa me prometeu que eu poderia ficar com eles quando ela morresse!”

“Oh sim”, disse Glinda numa falsa calma, examinando a Bruxa de alto a baixo, “e eles seriam o acessório perfeito para essas roupas tão dentro da moda que você usa. Ora, Elfinha, quando foi que, entre todas as coisas, você se preocupou com sapatos? Olhe só para essas botas do exército que você está usando!”

“Que eu as use ou não, não é coisa que lhe diga respeito. Você não pode ir dispondo do trabalho de uma pessoa desse jeito, que direito você tem? Pa­pai restaurou esses sapatos usando habilidades que aprendeu com Coração de Tartaruga. Você botou sua varinha de condão onde não devia!”

“Deixe-me lembrar você”, disse Glinda, “que esses sapatos estavam se partindo em pedaços até que pus neles uma nova sola, e os consertei com um especial feitiço de ligação de minha própria lavra. Nem seu pai nem você fizeram tanto assim por ela. Elfinha, eu lhe dei amparo quando você a aban­donou em Shiz. Tal como você me abandonou. Você fez isso, não negue, pare de lançar esses olhares feito raios sobre mim, eu não aceito. Eu me tornei a irmã substituta de Nessarose. E, como uma velha amiga, eu dei a ela o poder de ficar em pé nesses sapatos, e se cometi um erro, sinto, Elfinha, mas ainda sinto que os sapatos eram mais meus que seus para que eu dispusesse deles como bem entendesse.”

“Bem, eu os quero de volta”, disse a Bruxa.

“Oh, deixa isso pra lá, por favor, são apenas sapatos”, disse Glinda, “você se comporta como se fossem relíquias sagradas. Eram sapatos, e um pouco fora de moda, verdade seja dita. Deixe a garota ficar com eles. Ela não tem mais nada.”

“Olhe aqui o que o povo daqui pensa delas”, disse a Bruxa; ela apontou para um estábulo onde estava escrito em garranchos, em grandes letras ver­melhas: CAIAM FORA VOCÊS SUAS BRUXAS VELHAS.

“Por favor, me dê um descanso”, disse Glinda, “eu estou com uma baita dor de cabeça começando.”

“Onde está ela?”, disse a Bruxa. “Se não for buscá-los, eu mesma vou.”

“Se eu soubesse que você os queria”, disse Glinda, tentando ajeitar as coisas, “eu os teria guardado para você. Mas você tem de entender, Elfinha, que os sapatos não podiam ficar aqui. Os ignorantes pagãos munchkineses ― todos lurlinistas, quando você raspa seu verniz ― puseram muita fé naqueles tolos sapatos. Quero dizer, uma espada mágica eu poderia compreender, mas sapatos? Por favor. Eu tive de tirá-los da Terra de Munchkin.”

“Você está trabalhando em conluio com o Mágico para submeter a Terra de Munchkin à anexação”, disse a Bruxa. “Você não tem um projeto de caridade, Glinda. Ao menos não engane a si mesma. Ou você está mesmo sob efeito de algum feitiço anacrônico de Madame Morrible, depois de todo esse tempo?”

“Não aceitarei que você me critique”, disse Glinda. “A garota partiu, ela está na estrada há uma semana, tomou a direção oeste. Eu lhe garanto, é apenas uma garota tímida, e não significa dano algum. Ela ficaria aflita se soubesse que levou uma coisa que você tanto queria. Não há poder nesses sapatos para você, Elfinha.”

A Bruxa disse: “Glinda, se esses sapatos caírem nas mãos do Mágico, ele os usará de algum modo numa manobra para reanexar a Terra de Mun­chkin. Neste momento, eles têm significado demais para os munchkineses. O Mágico não pode se apoderar desses sapatos!”

Glinda se aproximou e tocou o cotovelo da Bruxa. “Eles não vão fazer com que seu pai ame você mais do que já ama”, ela disse.

A Bruxa recuou. Elas se olharam fixamente. Tinham demais uma histó­ria em comum para se separarem devido a um par de sapatos, e, no entanto, os sapatos estavam plantados entre elas, um símbolo grotesco de suas dife­renças. Nenhuma poderia recuar, nem avançar. Era estúpido, e elas estavam paralisadas, e alguém precisava quebrar o encanto. Mas tudo que a Bruxa pôde fazer foi insistir: “Eu quero esses sapatos”.


4
Na cerimônia em louvor à memória de Nessarose, Glinda e Sir Chuffrey se empoleiraram na sacada reservada para dignitários e embaixadores. O Mágico mandou um representante, resplandecente em seus trajes verme­lhos com as faixas quadriculadas da cruz esmeralda em seu peito, um pelotão de guarda-costas em alerta ao seu redor. A Bruxa sentou-se logo abaixo, e não olhou para os olhos de Glinda. Frex chorou até que foi acometido por um ataque de asma, e a Bruxa ajudou-o a sair por uma porta lateral, para um ponto onde ele pudesse tomar ar.

Depois da cerimônia, o emissário do Mágico aproximou-se da Bru­xa. Ele disse: “Você foi convidada a uma audiência com o Mágico. Ele está viajando com imunidade diplomática especial, via Fênix, para oferecer suas condolências à família nesta noite. Você deve se preparar para encontrá-lo em Solos de Colwen na noite de hoje”.

“Ele não pode vir aqui!”, disse a Bruxa. “Ele não se atreveria!”

“Os que agora tomam decisões pensam de outro modo”, disse o emis­sário. “Seja como for, ele vem na calada da noite, e apenas para falar com você e sua família.”

“Meu pai não está disposto a receber o Mágico”, disse a Bruxa. “Eu não vou aceitar isso.”

“Ele verá vocês, então”, disse o emissário. “Ele insiste. Ele tem questões de natureza diplomática a abordar com vocês. Mas vocês não devem tornar pública essa visita, ou isso poderia trazer problemas para seu pai e seu irmão. E para você”, ele acrescentou, como se isso não fosse bem evidente.

Ela refletiu sobre como poderia usar essa audiência com a mais alta au­toridade para sua própria vantagem: Sarima, a segurança de Frex, o destino de Fiyero. “Eu concordo”, ela concluiu. “Vou me encontrar com ele.” E, a despeito dela mesma, ficou momentaneamente satisfeita pelos sapatos enfeitiçados de Nessarose estarem em segurança bem longe dali.

Assim que os sinos vespertinos soaram, a Bruxa foi intimada a sair de seu quarto por uma criada munchkinesa. “Você terá de se submeter a uma revista”, disse o emissário do Mágico, encontrando-a na antecâmara. “Você deve entender o protocolo aqui.”

Ela controlou sua fúria enquanto era sondada e apalpada pelos oficiais que cercavam o lugar. “O que é isto?", disseram quando encontraram a página do Livro das Sombras em seu bolso.

“Oh, isso”, ela disse, pensando rápido. “Sua Alteza vai querer ver isso.”

“Você não pode levar nada com você”, eles lhe disseram, e tomaram a página dela.

“Por minha linhagem, eu posso reinstalar as funções do Eminente Thropp esta noite e prender o seu líder”, ela os advertiu. “Não me digam o que posso e não posso fazer nesta casa.”

Eles não lhe deram atenção e conduziram-na para um pequeno aposen­to, que, exceto por um par de cadeiras estofadas dispostas sobre um tapete florido, estava vazio. Ao lado das franjas do tapete, ratos empoeirados rolavam pelo registro da chaminé.

“Sua Alteza, o Imperador Mágico de Oz”, disse um criado, e retirou-se. Por um minuto, a Bruxa ficou sozinha. Então, o Mágico entrou no aposento.

Sem disfarce, ele era um homem idoso comum usando uma camisa de gola alta e um pesado sobretudo, com um relógio e um berloque dependura­dos no bolso do colete. Sua cabeça era rósea e mosqueada, e tufos de cabelo caíam sobre suas orelhas. Ele enxugou seu rosto com um lenço e sentou-se, fa­zendo um sinal para que a Bruxa se sentasse, também. Ela não o obedeceu.

“Como vai você?”, ele disse.

“O que você quer de mim?”, ela respondeu.

“Há duas coisas”, ele disse. “Há o que vim aqui para dizer a você, e depois a questão que você pode me esclarecer.”

“Você fala comigo”, ela disse, “porque eu nada tenho a dizer a você.”

“Não adianta ficar fazendo rodeios”, ele disse. “Eu queria saber suas intenções sobre a sua posição quanto à última Eminência.”

“Tivesse eu alguma intenção”, ela disse, “não seria da sua conta.”

“Ah, ai de mim! É da minha conta sim, porque a reunificação está a caminho”, disse o Mágico, “neste momento em que nos falamos. Eu entendo que Lady Glinda, abençoada seja sua tolice bem-intencionada, sensatamen­te evacuou tanto a infeliz garota quanto os sapatos totêmicos daqui deste distrito, o que pode tornar a anexação menos problemática. Eu gostaria de possuir esses sapatos, para evitar que eles lhe dessem idéias. Você não tinha, eu sei, calorosa simpatia pelo tipo de despotismo religioso de sua irmã, mas eu espero que não tenha intenção de se estabelecer aqui. Se você o fizer, de­vemos fazer uma pequena barganha ― uma coisa que eu nunca fui capaz de fazer com a sua irmã.”

“Há pouca coisa que me interesse por aqui”, disse a Bruxa, “e não tenho aptidão para governar ninguém, nem a mim mesma, pelo jeito.”

“Além disso, há a pequena questão do exército em ― chama-se Moinho de Vento Vermelho? ― a cidade aos pés de Kiamo Ko.”

“Então é por isso que os soldados ficaram lá todos esses anos”, disse a Bruxa.

“Para manter você sob vigilância”, ele disse. “Uma despesa, mas aí está você.”

“Por rancor a você, eu deveria reclamar o título de Eminência”, disse a Bruxa. “Mas eu pouco me importo com esse povo idiota. O que os munchki­neses fazem agora não é de meu interesse. Contanto que meu pai permaneça a salvo. Se isso é tudo...”

“Há a outra questão”, ele disse. Seus modos ficaram mais animados. “Você trouxe uma página com você. Eu pergunto onde foi que a achou?”

“Isso é meu e sua gente não tem direito de pegar.”

“O que eu quero é saber onde você a achou, e onde eu posso achar o resto.”

“O que você me dará se eu lhe contar?”

“O que você poderia querer de mim?”

Aí estava a razão de ela haver aceitado a conversa. Ela tomou um fôlego profundo e disse: “Para saber se Sarima, Princesa Viúva dos Arjikis, ainda está viva. E onde posso encontrá-la, e como posso negociar a sua liberdade”.

O Mágico sorriu. “Como as coisas se encaixam. Agora, não é interessan­te que eu possa imaginar onde isso lhe diz respeito?” Ele fez sinal com uma mão. Criados invisíveis do lado de fora da porta aberta trouxeram para dentro um anão trajando calças brancas imaculadas e uma túnica.

Não, não era um anão, ela viu; era uma jovenzinha curvada. Correntes atadas à gola de sua túnica desciam pelas suas roupas até seus tornozelos, mantendo-a assim; as correntes tinham apenas dois ou três pés de compri­mento. A Bruxa teve de examinar atentamente para se certificar de que era Nor. Ela estaria agora com dezesseis ou dezessete anos. A idade que Elfinha tinha quando fora para Crage Hall em Shiz.

“Nor”, disse a Bruxa, “Nor, você está aí?”

Os joelhos de Nor estavam imundos e seus dedos se enroscavam nos elos das correntes. Seu cabelo fora cortado curto e vergões eram visíveis por sob as trancas improvisadas. Ela lançava a sua cabeça para trás como se ou­visse música, mas nenhum olhar se deslocou na direção de Elphaba.

“Nor, é a Titia Bruxa. Vim aqui lutar por sua libertação, finalmente”, disse a Bruxa, improvisando.

Mas o Mágico fez um sinal aos criados invisíveis para que levassem Nor para fora. “Temo que isso não seja possível”, ele disse. “Ela é minha proteção contra você, como vê.”

“E os outros?”, disse a Bruxa. “Eu tenho de saber.”

“Nada está documentado”, disse o Mágico, “mas creio que Sarima e suas irmãs estejam todas mortas.”

O fôlego da Bruxa se contraiu em seu peito. As últimas esperanças de perdão tinham desaparecido!... Mas o Mágico continuou. “Talvez algum subalterno sem autoridade no assunto tivesse algum apetite por banhos de sangue. É tão difícil conseguir ajuda confiável nas forças armadas.”

“Irji?”, disse a Bruxa, controlando a apreensão.

“Agora, ele tinha de morrer”, disse o Mágico, justificando-se. “Ele seria o primeiro a herdar o título de Príncipe, não seria?”

“Diga-me que não foi brutal”, disse a Bruxa. “Oh, diga-me isso!”

“O Colar de Parafina”, admitiu o Mágico. “Bem, era uma questão pú­blica. Uma posição tinha de ser tomada. Então, agora, agindo contra minha sensatez, eu disse o que você queria saber. Agora, é sua vez. Onde posso encontrar o livro de que essa página foi tirada?” O Mágico tirou o papel de seu bolso e apertou-o junto ao peito. Suas mãos tremiam. Ele olhou para a página. “Um feitiço para Controle de Dragões”, ele disse, espantando-se.

“É isso que significa?”, ela disse, surpresa. “Eu não tinha certeza.”

“É claro. Você deve ter penado para entender isso”, ele disse. “Você vê, não provém deste mundo. Provém do meu mundo.”

Ele era louco, obcecado por outros mundos. Como o seu pai.

“Você não está dizendo a verdade”, disse a Bruxa, esperando estar certa.

“Oh, como se a verdade me importasse!”, ele disse, “mas sou verdadeiro, conforme o caso.”

“Por que você quereria isso?”, disse a Bruxa, tentando ganhar algum tempo, tentando descobrir como poderia barganhar pela vida de Nor. “Eu nem sei o que é. Não acredito que você saiba tampouco.”

“Eu sei”, ele disse. “Este é um antigo manuscrito de magia, criado em um mundo muito distante deste em que vivemos. Durante muito tempo, julgou-se que era apenas lendário, ou que fora destruído nos obscuros ata­ques dos invasores nortistas. Por segurança, foi removido de nosso mundo por um mágico muito mais poderoso que eu. É por isso que vim para Oz em primeiro lugar”, ele continuou, quase que falando só consigo mesmo, como os idosos são propensos a fazer. “Madame Blavatsky localizou-o em uma bola de cristal, e eu fiz os sacrifícios apropriados e preparos para viajar para cá há quarenta anos. Eu era um homem jovem, cheio de ardor e defeitos. Não tinha a intenção de governar um país aqui, mas apenas a de localizar esse documento e levá-lo de volta ao seu mundo de origem, e estudar os seus segredos por lá.”

“Que tipo de sacrifícios?”, ela disse. “Você não se limita a assassinar por aqui.”

“Assassinato é uma palavra usada por hipócritas”, ele disse. “É uma força de expressão com a qual condenam qualquer ação corajosa que seja realizada além de sua compreensão. O que fiz, o que faço, não pode ser considerado crime. Pois, vindo de outro mundo, eu não posso ser responsável pelas tolas convenções de uma civilização ingênua. Eu estou muito além dessa canhestra recitação infantil de certos e errados.” Seus olhos não brilhavam enquanto ele falava; estavam afundados sob véus de alheamento de um azul frio.

“Se eu lhe der o Livro das Sombras, você irá embora?”, ela disse. “Você me dará Nor e sumirá com sua espécie maligna e nos deixará em paz, finalmente?”

“Estou velho demais para viajar agora”, ele disse, “e por que eu deveria desistir de uma coisa pela qual lutei nesses anos todos?”

“Porque eu usarei este livro e destruirei você com ele, se você não se for”, ela disse.

“Você não pode lê-lo”, ele disse. “Você é de Oz e não consegue fazer uma coisa dessas.”

“Sei ler nele mais do que você desconfia”, ela disse. “Eu não sei o que tudo isso significa. Li páginas sobre a liberação das energias ocultas da maté­ria. Li páginas sobre a manipulação do fluxo ordenado do tempo. Li fórmulas secretas sobre armas vis demais para usar, sobre como envenenar a água, sobre como produzir uma população mais dócil. Há nele diagramas sobre armas de tortura. Embora as ilustrações e as palavras me pareçam nebulosas, eu posso continuar a aprender. Eu não sou tão velha.”

“São idéias de grande interesse para nossos tempos”, ele disse, embora parecesse surpreso por ela ter percebido o tanto que percebera.

“Não para mim”, ela disse. “Você já fez o bastante. Se eu lhe der o livro, você me cederá Nor?”

“Você não deveria confiar em minha palavra”, ele disse, suspirando. “Realmente, minha filha.” Mas ele continuou de olho pregado na página que ela estendera para ele. “Pode-se aprender a subjugar um dragão para uso pessoal”, ele a contemplava pensativamente, e virou-a para ler o que estava escrito no verso.

“Por favor”, ela disse. “Eu acho que nunca supliquei por nada em minha vida. Mas, eu lhe suplico. Não é direito que você esteja aqui. Supondo por um momento que você possa dizer a verdade ― volte para esse outro mundo, vá para onde quiser, mas abdique desse trono. Deixe-nos em paz. Leve o livro com você, faça o que tiver vontade. Deixe-me realizar ao menos isto em minha vida.”

“Em troca de eu lhe dizer sobre amigos e parentes de seu adorado Fiye­ro, você está disposta a me dizer onde o livro está”, ele lembrou-a.

“Bem, acho que não”, ela respondeu. “Eu repensei minha oferta. Dê-me Nor, e eu lhe darei o Livro das Sombras. O livro está tão bem escondido e você nunca o encontrará. Você não teria habilidade para tanto.” Ela esperava estar sendo persuasiva.

Ele se aprumou e enfiou a página no bolso. “Eu não vou executar você”, ele disse. “Ao menos, não nesta audiência. Eu conseguirei este livro, por um ou outro meio. Você não pode me obrigar a uma promessa, eu estou muito além de compromissos com palavras. Eu pensarei no que você disse. Mas, enquanto isso, eu manterei minha jovem escrava comigo. Porque ela é minha defesa contra o seu ódio.”

“Dê a garota para mim!”, disse a Bruxa. “Já, já, já. Aja como um ho­mem, não como um charlatão! Dê a garota para mim e eu lhe mandarei esse livro!”

“Barganha é coisa para outras pessoas”, disse o Mágico. Menos que ofendido, ele parecia desanimado, como se falasse consigo mesmo e não com ela. “Eu não faço barganhas. Mas eu penso. Esperarei e verei como vai a reu­nificação com a Terra de Munchkin, e, se você não interferir, poderei ficar gentilmente disposto a pensar sobre o que você me disse. Mas eu não faço barganhas.”

A Bruxa respirou profundamente. “Eu já o conhecia, você sabe”, ela disse. “Você uma vez me concedeu uma entrevista na Sala do Trono, quando eu era uma estudante de Shiz.”

“É mesmo?”, ele disse. “Oh, é claro ― você deve ter sido uma das queri­dinhas de Madame Morrible. Aquela maravilhosa ajudante e companheira. Está em idade senil agora, mas nos seus tempos de apogeu, o que ela não me contava sobre quebrar os espíritos de jovenzinhas voluntariosas! Sem dúvida, então, como o resto, você foi dominada por ela?”

“Ela tentou me recrutar para servir a algum mestre desconhecido. Era você?”

“Quem pode dizer? Nós estávamos sempre armando uma intriga ou outra. Ela era muito divertida. Ela nunca seria tão rude assim” ― ele apontou para a porta aberta através da qual a subjugada Nor podia ser vista, murmu­rando para si mesma ― “ela manobrava jovens estudantes com finesse muito maior!” Ele estava para deixar o aposento, mas, ao chegar à porta, ainda se virou. “Você sabe, agora eu lembro. Foi ela que me avisou sobre você. Ela me contou que você a traíra, que você rejeitara as suas ofertas. Foi ela quem me advertiu para vigiar você. Foi por causa dela que descobrimos seu pequeno romance com o príncipe tatuado com diamantes.”

“Não!”

“Então, você já me conhecia. Eu tinha esquecido. De que forma eu lhe apareci?”



Ela teve de se controlar para não vomitar. “Você era um esqueleto com ossos iluminados, dançando numa tempestade.”

“Oh, sim. Era um recurso inteligente. Você ficou impressionada?”

“Senhor”, ela disse, “eu acho que o senhor é um mágico da pior qualidade.”

“E você”, ele respondeu, alfinetando, “é apenas a caricatura de uma bruxa.”

“Espere”, ela gritou quando ele saía pela porta, “espere, por favor. Como receberei a sua resposta?”

“Vou te enviar um mensageiro antes que este ano acabe”, ele disse. A porta se fechou com estrépito atrás dele. Ela caiu de joelhos, sua testa quase tocando o chão. Nos seus flancos, seus pulsos se cerraram. Ela não tinha a intenção de ceder o Livro das Som­bras a tamanho monstro, de modo algum. Se necessário, ela até morreria para mantê-lo longe de suas mãos. Mas poderia ela armar uma trapaça a fim de que ele lhe entregasse Nor primeiro?

Ela partiu poucos dias depois, primeiro se assegurando de que o pai não seria tirado de seu quarto em Solos de Colwen. Ele não quis segui-la até o Vinkus; era velho demais para fazer a jornada. Ademais, ele julgava que Shell voltaria a procurá-lo mais cedo ou mais tarde. A Bruxa sabia que Frex não viveria muito, angustiado como estava pela perda de Nessarose. Ela tentou afastar o rancor que sentia por ele quando ela lhe disse adeus pelo que suspeitava que fosse a última vez.

Quando saía pelo vestíbulo de Solos de Colwen, cruzou novamente com Glinda. Mas as duas evitaram olharem-se e apressaram os passos em direções contrárias. Para a Bruxa, o céu era uma pedra enorme a desabar sobre ela. Para Glinda, era exatamente o mesmo. Mas Glinda ainda se virou, e lamentou: “Oh, Elfinha!”

A Bruxa não se virou. Nunca mais se viram.

5
Ela sabia que não dispunha de tempo para armar uma perseguição de larga escala a essa tal Dorothy. Glinda devia estar contratando cúmplices para seguir os rastros dos sapatos; era o mínimo que ela poderia fazer, com seu dinheiro e suas relações. Mesmo assim, a Bruxa parou aqui e ali ao longo da Estrada dos Tijolos Amarelos, e perguntou àqueles que tomavam sua bebi­dinha da tarde em botequins à beira da estrada se tinham visto uma garota desconhecida em roupa xadrez de azul e branco, caminhando com um cachor­rinho. Houve uma animada discussão quando os donos do boteco lutaram para decidir se a Bruxa verde não teria intenções de fazer mal à menina ― apa­rentemente, a criança tinha aquele raro dom de encantar desconhecidos ―, mas quando se satisfizeram com a explicação de que nenhum dano seria possível, responderam. Dorothy estivera ali havia alguns dias, e disseram à Bruxa que ela passara a noite com alguém a uma ou duas milhas da estrada, antes de re­tomar seu caminho. “A casa bem cuidada com um telhado de domo amarelo”, eles disseram, “e a chaminé em forma de minarete. Não tem como errar.”

A Bruxa achou a casa, e encontrou Boq num banco no quintal, balan­çando um bebê em seu joelho.

“Você!”, ele disse. “Eu sei por que você está aqui! Milla, olhe quem está aqui, venha depressa! É a Senhorita Elphaba, de Crage Hall! Em carne e osso!”

Milla apareceu, um par de crianças nuas agarradas aos cordões de seu avental. Corada pelo esforço de lavar roupa, ela afastou seu cabelo emara­nhado de cima dos olhos e disse: “Oh, minha nossa, e nós nos esquecemos de vestir nossa melhor roupa hoje. Olhe quem vem rir de nosso desmazelo caipira”.

“Ela não é uma coisa?”, disse Boq, afetuosamente.

Milla conservara sua silhueta, embora houvesse quatro ou cinco crias em evidência, e, sem dúvida, mais algumas fora de vista. Boq se tornara um barrilzinho, e seu belo cabelo espetado ficara prematuramente grisalho, dan­do-lhe uma dignidade que ele nunca tivera quando estava estudando. “Nós soubemos da morte de sua irmã, Elfinha”, ele disse, “e mandamos nossas con­dolências ao seu pai. Nós não sabíamos onde você estava. Soubemos que você tinha vindo acompanhar a ascensão de Nessinha ao governo da Terra de Munchkin, mas não soubemos para onde você voltou quando partiu. É bom ver você novamente.”

O azedume que ela sentira devido à traição de Glinda foi melhorado pela cortesia singela e a fala direta de Boq. Ela sempre gostara dele, por sua paixão e por seu bom senso. “Você é que é uma visão, ora se é”, ela disse.

“Rikla, levante desse tamborete e deixe nossa visita sentar”, disse Milla para um dos filhos. “E Yellowgage, corra à casa do titio e empreste um pouco de arroz e cebola e iogurte. Rápido agora, para que eu possa começar a fazer uma refeição.”

“Eu não vou ficar, Milla, estou com pressa”, disse a Bruxa. “Yellowgage, não precisa se incomodar. Eu adoraria ficar um pouco, e saber novidades sobre vocês, mas estou tentando localizar uma garota estrangeira, que passou por aqui, segundo me disseram, e ficou uma ou duas noites.”

Boq enfiou as mãos nos bolsos. “Bem, ela passou sim, Elfinha. O que você quer com ela?”

“Eu quero os sapatos de minha irmã. Eles me pertencem.”

Boq pareceu tão surpreso quanto Glinda ficara. “Você nunca foi de gos­tar de ornamentos como sapatos chiques”, ele disse.

“Sim, bem, talvez eu esteja para debutar tardiamente na sociedade da Cidade Esmeralda, afinal, e ofereça um baile para me exibir.” Mas, ela estava sendo ácida com Boq, e não queria isso. “É uma questão pessoal, Boq; eu quero os sapatos. Meu pai os fez e eles são meus agora, e Glinda deu-os a essa garota sem minha permissão. E vai acontecer uma desgraça na Terra de Munchkin se eles caírem nas mãos do Mágico. Como ela é, essa Dorothy?”

“Nós a adoramos”, ele disse. “Simples e direta como semente de mos­tarda. Ela não deverá ter problemas, embora seja uma longa caminhada para uma criança, daqui até a Cidade Esmeralda. Mas todos que a virem infalivel­mente a ajudarão, eu diria. Nós ficamos juntos até a lua surgir, conversando sobre sua casa, e Oz, e o que ela podia encontrar pela estrada. Ela nunca tinha viajado tanto assim.”

“Que encantador”, disse a Bruxa. “Quanta novidade para ela.”

“Você está armando uma de suas campanhas?”, disse Milla, súbita e as­tuciosamente. “Você sabe, Elfinha, quando você não voltou da Cidade Esme­ralda com Glinda aquela vez, todo mundo disse que você tinha enlouquecido, e tinha se tornado uma assassina.”

“As pessoas sempre gostaram de falar, não é mesmo? É por isso que chamo a mim mesma de bruxa agora: a Maléfica Bruxa do Oeste, se quiserem o nome em sua completa glória. Já que as pessoas vão me chamar de lunática de um modo ou de outro, por que não tirar alguma vantagem? Isso liberta a gente das convenções.”

“Você não é maléfica”, disse Boq.

“Como você sabe? Tanto tempo passou”, disse a Bruxa, mas sorriu para ele.

Boq retribuiu o sorriso, calorosamente. “Glinda usava seus colares cinti­lantes, e você seus modos e conteúdos exóticos, mas vocês não estavam apenas fazendo a mesma coisa, tentando maximizar o que tinham a fim de conseguir o que queriam? Pessoas que afirmam que são más não são habitualmente piores que o resto de nós.” Ele suspirou. “É com gente que afirma ser boa, ou, de qualquer modo, melhor que o resto de nós, que você deve se acautelar.”

“Alguém como Nessarose”, disse Milla malvadamente, mas ela estava dizendo a verdade, também, e todos concordaram.

A Bruxa pôs um dos filhos de Boq no joelho e fez gracejos com ele, distraidamente. Ela não gostava de crianças mais do que sempre gostara, mas anos de lida com os macacos tinham-lhe dado uma compreensão da mentalidade infantil que ela nunca antes alcançara. O bebê arrulhou e fez xixi prazerosamente. A Bruxa passou-o de volta rapidamente antes que aquilo encharcasse a sua saia.

“Independente dos sapatos”, disse a Bruxa, “você acha que uma criança como essa deveria ser mandada desarmada diretamente para as mandíbulas do Mágico? Terão contado para ela que monstro ele é?”

Boq pareceu incomodado. “Bem, Elfinha, eu não gosto de falar mal do Mágico. Temo que haja faladores com grandes ouvidos demais nesta comu­nidade, e você nunca sabe quem está de que lado. Cá entre nós, espero que a morte de Nessa resulte em alguma espécie de governo sensato, mas se formos ocupados por um exército invasor dentro de dois meses, não quero que se espalhe que estive falando mal dos invasores. E há boatos de reunificação.”

“Oh, não me diga que você está esperando isso”, ela disse, “não você também.”

“Eu não espero nada, exceto paz e tranqüilidade”, ele disse. “Eu já tenho problemas demais com minhas colheitas nestes campos pedregosos. Foi isso que fui aprender em Shiz, lembra-se? ― agricultura. Pus o melhor dos meus esforços nas nossas pequenas propriedades, e só conseguimos ganhar a vida com dificuldade.”

Mas ele parecia era orgulhar-se disso, e Milla também.

“E acho que você tem algumas Vacas em seu estábulo”, disse a Bruxa.

“Oh, como você é irritável. Claro que não. Você acha que eu esqueci aquilo pelo que trabalhávamos ― você e Crope e Tibbett e eu? Foi o ponto alto de uma vida muito parada.”

“Você não tinha de ter uma vida parada, Boq”, disse a Bruxa.

“Não seja superior. Eu não disse que lamentava isso, não lamento a agitação de uma campanha justificada nem o consolo de uma família e uma fazenda. Será que fizemos alguma coisa boa naquela época?”

“Se nada fizemos”, disse a Bruxa, “ao menos ajudamos o Doutor Dilla­mond. Ele estava muito sozinho em seu trabalho, você sabe. E a base filo­sófica para a resistência nasceu de sua hipótese pioneira. Suas descobertas sobreviveram a ele; ainda sobrevivem.” Ela não mencionou seus próprios ex­perimentos com os macacos alados. Suas aplicações práticas derivavam das teorias do Doutor Dillamond.

“Não tínhamos idéia de que estávamos no fim de uma era de ouro”, Boq disse, suspirando. “Qual foi a última vez que você viu um Animal exercendo profissões?”

“Ah, não me deixe nervosa”, a Bruxa disse. Ela não conseguia ficar sentada.

“Você se lembra, você guardou aquelas anotações do laboratório do Doutor Dillamond. Você, na verdade, nunca me deixou saber de que se tra­tava. Você fez algum uso delas?”

“Com suas pesquisas, aprendi o bastante para continuar questionando”, disse a Bruxa, mas sentia-se bombástica, e queria parar de conversar. Esse assunto a deixava triste e desesperada demais. Milla notou isso e, com uma brusca compaixão, declarou: “Esses tempos já passaram, e bons ventos os levem, também. Estamos inapelavelmente animados. Agora somos a geração das cinturas grossas, puxando nossos filhos e carregando nossos pais nas costas. E estamos no comando, enquanto as figuras que estavam habituadas a exigir respeito de nossa parte estão desaparecendo”.

“O Mágico não desaparece”, disse a Bruxa.

“Bem, Madame Morrible sim”, disse Milla. “Ou foi o que Shenshen me contou na sua última carta.”

“Oh?”, disse a Bruxa.

“Sim, é isso mesmo”, disse Boq. “Embora de seu leito de agonia Madame Morrible continue a orientar o Imperador Mágico em questões de planos de ação para a educação. Estou surpreso que Glinda não tenha mandado Doro­thy para Shiz para estudar com Madame Morrible. Em vez disso, mandou-a diretamente para a Cidade Esmeralda.”

A Bruxa não conseguiu visualizar Dorothy, mas por um momento ela viu a figura curvada de Nor. Ela viu uma multidão de garotas como Nor, em correntes e cangas, perambulando em torno de Madame Morrible do mesmo modo que aquelas estudantes tinham feito, todos aqueles anos atrás.

“Elfinha, sente-se novamente, você não parece bem”, disse Boq. “É uma ocasião difícil para você. Acho que estou lembrando, você não se dava bem com Nessarose.”

Mas a Bruxa não queria pensar em sua irmã. “É um nome mais para feio, Dorothy”, ela disse. “Vocês não acham?” Ela se sentou pesadamente, e Boq relaxou num tamborete pouco distante.

“Eu não sei”, ele disse. “Na verdade, tivemos uma conversa sobre isso. Ela disse que o Rei de sua terra natal era um homem chamado Theodore. Seu professor explicou que o nome significava Dádiva de Deus, e que isso era um sinal de que ele estava preparado para ser Rei ou Primeiro-Ministro. Dorothy observou que Dorothy era uma espécie de Theodore de trás pra frente, mas o professor pensou e disse não: Dorothy significa Deusa das Dádivas.”

“Bem, eu sei o que ela pode me dar”, disse a Bruxa. “Ela pode me dar meus sapatos. Você estava tentando dizer que pensava que ela era uma dádiva de Deus, ou que ela é alguma espécie de rainha ou deusa? Boq, você não era dado a embarcar em superstições.”

“Não estou dizendo nada desse tipo. Estou conversando sobre deriva­ções de palavras”, ele respondeu calmamente. “Deixo a outros mais iluminados que eu a tarefa de deslindar os significados ocultos da vida. Mas eu acho interessante que o nome dela se pareça tanto com o nome de seu rei.”

Milla disse: “Bem, eu acho que ela é uma garotinha santa, comum e santificada exatamente como toda criança é, nem mais nem menos. Yellow­gage, tire suas patas dessa torta de limão, posso te ver daqui, ou te dou uma surra de agora até a eternidade. Essa Dorothy me fez pensar em como Ozma poderia ser, ou poderá ainda ser, se acordar do profundo sono ao qual dizem que foi levada por um feitiço”.

“Ela parece um pequeno horror”, disse a Bruxa. “Ozma, Dorothy ― toda essa conversa sobre crianças messiânicas. Eu sempre detestei isso.”

“Você sabe o que é?”, disse Boq, pensando cuidadosamente. “Já que es­tamos falando sobre os velhos tempos, agora me vem à memória... Será que você se lembra daquela pintura medieval que eu achei uma vez na biblioteca do Três Rainhas? Aquela com a figura feminina embalando o animal? Havia uma espécie de ternura e horror naquela pintura. Bem, há algo em Dorothy que me faz pensar naquela figura inominada. Você pode até mesmo batizá-la de Deusa Inominada ― será que é sacrilégio ou algo assim? Dorothy tinha a mesma terna compaixão por seu cachorro, um belo animalzinho horrível. E o cheiro? Você não acreditaria em como era repugnante. Uma vez ela colocou o cão em seus braços e se curvou, cantarolando, para ele, na mesma pose que vimos na figura medieval. Dorothy é uma criança, mas ela tem a seriedade de porte de um adulto, e uma gravidade que você não encontra nos jovens em geral. Ela é muito digna. Elfinha, fiquei encantado com ela, para dizer a verdade.” Ele quebrou algumas nozes e macarandas do leste, e passou-as para todos. “Tenho certeza que você vai ficar também.”

“Eu gostaria de evitá-la a todo custo, só por saber disso”, disse a Bruxa. “A última coisa pela qual estou disposta a me encantar, ultimamente, é a pu­reza juvenil. Mas eu insisto em recuperar o que é de minha propriedade.”

“Os sapatos são muito mágicos, não?”, disse Milla. “Ou isso é apenas simbólico?”

“Como posso saber?”, disse a Bruxa. “Eu nunca os usei. Mas se eu pu­desse pegá-los e se eles pudessem me levar para longe desta vida incerta, eu não acharia ruim.”

“De qualquer forma, todo mundo acusava os sapatos de serem os responsáveis pela tirania de Nessa. Eu acho que foi sensato Glinda tê-los afastado da Terra de Munchkin. A menina está contrabandeando-os para o estrangeiro sem nem mesmo saber.”

“Glinda mandou a garota para a Cidade Esmeralda”, disse a Bruxa, luci­damente. “Se o Mágico se apoderar deles, será uma licença para marchar sobre a Terra de Munchkin. E vocês são tolos de ficar em cima do muro, como se não fizesse diferença alguma o que ele faz ou não.”

“Você ficará para alguma coisa, ao menos para um chá”, disse Milla, pro­curando esfriar a discussão. “Olhe, eu pedi para Clarinda preparar as panelas, e temos creme de açafrão. Lembra-se da festa de creme de açafrão depois do funeral de Ama Clutch?”

A Bruxa suspirou pesadamente, por um momento; havia uma dor em seu esôfago. Ela não gostava de lembrar daqueles tempos difíceis. E Glinda sabia muito bem que Madame Morrible estava por trás da morte de Ama Clutch. Agora, como Lady Glinda, ela era parte da mesma classe dominante. Era he­diondo. E Dorothy, fossem quais fossem as suas origens, era ainda apenas uma criança, e eles estavam usando-a para ajudar a Terra de Munchkin a ficar livre daqueles malditos sapatos totêmicos. Ou para levar os sapatos para o Mágico. Tal como Madame Morrible tinha usado suas estudantes como Adeptas.

“Eu não posso ficar aqui papeando como uma idiota”, ela gritou, assus­tando-os, derrubando a tigela de nozes no chão. “Não perdemos tempo o suficiente na escola conversando entre nós mesmos até morrer?” Ela apanhou a vassoura e o chapéu.

Boq olhou-a perplexo e quase caiu para trás de sua cadeira. “Bem, Elfi­nha, por que você está se ofendendo?”

Ela estava além de respostas. Girou num pequeno ciclone feito de saias e lenços negros, e saiu pela estrada.

Seguiu a pé, apressadamente, pela Estrada dos Tijolos Amarelos, mal percebendo que um plano estava se desenhando em sua mente. Mas ela pensa­va com tanta intensidade que, por um momento, esqueceu-se completamente de que carregava a sua vassoura, e foi apenas quando parou para descansar, e se apoiou nela, que se deu conta disso.

Boq, Glinda, mesmo seu pai, Frex: como eles pareciam decepcionantes agora. Essas pessoas tinham decaído em suas qualidades desde a juventude, ou não teria sido ela ingênua demais para vê-los do jeito que realmente eram? Sentia desgosto das pessoas, e ansiava por voltar para casa. Ela estava abor­recida demais para procurar alojamento numa taberna ou num boteco. Mas fazia calor o bastante para que pudesse ficar ao relento e descansar.

Ela se estendeu à margem de um campo de cevada. A lua surgiu, enorme como às vezes fica ao aparecer no horizonte. Iluminou uma estaca com uma barra cruzada, que se erguia como se esperasse um corpo para crucificar, ou um espantalho para pendurar.

Por que ela não unira forças com Nessarose, e erguera exércitos contra o Mágico? Velhos ressentimentos de família tinham obstruído o caminho.

Nessarose pedira sua ajuda para governar a Terra de Munchkin, e a Bruxa recusara. Em vez disso, retornara a Kiamo Ko por aqueles sete anos. Ela desperdiçara a oportunidade de juntar forças com sua irmã.

Virtualmente, toda campanha que ela empreendera por si mesma havia terminado em fracasso.

Ela se contorceu à luz da lua e, à meia-noite, torturada pelas reflexões sobre a morte de Nessa ― o fato concreto de ter sido espremida feito um inseto finalmente tomando uma forma imaginária nas fantasias da Bruxa ―, ela se ergueu e pegou um novo caminho. Dorothy sem dúvida tomaria a Es­trada dos Tijolos Amarelos para a Cidade Esmeralda, e alguém tão exótica como ela poderia ser facilmente localizada ao longo do trajeto. A Bruxa iria e tentaria realizar a missão que traçara para si mesma havia quinze anos. Madame Morrible ainda esperava por ser morta.

6
Shiz agora era uma fábrica de dinheiro. Os Colégios, ocupando um distrito histórico, permaneciam em grande parte inalterados, exceto por algum dormitório mais moderno e edifícios vistosamente atléticos. Fora do distrito universitário, contudo, Shiz havia prosperado com a economia de guerra. Um enorme monumento em bronze e mármore, o Espírito do Império, dominava o que restava da Praça da Estação, e o espaço circundante era recortado por pesados edifícios industriais, vomitando negras colunas de poluição no ar. A pedra azul agora era pedra sombria. O próprio ar parecia quente e grave ― as dez mil exalações de uma cidade que arfava sem parar para aumentar a sua riqueza. As árvores estavam murchas e cinzentas. E não havia um só Animal à vista.

Crage Hall parecia absurdamente mais velha e mais nova ao mesmo tempo. A Bruxa preferiu não incomodar o porteiro, e voou para o muro da horta da cozinha, onde uma vez Boq despencara de um telhado adjacente, praticamente em seu colo. O gramado atrás do pomar desaparecera, e em seu lugar erguia-se uma estrutura de pedra, sobre cujas portas brilhantes estava gravado CONSERVATÓRIO DE MÚSICA E ARTES TEATRAIS DE SIR CHUFFREY E LADY GLINDA.

Três garotas desceram apressadas pelo pavimento, tagarelando, car­regando os livros junto ao peito. Elas deram um susto na Bruxa, como se fossem fantasmas de Nessarose, Glinda e dela mesma. Ela teve de se segurar na vassoura e se firmar. Não levava em conta a distância que percorrera, mas o quanto estava velha.

“Preciso ver a Diretora”, ela disse, assustando-as.

Mas uma delas recobrou sua autoconfiança juvenil e indicou o caminho. O escritório da Diretora era ainda na Sala Principal. “Você a encontrará lá”, elas disseram. “Ela está sempre lá nesta hora da manhã, tomando chá sozinha ou com os contribuintes.”

A segurança deve andar muito afrouxada, já que nenhuma delas sequer questiona minha presença na horta da cozinha, pensou a Bruxa. Tanto me­lhor; eu posso até fugir sem ser detida.

A Diretora tinha um secretário agora, um rechonchudo cavalheiro ido­so com um cavanhaque. “Ela não está esperando você?”, ele disse. “Verei se ela está livre.” Ele voltou e disse: “Madame Morrible vai recebê-la agora. Quer deixar sua vassoura no suporte de guarda-chuvas, por favor?”

“Que amável. Não, obrigada”, disse a Bruxa, e entrou.

A Diretora ergueu-se de uma poltrona de couro. Ela não era mais Mada­me Morrible; era uma mulherzinha rosada com cachos cor de cobre e modos voluntariosos. “Eu entendi seu nome?”, ela disse, polidamente. “Você é uma garota velha, mas eu sou uma nova” ― ela riu de sua própria espirituosidade, mas a Bruxa não ― “e temo não ter ainda entendido: dúzias de velhas garotas voltam todo mês para reviver os momentos prazerosos da formação que tive­ram aqui. Por favor, diga-me o seu nome e eu pedirei um chá para nós.”

Com algum esforço, a Bruxa disse: “Eu era chamada de Senhorita El­phaba quando estudava aqui, há mais anos do que eu julgava possíveis. Na verdade não vou tomar chá, não posso ficar muito tempo. Fui mal informada. Eu esperava encontrar Madame Morrible. Você sabe de seu paradeiro?”.

“Bem, isso é boa ou má sorte?”, disse a atual Diretora. “Até bem recente­mente, ela passava parte de cada semestre na Cidade Esmeralda, em reuniões com Sua Alteza em pessoa, sobre políticas educacionais a serem implantadas em toda a Oz Leal. Mas ela retornou recentemente a seu retiro no Asilo ― sinto, é uma piada das garotas e me escapou. É chamado o Edifício da Filha, na verdade, já que foi financiado pelas generosas filhas de Crage Hall, nossas alunas. Veja, a saúde dela piorou, e ― embora eu deteste ser portadora de más novas ― acho que ela está muito perto do fim.”

“Eu gostaria de dar uma passadinha e dizer um alô”, disse a Bruxa. Fingir nunca combinara com ela, e era só porque a nova Diretora era tão jovem, tão tola, tão garota ela mesma, que a Bruxa pôde executar a coisa. “Fui uma grande favorita dela, você sabe; eu acho que lhe faria uma surpresa maravilhosa.”

“Vou chamar Grommetik para levá-la até lá”, disse a Diretora. “Mas devo chamar a enfermeira de Madame Morrible primeiro para saber se ela está disponível para uma visita.”

“Não chame o Grommetik, eu posso encontrar o caminho. Eu conver­sarei com a enfermeira, e só vou ficar um tempinho. E então voltarei para cá antes de partir, prometo, e talvez eu possa verificar se posso fazer uma contribuição ao fundo anual, ou para alguma campanha de arrecadação que vocês estejam promovendo.”

Recordando bem, ela nunca havia mentido em sua vida.

O Asilo era uma grande torre redonda, como um silo atarracado, ergui­do ao lado da capela na qual fora feito o panegírico do Doutor Dillamond. Um ajudante, que passava com baldes e vassouras, disse à Bruxa que Madame Morrible estava no andar de cima, atrás da porta coberta pelo estandarte do Mágico.

Um minuto depois a Bruxa estava diante do estandarte. Um balão com um cesto, comemorando sua chegada espetacular à Cidade Esmeralda, e es­padas cruzadas logo abaixo. De alguns pés de distância, o estandarte parecia uma enorme caveira, e o cesto um queixo torto, e as espadas cruzadas um X de proibido. A maçaneta virou com um puxão, e ela entrou nos apartamentos.

Havia vários quartos, todos abarrotados de lembranças da escola e re­líquias de estima de várias instituições da Cidade Esmeralda, incluindo o Palácio do Imperador. A Bruxa passou por uma espécie de sala de visitas, com uma lareira acesa a despeito do calor da estação, e uma área de copa e cozinha. A um lado havia um sanitário, e a Bruxa ouviu o som de alguém soluçando, e o assoar de um nariz. A Bruxa empurrou uma cômoda contra a porta, e avançou por um quarto de dormir.

Madame Morrible estava estendida no meio de uma enorme cama em formato de fênix. A cabeça e o pescoço de uma fênix entalhada em ouro emergiam da cabeceira, e as laterais da cama simulavam as asas do pássaro. A idéia das plumas da cauda aparentemente não ocorrera à ingenuidade do marceneiro, pois não havia nenhuma. Era apenas um pássaro numa posição desajeitada, na verdade, como se houvesse sido abatido no ar por algum tiro, ou como se estivesse se esforçando de uma maneira humana para se libertar da grande massa de carne que pesava sobre seu estômago e se reclinava sobre seu peito.

No chão havia uma pilha de jornais de negócios, e um par de óculos fora de moda estava em cima dela. Mas o tempo para leitura estava acabado.

Madame Morrible repousava num monte cinzento, suas mãos dobra­das sobre a barriga, e seus olhos estavam abertos e rasos, imóveis. Ela ainda se parecia com uma Carpa descomunal em tudo, exceto no cheiro de peixe ― uma vela fora acesa havia tão pouco tempo que o mau cheiro do enxofre da mecha ainda pairava no quarto.

A Bruxa puxou a sua vassoura. Do outro aposento vinha o som do bater da porta do sanitário. “Você pensou que ficaria para sempre a salvo escon­dendo-se por trás de jovens estudantes?”, disse a Bruxa, além de si mesma, além de qualquer precaução, e ergueu sua vassoura. Mas Madame Morrible era apenas um corpo inerte, indiferente.

A Bruxa atingiu Madame Morrible com a ponta da vassoura, ao lado da cabeça e no rosto. Não deixou marcas. Então, a Bruxa pegou no consolo da lareira um troféu de reconhecimento com a maior base de mármore possível, e bateu pesadamente com ele no crânio de Madame Morrible, produzindo um som que lembrava o de lenha sendo rachada.

Ela deixou o troféu nos braços da velha mulher. Sua inscrição podia ser lida por todos, exceto pela fênix entalhada que a olharia de ponta-cabeça. EM RECONHECIMENTO A TUDO QUE A SENHORA FEZ, ela dizia.

7
A Bruxa esperara quinze anos por esse momento, mas o tempo de execu­ção não durou mais que cinco minutos. Assim, a tentação de voltar e arrebentar Grommetik foi intensa. Mas a Bruxa resistiu. Ela não se importava de ser condenada e executada pelo espancamento do corpo de Madame Mor­rible, mas não queria ser presa por causa da vingança contra uma máquina.

Ela tomou uma refeição num café e deu uma olhada nos tablóides. Daí, saiu a vagar pelo distrito comercial. Nunca dada a quinquilharias, ela estava intensamente aborrecida, mas queria ouvir falar sobre a morte de Madame Morrible. Ela esperava pelas notícias, naturalmente. E desconfiava que nunca voltaria a Shiz nem a qualquer outra cidade. Era a sua última chance de ver a Oz Leal em ação.

Mas, conforme a tarde foi se esvaindo, ela começou a se preocupar. E se tivesse havido um ocultamento? E se a atual Diretora, para evitar escândalo, tivesse feito silêncio quanto à notícia da agressão? Especialmente de um crime contra alguém tão próximo ao Imperador? A Bruxa começou a se irritar com a idéia de que lhe negariam crédito pelo seu ato. Ela se esforçou por lembrar de alguém a quem pudesse se confessar, alguém que na certa comunicaria o fato rapidamente às autoridades. Que tal Crope, ou Shenshen, ou Pfannee? Ou, para aquele caso específico, o Margrave de Dez Campos, o nojento Avaric?

A casa citadina do Margrave se situava no parque dos cervos, nas proxi­midades de Shiz. Era tarde avançada quando ela chegou ao Jardim do Impera­dor, como era agora chamada. Residências particulares iam ficando obsoletas com o progresso, cada uma delas protegida por sua própria força de segu­rança, muros altos cobertos com cacos de vidro, cães ferozes. A Bruxa tinha jeito para lidar com cães e muros altos não a intimidavam. Ela escalou o muro tranqüilamente, descendo num terraço, onde uma criada inclinada sobre uma cama de flores estampadas teve um faniquito e desmaiou ali mesmo. A Bruxa encontrou Avaric em seu escritório, assinando alguns documentos com uma caneta de pluma imponente, e bebericando um pouco de uísque cor de mel num copo de cristal. “Eu já disse que não vou sair para coquetéis, você faça o que quiser, não me escuta?”, ele começou a falar, mas aí ele viu quem era.

“Como foi que você entrou aqui sem ser anunciada?”, ele disse. “Eu co­nheço você. Não conheço?”

“Claro que sim, Avaric. Sou a garota verde de Crage Hall.”

“Oh, sim. Qual era o seu nome mesmo?”

“Meu nome era Elphaba.”

Ele acendeu uma lâmpada ― a tarde estava escurecendo, ou talvez fican­do nublada agora ― e eles se entreolharam. “Sente-se, então. Suponho que, se a sociedade arromba a porta do escritório de alguém, este fica privado dos direitos de rejeitá-la. Toma um drinque?”

“Um pequenininho.”

Diferente de todos, ele, que tinha sido bonito demais para crer, ficara mais bonito ainda. Usava o cabelo puxado para trás; este se conservava belo e farto, da cor de uma moeda polida, e ele claramente tivera o benefício de uma vida de exercício e repouso, pois sua figura era forte e delgada, sua postura ereta, sua cor saudável. Os que nascem com vantagens sabem como capitaliza­-las, observou a Bruxa, depois de seu primeiro gole.

“A que devo esta honra?”, ele disse, sentando-se diante dela com um drinque recém-feito em suas mãos. “Ou é o mundo inteiro que está fazendo reprises hoje?”

“O que você quer dizer com isso?”

“Eu fiz uma caminhada ao meio-dia”, ele disse, “no parque, com meus guarda-costas, como de hábito. E me aproximei de um espetáculo carnava­lesco que vi lá. Vai abrir amanhã, acho, e o parque ficará lotado de estudantes inteligentes, criadas domésticas e operários de fábrica, e com famílias gordu­rentas e tagarelas do Pequeno Glikkus. Havia lá o elenco habitual de crianças atraídas pela atração de um bom ato circense, a maior parte adolescentes procurando se virar, sem dúvida em fuga a famílias aborrecidas e pequenas cidades provincianas. Mas o sujeito que estava no comando era um pequeno anão sanguinário.”

“Como assim, sanguinário?”, perguntou a Bruxa.

“Eu quero dizer agressivo, me perdoe pela gíria. Todo mundo já viu anões, não é essa a questão. É que eu tinha visto esse mesmo anão em algum lugar. Eu o reconheci como alguém de tempos atrás.”

“Fantástico, isso.”

“Bem, eu não teria pensado mais nisso, mas então você me aparece nesta tarde, vinda mais ou menos da mesma região da memória. Você também não esteve lá? Você não foi conosco ao Clube de Filosofia naquela noite, quando ficamos tão bêbados, e eles ofereciam lá aquela coisa de encantamento sexual, e o efeminado Tibbett ficou tão fascinado e perdeu o juízo e o resto quando o Tigre...? Você estava lá, com certeza.”

“Eu não acho que estava.”

“Não estava? Boq estava, o pequeno esfarrapado Boq, e Pfannee e Fiye­ro, eu acho, e alguns outros. Você não se lembra? Havia lá uma velha megera chamada Yackle, e o anão, e eles nos deixaram entrar, e eram tão sinistros! De qualquer forma, não importa ― é apenas...”

“Yackle não”, disse a Bruxa. Ela pôs seu drinque de lado. “Isso é loucu­ra, meus ouvidos estão tendo alucinações. Todo mundo tem razão, eu sou paranóica. Não, Avaric, eu me recuso a admitir que você recorde o nome de alguém por uns vinte anos assim.”

“Ela era uma cigana calva com uma peruca, e olhos meio castanhos, grudada com o anão. Eu não sei como ele se chamava. Por que é que eu me lembraria disso?”

“Você não se lembrava do meu nome.”

“Você não me assusta muito. Na verdade, você nunca me assustou.” Ele riu. “Eu era provavelmente um chato para você. Eu era um cuzão, naquela época.”

“Você ainda é.”

“Bem, a prática leva à perfeição, e mais de uma vez fui chamado de um perfeito cuzão.”

“Eu vim para lhe dizer que matei Madame Morrible hoje”, disse a Bruxa. Ela estava tão orgulhosa daquela frase; parecia menos falsa quando dita em voz alta. Talvez fosse verdadeira. “Eu a matei. Eu queria encontrar alguém que ficasse sabendo isso.”

“Oh, por que você fez isso?”

“Você sabe, os motivos se juntam de formas diferentes a cada vez que penso neles.” Ela se sentou com um pouco mais de firmeza. “Porque ela me­recia.”

“O Anjo Vingador da Justiça agora é verde?”

“Um disfarce bem eficiente, você não acha?” Os dois riram.

“Então, vamos falar dessa Madame Morrible, que você afirma ter assas­sinado? Você sabia que ela convocou os seus amigos e associados e passou-nos um pequeno sermão quando você fugiu?”

“Você nunca foi meu amigo.”

“Eu estava perto demais para ser desconsiderado. Eu me lembro da si­tuação. Nessarose estava mortificada e despedaçada pela coisa toda. Madame Morrible pegou seus boletins e traçou para nós um perfil completo de seu caráter tal como avaliado por seus vários professores. Fomos advertidos sobre a sua natureza ferina, sua marginalidade, que palavras mesmo eles usaram? Eu não consigo me lembrar disso, não foram palavras memoráveis. Mas ela nos disse que você poderia tentar nos aliciar para alguma espécie de esforço juvenil de deflagrar algum tipo de rebelião estudantil. Dizia para evitarmos você a qualquer custo.”

“E Nessarose estava mortificada, bem, faz sentido”, disse a Bruxa so­turnamente.

“Glinda também”, disse Avaric. “Ela entrou em outra depressão, igual àquela em que entrara depois que o Doutor Dillamond caiu sobre suas lentes de aumento...”

“Oh, por favor, essa mentira podre de velha continua circulando?”

“... oh, tudo bem, foi brutalmente assassinado por bandoleiros desconhe­cidos, escolha o que achar melhor. Bandoleiros na visão de Madame Morrible, é o que você supõe que eu queira dizer. Então, por que na verdade você fez isso?”

“Madame Morrible tinha uma escolha. Ninguém estava em posição melhor que ela para decidir que suas estudantes tivessem uma educação e não uma lavagem cerebral. Por estar submetida à Cidade Esmeralda, ela en­ganou todas as suas estudantes que acreditavam que uma educação liberal significava pensar por si mesmas. Além disso, era um demônio vil, e conspirou mesmo para que o Doutor Dillamond fosse assassinado. Não importa o que você diga.”

Mas a Bruxa se interrompeu, ouvindo em suas próprias palavras sobre Madame Morrible ― ela tinha uma escolha ― um eco do que a Princesa Alia Nastoya lhe dissera certo dia: Ninguém controla o seu destino. Mesmo na pior situação ― sempre há uma escolha.

Avaric estava se animando. “E você a matou. Duas coisas erradas não fa­zem uma certa, como nós, garotos, costumávamos entoar no parque, em geral quando estávamos no chão com o joelho de alguém em nossa virilha. Por que você não fica para a refeição? Temos convidados, uma turma inteligente.”

“Para que você possa chamar a polícia? Não, obrigada.”

“Não vou chamar a polícia. Você e eu, nós estamos acima desse tipo de justiça presunçosa.”

A Bruxa acreditou nele. “Tudo bem”, ela disse. “Com quem você está casado, a propósito? Você se casou com Pfannee, ou Shenshen, ou alguma outra? Não consigo lembrar.”

“Com uma qualquer”, disse Avaric, derramando mais um dedo de uísque no copo. “Não consigo guardar pequenos detalhes em minha cabeça, nunca consegui.”

A despensa do Margrave era abundante, seu cozinheiro um gênio, e sua adega de vinhos incomparável. Os convivas mergulharam em caracóis com alho, crista assada de galinha silvestre com coentro e molho de laranjinhas, e a Bruxa se permitiu um suntuoso reforço de torta de limão com creme de aça­frão. Os copos de cristal não ficaram vazios por um só momento. A conversa foi exaltada e insensata, e quando o Margrave conduziu-os às confortáveis cadeiras na sala de visitas, o aplique de reboco do teto parecia girar como a fumaça do cigarro.

“Nossa, você está vermelha”, disse Avaric. “Você deve ter sido uma bê­bada o tempo todo, Elphaba.”

“Não estou certa de que o vinho tinto combine comigo”, ela disse.

“Você não está em condições de ir a parte alguma. A criada vai arrumar um dos quartos dos fundos. É adorável, há uma vista direta para o pagode na ilha.”

“Eu não ligo para vistas desse tipo.”

“Você não quer esperar até chegarem os jornais de manhã para ver se fizeram a coisa certa? Se trazem a notícia completa?”

“Pedirei que você me mande um. Não, eu tenho de ir, sinto necessidade de um pouco de ar fresco. Avaric ― Madame ― amigos ― foi uma surpresa e suponho um prazer”. Mas ela se sentiu ressentida ao dizer isso.

“Um prazer para alguns”, disse a Margravesa, que não tinha aprovado a conversa. “Acho impróprio falar sobre o mal durante uma refeição. Estraga a digestão.”

“Oh, mas que coisa”, a Bruxa disse, “será que é só na juventude que temos coragem de propor a nós mesmos essas sérias questões?”

“Bem, eu me apego à minha sugestão”, disse Avaric. “O mal não é fazer coisas más, é sentir-se mal depois de fazê-las. Não há um valor absoluto para reger o comportamento. Primeiro de tudo...”

“Inércia institucional”, sustentou a Bruxa. “Mas qual é a grande atração do poder absoluto, de qualquer forma?”

“É o que alego ser apenas uma aflição do espírito, como a vaidade ou a ganância”, disse um magnata do cobre. “E todos sabemos que a vaidade e a ganância podem produzir alguns espantosos resultados nos negócios huma­nos, nem todos condenáveis.”

“É uma ausência do bem, só isso”, disse seu caso de amor, uma tia ago­nizante que trabalhava para o Informativo de Shiz. “A vocação do mundo é ser plácido, e realçar e apoiar a vida, e o mal é uma ausência dessa índole da matéria para ficar em paz.”

“Porcaria”, disse Avaric. “O mal é uma fase inicial ou primitiva da evo­lução moral. Todas as crianças são demoníacas por natureza. Os criminosos entre nós são apenas aqueles que não evoluem...”

“Eu acho que é uma presença, não uma ausência”, disse um artista. “O mal é um personagem encarnado, um incubo ou um súcubo. É um outro. Não é nós.”

“Nem mesmo eu?”, disse a Bruxa, interpretando seu papel com mais vigor do que esperava. “Uma criminosa confessa?”

“Oh, vamos lá, você”, disse o artista, “todos nós nos mostramos em nosso melhor ângulo. É apenas a vaidade natural.”

“O mal não é uma coisa, não é uma pessoa, é um atributo, como a beleza.”

“É um poder, como o vento...”

“É uma infecção...”

“É metafísico, essencialmente; a corruptibilidade da criação...”

“Ponha a culpa no Deus Inominável, então.”

“Mas o Deus Inominável criou o mal intencionalmente, ou foi apenas um erro da criação?”

“Não é coisa do éter e da eternidade, o mal; é coisa terrena; é física, um descompasso entre nossos corpos e nossas almas. O mal é estupidamente corpóreo, são os seres humanos causando dor uns aos outros, nem mais nem menos...”

“Eu gosto da dor, se fecharem minha boca com uma tira de couro e amarrarem meus punhos por trás...”

“Não, vocês todos estão errados, nossa religião de infância estava certa: o Mal é moral em sua essência ― a escolha do vício em vez da virtude; vocês po­dem fingir não saber, podem racionalizar, mas o sentem em sua consciência...”

“O mal é um ato, não um desejo. Quantos já não desejaram esquartejar a garganta de algum cretino com quem estejam sentados à mesa de jantar? O grupo aqui presente está excluído, é claro. Todos têm o desejo. Se você cede a ele, isto, esse ato é o mal. O desejo é normal.”

“Oh, não, o mal é reprimir esse desejo. Eu nunca reprimo desejo algum.”

“Eu não suporto essa conversa em minha sala de visitas”, disse a Mar­gravesa, quase em lágrimas. “Vocês estão se comportando a noite toda como se uma mulher idosa não houvesse sido massacrada nos lençóis de sua cama. Ela não tinha uma mãe também? Ela não tinha uma alma?”

Avaric bocejou e disse: “Vocês são tão ternos e ingênuos. Quando não é embaraçoso, é tão charmoso”.

A Bruxa se levantou, sentou-se rapidamente, e levantou-se de novo, ajudada por sua vassoura.

“Por que você fez isso?”, perguntou o anfitrião com espírito.

A Bruxa deu de ombros. “Por divertimento? Talvez o mal seja uma forma de arte.”

Mas, ao caminhar tropegamente para a porta, ela disse: “Sabem, vocês são um bando de tolos. Vocês deviam ter-me afastado em vez de me entre­terem a noite toda.”

“Você nos entreteve”, disse Avaric liberal e galantemente. “Este acabará sendo o jantar festivo mais importante da temporada. Mesmo que você tenha mentido a noite toda sobre haver assassinado essa velha mestra anacrônica. Que farra.” Os convidados do jantar aplaudiram-na alegremente.

“A verdadeira coisa sobre o mal”, disse a Bruxa junto à porta, “não é nada do que vocês disseram. Vocês percebem um lado dele ― o lado humano, digo ― e o lado eterno fica na sombra. Ou vice-versa. E como o velho provérbio: Com que parece um dragão dentro da casca? Bem, ninguém pode dizer, pois assim que se quebra a casca para ver, o dragão não está mais lá. A verdadeira desgraça dessa questão é que é da natureza do mal o ser secreto.”

8
A lua estava no céu outra vez, um pouco menos dilatada que na noite an­terior. A Bruxa não confiava em si mesma para subir em sua vassoura, e assim vagueou em ziguezague pelo gramado. Ela queria achar um lugar para tirar uma soneca longe da claustrofobia de um ambiente de sociedade.

Aproximou-se da construção de que Avaric havia falado. Era uma velha, primitiva coisa tiquetaqueante, uma espécie de monumento portátil feito de madeira entalhada e estatuetas, variadas e numerosas demais para que a Bruxa as compreendesse nesta noite. Talvez houvesse uma tábua estendida debaixo da qual ela pudesse descansar, uma plataforma elevada poucas pole­gadas acima do chão úmido. Ela examinou e foi em frente.

“E aonde você pensa que vai?”

Um munchkinês, não, um anão, se interpôs em seu caminho. Ele tinha um porrete numa mão, e batia forte com ele na palma de couro espesso da outra.

“Vou dormir, quando puder”, ela disse. “Então, você é o anão, e esta é a coisa de que Avaric falou.”

“O Relógio do Dragão do Tempo”, ele disse, “aberto para função amanhã à noite, e não antes.”

“Estarei morta e desaparecida amanhã à noite”, ela disse.

“Não, não estará”, ele respondeu. .

“Bem, desaparecida, ao menos.” Ela olhou para ele e se aprumou, e então alguma coisa lhe voltou à memória. “Eu fico imaginando como foi que você conheceu Yackle”, ela disse.

“Oh, Yackle”, ele disse. “Quem não conhece Yackle? Não é tão grande surpresa.”

“Ela foi assassinada hoje?”, disse a Bruxa. “Por algum acaso?”

“De jeito nenhum”, ele respondeu.

“Quem é você?” Ela estava com medo, subitamente, depois de toda essa torrente de dor e violência.

“Oh, o menos significativo dos pequenos”, ele disse.

“Para quem você trabalha?”

“Para quem já não trabalhei?”, disse o anão. “O demônio é um anjo muito grande, mas é um homem muito pequeno. Mas eu não tenho nome neste mundo, portanto, não se importe comigo.”

“Estou bêbada e desalinhada”, ela disse, “e não agüento mais tanto enig­ma. Eu matei alguém hoje, eu posso matar você também.”

“Você não a matou, ela já estava morta”, disse o anão calmamente. “E você não pode me matar, pois sou imortal. Mas você anda penando demais nesta vida, e assim eu vou lhe dizer isto. Eu sou o guardião do livro, e eu fui trazido a esta terra apavorada e desamparada para acompanhar e vigiar a história do livro, para impedi-lo de voltar para o lugar de onde veio. Eu não sou bom, eu não sou mau; mas estou preso aqui, condenado a uma vida sem morte para proteger o livro. Eu não me importo com o que aconteça a você ou a qualquer outra pessoa, mas protejo o livro: é a minha incumbência.”

“O livro?” Ela lutava para entender; sentia-se mais embriagada quanto mais ouvia o relato.

“O que você chama de Livro das Sombras. Ele tem outros nomes ― não importa.”

“Então, por que você não o leva com você, por que você não o tem?”

“Eu não trabalho desse modo. Eu sou o parceiro silencioso. Eu trabalho através dos acontecimentos, eu vivo em segundo plano, eu me dedico a causas e efeitos, eu observo como as mal planejadas criaturas deste mundo vivem suas vidas. Eu interfiro apenas para manter o livro a salvo. Até certo ponto, eu posso ver o que está por vir, e, dentro deste limite, eu me intrometo nas coisas dos homens e dos animais.” Ele dançou como um pequeno demônio. “Você me vê aqui, você me vê ali. Dar uma segunda olhada é uma grande vantagem em casos de segurança.”

“Você trabalha com Yackle?”

“Nós dois às vezes temos as mesmas intenções e às vezes não. Os inte­resses dela parecem ser diferentes dos meus.”

“Quem é ela? Qual é o interesse dela? Por que você fica rondando às margens de minha vida?”

“No mundo de onde venho, há anjos da guarda”, disse o anão, “mas, até onde posso compreender, ela é um número oposto, e sua preocupação é você.”

“Por que mereço um tal demônio? Por que minha vida é tão amaldiçoa­da? Quem a autorizou a influir em minha vida?”

“Há coisas que eu não sei e coisas que eu sei”, disse o anão. “A quem Yackle serve, se for alguém, se for alguma coisa, está além da minha área de conhecimento ou interesse. Mas, por que você foi escolhida? Você deve procu­rar saber isso. Pois você” ― o anão falava num tom claro e improvisado ― “não é nem isto nem aquilo ― ou devo dizer que é as duas coisas, isto e aquilo? Tanto de Oz quanto do outro mundo. Seu velho Frex sempre esteve enganado; você nunca foi uma punição para os erros que ele cometeu. Você é uma espécie mista, você é uma nova espécie, você é um membro enxertado, você é uma perigosa anomalia. Você sempre foi atraída pelas criaturas compósitas, pelos quebrados e desconjuntados, pois é isso que você é. Como pôde ser tão burra a ponto de não ter percebido isso?”

“Mostre-me alguma coisa”, ela disse. “Eu não sei o que você quer dizer. Mostre-me alguma coisa que o mundo não me mostrou ainda.”

“Para você, será um prazer.” Ele desapareceu, e ouviu-se o som de partes mecânicas sendo acionadas por corda, movendo-se umas contra as outras, o rangido de engrenagens lubrificadas, a batida de correias de couro, as panca­dinhas de pêndulos que balançavam. “Uma audiência privada com o Dragão do Tempo em pessoa.”

No topo, uma besta armava seu bote, dobrando suas asas numa dança de gestos, dando boas-vindas e intimidando a um só tempo. A Bruxa arre­galou os olhos.

Uma pequena área parcialmente elevada ficou iluminada. “Uma peça de três atos”, soou a voz do anão, de alguma profundeza interior. “Ato Um: O Nascimento da Santa.”

Mais tarde ela não conseguiu dizer como soube o que era, mas o que viu, numa pantomima resumida, foi a vida de Santa Elphaba. A boa mulher a mística, a reclusa, que desapareceu para viver em oração por trás de uma cachoeira. A Bruxa recuou ao ver a santa atravessar a cachoeira (uma torneira gotejante em algum ponto acima fazia escorrer água verdadeira sobre uma bandeja escondida abaixo). Ela esperou que a santa mecânica saísse, mas ela não saiu, e finalmente as luzes foram apagadas.

“Ato Dois: O Nascimento do Mal.”

“Espere, a Santa não emergiu como dizem as histórias”, disse a Bruxa. “Eu quero satisfação garantida ou meu dinheiro de volta, por favor.”

“Ato Dois: O Nascimento do Mal.”

As luzes se refletiram sobre outro pequeno palco. Surgiu uma imitação convincente de Solos de Colwen pintada num cenário de cartolina ao fundo. Uma estatueta que simulava Melena beijava seus pais em despedida e partia com Frex, um belo boneco pequeno com uma barba preta curta e um passo ligeiro. Eles pararam numa pequena cabana, e Frex beijou-a e seguiu em fren­te para pregar. Por todo o resto da cena ele ficava do lado de fora, enxotando alguns camponeses que estavam ocupados em copular uns com os outros no chão diante dele, em cortar-se mutuamente em pedaços e comer seus órgãos sexuais, o que era feito com um tempero real; podia-se sentir o cheiro de alho e cogumelos fritos. Melena, em casa, bocejava e esperava, e remexia em seus belos cabelos. Então surgiu um homem que a Bruxa não conseguiu identificar a princípio. Ele tinha uma pequena mala preta e dela tirou uma garrafa de vidro verde. Ele deu-a para Melena beber, e, assim que ela bebeu, caiu em seus braços, ou estupefata e bêbada como a Bruxa estava nesta noite, ou liberada. Não ficava claro. O viajante e Melena fizeram amor no mesmo ritmo animado dos paroquianos de Frex. O próprio Frex começou a dançar àquele ritmo. Então, quando o ato de amor estava consumado, o viajante desgrudou de Melena. Ele estalou seus dedos, e um balão com um cesto logo abaixo desceu do espaço aberto logo acima. O viajante entrou nele. Era o Mágico.

“Oh, besteira”, disse a Bruxa. “Isso é pura conversa fiada.”

As luzes diminuíram. A voz do anão soou de dentro da engenhoca. “Ato Três”, ele disse. “O Casamento do Santo e do Maligno.”

Ela esperou, mas nenhuma área ficou iluminada, nenhuma marionete se moveu.

“Bem?”, ela disse.

“Bem o quê?”, ele respondeu.

“Onde está o fim da peça?”

Ele pôs sua cabeça para fora da porta de um alçapão e lançou-lhe uma piscadela. “Quem disse que o fim já estava escrito?”, ele respondeu, e bateu a porta na cara dela. Outra porta se abriu, perto da mão da Bruxa, e uma ban­deja deslizou para fora. Estendido sobre ela havia um espelho oval, rachado de um dos lados, com a superfície riscada. Parecia-se com o espelho que ela tivera em criança, aquele onde ela imaginava ver o Outro Mundo, nos tempos em que acreditava nessas coisas. A última vez que se lembrara desse espelho oval fora no seu acampamento-esconderijo na Cidade Esmeralda. Dentro do vidro viviam reflexos de um jovem e belo Fiyero, e uma jovem e apaixonada Fae. A Bruxa pegou o espelho, guardou-o em seu avental e bateu em retirada.

Não havia nada nos jornais da manhã sobre a morte de Madame Mor­rible. A Bruxa, com uma dor de cabeça traiçoeira, concluiu que não podia esperar mais. Ou Avaric e seus estúpidos convidados espalhariam os boatos, ou não. Não havia mais nada a fazer.

Apesar disso, ela dizia para si mesma, espere só até a notícia chegar ao Mágico. Eu gostaria de ser uma mosca na parede de seu esconderijo quando isso acontecer. Deixe-o pensar que eu a matei. Deixe ser esta a forma com que a notícia se espalhará.

9
Ela retornou à Terra de Munchkin numa viagem punitiva, exaurindo a si mesma. Havia dormido muito pouco, e sua cabeça ainda latejava. Mas estava orgulhosa de si mesma. Ela chegou ao pátio em frente ao chalé de Boq e chamou a família.

Boq tinha ido para o campo, e um de seus filhos teve de ser despachado para buscá-lo. Quando ele chegou correndo, trazia um enxó numa das mãos. “Eu não estava esperando você, me levou um minuto”, ele disse, arfando.

“Você teria corrido mais depressa se deixasse sua ferramenta lá”, ela reparou.

Mas ele não a colocou no chão. “Elfinha, por que você voltou?”

“Para lhe dizer o que eu fiz”, ela disse. “Eu achei que você gostaria de sa­ber. Eu matei Madame Morrible, e ela não pode mais prejudicar ninguém.”

Mas Boq não pareceu satisfeito. “Você agrediu aquela mulher velha?” ele disse. “Agora que ela estava além do ponto de poder ferir alguém?”

“Você comete o engano que todos cometem”, disse a Bruxa, cruelmente decepcionada. “Você não sabe que esse ponto não existe?”

“Você trabalhou para proteger os Animais”, disse Boq. “Mas você não tinha a intenção de cair ao nível daqueles que os brutalizavam.”

“Respondi ao fogo com fogo”, disse a Bruxa, “e devia ter feito isso antes! Boq, você se tornou um tolo equivocado.”

“Crianças”, disse Boq, “corram para dentro e busquem sua mãe.”

Ele estava com medo dela.

“Você está em cima do muro”, ela disse. “Sua preciosa Terra de Mun­chkin aqui vai ser engolida pelas dobras da Oz Real, sob Sua Alteza o Impera­dor Mágico. E você vê o que Glinda faz, e você põe aquela menina no caminho para seguir com os sapatos que pertencem a mim. Você tomou uma posição quando era jovem, Boq! Como você pode ter-se estragado assim?”

“Elfinha”, disse Boq, “olhe para mim. Você está fora de si. Você tomou algum porre? Dorothy é só uma criança. Você não deve distorcer isso para torná-la alguma espécie de demônio!”

Milla, alarmada com a tensão no pátio frontal, saiu e se pôs atrás de Boq. Ela carregava uma faca de cozinha. Sussurrando alto, as crianças observavam da janela.

“Vocês não precisam se defender com facas e enxós”, disse a Bruxa fria­mente. “Eu pensei que vocês gostariam de saber sobre Madame Morrible.”

“Você está tremendo”, disse Boq. “Olhe, eu vou pôr isto no chão. Evi­dente que você está furiosa. A morte de Nessa foi dura para você. Mas você deve se controlar, Elfinha. Não faça nada contra Dorothy. Ela é uma criatura inocente. Ela está completamente sozinha. Eu lhe imploro.”

“Oh, não implore, não implore”, disse a Bruxa, “eu não poderia supor­tar, dentre todos, logo você implorando!" Ela rangeu os dentes e apertou os punhos. “Não vou lhe prometer nada, Boq!”

E desta vez ela subiu em sua vassoura e voou para longe. Imprudente­mente, ela montou nos flancos das correntes de ar, até que o chão lá embaixo perdesse qualquer detalhe nítido o bastante para lhe causar sofrimento.

Ela estava começando a sentir-se longe demais de Kiamo Ko. Liir era um idiota, alternando-se entre voluntarioso e covarde, e a Babá às vezes es­quecia onde estava. A Bruxa não queria pensar sobre ontem, a morte de Madame Morrible, as acusações feitas pelo jogo de bonecos. Ela dificilmente poderia ser mais avessa ao Mágico do que já era; se houvesse um fiapo de possibilidade na triste idéia de ele tê-la gerado, isso só fazia com que o odiasse ainda mais. Ela interrogaria a Babá sobre isso quando chegasse em casa.

Quando chegasse em casa. Ela tinha trinta e oito anos, e só agora per­cebia como era o sentimento de possuir um lar. Por essa, Sarima, eu lhe agradeço, ela pensava. Talvez a definição de lar seja a de um lugar onde você nunca é perdoado, podendo assim pertencer sempre a ele, aprisionado pela culpa. E talvez o preço do pertencimento seja ser digno dele.

Mas ela decidiu tomar o rumo de Kiamo Ko seguindo pela Estrada dos Tijolos Amarelos. Ela faria uma última tentativa de conseguir os sapatos. Ela nada tinha a perder. Se os sapatos caíssem nas mãos do Mágico, ele os usaria para sustentar seu direito à Terra de Munchkin. Talvez, se ela tentasse, con­seguisse dar de ombros e deixar a Terra de Munchkin entregue a seu próprio destino ― mas, que a coisa se danasse, os sapatos eram dela.

Ela finalmente encontrou um mascate que tinha visto Dorothy. Ele parou ao lado de seu vagão e esfregou as orelhas de seu burro enquanto dis­cutia com ela. “Ela passou aqui há poucas horas”, ele disse, mastigando uma cenoura e dividindo-a com o burro. “Não, ela não estava sozinha. Ela tinha uma turma de amigos maltrapilhos. Guarda-costas, eu suspeito.”

“Oh, a pobre coisa assustada”, disse a Bruxa. “Quem? Não seriam rapa­zes musculosos de Munchkin?”

“Não exatamente”, disse o mascate. “Havia um homem de palha e um lenhador de lata e um grande gato que se escondeu nos arbustos quando eu passei ― um leopardo talvez, ou um puma.”

“Um homem de palha?”, disse a Bruxa. “Ela estará despertando as figu­ras do mito, estará ressuscitando-as por encantamento? Deve ser uma criança atraente. Você reparou nos seus sapatos?”

“Eu quis comprá-los dela.”

“Sim! Sim, você comprou?”

“Não estão à venda. Ela parecia muito apegada a eles. Ganhou-os de presente de uma Bruxa Boa.”

“Grande porcaria, eles eram.”

“Não tenho nada a ver com isso, de qualquer jeito”, disse o mascate. “Não quer comprar alguma coisa?”

“Um guarda-chuva”, disse a Bruxa. “Vim sem nenhum, e o tempo parece estar ficando feio.”

“Eu bem que lembro os velhos bons dias da seca”, disse o mascate, pes­cando entre seus produtos um guarda-chuva um pouco gasto. “Ah, aqui está o guarda-chuva. Seu por um níquel de florim.”

“Meu de graça”, disse a Bruxa. “Você não o negaria a uma pobre mulher idosa, negaria, meu amigo?”

“Se negasse, não viveria para contar, bem vejo”, ele respondeu, e seguiu seu caminho sem compensação.

Mas, enquanto o vagão passava, a Bruxa ouviu uma outra voz: “Claro, ninguém pergunta nada a uma besta de carga, mas, em minha opinião, ela é a Ozma que saiu de seu aposento de sono profundo, e está marchando em direção a Oz para recuperar o seu trono”.

“Eu odeio monarquistas”, disse o mascate, e estalou o reio. “Eu odeio animais com atitudes.” Mas a Bruxa não pôde parar para intervir. Até aí, fora incapaz de salvar Nor, fora incompetente para barganhar com o Mágico. Também chegara um pouco tarde demais para matar Madame Morrible ― ou fora bem em cima da hora? De todo modo, ela não deveria tentar o que estava claramente fora de seu alcance.


10
A Bruxa tremia na boca de uma corrente de ar ascendente. Ela voara com a vassoura mais alto que nunca; ela estava num estado de excitação e pâ­nico. Deveria perseguir Dorothy, deveria arrebatar aqueles sapatos ― e quais eram seus reais motivos? Era mantê-los distantes das mãos do Mágico, tal como Glinda os quisera fora das mãos dos pobres e famintos munchkineses. Ou era se apoderar de alguma migalha da atenção de Frex, tivesse ela alguma vez a merecido ou não?

Logo abaixo da vassoura, as nuvens começaram a cobrir de névoa fina a visão das colinas manchadas por pedras e dos retalhados campos de melão e milho. Os finos fios retorcidos de vapor pareciam as marcas de rasura feitas pela borracha de uma criança de escola, traçando riscos brancos ao longo de uma paisagem que era como um esboço de aquarela. Que aconteceria se ela fosse em frente, impelindo a vassoura para cima, puxando-a para o alto? O objeto se espatifaria, como se tivesse se chocado contra os céus?

Ela poderia desistir desses esforços. Ela poderia deixar Nor de lado. Ela poderia liberar Liir. Ela poderia abandonar a Babá. Ela poderia render-se a Dorothy. Ela poderia desistir dos sapatos.

Mas um vento surgiu, um violento empuxo de ar que se encostou ao seu lado esquerdo. Ela não conseguiu forçar a vassoura contra ele. Ela foi levada para lá e para cá, e finalmente para baixo, até que a Estrada dos Tijolos Amarelos se delineou como um fio dourado entre florestas e campos. Havia uma tempestade no horizonte, encaixando barras de chuva acastanhada entre nuvens de cinza-lavanda e campos de cinza-esverdeado. Ela não tinha muito tempo.

Então, ela pensou tê-los visto lá embaixo, e mergulhou para conferir. Eles estavam parando para descansar debaixo de um salgueiro? Se fosse as­sim, ela acabaria com tudo agora.


11
Quando a tempestade amainou ― e a Bruxa despertou do que agora ela reconhecia como uma horrível ressaca ― ela não teve certeza de que fosse o mesmo dia. Ela não estava certa nem de que chegara perto deles ― poderia ela tê-los deixado escapar entre seus dedos daquele jeito? Mas, qualquer que fosse o caso, ilusão ou memória nebulosa, a Bruxa não ousou segui-los até a Cidade Esmeralda. Madame Morrible tinha muitos amigos nesse regime putrefato, e as notícias teriam se espalhado a essa altura. Deveria haver até grupos dando caça à Bruxa. Então, que acontecesse o que tinha de acontecer.

Embora isso a atormentasse, por aquele momento teria de desistir da idéia de reclamar os sapatos de Nessa. Ela mal dormiu a viagem inteira de volta a Kiamo Ko, exceto para parar e colher algumas frutinhas, e mordiscar algumas nozes e raízes doces, para manter as forças.

O castelo não havia sido destruído pelo fogo. O exército de reconhe­cimento do Mágico estava ainda acampado em seu posto avançado perto de Moinho de Vento Vermelho num estado de prontidão entediada. A Babá estava ocupada fazendo uma bela cobertura de caixão de crochê para seu próprio funeral, e elaborando listas de convidados. A maioria deles estava já no Outro Mundo, presumindo-se que para a Babá existisse Outro Mundo.

“Como seria bom ver Ama Clutch outra vez, eu concordo”, gritou a Bruxa, provocando um aperto nos ouvidos da Babá. “Eu sempre gostei dela. Ela tinha mais caráter que sua afetada Glinda.”

“Você era devotada a Glinda, você era”, disse a Babá. “Todo mundo sabia disso.”

“Bem, agora não mais”, disse a Bruxa. “A traidora.”

“Você cheira a sangue, vá se lavar”, disse a Babá. “Não está na hora?”

“Eu nunca me lavo, você sabe disso. Onde está Liir?”

“Quem?”


“Liir.”

“Oh, está por aí.” Ela sorriu. “Procure no poço dos peixes!”

Agora, era uma velha piada de família.

“Que nova besteira é essa?”, disse a Bruxa, ao encontrar Liir na sala de música.

“Eles sempre estiveram certos”, ele disse. “Olhe o que eu finalmente pe­guei, depois de todos esses anos.”

Era a carpa dourada que por muito tempo assombrara o poço dos pei­xes. “Oh, reconheço que estava morta e eu a tirei do fundo com um balde, não com um anzol ou uma rede. Mas, mesmo assim. Você acha que poderemos algum dia contar a eles que finalmente a pegamos?”

Todos esses últimos meses ele começara a falar sobre Sarima e a família como se eles fossem fantasmas que estivessem se ocultando bem atrás da curva da escada em espiral na torre, abafando risadinhas nessa longa, longa brincadeira de esconde-esconde.

“Só podemos esperar que sim”, ela disse. Ela raciocinou, debilmente, se não seria imoral criar os filhos com o hábito da esperança. Não era, no fim, muito mais difícil para eles ajustar-se à realidade de como o mundo funcio­nava? “Tudo mais correu bem enquanto estive fora?”

“Tudo bem”, ele disse. “Mas estou feliz por você ter voltado.”

Ela resmungou, e foi saudar Chistérico e sua família tagarela.

Em seu quarto ela pendurou o velho espelho com um cordão e um prego, e se absteve de olhar para ele. Ela tinha a horrível sensação de que veria Dorothy, e não queria vê-la de novo. A criança fazia com que se lembrasse de alguém. Era a sua inquestionável objetividade, aquele olhar não toldado pela vergonha. Ela era tão natural quanto um quati ― ou uma samambaia ― ou um cometa. A Bruxa pensou: não será Nor? Não será porque Dorothy me faz lembrar de Nor quando tinha a sua idade?

Mas, de volta à casa, a Bruxa não havia pensado em Nor, não realmente, muito embora seu rosto fosse uma pequena e aveludada evocação do rosto de Fiyero. Exceto por Nessarose e Shell, a Bruxa nunca se aquecera com a radiante promessa das crianças. Ela se sentia mais sozinha nesse aspecto que na questão da cor.

Não ― e agora seu olhar caiu de relance sobre o velho e cansado espelho, a despeito de suas intenções. Ela pensou: a Bruxa com seu espelho. Quem vemos nós que não seja nós mesmos? E é esta a maldição ― Dorothy me faz pensar em mim mesma, naquela idade, seja lá como for...

... A época passada em Ovvels. Lá está a garota verde, tímida, palerma e humilhada. Para evitar a dor dos pés úmidos, espirrando água aqui e ali com suas perneiras encharcadas feitas de couro de bezerro do pântano e botas à prova d’água. Mamãe, grávida de Shell, enorme como uma barcaça. Mamãe repetindo sem parar por meses a fio que ela podia ao menos trazer uma criança saudável a este mundo. Mamãe atirando as garrafas de bebida alcoólica e as folhas de alfineteiro na lama.

A Babá se inclina mais para a pequena Nessa, carregando-a ainda pe­quenina na procura diária de peixe assado, flores espinhentas, e trepadeiras de feijão graúdo. Nessa pode ver, mas não pode tocar: que maldição para uma criança! (Não admira que ela acredite em coisas que não pode ver ― nada pode ser provado pelo toque.) Para sua própria expiação, Papai leva a garota verde consigo numa expedição à casa dos parentes de Coração de Tartaruga, uma família de muitos ramos que vive num ninho de choças e passarelas sus­penso num pequeno bosque de árvores enormes, apodrecidas. Os quadlings, que são mais largos de quadris, são criaturas esquivas. O cheiro de peixe cru em suas casas, em sua pele. Eles ficam assustados com o pastor unionista, que foi em busca deles em seu esquálido povoado. Eu não tenho lembrança nítida de indivíduos, mas de uma velha matriarca, banguela e orgulhosa.

Os quadlings apareceram, depois de um período de timidez, não para o pastor, mas para mim, a garota verde. Ela não é mais eu, ela é algo muito an­tigo, ela é apenas ela, impenetravelmente misteriosa e densa ― ela se apruma feito Dorothy se aprumava, alguma coragem inata tornando a sua espinha ereta, tornando seus olhos diretos. Os ombros recuados, as mãos ao lado. Submissa ao toque dos dedos dos curiosos em seu rosto. Sem vacilar na causa do trabalho missionário.

Papai pede perdão pela morte de Coração de Tartaruga, que aconteceu há talvez cinco anos. Ele diz que é culpa sua. Ele e sua esposa tinham se apaixonado pelo soprador de vidro de Quadling. O que posso dar a vocês para compensá-los por isso, ele diz. Elphaba, a garota, pensa que ele está louco, ela acha que eles não estão escutando, eles estão é hipnotizados por sua estranheza. Por favor, perdoem-me, ele diz.

Só a matriarca responde a essas palavras; talvez seja ela a única que na verdade se lembre de Coração de Tartaruga. Ela tem a aparência de alguém que foi surpreendido se aventurando a sair de por baixo de uma pedra. Bem, num povo cujo código moral é tão frouxo, tão pouca coisa é errada.

Ela diz alguma coisa como: nós não perdoamos, nós não perdoamos, e não por Coração de Tartaruga, não; e ela bate no rosto de Papai com um junco, cortando-o com riscos finos. Eu era apenas uma testemunha, eu não estava realmente viva na época, mas eu vi. Foi quando Papai começou a se perder de seu caminho, é uma coisa que teve origem nesse açoitar.

Eu o vejo chocado: não ocorre na sua vida moral que alguns pecados possam ser imperdoáveis. Ele fica lívido, de um branco de cebola por trás das perfurações de sangue perolado que resultam do ataque da mulher. Talvez ela tenha todo direito de fazer o que fez, mas na vida de Papai ela se tornou a velha Kumbricia.

Eu a vejo, voluntariosa, orgulhosa: seu sistema moral não admite per­dão, e ela é tão prisioneira quanto ele, mas não sabe disso. Ela ri, toda gengivas e ameaça, e coloca o junco em sua clavícula, onde a extremidade de penas de flecha cai como um colar em seu próprio pescoço.

Ele aponta para mim, e diz ― não para mim, mas para todos eles: Isso não é punição suficiente?

Elphaba, a garota, não sabe ver seu pai como um homem fracassado. Tudo que ela sabe é que ele passa seu fracasso para ela. Diariamente, seus hábitos de acusar o mundo e lamentar a si mesmo fazem com que ela se sinta uma inválida. Diariamente, ela retribui com amor porque não conhece outro jeito.

Eu me vejo lá: a garota testemunha, de olhos bem abertos como Doro­thy. Fitando um mundo horrível demais para ser compreendido, acreditando ― à força de ignorância e inocência ― que por baixo desse inquebrável contrato de culpa e acusação há sempre um contrato mais velho que pode prender e libertar de um modo mais salutar. Um mais antigo precedente de resgate, pois não podemos ser sempre atormentados por nossa vergonha. Nem Dorothy nem a jovem Elphaba podem falar disso, mas a crença nisso está nos rostos de nós duas...

A Bruxa tinha apanhado a garrafa de vidro verde, em cujo rótulo ainda se podia ler ELI MILAGRO..., e colocou-o na mesa ao lado de sua cama. Tomou uma colher do antigo elixir antes de dormir, procurando alguma ver­são do fabuloso álibi que Dorothy alegava, o de que procedia de um mundo de algum modo diferente ― não provinha dos estados reais que haviam além do deserto, mas de uma existência geofísica separada. Uma existência até mesmo metafísica. O Mágico fizera essa afirmação quanto a ele mesmo, e, se o anão estava certo, a Bruxa tinha essa origem também. De noite ela tentou treinar-se para olhar na periferia de seus sonhos, para notar os detalhes. Era um pouco como tentar ver em torno das margens de um espelho, mas, achava ela, mais compensador.

Mas, o que conseguiu? Tudo, tudo bruxuleava, como uma vela, mas de maneira mais áspera, com mais estridência. As pessoas se movimenta­vam com gestos curtos, espasmódicos. Elas eram incolores, eram insípidas, eram alucinadas, eram histéricas. Os edifícios eram altos e implacáveis. Os ventos eram fortes. O Mágico aparecia em um ou outro desses quadros, um homem de aspecto muito humilde no contexto. Numa janela, numa loja da qual emergia um tanto desalentado, ela pensou, captou algumas palavras uma vez, e fez um tremendo esforço de vontade para despertar a fim de poder transcrevê-las. Mas elas não faziam nenhum sentido para ela. NENHUM IRLANDÊS PRECISA SE AJUSTAR.

Então, numa noite ela teve um pesadelo. Outra vez o Mágico estava no início dele. Ele caminhava sobre colinas de areia, com capinzais altos e cin­zentos soprando em feroz vendaval ― milhares, milhares de capinzais como aquele do junco espinhento com o qual a velha matriarca quadling tinha batido em Frex ― e o Mágico parou junto a um amplo trecho desprovido de vegetação. Ele se livrou de suas roupas, e olhou para um relógio em suas mãos, como se memorizasse um momento histórico. Então, avançou, nu e abatido. Quando a Bruxa percebeu que ele estava se aproximando, ela tentou sair do sonho com um grito, mas não conseguiu se desvencilhar. Era o oceano mítico, e o Mágico caminhava com a água até os joelhos, suas coxas, sua cintura; ele parava e tremia, e jogava água sobre o resto de seu corpo como uma espécie de penitência. Então, ele seguiu caminhando, e desapareceu dentro do mar, como Santa Elphaba da Cachoeira desaparecera sob o véu líquido. O mar tremia como um terremoto, vomitando sobre a areia da praia, golpeando com uma agitação de tímpano. Não havia um Outro Lado para aquilo. Devolveu o Mágico de suas águas, seguidamente, embora seguidamente este forçasse um novo mergulho, mais e mais exausto. O estoicismo, a determinação: não admira ele houvesse conseguido dominar uma nação. O sonho terminou com ele devolvido à praia pela última vez, chorando de frustração.

Ela acordou, nauseada, aterrorizada além de descrições, com sal em suas narinas.

Depois, passou a evitar o elixir milagroso. Em vez dele, fazia uma poção, derivada do livro de receitas da Babá e das margens do Livro das Sombras, para permanecer acordada. Se caísse no sono novamente, seria presa daquela visão de destruição terrestre, e ela preferia morrer a voltar a tê-la.

A Babá não tinha muito a dizer sobre pesadelos. “Sua mãe tinha tam­bém”, ela observou por fim. “Ela costumava dizer que via a desconhecida ci­dade da fúria em seus sonhos. Ela ficara tão furiosa com o modo com que você nasceu, você sabe ― eu quero dizer fisicamente, querida, não olhe desse jeito para mim: uma garota verde não é fácil para uma mãe explicar ― que ela engolia aquelas pílulas como doces quando estava grávida de Nessarose. Se Nessarose estivesse ainda por aqui para manifestar rancor, ela acusaria você, de certo modo, pelo que aconteceu a ela.”

“Mas, onde você conseguiu aquela garrafa verde?”, disse a Bruxa dentro do ouvido bom da Babá. “Olhe para ela, Bá querida, e tente se lembrar.”

“Desconfio que a comprei num bazar filantrópico”, ela disse. “Eu sabia fazer um centavo se esticar, acredite.”

Você poderia esticar a verdade para mais-além, pensou a Bruxa. Ela repri­miu um desejo de esmagar o vidro verde. Como estamos todos atados por laços de raiva em família, pensou a Bruxa. Nenhum de nós consegue se libertar.

12
Algumas semanas depois, numa tarde, Liir voltou de uma andança todo agitado e perturbado. A Bruxa odiou saber que ele tinha estado nova­mente em intimidades com os soldados do Mágico que estavam acampados no Moinho de Vento Vermelho.

“Eles tinham notícias, um despacho da Cidade Esmeralda”, ele disse. “Uma delegação de estrangeiros foi lá para ver o Mágico. E era só uma garo­ta! Dorothy, eles disseram, uma garota do Outro Mundo. E alguns amigos. O Mágico não permite audiência com seus súditos há anos ― ele trabalha através dos ministros, dizem. Um monte de soldados pensa que ele morreu há muito tempo, e que é só um complô do Palácio para assegurar a paz. Mas Dorothy e seus amigos entraram, e viram-no, e contaram a todo mundo como a coisa era!”

“Bem, bem”, disse a Bruxa. “Imagine só. Toda Oz, desde a Leal até a Opo­sição, está tagarelando sobre essa Dorothy. Que mais os tolos disseram?”

“O soldado que trouxe o despacho disse que as visitas pediram ao Má­gico que atendesse a alguns pedidos. O Espantalho queria um cérebro, Nick Chopper, o Homem de Lata, pedia um coração e o Leão Covarde pedia co­ragem.”

“E eu suponho que Dorothy pediu uma palmilha de sapato?”

“Dorothy pediu para ser mandada de volta para casa.”

“Espero que ela realize o seu desejo. E?”

Mas Liir ficou tímido.

“Oh, vamos lá, eu sou velha demais para ficar aborrecida com fuxicos”, ela provocou.

Liir pareceu corar com um prazer culposo. “Os soldados disseram que o Mágico rejeitou os pedidos estranhos.”

“E você está assim tão surpreso?”

“O Mágico disse a Dorothy que ele atenderia a seus desejos ― quando eles ― quando eles...”

“Você não gagueja faz anos. Não comece de novo, ou bato em você.”

“Dorothy e seus amigos têm de vir aqui para matar você”, ele concluiu. “Os soldados disseram isso porque você matou uma mulher em Shiz, uma ve­lha senhora famosa, e você é uma assassina. Você também é louca, disseram.”

“Eu sou provavelmente mais criminosa do que esses vagabundos in­competentes conseguem ser”, ela disse. “Ele estava apenas tentando se livrar dessas visitas. Provavelmente, orientou seus próprios soldados da Tropa da Tormenta para cortar a garganta da garota assim que ela estivesse a uma distância segura do público.” E sem dúvida o Mágico havia confiscado os sapatos. Isso a deixou atormentada. Mas como ela se sentiu lisonjeada pelas notícias de sua agressão terem se espalhado. Nesse momento, teve certeza de que tinha matado Madame Morrible. Só fazia sentido que ela o fizera.

Mas Liir balançou a sua cabeça. “O engraçado”, ele disse, “é que Dorothy está sendo chamada de Dorothy Tormenta. Os soldados de Moinho de Vento Vermelho disseram que os integrantes da Tropa da Tormenta não a tocariam, eles são supersticiosos demais.”

“O que esses soldados sabem de intriga, estacionados aqui do outro lado da lua?”

Liir deu de ombros. “Você não está impressionada pelo Mágico de Oz saber quem você é? Você é uma criminosa?”

“Oh, Liir, você entenderá quando ficar mais velho. Ou, de qualquer for­ma, não entender se transformará numa segunda natureza, e não importará mais. Eu não feriria você, se é isso que você quer dizer. Mas você parece tão surpreso que eu seja conhecida na Cidade Esmeralda. Só porque você me desobedece e me trata como um refugo, você acha que o mundo inteiro faz o mesmo?” Contudo, ela estava satisfeita. “Mas você sabe, Liir, se houver a mais remota chance de existir alguma verdade nesses boatos, é melhor você ficar distante do Moinho de Vento Vermelho por uns tempos. Eles podem seqüestrar você e mantê-lo para resgate até que eu desista dessa colegial e de seus companheiros carentes.”

“Eu quero conhecer Dorothy”, ele disse.

“Você não tem idade para isso, por favor, nos poupe”, ela disse. “Eu sem­pre quis transformar você em picles antes que chegasse à puberdade.”

“Bem, eu não vou ser seqüestrado, não se preocupe”, ele disse. “Ademais, eu quero estar aqui quando eles chegarem.”

“Preocupar-me seria a última coisa que eu faria se você fosse seqüestra­do”, ela respondeu. “Seria uma maldita falha só sua, e um grande alívio para mim ter uma boca a menos para alimentar.”

“Oh, bem, então quem carregaria a lenha escada acima todo inverno?”

“Eu contrataria aquele sujeito, o Nick Chopper. Seu machado me parece bem afiado.”

“Você o viu?”, Liir ficou boquiaberto. “Não, você não o viu!”

“Eu o vi sim”, ela disse. “Quem disse que eu não tenho acesso aos mais altos círculos?”

“Como ele é?”, ele disse, o rosto ansioso e iluminado. “Você deve ter visto Dorothy também. Como ela é, Titia Bruxa?”

“Não me chame de Titia, você sabe que isso me irrita.”

Ele importunou sem parar até que finalmente ela teve de gritar com ele. “Ela é uma bela bobalhona que acredita em tudo que todo mundo diz para ela! E se ela vier aqui e você disser que a ama, ela provavelmente acreditará em você! Agora, caia fora daqui, eu tenho mais que fazer!”

Ele se demorou junto à porta e disse: “O Leão quer coragem, o Homem de Lata, um coração e o Espantalho, cérebro. Dorothy quer voltar para casa. O que é que você quer?”

“Um pouco de paz e tranqüilidade.”

“Não é isso, não.”

Ela não poderia dizer perdão, não para Liir. Ela começou a dizer “um soldado”, para zombar de suas afeições apaixonadas por sujeitos que usassem uniforme. Mas, percebendo que o que dizia o deixaria ferido, ela se controlou a meio caminho, e no fim o que saiu de sua boca surpreendeu os dois. Ela disse: “Uma alma...”.

Ele olhou surpreso para ela.

“E você?”, ela disse, numa voz mais surda. “O que você iria querer, Liir, se o Mágico pudesse lhe dar alguma coisa?”

“Um pai”, ele respondeu.


13
Ela se perguntou, em resumo, se não estava ficando louca. Naquela noite sentou-se numa cadeira e pensou sobre o que havia dito.

Uma pessoa que não acredita no Deus Inominável, ou em nada, não pode acreditar numa alma.

Se você pudesse tirar as estacas da religião, aquelas que formam a sua estrutura, tornando-o consciente de cada passo que dá ― se você pudesse retirar as cimitarras da religião de seus sistemas mentais e morais ― você conseguiria mesmo ficar em pé? Ou você precisa de religião como, digamos, os hipopótamos nas Pastagens Milenares precisam dos pequenos parasitas venenosos que vivem em seu interior, para ajudá-los a digerir fibras e pol­pas? A história dos povos que se livraram da religião não é um argumento especialmente persuasivo para viver sem ela. Não será a religião ela mesma ― aquela cansada e irônica frase ― o mal necessário?

A idéia de religião funcionava para Nessarose, funcionava para Frex. Pode não haver nenhuma cidade real acima das nuvens, mas sonhar com ela pode dar vida ao espírito. Talvez na generosa experiência do unionismo em nossa era, permitindo a todas as ânsias devocionais viver e respirar sob o dossel do Deus Inominável, nós tenhamos selado nosso próprio destino. Talvez seja tempo de nomear o Deus Inominável, mesmo fragilmente e refletindo a nossa imagem maligna, para que possamos ao menos sobreviver sob a ilusão de uma autoridade que poderia tomar conta de nós.

Pois exclua do Deus Inominável qualquer coisa que se pareça com ca­ráter, e que você terá? Um grande vento vazio. E o vento pode ter força de vendaval, mas não ter força moral; e uma voz num furacão é um truque char­latanesco de um propagandista.

Mais atraentes ― ela agora via, pela primeira vez ― são as anacrônicas idéias do paganismo. Lurlina em sua carruagem de fadas, pairando comple­tamente fora de alcance sobre as nuvens, pronta para descer num milênio ou outro e lembrar-nos quem somos. Quanto ao Deus Inominável, em virtude de seu anonimato, não se poderia nunca esperar uma visita-surpresa. E reconheceríamos o Deus Inominável se ele batesse às nossas portas?

14
Às vezes ela tirava uma soneca, contra a vontade, seu queixo caindo sobre seu peito, às vezes despencando direto sobre o topo da mesa, fazendo seus dentes bater e sacudindo a sua mandíbula, e despertando-a com um sobressalto.

Ela deu para ficar à janela, olhando para o vale. Levaria semanas até que Dorothy e seu grupo chegassem, se na verdade eles não tivessem já sido assassinados e seus corpos queimados, tal como os de Sarima e família de­viam ter sido.

Uma noite Liir voltou de uma visita à caserna. Ele estava chorão e inar­ticulado, e ela tentou não se preocupar com isso, mas estava curiosa demais para deixar passar em branco. Finalmente, ele contou a ela. Um dos soldados havia proposto a seus companheiros que, quando Dorothy e amigos che­gassem, os amigos fossem mortos e Dorothy amarrada para um pequeno divertimento entre os homens solitários, carentes de sexo.

“Oh, os homens têm de ter as suas fantasias”, disse a Bruxa, mas ela estava perturbada.

O que fez Liir chorar foi que seus amigos tinham levado as observações do soldado a seu superior. O soldado foi despido e castrado, e pregado no moinho. Seu corpo girava em círculos enquanto os abutres vinham e tenta­vam bicar as suas entranhas. Ele ainda não estava bem morto.

“Não é difícil encontrar o mal neste mundo”, disse a Bruxa. “O mal é sempre mais facilmente imaginado que o bem, de certo modo.” Mas ela estava chocada com a veemência da reação do Comandante contra um dos seus. Então, Dorothy devia ainda estar viva, e estava aparentemente sob ordens de proteção das mais altas patentes militares da terra.

Liir segurava Chistérico em seu colo e soluçava sobre sua cabeça. Chis­térico dizia, “Bem, enquanto a gente geme, a desgraça gira.”

“Eles não formam um lindo par?”, observou a Babá. “Isso não daria uma pintura das mais ternas?”

Sob o manto da escuridão, a Bruxa se esgueirou em sua vassoura, e dela viu que o soldado agonizante havia, finalmente, morrido.

Numa certa tarde ela pensou, inexplicavelmente, no filhote bebê de leão separado de sua mãe, e obrigado a trabalhar para o laboratório do Dou­tor Nikkidik nos tempos de Shiz. Ela lembrou-se de como ele se agachara, lembrou-se do estardalhaço que ela fizera por isso. Ou estaria ela apenas glorificando a si mesma numa percepção tardia?

Se era o mesmo Leão, que crescera tímido e antinatural, não teria cora­gem de atacá-la. Ela o salvara quando ele era ainda jovenzinho. Não salvara?

Eles a confundiam, esse bando de Soldados Irregulares da Estrada dos Tijolos Amarelos. O Homem de Lata era oco, uma cifra mecânica, ou um ser humano eviscerado sob efeito de encantamento. O Leão era uma perversão de seus instintos naturais. Ela sabia conversar com engenhocas mecânicas, ela sabia lidar com animais. Mas era o Espantalho que ela temia. Era um feitiço? Era uma máscara? Haveria dentro dele um simples dançarino inteligente? To­dos os três tinham sido emasculados de um modo ou de outro, mistificados sob o feitiço da inocência da garota.

Ela podia dar ao Leão uma história, e pensar nele como o filhote que sofrerá abuso numa sala de ciências de Shiz. Ela suspeitava que esse Nick Chopper era a vítima do rancor e da magia de sua própria irmã, uma con­seqüência do machado enfeitiçado. Mas não encontrava meio de definir o Espantalho.

Ela começou a pensar que por trás daquele saco de milho pintado que era seu rosto, havia um outro rosto que ela conhecia, um rosto que estivera esperando.

Ela acendeu uma vela e disse as palavras em voz alta, como se realmente pudesse fazer os feitiços. As palavras soaram em torno do funil de fumaça cinzenta que subia do sebo gordurento. Se tinham sobre o mundo um outro efeito que não aquele, ela não sabia ainda. “Fiyero não morreu”, ela disse. “Ele foi aprisionado, e escapou. Ele está voltando para Kiamo Ko, está voltando para mim, e está disfarçado de espantalho porque não sabe ainda o que vai encontrar pelo caminho.”

Exigiria muito cérebro executar um tal plano.

Ela pegou uma velha túnica das que Fiyero usava. Chamou o Matalegria idoso e pediu que ele a cheirasse bem, e mandou-o para o vale o dia inteiro, para que, caso os viajantes aparecessem, ele fosse capaz de localizá-los, e con­duzi-los para casa alegremente.

E, embora ela tentasse não dormir, em certos momentos ela não conseguia evitar o sono; seus sonhos trouxeram Fiyero para mais e mais perto dela.

15
Houve um dia, nos primeiros eflúvios de outono, em que as bandei­ras e estandartes do acampamento abaixo foram trocados e os clarins soaram estridentes pelos penhascos do castelo. Devido a isso, a Bruxa adi­vinhou que o bando havia chegado a Moinho de Vento Vermelho, e estava recebendo uma saudação imperial. “Eles vieram tão longe, eles não perdem por esperar”, ela disse. “Vá, Matalegria, vá buscá-los e traga-os para cá o mais rápido possível.”

Ela soltou o cachorro veterano, e tão fortes foram as suas exortações que a prole toda saiu na corrida com ele, uivando de alegria e excitação em obediência a seu dever.

“Bá”, gritou a Bruxa, “vista uma saia limpa e troque seu avental, teremos companhia à noite!”

Mas os cães não regressaram, por toda tarde e pela noitinha, e a Bruxa logo viu a razão. Com um olho telescópico num invólucro cilíndrico ― inven­tado pela Bruxa ao seguir as leituras das descobertas do Doutor Dillamond sobre lentes opostas ― ela teve um choque diante de uma carnificina. Dorothy e o Leão tremiam com o Espantalho ao lado enquanto o Homem de Lata rachava as cabeças dos animais uma após outra com seu machado. Matalegria e sua família lupina jaziam espalhados como soldados mortos num campo de refugiados.

A Bruxa pulou de raiva e chamou Liir. “Seu cachorro está morto, olhe o que eles fizeram!”, ela gritou. “Olhe e me dê certeza de que eu não apenas imaginei isso!”

“Bem, eu não gostava muito daquele cão ultimamente”, disse Liir. “Ele teve uma boa vida longa, de qualquer forma.” Ele decidiu cooperar com ela, tremendo, mas depois dirigiu a lente para o penhasco outra vez.

“Seu tolo, aquela Dorothy não é coisa para brincar!”, ela gritou, tirando o instrumento de sua mão. “Para alguém que está por receber visitas, você está impaciente em ex­cesso”, ele disse, soturno.

“Eles estão vindo aqui é para me matar, se é que você se lembra”, ela disse, embora houvesse se esquecido disso, assim como esquecera o desejo de ter os sapatos até que os avistara novamente na lente. O Mágico não os tinha tomado de Dorothy! Por que não? Que nova forma de armadilha era essa?

Ela girou pelo quarto, estalando as páginas do Livro das Sombras para a frente e para trás. Recitou um feitiço, errou, recitou novamente, e então se virou e tentou aplicá-lo aos corvos. Embora os três corvos originais tivessem caído do topo da porta havia muito tempo, restavam bandos de outros na residência, meio crus e abobalhados, mas sugestionáveis de um modo estú­pido, coletivo.

“Voem”, ela disse. “OLhem com seus olhos mais perto do que posso ver, tirem a máscara do Espantalho para que possamos saber quem ele é. Peguem-­nos para mim. Furem os olhos de Dorothy e do Leão. E três de vocês devem seguir em frente, em busca da velha Princesa Nastoya, que está lá nas Pasta­gens Milenares, porque está chegando o tempo de todos nos reunirmos. Com a ajuda do Livro das Sombras, o Mágico poderá finalmente ser derrubado!”

“Eu nunca sei do que você está falando, ultimamente”, disse Liir. “Você não pode cegar aquele bando!”

“Oh, fique só observando”, rosnou a Bruxa. Os corvos voaram para longe numa nuvem negra e cruzaram o céu como chumbo grosso, planando pelos precipícios recortados, até chegarem aos viajantes.

“Um belo pôr-do-sol, não é?”, disse a Babá, subindo ao aposento da Bruxa em uma de suas raras incursões pelo castelo, Chistérico ao seu lado como sempre, prestando serviço.

“Ela mandou os corvos cegarem os convidados para o jantar!”

“O quê?”


“Ela está CEGANDO OS CONVIDADOS PARA O JANTAR!”

“Bem, é um modo de evitar o trabalho de tirar o pó, suponho.”

“Por que não vão mais depressa, seus lunáticos?” A Bruxa estava se contorcendo como se tivesse um colapso nervoso; batia seus cotovelos feito asas, como se ela própria fosse um corvo. Soltou um longo uivo quando os localizou de novo na lente.

“O que, o que, deixe-me ver”, disse Liir, agarrando a coisa. Ele explicou à Babá, porque a Bruxa estava quase sem fala agora. “Bem, acho que o Espan­talho sabe como espantar corvos muito bem.”

“Por que, o que foi que ele fez?”

“Os corvos não vão voltar, é tudo que posso dizer”, disse Liir, lançando um olhar de esguelha para a Bruxa.

“Ainda pode ser ele”, ela disse por fim, a respiração opressa. “Você pode realizar o seu desejo ainda, Liir.”

“Meu desejo?” Ele não se lembrava que fizera o pedido de ter um pai, e ela não se dera ao trabalho de lembrá-lo. Nada ainda a convencera de que o Espantalho não fosse um homem disfarçado. Ela não precisaria de perdão se Fiyero não houvesse morrido!

A luz diminuía, e o estranho grupo de amigos estava subindo a colina numa boa marcha. Eles tinham vindo sem escolta de soldados, talvez devido aos soldados realmente acreditarem que Kiamo Ko era governado por uma Bruxa Maléfica.

“Vamos, abelhas”, disse a Bruxa, “trabalhem comigo agora. Todas juntas desta vez, docinhos. Precisamos de um ferrãozinho, precisamos de um zum­bidinho, queremos fazer ruindade, vocês podem nos dar umas espetadinhas? Não, nós não, ouçam o que lhes digo, suas simplórias! O negócio é com a garota na colina lá embaixo. Ela está querendo pegar a sua Abelha-Rainha! E quando vocês terminarem o seu serviço, eu irei lá para pegar os sapatos.”

“Do que essa velha megera está falando agora?”, disse a Babá para Liir.

As abelhas ficaram atentas à intensidade na voz da Bruxa, e se ergueram num enxame saindo pela janela.

“Vocês vigiem, eu não consigo olhar”, disse a Bruxa.

“A lua está igualzinha a um belo pêssego subindo sobre as montanhas”, disse a Babá com o telescópio encostado em seu olho afetado pela catarata. “Por que não plantamos pessegueiros em vez daquelas infernais macieiras lá no pomar?”

“As abelhas, Bá. Liir, tome o telescópio das mãos dela e me diga o que realmente está acontecendo.”

Liir fez um relato detalhado. “Elas estão investindo, parecem um gênio ou qualquer coisa assim, voando todas num grande bloco com uma cauda des­grenhada. Os viajantes estão vendo-as chegar. Sim! Sim! O Espantalho está tirando palha de seu peito e de suas perneiras e cobrindo o Leão e Dorothy e também tem lá um cachorro pequenininho. Assim, as abelhas não conseguem passar pela palha, e o Espantalho está feito em pedaços no chão.”

Não podia ser. A Bruxa tomou a peça ocular das mãos de Liir. “Liir, você é um mentiroso imundo”, ela gritou. Seu coração rugia como um vendaval.

Mas, era verdade. Não havia nada além de palha e ar dentro das roupas do Espantalho. Nenhum amante que retornava, nenhuma última esperança de salvação.

E as abelhas, não tendo ninguém exceto o Homem de Lata para atacar, arremeteram-se sobre ele, e foram caindo em montículos negros no chão, como sombras carbonizadas, seus ferrões trombando na lataria.

“Você tem de dar crédito às suas visitas pela ingenuidade”, disse Liir.

“Quer se calar antes que eu dê um nó na sua língua?”, disse a Bruxa.

“Acho que devo descer e preparar uns aperitivos, eles ficarão com fome depois desse sofrimento todo que vocês estão fazendo-os passar”, disse a Babá. “Vocês têm preferência por queijo e bolachas ou legumes frescos ao molho de pimenta?”

“Eu prefiro queijo”, disse Liir.

“Elphaba? Qual é a sua opinião?”

Mas ela estava ocupada demais fazendo pesquisas no Livro das Som­bras. “Fica tudo a meu cargo, como sempre”, disse a Babá. “Tenho de fazer todo o trabalho. Era para eu estar chorando de alegria, na minha idade. Eu deveria poder descansar meus pés de uma vez por todas, mas não. Sempre a criada da noiva, nunca a noiva.”

“Sempre o padrinho, nunca o noivo”, disse Liir.

“Vocês dois, por favor, tenham pena de mim! Vá caindo fora, Bá, já que está indo embora!” A Babá rumou para a porta com a rapidez que seus velhos membros lhe permitiam. A Bruxa disse: “Chistérico, deixe-a ir com suas próprias forças, eu preciso que você fique aqui”.

“Claro, deixe-me cair na minha sepultura, feliz por ser tão prestativa”, disse a Babá. “Vai ser queijo, então.”

A Bruxa explicou a Chistérico o que ela queria. “Isso é estúpido. Vai es­curecer daqui a pouco, e eles cairão de algum rochedo e morrerão. Os pobre­zinhos, eu preferia que não. Quero dizer, o Homem de Lata e o Espantalho podem cair o quanto quiserem e nem se machucar muito, imagino. Um bom lateiro pode consertar um torso danificado. Mas traga-me Dorothy e o Leão. Dorothy está com meus sapatos, e eu quero ter uma conversa particular com o Leão. Somos velhos amigos. Você pode fazer isso?”

Chistérico envesgou, aceitou, recusou, deu de ombros, cuspiu.

“Bem, pelo menos tente, pra que você prestaria se não tentasse?”, ela disse. “Cai fora, você e sua turma.”

Ela se virou para Liir. “É isso aí, ficou satisfeito? Eu não pedi que nin­guém os matasse. Eles serão escoltados até aqui como visitantes. Pegarei os sapatos e os deixarei ir embora. Depois, levarei este Livro das Sombras co­migo para uma montanha e viverei numa caverna. Você é velho o bastante para tomar conta de si mesmo. Boa solução para uma bela porcaria. Quem precisa de perdão agora? Está certo?”

“Eles estão vindo para matar você”, ele disse.

“Sim, e você não está morrendo de ansiedade por isso?”

“Eu a protegerei”, ele disse, incomodado, e então acrescentou, “mas não a ponto de ferir Dorothy.”

“Oh, vá cuidar de pôr a mesa, e dizer para a Babá para deixar o queijo e as bolachas de lado, e fazer os legumes.” Ela sacudiu a vassoura para ele. “Vá, estou dizendo, e é pra valer!”

Quando ela ficou sozinha, desmoronou. Ou uma sorte fenomenal pro­tegia esses viajantes, ou eles tinham coragem, cérebros e coração o bastante para se virarem muito bem. Ela estava tentando a abordagem errada, eviden­temente. Ela daria as boas-vindas à garota, explicaria a situação direitinho, e pegaria os malditos sapatos quando pudesse. Com os sapatos, com o auxílio da Princesa Nastoya, talvez conseguisse ainda se vingar do Mágico. De qual­quer forma, o Livro das Sombras ficaria escondido. Ela daria um jeito. E os sapatos seriam conservados fora do alcance do Mágico.

Mas o choque da morte de seus familiares esfriava o seu sangue. Ela sentia seus pensamentos e intenções se atropelando uns aos outros sem parar. E ela não tinha muita certeza do que faria quando ficasse cara a cara com Dorothy.


16
Liir e a Babá se plantaram lado a lado na porta, sorridentes, quando Chis­térico e seus companheiros surgiram com uma balbúrdia insana, descar­regando seus passageiros nas pedras do pátio interno. O Leão gemia de dor e chorava de medo da altura. Dorothy vinha sentada, agarrando o cachorrinho em seus braços, e disse: “E onde podemos estar agora?”

“Bem-vindos”, disse a Babá, ajoelhando-se.

“Alô”, disse Liir, enrascando um pé no outro e caindo num balde de água. “Vocês devem estar cansados depois de sua longa viagem”, disse a Babá. “Vocês não gostariam de se refrescar antes de servirmos uma pequena re­feição? Nada fora do comum, vocês sabem, estamos muito longe do mundo convencional.”

“Isto aqui é Kiamo Ko”, disse Liir, vermelho como beterraba e levantan­do-se novamente. “A fortaleza da tribo arjiki.”

“Aqui ainda é território Winkie?”, disse a garota ansiosamente.

“O que eles estão dizendo, os bonecos? diga a eles para falar mais alto”, disse a Babá.

“Aqui é chamado Vinkus”, disse Liir. “Winkie é uma espécie de insulto.”

“Oh, Deus, eu não quero ofender ninguém!”, ela disse. “Misericórdia, não.”

“Você não é mesmo uma garotinha bonita, todos os braços e pernas no lugar certo, e uma pele tão delicada, sensível e inofensiva”, disse a Babá, sorrindo.

“Eu sou Liir”, ele disse, “e eu moro aqui. Este é meu castelo.”

“Eu sou Dorothy”, ela disse, “e estou muito preocupada com meus ami­gos ― o Homem de Lata e o Espantalho. Oh, por favor, alguém não poderá fazer alguma coisa por eles? Está escuro, e eles se perderão!”

“Eles não podem ser feridos. Eu vou pegá-los amanhã à luz do dia”, disse Liir. “Prometo. Faria qualquer coisa. No duro, qualquer coisa.”

“Você é tão bonzinho, tal como todo mundo aqui”, disse Dorothy. “Oh, Leão, você está bem? Foi terrível!”

“Se o Deus Inominável quisesse que os Leões voassem, ele teria posto neles uns balões de ar quente”, disse o Leão. “Eu acho que perdi meu almoço em alguma parte da ravina.”

“Calorosas boas-vindas”, pipilou a Babá. “Estávamos esperando vocês. Gastei meus dedos até os ossos, preparando umas coisinhas. Não é muito, mas tudo que temos é seu. É nosso lema aqui nas montanhas. O viajante é sempre bem-vindo. Agora, vamos buscar água quente para a sopa na bomba, vamos, e depois entraremos.”

“Você é muito gentil ― mas eu preciso encontrar a Maléfica Bruxa do Oeste”, Dorothy disse. “Eu disse A MALÉFICA BRUXA DO OESTE. Estou tão aborrecida por incomodar. E isto aqui parece um castelo perfeita­mente maravilhoso. Talvez eu possa voltar aqui depois, se minhas viagens me fizerem passar por este caminho.”

“Oh, bem, ela mora aqui também”, disse Liir. “Comigo. Não se preocupe, ela está aqui.”

Dorothy empalideceu um pouco. “Ela está aqui?”

A Bruxa apareceu na porta. “Ela está aqui sim, senhora, e ei-la”, ela disse, e desceu as escadas a passo rápido, suas saias rodopiando, sua vassoura se apressando a ficar disponível para serviço. “Bem, Chistérico, você fez um bom trabalho! Estou satisfeita por ver que todos os meus esforços não foram a troco de nada. Você, Dorothy, Dorothy Tormenta, aquela cuja casa teve a coragem de fazer uma aterrissagem forçada em cima de minha irmã!”

“Bem, não era a minha casa, no sentido legal, estritamente falando”, disse Dorothy, “e na verdade nem pertencia muito à Titia Em e Tio Henry, descontando umas janelas e a chaminé. Quero dizer que o Primeiro Banco Estatal de Mecânicos e Fazendeiros de Wichita é dono da hipoteca, assim eles são os responsáveis. Isto é, se você quiser entrar em contato com alguém. Eles são o banco que toma conta da coisa”, ela explicou.

A bruxa sentiu-se, subitamente, estranhamente calma. “Não tenho nada a ver com quem é dono da casa”, ela disse. “O fato é que minha irmã estava viva antes que você chegasse, e agora ela está morta.”

“Oh, estou tão sentida por esse fato”, disse Dorothy nervosamente. “Es­tou mesmo. Faria tudo para tê-lo evitado. Eu sei como me sentiria mal se uma casa caísse em cima da Titia Em. Uma vez uma tábua do telhado da varanda caiu sobre ela. Ela ficou com um galo enorme na cabeça e cantou hinos a tarde inteira, mas à noite voltou a ser a velha ranzinza de sempre.”

Dorothy enfiou seu cachorrinho debaixo do braço e subiu e pegou as mãos da Bruxa nas suas. “Estou sentida mesmo”, ela insistiu. “É uma coisa terrível perder alguém. Eu perdi meus pais quando era pequena, e bem me lembro.”

“Afaste-se de mim”, disse a Bruxa. “Eu odeio sentimentalismo. Faz mi­nha pele formigar.”

Mas a garota continuou segurando as mãos da Bruxa, com uma espécie de intensidade atenuada, e nada disse, apenas esperou.

“Tudo bem, tudo bem”, disse a Bruxa.

“Você era muito apegada à sua irmã?”, perguntou Dorothy.

“Isso não vem ao caso”, ela replicou.

“Porque eu era muito apegada à minha Mamãe, e quando ela e Papai se perderam no mar, eu quase não suportei.”

“Perdidos no mar, como assim?”, disse a Bruxa, desgrudando-se da ga­rota pegajosa.

“Eles estavam indo visitar minha avó no velho mundo, porque ela estava morrendo, e uma tempestade veio e seu navio foi atingido, partiu-se ao meio e foi parar no fundo do mar. E todas as almas a bordo se afogaram.”

“Oh, então eles tinham almas”, disse a Bruxa, sua mente recuando ante a imagem de um navio no meio de tanta água.

“E ainda têm. É tudo que resta para eles, desconfio.”

“Por favor, não grude em mim desse jeito. E venha comer alguma coisa.”

“Venha você, também”, disse a garota ao Leão, e ele se ergueu, mal-hu­morado, em suas grandes patas acolchoadas, pondo-se a caminho.

Então, agora nós viramos um restaurante, pensou a Bruxa, amarga­mente. Essa é boa, devo mandar um macaco voador para Moinho de Vento Vermelho em busca de um violinista para fazer música ambiente? Mas que criminosa mais singular ela estava se tornando.

A Bruxa começou a pensar em como desarmar a garota. Era difícil notar que espécie de arma ela usava, exceto aquela espécie de bom senso inane e honestidade emocional.

Durante o jantar Dorothy começou a chorar.

“O que houve, ela preferia legumes a queijo?”, disse a Babá.

Mas a garota não respondeu. Ela colocou as duas mãos no topo da mesa de carvalho que fora esfregada, e seus ombros tremeram de aflição. Liir ficou suspirando por levantar-se e envolvê-la em seus braços. A Bruxa fez um sinal severo de que ele deveria manter a compostura. Irritado, ele bateu sua caneca de leite com força na mesa.

“Tudo está muito bem”, Dorothy disse por fim, fungando, “mas eu estou tão preocupada por Tio Henry e a Titia Em. Tio Henry se aborrece tanto quando eu me atraso só um pouquinho ao voltar da escola, e Titia Em ― bem, ela pode ficar tão brava quando está irritada!”

“Todas as Titias são bravas”, disse Liir.

“Coma logo, pois quem sabe se ainda haverá outra refeição em sua vida”, disse a Bruxa.

A garota tentou comer, mas continuou se derretendo em lágrimas. Finalmente, Liir começou a chorar também. O cachorrinho. Totó, ficava pedindo as migalhas, o que fazia a Bruxa pensar em suas próprias perdas. Matalegria, que ficara consigo por oito anos, era agora um cadáver servindo de montaria para moscas e endurecendo na colina, junto com todos de sua prole. Ela se importava menos com as abelhas e os corvos, mas Matalegria era seu mascote especial.

“Bem, isto é uma festa”, disse a Babá. “Acho que devia ter enfeitado tudo com uma vela.”

“Acende vela fica chato”, disse Chistérico.

A Babá acendeu uma vela e cantou “Parabéns pra você” para fazer com que Dorothy se sentisse melhor, mas ninguém aderiu.

Então, fez-se silêncio. Só a Babá continuou comendo, terminando o queijo e começando a roer a vela. Liir ficava branco e rosa alternadamente, e Dorothy começou a olhar, perplexa, para um olho de nó na envernizada ma­deira do suporte da mesa. A Bruxa riscava seus dedos com uma faca, e passava a lâmina por seu indicador suavemente, como se fosse a pena de uma fênix.

“O que vai acontecer comigo?”, disse Dorothy, caindo num tom mono­córdio. “Eu não devia ter vindo para cá.”

“Bá, Liir”, disse a Bruxa, “retirem-se para a cozinha. Levem o Leão com vocês.”

“Essa velha desagradável está falando comigo?”, a Babá perguntou a Liir. “Por que a garotinha está chorando, não gostou da nossa comida?”

“Eu não vou sair do lado da Dorothy!”, disse o Leão.

“Eu não conheço você de algum lugar?”, disse a Bruxa numa voz baixa, tranqüila. “Você era o filhote que fez experiências no laboratório de ciências de Shiz tempos atrás. Você estava aterrorizado, então, e eu o defendi. Eu pouparei você novamente se ficar bem comportadinho.”

“Eu não quero ser poupado”, disse o Leão, petulantemente.

“Conheço essa sensação”, disse a Bruxa. “Mas você pode me ensinar alguma coisa sobre os animais na selva. Se eles revertem ao estado natural, e quanto. Eu sei que você foi criado na selva. Você pode ser útil. Você pode me proteger quando eu me embrenhar por ela com o Livro das Sombras, meu li­vro de feitiços, meu Malleus Maleficarum, meu hipnotizante incunábulo, meu códice de escaravelho, suástica e cruz gamada, meu texto taumatúrgico.”

O Leão rugiu tão subitamente que todos, até Dorothy, tremeram, so­bressaltados, em suas cadeiras. “Se de noite tem trovão, é do demônio a sa­tisfação”, observou a Babá, olhando pela janela para fora. “Acho melhor ir cuidar da roupa.”

“Eu sou maior que você”, disse o Leão para a Bruxa, “e não vou deixar Dorothy ficar sozinha com você.”

A Bruxa, investindo, se abaixou e agarrou o cachorrinho em seus braços. “Chistérico, vai jogar esta coisa aqui no poço dos peixes”, ela disse. Chistérico olhou, hesitante, mas fugiu depressa com Totó debaixo de seus braços como uma fatia de pão peluda que latisse.

“Oh, não, salvem o cachorrinho, alguém!”, disse Dorothy. A Bruxa pegou sua mão e prendeu-a na mesa, mas o Leão tinha se lançado rumo à cozinha atrás do macaco de neve e de Totó.

“Liir, feche a porta da cozinha”, gritou a Bruxa. “Passe uma tranca nela para que eles não possam voltar.”

“Não, não”, gritou Dorothy. “Eu irei com você, só não me machuque o Totó! Ele não fez nada para você!” Ela virou para Liir e disse, “Por favor, não deixe aquele macaco machucar meu Totó. O Leão é inútil, não acredito que ele poderia salvar meu cachorrinho!”

“Será que entendi que vamos comer pudim perto da lareira?”, disse Babá, com os olhos brilhantes. “É creme de caramelo.”

A Bruxa pegou a mão de Dorothy e começou a levá-la embora. Liir subitamente pulou para seu lado e pegou a outra mão de Dorothy. “Sua velha megera, deixe-a em paz”, ele gritou.

“Liir, realmente, você escolhe as horas mais inconvenientes para desen­volver o seu caráter”, disse a Bruxa enfastiada e surdamente. “Não nos meta em trapalhadas com essa pose de corajoso.”

“Tudo ficará bem ― só tome conta do Totó”, disse Dorothy. “Oh, Liir, tome conta de Totó, não importa o que acontecer ― por favor. Ele precisa de um lar.”

Liir se aproximou e beijou Dorothy, que caiu contra a parede de tão surpresa.

“Deus me livre”, resmungou a Bruxa. “Sejam quais forem meus pecados, juro que não mereço isto.”


17
Ela empurrou Dorothy em direção ao quarto da torre, e fechou a porta atrás de si. O longo período de insônia que vinha atravessando fazia sua cabeça girar. “Para que você veio aqui?”, ela disse à garota. “Eu sei por que você caminhou da Cidade Esmeralda até aqui ― mas vamos lá, fale na minha cara! Você veio para me matar, como dizem os boatos ― ou você traz uma mensa­gem do Mágico, talvez? Ele está querendo agora trocar o livro pela Nor? A magia pela garota? Diga-me! Ou ― eu bem sei ― ele pode ter instruído você para roubar meu livro! Na certa é isso!”

Mas a garota apenas recuava, olhando para a esquerda e a direita, ten­tando vislumbrar alguma forma de fuga. Não havia saída exceto a janela, e dali seria uma queda mortal.

“Diga-me”, disse a Bruxa.

“Eu estou completamente sozinha numa terra estranha, não me force a fazer nada”, disse a garota.

“Você veio para me matar e depois roubar o Livro das Sombras!”

“Não sei do que você está falando!”

“Primeiro me dê os sapatos”, disse a Bruxa, “porque são meus. Depois, conversaremos.”

“Eu não posso, eles não saem dos meus pés”, disse a garota, “eu acho que Glinda pôs um feitiço neles. Venho tentando tirá-los há dias. Minhas meias estão tão suadas, é inacreditável.”

“Me dê os sapatos!”, rosnou a Bruxa. “Se você voltar ao Mágico com eles, você estará sendo um joguete dele!”

“Não, olhe, eles estão grudados!”, a garota gritou. Ela chutou num cal­canhar com a outra ponta do pé. “Olhe, veja, estou tentando, tentando, eles não saem, é verdade, eu juro! Eu tentei dá-los para o Mágico quando ele os pediu, mas não saíram! Há alguma coisa na matéria de que foram feitos, eles são apertados demais ou algo assim! Ou talvez eu esteja crescendo.”

“Você não tem o direito de ficar com esses sapatos”, disse a Bruxa. Ela girava em círculos. A garota só fazia recuar, tropeçando na mobília, arre­bentando a colméia, e pisando na abelha-rainha, que havia emergido dos pedaços.

“Tudo que tenho, tudo, tudo que tenho morre quando você aparece”, disse a Bruxa. “Lá embaixo está o Liir, disposto a me jogar fora em troca de um simples beijo. Meus animais estão mortos, minha irmã está morta, você espa­lha morte em seu caminho, e é apenas uma menina! Você me faz lembrar Nor! Ela pensava que o mundo era mágico, e olhe só o que aconteceu com ela.”

“O que, o que aconteceu?”, disse Dorothy, em luta penalizante por ga­nhar tempo.

“Ela descobriu apenas como ele era mágico, ela foi seqüestrada, e vive sua vida miserável como uma prisioneira política!”

“Mas você também me seqüestrou, e não fui eu que pedi nada disso, nada. Você precisa ter compaixão.”

A Bruxa se aproximou e agarrou a garota pelo punho. “Por que você quer me matar?”, ela disse. “Você acredita realmente que o Mágico fará o que promete? Ele não sabe o que significa a verdade e, então, nem sabe como ele mente! E eu não seqüestrei você, sua boba! Você veio para cá por sua própria vontade, para me matar!”

“Eu não vim matar ninguém”, disse a garota, encolhendo-se.

“Você é a Adepta?”, disse a Bruxa repentinamente. “Aha! Você é a Ter­ceira Adepta? É isso? Nessarose, Glinda e você? Madame Morrible recrutou você a serviço do poder oculto? Vocês trabalham em conluio: os sapatos de minha irmã, o feitiço de minha amiga e a sua força inocente. Admita, admita que você é a Adepta! Admita!”

“Eu não sou adepta, eu sou adotada”, disse a garota. “É claro que não sou adepta de nada, você não nota?”

Você é a minha alma querendo a minha carniça, eu posso sentir”, disse a Bruxa.

“Eu não aceito, eu não aceito. Eu não quero ter uma alma; com a alma vem a eternidade, e a vida já me torturou demais.”

A Bruxa empurrou Dorothy de volta para o corredor, e transformou a ponta de sua vassoura num archote. A Babá subia as escadas mancando, apoiando-se em Chistérico, que trazia alguns pratos de pudim numa bandeja. “Tranquei todos na cozinha até que parem de fazer grosserias.” A Babá se queixava. “Tanta conversa estridente, tanta barulheira, tanta choradeira, a Babá não aceita isso, a Babá é velha demais. Eles são todos uns animais.”

Lá embaixo, nos empoeirados recessos de Kiamo Ko, o cachorro latiu uma ou duas vezes, o Leão rugiu e se arremeteu contra a porta da cozinha, e Liir gritou: “Dorothy, nós vamos indo!”. Mas a Bruxa se virou e deu um pontapé, e derrubou a Babá escada abaixo. A velha rolou e deslizou, soltando ohs e ais, Chistérico indo logo atrás, consternado. As dobradiças da porta da cozinha se romperam, e o Leão e Liir saíram tropeçando, caindo sobre a pilha desmoronada que a Babá virará ao pé das escadas. “Subam vocês, subam”, gritou a Bruxa, “Aprontei com vocês antes que vocês aprontassem comigo!”

Dorothy conseguiu libertar-se com esforço e correu para a escada em es­piral da torre à frente da Bruxa. Havia apenas uma saída, e era em direção ao parapeito da janela. A Bruxa seguiu em boa velocidade, precisando terminar seu trabalho antes que o Leão e Liir chegassem. Ela pegaria os sapatos, levaria o Livro das Sombras embora, abandonaria Liir e Nor, e desapareceria no deserto. Ela queimaria o livro e os sapatos, e depois daria cabo de si mesma.

Dorothy era uma forma escura, confusa, nauseada, entre as pedras.

“Você não respondeu à minha pergunta”, disse a Bruxa, erguendo o ar­chote, produzindo espectros e fantasmas no meio das sombras da arquitetura do castelo. “Você veio me caçar e eu quero saber. Por que você me matará?”

A Bruxa bateu a porta com violência atrás de si e trancou-a. Tanto melhor.

A garota só conseguia arfar.

“Você acha que não estão espalhando histórias a seu respeito por toda Oz? Você acha que não sei que o Mágico a mandou para cá para levar de volta a prova de que eu estava morta?”

“Oh, isso”, disse Dorothy, “isso é verdade, mas não foi por isso que vim!”

“Você não consegue ser uma mentirosa competente, não com essa cara!” A Bruxa empunhava a vassoura num ângulo favorável. “Diga-me a verdade, porque em ocasiões assim, minha pequenina, você deve matar antes de ser morta.”

“Eu não conseguiria matá-la”, disse a garota, chorando. “Fiquei horrori­zada por ter matado a sua irmã. Como poderia matar você também?”

“Muito simpático”, disse a Bruxa, “muito bonito, muito comovente. En­tão, por que veio?”

“Sim, o Mágico pediu para que eu a matasse”, Dorothy disse, “mas nunca tive a intenção de fazê-lo, e não foi por isso que vim!”

A Bruxa elevou a vassoura flamejante ainda mais, e se aproximou para olhar no rosto da garota.

“Quando eles disseram... quando disseram que era a sua irmã, e que nós tínhamos de vir para cá... foi como uma sentença de prisão, e eu não queria... mas eu pensei, bem, eu vou, e meus amigos vão comigo para me ajudar... e eu vou... e eu digo...”

“Diz o quê?”, gritou a Bruxa, impaciente.

“Eu digo”, disse a garota, endireitando-se, cerrando os dentes. “Eu digo: você um dia me perdoará por esse acidente, pela morte de sua irmã; você um dia me perdoará, pois eu não consegui me perdoar!”

A Bruxa gritou, de pânico, de descrença. O mundo agora iria se detur­par desse jeito, ferindo-a mais uma vez: Elphaba, que havia suportado que Sarima não a perdoasse, teria de dar perdão a uma menina incoerente? Como tirar uma coisa assim para dar de dentro de seu próprio vazio?

Ela fora pega, e se contorcia, penava, resistindo o quanto podia, mas a quê? Um fragmento da cauda da vassoura escapou, e queimou sua saia, e a seguir as chamas se espalharam por seu colo, espalhando fogo no pavio mais seco do Vinkus. “Oh, será que este pesadelo nunca vai se acabar?”, berrou Dorothy, e ela pegou um balde de recolher água de chuva que, na súbita luz causada pelo fogo, havia surgido à sua vista. Ela disse: “Eu vou salvar você!”; e atirou a água sobre a Bruxa.
* * *

Um instante de dor aguda antes da inconsciência total. O mundo era feito de dilúvios por cima e de fogos por baixo. Se houvesse uma coisa cha­mada alma, teria sido apostada numa espécie de batismo, e teria vencido?

O corpo pede à alma perdão pelos seus erros, e a alma pede perdão ao corpo por ocupá-lo sem permissão.

Um círculo de rostos expectantes se obscurece diante da luz; eles se movem nas sombras como fantasmas devoradores. Lá está Mamãe, brincando com seus cabelos, lá está Nessarose, rija e lívida como madeira exposta ao tempo. Lá está Papai, perdido em seus pensamentos, procurando seu rosto no meio dos pagãos desconfiados. Lá está Shell, ainda não completamente ele mesmo, a despeito de sua aparente inteireza.

Eles se transformam em outros; eles se transformam na Babá em seus primórdios, ácida e cerimoniosa; e Ama Clutch e Ama Vimp e as outras Amas, agora reunidas num borrão maternal. Eles se transformam em Boq, doce e ágil e honesto, quando ainda não se dobrara; e Crope e Tibbett em sua cômica, exagerada ânsia de serem amados; e Avaric em sua superioridade. E Glinda em seus trajes, esperando tornar-se boa o bastante para merecer o que procura.

E aqueles cujas histórias se encerraram: Manek e Madame Morrible e Doutor Dillamond e, acima de todos, Fiyero, cujos diamantes azuis têm o azul da água e do fogo sulfuroso também. E aqueles cujas histórias ficaram curiosamente inacabadas ― tinha de ser assim? ― a Princesa Nastoya dos Scrows, cuja ajuda não chegou a tempo; e Liir, o misterioso garoto enjeita­do, saindo de seu invólucro vegetal. Sarima, que, a despeito de sua afetuosa acolhida e sua fraternidade, não a perdoou, e as irmãs e os filhos de Sarima e o futuro e o passado...

E aqueles que tombaram sob a opressão do Mágico, incluindo Matale­gria e as outras criaturas residentes; e, por trás de todos, o Mágico em pessoa, um fracasso até que se exilou de sua própria terra; e, atrás dele, Yackle, fosse ela quem fosse, se alguém ela chegava a ser, e as anônimas Adeptas, caso tivessem existido, e o anão, que não declarara o seu nome.

E as criaturas de vidas provisórias, os desconjuntados unidos pelo acaso, os desajustados e os maltratados: o Leão, o Espantalho, o mutilado Homem de Lata. Eles surgem das sombras por um instante, e são trazidos à luz; depois, desaparecem.

Por fim, surge a Deusa das Dádivas, movendo-se entre as chamas e a água, e tenta dar-lhe amparo, murmurando alguma coisa, mas as palavras permanecem obscuras.

18
Oz distava de Kiamo Ko uma boa centena de milhas ao oeste e ao norte, e ficava ainda mais distante ao leste e ao sul. Na noite em que a Malé­fica Bruxa do Oeste morreu, qualquer um que tivesse olhos de ver, olhando do parapeito, notaria uma coisa. Na direção oeste, a lua estava se erguendo sobre as Pastagens Milenares. Embora os pacíficos yunamatas não houves­sem aderido, os clãs dos arjikis e scrows estavam reunidos para debater um pacto de aliança, devido à presença esmagadora dos exércitos do Mágico no Desfiladeiro de Kumbricia. A chefia arjiki e a Princesa Nastoya haviam concordado em enviar uma delegação à Bruxa do Oeste, e pedir orientação e apoio. Enquanto brindavam a ela e lhe desejavam saúde, menos que uma hora antes de sua morte, os corvos mensageiros que Elphaba despachara em busca de auxílio foram atacados por pássaros Roca noturnos e devorados.

A lua prateava as elevações e baixios dos Grandes Kells, e as sombras de prata se espalhavam pelos vales dos Kells Menores. Os escorpiões das Areias Ácidas saíam para distribuir suas ferroadas, os escarques do Deserto de Thursk se acasalavam em seus abrigos. No Altar Kvon, praticantes de uma seita tão obscura que não possuía nem nome faziam suas oferendas noturnas para as almas dos mortos, supondo, como a maioria faz, que os mortos tinham tido almas.

O Estado de Quadling, uma terra desolada de lama e rãs, fermentava silenciosamente em putrefação noite adentro, exceto por um incidente que ocorrera no Qhoyre. Um Crocodilo entrara num quarto de criança e engolira um bebezinho. O Animal fora destruído, e os dois cadáveres foram cremados, com grandes manifestações de lamentação e raiva.

Em Gillikin, os bancos investiram seu dinheiro para torná-lo mais ativo e mais vibrante, as fábricas derramaram seus produtos no mercado, os comerciantes traíram suas esposas, os estudantes de Shiz sacaram novas proposições intelectuais, e a tropa dos trabalhadores mecânicos reuniu-se secretamente, no que fora uma vez o Clube de Filosofia, para ouvir o liberto e aflito Grommetik falar de uma revolução de classes. Lady Glinda teve uma noite ruim, uma noite de tremores e remorso e dor; ela achava que eram os primeiros sinais de gota que apareciam devido à sua dieta de fartura. Mas ela passou sentada a metade da noite e acendeu uma vela numa janela, por razões que não conseguiu definir. A lua passava por sua cabeça fazendo seu trajeto que começara no Vinkus, e ela sentiu seu reflexo acusador, e se afastou das janelas altas.

Através do baixo espinhaço de montes conhecidos como Madeleines, entrando pelo Cesto de Milho, olhando para dentro das janelas de Solos de Colwen, a lua prosseguiu sua jornada. Frex estava insone, sonhando com Coração de Tartaruga e, sim, com Melena, sua bela Melena, fazendo seu desjejum no dia em que ele fora pregar contra o relógio maligno. Melena era um manancial de beleza, enorme como um mundo, a derramar sobre ele coragem, ousadia, amor. Frex mal se moveu quando Shell entrou na ponta dos pés, voltando de algum encontro clandestino, e foi sentar-se ao seu lado na cama. Shell não teve certeza de que notou, não teve certeza de que seu pai realmente despertara. “O que nunca pude entender foram aqueles dentes”, murmurou Frex, “por que aqueles dentes?”

“Quem saberia?”, disse Shell afetuosamente, não entendendo o mur­múrio sonhador.

A lua na Cidade Esmeralda? Não pôde ser vista por ninguém; luzes claras demais, energia muito frenética, espíritos armados em demasia. Nin­guém olhava para ela. Num quarto, surpreendentemente despojado e simples para alguém de posição tão elevada, o insone Mágico de Oz esfregava o seu rosto, e meditava por quanto tempo sua sorte duraria. Ele havia pensado a mesma coisa por quarenta anos, e esperara que a sorte começasse a parecer uma coisa natural, questão de mérito inato. Mas ele ouvia os muitos ratos que roíam as fundações de seu Palácio. A chegada daquela Dorothy Tormenta, de Kansas, fora um sinal, ele sabia; ele soube disso ao olhar para o rosto da menina. Não adiantava mais procurar pelo Livro das Sombras. Seu anjo vingador viera para levá-lo para casa. Um suicídio esperava por ele lá no seu próprio mundo, e, a esta altura, ele devia ter aprendido o bastante para executá-lo com sucesso.

Ele enviara Dorothy, presa àqueles sapatos como ela estava, para matar a Bruxa. Ele enviara uma garota para fazer o trabalho de um homem. Se a Bruxa fosse vitoriosa ― bem, a garota encrenqueira teria sido tirada de seu caminho, então. No entanto, perversamente, de uma maneira paternal, ele meio que desejou que Dorothy fosse bem-sucedida em suas tentativas.

Tornou-se um evento festivo, a morte da Maléfica Bruxa do Oeste. Foi saudado como um assassinato político ou um crime suculento. A descrição de Dorothy sobre o que aconteceu foi tida como auto-engano, ou como uma men­tira descarada. Fosse crime ou morte por misericórdia ou acidente, de qualquer modo, contribuiu de modo indireto para livrar o país de seu ditador.

Dorothy, mais aturdida que nunca, fez seu caminho de volta para a Cidade Esmeralda com o Leão, o Homem de Lata, o Espantalho e com Liir. Ali teria tido sua segunda famosa audiência com o Mágico. Talvez ele tivesse tentado novamente arrancar os seus sapatos para as próprias conveniências, e talvez Dorothy tenha levado a melhor sobre ele, estimulada pelas advertências da Bruxa. De qualquer maneira, ela o presenteou com algo que levara da casa da Bruxa para provar que havia estado lá. A vassoura ficara queimada além de qualquer possibilidade de reconhecimento, e o Livro das Sombras parecera incômodo demais para carregar, portanto, ela levou a garrafa de vidro verde que dizia ELI MILAGRO no papel que estava colado na frente.

Deve ser meramente apócrifo que quando o Mágico viu a garrafa de vidro, soltou um grito sufocado, e apertou freneticamente o coração. A his­tória é contada de tantas maneiras, dependendo de quem narra, e do que o interlocutor precisa ouvir de cada vez! E questão para a história, contudo, que, depois de um curto tempo, o Mágico tenha fugido do Palácio. Ele teria partido da maneira como havia chegado ― num balão de ar quente ― poucas horas antes que ministros rebeldes pudessem liderar uma revolta no Palácio e realizar uma execução sem julgamento.

Um monte de absurdos circulou sobre a maneira como Dorothy deixou Oz. Há alguns que sustentam que ela nunca o fez; dizem, como diziam de Ozma antes dela, que está escondida, disfarçada, paciente como uma criada, à espera do dia em que haverá de voltar e se exibir novamente. Outros insistem que ela voou para o céu como uma santa fazendo a sua ascensão ao Outro MUNDO, acenando frivolamente o seu avental e carregando aquele maldito cãozinho estúpido.

Liir desapareceu no mar de gente da Cidade Esmeralda, à procura de sua meia-irmã, Nor. Não se ouviu falar dele por um bom tempo.

Não se importando com o que tivesse acontecido aos sapatos originais, todos se lembravam deles como objetos belos, até mesmo atordoantes. Imi­tações bem-feitas e com marcas parecidas ficaram disponíveis no mercado e não saíram de moda por um longo período. Os sapatos ou suas réplicas, com sua sugestão de mágica residual, apareceram em público em tantas cerimônias que, como as relíquias dos santos, começaram a se multiplicar para preencher a demanda do consumo.

E quanto à Bruxa? Na vida de uma Bruxa, não há depois, no para sem­pre de uma Bruxa, não há felizes; na história de uma Bruxa, não há palavra final. Daquela parte que fica além da história de vida, além da história da vida propriamente dita, não há ― ai de mim, ou talvez graças aos céus ― quem possa contar nada. Ela estava morta, morta e enterrada, e tudo que restou dela foi a carapaça de sua fama de maldosa.

“E lá a maléfica velha Bruxa ficou presa, por um tempão.”

“E ela não conseguiu sair?”

“Ainda não.”

GREGORY MAGUIRE é um reconheci­do especialista da literatura de língua inglesa voltada para o público infan­to-juvenil, mas os seus romances encantam leitores de todas as idades. Bem como as resenhas que ele escreve para o New York Times Book Review, chamando a atenção dos mais velhos para os encantos da literatura produ­zida por J. K. Rowling, Maurice Sen­dak, Philip Pullman e Roald Dahl. Com Maligna, Maguire foi parar na Broadway, com uma montagem que já está há muitos anos em cartaz. Entre os seus livros para adultos estão Con­fessions of an ugly stepsister (1999), Lost (2001), Mirror, mirror (2003) e Son of a witch (O filho da bruxa), a ser lançado brevemente pela Ediouro.





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