Espiritismo: uma forma de racionalidade híbrida que inclui uma dimensão metafísica ✽



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Scientiarum História III

3º Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia





Espiritismo: uma forma de racionalidade híbrida que inclui uma dimensão metafísica
Nossa motivação para falar sobre o espiritismo resultou da crescente discussão sobre o tema tanto na sociedade quanto na academia. Entendemos que o contexto dessa discussão decorre da crescente busca, curiosidade e conseqüente interesse em pesquisas científicas que eventualmente apoiem a existência ou não de um nível de realidade imaterial, transcendente ou metafísica.

O questionamento sobre a existência ou não de uma substancia imaterial e sobre a sua possível agencia sobre corpos materiais vem sendo discutida nas ciências naturais desde os seus primórdios, quando ainda se denominava filosofa mecânica. Um caso exemplar está na obra de Joseph Glanvill (1636-1680), escritor, filósofo, clérigo, membro da Royal Society (1664) e amigo pessoal de Roberto Boyle (1627-1691). Em sua obra Saducismus triumphatus, publicada post mortem em 1681, Glanvill expressa sua preocupação com a crescente desqualificação da imaterialidade pela filosofia mecânica, em especial com as hipóteses atomistas, e suas decorrências para o entendimento do que seja o universo e o ser humano.


Se a Noção de Espírito deve ser considerada absurda, como pretendido, a de um Deus e de uma Alma distintos da Matéria e imortais também são Absurdo; ademais, que o Mundo foi aglomerado nesse tecido elegante e ordeiro por mero Acaso, e que nossas Almas são apenas Partes de Matéria que se juntaram, não sabemos quando nem como, e que em breve seremos dissolvidos nesses Átomos soltos que as compõem; que todos os nossos pensamentos são nada além do roçar de uma Parte de Matéria contra outra; e que as Idéias em nossas Mentes são meros, cegos Movimentos causais. Estas, e mais um Milhar dessas grosseiras Impossibilidades e Absurdos (Conseqüências da Proposição: que a Noção de Espírito é absurda) serão tristes certezas e Demonstrações.

(Glanvill, J., Sadducismus Triumphatus, pp. 4-5 em Prior, M. E., 1932, p. 177, minha tradução )


Em 1998, exatos 317 anos depois, Richard Dawkins anuncia que:
O organismo individual... não é fundamental para a vida, mas algo que emerge quando genes, que no inicio da evolução eram separados, entidades em conflito, se bandeiam em grupos cooperativos enquanto “cooperadores egoístas”. [...] Talvez o “eu” subjetivo, a pessoa que eu sinto que sou, seja o mesmo tipo de semi-ilusão... A sensação subjetiva de “alguém aqui dentro” pode ser uma semi-ilusão, uma montagem feita às pressas, emergente, análoga ao corpo individual que emerge da evolução que resulta da desconfortável cooperação entre genes [egoístas].

(DAWKINS, R., Unweaving the Rainbow, 1998, pp. 308-9 em MIDGELEY, M., 2001, p. 3, minha tradução )


Conforme Glavill previa, a ontologia mecanicista e materialista da filosofia natural dos século XVII e seguintes tornou-se o paradigma das ciências e da concepção de ser humano. Espíritos ou almas não participam desse contexto.

Apesar disso, o imaterial continua “rondando” as ciências, mesmo que “disfarçado” ou redefinido em outras redes conceituais. Os exemplos clássicos na física são: a “ação à distância” da gravidade na “mecânica” newtoniana; os campos de forças gravitacional e eletromagnético; e a dualidade partícula-onda na física quântica. Como exemplo transdisciplinar lembramos a questão ainda sem resposta sobre o que é a consciência, simultaneamente sujeito e objeto de estudo de áreas como a psicologia, psiquiatria, filosofia da mente e neurologia.

Neste cenário, pesquisamos textos que empregassem estudos científicos para explicar os fenômenos espíritas. Verificamos que, em sua maioria, as publicações destes estudos encontra-se restrita a revistas especificamente espíritas, mesmo quando assinadas por pesquisadores académicos (médicos, neurocientistas, psiquiatras) que lecionam em instituições reconhecidas.i

Diante desse “cisma” entre pesquisas e saberes que contemplam a imaterialidade e a tradicional pesquisa científica materialista, este trabalho propõe uma exploração epistemológica da Doutrina Espírita (DE) empregando a abordagem da epistemologia pluralista e permeável (CHAITIN, V. M. F. G., 2009). Sob este enfoque, estudou-se a DE como uma forma de saber particular, constituída numa racionalidade híbrida que traz elementos das racionalidades filosófica, religiosa monoteísta cristã e das ciências empíricas, buscando estabelecer bases para um conhecimento possível sobre o mundo natural (material e imaterial) e sobre o ser humano imerso nestes mundos. O desafio, portanto, não é de argumentar pela verdade ou falsidade da DE, nem de dizer que o espiritismo é exclusivamente científico, mas de pensar a sua constituição híbrida enquanto um saber que dá suporte a uma visão de mundo.

Quando se fala em espiritismo ou cardecismo, o usual é referir-se à “religião espírita”. Contudo, os estudiosos do espiritismo discordam dessa classificação. O termo Doutrina Espírita foi cunhado por Hyppolite L. D. Rivail (1804 – 1869), cujo pseudónimo é Alan Kardec, nascido na França de uma família que se distinguiu na magistratura e na advocacia. Intelectual poliglota, membro de diversas sociedades científicas e educador destacado na sociedade de sua época, teve seu “Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública” adotado pelo governo Francês em 1828. Empregou o termo espiritismo pela primeira vez em sua obra Livre des Espirits, publicada em 1857. Para situar esta obra na historia das idéias, citamos a Teoria da Evolução das Espécies de Darwin (1859); a Teoria Termodinâmica dos Gases (1865); e a Teoria Dinâmica do Campo Eletromagnético (1864).

Naqueles meados do século XIX, havia um interesse por fenômenos “sobrenaturais”, tais como as “mesas girantes e falantes”, das quais Hyppolite Rivail toma conhecimento em 1854. Inicialmente cético, foi convencido pela constância e recorrência do fenômeno espírita, que consistia de manifestações e comunicações de entidades invisíveis em lugares distintos e por sujeitos de diferentes níveis culturais e intelectuais. Convencido de que esta característica credenciava o fenômeno espírita de credibilidade empírica, fazia a sua vinculação com as pesquisas em magnetismo:


“O Magnetismo preparou o caminho do Espiritismo, e o rápido progresso desta última doutrina se deve, incontestavelmente, à vulgarização das idéias sobre a primeira. Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase às manifestações espíritas não há mais que um passo; tal é a sua conexão que, por assim dizer, torna-se impossível falar de um sem falar do outro. [...] Se tivéssemos que ficar fora da ciência magnética, nosso quadro seria incompleto e poderíamos ser comparados a um professor de física que se abstivesse de falar da luz. Todavia, como entre nós o magnetismo já possui órgãos especiais justamente acreditados, [...]; a ele, pois, não nos referiremos senão acessoriamente, mas de maneira suficiente para mostrar as relações íntimas entre essas duas ciências que, a bem da verdade, não passam de uma.”

(Revista Espírita – Ano 1, 1858, pág. 149)


Contudo, Kardec não chegou a provar que os fenômenos espíritas eram exatamente os mesmos fenômenos estudados pelos cientistas da época. O que fez foi “tomar emprestado” do vocabulário científico alguns conceitos ao usar, por exemplo, o termo “fluidos” em analogia àquilo que se acreditava existir na eletricidade e no magnetismo. Propôs, também inspirado por estes conceitos, teorias de uma ontologia espírita para a constituição íntima da substância imaterial que comporia o perispírito.

Neste caso, é importante mencionar que Kardec não teve como verificar esta proposta experimentalmente ou através da observação de fatos espontâneos. Hoje este tópico da DE é estudado nos relatos de experiências de quase-morte (EQM) por médicos, psiquiatras e neurofisiologistas no âmbito psico-somático. São estudos que permeabilizam a rede conceitual espírita com a da medicina por meio de experiências que remontam inclusive à reencarnação.


A ciência médica avança nos estudos acerca do funcionamento da epífise [...] Acredito que as visões da EQM, bem como as transformações ocorridas com os experientes têm a participação direta da glândula pineal que, nas manifestações da EQM, tem ascendência sobre o lobo temporal e sistema límbico. É interessante ressaltar que alguns pesquisadores encontraram sobreviventes de EQM cujos enredos, do outro lado, envolveram uma retrospectiva de vidas passadas. Muitos desses sobreviventes passam a aceitar a reencarnação como um fato normal da vida.

OLIVEIRA, Sérgio Felipe de. Glândula Pineal: Ciência e Mito. Boletim Médico-Espírita 11. AME-SP, 1997.


De que maneira, então, se aproxima e se distancia o espiritismo das ciências? Em nossa perspectiva pluralista e permeável, destacamos os seguintes aspectos que caracterizam uma forma de racionalidade, que constituem as suas regras de legitimação e justificação de validade para o respectivo saber (CHATIN, V.M.F.G., 2009, p. 155):


  • Princípios gerais que assumem características do nível ontológico e que implicam em limites e possibilidades de inteligibilidade;

  • O tipo de causalidade admitido;

  • O tipo ou os tipos de lógica que se admite para fazer as associações, combinações e ordenamentos;

  • Métodos ou técnicas para observação e experimentação;

  • A posição do sujeito diante do nível ontológico e do conhecimento; e

  • Diferentes processos de verdade instaurados pelo sujeito.

Um estudo completo do espiritismo permitiria um detalhamento de todos esses aspectos, o que foge ao escopo deste trabalho. Contudo, esta caracterização nos permite dar partida à proposta de estudar o espiritismo em sua constituição híbrida.

Em primeiro lugar, no tocante aos métodos e técnicas da racionalidade espírita, destacamos a busca de comprovação empírica dos fenômenos, bem como a sua repetição em observações independentes, que envolvem sujeitos que não se conhecem mas que se comportam da mesma maneira e cujas informações trazem o mesmo conteúdo, o que aproxima e experiência espírita à científica. Por outro lado, há um distanciamento marcante quando se trata da comunicação com espíritos que resulta numa mensagem verbal ou psicografada. O método básico de transmissão de conhecimentos espíritas implica na existência e na comunicação com espíritos imateriais, e isto foge totalmente aos princípios gerais ontológicos das ciências contemporâneas. No que diz respeito ao tipo de causalidade admitido, nas ciências há ainda questões em aberto, uma vez que nem todos os fenômenos científicos obedecem a uma causalidade por contato mecânico, classicamente desejada, ou mesmo ao limite máximo da velocidade da luz para uma conexão causal. Citamos como exemplo o emaranhamento quântico de partículas que ocorre instantaneamente e à distância. Já a causalidade espírita admite agência da substancia imaterial e instantânea sobre a matéria. Neste ponto, ciências e espiritismo ainda têm uma possível aproximação a explorar.

Outro aspecto importante a considerar é a possibilidade de inteligibilidade na racionalidade cientifica. Nas ciências, o ser humano é capaz de conhecer todo o universo, não há “mistério” que não possa ser desvendado. Na racionalidade espírita, há conhecimentos que só os espíritos conseguem alcançar. Este caráter doutrinário do espiritismo, resulta de um processo de verdade instaurado por sujeitos que crêem numa verdade pré-existente e acabada, acessível e revelada em sua totalidade apenas por espíritos, como dissemos. No caso da racionalidade cientifica, também se assume tradicionalmente que a verdade seja única, pré-existente e acabada, e que os cientistas estariam “descobrindo” essas verdades, o que aproxima ciências de espiritismo. A divergência se dá na suposição de que o conhecimento cientifico ocorre por aproximações sucessivas pelo uso do método científico que resulta nas suas teorias. Em ciências, por princípio, não existem doutrinas que não estejam sujeitas à reformulação ou ao descarte no futuro, embora na sua pratica paradigmas científicos sejam bastante doutrinários.

Recorrendo à relativa fluidez das ciências, abre-se um perspectiva interessante: estaria no seu futuro o conhecimento que vai trazer a explicação dos fenômenos espíritas? Seriam estas as ciências que acolheriam o mistério? Ou haveria um espiritismo futuro que, tornando-se menos dogmático, acolheria a participação no mistério pelo homem encarnado? São possibilidades abertas na plasticidade dos saberes e na permeabilidade de suas regras.

BIBLIOGRAFIA


CHAITIN, V.M.F.G., Redes conceituais em mímesis na história das idéias: uma proposta de epistemologia pluralista, Tese, Doutoramento em Hitoória das Ciênicas e das Técnicas e Epistemologia, 179p., Rio de Janeiro, UFRJ, 2009

DAWKINS, R., Unweaving the Rainbow, New York: Houghton Mifflin Harcourt,1998.

GLANVILL, J., Saducismus triumphatus, presume-se editado por Henry More, publicado postumamente em1681, e re-impresso com acréscimos e variações de grafia do título em 1689, 1700 e1726.

KARDEC, A., Livre des Espirits, Paris: Editora Dentu, 1857

___________, A Gênese, Tradução de Guillon Ribeiro da 5a. edição francesa, La Genèse, Le Miracles, Le Prédicion Selon le Spiritisme, Brasília: Editora Federação Espírita Brasileira, 1944

MIDGELEY, M., Science and Poetry, London and New York: Routledge, 2001

OLIVEIRA, Sérgio Felipe de. Glândula Pineal: Ciência e Mito. Boletim Médico-Espírita 11. AME-SP, 1997.



PRIOR, M. E., Joseph Glanvill, Witchcraft, and Seventeenth-Century Science, em Modern Philology, Vol. 30, No. 2 (Nov., 1932), pp. 167-193.

i Dentre os autores de artigos publicados sobre matérias espíritas e que são vinculados à academia, destacamos o Prof. Dr. Sergio Felipe de Oliveria, Departamento de Medicina da USP.


Virginia M. F. G. Chaitin, Ricardo Silva Kubrusly, Jacilene M. Viana




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