“Escola de Donas de Casa” e a Aprendizagem para ser Mãe: o Ser Mulher Portuguesa na década de 1950



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“ESCOLA DE DONAS DE CASA” E A APRENDIZAGEM PARA SER MÃE: O SER MULHER PORTUGUESA NA DÉCADA DE 1950

Constantina Xavier Filha - Faculdade de Educação da USP – FEUSP/ Universidade Federal de Mato Grosso do Sul-UFMS


O presente texto visa a apresentar análises preliminares de estudo (com apoio da Capes) que têm como um de seus objetivos compreender os discursos que constituem as normas de vivência e educação feminina, educação sexual e afetividade/sexualidade da mulher. A fonte privilegiada na pesquisa são discursos apreendidos através de histórias de vida de professoras brasileiras e portuguesas. Tal fonte será triangulada com outras, como a que iremos descrever neste artigo, como a Revista Modas e Bordados - suplemento do Jornal “O Século” –, no ano de 1950, mais especificamente, em duas seções fixas denominadas: “Página das mães” e “Escola de donas de casa”. Nesta análise também foram selecionados alguns esporádicos textos da seção, “Opiniões e Conselhos”, direcionados à temática estudada. A revista tem periodicidade semanal e é marcadamente dirigida ao público feminino português, com circulação em todo o país de Portugal. A temática predominante nos artigos selecionados é a educação feminina, com base em padrões vigentes na época em questão, privilegiando a “mulher ideal”, divulgando normas relativas a aspectos da feminilidade, da vivência da sexualidade, do aprendizado da maternidade e das tarefas de dona de casa e de esposa. Tais análises serão, posteriormente, realizadas em revista brasileira, para estabelecer alguns elementos de aproximação entre as duas realidades.

A utilização da imprensa como fonte em pesquisas no campo da História da Educação tem-se efetivado nos últimos anos como um meio privilegiado para apreender a multiplicidade do campo educativo. Nóvoa, em seu Repertório Analítico da Imprensa de Educação e Ensino (1993), fornece-nos alguns elementos para a discussão com base na chamada grande imprensa (como a que se pretende no presente texto). Para o citado autor, apesar da diversidade da imprensa, pode-se afirmar que “os escritos jornalísticos se definem pelo seu carácter fugaz e imediato, inscrevendo-se freqüentemente numa lógica de reacção à realidade ou a idéias, a normas legais ou a situações políticas. A imprensa é, talvez, o melhor meio para compreender as dificuldades de articulação entre a teoria e a prática”. Os artigos da grande imprensa, além destas características, também apresentam idéias e conceitos cotidianos que constituem os discursos educativos e normativos para a vivência das pessoas, no caso especial, as mulheres.

Na trajetória de vida das professoras, uma atenção especial concentra-se nas leituras desenvolvidas (tanto por elas quanto por seus familiares – mães, avós...), além dos movimentos em que estiveram envolvidas durante a sua vida. A revista supracitada integrava-se nas práticas de leitura das entrevistadas portuguesas. Daí entender-se porque analisar os artigos das revistas de então permite entender as idéias e concepções do feminino das que estavam se constituindo como mulher na década de 1950.
Metodologia adotada:

Foram analisados 52 números da revista “Modas e bordados: vida feminina”, editada e publicada no ano de 1950. A atenção foi voltada a duas seções que trazem conteúdos, idéias e conselhos de como ser mãe, dona de casa, esposa e mulher ideal no período estudado. A “Pagina das mães” veicula artigos (a maioria deles assinados), dicas de moda para filhos/as e futuras mamães, fotos de crianças afixadas num “quadro de honra”, além de conselhos e dicas de puericultura e indicações de atitudes para a “mãe ideal”. A seção “Escola de donas de casa”, por sua vez, como o próprio nome indica, tem como objetivo transmitir informações práticas para o exercício da função de dona de casa, além de explicitar conselhos, dicas práticas e de beleza, de decoração e de adoção de atitudes e comportamentos para a mulher desempenhar dentro do seu lar.

A análise foi realizada inicialmente com o preenchimento de uma ficha visando à compreensão do todo da revista; após a seleção dos assuntos das seções estudadas, foi feita uma leitura aprofundada dos seus conteúdos. Em seguida, os assuntos foram categorizados, independentes da seção em que estavam inseridos, visando apreender os discursos veiculados sobre as questões da vivência feminina no início da década de 1950, que serão analisados a seguir.


  1. Escola para a MÃE IDEAL: “Deus não podia estar em toda a parte; foi por isso que fez as mães”

Esse provérbio judeu (revista nº 2007) expressa a idéia da divindade delegada à figura da mãe. O amor transcendental, o sacrifício e a abnegação são características repassadas e valorizadas pela revista, já que tem em seu subtítulo a expressão “vida feminina”; portanto, repassa informações e, especialmente, valores que são esperados para que a mulher da década de 50 possa viver a sua vida e a sua feminilidade. O ideal de mãe, então, é transmitido nos conteúdos da revista com uma linguagem impositiva e direta, priorizando as atitudes e comportamentos esperados para a vivência da maternidade. Esses conselhos são repassados, especialmente, através de pequenos textos, com títulos chamativos e com linguagem do universo feminino. A sua estrutura é dividida em duas perspectivas: a primeira, relacionada com a educação da mãe através da prática da puericultura, ou seja, o conjunto de técnicas empregadas para assegurar o perfeito desenvolvimento físico e mental da criança, desde a gestação até a puberdade e adolescência; a segunda adquire uma função mais próxima da mulher, assemelhando-se a um “bate-papo”, com a indicação de conselhos de como viver a maternidade.

Em linhas gerais, questões como higiene da gravidez, cuidados no período da gestação, o “dever” da amamentação, cuidados primários com o bebê são a tônica dos artigos, sempre com o aval dos especialistas e “doutores do saber”, como médicos (pediatras e pedopsiquiatras), assistentes sociais, sociólogos e psicólogos.

Dos conselhos repassados, vale ressaltar os assinados pela própria diretora da revista, Etelvina Lopes de Almeida, que assina com as iniciais do nome, E.L.A. Neles, a autora estabelece um diálogo franco e até íntimo com a leitora. A estrutura destes pequenos textos compreende, em regra geral, a primeira parte com a idéia principal; em seguida, apresenta as conseqüências, quase sempre “perversas”, da não-utilização das dicas pelas mães, como veremos, a seguir, em dois exemplos:

1. “Se a tua vida o permitir, isto é, se não tens de sair de casa por obrigação profissional diariamente, não dês a mais ninguém a felicidade de cuidar de teu filho. Trata-o por tuas próprias mãos embora isso altere as tuas horas, a tua vida habitual. Mesmo que para o tratares tenhas de renunciar a divertimentos ou a visitas, não hesites. Será através desses pequenos sacrifícios que compreenderás até que altura subiu o amor por seu filho” (revista nº 1.983).

2. “Não penses que a ternura que dás a teu filho o pode algum dia prejudicar. (...) A ternura não conhece pragmáticas nem horários. Manifesta-se na criança ou no adulto quando quer. Deixa que os sentimentos de teu filho se expandam para que, mais tarde, ele não seja um recalcado, um tímido, envergonhado de ser, afinal, natural e humano” (revista nº 1.985).

Observamos dois aspectos importantes nesses textos. Um deles diz respeito às características ideais da boa mãe, e o segundo, à responsabilidade feminina com a formação do caráter do filho, observando-se que, na maioria dos casos, há um certa responsabilização da mulher por sua omissão diante da educação de filhos e filhas; ou seja, na medida em que a mãe falha em sua função, a criança poderá ser um adulto recalcado, tímido e com problemas psicológicos ou então, de acordo com o primeiro exemplo, a possibilidade de não ter o amor do filho se a mãe não expressar ternura por ele.

Das características da “mãe ideal” expressas nos artigos, depreendem-se valores como: renúncia, sacrifício, negação do seu próprio ser e, especialmente, a maternidade como o “melhor prémio” (rev. nº. 1.994), ou a “mais alta alegria da mulher” (nº 1.994). Enfim, a idéia principal repassada é que mulher somente se realiza totalmente após o exercício da maternidade (rev. nº 1.999).

No entanto, a determinação biológica em gerar um filho não é indicada como preponderante para a completude da mulher; também a que “gera pelo coração” e cria filhos como seus tem esse mesmo sentimento nobre em seu coração e completa-se da mesma maneira. “Não julgues que o sentimento maternal ou o instinto, como lhe queiras chamar, só é possível na verdadeira mãe, isto é, na mulher que tem filhos. Toda a mulher normal pode sentir-se um pouco mãe das crianças que tiver à sua beira” (rev. nº. 2.019).

Para ser mãe, portanto, necessita-se, além do instinto próprio do ser mulher, de um aprendizado. Para isso, a revista investe-se do objetivo de ser o veículo dessa educação formal para a mãe. Há indicações como: “Assim que saibas que vais ser mãe, não descures uma leitura: a dos livros que te ensinam a tratar de ti e do teu filho” (rev. nº 1.988). Os conteúdos repassados exploram a questão do estudo para ser mãe. Esses ensinamentos não passam de uma “escola de mães”, com dicas fundamentadas em “método científico”, que exige estudo e reflexão para a execução das dicas, conselhos e conceitos repassados nas páginas da revista. Tal método, todavia, deve ser repassado para a prática e deve expressar-se na própria educação dos filhos e filhas, que também se utilizarão dele para a ordem e organização pessoal no cotidiano de suas vidas.

Apesar de a revista priorizar o “método” para o exercício da maternidade, a essência intuitiva feminina nunca é menosprezada. Um artigo curioso publicado no número 1.998 da revista é representativo dessa idéia. A autora J. Loftiz descreve a sua experiência de mãe em comparação com a maternidade de sua gata. Durante as várias equiparações nas vivências, humana e animal, desse exercício, a autora diz que, apesar de sentir-se “apetrechada com os meus estudos de puericultura feitos no colégio, uma boa dúzia de livros sobre a pré e a post-maternidade, os preceitos do médico assistente e os ensinamentos de minhas duas avós”, mesmo com todo esse arcabouço teórico-prático, a mãe humana perde-se diante da labuta do cuidado com o bebê e de sua vivência maternal. Em contraposição, a gata, não dispondo de todos esses elementos, educa e cria os seus filhotes sem nenhum problema, preocupação ou desgaste. No final do texto, a autora diz ter aprendido uma lição com o seu bichano na maneira de viver a sua maternidade com flexibilidade, deixando o bebê desenvolver-se naturalmente, ou melhor, permitindo que a própria natureza e o instinto próprio de mulher falassem mais alto do que todos os preceitos apreendidos.

Outro aspecto levantado no aprendizado de mãe diz respeito à maneira de educar filhos e filhas. O método está presente e será aprofundado na categoria “mãe e educadora”. Mas, em síntese, pode-se perceber que, entremeados com os elementos intrínsecos da maternidade, há indicativos de preponderância da educação para a contenção. Contenção essa, em relação à alimentação da criança, “sem exotismos e extravagância” (rev. nº 1.985), ou em relação ao carinho e afeto dispensado ao filho ou filha (como o proposto no nº 1.979), que indica que a mãe deve habituar o bebê a bastar-se. Esta contenção também é passada para a própria vivência da mãe. Um dos artigos, significativo a esse respeito, discute a questão da fadiga da mãe e as suas conseqüências na vida dos demais componentes da família. A mulher que se encontra “enervada, fatigada excessiva e cronicamente” deve fazer uma auto-reflexão sobre as causas e, dentre as várias sugestões propostas, o primeiro passo para a mudança seria o domínio de seu próprio temperamento, a contenção de seus impulsos; para isso, deve manter a saúde mental a qualquer custo para o bem da harmonia familiar.



  1. Escola de DONAS DE CASA: “Que mulherzinha habilidosa, a minha!

O aprendizado da dona de casa é o outro aspecto transmitido pelos conteúdos da revista. Neste aspecto, os papéis de esposa e de dona de casa estão diretamente interligados. Um exemplo significativo é o expresso na seção “Escola de donas de casa”, no número 1.983, com o episódio de um marido que suja a sua gravata com vinho. Eis os conselhos para a esposa: “Vamos, não diga ao seu marido que ele é um desastrado só porque algumas gotas de vinho tinto saltaram para a gravata. Seja gentil, peça-lhe que a tire; polvilhe-a imediatamente com sal fino. Daí a cinco minutos, a mancha terá desaparecido. (...) A gravata ficará como nova e o seu marido, em vez de ficar zangado com a censura que ia saltar dos lábios da esposa, pensará: - Que mulherzinha habilidosa, a minha!

Ser boa dona de casa é ser uma boa esposa, ou seja, alguém prestativa, cuidadosa, carinhosa, orgulhosa do que faz (rev. nº 1.988), “serena, organizada e económica” (rev. nº 1.984), alguém que desempenha as tarefas domésticas com apreço e, especialmente, é o exemplo da esposa ao receber convidados nos serões, além de estar sempre bela e elegante para acompanhar o marido em suas atividades sociais.

As tarefas domésticas desenvolvidas pela dona de casa com todo esmero e dedicação necessita de organização e “método” para que seu trabalho tenha êxito e, sobretudo, economia de tempo e esforço. É exatamente esse conteúdo que é transmitido no texto da revista (rev. nº 1.996), que descreve e apresenta os princípios do “método”. “O ensino ‘ménagere’ estende-se a todas as partes da actividade feminina no lar. Pode ser dividido da seguinte maneira:

1ª parte – a casa e o seu arranjo – as roupas, mobiliário, etc.;

2ª parte – a higiene pessoal;

3ª parte – alimentação – ou a arte culinária;

4ª parte – a puericultura – ou a criação e educação da criança;

5ª parte – os cuidados com os doentes – ou a enfermaria da família”.

Esse método para o ensino “ménagere” é indicado à dona de casa para lançar mão em seu cotidiano em toda e qualquer situação; muitos dos textos da revista, inclusive, são estruturados como lições para que a mulher possa aprender passo a passo os conhecimentos repassados. Em muitos casos, percebe-se uma riqueza de detalhes, com determinações minuciosas de como a pessoa deve agir no decorrer de suas atividades. “Quando se sentar para cozer, disponha tudo de que necessita sobre uma mesa colocada à sua direita; no chão, ou na falta dele um simples jornal aberto, onde deitará as pontinhas de linhas...(...) Para descascar os legumes, coloque-os à sua esquerda, diante de si o recipiente para onde devem ser deitados; à direita ponha um papel para as cascas. Isto evita que em seguida tenha de limpar a mesa” (rev. nº 2.017). Além do detalhamento da ação, a leitora não deve esquecer-se do planejamento ou da “agenda-programa” (rev. nº 1.991), com a descrição de todas as atividades a serem desenvolvidas ou recepções que serão oferecidas em casa.

O cuidado com a alimentação (ou melhor, a boa culinária para agradar o marido), a organização e higiene no lar, a higiene e elegância pessoal são apresentadas na maioria das revistas, tanto para as mulheres que fazem pessoalmente as tarefas domésticas, como para as que são “supervisoras de suas criadas”, sempre de acordo com os preceitos descritos na ciência “ménagere”. Há dicas mais específicas, no caso, para aquelas que despediram a criada e agora terão que arcar com mais essa tarefa. Para elas, as indicações são as seguintes: “Se assim aconteceu não desanimes! Prepara-te para enfrentar o problema do serviço do teu “ménage” corajosamente, enquanto for preciso. Sobretudo, não percas a cabeça, nem principies a lamentar-te e dizer que ‘isto assim não é vida’, ou coisa semelhante” (rev. nº 1.992).

O desgaste oriundo do trabalho doméstico é pouco discutido, e quando o é, passa por debates externos à sua própria essência. A discussão a esse respeito recai na aceitação, sem críticas ou lamentações, por parte da dona de casa. As sugestões de atividades propostas pelo método são a panacéia contra o tédio e fadiga do exercício da função, que, além de todo o trabalho interno, também deve portar-se elegantemente no lar; para isso a revista traz dicas de vários modelos de roupas, a fim de que a dona de casa não se vista e se porte de maneira diferente no espaço privado e público. Há indicação, por exemplo, de “toilettes” para a limpeza mais pesada, para as mais leves, para a lavagem de roupa, dentre outras.



A recepção de convidados é um outro aspecto de elegância e cortesia da dona de casa. Várias dicas são repassadas a esse respeito, desde a organização da casa até o tipo de culinária ideal para a ocasião, mas, especialmente, como deve ser a atitude da anfitriã diante de pessoas consideradas desagradáveis, como, por exemplo, os faladores e as faladoras (rev. nº 2.013). A perspicácia da dona de casa deve imperar nesses momentos, evitando algumas discussões em sua recepção, tais como: religião, política, doenças, mortes e catástrofes, vida privada e assuntos sobre as criadas. O permitido são os temas sobre arte, música, viagens, literatura, trabalhos manuais, “toilettes” (que entram na questão da arte), com o objetivo de desenvolvimento dos “recursos do nosso espírito, da nossa inteligência, da boa educação e dos bons sentimentos”. Percebemos, nesses indícios, o que devia fazer parte do universo feminino no início dos anos 50, questões polêmicas não permitidas e, principalmente, as de teor político e social ligadas fundamentalmente ligadas ao universo masculino. Neste sentido, é visível que dentre os conteúdos transmitidos pela revista, há quase uma inexistência de assuntos dessa natureza. Há, contudo, dois artigos a respeito de questões sociais, como a problemática das crianças desprotegidas e desvalidas e a economia doméstica nos tempos de recessão do pós-guerra. Discussões a este respeito não são consideradas prioritárias para a discussão entre leitoras, que são, em sua maioria, mães e donas de casa. Outra justificativa plausível seria a própria repressão política do período de Salazar, visto que vários números da revista foram visados pela Comissão de Censura do então governo.


  1. MULHER ideal: ESPOSA dedicada

No número 1.981 da revista, há uma indicação interessante de qual deve ser o espaço e a função desejada para a mulher no período estudado. “A tua casa, o mundo em que vives, o lugar onde aconchega o crescer de teus filhos deve ser um cantinho aconchegado onde todos se sintam bem. O lar é sempre o repouso procurado e justo dado a todos os que labutam pelo pão de cada dia. É a ti que compete alindá-lo. É a ti que compete criar nele a atmosfera de paz e tranqüilidade necessárias à saúde da vida dos teus. Põe nele o teu interesse de mãe, de esposa, de mulher. O quadro onde se movimenta a tua intimidade deve ser cuidado, limpo, arejado. Com boa vontade, bom gosto e alguma economia, é sempre possível à mulher tornar mais acolhedor o seu cantinho. Só assim ela conseguirá ser, além da mulher que pensa, a amiga que sabe receber, a mãe que sabe acarinhar”. Neste texto há vários elementos da educação e da constituição do feminino, a começar pelo estabelecimento do espaço privado do lar como o “mundo da mulher”; portanto, com base nisso, compete a ela cuidar dele, organizá-lo e, especialmente, alindá-lo. Só assim ela terá a visualidade e o reconhecimento como um ser pensante, amigável e afável no cuidado dos filhos e filhas, bem como no recebimento de convidados.

Percebemos claramente quais os papéis esperados para a vivência feminina, na seguinte hierarquia: ser mãe; esposa e mulher. Diria que antes mesmo de exercer a função de mulher, teria primeiro o papel de ser dona de casa. A “mulher escondida na mãe e dona de casa” é indicado, por exemplo, nas sugestões comedidas das “toilettes” para serem usadas no lar e nas ocasiões de receber os/as amigos/as. Estas roupas devem transmitir sobriedade e seriedade e nunca sugerir sensualidade, pois isso era considerado fútil e vulgar. A visão assexuada da mulher também está presente na ausência de qualquer discussão relativa à afetividade e sexualidade da mulher. Há alguns artigos sobre a educação sexual da criança (portanto, até a criança tem sexualidade), mas não há nada relativo à vivência da sexualidade feminina. Uma das únicas expressões a esse respeito ganhou alguns pequenos destaques em textos sobre a sífilis na gestação (revs. nºs 2.019, 2.025, 2.026). Vale ressaltar que a autora (uma doutora) estava analisando a questão sob o prisma da maternidade, portanto, salienta algumas indicações de como a mãe deve proceder, pensando exclusivamente nas conseqüências para o feto. No entanto, não se discute sobre as influências diretas dessa doença sexualmente transmissível para a própria vivência física, afetiva e emocional da mulher. No número 2.026 da revista, a mesma autora, Drª Carminda Xavier, ressalta que uma das conseqüências dessa enfermidade é o aborto, mas nada a mais é discutido a esse respeito.

A maioria dos artigos é direcionada às mulheres que não trabalham fora de casa. Algumas das indicações ou conselhos da vivência no espaço público requerem atitudes dóceis, recatadas e contidas, visto que a “felicidade reside na conformidade” (rev. nº 2.007) e extremo recato. Um exemplo citado é de como deve agir uma mulher diante do tabaco. Além de discursar sobre as conseqüências físicas que o cigarro pode causar, a autora analisa especialmente a atitude de uma mulher fumar em público. “Pode-se admitir um homem da alta sociedade um tanto ébrio, de cigarro na boca, mas não se admite uma senhora nessas condições. Convenção? Tudo na vida civilizada é convencional. Mas a verdade é que uma senhora a fumar por vício ou a usar em excesso bebidas alcoólicas dá a impressão de que, por dentro, é um homem. (...) Não ficará muito melhor a uma senhora o manejo dum leque do que o de uma boquilha? Não devemos aceitar modas que nos ridicularizem, mas sim aquelas que nos apresentam sempre como uma senhora”. A autora ressalta que os papéis são iguais e a mulher também tem o direito de tal ação; no entanto, assegura que essa não é a ação esperada e desejada para o gênero feminino. Observamos, portanto, uma diferenciação de gênero ao permitir “quase tudo” para a vivência masculina e limitar comportamentos e atitudes para o exercício da feminilidade, pelo simples fato de serem mulheres, de não serem considerados atos “naturais” e condizentes com os preceitos de convenções sociais pré-estabelecidas.

Dois papéis são esperados para a vivência da mulher, de acordo com a revista: os de esposa e enfermeira, que serão descritos a seguir.

A esposa ideal, além de carinhosa e dedicada, é alguém compreensiva e acolhedora dos assuntos e problemas do marido. Eis um exemplo de conselho publicado na revista (rev. nº 1.986): “Quando ele regressar do trabalho, se preferir ficar em casa e conversar, respeita-lhe a sua vontade e saiba tirar partido do serão a sós. O lar, ao fim dum dia de trabalho, é o lugar apetecível e justo dado àqueles que procuram fazer da vida uma tarefa que a todos aproveite. Fica a seu lado, atenta e interessada. Ele falará de coisas que talvez te não interessem muito, mas que devem passar a interessar-te. Não és tu a sua companheira na vida que ambos abraçaram? Então completa-te. Procura entender os seus problemas, as suas preocupações; as suas esperanças e as suas derrotas. Toma-as para ti também e pensa nelas. Às vezes, sendo dois a pensar, resolvem-se melhor as dificuldades. No fim da conversa, procura na cozinha uma bebida agradável se ele não gostar de chá. E, quando o serão terminar, pede à tua ternura uma frase amável e sincera para que ele a lembre e o faça ficar em casa muitos e muitos serões”. Além da dedicação exclusiva ao marido e a todos os assuntos que o rodeiam, a esposa deve ter como atitude servir o esposo cansado de um dia de trabalho, com o objetivo de cativá-lo a ficar sempre no lar após seu serviço diário e não cair nas “tentações da rua”.

Para que as leitoras estejam revendo constantemente o seu papel de “esposa ideal” com as características descritas pelos conteúdos da revista, há teste para saber como está o seu desempenho. Dentre as perguntas, selecionamos as seguintes:



  1. quando ele volta para casa, à hora habitual, costuma estar em casa e ter o jantar pronto?

  2. é boa cozinheira e o seu marido gosta das refeições que lhe prepara?

  3. conforta-o e ajuda-o quando ele está preocupado e as coisas correm mal?

Na somatória dos pontos, as respostas positivas têm uma pontuação maior do que a negativa e a solução do teste para as maiores pontuações designava que a leitora era uma “esposa modelo”; as com respostas intermediárias designavam “esposa de quem o marido nada tem a queixar-se”, e as com menores pontuações continham o “risco de perder o marido e ao lar”. As características esperadas, entretanto, para a “esposa ideal” são aquelas além das qualidades afetivas citadas; priorizam-se também as relacionadas a ser boa cozinheira e a realizar as atividades que satisfaçam o marido.

A função de enfermeira é outro destino esperado para a “mulher ideal”. A farmácia doméstica deve ser cuidadosamente organizada em casa, e a dona de casa deve estar “pronta a prestar-lhe todos os serviços numa emergência de maior ou menor gravidade, proporcionando-lhe, enquanto o médico não chega, cuidar do seu doente querido, minorando-lhe o sofrimento, suavizando-lhe os momentos de espera para a visita do médico chamado. Assim, todos nós, mulheres destinadas, pelo nascimento, a sermos a enfermeira no lar, a solícita e prudente polícia da saúde dos seus entes queridos, não podemos desconhecer as mais elementares noções de enfermagem e primeiros socorros de urgência” (rev. nº 1.987).

Vemos, então, mais um atributo feminino sendo privilegiado, a tarefa de cuidar dos que abrigam o seu lar, de ser a “polícia da saúde”, com a justificativa de serem mulheres destinadas desde o nascimento para desempenharem o cuidado permanente às pessoas ao seu redor.

O aprendizado feminino e para dona de casa é também difundido pela revista através da educação diferenciada para o menino e a menina. A menina, desde cedo, é educada para exercer esses papéis, a partir de suas brincadeiras, como o sugerido pela revista (rev. nº 1.982): “não te importes que a tua filha estrague um pedaço de massa quando estiveres a cozinhar. Ela interessa-se pelo teu trabalho e deseja tomar parte nele. Pois bem, dá-lhe o rolo, a farinha, a massa. Deixe-a estragar e sujar o que está limpo. Será tomando contacto com todos esses pormenores que o seu interesse pelas coisas de casa despertará. Tu não terás mais que guiá-la nessa aprendizagem de dona de casa de que só mais tarde se dará conta das respectivas vantagens”. A ciência “ménagere”, que assenta sobre o conhecimento das leis e princípios científicos que servem de base aos processos utilizados no lar e na vida cotidiana, também deve fazer parte, portanto, do currículo da mãe ou mesmo da escola para educar a menina para a sua futura função materna e dos trabalhos ou cuidados com o seu lar. As delimitações desse currículo foram abordadas no número 1.997 da revista: “o ensino ‘ménagère’ - na escola – tem por fim educar a menina em relação às suas obrigações e aos seus deveres de mulher dentro e fora da família. Assim, o principal objectivo deste ensino consiste em: 1º - Ilustrar a mulher habilitando-a a deduzir, das noções científicas que adquiriu, todas as aplicações práticas que daí derivam; 2º - Dar à mulher hábitos de ordem, de método e de trabalho; 3º - Cultivar a estabilidade pessoal e desenvolver o gosto da mulher pelos trabalhos necessários na sua casa; 4º - Pôr em relevo a importância social do papel da mulher”. Estes princípios possivelmente fizeram parte da formação da própria leitora que agora transmite esses conhecimentos para a filha, especialmente com os objetivos propostos de desenvolver o gosto pelas atividades domésticas, a organização e a ordem nestas ações.




  1. Mãe e EDUCADORA

Os artigos da seção “Página das mães” têm como objetivo transmitir conhecimentos científicos sobre assuntos educacionais envolvendo os filhos e as filhas. Os textos, em geral, têm uma estrutura análoga, independente dos seus autores. Na introdução, o assunto é posto em pauta; logo há a problematização do tema proposto; em seguida, o detalhamento do tema fundamentado em alguns autores e as possíveis conseqüências de uma educação às avessas; a conclusão quase sempre tem um caráter impositivo, demarcando a idéia do/a autor/a. A mãe assume, então, uma atribuição formal de educadora em seu papel de mãe. Os artigos analisados foram divididos em duas subcategorias: educação sexual e educação infantil e na adolescência.

    1. Educadora sexual:

Dos artigos publicados na revista no ano de 1950, somente um traz em seu título a questão estudada “Uma tarefa melindrosa: a educação sexual”. Além desse, outros oito trataram da temática em sua amplitude, mas sem a explicitarem em seus títulos. Além desses, há alguns pequenos textos que visam dar dicas e conselhos de como educar as crianças e agir diante das suas manifestações sexuais. Na maioria deles, porém, não há indicação explícita sobre a temática da sexualidade infantil. Foi necessário fazer uma leitura atenta do conjunto dos artigos da revista para perceber quais os indicativos que os autores e autoras determinavam sobre a educação sexual. Um desses exemplos é explorado no texto que disserta sobre o sono infantil, e num de seus parágrafos finais analisa o efeito negativo de a criança dormir no mesmo quarto dos pais, assegurando que “unanimamente, os pediatras aconselham que se evite a promiscuidade nocturna entre crianças e os pais e preconizam a instalação de leitos pequeninos num quarto ao lado do dos pais, na sala, na casa de jantar, até mesmo no quarto de banho, desde que este não comporte aparelhos que apresentem um perigo de asfixia” (rev. nº 1.990). Outras questões que indicavam a questão da sexualidade infantil diz respeito à seleção de filmes para a visualização do público infantil, indicando, por exemplo, o pouco significado dos conteúdos de um filme erótico para as crianças, diferentemente do adolescente, que o entenderia por possuir elementos cognitivos e de abstração já consolidados.

A discussão que perpassa os textos recai na maneira como pais, mães e educadores poderiam elucidar o grande “mistério da vida”. Os artigos, portanto, problematizam essa questão, apontando para a postura e as atitudes corretas dos adultos diante das investidas infantis. Sabine Petersen (rev. nº 1.978) reporta que a atitude comumente adotada pelos familiares é de que o pai fica embaraçado com a idéia de abordar uma conversa com o seu jovem filho. A mãe, por sua vez, contém-se com a hesitação compreensível da candura da filha. A autora afirma que, diante dessas situações, os pais não podem estar desprevenidos. A atitude a ser adotada, por indicação dos artigos, no momento da resposta ao filho ou filha, deve ser de calma, equilíbrio e sinceridade. “O que dizer? Tudo, desde que com tacto e pudor evocando exaltantes responsabilidades futuras, promessas de amor partilhado, esboçando o apaixonante processo da hereditariedade”. Até aqui, observamos dois aspectos importantes. O primeiro deles é a própria separação entre os gêneros para se tratar o assunto, ou seja, o pai conversa e ensina os assuntos sobre a vida para o menino, e a mãe, para a menina. Além disso, os assuntos a serem abordados diante das interrogações das crianças têm um forte cunho moral, ligado à questão biológica e da reprodução da espécie. A autora continua dizendo que uma educação sexual mais faz-se progressivamente. E os pais devem estar atentos para esses momentos que nem sempre são motivados pela investida da criança. Muitas delas, porém, não perguntam; com isso, mostram-se “taciturnas”, “insuportáveis” e “perturbadas” diante do grande mistério. Quando intervir para a dissipação das últimas ignorâncias? pergunta a autora. Ela mesma responde que essa não é tarefa das mais fáceis, e nem sempre os adultos percebem quando é chegada a hora ideal desta ação. Devem, portanto, observar os sinais que os filhos e filhas evocam, que no caso das meninas é mais visível, porque eles se manifestam pelos sinais da puberdade e adolescência. No entanto, não há regras para se educar sexualmente devido à própria individualidade de cada ser; por isso Petersen designa a educação como representante de um “problema demasiado individual para ser tratado coletivamente”. Estaria criticando a iniciativa de algumas pessoas em adotarem a educação sexual em seus currículos escolares? A autora não responde, nem mesmo discute a questão. Assegura, certamente, que os pais que estão mais próximos dos adolescentes é quem deve elucidar e observar atentamente como serão as suas reações diante das respostas obtidas. A referida autora, neste texto, indica alguns livros infantis que os pais poderiam utilizar em sua educação com os filhos e filhas. No entanto, não cita outros autores que fundamentem o seu pensamento, mas, através de vários conceitos explicitados, pode-se concluir que ela mostra-se adepta do referencial psicanalítico. O respaldo de especialistas e “doutores da ciência” é amplamente citado, não só pela referida autora, para assegurar que a educação sexual é um aspecto abordado especialmente no seio familiar. Com isso, Petersen conclui que “a maior parte dos especialistas afirma que se a iniciação sexual não partisse de camaradas viciosos, de revelações incompletas de imagens grosseiramente sugestivas, haveria menos sádicos, perversos. Não haveria, na sua opinião, que deplorar as sombras perturbadoras que os complexos chamados de “Édipo” e de “Electra” às vezes provocam entre filhos e mães, filhas e pais”. Com essa afirmação assegura, então, o papel preponderante dos pais no desenvolvimento da educação sexual dos filhos e filhas.

A questão da homossexualidade masculina é citada algumas vezes, ressaltando o papel da educação materna. Em muitos casos, como expressam alguns textos, há mães que insistem em educar o rapaz como rapariga. Esse “amolecimento do caráter” pode trazer como conseqüência problemas de convívio para a criança na escola e até “problemas futuros”, afirmam.

A puberdade feminina é raramente discutida; salientam-se as mudanças corporais, especialmente com o aparecimento de “sintoma fisiológico bem conhecido” (rev. nº 1.978), que nos sugere estar falando da menstruação. Mas nada é escrito a esse respeito.

A questão da afetividade da criança é amplamente veiculada, visando propor uma série de regras de como os adultos devem agir a esse respeito. Um dos hábitos mais repreendidos é o beijo no recém-nascido e na criança na fase da puerícia. Há vários artigos de protestos contra mães que permitem essa prática em seus filhos. Na seção “Opiniões e conselhos” (rev. nº 2.006), assinada por alguém com o pseudônimo de “Baronesa X”, há um texto intitulado “Beijos nas crianças”, que discute essa questão, com o objetivo de regrar e regulamentar as relações entre os adultos e as crianças. A autora inicia dizendo que esse assunto já estava há algum tempo em seu cérebro, para só depois ganhar as páginas da revista e, posteriormente, analisar sua repercussão. Com relação à motivação para a escrita do texto, descreve que ocorreu ao observar uma cena na praia em que uma criança de 3 anos, que, pela sua beleza, mereceu abraços e beijos de quase todos os presentes. A autora observava e assistia a tudo com “maior constrangimento”, enquanto a mãe “desconhecia os mais rudimentares preceitos da higiene, conhecimento esse abafado por nossa sensibilidade”.

A partir desse fato, salienta alguns “dados científicos” para fundamentar o seu pensamento, embasando-o em visão médica e higienista. “De vez em quando aparece um ou outro higienista, que, com a sua autoridade, condena o beijo nas crianças, apresentando-o como transmissor de terríveis micróbios”. Mas continua a dizer que é necessário que o número de higienistas aumente ou que tenham o reforço de médicos, principalmente de modo que as pessoas “não fiquem indiferentes à campanha que é preciso sustentar no sentido humanitário, de abolir o beijo nas crianças”.

No entanto, assegura que muitos leitores poderão receber essas idéias com uma certa incredulidade. Mas os que são de “espírito sereno e seres práticos” aplaudirão a iniciativa para o desaparecimento deste costume. Posteriormente, designa o beijo como impressão epidérmica, costume convencional e fútil. Porém, afirma que é através dele que se transmitem às crianças micróbios letais, venenos mortíferos (doenças prejudiciais e até fatais). Felizmente, salienta a autora, já há várias mães conscientes e que salientam repulsa que beijem seus filhos. Cita o exemplo de medalhas, presentes à venda no mercado, para serem dispostas no berço da criança com a seguinte frase: “Não me beijes”. Mas ainda “a maioria das mães não dá ao assunto a importância que ele merece”. Muitas delas dizem para os filhos beijarem algum adulto (uma senhora, por exemplo); no entanto, não sabem dos possíveis problemas de pele que essa senhora possua ou de qualquer doença contagiosa. Em todo o texto ressalta, entretanto, o perigo que o beijo oferece. Cita outras práticas ritualísticas e, conseqüentemente, condenáveis, como a de muitos fiéis ao beijar os pés de santos e depois esfregar o rosto na imagem. A autora condena esta prática, tendo como justificativa o contágio de doenças. Finalmente, pede a ajuda da comunidade para essa empreitada. Mas faz um apelo a algumas pessoas, em especial: médicos, padres e mães. Aos médicos, que deveriam ser mais cuidadosos em suas advertências, principalmente com os que não sabem ler e desconhecem os preceitos da higiene. O sacerdote deveria também se preocupar com a temática nas pregações aos seus fiéis. Já as mães devem ajudar com veemência a fazer a propaganda contra o beijo nas crianças.

Além das medalhas, há exemplos de babadores (rev. nº 2.000) com os dizeres “Não me beijes”, expressando graficamente a indicação de que o adulto não pode praticar este ato nem mesmo nas mãos da criança, com a justificativa higienista de controle de doenças infecciosas e transmissíveis. No entanto, a afetividade não é abolida no conjunto de textos com a temática da sexualidade infantil. Os afetos devem, sobretudo, ser dosados, mas o cuidado e a demonstração de carinho, especialmente da mãe, devem ser transmitidos com manifestações de ternura, como o sugerido na revista (rev. nº 2.004), para a mãe expressar a sua candura natural pelo filho através do “beijo do olhar”.


    1. Educadora infantil e da adolescência:

Os textos que perfazem o conjunto desta categoria são mais longos e densos que os demais. A característica básica diz respeito à orientação às mães, denominadas como educadoras, como as descritas no número 2.027 da revista: “Quereis educar bem? Nada mais fácil nem mais simples. Com muito amor, uma energia e nunca afrouxada vontade e um cuidadoso ainda que simples estudo, teremos uma boa educadora”; “Quando a primeira pergunta do teu filho surgir sobre o mistério do dia e da noite, procede deste modo: um cordel, atravessando uma laranja, em frente duma janela, revelará a teu filho a sua incógnita. E no seu coração crescerá por ti um sentimento maior quando disser: - Foi a mãe que me ensinou”. Observamos que a função de educadora é mais um papel esperado para a leitora que é mãe. É ela quem deve estar sempre atenta a todas as ações das crianças, nas brincadeiras, nas perguntas cotidianas e, com isso, extrair elementos para uma educação formal. Para isso lança mão de livros infantis, de experiências práticas para ensinar conceitos como “o dia e a noite”, dentre outros. Além disso, os textos publicados também discutem os conceitos pedagógicos da educação escolar e extra-escolar, como os transmitidos nas colônias de férias.

Dentre os assuntos articulados nos textos, ressaltam-se os seguintes : educação do sono; importância da família; literatura infantil; a educação e a leitura; educação e cinema; a vida em família e o rendimento escolar; formação da consciência nos adolescentes (informações de como agir com a “idade ingrata”), dentre outros. Há, concomitantemente, uma preponderância de discussão de questões práticas da vivência entre mães e filhos, ressaltando a questão de como a mãe deve agir diante de filhos gêmeos; da criança diante do enigma da morte; da liberdade dos filhos; da memória mecânica na criança; da hereditariedade e educação; da criança diante do culto do dinheiro e, principalmente, informações que têm como objetivo “aprender a conhecer o seu filho” e saber como lidar com crianças “voluntariosas” e inadaptadas como as apáticas, cruéis, tediosas, mentirosas, coléricas, que praticam furtos, tímidas, infelizes, nervosas, egoístas, dentre outras.

A importância em pensar a educação escolar dos filhos e filhas, relacionando-a diretamente com a educação familiar, é discutida nos artigos “Para além das disciplinas escolares”, de Christiane Thibault (rev. nº 2.027) e no de Sabine Petersen, em “Vida familiar e rendimento familiar” (rev. nº 2.001).

No primeiro, a autora ressalta a função da escola na instrução pela imitação. Mas como o ambiente escolar lida com vários alunos, “não pode exercer as suas disciplinas senão em ‘grosso modo’. O professor, aguilhoado pelo tempo e pelo programa, não pode senão raramente aperceber-se do ponto delicado que marca a verdadeira originalidade do espírito, os recursos escondidos dum caráter”. É aí que chama a atenção dos pais que “deverão esforçar-se por aprender a originalidade fundamental do espírito dos seus filhos, e educá-los dentro do conceito apropriado”. O artigo de Petersen, todavia, indica que a “inadaptação ao ambiente escolar é geralmente indício de dificuldades afetivas”. Os pais devem fazer uma escolha racional da escola e da orientação da criança para a sua felicidade e seu futuro.

Os pressupostos teóricos sobre educação difundidos nos artigos passam pelo inatismo, o ambientalismo, e até por propostas de viés interacionista. Os pressupostos da psicanálise são analisados evidenciando a importância dos vínculos entre adultos e crianças e do conceito de transferência entre alunos/as e professores/as. A análise comportamental é analisada em dois números da revista com títulos semelhantes: “Será conveniente recompensar ou punir?”, de Sabine Petersen (rev. nº 2.012); “Saber punir e recompensar”, de Claire Saunier (rev. nº 2.020). O primeiro assegura que é um mito pensar em uma educação ideal sem sanções, mas separa as “benignas medidas disciplinares” das demais. As sanções devem, então, “ser apaziguadoras e não humilhar inutilmente ou revoltar os que as sofrem”. As recompensas também devem ser pensadas antes de aplicadas; as de cunho material são rechaçadas, assim como as de cunho moral. O artigo de Saunier também analisa o “dosamento das sanções”; para isso “a criança deve compreender a razão por que é censurada ou elogiada; deve compreender igualmente, se quisermos que a sanção seja de facto educativa, a importância dela”. Conclui que o objetivo da educação familiar é a formação de homens e mulheres responsáveis, e que “educar crianças (que linda expressão!) é ensinar-lhes a distinguir os verdadeiros valores. Saibamos distingui-los primeiro antes de punir e recompensar”.


BIBLIOGRAFIA:

BASSANEZI, Carla. Mulheres dos anos dourados. In DEL PRIORE, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2000.

FOUCALT, M. História da sexualidade: a vontade de saber. 12 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

MORAES, Maria Quartim. A “nova” moral sexual das revistas femininas. In MANTEGA, Guido (coord.). Sexo e poder. São Paulo: Editora brasiliense, 1979.



NÓVOA, António. A imprensa de educação e ensino: repertório analítico (séculos XIX-XX). Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1993.

XAVIER FILHA, Constantina. Educação sexual na escola: o dito e o não dito na relação cotidiana. Campo Grande/MS: Editora da UFMS, 2000.



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