Escola alemã da colônia riograndese – processos históricos e educacionais



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PROCESSOS HISTÓRICOS E EDUCACIONAIS DA ESCOLA ALEMÃ DA COLÔNIA RIOGRANDESE – SP (1924-1938)

Flávia R. SILVA, mestranda em Educação , UNESP/Prudente

Arilda I.M. RIBEIRO, professora, Educação, UNESP/Prudente

José. L. FELIX, professor, Letras, UNESP/Assis




RESUMO


Este trabalho apresenta um estudo sobre a contribuição educacional dos imigrantes alemães da Colônia Riograndense, situada no interior do Estado de São Paulo, nos municípios de Maracaí e Cruzália - SP. A partir de resultados parcialmente alcançados, neste trabalho de mestrado, pode-se afirmar que na falta de um programa educacional oficial nas áreas rurais, no início da colonização deste lugar (1924), esses imigrantes tiveram que organizar a sua própria escola, no intuito de garantir aos seus filhos, não somente o acesso à educação, mas também a preservação da língua e da cultura materna. . O material didático dessa instituição era produzido no Brasil, em língua alemã, visava atender a nova realidade desses imigrantes, em terras latinas. Utilizando-se de pressupostos da História Cultural, da análise documental e da História Oral, a documentação coletada pela pesquisa visa preservar a memória histórica educacional, já que a mesma foi um dos meios para a preservação da língua e da cultura alemã no período, e configurou também como um modelo educacional único, diverso e pioneiro na região em que estava inserido.



Palavras - chave: Educação, História das Instituições Escolares, Imigração, Língua alemã

ABSTRACT

This paper presents a study about the educational contributions of German immigrants of Riograndense Colony. The results from partially achieved in this work of masters, can say that in the absence of an official educational program in rural areas, at the beginning of the colonization of this place (1924), these immigrants had to organize their own school, in order to ensure their children, not just access to education, but also the preservation of language and culture mothers. . The teaching material this Institution was produced in Brazil, in German, intended to meet the new reality of immigrants in Latin lands. Using the assumptions of the Cultural History, of the documentary analysis and Oral History, the documentation collected by the research seeks to preserve the historical memory educational, as it was a means of preserving the German language and culture in the period, and configured as a single educational model, diverse and pioneering in the region that was inserted.



KEY - WORDS: Education, History of schools, Immigration, German Language.

INTRODUÇÃO

O processo de imigração alemã no Brasil é bem antigo. Vários foram os motivos que contribuíram para a saída dos alemães de sua terra natal.



As transformações ocorridas na sociedade alemã do século XIX, devido ao processo de industrialização e mecanização da lavoura, trouxeram muitas dificuldades à população de pouca ou nenhuma posse, mas mesmo assim, deram-lhes a oportunidade de optar por dois caminhos distintos: adequar-se às novas regras do jogo, inserindo-se na nova organização econômica e social, ou simplesmente emigrar, abandonando assim uma condição de vida aflitiva, em busca de outro destino, esperançoso de novas oportunidades, do outro lado do atlântico. (SIRIANI, 2003)
“Havia excesso de população para aquele tipo de sociedade que limitava a absorção das pessoas na vida econômica. Crises periódicas de fome apavoravam a população de algumas regiões. A exclusão da terra e a insuficiência de terra para viver ocorria para os camponeses quando uma terra era dividida em lotes entre os herdeiros ou quando só o mais velho herdava. Os impostos e as taxas cobradas pelo Estado e pelos nobres pesavam demasiado para os camponeses e para os moradores das cidades. O risco de endividamento era constante.” (JOCHEM, 1997)
Muitos imigrantes vieram antes da independência, no contexto da abertura dos portos, em seguida vieram outros no intuito de colonizar o sul do Brasil, por volta de 1824, tendo como marco principal a fundação de São Leopoldo – RS. Outros alemães, que aqui se estabeleceram, além do desejo de colonizar e prosperar numa nova terra vieram na tentativa de fugir das duas grandes Guerras Mundiais, se espalhando principalmente nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e São Paulo.
Santos, 13 de dezembro de 1827. Vento favorável. A galera holandesa Maria atracou no arsenal de Marinha e lançou suas âncoras. A bordo, um estranho agrupamento de pessoas. Ao todo, duzentos e vinte e seis estrangeiros de tez clara e avermelhada que falavam uma língua arrevesada e ininteligível aos ouvidos das autoridades portuárias. Sua origem? A longínqua Europa Central. Tratava-se de imigrantes oriundos dos mais variados estados alemães. Vento favorável para seus sonhos, suas ansiedades, suas angústias e suas esperanças. A grande muralha representada pela Serra do Mar, com sua vegetação exuberante e exótica aos olhos desses indivíduos, já não era um grande abstáculo a ser transposto. Significava, apenas, mais um passo em direção à liberdade. Rumavam para uma terra de fartura e promissão, uma espécie de Canaã, onde o futuro lhes seria generoso, como acreditavam. O recomeço. (SIRIANI, 2003, p. 27)

Foto 1 – Navio de Imigrantes – Viagem da Alemanha ao Brasil – início da década de 20.

A imigração Alemã no Brasil trouxe realidades culturais, sociais e lingüísticas diversas. Portadores de suas culturas, os imigrantes transportaram para além da língua, idéias, esperanças, hábitos e concepções educativas, que enriqueceram com hibridações o nosso país. Estudos sobre a inserção dos imigrantes e de seus descendentes na sociedade brasileira são temas de diversas pesquisas na atualidade, dada a reconhecida importância desses povos imigrantes na história do Brasil.

Gilberto Freyre afirma no discurso inaugural do I Colóquio de Estudos Teuto – Brasileiro - realizado em Porto Alegre, que a presença alemã no Brasil viria trazer um novo aspecto à formação brasileira, sem fazer violências às formas já características brasileiras dessa formação. (FREYRE, 1964).

Nesse processo de inserção dos imigrantes, a educação desempenhou papel primordial, já que esta questão sempre se configurou como fator decisivo para os imigrantes desde a fase inicial da colonização alemã no Brasil. Uma das primeiras coisas que os alemães imigrantes faziam ao se instalarem num lugar era construir uma igreja e uma escola. "Quem mexesse nela, intrometia-se no próprio santuário no qual se guardavam e se perpetuavam os valores culturais cultivados durante séculos" (RAMBO, 1994, p.7).

Assim, várias escolas foram fundadas nesse período como estratégia de inserção social, de preservação da cultura e identidade étnicas e também de diferenciação social. (BEZERRA, 2007).

Nas primeiras décadas do século XX, essas escolas tiveram o seu auge. De acordo com Kreutz (1994) os imigrantes alemães organizaram uma rede de 1.041 escolas comunitárias com 1200 professores, nos anos de 1920 e 1930. A filosofia educacional desse sistema em pleno funcionamento era ensinar conteúdos vinculados à realidade do aluno, com material didático produzido para esse fim. Dessa forma surgiram as Escolas Alemãs, atendendo as características e os recursos de cada colônia.

Portanto, mostramos, neste trabalho1, um breve histórico de um modelo educacional germânico, desenvolvido na Colônia Riograndense, durante as décadas de 20 e 30, o qual trouxe, além do legado educacional, um grande legado lingüístico e cultural para a região em que se instalou. Apresentamos ainda, neste estudo, além das características, filosofias, e objetivos dessa instituição, a importância desse modelo educacional único e ao mesmo tempo diverso, dentro do contexto da história da educação no Brasil.

Neste estudo sobre Os processos Históricos e Educativos da Escola Alemã da Colônia Riograndense-SP (1924-1938), utilizaremos, como metodologia, os pressupostos da História Oral, na medida em que os relatos e as entrevistas com os ex-alunos desta escola e com os pioneiros desta colônia são de extrema relevância neste trabalho.

Lucila Neves, em seu artigo Memória, História e Sujeito: Substratos da Identidade, publicado na Revista da Associação Brasileira de História Oral, afirma que


Os lugares da memória, então, podem ser considerados esteios da identidade social, monumentos que têm, por assim dizer, a função de evitar que o presente se transforme em um processo contínuo, desprendido do passado e descomprometido com o futuro. O mesmo se pode dizer da metodologia da História Oral, que, sendo uma produção intelectual orientada para a produção de testemunhos históricos, contribui para evitar o esquecimento e para registrar múltiplas visões sobre o que passou. Além de contribuir para a construção/reconstrução da identidade histórica, a história oral empreende um esforço voltado para possibilitar o afloramento da pluralidade de visões inerentes à vida coletiva. (NEVES, 2000, p. 112)
Considerando que é através da memória que os sujeitos individuais e sociais mergulham em suas histórias, na busca da construção de identidades individuais e coletivas, tentamos também, construir e reconstruir a história dessa instituição escolar alemã, a partir das lembranças rememoradas dos que testemunharam a existência da mesma. Nesse sentido, a História oral é um dentre diversos procedimentos metodológicos de construção do conhecimento histórico, já que o texto da entrevista de história oral torna-se um documento, que deve ser interpretado e analisado como qualquer outra fonte histórica, ainda que considerando as especificidades do documento de origem oral (conflitos, contradições e frustrações).

Fazendo um diálogo com campos de conhecimento afins, usaremos também nesse trabalho os pressupostos da História Cultural, que como afirma Chartier


(...) tem por principal, objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler. (...) As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza. (CHARTIER, 1987, p. 16-7.)
Assim, apresento alguns aspectos do processo histórico e educacional da Escola Alemã da Colônia Riograndense, nas primeiras décadas do século XX, dando voz a alguns dos envolvidos que a partir de suas memórias ajudam a construir e a reconstruir a história dessa escola.

A COLÔNIA RIOGRANDENSE E SEU MODELO EDUCACIONAL

A Colônia Riograndense é uma colônia rural, fundada em 1922, na região de Assis, entre os municípios de Maracaí e Cruzália. É composta por famílias de origem alemã, vindas do Rio Grande do Sul, do Espírito Santo, do Paraná e da Europa.


Depois de 1918, chegaram ao extremo Oeste do Estado de São Paulo, junto à confluência dos rios Paraná e Paranapanema, imigrantes alemães que deram origem a colônias próximas de Presidente Prudente, como Quellental, Aimoré e Costa Machado, e outras situadas na região da cidade de Assis, como Wolhynia e Colônia Riograndense.

Entre eles estavam burgueses arruinados, trabalhadores sem emprego e militantes políticos. Havia também operários qualificados, artesãos, médicos, engenheiros e comerciantes. (SÃO PAULO, 1997, p. 28)


A chegada a essa Colônia, no sentido Capital – Interior de São Paulo se faz pela Rodovia Raposo Tavares – SP 270, até o trevo da cidade de Maracaí, e partir daí pela Rodovia Michel Lamb – SP 435, a Colônia Riograndense se inicia no km 14.

Esta colônia foi nomeada Colônia Riograndense devido à grande influência que os colonos do Rio Grande do Sul exerceram no lugar, tanto no âmbito educacional, como no econômico e no cultural.

Assim como em outras áreas de colonização alemã, essa colônia também contou com sua própria escola. Na falta de um projeto oficial visando à educação nas colônias rurais e na busca de soluções emergentes para solucionar o problema da falta de escolas, esses colonos tiveram de organizar as suas próprias escolas.

No Brasil, nessa época (final da 1ª República) havia o predomínio das populações estabelecidas na zona rural, fato que de certa forma determina a demanda escolar, no decorrer do período. De acordo com Otaiza de Oliveira Romanelli (1993),


Para uma economia de base agrícola, como era a nossa, sobre a qual se assentavam o latifúndio e a monocultura e para cuja produtividade não contribuía a modernização dos fatores de produção, mas tão-somente se contava com a existência de técnicas arcaicas de cultivo, a educação realmente não era considerada como fator necessário. Se a população se concentrava na zona rural e as técnicas de cultivo não exigiam nenhuma preparação, nem mesmo a alfabetização, está claro que, para essa população camponesa, a escola não tinha qualquer interesse. (...) para a grande massa composta de populações trabalhadoras da zona rural, a escola não oferecia qualquer motivação. (ROMANELLI, 1993, p. 45)
Lúcio Kreutz, em seu livro Material Didático e Currículo na Escola Teuto-Brasileira (1994), aponta que a questão escolar na Alemanha no século XVIII e XIX é condição para se entender a iniciativa quanto à organização de escolas e ao posicionamento dos mesmos em relação nacionalização destas escolas.
Os imigrantes teutos provieram de regiões alemãs nas quais ocorrera a primeira grande mobilização em favor da escola para todos como condição para o exercício da cidadania. Os primeiros imigrantes vieram imbuídos desta mentalidade quanto à importância e a função da escola. (KREUTZ, 1994, p.17)
Como se constata, esses imigrantes já traziam uma grande bagagem cultural e educacional, o que explica a importância da instituição escolar nessas comunidades e o porquê desses imigrantes tanto lutarem pela construção de escolas e sua implementação nos locais onde se instalavam. Rambo, afirma que
“Para se compreender devidamente a importância atribuída à escola pelos imigrantes teuto-brasileiros, católicos e luteranos, é necessário remontar ao passado milenar da formação histórico-cultural, da qual emergiram esses colonizadores (...). (...) Foram herdeiros de um rico e vasto arsenal de tradições culturais, sociais, políticas, econômicas, artísticas e religiosas, arduamente elaboradas, durante séculos.” (RAMBO, 1994, p. 8)
Dessa forma os primeiros colonos que chegaram à Colônia Riograndense providenciaram aos seus descendentes o acesso à educação a partir de um modelo educacional próprio. Este modelo visava ensinar seus filhos em sua própria língua, no caso em alemão, e valorizar sua cultura, sem deixar de lado o contexto no qual estavam inseridos. Este procedimento era semelhante ao que já existia nas colônias alemãs antigas do Rio Grande do Sul 2, tendo em vista que a filosofia educacional e currículo de ambos estavam em consonância.

Para melhor implementação deste modelo educacional, os imigrantes alemães constituíram uma associação de colonos – Kolonistenverein, e em 1925, esta colônia já contava com sua primeira escola alemã. Grete Wrede (2005), imigrante alemã, casada com Heinrich Wrede, comenta que, historicamente, os alemães têm como tarefa principal a construção de uma escola e de uma igreja, toda vez que emigram, e que naquele tempo não havia escolas em todos os lugares como hoje, e nem havia escolas do estado na região, por isso a iniciativa particular da comunidade era se auto organizar para fazer a escola e para mantê-la.



Foto 2 – Primeiro prédio da escola alemã – década de 20.



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