Entrevista antônio monteiro de abreu sampaio



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Encontro24.07.2018
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Entrevista ANTÔNIO MONTEIRO DE ABREU SAMPAIO
- Até 75/76 as manifestações ficavam mais dentro da Universidade de modo geral. Era um período de Ditadura, o Geisel estava entrando com uma relativa abertura, que era uma maneira de controlar o transbordamento do descontentamento com o Regime. E o movimento estudantil em geral era contra a Ditadura e o Regime Militar.
- A GV sempre teve uma proteção, quer dizer, internamente nunca houve uma intervenção policial. Então a gente tinha muita liberdade dentro da Escola de discutir e nós participávamos ativamente.
- Eu nunca concordei com essa idéia de que os alunos fossem alienados. O que você tinha na GV era uma maioria da situação. Ou seja, quando a situação não está ruim para você, e vem um outro e diz que está ruim e que se deve lutar, você não luta, simplesmente porque aquilo está bom para você. A maioria dos estudantes não eram ativos, não participava. Por um lado porque havia aquele clima de milagre econômico, então para a classe média as coisas tinham melhorado e por outro, a repressão, que era muito cruel.
- O que tinha no Centro Acadêmico era uma política estudantil, não chegava a ser política partidária. Nós éramos contra a Ditadura e chamávamos os alunos a fazerem algo.
- Em 1976 houve um momento que marcou o Centro Acadêmico e o movimento estudantil de modo geral. Foi a primeira passeata da década de 70. Foi ensaiada pelo pessoal da USP, então saiu de lá, passaram pela ponte Eusébio Matoso e lá foram reprimidos, porque não podia. Dentro do campus era tolerado, mas fora não. Então essa época marcou a luta contra a Ditadura, foi o momento em que os estudantes voltaram para as ruas e a GV participou disso. E a GV tinha uma certa proteção, principalmente quando mataram três estudantes, que foram presos e acabaram morrendo do DOI-CODI. Isso provocou uma mobilização muito grande que se articulou a partir da GV, porque era o lugar mais protegido que se tinha.

Nós tivemos a notícia da morte dos estudantes numa quinta ou sexta-feira. Daí, em seguida nos reunimos na GV, o pessoal da USP, PUC...e decidimos sair denunciando o que havia ocorrido. No final de semana teve um show na GV do Ivan Lins e da Lucinha Lins, e antes de começar nós denunciamos o ocorrido. E cada um foi fazer isso em um canto. E houve uma repercussão grande, quer dizer, era um sintoma de que a ditadura não podia mais conter manifestações, não podia mais prender lideranças, embora eles ainda atuassem com pressão em relação a esses setores. Eu mesmo fui chamado para depor. Nunca fui torturado, mas era um ambiente meio estranho, vazio. Você ia não sabendo o que ia acontecer. E quando eu fui, eles queria justamente saber quem tinha participado dessa manifestação em prol dos estudantes. Eles queriam saber quem eram as pessoas que fizeram as denúncias....


- O Centro Acadêmico vivia de mensalidades, que eram pagas para a Escola e a Escola repassava, porque a lei era assim. E nós administrávamos os Bares e Restaurantes, tinha também o Pilequinho. Mas o que vinha mais era dos Bares e restaurantes. Mas teve um problema com o CPV. Ele dava muito dinheiro, mas parece que o dinheiro sumiu e o Centro Acadêmico tinha muitas causas trabalhistas de professores do cursinho, então o CAAE tinha mais dívidas do que qualquer coisa. Então era uma fase de reorganização , desde a gestão anterior.
- Politicamente, havia uma negociação dos estudantes com uma ala do corpo docente que era uma ala mais aberta. A área de humanas, economia, ciências sociais....que formavam um bloco juntos. Na minha gestão, eu não gostava muito dessa articulação com os professores. Eu achava que manipulava um pouco os estudantes. O meu sentimento era de não muita confiança. Os estudantes tinham poder de voto, e por isso que tinha aliança. Nós tínhamos representação em todos os órgãos colegiados. Mas era uma participação relevante porque a luta interna do corpo docente era meio equilibrada, então eram os alunos que desequilibravam. A gente sempre apoiava o pessoal mais à esquerda.
- O foco da política em relação ao corpo discente era mais cultural, o que já era uma tradição. Tinha inclusive o CineClube. Era um cara chamado Luis Gonzaga que tocava o cineclube, ele trazia todos os filmes, Einsestein....Era realmente impressionante, ele colaborou muito no aspecto cultural do que a GV é hoje. O cineclube passava o que era proibido no circuito comercial.
- A Atlética era formalmente ligada ao Centro Acadêmico, mas politicamente era independente. O pessoal de esquerda não praticava esporte, porque a noção de esporte estava muito ligada à Copa de 70, o uso que o Médici fez disso. A gente achava que o esporte era alienante, e na verdade era.
- Foi um momento muito importante porque foi um período de transição para o movimento estudantil. Para mim em particular foi igualmente importante, eu era moço, me via diante de um Regime Militar, era um misto de medo e vontade de fazer alguma coisa para mudar a situação.
- Houve uma história interessante com a Cláudia Costim, ela era representante de uma turma de AP, e ela participava e era toda animada. Foi marcada uma manifestação estudantil em frente à Secretaria da Educação para reclamar alguma coisa. A manifestação foi suspensa em cima da hora, e ela junto com seu grupo, não ficaram sabendo, porque nós não tivemos como avisar. Não era como hoje que todo mundo tem celular, a comunicação era bem ruidosa. E eles foram direto, nem passaram pela GV, que era sempre o ponto de encontro. Eu sei que teve jato de água e que ela chegou super brava na Escola.
- Ter participado do Centro Acadêmico, ter participado de momento político e ter sido presidente de uma entidade de representação estudantil no contexto nacional particular me mostrou que era possível. O sentimento de poder atuar e poder intervir foi a marca que ficou na minha vida dessa experiência. A gente acreditava no que a gente fazia, não tinha nenhum interesse pessoal por trás.
- Outro episódio foi quando ia ter uma manifestação em frente à São Francisco e o boletim que seria distribuído na manifestação em nome de todos os organizadores do ato, foi rodado lá na GV, porque nós tínhamos uma off-set. Bom, eu e o representante de AP ficamos a noite inteira rodando os boletins. Devem ter sido rodados cerca de 10 mil folhetos. E quando nós terminados, de manhã, percebemos as impressões digitais do companheiro tinha saído em todos, ou em grande parte, dos impressos. Aí ficou aquele dilema, libera não libera o material e no final foi, daquele jeito, e foi. Mas nós não éramos de nenhuma organização clandestina. O Centro Acadêmico não era clandestino, então o que nós estávamos fazendo lá não era clandestino e sim escondido. Nós éramos apensas estudantes querendo fazer alguma coisa.
- A gente não queria ser tutelado. Incomodava muito o fato de ser manipulado pelo corpo docente. Nós éramos até um pouco crítico em relação a esquerda da Escola, então eu participava de reuniões em órgãos colegiados, mas não me interessava. E bem no final da minha gestão o Professor Gustavo escreveu em algum jornal, não lembro direito, críticas em relação à mim, dizendo que eu não participava. E nós, sem entender a atitude do professor que sempre fora um parceiro dos estudantes, passamos de sala em sala questionando esse canal de representação, que não era verdadeiro, nós éramos manobrados lá dentro. E todos os estudantes ficaram querendo entender aquilo. Então nós chamamos uma Assembléia com o Prof. Gustavo e com a diretoria da Escola. E não se sabia o que ia acontecer, mas no final ele comprou os meus argumentos, nos elogiou. Na verdade eu acho que não daria repercussão e muito menos que os alunos ficariam do nosso lado.
- O foco da gestão foi externo, nós saímos para as ruas e por isso alguns diziam que a gestão era queimada na Escola, mas não era. O foco foi inserção no movimento estudantil e luta contra a Ditadura.



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