Entre a oralidade e a escritura



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ENTRE A ORALIDADE E A ESCRITURA: uma análise sobre as fontes que nos possibilitam estudos sobre rádio educação nas décadas de 1930 e 1940.

Patrícia Coelho da Costa

Universidade de São Paulo (USP)/ Bolsista FAPESP

Email: pacoel@bol.com.br

Palavras-chave: educação através do rádio; história; oralidade; escritura.

No estudio da PRD5, o professor Roquette Pinto quem devemos a montagem da estação, em um esforço digno de nota, falava a uma senhorita:“Há três espécies de voz: voz de falsete, voz de cabeça e voz de peito. Isso não é novidade para ninguém. Mas o que eu quero é que a senhora treine bem a voz de peito, que é a melhor para o rádio.” (O Globo, 06/01/1934).

As orientações dadas por Roquette-Pinto, organizador da Rádio-Escola Municipal (PRD5) na década de 1930, a speaker Samira Kherry, professora estreante nas transmissões radiofônicas, refletem a importância do estudo da oralidade para a compreensão da linguagem utilizada nesse veículo de comunicação. Para ocupar o microfone, são considerados o timbre da voz, a dicção, a entonação e tantos fatores que transformam a leitura em irradiação. Por outro lado, não se pode esquecer que muitas são as fontes escritas que envolvem o mundo da radiofonia: scripts1 relatórios, artigos publicados em jornais e revistas especializadas.

Sendo assim, percebo o rádio tanto no domínio da oralidade quanto da escrita, pois, ainda que o consumo se dê pelo que é ouvido, há toda uma produção de textos especificamente criados para as transmissões. É possível identificar que, sob alguns aspectos, esses dois domínios estejam muito próximos, mas penso que estes devem ter olhares distintos, pois têm impactos diferentes sob os sujeitos, mesmo não sendo possível o isolamento de cada um deles.

Este trabalho visa refletir sobre as dimensões da oralidade e da escritura, presentes na linguagem radiofônica e, somente para este fim serão separadas, buscando caminhos de análise para as fontes que envolvem a história da educação através do rádio. Em especial, trabalharei com os scripts, textos criados para leitura ao microfone das rádios. Ao elaborá-los, o autor, que nem sempre é responsável por sua irradiação, tem preocupações dirigidas ao público ouvinte: a seleção das palavras, a clareza da mensagem, o tempo de que dispõe para ser apresentado. Os scripts utilizados para esta reflexão são referentes as programas Viagem através do Brasil, sob responsabilidade de Ariosto Espinheira, e a Universidade do ar, organizado por Lourenço Filho. Estas programações têm em comum o propósito educacional idealizado por intelectuais ligados ao movimento da educação através do rádio, num momento em que as estações já apresentavam uma tendência comercial cada vez mais clara e, que portanto, a preocupação com a conquista da audiência passava a ser fundamental. A primeira programação citada, Viagem através do Brasil, tinha como tema a geografia do nosso país. Dirigida ao público infantil, foi transmitida pela Rádio Jornal do Brasil, por um ano a partir de agosto de 1936. Já o segundo programa mencionado, Universidade do ar, era destinado ao aprimoramento de professores. Organizado pela Divisão do ensino superior do Ministério da Educação, foi irradiado a partir de abril de 1941 até 1944 pela Rádio Nacional, às segundas, terças, quartas, sextas e sábados às 18h30, com duração de 25 minutos. Entre os educadores que participaram deste projeto estavam: Francisco Venâncio Filho irradiando lições de Ciências, Carlos Delgado de Carvalho com aulas de Geografia, Lourenço Filho transmitindo conhecimentos de Psicologia Educacional, Alceu de Amoroso Lima ministrando aulas de Sociologia, Alair Antunes responsável pelos Fundamentos Biológicos da Educação, Fernando Silveira se incumbiu da Estatística Educacional, Isabel Junqueira Schmitd respondeu pela Orientação Educacional.

Os desafios ao estudar o uso do rádio em seus primeiros tempos são muitos. O principal deles talvez seja a falta de registros sonoros. Pouco restou do que foi transmitido, seja pela reutilização das fitas, já que o custo do material era alto, seja pela falta de iniciativa em preservar uma memória desse meio de comunicação; houve ainda a ocorrência de incêndios, que destruíram acervos inteiros. O fato é que nem sempre o registro oral é encontrado, o que não ocorre com a fonte escrita, de mais fácil localização. Ao estudar a Viagem através do Brasil, por exemplo, os textos lidos por Ariosto Espinheira ao microfone da Rádio Jornal do Brasil foram publicados pela Editora Melhoramentos de 1937 até 1942, transformando-se em uma coleção paradidática de nove volumes, intitulada A viagem através do Brasil. Já muitos dos scripts utilizados por Lourenço Filho na Universidade do ar foram preservados em seu acervo localizado no CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil). Apenas o registro oral da Universidade do ar foi por mim localizado no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.

A carência de fontes orais para o estudo da radiofonia no faz levantar algumas questões: é possível estudar o rádio sem a localização da fonte oral? Quais as dimensões do estudo, quando se dispõe apenas da fonte escrita? É importante pensar que o inverso também é possível, encontrar unicamente as gravações, e, sendo assim, como pensar essa oralidade? Partindo de tais problemáticas, este texto foi organizado em duas partes. Em um primeiro momento, será analisada a dimensão escrita da linguagem radiofônica dos programas educacionais, que envolve os scripts e as preocupações com a sua elaboração. Em uma segunda parte, a oralidade será o tema, a partir do que se esperava do speaker2 responsável pela irradiação das programações educativas, perpassando por fatores como o tempo e o improviso que envolvem as transmissões. Em ambos os aspectos, serão pensadas as possibilidades de análise que essas fontes podem proporcionar aos estudos sobre a história da educação através do rádio.

Para tais reflexões, os estudos de Certeau (1994) são fundamentais. Para o autor, a oralidade e a escrita são práticas de linguagem que não se confundem. A complexidade destes dois aspectos, integrantes da língua, não permite a possibilidade de uma simples divisão, tampouco a compreensão pela simples inversão. Apesar de a oralidade ser anterior à escrita, a modernidade depositou uma importância muito maior na segunda, transformando o modo de se pensar o mundo: a escrita construiu grande domínio. Ao estudar os caminhos dessa transformação, Certeau (1994) destaca pontos importantes tanto da oralidade como da escrita, que possibilitam reflexões importantes para as questões aqui levantadas.



Escrevendo para o rádio

Na década de 1930, o rádio era um campo em construção. As discussões giravam em torno de muitas questões que envolviam a regulamentação da radiofonia. Muitas estações contavam com castings3 bastante reduzidos e, muitas vezes, o speaker era responsável não só pelas apresentações ao microfone, mas também pela redação do script, pelo estúdio e até por encontrar anunciantes que garantissem o patrocínio da atração. O acúmulo de papéis tão diferentes criava situações embaraçosas registradas pelos críticos: “E também para se pedir sem intenção de magoar ninguém que o professor Moyses escreva suas aulas de literatura popular na mesma estação, mandando-as ler por outro que não elle, para que tenha mais ouvintes” (O diário de notícias, 07/04/1935, p.15).

Com o crescimento das emissoras, a tendência foi de que as funções de redator e speaker se tornassem distintas. As Crônicas da cidade, por exemplo, eram elaboradas por Genolino Amado, mas apresentadas por César Ladeira ao microfone da Rádio Mayrinck Veiga. Independente de tal aspecto, a presença do texto é constante. Dificilmente o programa era totalmente improvisado, ainda que o responsável pelo script fosse o próprio speaker, como no caso da Viagem através do Brasil, de Ariosto Espinheira. Os motivos desse fato podem ser pensados de muitas formas, desde a necessidade de orientação, a memória, até o controle exercido pela própria emissora, que exigia uma leitura prévia do que seria apresentado. Pensar a valorização da escrita trazida pela modernidade, ao olhar de Certeau (1994), pode ser um caminho para refletir a necessidade de um script em programas cujo próprio autor, por sua capacidade de improviso, o que muitas vezes acontecia, dispensava tal roteiro. Por esse raciocínio, ainda que a oralidade fosse anterior à escrita, a modernidade trouxe uma desvalorização do que era apenas oral. A escrita passou a ser um produto fundamental, no qual o homem associava a sua existência enquanto autor.

Nos arquivos de programas de rádio, os scripts são encontrados com certa facilidade. Datilografados, alguns com rasuras, em diversos tipos de papel, com ou sem o timbre da emissora, publicados em livros, eles permitem diferentes tipos de análise. Para este texto, escolhi os aspectos da materialidade e o conteúdo, sob o enfoque das prescrições que permeavam a sua construção, principalmente do que era dirigido aos programas educacionais.



Construindo o conteúdo para o rádio

Ao ter contato com o conteúdo do script, uma primeira preocupação é com o olhar que a este se dirige. É importante que não se confunda com a atração que foi ao ar. Para tal exercício, Certeau (1994) nos lembra que o escrito não substitui o oral, pois o ato escriturístico marca justamente a ausência da oralidade. Assim, não há passagem de um pelo outro. As ciências que tentam estudar a voz esbarram, assim, na invencível diferença entre o escrito e o falado.

O domínio da escrita permite pensar o conteúdo em si, qual seria o propósito inicial do autor, qual sua intenção ao elaborar o texto, o que não se confunde com o que foi realizado, que já está na dimensão da oralidade. Através do textual pode se perceber a escolha do tema, como este se desenvolveu, que recursos da linguística foram usados para conquistar a audiência. Ao ter contato com o texto da Viagem através do Brasil, por exemplo, é possível identificar que imagem do Brasil Ariosto Espinheira gostaria de apresentar aos seus ouvintes, quais as regiões do nosso território ganharam maior destaque em sua programação. Ao microfone da Rádio Jornal do Brasil, por exemplo, Espinheira privilegiou, com um conteúdo maior, os estados da região sul do nosso território. Outro aspecto, que pode ser explorado a partir deste caminho, são os referenciais teóricos a que o autor recorreu para elaborar tal visão do nacional. No caso da Viagem através do Brasil, ao final do texto há uma lista com os autores consultados para sua elaboração. Como se trata de um programa educacional, outro ponto possível de apreensão é qual a concepção que o autor possuía da disciplina Geografia, se é mais descritiva ou analítica.

Novamente, o contato com o texto que foi utilizado pelo speaker para irradiação, o script, ou o que foi publicado em livro ou em revistas, faz toda a diferença. No primeiro caso, o script é a tentativa da escrita de orientar a fala. É como se fosse um roteiro, elaborado a priori da apresentação, que se conserva posteriormente com as marcas do que foi alterado. Já na segunda situação, o texto publicado, como é o caso da Viagem através do Brasil, remete a outro exercício, o da transcrição. Nesse ponto, Certeau (1994) nos lembra que transcrever, prática muito comum, é uma tentativa de substituir o oral pelo escrito. Ao estudar o conteúdo a partir da transcrição, pode-se cometer o erro de acreditar que o que está escrito foi capaz de captar tudo o que a oralidade expressou, o que é impossível. Nos textos publicados, da Viagem através do Brasil, há uma série de aspectos que orientam a leitura como mapas, ilustrações e a divisão de capítulos que necessariamente não correspondem a cada programa irradiado. As páginas da coleção estão repletas de desenhos de aviões e cenas de rituais folclóricos. De modo, que a forma de imaginação, despertada quando apenas se ouve, é invadida pela imagem.

Os roteiros destinados a programas educacionais eram alvo de discussões em inquéritos patrocinados pela União Internacional de Radiodifusão, como em congressos organizados pelo Institute of Radio Education, sediado nos Estados Unidos. Tais informações circularam no Brasil tanto através de documentação oficial encontrada no arquivo de Gustavo Capanema, então ministro da educação, localizado no CPDOC, como pela publicação de Rádio e educação (1934) manual destinado aos professores, elaborado por Ariosto Espinheira.

Em especial, os anais intitulados Education on the air são resultado dos congressos realizados pela instituição Institute of Radio Education nos anos de 1930 e 1931. Por dez dias, intelectuais ligados ao broadcasting4 da Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, México e Irlanda se reuniram na Universidade de Ohio para discutir questões da rádioeducação. Pela riqueza das informações ali debatidas, W. Charters, organizador do Congresso e professor daquela universidade, resolveu elaborar tais anais e publicá-los para que suas informações circulassem. Ter encontrado esse material na Biblioteca Central de Educação, organizada por Anísio Teixeira, atesta a sua circularidade.

Como W. Charters destaca na introdução, os anais foram divididos em sete capítulos, a partir dos temas centrais das discussões: administração do rádio, experiências realizadas, instituições de rádioeducação, escolas do ar, estações radiofônicas, inquéritos e técnicas do brodcasting educacional. Nesse último item, o artigo The techniques of preparing radio manuscripts, Mary Francis Philput (1930), professora da Universidade de Pittsburgh, é de especial interesse para este estudo. De início, ela estabelece o local do autor do manuscrito para o rádio separadamente do speaker. Ao seu olhar, quem escreve para o rádio deve ter a consciência de que o texto tem uma dinâmica única, que não se confunde com qualquer outra forma de comunicação. Ela explica que escolheu o título envolvendo a palavra técnica, pois se tratava de uma produção específica; o programa educacional diferia de qualquer outra atração radiofônica. Nesse sentido, ela alerta que os professores que se propunham a escrever para o rádio não estavam sabendo como fazê-lo. Para tal, prescreve cinco pontos que o autor deve ter em mente ao elaborá-lo: o tempo destinado à locução, as formas de aproximação do ouvinte, a combinação de ideias, frases estruturadas e o estilo.

Sempre enfatizando que tais orientações são fundamentais à elaboração do texto, ela inicia com as formas de aproximação do ouvinte. Philput (1930) chama atenção para a crescente sofisticação da audiência. Assim, ela lembra que o estímulo da sala de aula não é o mesmo do rádio. O assunto não pode ser tratado de forma tão superficial, que deixe lacunas de entendimento, nem tão profundo, sob o risco da monotonia. O autor deve estar seguro que seu texto é interessante, capaz de prender aquele que se pôs diante do rádio. Para tal, seria importante imaginar as expectativas do ouvinte, colocar-se no lugar do público, ter contato com a realidade de quem ouve a programação, lembrar que o tempo para fazer-se entender é pouco. Para a combinação de metas, um quadro de idéias concatenando as informações que deveriam ser passadas é considerado interessante. A conversa deve ser direta, um ponto claro a ser seguido. Para tal, sugere que o roteiro tenha frases curtas e com poucos simbolismos. As ideias deveriam ser positivas. Ao final da transmissão, deveria ficar a impressão de que o raciocínio do ouvinte fora conduzido a uma conclusão, e ele diga: “ah, claro, como não pensei nisso?” Enfim, o estilo deveria compreender sinceridade, individualidade, beleza e charme. Isso refletiria a relação que o autor estabelece com sua platéia. O suspense deveria ser evitado. Não se deveria tentar prender atenção do ouvinte com a demora para anunciar o tema da irradiação, por exemplo. Para ela, é um direito de quem se propõe a ouvir saber sobre o que trata a atração, de forma direta, sem disfarces. A escolha do vocabulário é importante. Assuntos complexos podem ser tratados com palavras que um menino possa entender e alerta que os intelectuais não falem apenas a seus pares.

Philpurt (1930) credita ao autor um poder, que Certeau (1994) determina como estratégico, à medida que com a modernidade escrever passou a ser uma atividade concreta, que tem poder sobre a exterioridade: na página em branco, é produzida a informação que não é mais fruto do sujeito passivo, e sim, ação da ordem da estratégia. Tal processo envolve três elementos: o lugar da produção para o sujeito, a construção do texto como uma caminhada regulamentada e a transformação do texto em um produto.

Ao analisar o lugar do sujeito a partir das experiências da Viagem através do Brasil e da Universidade do ar, percebemos que os responsáveis por sua redação, respectivamente Ariosto Espinheira e Lourenço Filho, eram, acima de tudo educadores e, como tal defendiam que a função do rádio deveria ser primordialmente, educar e não apenas divertir. Juntos já haviam compartilhado da experiência da Rádio Escola Municipal (PRD5). Na era comercial da rádio, quando os sambas e os programas de calouros ameaçavam o espaço reservado à educação, continuaram investindo na radiofonia educacional, lutando junto a outros educadores pelo rádio como veículo de transmissão de conhecimento.

Já a visão da elaboração do texto como uma caminhada regulamentada, pode ser notada com a presença de várias prescrições de Philput, para elaboração de textos destinados à radiofonia educacional, na redação da Viagem através do Brasil e da Universidade do ar. A clareza na apresentação do tema é uma delas. Ao iniciar a irradiação Lourenço Filho não recorre ao suspense: “Sr ouvinte: Na palestra passada, tratamos das diferenças individuais. Hoje é a inteligência, e faremos referência ao modo de verificá-la com o emprego de pequenas provas ou testes” A Viagem através do Brasil utilizava o mesmo critério, a região que será o tema do programa é logo anunciada: “Vemos agora, à frente, o rio Ibicuí que, como os rios Itapevi, Jacacuá, São João, Lajeado e Ibirapuitã, banha o município de Alegrete” (ESPINHEIRA, 1941, p.113). A preocupação com o vocabulário também é recorrente. Ainda que Espinheira recorra a inúmeros termos locais, com o objetivo de enriquecer o vocabulário do ouvinte, estes sempre são seguidos de explicações: “ À medida que o chimarrão vai se tornando fraco, encilham-no, isto é, substituem um pouco da erva velha por nova, para que o chimarrão continue no ponto” (p.30). No caso da Universidade do ar, as alterações feitas à tinta no texto inicial, muitas vezes servem para detalhar, ou diminuir as chances de uma compreensão equivocada do ouvinte: “Por meio deles, procuramos descobrir causas e condições, prever consequências, prescrever cuidados especiais da educação ou de tratamento (mental)” (LOURENÇO FILHO, 1942). O termo mental, entre parênteses, foi acrescido.

Por fim, o texto passa por etapas que proporcionam uma passagem a outro mundo, o do produto. Esse produto traz as marcas da apropriação de um universo exterior. Ao ler os textos destinados à Viagem através do Brasil ou à Universidade do ar, não há como deixar de perceber que se destinam ao diálogo com o ouvinte, e que possuem uma linguagem radiofônica. Em vários momentos há referências a possíveis sensações despertadas, dúvidas ou curiosidades, por exemplo.

Ao analisar as três dimensões presentes na elaboração da escritura propostas por Certeau (1994) percebe-se toda a importância do material escrito nas transmissões. É notável o quanto o texto é fundamental, pois permite a preparação do que irá ao ar, revela marcas do que o autor especificamente gostaria que fosse transmitido e a maneira como seria irradiado. O escrito tornaria viável o ensaio, a confirmação por parte do autor de que seu objetivo foi atingido. Nesse aspecto, o memorando de Lúcia Magalhães, diretora da Universidade do ar, dirigido a Lourenço Filho, é esclarecedor:

Sr Professor

Tenho a honra de solicitar continueis regendo, corrente ano, a cadeira de PSICOLOGIA EDUCACIONAL da Universidade do ar.

Certa de que não recusareis o vosso apoio a essa obra de cultura que tão animadores resultados vem obtendo graças a vossa colaboração, sirvo-me do ensejo para convidar-vos para a aula inaugural do ano letivo de 1943, a cargo do Professor Lourenço Filho, no próximo dia 26, às 17:45 horas. Antes da aula, haverá uma reunião dos professores, afim de organisar os trabalhos docentes e para tomar parte nessa reunião solicito com empenho, o favor da vossa presença na Rádio Nacional às 17:15 (Arquivo Lourenço Filho CPDOC).

É novamente a marca da importância da escrita na modernidade destacada por Certeau (1994). O rádio que estaria no domínio da oralidade, não se afasta do escrito, ainda que este não tenha o poder de determinar o que vai ao ar, pois a oralidade possui uma exterioridade que a escrita é incapaz de captar.

Marcas que falam

Nos estudos sobre o rádio, os scripts têm grande importância. Para além de uma forma de registro do conteúdo que foi apresentado, a sua materialidade pode nos dar indícios de alguns aspectos que envolveram a atração radiofônica. O timbre da emissora marcado no papel, as rasuras, que indicam cortes, as marcações feitas à caneta no texto datilografado, destacando algum ponto a ser lido com mais entonação, os números que orientam a entrada de cada speaker.

Ao pesquisar os programas, encontrar o texto que foi lido no ar, sem dúvida, representa um grande avanço. Em arquivos, consegui localizar o texto utilizado por hora da irradiação, o script, que foi lido por Lourenço Filho, na Universidade do ar ao microfone da Rádio Nacional. O script pode trazer marcas da leitura, como palavras ou trechos cortados, vocábulos substituídos, que remetem desde uma leitura de última hora ao olhar de uma segunda pessoa ou até a censura. No texto publicado tais registros foram apagados, e, por consequência, uma parte do registro de construção do texto se perdeu. Nos scripts da Universidade do ar, por exemplo, várias alterações foram feitas a tinta no texto datilografado. Em uma destas, uma seta indica a citação das cartas recebidas e os seus remetentes, um indício que estes nomes serão lembrados na irradiação. Em outros trechos, há substituição de termos, que supostamente expressariam melhor a idéia do autor: na frase “Alguns ginásios do Rio de Janeiro a aplicam sempre com excelentes resultados” (LOURENÇO FILHO, 1942, s/p) em uma referência a organização de classes homogêneas, sempre é trocado por também, alterando o sentido.

Outra observação que a materialidade dos scripts permite é o formato que os textos possuem. Enquanto os textos de Lourenço Filho e Ariosto Espinheira são um bloco único, o que remete à responsabilidade da apresentação a um speaker apenas, o Quarto de hora infantil tem falas marcadas por numerais, o que indica entrada de diferentes falas, podendo ser feita por dois speakers, ou até pelo mesmo, mas com diferentes vozes, para personagens diferentes:





  1. Boa tarde, professor...Pode dar me uma informação?

  2. De certo...Boa tarde...

  1. Disseram-me que a Confederação Brasileira de Radiodiffusão, pela sua Commissão Educativa, começa hoje seu quarto de hora...

  2. destinado a cultura popular... É exacto. Nesse quarto de hora conversaremos sobre tudo... Conversa fiada... (Arquivo Roquette-Pinto)

As marcas do suporte escrito também permitem diferentes olhares. Assim, papéis timbrados, como os da Rádio Nacional, associam a atração à determinada emissora, marcando um vínculo, uma predisposição, ou seja, a priori, aquele texto teria sido elaborado para aquele espaço, com aval desta. Carimbos e assinaturas também indicam, com o propósito de alteração, a necessidade de um aceite de algum diretor da rádio.

As ondas que chegam ao ouvinte: a oralidade em questão

Sem dúvida, o rádio tem forte relação com a oralidade. É a voz que conquista o ouvinte, que dá asas a sua imaginação. A sonoplastia que simula uma viagem a outro mundo, do teatro, da música, das risadas. Não se tem a imagem para determinar apenas o som. Em relação a tal aspecto, o oral inicialmente se concentra na pessoa do speaker. Os relatos de Murce (1976) evidenciam a importância dessa função, a voz que fala ao ouvinte, destacando a valorização do carisma e da dicção. Algo que ele transparece como natural àquele que acredita ter talento para a função. Pensando dessa forma, acreditava nos concursos para encontrar novos speakers.

Animado pela festa de aniversário, resolvi promover um concurso (o primeiro que se fez no rádio no Brasil). Queria um speaker (não se dizia locutor) para o meu programa. Convoquei os candidatos pelo microfone da PRAX – Radio Philips do Brasil. Confesso que os inscritos não foram em grande número: cerca de 15. Os votos deveriam ser enviados por cartas. As apurações se fariam durante quatro semanas, nos dias de programa. Chegaram muitas cartas. Eram entregues pessoalmente na emissora: pelo correio ficava muito caro para os concorrentes. (p.41)

Entre os educadores, o speaker também era valorizado. Ao tratar da questão em Rádio e educação (1934), manual destinado a professores sobre questões da radiofonia em sala de aula, Ariosto Espinheira expõe disputas em torno do campo. Ao speaker comercial faltava a familiaridade com os métodos de ensino, mas sabiam fazer vibrar o auditório e comunicar com entusiasmo, fatores importantes. Já aos mestres que se propunham a enfrentar o microfone: Sem pretender excluir os professores, a maioria dos technicos constata que estes têm uma tendência natural para darem as suas exposições a forma de uma lição ordinária (ESPINHEIRA, 1934, p.67). Sendo assim, o speaker de programas educacionais deveria ter uma formação própria, pois os profissionais que se dedicavam às transmissões comerciais centravam seus atributos na dicção, ainda que importante, insuficiente para atender às necessidades das transmissões da rádioescola.

Baseada em experiências anteriores, ficava clara a defesa por uma formação específica daqueles que ocupariam a função speaker em programas educacionais:

Poucos professores possuem, porém, o treinamento necessário para se servirem com resultados deste methodo de apresentação. Não é suficiente, effectivamente, conhecer profundamente a mentalidade das crianças, é preciso possuir imaginação bastante para falar assim diante de toda uma classe (ESPINHEIRA, 1934, p.36).

Tentando atender a demanda por vozes adequadas para ocupar o microfone da Rádio Escola Mnicipal (PRD5), Roquette-Pinto criou um curso de formação de speakers para professores no próprio Instituto de Educação no Rio de Janeiro.

Já Philput (1930) acha que a escolha do speaker é muito importante; os programas educacionais deveriam ter uma preocupação maior com a escolha dessas pessoas, com objetivo de conquistar a audiência. Não necessariamente, o autor do texto para o rádio teria os atributos para desempenhar tal função: uma voz marcante, charme e uma capacidade de realizar uma leitura dinâmica ao microfone.

Ao abordar o tempo destinado a locução, Philput (1930) nos dá indícios do quanto o texto se distancia da oralidade quando a programação vai ao ar. Ela calcula que a leitura de um texto de quinze minutos representa o gasto de trinta minutos de irradiação, pois o microfone impõe uma voz bem mais pausada. Assim, ela alerta para um erro comum, que é a extensão do manuscrito, o que leva ao corte de alguns parágrafos, deixando a impressão de algo não concluído ou a falta de sentido. No caso da Universidade do ar, o texto inicial que falava sobre adolescentes considerados maus alunos, mas que na verdade eram vítimas de situações de desencorajamento e sentimento de inferioridade não compensado, era ilustrado por dois exemplos detalhados, que ocupavam dois parágrafos com 28 linhas; estes foram cortados e substituídos por duas linhas conclusivas: “ Pois bem, para que essa compensação possa ser feita, devemos proceder à orientação educacional” (LOURENÇO FILHO, 1942,s/p).

A combinação entre tempo e leitura nem sempre era fácil, ainda que o primeiro fosse privilegiado, como cita a professora. Benjamin Lima em sua coluna Radiotelefonia no Jornal do Brasil faz uma crítica que reforça tal idéia:

O caso passou-se do seguinte modo:

Irradiava-se um sketch. E como já tivessem decorridos uns tantos minutos, vai o diretor do Studio, arranca a pagina das mãos do principal intérprete, procura sôfrego, aflito, impaciente, a última página e ordena que todos os artistas declamem a parte final do diálogo!

Não é um test definitivo de amor à arte e de respeito ao público?(Jornal do Brasil, 05/02/1935, p.12).

Ao relatar um ritual que associa o autor do manuscrito ao locutor, novamente Philput (1930) nos dá indícios desse processo. Aos autores é aconselhado que o texto sempre seja lido previamente à irradiação junto ao speaker. Isso serve para que o autor indique os pontos que devem ser enfatizados pela voz, corrija algumas palavras que, com o som, descobriu não ser a mais adequada. Ao final, estes pontos de correção devem ser resumidos para que não sejam esquecidos ao microfone.

Por outro lado, Philput (1930) comenta que muitos professores que conseguem dimensionar suas aulas para os trinta minutos da atração radiofônica, ao voltarem para sala de aula, consideram-se muito extensos, têm a sensação que são pouco objetivos em suas explicações. A eles, ela alerta que são meios totalmente diferentes, não há como compará-los. A aula radiofônica é como se apontasse o dedo em uma direção, pois a mídia pede isso. O tempo da disciplina é outro, permite um aprofundamento não compatível com a irradiação.

A consideração de tantos aspectos a transmissão deixa clara a especificidade deste tipo de material para os estudos do rádio. A fonte oral oferece outras dimensões da análise: o que foi realizado, que por sua vez não se confunde com o script que está na intenção. A voz, o timbre, o improviso, a entonação dada às frases fazem toda diferença àquele que procura compreender determinados aspectos da atração radiofônica. No caso da Viagem através do Brasil, por tratar da geografia e do folclore de nosso país tais lacunas de compreensão logo aparecem: Quais os recursos sonoros utilizados para simular a viagem de avião? Esta viagem era anunciada ou se recorria apenas a sonoplastia? Como se apresentavam as músicas regionais, havia gravações ou o próprio Espinheira cantava? Havia mudança na voz para ilustrar os diferentes sotaques das regiões?

O tempo da atração só pode ser apreendido através da audição. Como as próprias orientações dadas por Philput (1930) remetem, isso é muito importante para a conquista da audiência. Ouvir, nos ajuda compreender as estratégias utilizadas nesse sentido, que são únicas ao seu momento e ao programa. A Viagem através do Brasil uma atração diária destinada ao público infantil, não poderia ter o mesmo ritmo e dinâmica da Universidade do ar com apresentações quinzenais e voltada à professores, ainda que as duas tivessem aproximadamente meia hora de transmissão.

Tais aspectos podem possibilitar análises únicas. Contudo, a audição do programa não nos possibilita ter acesso a todos os seus significados, nem é este o objetivo da análise histórica. Ao estudar a oralidade, Certeau (1994) distingue uma dimensão para além da oral e da escrita, que são as vozes do corpo. Essas são trajetórias únicas: “um corpo plural onde circulam efêmeros, rumores orais, eis o que vem a ser essa estrutura desfeita, cena para vozes” (p.257). Assim, mesmo a fonte oral não nos daria acesso ao ouvinte, que trajetória fez o som ao entrar em contato com seu corpo. Não há tradução possível, apenas o que significou para você, pesquisador, ao conhecer esta fonte. O que se fala é por si, não pelo outro.



Diferentes caminhos e um objetivo

As dificuldades para estudar a rádio-educação em seus tempos iniciais são muitas. Para vencê-las, ao primeiro olhar, nada pode ser desprezado. Fontes orais e escritas, tudo que nos aproxime deste mundo radiofônico, deve ser valorizado.

A oralidade e a escrita, ainda que não consigam se dissociar, não se confundem. Neste texto, na medida do possível, os aspectos, oral e escrito, foram tratados de forma separada, com a intenção de assinalar em diferentes tipos de fonte, passíveis de serem encontradas nos estudos sobre a radiofonia educacional, algumas possibilidades de análise. Por este lado, não há como deixar de ver que ambas oferecem múltiplas oportunidades.

O escrito, em geral é de mais fácil localização. Os textos destinados ao rádio são encontrados em arquivos pessoais, nas rádios, em bibliotecas sobre radiofonia, alguns serviram de base para livros, como a coleção a Viagem através do Brasil. São importantes e representam grande avanço na pesquisa sobre determinada atração radiofônica. Como se fossem janelas, que oferecem determinados ângulos da paisagem. Por outro lado, o oral nos remete ao tempo da atração que é único e, deste o escrito não pode se aproximar, pois como nos lembra Certeau (1994), este convive com sua ausência. Caminhos que se encontram em determinado momento. Possuem limites, como qualquer fonte, isoladas dificilmente responderiam a tantas perguntas. Contudo, o total não é o objetivo da história como ciência, seria um trabalho em vão. Assim, com muitos obstáculos, ainda são muitos os caminhos que podem nos transportar ao passado radiofonia educacional.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ESPINHEIRA, Ariosto. Rádio e educação. São Paulo, Companhia Melhoramentos, 1934.

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LOURENÇO FILHO, M. O desenvolvimento da inteligência. Mimeo, 1942.

MURCE, Renato. Bastidores do rádio. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

PHILPUT, Mary Francis. The techniques of preparing manuscripts. In: Education on the air. First year book of the Institute for education by radio, Ohio State University, 1930.

ROQUETTE-PINTO, Edgar. Quarto de hora infantil. Mimeo.



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1 Script é o texto elaborado para leitura ao microfone da rádio. O script tem seu conteúdo marcado com sinais que indicam pausas, intervalos com execuções de músicas e partes destacadas para que a leitura fosse realizada com maior entonação.

2 O speaker era o responsável pela locução do conteúdo ao microfone da emissora.

3 O elenco das emissoras formado por cantores, locutores e músicos era também conhecido como casting. O termo até hoje utilizado, é encontrado em jornais e revistas a partir da década de 1930.

4 Termo inglês, apropriado por nossas emissoras para denominar a radiodifusão.




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