Encenando Mozart: a produção e a processo criativo para a Ópera “a flauta Mágica” Staging Mozart: The production and creative process to the opera "The Magic Flute."



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Encenando Mozart: A produção e a processo criativo para a Ópera “A Flauta Mágica”
Staging Mozart: The production and creative process to the opera "The Magic Flute."
José Alfredo Beirão Filho – UFSC [debeirao@uol.com.br]

Vania Ulbricht – UFSC [ulbricht@floripa.com.br]



Resumo: Encarregado de realizar os figurinos das diferentes personagens de um espetáculo (solistas, coro, bailarinos e figurantes) o figurinista, longe se ser um simples executante, é o responsável por concretizar e por em pratica as idéias que exprime em seus desenhos. O presente trabalho destaca a atuação deste profissional, suas implicações no processo criativo, sua inter-relação com a equipe de profissionais com que atua, bem como relata o processo de criação para o figurino da montagem da Ópera “A Flauta Mágica” de Mozart, na cidade de Florianópolis/SC.
Palavras Chaves: Figurino, Ópera, Criatividade.
Abstract: Responsible for achieving the costumes of various characters from a show (soloists, chorus, dancers and extras), the costume designer, far to be a mere performer, is responsible for achieving and implementing the ideas he express in his drawings. This paper highlights the performance of this work, showing the implications in the creative process, the inter-relationship with the team of professionals that he works with, as also reports the creation process for the assembly lines for the presentation of the opera "The Magic Flute" (Mozart), in the city of Florianópolis/SC.
Key words: Costume, Opéra, Creativity.


Introdução
Este artigo, focado na produção de um espetáculo operístico, tem o escopo de apresentar as etapas e as técnicas de concepção de figurinos, fruto de uma ação coletiva. Ancorado em pressupostos das teorias da criatividade, por meio de aplicação das técnicas brainstorm, brainwriting e a listagem de atributos e orientado por noções desenvolvidas em estudos de indumentária e adereços cênicos, o estudo tem como corpus principal a ópera “A Flauta Mágica” (1.791, W. A. Mozart), produzida pela Pró Música de Florianópolis e apresentada no Teatro do Centro Integrado de Cultura da mesma cidade no ano de 2005.
Resumo da Ópera

De todas as artes musicais, a ópera é a mais complexa para ser definida. O próprio termo não pode ser mais vago. Em italiano significa “obra”, “trabalho” – conceito este que não caracteriza a essência desse teatro musical. Qualificada de “espetáculo total”, a ópera associa uma grande variedade de disciplinas artísticas: para a concepção, compositores, libretistas, maestros, diretores de cena, coreógrafos, iluminadores, figurinistas; para a realização, pintores, escultores, adereçistas, artesões, costureiras, alfaiates, chapeleiros; para a representação final perante o publico, músicos, cantores, bailarinos e figurantes. A ópera, uma das mais importantes criações do mundo moderno, tem suas origens na Itália. Em 1580, o nobre florentino G. Bardi foi quem começou a reunir em seu palácio um grupo de artistas que formaram uma camerata. O resultado destas reuniões foi o surgimento da primeira ópera propriamente dita, Dafne, baseada em personagens mitológicos. Segundo Cross (2002), a primeira grande obra da história da ópera é, sem dúvida, Orfeo de Monteverdi, datada de 1607. No decorrer dos anos, este gênero lírico estende-se por toda a Europa, onde compositores locais não demoraram a dar a sua contribuição à nova modalidade artística. Tais obras motivam a produção de centenas de montagens, completamente repensadas e retrabalhadas, dramaticamente e visualmente, muitas das quais integram o repertório habitual das maiores casas de ópera do mundo, com a assinatura de renomados compositores como Bizet, Verdi, Wagner, Mozart, entre outros. Assim, no momento em que se abrem as cortinas, astros consagrados brilham no palco, e nos bastidores um exército de profissionais trabalha com afinco a fim de permitir ao espectador uma aventura coletiva, uma viagem em que cada um vive seu próprio sonho.



Como tudo começa...

Os primeiros profissionais a entrar em ação, uma vez definido o repertório e elenco, são o diretor geral, o diretor de produção e o diretor de cena. Estes podem resolver seguir descrições originais sugeridas pelo libreto, ou criar algo inteiramente novo, ambientando a ação em outra época, antiga, contemporânea ou até mesmo atemporal. O projeto é apresentado ao cenógrafo, ao iluminador, ao figurinista e ao maestro, e uma vez aprovado, todos os profissionais envolvidos elaboram seus projetos de acordo com a concepção proposta.

No caso específico dos figurinos, a concepção dos mesmos vai depender, particularmente, das decisões dramatúrgicas sugeridas pelo diretor de cena, e devem estar em perfeita harmonia com a proposta e as cores do cenário; isso faz com que muitos profissionais do figurino aguardem um estágio mais avançado do projeto de cenografia para desenvolver seus croquis, pois ambos são importantes elementos de composição cênica. Várias reuniões devem acontecer no transcorrer dos trabalhos, quando é de fundamental importância uma boa comunicação e integração dos profissionais responsáveis pela cenografia, iluminação e figurino, ainda que cada trabalho seja um processo individual. Todos devem avaliar o trabalho dos demais, levando em conta as possibilidades dramáticas dos elementos com que trabalham.

A partir desta etapa, um trabalho de pesquisa de documentação mais específica torna-se imprescindível para o bom andamento do trabalho. As fontes mais habituais de pesquisa são livros de história da indumentária, história da arte, moda, fotografia, museus e, sem dúvida alguma, o trabalho de outros profissionais das artes cênicas.

Ao realizar todas as etapas precedentes, o figurinista está apto para apresentar sua proposta de vestuário para o espetáculo. Visualizado em maquetes ou croquis, importantes ferramentas para a execução dos mesmos, os croquis poderão ser avaliados por meio de sua volumetria, cores, linhas, materiais, texturas e coerência. Quanto mais detalhados forem os desenhos, mais de fácil compreensão será para a equipe de produção.

É oportuno enfatizar alguns critérios para criação dos figurinos:



a) concepção e propriedade: a concepção se refere à criação artística baseada no texto ou libreto e propriedade, a adequação dos figurinos e materiais usados, bem como seus significados;

b) efeito e tonalidade: o efeito diz respeito à impressão causada pela utilização e distribuição de materiais usados nos figurinos, sobretudo no que diz respeito ao conjunto e na tonalidade, entrosamento, utilização e exploração das cores;

c) originalidade e acabamento: a originalidade é a maneira própria de criar ou utilizar os figurinos, e o acabamento é o cuidado na confecção e uniformidade dos figurinos de cada conjunto.

Uma vez aprovados, o trabalho de execução começa com a escolha dos tecidos e materiais em que os figurinos serão executados. Esta etapa exige muitas vezes exaustivas pesquisas com fornecedores, a fim de conciliar os quesitos exigidos pelo figurinista no que diz respeito a caimento, fluidez, elasticidade, estampas, preço, quantidade disponível e prazo de entrega.


Para a etapa da confecção, a mesma é dividida conforme a necessidade da mão de obra a ser utilizada: costureiras e alfaiates, que trabalharam em conjunto aos profissionais de decoração encarregados por todas as operações no tratamento de efeitos especiais dos tecidos como pátinas, envelhecimento, pintura, e estamparia previamente indicados pelo figurinista. Paralelo a este trabalho, é feita toda a execução dos acessórios como coroas, diademas, chapéus, colares, brincos, mascaras, armaduras, entre outros.

Pró-Música de Florianópolis

No ano de 1973, um grupo de empresários florianopolitano criou uma entidade promotora de espetáculos, a Pró-Música que, sem dúvida nenhuma, despertou o meio musical de Florianópolis. Contudo, o papel mais importante da Pró-Música foi colocar, gradualmente, Florianópolis no mapa cultural do País, ao lado de capitais como São Paulo e Rio de Janeiro com a produção de mais de 650 espetáculos com solistas nacionais e Internacionais, grandes orquestras, conjuntos de câmara, óperas, balés e corais. Em 1998 a Pró-Música criou o Festival de Canto Aldo Baldin, em homenagem ao tenor catarinense nascido em Urussanga (SC) que fez uma brilhante carreira nos palcos da Europa. O objetivo maior da Pró-Música era, com este festival, transformar Florianópolis, em um importante pólo operístico no país, produzindo, a cada ano, uma grande ópera, incentivando cantores catarinenses e, ao mesmo tempo, desenvolvendo atividades na área da produção local de cenários, figurinos e adereços. Foi por meio do Festival Aldo Baldin que, pela primeira vez, Florianópolis assistiu a uma ópera completa no Teatro do Centro Integrado de Cultura (CIC) no ano de 2.000: La Traviata (Verdi), Madame Butterfly (Puccini), Carmen (Bizet), Cavalleria Rusticana (Mascagni), A Flauta Mágica (Mozart), Rigoletto (Verdi), La Traviata (Verdi) e Elisir d’Amore (Donizetti). O ano de 2004, com Cavalleria Rusticana foi um divisor de águas na história da ópera em Santa Catarina. A Pró Música ousou enfrentar um novo desafio: realizar uma ópera com produção local. A direção dos trabalhos foi entregue às mãos de profissionais locais, inclusive a criação de cenários e figurinos.



Libreto: “A Flauta Mágica”

De acordo com Cross (2002), o enredo é uma curiosa mistura de sátira política, simbolismo de franco-maçonaria e ingênuo humor, tudo sobre um fundo egípcio. Escrita em dois atos com libreto de E. Schikaneder, a obra mostra os dois grandes poderes que regem as relações humanas (bem e mal). Tamino, personagem principal, é uma pessoa comum e é facilmente corrompido pela sociedade (representada pela Rainha da Noite, uma mulher cheia de más intenções). A Rainha da Noite pede a Tamino que capture sua filha Pamina, que está vivendo no templo de Sarastro, o Alto Sacerdote, representante supremo do bem. Sarastro é considerado o grande benévolo e havia capturado Pamina para livrá-la do mal. Tamino fica em dúvida se recaptura Pamina para devolvê-la à Rainha, ou se a deixa ser iniciada nos ensinamentos da bondade e justiça. Depois do contato com Sarastro, Tamino deseja iniciar-se também. Apaixonados, Pamina e Tamino terão que passar pelos ordálios, ou seja, as provas de fogo e água, o conflito entre a luz e as trevas, impostas para que Sarastro saiba se estão realmente prontos para seguir seus ensinamentos onde há o triunfo final do bem sobre o mal.



Processo Criativo

Criatividade é o conjunto de fatores e processos, atitudes e comportamentos que estão presentes no desenvolvimento do pensamento produtivo. E criar para Gomes (2001, p.47) significa “[...] o processo pelo qual os seres humanos encontram meios para conceber, gerar, formar, desenvolver e materializar idéias”.

Assim, a criatividade apresenta-se por meio da ilusão (produto livremente fantasiável), da invenção (produto exclusivamente funcional) e da inovação (produto plenamente realizável). Entretanto, para criar é necessário isentar-se de autocrítica, de pré-julgamentos e imergir numa imensidão de idéias, para que haja a conversão de elementos conhecidos em algo novo.

O brainstorm, palavra inglesa cuja tradução pode ser entendida como tempestade de idéias, é um termo cunhado por Alex Osborn em 1963, que tem como característica principal a exploração de idéias, por um determinado grupo, com ausência de julgamento ou de autocríticas, em que todas as idéias faladas são aceitas, mesmo que aparentemente absurdas. Segundo Baxter (1998), esta técnica baseia-se no princípio de “quanto mais idéias, melhor”. As idéias iniciais geralmente são mais óbvias e, as melhores e mais criativas costumam aparecer na parte final da sessão do grupo. O brainwriting é uma evolução e uma versão silenciosa do brainstorm; adota um procedimento semelhante, porém, as idéias são escritas pelos participantes, em cartões, tiras de papel ou post-its. Sem mostrar uns para os outros, posteriormente estes papéis são trocados entre os membros participantes do grupo, para o acréscimo de novas palavras. Por último, a listagem de atributos, desenvolvida por Osborn, consiste em analisar individualmente atributos de um problema ou produto e, em seguida, coletivamente, propor alternativas para cada um deles. Com vistas a favorecer o desenvolvimento de idéias, Alencar (1995) sugere a utilização da lista de verbos proposta por Osborn (1963): modificar, substituir, adaptar, aumentar, diminuir, inverter, combinar, rearranjar.


Proposta de criação do figurino para “A Flauta Mágica” (Mozart) – 2005
Após aceitar o convite para fazer parte da equipe de criação da montagem deste trabalho, este pesquisador participou de várias reuniões onde foram definidos todos os elementos referenciais para dar início da execução dos trabalhos. A partir dos dados levantados surgiram os primeiros questionamentos: como tratar um libreto nada convencional? Aonde buscar um diferencial? Que referencias buscar? Egito? Atemporal? Para responder estas questões foram aplicadas as técnicas do brainwritting que sugeriram as palavras chaves para o desenvolvimento do trabalho: art déco, futuro, mangá, super heróis. O art déco foi um movimento artístico que ocorreu no entreguerras europeu. Estilo mais decorativo que funcional, tinha como características mais marcantes o uso de linhas retas ou circulares estilizadas, formas geométricas e design abstrato, com forte influencias orientais, africanas, astecas e indianas. Como mangá, pode se definir o nome dado às histórias em quadrinhos de origem japonesa, caracterizadas por utilizarem uma representação gráfica completamente própria.

A etapa subseqüente à aplicação desta técnica foi a que Baxter (1998) denomina de criação do Painel de Tema Visual, elaborado com imagens sugeridas por meio do brainstorm, que permitiu que a equipe de figurino visualizasse o tema sob diversos aspectos (figura 1). Para a criação deste painel, foram gerados os conceitos e ordenados de acordo com os critérios de seleção pré-definidos e anexadas imagens diversas como: estilo art déco (arquitetura, jóias), arte egípcia, mangás, etc.


Fig. 1 – Painel de tema Visual


Com a proposta definida e a conseqüente organização e distribuição das personagens, foi elaborado o painel de referências visuais para cada grupo de figurino: solistas, coro e figurantes. Como exemplo, o Painel de Referencias de Figurino (figura 2), para Pamina (filha da Rainha da Noite).

Fig. 2 – Painel Referencias Visuais (Pamina)


Elaborados os painéis, o grupo de trabalho concentrou-se na criação dos produtos desejados, gerando conceitos e propostas a partir da aplicação da técnica de criatividade listagem de atributos proposta por Osborn (1963), o que gerou múltiplos questionamentos, tais como: o que pode ser modificado? que usos podem ser dados? quais os movimentos desejados? quais formas? o que pode ser substituído? quais ingredientes? qual abordagem? o que pode ser acrescentado, multiplicado ou ampliado? o que pode ser tirado? omitido? deixado mais leve? o que pode ser invertido? quais opostos? que idéias, objetivos, partes, cores, materiais, funções podem ser combinadas? que componentes, seqüências, ritmos podem ser trocados? rearranjados? Idéias e opiniões foram trocadas entre os criadores, ora distorcendo, invertendo ou adaptando, sem críticas, mas sim, uma verdadeira busca pelas melhores respostas. Após análise e seleção dos atributos, várias propostas novas foram registradas, com modificações e melhorias aplicadas de forma ordenada, cujo compromisso com a coerência foi mantido, de modo a facilitar a geração das novas idéias e por conseqüência, o processo criativo.

Para chegar ao produto final com êxito, alguns aspectos foram levados em consideração, tais como: as questões mercadológicas em relação às técnicas de construção e confecção; a disponibilidade de material; tempo para execução e, sobretudo, a disponibilidade financeira para a realização do trabalho.



Considerações Finais
A ação de criar figurinos transforma-se em energia, que emana, que instiga. Ele abona seu testemunho da pessoa que o usa. Cabe ao figurinista compor, por meio da combinação de roupas, adereços, cabelos e maquiagem, o que melhor se ajusta ao personagem e estabelecer um código de representação que não, necessariamente, mantenha vínculo com a realidade. Desde a concepção inicial à escolha dos tecidos, materiais, aviamentos, texturas e beneficiamentos há uma construção gradativa que corroboram uma dimensão e um desempenho na diferenciação de tipos e personagens. Os profissionais que atuam na criação, geralmente com orçamentos limitados, tendem a transformar seus ateliers em laboratórios de experimentação, onde o uso de material ordinário se transforma em material extraordinário, na composição de produtos esteticamente viáveis, para relatarem os enredos propostos. Não obstante, a criatividade e a produtividade da equipe de criação dependem de um planejamento cuidadoso, de um mergulho mais profundo nas pesquisas quando os resultados serão reinterpretados, em cor, luz, forma, textura, ritmo e da condução equilibrada do processo criativo, mantendo a liberdade de imaginar sem perder o foco no problema a resolver.
Referencias Bibliográficas e eletrônicas:
ALENCAR, E.M.L.S. Criatividade. 2ªed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995.

BAXTER, M. Projeto de produto: guia prático para o desenvolvimento de novos produtos. São Paulo: Ed. Edgard Blüchter, 1998.



CROSS, Milton. As mais famosas Óperas. Trad. Edgar Chaves Junior. São Paulo. Ediouro, 2002

HELLEU, Laurence. Les Métiers de L’Opéra. Paris: Actes Sud, 2005.
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