Em sua evolução, o correio como veículo ou meio de transporte de informações, surge primeiramente da necessidade que o homem tem de se comunicar



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Arte postal no Brasil: comunicação nos tempos de guerrilha e sua atualização nas redes sociais


Ronaldo Gifalli2

FIB - Faculdades Integradas de Bauru

Aniceh Farah Neves3

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”



RESUMO

O presente artigo é uma fração panorâmica, o qual contextualiza o objeto postal, também chamado de Mail Art, Arte Correo ou Arte Postal, a sua importância durante a década de 70, onde se estabelece o período de desmaterialização do objeto artístico; a década de 80 – com a XVI Bienal Internacional de São Paulo - e seu crescimento e fortalecimento como meio expressivo no Brasil até aos anos 90, onde há a realização de várias mostras postais e um intenso intercâmbio entre artistas de todo o planeta. Em Bauru, Estado de São Paulo, esta proposta acontece em três momentos, proporcionando uma experiência até naquele momento, inusitada. A Mail Art se atualiza, trocando o meio Correio, pela rede Internet, sendo atualmente, a troca comunicativa realizada nas redes sociais.



PALAVRAS-CHAVES

Arte Postal, Mail Art, Arte Correo, Correio, Internet



1. INTRODUÇÃO

Em sua evolução, o correio como veículo ou meio de transporte de informações, surge primeiramente da necessidade que o homem tem de se comunicar. O que era, nos primórdios, uma comunicação face a face, evolui para um sistema que vai enviar as mensagens através do tempo e espaço. A Arte Postal, Arte Correo ou Mail Art é um produto da comunicação influenciado pelos meios de informação de massa, a partir da década de 50, e que se utiliza do correio como principal suporte para um intercâmbio de objetos. A mistura de signos é sua processo principal. Ela evidencia um caráter informativo, efêmero e marginal entre produtores emissores/ receptadores, num fluxo contínuo. E, “o artista da arte postal, então tem a seu dispor o mundo da informação interagindo dentro dele, criando e recriando, traduzindo e manipulando a informação através desses meios” (Plaza, 1981). Na medida em que valorizava a comunicação, a Arte Postal foi o primeiro fenômeno da história da arte a ser realmente globalizado. Reunindo artistas de todas as nacionalidades e diferentes inclinações ideológicas, mas compartilhando um mesmo objetivo comum, buscou-se novas possibilidades de se experimentar e trocar trabalhos numa rede livre e fora do mercado oficial da arte. A Arte Postal é, certamente, uma das primeiras manifestações artísticas a tratar com a comunicação em rede, em grande escala.

A Arte Postal faz parte de um mundo global e se desenvolve entre pessoas ou grupos das mais diferentes formações e culturas. Passou a ser conhecida fora de seus próprios círculos tornando-se um modelo de comunicação criativa, antes mesmo da chegada da Internet. A estética da Arte Postal, como no Dadá é o da não estética. Na verdade não há esta preocupação: ela vem “negar-se a si própria” como objeto de arte e apresentar a proposta de possuir caráter exclusivamente funcional e informativo. Dentro dessa funcionalidade informacional, os seus produtores operam através dos diferentes signos, mensagens com caráter publicitário, produzidas pela sociedade. Utiliza-se quase sempre do processo do bricoleri e transforma qualquer tipo de idéia em objetos de consumo imediato. A situação ideológica vivida pelos artistas neste início desta década de 70 configurava de uma guerrilha que ameaçava transformar em coisas do passado, as categorias da arte, os estilos e até mesmo seus autores.

2. ARTE POSTAL: recepção imprevisível

Muitos artistas, após o Ato Institucional número 5 (AI-5), perderam a esperança em desenvolver suas atividades artísticas com liberdade. Saem do país, dando continuidade às suas pesquisas visuais. Entre eles estão: Sérgio de Camargo (1930-1990), Rubens Gerchman (1942-2008), Antonio Dias (1944) e Franz Krajberg (1921). O Museu de Arte Contemporânea de São Paulo / USP, nos anos 60/70, formou uma rede de comunicação mundial em Arte Postal. Utilizando-se de mensagens telegráficas, On Kawaraii (1933) envia seus conceitos ao museu, iniciando e estimulando outros artistas nesse processo artístico. A partir dessa experiência Angelo de Aquino (1945), Regina Vater (1943), Ivald Granato (1949), Bené Fonteles (1953), Paulo Bruscky (1949), Júlio Plaza (1938-2003) e Regina Silveira (1939), se engajam nessa atividade. Plaza organizou, em 1972, com Silveira uma mostra internacional de Arte Postal na Universidade de Porto Rico.

Após 1973, várias mostras apoiaram e disseminaram essa mídia. As principais exposições ocorreram em São Paulo, destacando-se a, Prospectiva 74, o projeto Poéticas Visuais em 74 e 77, a Multimedia Internacional na ECA-USP em 1979 e a XVI Bienal Internacional de São Paulo, com o núcleo I – Arte Postal em 1981. Em Recife Paulo Bruscky com Gabriel Borba Filho (1942), Unhandeijara Lisboa (1949), Leonhard Frank Duch (1941), Anna Carretta (1941), Francisco Pereira Jr. (1944), Roberto Keppler (1951), Tadeu Junges (1956) mantinham-se em franca atividade, desenvolvendo vários projetos postais. Em setembro de 1977 é criado o C.A.M.B.I.U – Centros de Arte Marginal Brasileira de Informação e União – com sede em João Pessoa.

A partir da edição do C.A.M.B.I.U nascia a revista GAVETA, a primeira revista de arte correio do Brasil. Com tiragem regular, encerra suas atividades na 12º edição, o objetivo desta revista era o de desengavetar os trabalhos dos artistas postais, Unhandeijara Lisboa, Leonhard Frank Duch, Marconi Notaro – editor da Gaveta, Silvio Hansen, Paulo Bruscky, Falves Silva, J. Medeiros, C. H. Dantas, Pedro Osmar, Paulo Ro e Vânia Lucilla. Além da revista GAVETA, eram também editadas as revistas KARIMBADA – U. Lisboa, na Paraíba; o INFORMAIL – F. Silva, no Rio Grande do Norte e a POVIS – J. Medeiros e F. Silva, também no Rio Grande do Norte. A Mail Art se demonstra uma das alternativas encontradas pelos artistas para explorar novos recursos perceptivos – intersemióticos, e ao mesmo tempo para descobrir novas possibilidades de fazer sentir sua presença na coletividade. (Zanini, 1977).

Na estrutura da Arte Postal, cada obra possui cada vez menos importância sintática e um valor maior semântico pelo seu sistema de fluxo contínuo, funcionado num sistema de um texto infinitesimal.

O efêmero – como valor artístico exercitado na década de 60 – é adotado nos anos 70 na forma de happenings, obra ambiental, arte corporal – body art, os grafites e Arte Postal. A ordem seria a de se contestar o mercado – “Para que a arte servia e a quem ela servia?”.

Assim, a partir da segunda metade da década de 70, vem à tona a produção de uma nova geração de artistas. Inovando quanto aos meios de produção e veiculação de suas obras, toma corpo as mostras de Arte Postal, os grafites ocupam as ruas, como interferências urbanas.

A Arte Postal sofreu influências do poema postal, uma das vertentes do poema/processo, como desdobramento da poesia concreta. Em 1970 Pedro Lyra (1945) realiza trabalho precursor do poema postal. Em 1973, Paulo Bruscky engaja-se neste movimento e em 1975, organiza, juntamente com Ypiranga Filho (1936), no Recife, a Exposição Internacional de Arte Postal, que terá continuidade nos dois anos seguintes. Na mostra de 1976, aconteceu um fato, já mais ou menos previsível para aquela época: no Correio de Recife - patrocinador do evento - a exposição foi interditada pela polícia Federal, as obras foram confiscadas, ficando retidas na policia, por três meses e os organizadores detidos por três dias. Assim, entre 1975 e 1978, mais de dez mostras postais foram organizadas em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Pernambuco (Kaplan, 1986).

Outro processo efêmero advindo da Arte Postal é a Arte Xeroxiii, que desde 1974, Bené Fonteles (1953) trabalhava, com colagens de jornais e revistas. Seu propósito era ir além da informação publicitária: distribuía diversas cópias em mãos ou pelo sistema postal.

Teorizando a relação artista-máquina, Hudinilson Jr (1957), desenvolve suas pesquisas, xerocopiando seu próprio corpo, na série o corpo xerocado. Ao se deitar sobre a máquina, Hudnilson, intencionalmente estendia os limites do corpo, invertendo sua relação com a máquina, fazendo com que ela se tornasse veículo e também co - produtora de sua arte. Essa pesquisa estava estreitamente relacionada com a proposta da body art.

N
57. Bené Fonteles, xerografia, 1980.
a década de 80 a Arte Postal entrará nos meios oficiais, deixando de possuir, o “carimbo do ativismo marginal”, para se enquadrar e se transformar em mais uma categoria da arte. Estava presente na XVI Bienal Internacional de São Paulo (1981), no Núcleo I – Vetor A – organizado por Walter Zanini. Estas manifestações comunicativas fazem parte de um espaço específico destinado à Arte Postal, convidando artistas do mundo inteiro, sendo que 541 fizeram-se presentes.

Todo o resultado do Núcleo I dessa Bienal, faz parte da Coleção Walter Zanini, doada em 1984 para o Centro Cultural São Paulo. O acervo também possui outras duas coleções: A Coleção Maurício Mendonça - "Brutigre" e a Coleção Ozeas Duarte - "Como Você Limpa Sua Boca ?”, eventos realizados em 1986.


3. ARTE POSTAL NA CIDADE DE BAURU: um relato
Na cidade de Bauru, Estado de São Paulo, ocorreram três mostras, organizadas por Carlus Fernandes (1952) que entrou no circuito de Arte Postal em 1987, a convite do artista Hudinilson Jr, para participar do “Projeto 7”, coordenado pelo artista Bene Trevisan, de São José do Rio Pardo, SP, no Museu Rio Pardense de Artes.

A primeira mostra aconteceu em 1989, na Galeria de Arte Graffiti. Com o tema “A arte está morta?”, essa manifestação aconteceu de 2 a 30 de dezembro, recebendo a participação de 112 artistas. Os artefatos postais estavam dispostos na galeria em caixas, divididos por países, para que os visitantes pudessem manuseá-los.

Durante essa exibição os organizadores publicaram um tablóide informativo contendo noções sobre Arte Postal e uma entrevista com João Pirahy (1947), então coordenador do escritório de Arte Postal do Centro Cultural São Paulo, que apoiava e divulgava as propostas e mostras em Arte Postal. Nele, Pirahy relata sobre a situação da Arte Postal que naquela época já “andava mal do selo”, e pedia a todos os aficionados que colaborassem com o escritório.

Em 1991, estive presente nas reuniões para a escolha do tema da II Mostra Internacional de Arte Postal - “WC e VC”, sem contudo, dela participar. Não enviei o objeto postal, pois, para essa mostra o meu desejo era trabalhar um vaso sanitário como suporte, de onde sairiam diferentes sons, por meio de um gravador instalado em seu interior. Enviar um vaso sanitário pelo Correio, penso, seria algo estimulante, porém complicado.



Para a segunda mostra intitulada “WC & VC”, foi apresentada aos participantes da oficina de mail art, realizada na Oficina Cultural “Glauco Pinto de Morais” – Bauru/SP, uma referência visual que consistia num arco arquitetônico: um símbolo da livre circulação e ventilação de idéias, como também a ausência total de segredos, tabus e preconceitos. Esses arcos colocados em perspectiva iriam sugerir espaços abertos para a liberdade de expressão, podendo ser interferidos com a criação gráfica dos participantes.

Somente participei na III Mostra de Arte Postal, sobre o tema “Impressões Urbanas”, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru e que resultou numa exposição inserida na programação cultural de aniversário da cidade. Ela ocorreu de 30 de agosto a 08 de setembro de 1994, na Galeria Municipal “Angelina W. Messenberg”, no Centro Municipal de Artes. A produção desse evento contou com a participação de 108 artistas da Alemanha, Bélgica, Brasil, Espanha, Estados Unidos, França, Hungria, Inglaterra, Itália, Japão, Portugal, Rússia, Suécia, Uruguai, Yugoslávia e passou a pertencer ao Acervo Municipal de Artes Plásticas do Centro Cultural de Bauru.


4. CONCIDERAÇÕES FINAIS
Muitas outras mostras de Arte Postal entraram pela década de 90, ainda que na condição de acontecimento já saturado na década de 80. Atualmente o fator surpresa, estranhamento e imprevisibilidade em receber objetos de diversos países, atraem jovens artistas e estudantes de artes a praticar algumas propostas nesse domínio. Entretanto, cada vez mais esta ação comunicativa envolvendo trocas de mensagens e imagens se estabelecem nas chamadas redes sociais.
POSTAL ART IN BRAZIL: COMMUNICATION IN TIMES OF GUERRILLA AND HIS UPDATE ON SOCIAL NETWORKS.

ABSTRACT

The present article is one panoramic fraction which contextualizes the postal object, also called of Mail Art, Arte Correo ou Arte Postal, its importance during the 1970s which establishes the period of the dematerialisation of the artistic object; the 1980s – with the XVI Biennial International of São Paulo - and its growth and strengthening how expressive medium in Brazil until the 1990s, where there are conducting shows postcards and an intense exchanges between artists from around the planet. In Bauru, São Paulo State, this draft happens in three stages, providing an experience unusual until that moment. The Mail Art updates changing the way Internet Mail, over the network, currently being held, the communicative Exchange on social networks.



Keywords: Postal Art, Mail Art, Art Correo, Mail, Internet.
REFERÊNCIAS

Fundação Bienal de São Paulo - MEC/FAE. XVI Bienal (arte Postal) de São Paulo – São Paulo, 1981, p. 9.

KAPLAN, S, MELLO, M. A.(org), 20 anos de Resistência – Alternativas no Regime Militar. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1986.

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1970.

LÉVY, P. A conexâo planetária: O mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed 34, 2001.

LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Ed 34, 1999.

POINSOT, J.M. Mail Art Comminication a distance - Concept. Paris: CEDIC, collection 60+, 1971.



ZANNINI, W. (org). História Geral da Arte no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1983. 2V, p.81.

2 Mestre em Design pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Bauru, São Paulo e coordenador do curso de Design de Moda e docente das Faculdades Integradas de Bauru, São Paulo. rgifa@yahoo.com.br

3 Professora assistente doutora da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Bauru, SP. Membro de corpo editorial da Educação Gráfica e Revisor de periódico da Educação Gráfica (Bauru). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Plásticas. Atuando principalmente nos seguintes temas: integração Arte-Ciência, percepção visual, criatividade, ensino, geometria e forma. aniceh@faac.unesp.br


i1Bricoler vem de “bricoleur-bricolage”, palavra francesa que segundo Lévi-Strauss (1970), exemplifica o modus operandi da reflexão mitopoética. Caracteriza-se por exprimir meios e expedientes que denunciam a ausência de um plano de ação anteriormente pré - concebido, afastando-se dos processos e normas adotados pela técnica (Lévi-Strauss, 1970, p. 37). No Dicionário Novo Aurélio. Séc. XXI bricolagem é s.f: trabalho ou conjuntos de trabalhos manuais ou de artesanato doméstico (p. 332)

ii2Artista multimídia desenvolveu vários projetos, sendo um deles, o de enviar para a cidade do México, dois cartões para duas pessoas diferentes, todos os dias, de 10 de maio de 1968 a maio de 1971, somando 2.200 deles. (Poinsot, 1971, p.155)

iii3 Cópia realizada através do processo de eletro gravura muito utilizada por artistas desde a década de 70 leva esta denominação por ser a marca Xerox a primeira empresa de máquinas copiadoras a se instalarem no Brasil. Utilizando a máquina o artista realiza cópias, colagens, sobreposições, criando diversos efeitos. (N.A)




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