Elaine de Azevedo



Baixar 0,93 Mb.
Página1/15
Encontro01.07.2018
Tamanho0,93 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15

Referencia:


AZEVEDO, Elaine de. Trofoterapia e nutracêutica: Dietas e orientações nutricionais com base nas Medicinas Tradicional e Complementar. Nova Letra. 2007
Página 2
Elaine de Azevedo
TROFOTERAPIA E NUTRACÊUTICA
Dietas e orientações nutricionais com base nas Medicinas Tradicional e Complementar
NOVA LETRA
GRÁFICA & EDITORA
Fevereiro/2007
Página 3
Contato com a autora:

elaineaz@unisul.br elainepeled@gmail.com


Copyright © 2007
Elaine de Azevedo
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização do autor por escrito.
Capa
Yiftah Peled
Revisão
Ana Lúcia Correia Müller
Diagramação e impressão
Nova Letra Gráfica e Editora
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Municipal Dr. Fritz Müller
613.2
A994t
Azevedo, Elaine
Trofoterapia e nutracêutica: dietas e orientações nutricionais com base nas medicinas tradicional e complementar / Elaine de Azevedo. — Blumenau:

Nova Letra, 2007.


25Op.
ISBN 978-85-7682-1 76-2
1. Dietoterapia 2. Nutrição 3. Doenças 4. Saúde - Cuidados 5. Dietas nutricionais 6. Monodietas 7. Trofoterapia 8. Terapia alimentar 9. Nutracêutica 1.
Título.
Impresso no Brasil
Página 4
Para Yiftah, que aceitou vir comigo.
Para Rayana e Shay, que diariamente me ensinam a ser mãe.
Página 5
AGRADECIMENTOS
Nenhum saber se constrói sem a contribuição de muitos. Meu agradecimento a todos os autores pesquisados, co-responsáveis por esta obra. Agradeço também algumas pessoas que estiveram comigo no ano de 2006 e que eu gostaria de citar especificamente:
- a naturóloga e amiga Paula Cristina Ischkanian, por sua generosidade e alegria e por me ensinar a importância da compaixão e da esperança em qualquer tratamento;
- o futuro brilhante naturólogo Daniel Maurício de Oliveira Rodrigues, por sua disposição em compilar e corrigir os conteúdos de Fitoterapia e ajudar na revisão geral do livro;
- a nutricionista Débora Maciel Valadão, dedicada colega que vem acompanhando e apoiando meu trabalho como nutricionista;
- a querida Ana Lúcia Correia Müller, amiga paciente e disponível, pela revisão dos originais e pela busca da clareza (e de poesia) nos meus termos técnicos;
- os meus alunos do curso de Naturologia Aplicada da Unisul, por sua atenção, respeito e carinho nas aulas, sua vontade contagiante de mudar o mundo e sua coragem em assumir desafio desta nova profissão;

- os meus pacientes, que anseiam pela cura e confiam a mim suas dores e esperanças.


Muito obrigada!
Página 6 - Página em branco
Página 7
SUMÁRIO
1.A ABORDAGEM QUALITATIVA E SISTÊMICA DA DIETOTERAPIA – 17
2. DESEQUILÍBRIO DO PESO CORPÓREO – 33
2.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM SOBREPESO, OBESIDADE, PESO DEFICIENTE, ANOREXIA E BULIMIA NERVOSA – 34
2.1.1. Peso deficiente, anorexia e bulimia nervosa – 34
2.1.2. Sobrepeso e Obesidade – 38
2.2 DIETAS DE DESINTOXICAÇÃO E DISSOCIATIVAS – 50
2.2.1. Dieta de Desintoxicação – 51
2.2.2. Dietas Dissociativas – 72
3. DOENÇAS DO METABOLISMO E GLÂNDULAS ENDÓCRINAS – 81
3.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM HIPERGLICEMIA E HIPOGLICEMIA – 82
3.1.1. Hiperglicemia - 82

3.1.2. Hipoglicemia – 85


3.1.3. Hipotireoidismo – 86
3.1.4. Hipertireoidismo – 88
3.1.5. Hiperuricemia – 90
4. DOENÇAS DO SISTEMA GASTRINTESTINAL – 93
4.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DOENÇAS DO ESÔFAGO E DO ESTÔMAGO: ESOFAGITE GASTRITE E ÚLCERA - 95

Página 8


4.1.1. Esofagite – 95
4.1.2. Gastrite e úlcera – 96
4.1.3. Hipocloridria – 100
4.2. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DOENÇAS INTESTINAIS – 101
4.2.1. Hemorroidas e constipação – 101
4.2.2. Diarreia – 105
4.2.3. Flatulência – 107
4.2.4. Doenças Inflamatórias Intestinais – 109
4.3. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DOENÇAS DO SISTEMA HEPATOBILIAR E PÂNCREAS – 113
4.3.1. Doenças do sistema hepatobiliar – 113
4.3.2. Pancreatite – 118
5. DOENÇAS DO SISTEMA CIRCULATÓRIO E SANGUE – 119
5.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DOENÇAS CARDIOVASCULARES E HIPERLIPIDEMIAS – 120
5.1.1. Doenças cardiovasculares e hipertensão – 121
5.1.2. Hiperlipidemias e o fator homocisteína – 122
5.2. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM ANEMIAS – 135
5.2.1. Anemia – 136
6. DOENÇAS RENAIS E DAS VIAS URINÁRIAS – 143
6.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM NEFROLITÍASE E INFECÇÕES URINÁRIAS – 146
6.1.1. Nefrolitiase (litíases ou cálculos renais) – 146
6.1.2. Infecções urinárias – 149
7. ALERGIAS E DOENÇAS DA PELE – 151
7.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM ALERGIAS ALIMENTARES - 15
Página 9
7.1.1. Intolerância à lactose e rinite alérgica – 158
7.1.2. Alergia à proteína – 163
7.1.3. Intolerância aos cereais – 164
7.2. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DOENÇAS DE PELE -168
7.2.1. Psoríase – 169
7.2.2. Acne – 170
8. CÂNCER – 173
8.1.. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO CÂNCER - 174
9. DOENÇAS PULMONARES – 183
9.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DOENÇAS PULMONARES – 184
9.1.1. Tuberculose – 185
9.1.2. Asma – 186
10. ARTRITE, OSTEOARTROSE, OSTEOPOROSE, FEBRE, PROCESSOS INFLAMATÓRIOS AGUDOS E ENXAQUECA – 189
10.1. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM ARTRITES, OSTEOARTROSE E OSTEOPOROSE – 190

10.1.1. Artrites e osteoartrose – 190


10.1.2. Osteoporose – 192
10.2. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM FEBRE E PROCESSOS INFLAMATÓRIOS AGUDOS – 194
10.3. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM ENXAQUECA – 198
10.4. CUIDADOS NUTRICIONAIS PARA PACIENTES COM DEPRESSÃO – 201

Página 10


11. MONODIETAS – 203
12. ALIMENTAÇÃO NAS FASES DA VIDA – 207
12.1. GRAVIDEZ E LACTAÇÃO – 208
12.2. PRIMEIRA INFÂNCIA – 212
12.3. VELHICE – 222
ANEXOS – 229
ANEXO 1 - 230
ANEXO 2 – 237
ANEXO 3 - 239
ANEXO 4 - 240
ANEXO 5 – 241
ANEXO 6 - 242
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA - 243
Página 11
PREFÁCIO
Aquele que compreende bem a Nutrição compreende o início da cura.
Rudolf Steiner
A dietoterapia científica, uma especialidade dos nutricionistas, é explorada por muitos autores e tem como base uma visão calórico-quantitativa da Nutrição. Inspirada na Medicina moderna científica, esta especialidade m seu foco nas restrições ou acréscimo de nutrientes e cálculos energéticos individuais.
Este livro tem como objetivo central compilar dietas e recomendações alimentares para algumas das doenças mais freqüentes, usando outra abordagem, de base qualitativa, com foco nas recentes pesquisas sobre alimentos funcionais e na Nutracêutica e Trofoterapia, disciplinas que estudam o poder terapêutico dos alimentos.
A Nutracêutica pode ser considerada como uma nova disciplina científica, mas não há consenso do seu uso pela comunidade científica em geral. Ela resulta na combinação dos termos “nutrição” e “farmacêutica” e estuda os compostos bioativos distribuídos nos alimentos em geral e seus benefícios à promoção da saúde e o tratamento de doenças. O termo foi cunhado por Stephsn DeFelice (1996) em 1989.
A Trofoterapia entende a Nutrição como uma possibilidade de prevenção e tratamento de doenças e vem: da junção das palavras “trophe” (do original grego nutrição) e “terapia”.
Página 12
Muitas das outras recomendações aqui apresentas surgiram no contexto das terapias nutricionais vinculadas às Medicinas Complementar e Tradicional.
A Organização Mundial da Saúde fala pela primeira vez sobre Medicina Complementar e Tradicional em 1962, utilizando o termo Medicina Alternativa. Em 1978, a OMS recomenda aos seus estados-membros o uso integrado destas práticas pelos Sistemas Nacionais de Saúde, em conjunto com as técnicas da medicina ocidental moderna. O discurso da OMS avançou muito de 1962 a 2002, quando foi lançada a Estratégia sobre Medicina Tradicional para 2002-2005. O termo Medicina Complementar Alternativa (MCA) é utilizado nesse documento e foi definido como “um conjunto de práticas sanitárias que não fazem parte da tradição do país, ou não estão integradas em seu sistema sanitário prevalecente”. A MCA difere do conceito de Medicina Tradicional (MT), que foi definido pela OMS (2002) como sendo “práticas, enfoques, conhecimentos ou crenças sanitárias diversas que incorporam fitoterapia, técnicas manuais, técnicas espirituais e exercícios, de forma individual ou em combinação, para manter o bem-estar, além de tratar, diagnosticar e prevenir as enfermidades”. Segundo dados da OMS (2002), cerca de 80% dos países do Hemisfério Sul se utilizam de alguma forma de Medicina Tradicional e Complementar como parte dos cuidados básicos de saúde. No Brasil, a discussão sobre medicina natural e terapias complementares cresceu a partir de 1986, quando a oitava Conferência Nacional de Saúde referiu a sua importância para alcançar um sistema de saúde mais universal e preventivo. Destaca-se, também, a décima Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1992, que apontou no seu relatório final o estímulo à pesquisa nas áreas da MCA e MT e a incorporação destas no
Página 13
atendimento público como forma de garantir a universalidade de acesso e a atenção integral, princípios básicos do Sistema Único de Saúde (SUS). Nos últimos anos, é cada vez maior o número de serviços públicos de saúde que utilizam os recursos de outras formas da medicina e de terapias complementares - entre elas a Acupuntura, a Homeopatia, as Medicinas Antroposófica e Ayurvédica, a Fitoterapia, os exercícios terapêuticos e as técnicas de massagens - como forma de ampliação do espectro terapêutico e das ações de promoção da saúde (Silva; Coury, 2004).
Alguns dos alimentos especialmente indicados neste livro são atualmente objeto de estudo da Nutrição científica - os alimentos funcionais. O Comitê de Alimentos e Nutrição do Institute of Medicine (IOM/FNB, 1994) definiu alimentos funcionais como qualquer alimento ou ingrediente que possa proporcionar um beneficio à saúde, além dos nutrientes tradicionais (proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais) que ele contém.
Outras indicações têm base nos estudos da Fitoterapia, cujo interesse central é o uso das plantas, usadas em formas de chás, ervas condimentares e aromáticas e fitofármacos. Entretanto, dentre os estudos da Fitoterapia algumas pesquisas científicas com plantas comestíveis já foram encontradas em bibliografia especializada. Um terceiro grupo de indicações não têm base científica, elas foram compiladas em publicações que exploram os temas da “cura através da alimentação”, “o poder terapêutico dos alimentos” ou “a medicina doméstica” (1).
Início da Nota de rodapé
(1) Entre alguns autores que abordam tal tema ressalto Balbach (1980), Rottman (1998), Randal (1993), Vesdanto et al (1998), Panizza (1998) Salgado (2001), Sturmer (2002), Ferro (2006) e Schneider (2006).
Final da nota de rodapé
Página 14
A maioria desses livros foi ignorada pela Nutrição moderna e seu conteúdo foi disseminado por médicos ou “terapeutas naturistas” em seus consultórios particulares. Mais recentemente sua eficácia tem sido comprovada em hospitais e clínicas ao redor de todo o mundo e, em algumas delas, eu tive a oportunidade de estagiar (2). Li atentamente essas publicações, fiz leituras comparativas entre as recomendações e tenho indicado os alimentos a meus pacientes ao longo da minha atuação como nutricionista clínica, com resultados surpreendentes. Várias referências de qualidade alimentar aqui presentes remetem a meu livro anterior, sobre alimentos orgânicos.
Apesar da minha formação como nutricionista especializada em Medicina Antroposófica, ressalto que não é objetivo do livro explorar com profundidade o sistema médico desenvolvido a partir dos preceitos da Antroposofia de Rudolf Steiner (1861-1925). Entretanto, seu conhecimento embasa muitas das prescrições alimentares apresentadas e por isso optei por expor alguns conceitos na parte teórica.
As prescrições de uso de chás medicinais, estimulado nas orientações dietéticas do livro, não substituem a abordagem mais aprofundada e individualizada de um especialista em Fitoterapia. Ressalto que estes chás são medicamentos e não devem ser utilizados em altas dosagens, por tempo indiscriminado ou misturados aleatoriamente.
Início da Nota de rodapé
(2) Clínica de Medicina Antroposófica Lukas Klinik, na Suíça, Paracelsus Krankehaus e Filder Klinik na Alemanha e as clinicas que utilizam as terapias complementares, como o Sanatorium Dr. Felbermayer, na Austria e Bircher-Benner Klinic na Suíça. No Brasil também existem algumas clínicas de internação e SPAs como a Lapinha Clínica e SPA Naturista e o Hospital Oásis Paranaense, no Paraná, a Associação Retiro de Recuperação da Saúde, o SPA Naturalis e a Clínica Artemisia, em São Paulo e as clínicas-dia de orientação antroposófica como a Tobias em São Paulo e a Vialis em Santa Catarina.
Final da nota de rodapé
Página 15
Nas recomendações serão mencionados alimentos para enfermidades específicas, mas muitos deles têm ação sobre mais de um órgão ou sistema. Apesar de parecer uma abordagem que enfatiza a relação causa e efeito, não desconsidero que o corpo humano é feito de sistemas solidários e complementares.
O livro não tem a pretensão de explorar todas as doenças e disfunções, mas busquei inserir as patologias mais comuns, possíveis de se tratar no âmbito do consultório. Também ressalto que o diagnóstico preciso de um médico não deve ser subestimado em nenhum tratamento de saúde e que as orientações apresentadas não substituem a necessidade de um acompanhamento por parte deste profissional. Imagino que o enfoque nutricional aqui apresentado vai repercutir melhor na abordagem terapêutica da Homeopatia, da Medicina Antroposófica, da Naturologia (3) e das Medicinas Complementar e Tradicional, pois estes sistemas de cura não têm o medicamento e a doença como o foco do tratamento, e sim, utilizam as terapias complementares e tratam o doente como um ser absolutamente individual, independentemente de sua patologia.
Início da Nota de rodapé
(3) O curso de Naturologia Aplicada forma profissionais da saúde que utilizam as práticas naturais - aromaterapia, fitoterapia, arteterapia, hidroterapia massoterapia, geoterapia, cromoterapia, reflexoterapia, florais, trofoterapia entre outras - no tratamento e prevenção de doenças como base nas Medicinas Tradicional e Complementar. O Curso oferece também uma abordagem de promoção de saúde através das noções de ecologia e cuidados com o meio ambiente, do conhecimento de técnicas corporais, de noções de educação nutricional e alimentar com base nos alimentos integrais orgânicos e do desenvolvimento da auto-percepção e do controle do estresse e das emoções.
Final da nota de rodapé
Página 16
Para finalizar, gostaria de dizer que espero que algumas das recomendações dietoterápicas aqui compiladas ainda desprovidas de pesquisas de caráter cientifico não sejam ignoradas ou desqualificadas. Meu grande desejo é que tais incertezas possam instigar os pesquisadores em Nutrição a desenvolver estudos comprobatórios da eficácia do poder dos alimentos de curar e prevenir doenças e de promover a saúde humana, poder esse que todos nós desejamos ver reconhecido e divulgado.
A autora
Florianópolis 2007
Página 17
1 - A ABORDAGEM QUALITATIVA E SISTÊMICA DA DIETOTERAPIA
Página 18
1. A ABORDAGEM QUALITATIVA E SISTÊMICA DA DIETOTERAPIA
A abordagem analítica da dietoterapia moderna tem uma base calórico-quantitativa, com foco no equilíbrio e na ação restritiva ou aumentada dos nutrientes. Estes conceitos repercutem na Medicina moderna de base biológica (4), que prioriza a eliminação dos sintomas. Uma visão analítica indica, por exemplo, que a dieta para febre, disfunção que submete o corpo a um catabolismo protéico, deve ser líquida e hiperprotéica para repor a água e as perdas de aminoácidos pela urina; no caso da osteoporose a dieta deve ser rica em alimentos fontes de cálcio, como o leite (oferecido, de preferência desnatado para diminuir a oferta de ácidos graxos saturados).
Já na abordagem sistêmica, a dietoterapia tem uma ação com base qualitativa, focando a origem dos alimentos e o seu poder terapêutico. Tal abordagem faz parte do contexto da dietoterapia das formas de Medicina Tradicional e Complementar, que prevê uma ação transformadora e profunda de toda a dieta, reconhecendo a origem dos alimentos como essencial na terapêutica, além de estimular a promoção da saúde e não somente a cura da doença e a eliminação dos sintomas.
Início da Nota de rodapé
(4) A visão biológica, surgida no final do século 19, representou a fundação da chamada Medicina Científica. Ela teve como principais protagonistas Ehrlich, Koch e Pasteur, que atribuíram aos microorganismos e ao meio a causa das doenças. A teoria do germe oficializou a então crescente visão biológica da doença e os microscópios foram as primeiras armas do complexo industrial-médico desenvolvido para o diagnóstico e reconhecimento de doenças. A microbiologia de Pasteur (1822-1895) incentivou o desenvolvimento das drogas que agiam nos agentes considerados patogênicos e apoiou a visão intervencionista sobre o meio ambiente. Suas descobertas serviram de base ao atual complexo médico-microbiológico-industrial-alimentar e à visão fortemente intervencionista do meio ambiente (Rosen, 1994).
Fim da nota de rodapé
Página 19
Assim, a partir de uma visão sistêmica, a dieta indicada para febre e doenças inflamatórias é hipoproteica - pois isso facilita o processo natural de eliminação de proteínas que ocorre nessas disfunções, e também rica em alimentos que estimulam a diurese e a eliminação de toxinas. Na osteoporose, a visão sistêmica considera que a dieta moderna, hiperprotéica e rica em alimentos refinados e acidificantes do meio interno, cálcio dos ossos; portanto propõe uma dieta hipoproteica e rica em alimentos alcalinizantes do meio interno, de origem integral orgânica (5), equilibrados no conteúdo de minerais em geral e isenta de contaminantes sintéticos tóxicos que também interferem na absorção de cálcio.
Ampliando-se ainda tal abordagem sistêmica, ressalta-se que ela também leva em conta os conceitos de saúde social e ambiental (6), aspectos que estão por trás do sistema agroalimentar.
Início da Nota de rodapé
(5) O alimento integral orgânico é isento de resíduos de agrotóxicos, adubos químicos sintéticos e de sementes transgênicas; se o alimento for de origem animal, a criação não pode receber hormônios, antibióticos e drogas veterinárias e, quando industrializado, o alimento não passa por processos de refinamento (ou processos de retirada de nutrientes como no caso do leite desnatado ou da carne light), irradiação e não contém aditivos químicos sintéticos.
(6) A Organização Mundial da Saúde define saúde ambiental como “a parte da saúde pública que se ocupa das formas de vida, das substâncias e das condições em torno do homem que podem exercer alguma influência sobre a sua saúde e bem-estar” (World Health Organization, 1999). O conceito de saúde social considera as condições sociais do indivíduo como determinantes da sua saúde e indica uma outra dimensão da doença, não como natureza pura, mas influenciada pela atividade social e pelo ambiente cultural que tal atividade cria (Rosen,1994). Azevedo (2004) relacionou estes conceitos com a produção de alimentos com base na agricultura familiar orgânica.
Final da nota de rodapé
Página 20

Acentuar a dicotomia entre essas duas visões não significa desqualificar o estudo analítico dos nutrientes, pois é inegável o quanto ele foi capaz de ampliar a visão sistêmica e torná-la atual e cada vez menos contestável. As pesquisas e o interesse recente pelos alimentos funcionais desenvolvidos dentro da ciência da Nutrição começam a construir uma ponte entre estas duas abordagens quando procuram compreender quais princípios ativos estão por trás dos alimentos que têm ação terapêutica, os chamados alimentos nutracêuticos. Assim, por exemplo, hoje, a ciência pode explicar, através da análise dos princípios ativos e funcionais, a ação hipocolesterolêmica e hipoglicemiante da alcachofra, antiplaquetária e hipolipêmica do alho e anticancerígena do brócolis. Tais ações não são compreendidas dentro do enfoque calórico, pois tanto os micronutrientes quanto os fitoquímicos não produzem calorias e são essenciais para manter a saúde. A partir desses estudos, a abordagem qualitativa ganha espaço na ciência da Nutrição e a visão de que nosso corpo é uma máquina que, para funcionar, precisa de energia proveniente da combustão dos macronutrientes, começa a ser questionada.


Por outro lado, outras formas de relacionar os alimentos com a saúde são hoje consideradas e explicadas à luz da ciência. A observação da natureza e das plantas embasou muitas formas de Medicina Tradicional que relacionavam, de diversas maneiras, a planta medicinal à doença que ela cura. Assim, o sabor amargo de algumas plantas era relacionado à formação da bile - plantas amargas estimulando a função hepatobiliar; ou ainda, formas de plantas que lembram determinados órgãos - plantas em forma de coração para tratar doenças cardíacas; ou a função das plantas e processos de desequilíbrio - o salgueiro é uma
Página 21
planta com intensa relação com a água e a umidade e seu uso era relacionado à cura de processos de “água desequilibrados” no organismo, como no caso do excesso de secreções provenientes de inflamações. O eucalipto, que nasce em lugares secos, poderia também ajudar a controlar tais processos. A vinca, planta que forma tumores de crescimento ilimitado, era utilizada para tratar o câncer, arroz, que tem íntima relação com á água, estimularia a diurese, e as raízes, que proporcionam suporte à planta e têm uma forma muito definida, eram oferecidas para pacientes com problemas de deformações das articulações.
A Fitoterapia e a Nutrição modernas reconhecem os princípios ativos das plantas e a sua ação no organismo e explicam através de estudos científicos as relações que se estabeleceram na tradição. Hoje se sabe que as ervas amargas, como a carqueja (Baccharis trimera), têm ação estimulante do fígado; a planta digitalis (Digitalis purpureas) possuiu a digoxina, um princípio ativo cardiogenético; no salgueiro (Salix alba) existe a salicina que tem uma ação antiinflamatória e antipirética; o eucalipto (Eucalyptus globulus) tem o eucaliptol que atua como expectorante e anti-séptico das vias respiratórias e a vinca (Catharanthus rosea) tem vimbiastina e vincristina, alcalóides inibidores do crescimento de células tumorais (Costa, 1997; Simões et al, 2000; Chevalier, 2005). Também se descobriu que o arroz atua na eliminação dos líquidos porque é um cereal com baixo teor de sódio e rico em micronutrientes, importantes para a regulação ácido-básica dos pacientes com doenças acidificantes do meio interno, como a artrite e a gota que, a longo prazo, causam deformações nas articulações.
Hoje, o modo como se explica a ação terapêutica é outro, mas não é mais possível desconsiderar o conhecimento tradicional adquirido através da observação da natureza e do empirismo.

Página 22


Algumas orientações alimentares aqui apresentadas são opostas àquelas indicadas na dietoterapia científica porque o seu papel e o enfoque das terapias nutricionais mudam de acordo com o tipo de tratamento nos quais estão inseridos. Na Medicina de base biológica, cujo foco é a doença e o medicamento de ação alopática, a dietoterapia tem um papel secundário no tratamento - por exemplo, no tratamento da gastrite, a dieta não é priorizada, mas sim os medicamentos que inibem a produção excessiva de ácido, no estômago.
Na terapêutica baseada nas Medicinas Tradicional e Complementar, que tem um olhar atento sobre o indivíduo doente e sua saúde e foca não somente a doença, mas também todos os aspectos que a envolvem, as dietas representam um papel central e muitas vezes definidor do curso do tratamento. No caso da gastrite, uma dieta isenta de alimentos que estimulem a produção de ácido clorídrico e rica em alimentos com ação cicatrizante da mucosa gástrica pode substituir a ação do medicamento alopático. Dentro de tal concepção terapêutica que, nesse caso ilustrativo deve também levar em conta os aspectos psico emocionais que levam o paciente a produzir excesso de ácido clorídrico, a dietoterapia deixa de ser uma terapia complementar para se constituir na base do tratamento.


  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal