EducaçÃo profissional: da década de 30 À concertaçÃo social da cut



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A IDEOLOGIA DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL: DAS LUTAS SOCIAIS NOS ANOS 30 À CONCERTAÇÃO DE CLASSE DA CUT NOS ANOS 90
BATISTA, Eraldo Leme

Unicamp
Neste texto analiso a constituição do IDORT1 (Instituto de Organização Racional do Trabalho) no Brasil na década de 30, e também como esta organização torna-se referencia na divulgação e propaganda das idéias tayloristas no Brasil. Observo também a proposta deste Instituto para a constituição de uma sociedade “harmoniosa”, sem “conflitos”, da “paz social” e o projeto para viabilização da sociedade industrial. Apontarei também a importância das idéias de Taylor, presentes nos discursos dos principais elaboradores do IDORT, Roberto Simonsen, Roberto Mange e Armando Salles de Oliveira, constantemente divulgados na revista do referido Instituto.

Analiso o processo de fundação do IDORT (Instituto de Organização e Racionalização do Trabalho), e os objetivos propostos para esta instituição, pois entendo que com a criação deste Instituto, tornam-se mais explícitos os conceitos referentes à educação para o trabalho, educação profissional, sendo que o principal meio utilizado para divulgar a ideologia do pensamento empresarial no período era a revista IDORT, que deixava clara a sua ideologia, atribuindo à educação um papel fundamental para educar o trabalhador, para discipliná-lo. A proposta de sociedade saudável, passava pelo consentimento de classe e também pela disciplina do operariado que deveria ser educado e preparado para o trabalho, conforme os dizeres da revista IDORT “Ordem, ordem, ordem! Disciplina, disciplina, disciplina! Educação, educação, educação! (...) É preciso educar o empregador. É preciso educar e disciplinar o operário. É preciso organizar a empresa” (REVISTA IDORT, 1938).

Após a análise de algumas concepções do IDORT, apontarei algumas proximidades nos discursos e conceitos ideológicos, adotados pela CUT nos anos 90, buscando verificar as principais mudanças desta central sindical e tecer comparações entre estas duas grandes referencias políticas no Brasil, uma na década de 30 e 40 e outra na década de 90, apontando a permanência dos ideários liberais e a sua capacidade de envolver organizações sociais, outrora, tidas como de esquerda.

Estaria a CUT dos anos noventa reproduzindo conceitos e ideologia da classe dominante, já formuladas em outro período histórico, político e econômico do Brasil e que em novas roupagens demonstra ser novo e progressista? Estaria a CUT, aceitando, admitindo e compactuando com a ideologia da classe dominante no país, ao aceitar as orientações da mesma?

A partir da década de 30, muitos empresários tornam-se adeptos das idéias tayloristas no Brasil, e é buscando implementar o taylorismo nas empresas que se organizam e fundam o IDORT em 23 de Julho de 1931, em reunião realizada na sede da Associação Comercial de São Paulo. Cunha (2005), nos informa que esta entidade desempenhou um papel importante sobre o ensino profissional paulista e também no país. O IDORT, foi criado em 1931, porém as idéias tayloristas no Brasil, já eram defundidas e defendidas por engenheiros e industriais, no inicio do século XX.

Weinstein (2000), entende que a criação do IDORT, foi resultado do acelerado crescimento e aceitação das idéias de racionalização. Conforme compreensão desta autora:
A fundação do IDORT em 1931 foi apenas um dos muitos sinais do crescente entusiasmo pela racionalização entre os líderes da classe industrial. Mais uma vez, Roberto Simonsen tentou estabelecer um programa para a indústria, esboçando sua estratégia num discurso pronunciado no Instituto Mackenzie (...) Simonsen aproveitou a ocasião para analisar os problemas que dificultaram o desenvolvimento industrial brasileiro na década anterior. A solução que ele propôs para esses problemas, como era de se esperar, foi à organização racional da produção (WEINSTEIN, 2000, p. 87).
Ao analisar o discurso burguês no interior do IDORT, a partir das pesquisas realizadas por diversos estudiosos e pesquisadores (CUNHA, 2005; PICHELLI, 1997; MANFREDI, 2003; KUENZER, 2002; WEINSTEIN, 2000; MORAES, 2003) constato que o mesmo já estava na década de 30, pautado “(...) no controle do operariado, na eliminação dos conflitos e no progresso industrial, procurava apresentar-se como única possibilidade de progresso da nação brasileira” (PICHELLI, 1997, P. 18).

Ao mesmo tempo que a burguesia fazia um discurso de conciliação de classe, colaboração, disciplina, todos unidos em prol do progresso do país, “ (...) que os patrões e os operários se unam na defesa dos interesses mútuos”, pois se os trabalhadores fossem parceiros no projeto burguês, só teria e “ (...) iria ganhar com o desenvolvimento industrial”, “teria sua parcela de riqueza”, buscava formas para conter as organizações de trabalhadores com ideologias comunistas, socialistas e anarquistas, sendo que as mesmas deveriam ser neutralizadas, pois estavam questionando, atrapalhando o projeto burguês (PICHELLI, 1997, p. 18).

Concordo com a análise deste pesquisador que nos aponta o discurso ideológico do IDORT que conclama os trabalhadores para uma sociedade harmônica, sem conflitos, de colaboração, e que a partir do diálogo se resolveriam os conflitos, mas que na verdade um dos principais objetivos era desqualificar o discurso formulado pelas lideranças operárias “rearticulando o espaço fabril, educar o operariado segundo os princípios da ética do trabalho e desse modo, consolidar o projeto hegemônico da burguesia industrial” (PICHELLI, 1997, p. 77).

Os ideólogos do IDORT2 entendiam que este Instituto tinha um papel importante a cumprir, pois deveria incluir em seus objetivos “(...) a pesquisa e o intercâmbio de idéias, a aplicação de métodos científicos e a transformação dos inimigos de classe em colaboração para ‘prosperidade geral’” (WEISTEIN, 2000, p. 89).

Outra pesquisadora (ANTONACI, 1985), ao analisar o discurso ideológico do IDORT, constata que um dos objetivos dos industriais ligados a este Instituto, era de “reestruturar o espaço fabril para conter a organização da classe trabalhadora”. Esta pesquisadora nos informa ainda que “os ideólogos do IDORT, queriam exercer um maior controle sobre os operários, submetendo-os a técnicos especializados, e também eliminar muitas funções pela simplificação do processo de trabalho” (ANTONACI, 1985, p. 96-97).

Roberto Simonsen, por exemplo, engenheiro e empresário foi um defensor da racionalização do trabalho3 nas industrias brasileiras a partir das idéias de Taylor. Em 1918, em reunião com empresários e trabalhadores, proferiu um discurso entusiasmado sobre a racionalização do trabalho. Para Simonsen:


A prosperidade do Brasil no pós-guerra, com ênfase em novos métodos de produção, mais científicos e eficientes, que acarretariam a elevação tanto dos lucros quanto do padrão de vida, por meio da redução dos custos. (...) a redução dos custos de produção não se faria à custa de seus salários, mas antes por meio de uma ‘máxima eficiência do trabalho’, que seria obtida com uma ‘perfeita organização na qual, por disposições inteligentemente adotadas, as perdas de tempo e os esforços não-produtivos sejam reduzidos ao mínimo’. (...) os verdadeiros princípios de cooperação cordial entre patrões e operários iriam predominar, em função dessa ‘perfeita organização’ (CUNHA, 2005, p. 31).
Simonsen, Mange e outros industriais entendiam que o Estado tinha um papel fundamental na divulgação da ideologia de “cooperação de classe”, buscando a constituição de uma sociedade “harmoniosa” entre capital e trabalho, sem conflitos de classe. Estes industriais defensores da organização racional do trabalho definiam ainda o Estado como “um mecanismo potencialmente útil para disciplinar os membros da própria classe” (WEINSTEIN, 2000, p.71).

Ou seja, não bastava disciplinar apenas os trabalhadores no espaço fabril, mas era urgente que o Estado colaborasse para a disciplina de setores industriais que ainda tinham certa resistência as idéias de organização racional do trabalho.

Em 1930 sobe ao poder Getulio Vargas, ocorrendo um processo de transição que nada tinha de “revolucionário”, pois foi um processo de rearranjo do bloco de poder, porém sem mudar as estruturas de poder, a velha estrutura latifundiária do país. Conforme entende Antunes (1980), este processo deu-se “pelo alto”, e não tendo participação da classe trabalhadora que foi excluída de qualquer participação, pois ficou nítida a conciliação estabelecida entre as frações dominantes.

Este processo foi importante para o inicio do capitalismo industrial no país, porém sem ruptura, sem conflitos, mas a partir de “conciliação entre o velho e o novo, entre vários segmentos representantes dos interesses agrários e mesmo dos setores urbanos emergentes” (ANTUNES, 1980, p. 67). Foi um processo em que ocorreu conciliação de classe, porém torna-se importante ressaltar que o mesmo não se deu de forma tranqüila, pois ocorreram fissuras no interior da classe dominante, nas disputas “pelo maior controle do aparelho do Estado buscando uma participação mais decisiva na nova configuração do poder” (ANTUNES, 1980, p. 69).

Antunes (1980) observa ainda que após a “ascensão” de Vargas ao poder, o Estado passa a implementar política sindical com o objetivo principal de “controlar” e “desmobilizar” os operários. Conforme Antunes;
O Estado iniciou a formulação de uma política sindical, cujo aspecto essencial era o seu caráter controlador e desmobilizador, condição esta necessária não só para que o movimento operário não ultrapassasse os limites impostos pela nova ordem política, mas também para que se assegurassem as condições mínimas garantidoras da instauração de uma nova ordem econômica dirigida para a industrialização (ANTUNES, 1980, p. 74).
Os empresários defensores das idéias de organização e racionalização do trabalho, verão suas idéias sobre “paz social”, “cooperação de classe”, sociedade “harmoniosa” defendidas por Vargas, como nos informa Vianna (1987), “A ‘paz social’ era procurada através de concessões e benefícios concretos, a que não era insensível à massa dos assalariados”. Além de relacionar a importância da cooperação do proletariado com o Estado, Vargas faz critica as lideranças estrangeiras como sendo perturbadores da ordem e que não tinham sentimentos de amor a pátria. Veremos ainda neste texto que a perseguição as lideranças estrangeiras foi intensa, ocorrendo muitas prisões de deportações para os seus países de origem.

Até 1930, as mobilizações, greves e protestos contra jornada de trabalho, condições de trabalho e exploração eram constantes. Com Vargas, ao mesmo tempo em que se reprimia duramente os movimentos organizados pelos trabalhadores, liderados pelos anarquistas e comunistas, buscava criar políticas que visassem cooptar os trabalhadores, intensificando também o discurso ideológico de uma sociedade harmônica, sem classes, e que todos estavam do mesmo lado, não existindo patrões e operários, mas empregados e empregadores (GIANOTTI, 2007, p. 131).

Este autor nos informa ainda que a proposta de um novo sindicalismo defendida por Vargas, significava que os mesmos “deveriam defender a conciliação de classes e zelar pela harmonia de interesses entre capital e trabalho. As idéias-chave passarão a ser ‘colaboração de classe’ e ‘paz social’. Não haveria mais lutas. O Estado seria o pai de todos” (GIANOTTI, 2007, 131).

Gianotti (2007) observa que os empresários buscavam diversos métodos para controlar a classe trabalhadora, cooptando, reprimindo e explorando trabalhadores estrangeiros, mas assim como os autores já citados acima, Gianotti, constata também, que com Vargas, o projeto burguês de controlar os trabalhadores, ganha força e sustentação do Estado. “(...) Ao mesmo tempo, queriam controlar o movimento operário, através da repressão e da cooptação. Defendiam que a classe trabalhadora poderia participar do desenvolvimento da nação, mas sempre, evidentemente, de maneira controlada” (GIANOTTI, 2007, p. 91).

Diversos pesquisadores apontam o discurso ideológico da classe dominante como mecanismo para se construir uma sociedade harmônica, sem conflitos e com colaboração de classe.

Entendemos que o discurso ideológico dos industriais ganha força na década de 304, se em alguns momentos se utilizava a força, a violência5 para reprimir greves e protestos dos trabalhadores, por outro lado, alteram-se as estratégias empresariais no sentido de cooptar os trabalhadores para suas teses.

Entendo, assim como (WEINSTEIN, 2000, p.75), que a defesa entusiasmada pela “paz social”, era uma questão ideológica, pois os industriais entendiam que a proposta de organização racional do trabalho, somente teria êxito se houvesse cooperação e contribuição dos trabalhadores com as idéias dos industriais. No entanto, os trabalhadores não demonstravam simpatia pelas idéias “inovadoras” de organização racional do trabalho.

Segundo Weinstein (2000), a questão da “ordem social”, não era;

Um aspecto de pouca importância para os industriais adeptos da racionalização, uma vez que eles consideravam a paz social tanto um pré-requisito quanto uma conseqüência da implantação de seu projeto. A necessidade de harmonia entre as classes tornava inevitáveis determinadas concessões, mesmo as de natureza ‘não cientifica’(WEINSTEIN, 2000, p. 75).

Os principais defensores da organização científica da sociedade tinham muito claro os seus objetivos e além da questão ideológica, também deixavam claro a questão política, a questão de classe. Simonsen, em sua defesa apaixonada pela racionalização do trabalho, demonstra claramente a questão ideológica com relação as idéias marxistas. Este industrial defendia:

(...) uma era de harmonia social decorrente da reorganização científica da sociedade. Depois de inspirar uma política de trabalho avançada, a racionalização iria evoluir para um ‘sistema político’ baseado na ‘razão e no conhecimento técnico’. Em seguida Simonsen dissertou sobre ‘um verdadeiro equilíbrio entre os elementos que constituem as forças vivas da produção. A racionalização tem profundos efeitos sociais e contraria de forma patente as idéias fundamentais do marxismo. (...) a aceitação do controle operário na solução de problemas econômicos, tudo isso contribui para neutralizar a luta de classes prevista por Karl Marx (WEINSTEIN, 2000, p. 88).

Ou seja, os principais defensores da organização científica do trabalho deixavam evidentes suas propostas para organização não somente para a indústria, mas sim para a sociedade como um todo e que suas idéias eram fundamentas para neutralizar a luta de classes. Em período histórico de organização da classe trabalhadora via movimentos anarquista, socialista e também comunista que fundam PCB em 1922, a burguesia estava alarmada com a capacidade de organização, mobilização e enfrentamento da classe trabalhadora, neste sentido é que buscam diversas alternativas para barrar este movimento, via leis de expulsão do país, repressão, cooptação e também educação profissional, com o objetivo de adestrar, orientar, disciplinar os trabalhadores.

O discurso empresarial de cooperação de classe, além de ser questão ideológica de cooptação, envolvimento, na prática mostrava-se contraditório, pois além da exploração imposta a classe trabalhadora, o controle6 no espaço de trabalho era cada vez mais rígido, e se não bastasse isso, os empresários passaram a criar métodos7 de controlar a vida dos operários fora das fábricas. Para viabilizar este controle extra fabril, criaram as “vilas-cidadelas”, que eram um “conjunto de moradias e agrupamentos coletivos edificados pelas próprias fábricas para seus operários” (ROLNIK, 1994, p. 100). Ao analisar a situação dos trabalhadores no inicio do século no Brasil, esta autora nos informa ainda que a cidadela;

(...) é um bairro completo: casas, escola, creche, armazém, praça, campo de futebol, igreja, gerido pelo proprietário da indústria para seus operários. Nela, o tempo fora da fábrica também está sujeito às normas que imperam durante a jornada de trabalho. Quem mora na vila-cidadela deve ter um comportamento ‘em casa’ e ‘na rua’ tão disciplinado e organizado quanto o comportamento ‘na fábrica’. Isto é garantido por uma série de controles presentes nas cidadelas: obrigatoriedade de freqüentar a igreja, toque de recolher à noite, bailes vigiados. Além destes, evidentes, a própria identificação patrão/senhorio já significa maior controle sobre o trabalhador: a cessão da casa era apresentada como um privilégio para o operário, alcançado por este graças a um comportamento exemplar na produção, ou seja, regularidade, produtividade, dedicação e, sobretudo, submissão. Muitas vezes tinham o direito de morar na vila da fábrica as famílias que possuíssem mais do que três membros trabalhando naquela indústria, o que estimulava a própria família a manter a autovigilância, já que comportamentos irregulares de qualquer um dos seus membros morador-trabalhadores implicavam a perda da casa. Todas estas formas de controle nada mais fazem do que estabelecer uma vida coletiva heterônoma: o bairro popular dominado pela fábrica (ROLNIK, 1994, P. 100-101, grifos meus).

Ou seja, buscavam-se diversas formas para controlar o trabalhador, sendo que além das vilas-cidadela, muitos industriais criaram também a “vila higiênica”, que segundo Rolnik (1994), se diferenciava também do cortiço;

A vila, padrão popular proposto na legislação se diferencia do cortiço por conter, no interior de cada unidade, as áreas de cozinhar, lavar, banhar e defecar. As unidades, ainda geminadas e dando para pátio ou corredor comum, possui mais de um cômodo. A vila tem, portanto, mais separações do que o cortiço. Além disto, as atividades que mais são coletivas e misturadas no cortiço passam a ocorrer nos fundos de cada casa, longe da vista dos vizinhos (ROLNIK, 1994, p. 100).

Esta autora observa que as intenções dos industriais em controlar os trabalhadores além fábricas, não era questão fácil, pois os becos, pátios dos bairros populares contribuíam para que as pessoas conversassem dos problemas cotidianos e neste período os anarquistas tinham forte atuação nos bairros, o que facilitava as mobilizações que rapidamente ganhavam as ruas.

Nascidos nos becos e pátios dos bairros populares se convertiam em assembléias públicas, nos salões, esquinas, praças. Sair às ruas, paralisando e modificando a ordem reinante na cidade, era a estratégia de disseminação e articulação dos setores oprimidos e explorados proposta pelos anarquistas (ROLNIK, 1994, p. 104).

Campos (1988) é outra autora que analisa muito bem o controle que procurava impor aos trabalhadores para além muros das fábricas. Segundo esta autora;

A questão do controle e disciplinarização ultrapassam o lócus fabril, invadindo a vida cotidiana, o espaço de vida privado das pessoas. Esta invasão total em todas as instâncias da vida humana visava, para além das simples adequações, estabelecer novos métodos de organização da produção, da racionalização do processo de trabalho. Tinha uma proposta que objetivava a construção de uma ética baseada na disciplina, uma estratégia de controle e de mecanismos que permitissem a transformação de idéias de uma classe em idéias dominantes da sociedade, fazendo com que certos valores e normas aparecessem dotados de universalidade. Para que este processo de introjeção se realizasse eficazmente havia que se fazer o enquadramento do indivíduo. Enquadrava-se também o tempo e o espaço do cotidiano familiar, as condutas, afetos e emoções. Mediante estas táticas, a vida privada dos indivíduos foi atrelada aos destinos de uma determinada classe social, a burguesia. O corpo, o sexo, os sentimentos conjugais, parentais e filiais passaram a ser utilizados como instrumentos de diferenciação e dominação (CAMPOS, 1988, p. 18).

Torna-se importante afirmar, assim como bem explicita Rolnik (1994), que havia resistência de movimentos organizados, ora pelos anarquistas, socialistas ou comunistas que a partir de organizações populares, buscavam a rua como forma de protestar, ou pelas condições de moradias, ou para condenar as ações truculentas do poder público.

A propaganda ideológica burguesa tinha um papel estratégico, pois ao mesmo tempo em que se reprimia movimentos contestatórios, buscava-se cooptar trabalhadores para as idéias da racionalização do trabalho, sob alegação de que com isso aumentaria a produção, beneficiando os patrões e também os trabalhadores, que teriam melhores salários.

A ideologia burguesa era clara, se observarmos o discurso dos industriais na revista do Idort, de 1932, onde se compara a sociedade com o corpo humano e este corpo humano estava fragilizado, perturbado, pois alguns membros estavam doentes (leia-se: classe trabalhadora), tornando-se uma doença para o funcionamento do organismo social, “(...) no organismo social esse absurdo é tentado de várias formas e as chamadas lutas de classe não são mais do que uma luta de órgãos que pretendem dirigir o organismo, isto é, fígados e estômagos que pretendem ser cérebros, de vez em quando” (REVISTA IDORT, 1932).

Além de considerarem a organização dos trabalhadores uma doença para a sociedade, compara os mesmos como sendo estômago de todo o corpo, deixando a entender que o cérebro é a classe dominante e que mesmo assim, sendo inferiores, estes trabalhadores ligados as idéias anarquistas, socialistas e comunistas, se achavam na condição de dirigir o organismo social, de vez em quando querendo ser cérebro.

O trabalho qualificado era compreendido neste período como meio de se manter a ordem8, evitar a desordem, mas também como “instrumento inteligente de produção industrial” e para garantir e implementar esta ideologia se dispunha de instituições educacionais como Liceus de Artes e Ofícios e os asilos desvalidos (CUNHA, 2005).

As transformações no mundo do trabalho no Brasil não se deu de forma pacifica, aceitável ou mesmo sob a submissão dos trabalhadores. O surgimento das industrias, a concentração cada vez maior de habitantes nas maiores cidades do país, crescente problemas sociais e as péssimas condições de trabalho, mais a intensa exploração da força de trabalho no espaço fabril, contribuiu para a organização dos trabalhadores que organizaram movimentos contestatórios, grevistas em diversos centros urbanos e industriais do Brasil.

Weinstein (2000), nos informa sobre as greves ocorridas no Rio e São Paulo. Para esta autora:
Os primeiros anos do século XX assistiram às primeiras grandes greves no Rio e em São Paulo. Em 1906, São Paulo foi cenário de uma prolongada greve de ferroviários, e no ano seguinte houve a primeira tentativa de greve geral. Exigindo jornada de trabalho de oito horas, os metalúrgicos abandonaram o trabalho, sendo seguidos pelos operários da construção, das fábricas de calçados, das indústrias têxteis. Nos dois casos, o governo do Estado se envolveu diretamente não para servir de mediador ou para corrigir as injustiças, mas para chamar a força pública, cujos membros mantiveram os trens em movimento, dissolveram manifestações e atacaram as sedes das associações operárias e jornais (WEINTEIN, 2000, p. 72).
Sader (1980), ao também pesquisar sobre este período histórico das lutas sociais no Brasil, nos informa que:
Muitas greves, protestos e mobilizações populares ocorrem no início do século XX no Brasil, geralmente contestando contra as condições de trabalho, de moradia, redução jornada e contra novas formas de organização do trabalho. “O período que via de 1903 até 1909 é marcado por um Ascenso de greves e mobilizações”. Em 1903, uma grande greve dos carroceiros abala a capital do país. Em 1905, ocorre uma grande greve de ferroviários paulistas e outra dos trabalhadores do porto de Santos. (...) Nesse clima realiza-se o 1° Congresso Operário (...) que será seguido por uma extensão de greves e manifestações importantes (SADER, 1980, p. 18).
Em 1917, ocorre processo rápido de fortalecimento do movimento operário. Este autor nos informa que em junho de 1917 uma grande fábrica de tecelagem decreta o prolongamento da jornada de trabalho noturno, causando indignação e revolta dos operários:
Como resposta seus operários entram em greve, exigindo aumento de salários, abolição de multas, regulamentação do trabalho da mulher e do menor, etc. Dias depois, outra tecelagem paralisa-se e, quando suas reivindicações são satisfeitas, os operários voltam ao trabalho, mas decidindo aportar ajuda material aos grevistas. Nos primeiros dias de Julho são apenas duas empresas que continuam em greve, mas quando uma intervenção da força pública resulta na morte de um jovem anarquista, provoca uma extensão inusitada do movimento. No enterro estarão cerca de 10 mil pessoas, que percorrerão as ruas de São Paulo e logo iniciarão atos de violência. Nos três dias seguintes a greve se generaliza, paralisando não somente as manufaturas, mas ainda os transportes urbanos e as ferrovias (SADER, 1980, p. 18).

Sader, nos informa que após estes movimentos em São Paulo, o movimento operário, sofreu forte repressão, levando novamente ao refluxo do movimento, no entanto no Estado do Rio de Janeiro, “uma onda de greves de têxteis e ferroviários culmina com um levante de características insurrecionais em novembro de 1918. Em 1910 o movimento operário no Rio de Janeiro, amplia sua organização e no 1° de maio deste ano, “(...) 60 mil pessoas se reúnem no Rio, expressando já a força de massa dos sindicatos anarquistas. Assustada, a burguesia desata uma intensa repressão. Tentativas de greves no Rio e em São Paulo marcarão o fim desse auge, o último marcado pela liderança anarco-sindicalista” (SADER, 1980, p. 19).

Gianotti (2007), ao analisar a organização dos trabalhadores no Brasil, década de 20, observa que as mobilizações operárias eram tratadas a base de repressão violenta. Ao relatar uma greve geral ocorrida em 1918, este autor nos informa que.
Em novembro de 1918, uma greve geral, no Rio de Janeiro, adquire caráter de insurreição. Mais de vinte mil têxteis, metalúrgicos e trabalhadores da construção civil cruzam os braços. A burguesia responde com uma violentíssima repressão. Mata trabalhadores em manifestações e expulsa as lideranças, compostas principalmente por imigrantes acusados de serem ‘agitadores’. Estes eram, em sua maioria, anarquistas que pretendiam tornar realidade o sonho da revolução social e da derrubada do poder burguês (GIANOTTI, 2007, p. 70).

Outra autora, Manfredi (2002), analisará os movimentos de contestação política e as alternativas buscada pela burguesia, para desmobilizar as mobilizações operárias do período analisado. Conforme nos informa esta autora:


Num clima de movimentos de contestação social e políticas, o ensino profissional foi visto pelas classes dirigentes como um antídoto contra o apregoamento das idéias oxóticas das lideranças anarco-sindicalistas existentes no operariado brasileiro, o que, na época era majoritariamente formado por imigrantes estrangeiros (MANFREDI, 2002, P. 82).
Neste sentido é que Pichelli (1997) nos aponta que no final da década de vinte e inicio da década de 30 ganha força no IDORT9 (Instituto de Organização Racional do Trabalho), e também no setor industrial brasileiro a idéia de que era necessário:
Recompor o operariado brasileiro com trabalhadores nacionais, pois, segundo a compreensão da burguesia na época, uma das razões para os constantes conflitos na época anterior (Republica Velha) era a forte presença de trabalhadores estrangeiros que traziam de seus países ‘ideologias estranhas’ vale dizer, o anarquismo e o comunismo (PICHELLI, 1997, p. 5).

Moraes (2003), constata em sua pesquisa referente a este período histórico que a burguesia já se articulava muitos anos antes de 30, a partir de uma “ofensiva ideológica” e da ampliação das medidas repressivas contra o movimento operário, que alcança entre 1917 e 1920 seu maior índice de mobilizações no período, é organizada logo após a greve da Light de 1919 mais um ‘movimento da Liga Nacionalista’, Liga Anti-Anarquista.

Assim como diversos outros autores já mencionados em nosso trabalho, Moraes (2003) verifica em sua pesquisa que as greves, protestos, mobilizações lideradas por trabalhadores estrangeiros, contribui para reforçar a visão negativa da burguesia com relação a estes trabalhadores, que eram vistos como “baderneiros”, “agitadores”, tinham concepções “estranhas” com relação a organização da sociedade e eram responsáveis pela desordem e anarquia social.

A classe dominante, que viam nos imigrantes a solução para substituição do trabalho escravo, neste período deixa de ser percebido como “agente civilizador” para ser colocado:


(...) Sob suspeição, portador de ‘sentimentos’ estranhos ao ‘nosso’ meio e responsável pelas ‘desordens’ e anarquia social. Ao mesmo tempo, o trabalhador nacional – o pobre livre e liberto, o ‘jeca tatu’, na expressão de Monteiro Lobato – passa a ser consensualmente considerado como o mais adequado para compor a força de trabalho do país (MORAES, 2003, p. 215).
Constatando a necessidade dos trabalhadores nacionais compor definitivamente a força de trabalho no país, como estratégia também de substituir esta força de estrangeira por trabalhadores brasileiros, tornava-se indispensável educar, instruir e preparar o trabalhador brasileiro para o mercado de trabalho. Lembramos que esta preocupação dos industriais tornam-se mais evidente, com o crescimento dos projetos de industrialização do país, principalmente após Getúlio Vargas10, assumir o poder no Brasil.

Preocupados com a presença estrangeira e influência dos mesmos sobre o trabalhador nacional, é que o Centro Industrial de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo, procura sofisticar as formas de controle de seus trabalhadores, fazendo triagem, um trabalho, “meticuloso de seleção do operariado” realizado por todas as fábricas de tecelagem ligadas a este Centro, buscando organizar uma lista de trabalhadores “indesejáveis”. Este sistema de seleção, que buscava banir do meio industrial os “agitadores” (MORAES, 2003, p. 222).

Ao realizar estudo historiográfico, verifiquei que desde o inicio do século XX, já existiam leis que legalizava a expulsão de trabalhadores estrangeiros. A primeira lei foi aprovada em 1907 e foi denominada de Lei Adolfo Gordo, em referência ao deputado autor do projeto desta lei. Gianotti (2007), nos informa que esta lei;
(...) foi tornada mais dura e passou a dar ao governo plenos poderes para expulsar, devolvendo para seus países de origem aqueles trabalhadores estrangeiros que liderassem greves. Considerados agitadores subversivos, precisavam ser devolvidos aos seus países. Em 1921, uma nova lei, mais rígida, chamada Lei Infame, foi criada para expulsar os imigrantes que o governo considerava “agitadores”. Anos depois, em 1927, um Decreto-lei, conhecido como Lei Celerada, dava amplos poderes à polícia política para invadir sindicatos, jornais, moradias e clubes que poderiam ser interditados e fechados definitivamente. Durante os anos que vão de 1904 a 1926, são feitas leis, editados decretos, apresentadas emendas, adendos e todo tipo de artifício jurídico para aprofundar as medidas repressivas. Todas elas visavam expulsar estrangeiros e fechar sindicatos (GIANOTTI, 2007, p. 101-102).
Se não bastassem todos os empecilhos na luta contra a classe dominante, o movimento sindical combativo, de classe, tinha como inimigos declarados, as lideranças e trabalhadores ligados a igreja católica, que comungava com as idéias liberais, e neste sentido orientava seus fiéis a não participarem das atividades organizadas pelos anarquistas, socialistas e comunistas. Além de não participarem, as lideranças católicas deveriam contestar as idéias de esquerda no interior do espaço fabril e na sociedade como um todo. Conforme nos informa Gianotti (2007);
Os católicos sempre representavam uma forte oposição aos anarquistas, comunistas e socialistas. Essas três tendências criticavam fortemente a maioria dos bispos e demais sacerdotes, por estarem sempre do lado dos senhores, dos patrões. A Igreja Católica era muito ligada às classes dominantes. Mas, anarquistas, socialistas e comunistas criticavam também a própria religião, considerando-a uma forma de alienação (GIANOTTI, 2007, p. 98).

Este autor nos informa ainda que no interior das fábricas, os católicos seguindo orientação da igreja, deveriam ser contra as greves organizadas e programadas pela esquerda. Estes mesmos seguidores das doutrinas da “santa” igreja católica, deveriam, “(...) Apoiar os esforços ‘sinceros’ dos governos, que buscavam ‘melhorar a vida dos trabalhadores’ (...) Nada de lutas de classes entre patrões e operários” (GIANOTTI, 2007, p. 98).

Ao contextualizar este período histórico de nosso país, observo que a luta contra a classe dominante não era tarefa fácil, tanto anarquistas, socialistas e comunistas, buscavam de todas as formas a organização, a luta sindical como forma de se contrapor a opressão, exploração que se dava no interior do espaço fabril. Verificamos as dificuldades encontradas na luta social, a violência, a repressão por parte do Estado que fazia muitas vitimas do operariado, a expulsão de centenas de lideranças estrangeiras, e também a forte campanha desencadeada para cooptar trabalhadores para as causas dos industriais, sem contar o apoio irrestrito da igreja católica e de suas lideranças ao projeto burguês de industrialização do país.

É neste contexto histórico da década de 30 que surge o IDORT, justamente para se contrapor ideologicamente com as idéias revolucionários, de esquerda e tidas como “complicadas”. O IDORT passa a ser referencia neste período no que diz respeito a divulgação das idéias liberais e passa cada vez mais a ter participação efetiva no Governo Vargas.

Se a luta da classe trabalhadora não foi fácil e se determinados setores dos trabalhadores se deram por derrotados após violenta perseguição, repressão na década de 30, principalmente sob o Estado Novo, ao realizar análise do movimento sindical nos anos 90, priorizando estudo sobre a CUT, e fazer analise comparativa é que constato que esta Central Sindical, que surge das mobilizações dos trabalhadores em período histórico, ainda sob governo militar, com o tempo vai trilhando outros caminhos que não os almejados pelos trabalhadores.

Se a CUT teve papel importante na organização e luta dos trabalhadores na década de 80, verificamos que na década de 90, passa a se utilizar cada vez mais de estratégias, discursos e ações próximas do discurso da burguesia nacional.

Aponto como possibilidade de análise, que esta central sindical cai definitivamente nos braços do Estado sob o governo Lula, deixando de lado definitivamente as concepções de classe, de organização social e passa a atuar no interior do Estado, a partir de inúmeros cargos exercidos por antigas lideranças sindicais. Ao mesmo tempo em que endeusa o Estado, fragiliza e desmobiliza a luta e organização social no país, pois esta central tinha papel importante na organização dos trabalhadores na década de 80.

Para desenvolver minha análise referente as mudanças ocorridas no interior da Central Única dos Trabalhadores, nos reportamos a pesquisadores que analisam também esta metamorfose cutista. Ao analisar a postura desta Central Sindical, principalmente na questão da educação profissional, Souza, (2006) nos sugere que o “movimento sindical brasileiro tem compartilhado com o empresariado a idéias de formação de um ‘novo trabalhador’ para atender as atuais exigências de produtividade na indústria” (SOUZA, 2006, p.299). Este mesmo autor entende ainda que as práticas desta Central Sindical está configurando, “consentimento ativo brasileiro à política liberal-democrata de formação/qualificação profissional” (SOUZA, 2006, p. 299).

Alves (2000), ao também analisar a metamorfose da CUT nos anos 90, nos sugere que de fato ocorreu uma;
(...) qualitativa na direção social–democrata do ‘novo sindicalismo’, passando de uma orientação de confronto para uma orientação propositiva. É o que indica o desenvolvimento de um tipo de ‘sindicalismo de resultados’ no interior da CUT, mais disposto ao diálogo que ao confronto com o capital. É a adoção de uma neopragmatismo sindical, com a incorporação do discurso da ‘consertação social’, que apenas representa uma estratégia política de sobrevivência de parcelas organizadas da classe diante da ofensiva do capital na produção (cujo exemplo clássico é o sindicalismo dos metalúrgicos do ABC (ALVES, 2000, p. 120).
Em meados dos anos 90 a CUT, expressa em documento referente a educação profissional, que a mesma possibilita a conquista da cidadania plena, e passa cada vez mais a ter uma ação ativa na política de formação profissional do país, via recursos do fundo de Amparo ao Trabalhador.

Neste período, a CUT já havia deixado a ideologia de classe de lado, substituindo definitivamente o discurso de classe, socialista, pela defesa de um sindicalismo cidadão, propositivo, colaborador, participativo, propondo que os trabalhadores deveriam participar dos projetos tripartites, como a “bem sucedida experiência” da câmaras setoriais.

O discurso da CUT, pouco se diferencia, por exemplo do discurso do IDORT nos anos 30, ou seja, discursos realizados pelos liberais desde os primórdios da República e mantidos até os dias atuais, porém sob novas roupagens, novas denominações, mas mantendo a essência. Neste sentido, podemos afirmar que estas ideologias mesmo em períodos históricos diferentes, são idênticas? A classe dominante se utiliza de um mesmo discurso em períodos históricos diferentes, com objetivo de adestrar e cooptar os trabalhadores? Podemos sugerir que a CUT, assimila este discurso e passa a “comungar” e divulgar teses liberais?

Neste cenário de transformações no mundo do trabalho, intensificação de diversas formas de precarização do trabalho, exploração e acumulação do capital, não estaria esta Central Sindical do Brasil – A CUT, a partir de década de 90, defendendo interesses do capital ao contribuir para o enfraquecimento da organização sindical no país? Ao conceber a educação profissional, por exemplo como garantia da inserção social, da cidadania, não estaria respaldando o projeto burguês de sociedade?

Em minha pesquisa, utilizo diversos pesquisadores (ALVES, 2000; ANTUNES, 1980, 1999; TUMOLO, 2002; SOUZA, 2006; GIANOTTI, 2007; BOITO, 1999), ao desenvolver sua análise sobre este processo de mudanças de rumos, metamorfoseação da CUT. Tumolo (2002), por exemplo, ao analisar estas mudanças na CUT, observa que;
Trata-se, portanto, de uma mudança política substancial, de um sindicalismo combativo e de confronto, de cunho classista e com uma perspectiva socialista, para uma ação sindical pautada pelo trinômio proposição/negociação/participação dentro da ordem capitalista que, gradativamente, perde o caráter classista em troca do horizonte da cidadania (TUMOLO, 2002, p. 129).
Para este mesmo autor, as orientações da CUT “podem ser caracterizadas como a transformação de um sindicalismo combativo e de confronto, de cunho classista e com uma perspectiva socialista, para uma ação sindical pautada pelo trinômio proposição/negociação/participação dentro da ordem do capital” (TUMOLO, 1998).

Outro autor que questiona a prática da CUT enquanto Central Sindical é Boito (1999), pois para este autor, esta entidade;


(...) abandonou a luta prática e a agitação de idéias contra o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro e não assumiu a luta e a denúncia sistemática contra a política neoliberal no seu conjunto. (...) O particionismo ativo passou a exigir da CUT a apresentação de propostas realistas, isto é, que fossem passíveis de serem encampadas, nos fóruns tripartites, pelos empresários e pelos governos neoliberais. O sindicalismo propositivo é, pó isso, um sindicalismo que pretende elaborar propostas que interessariam tanto aos governos neoliberais e às empresas quanto aos trabalhadores. Acredita ser possível conciliar a burguesia com os trabalhadores e os trabalhadores com o neoliberalismo (BOITO, 1999, p. 144).
Entendo que a CUT de fato, ao metamorfosear-se passa a defender os interesses que são os mesmo da classe dominante, e neste sentido trata-se de uma traição de classe, de passar a defender os interesses do capital e ao mesmo tempo enganar parcela considerável de trabalhadores com promessas de dignidade social em sociedade burguesa. Em suas reflexões, Boito (1999) nos sugere que a CUT, passa justamente a fazer o mesmo discurso que o IDORT fazia e que procurava cooptar os trabalhadores naquele período histórico, com uma grande diferença é claro, o IDORT, foi Instituição criada para este fim, e representava os interesses da elite dominante industrial naquele período. A CUT, pelo contrário, dizendo-se representando dos trabalhadores, aceita este mesmo discurso, que é justamente o discurso ideológico burguês.
Os documentos da CUT passam a ocultar a existência de interesses de classes em confronto na sociedade. É como se as dificuldades vividas pelos trabalhadores decorressem do acaso ou de uma política e equivocada. Os trabalhadores não teriam inimigos de classe, e a CUT poderia, agora, aspirar a representar a ‘sociedade’. Alguns elementos importantes da visão liberal da sociedade e da relação dessa com o Estado vão se impondo gradativamente na CUT, apesar de oscilações e contradições, na medida em que avançamos na década de 1990 (BOITO, 1999, p. 159).
Interessante observar que poucos anos antes das mudanças ocorridas nesta Central Sindical, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defendia o entendimento entre as classes (dominantes e dominadas) discurso idêntico sobre conciliação de classes já estava estampado nas páginas da revista Idort, nos anos 30, ou seja, em outra organização da burguesia, e que se mantém os mesmo discursos no início do século XX. Conforme o pensamento dos capitalistas industriais ligados ao CNI, deveria existir uma superação das divergências entre capital e trabalho, como se as mesmas pudessem se concretizar apenas pela vontade política de ambas as partes.

A partir das análises das mudanças ocorridas nesta Central Sindical, considerada classista na década de 80, na década de 90, passa a agir e defender idéias idênticas a da classe dominante, e ao analisarmos as idéias do IDORT, Instituto elaborador do pensamento empresarial na década de 30, nos permite afirmar que são idéias próximas e ao verificarmos ainda as idéias da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), constatamos que elas se complementam como ideologia liberal de conciliação de classe.

Neste sentido é que concordamos com a reflexão desenvolvida por Tumolo (2002);
no bojo da luta de classes no Brasil, o capital vem logrando acumular vitórias sobre a classe trabalhadora ou, mais especificamente, a estratégia implementada pelo capital no Brasil, balizada pela chamada reestruturação produtiva e, portanto, pelas mudanças no mundo do trabalho, vem resultando num processo de adequação da CUT à ordem capitalista (TUMOLO, 2002, p. 130).
Observo ainda, que existe uma diferença fundamental nas defesas do IDORT, do CNI e FIESP, para com a defesa da CUT nos anos 90 com relação a educação profissional e mesmo para com o conjunto de suas ações, pois estas entidades ligadas ao setor empresarial, industrial do país, representam os interesses da classe dominante, portanto não seria novidade as suas defesas ideológicas referente ao tema que analiso, pois o objetivo é claro, manutenção da exploração da força de trabalho e a busca constante de aumento da produção ou acumulação de capital. A diferença se da com relação a CUT, que assimila, consente a reproduz o discurso ideológico burguês, tornando-se dócil diante dos interesses do capital.

Entendo que a classe dominante ampliaram suas estratégias de exploração e cooptação ao mesmo tempo em que a principal Central Sindical do país retrocede em suas estratégias e ações ao reproduzir discurso ideológico mofado, que já estava colocado desde anos 20 e 30 pelos industrialistas.

Neste sentido, entendemos que a CUT, ao alterar significativamente suas estratégias, suas ações, e seu discurso ideológico aproxima-se dos interesses da classe dominante do país e contribui decisivamente para a desmobilização e enfraquecimento das lutas sociais encampados pela classe trabalhadora.
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1 Segundo Pichelli (1997) o IDORT foi criado com os seguintes objetivos “(...) constitui-se com objetivo de estudar, aplicar e difundir os métodos de organização científica do trabalho. Com isso tem o intuito de aumentar o bem-estar social, por meio do acréscimo da eficiência do trabalho humano, em todos os seus ramos, expresso no máximo proveito, quer para o individuo, quer para a coletividade (...) é uma sociedade de estudos e de ação, voltada, imediatamente, ao melhor aproveitamento de todo esforço humano empregado em qualquer das múltiplas manifestações da atividade moderna, não só na indústria, mas também, na própria ciência e no trabalho intelectual, em tudo enfim, onde a arte de fazer e de administrar tenha de se fazer sentir” (REVISTA IDORT, apud PICHELLI, 1997, p. 10-11).



2 Entendemos que a criação do IDORT, foi resultado da organização dos empresários desde década de 20, liderados por Roberto Simonsen, entusiasta e defensor da organização cientifica do trabalho. Em 1928, por exemplo, este empresário liderou a organização e criação do centro das industrias do Estado de São Paulo (CIESP). “Este passou a ser o centro ideológico e organizador dos industriais paulistas” (GIANOTTI, 2007, P. 90).


3 Lembramos que assim como Simonsen, Roberto Mange, foi grande entusiasta, defensor e divulgador da Organização Racional do Trabalho, sendo um “(...) engenheiro que se tornou industrial e outro engenheiro, que se tornou educador, representam, de formas diversas, mas inter-relacionadas, as aspirações daqueles que defendiam a racionalização como solução para uma série de problemas econômicos e sociais (WEINSTEIN, 2000, p.34).


4 Os empresários brasileiros, neste período histórico ganham forte aliado, que é o Estado no período varguista, que passa a formular “política sindical coibidora, controladora e que visou a sujeitar politicamente a classe operária à dominação do capital, através da dissolução de suas organizações independentes e, em função da resposta operária, do desenvolvimento da repressão policial, que em determinados momentos, como em 1935, foi incontrolável” (ANTUNES, 1980, p. 73).

5 Com relação ao uso da força pública (polícia), dentre os defensores da organização científica do trabalho, nenhum empresário “(...) descartava o uso da força, na teoria ou na prática, como forma de reprimir a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo em que preconizava a paz social, Simonsen e outros reconheciam que tal ‘paz’ seria conseguida, em alguns casos, pela intervenção da polícia (WEINSTEIN, 2000, p. 41).


6 Ficava cada dia mais explícito entre intelectuais, industriais e defensores da racionalização do trabalho que a “única maneira de aumentar o controle sobre o processo de trabalho era a simplificação das tarefas e a ‘des-qualificação’ da força de trabalho, que iria permitir a rápida substituição dos trabalhadores não-especializados e combativos, que recebiam altos salários, por trabalhadores não especializados” (WEINSTEIN, 2000, p. 36).

7 Simonsen, elaborará métodos racionais de trabalho a partir das experiências pioneiras desenvolvidas em sua empresa (Companhia Construtora de Santos) “ Os relatórios anuais que Simonsen preparava, principalmente a partir de 1916, refletem uma tentativa sistemática e consciente de aplicar métodos racionais de organização a toda a empresa, de desenvolver novas formas de relações de trabalho, como a criação de comissões de trabalhadores e gerentes para negociar as disputas” (WEINSTEIN, 2000, p. 35).


8 As diferenças de classe no inicio da República era claro, pois somente a classe que tinha posses é que tinha o direito do não-trabalho, sendo que os pobres que não trabalhavam eram tidos como vadios e passiveis de punições pela justiça (...) a vagabundagem não constituia um crime, mas uma contravenção, isto é, a não observância de preceitos legais ou de regulamentos, mas entendia-se que a vadiagem era propiciadora de crimes (CUNHA, 2005).


9 A politica sindical ao mesmo tempo que inibia as mobilizações de classe, restringia também a atuação dos trabalhadores nas entidades sindicais, “que constituiam a parcela politicamente mais avançada dentre os operários, além da proibição explícita ao sindicato de exercer qualquer atividade política e ideológica (ANTUNES, 1980, p. 77).


10 A politica sindical ao mesmo tempo em que inibia as mobilizações de classe, restringia também a atuação dos trabalhadores nas entidades sindicais, “que constituiam a parcela politicamente mais avançada dentre os operários, além da proibição explícita ao sindicato de exercer qualquer atividade política e ideológica (ANTUNES, 1980, p. 77)”.








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