EducaçÃo e trabalho no brasil colonial: artes e ofícios nos colégios jesuíticos



Baixar 96,34 Kb.
Página1/3
Encontro26.05.2017
Tamanho96,34 Kb.
  1   2   3



EDUCAÇÃO E TRABALHO NO BRASIL COLONIAL: ARTES E OFÍCIOS NOS COLÉGIOS JESUÍTICOS
Marisa Bittar

bittar@ufscar.br

Amarilio Ferreira Jr.

ferreira@ufscar.br

(Universidade Federal de São Carlos - UFSCar)

História das Instituições e Práticas Educativas

Código do Trabalho: 1017
Palavras-chave: História da Educação; Educação Jesuítica; Colégios Jesuíticos.
Introdução
Este trabalho tem como objetivo tratar da relação entre artes liberais e ofícios mecânicos no âmbito dos colégios jesuíticos do Brasil colonial (1549-1759). Constituídos para desempenhar papel estratégico na formação dos quadros intelectuais, religiosos e civis, que iriam propagar o cristianismo nas terras brasílicas, os colégios eram verdadeiros locus irradiadores da tradição humanística greco-romana cristianizada pela igreja católica ao longo da Idade Média. Processo este que teve início no século IV com a patrística neoplatônica, e finalizou no XI-XII com o tomismo aristotélico. Para tanto, a Companhia de Jesus consubstanciou no Ratio Studiorum, durante quase cinqüenta anos de elaboração (1551-1599), os conteúdos das humanidades latinas, das classes inferiores às superiores, considerados fundamentais para a formação dos “soldados de cristo”. Estes deveriam se empenhar na restauração da antiga hegemonia ideo-religiosa exercida pela igreja católica até 1517, data que havia marcado o início da cisão cristã na Europa Ocidental.

Uma vez elaborado o plano de estudos da Companhia de Jesus, ou seja, o Ratio Studiorum, todos os seus colégios ficaram obrigados a adotá-lo. A necessidade de uniformizar procedimentos, centralizar decisões, e obedecer a uma única diretriz filosófica, foram as razões que motivaram o surgimento desse importante plano, uma vez que os colégios iam se multiplicando em todo o mundo, particularmente na Europa, fazendo com que a direção da Companhia de Jesus temesse pela dispersão de ações.

Pesquisas que realizamos anteriormente mostraram o caráter de improvisação que marcou a ação pedagógica jesuítica no Brasil até o final do século XVI, quando as condições concretas aqui encontradas foram mais fortes do que os preceitos educacionais professados pela Companhia. Ao conjunto de improvisações praticadas nesse período anterior ao Ratio denominamos pedagogia brasílica Dando continuidade a esses estudos, apresentamos agora outra face da atuação pedagógica jesuítica, isto é, o ensino de ofícios manuais. Conforme mostraremos no decorrer do artigo, essa face também foi marcada pelo traço de necessidade que se impôs perante o meio, acima de prescrições doutrinárias. Além disso, as artes mecânicas não estavam sendo consideradas na elaboração do Ratio Studiorum, que entrou em vigor em 1599, embora uma sistematização das suas regras já estivesse consagrada na Monumenta Pedagogica, de 1570. Procuraremos mostrar que nas terras do Novo Mundo, a missão jesuítica extrapolou a constituição de colégios regidos pelo Ratio Studiorum porque, desde o início, o seu complexo, composto de fazendas, colégios, residências e igrejas necessários à evangelização, viu-se obrigado a contar também com oficinas de artes mecânicas anexas para fabricar as manufaturas essenciais que garantissem a sua existência.

As fontes consultadas neste estudo mostram que o segmento de oficiais mecânicos não era composto apenas pelos colonos livres vindos da metrópole, indígenas ou escravos desafricanizados, mas também pelos próprios padres jesuítas, como José de Anchieta e Antonio Vieira, o primeiro no século XVI e o segundo no XVII. Ambos se constituíram em casos emblemáticos de intelectuais da ordem colonial que trabalharam com o cérebro e com as mãos. Anchieta não foi somente um “cientista das letras” que gramaticou o tupi, a língua mais falada na costa leste brasílica; foi também um fabricador manual de alpercatas, o principal calçado utilizado pelos jesuítas no Brasil colonial. Vieira, por sua vez, um dos grandes luminares da língua portuguesa de todos os tempos, exerceu o ofício de construtor de igrejas. No sermão Epiphania, pregado na capela real para a corte metropolitana depois da expulsão dos jesuítas do Estado do Maranhão (1661), o famoso pregador barroco assim se referiu às lidas atinentes ao mestre de obras:


Edificamos com eles [os ameríndios] as suas igrejas, cujas paredes são de barro, as columnas de pau tosco, e as abobadas de folhas de palma, sendo nós os mestres e os obreiros d’aquella architectura, com o cordel, com o prumo, com a enxada, e com a serra, e os outros instrumentos (que também nos lhes damos) na mão. (Vieira, 1945, v. II, p. 43)
Com base em pesquisa documental, a hipótese aqui adotada é a de que o complexo jesuítico difundia a cultura latina cristã, sua principal função, mas ao mesmo tempo, ensinava ofícios e produzia mercadorias, imbricando trabalho intelectual com trabalho manual. A existência dessa relação permite considerar os colégios como unidades que estavam estruturadas nas regras do Ratio Studiorum e também nas oficinas anexas de instrução de artes mecânicas. Procuramos fazer, portanto, uma abordagem histórica da relação entre educação e trabalho na ação pedagógica dos jesuítas no Brasil colonial.
As artes liberais nos colégios jesuíticos coloniais
O projeto educacional implantado pela Companhia de Jesus no Brasil durante o século XVI era parte integrante da estratégia colonizadora propugnada pela Coroa portuguesa. Engajado nas guerras religiosas travadas entre católicos e protestantes que assolaram a Europa, o Padroado1 lusitano ajudou a expandir o capitalismo mercantil, por meio das chamadas grandes navegações, e a propagar a fé católica entre os denominados “povos bárbaros” que habitavam as terras banhadas “por mares nunca dantes navegados” (Camões, 1997, p.71). Assim, a criação de colégios no mundo colonial português estava associada, a um só tempo, tanto aos interesses mercantis quanto ao processo de propagação dos valores professados pela civilização ocidental cristã. Tal imbricação mercantil-religiosa pode ser auferida pelo papel que desempenharam os últimos reis da Dinastia de Avis (1385-1580) durante a expansão dos seus domínios ultramarinos. Em 21 de março de 1554, por exemplo, D. João III (1521-1557) escreveu uma carta para o Governador-Geral do Brasil, D. Duarte da Costa (1553-1557), da qual destacamos o seguinte excerto:
Pelo que vos encommendo muito, que assim o façaes, e que vós com o Bispo [D. Pedro Fernandes Sardinha] trabalhais de fazer nessa Cidade [São Salvador] algum modo de Collegio, conforme ao desta Cidade [Lisboa], que os Padres da Companhia têm em Santo Antão, porque disso se pode grande serviço de Nosso Senhor para essas partes (D. João III, 1957, p. 36-37).
Em 1564, o rei D. Sebastião I (1557-1578), sucessor de D. João III no trono português, assinou o Alvará Régio que estabelecia a redízima, fração dos dízimos cobrados no âmbito da colônia, como fonte de financiamento do colégio jesuítico da Bahia, construído pelo seu antecessor. O referido documento estabelecia que:
(...) eu e os reis destes reinos meus subcessores, governadores e perpetuos administradores (...) vendo quam apropriado o Instituto dos Padres da Companhia de Jesus he para a conversão dos infieis e gentios daquellas partes e instrução dos novamente convertidos, ter mandado alguns dos ditos Padres as ditas partes do Brasil cõ intenção e determinação de nellas mandar fazer e fundar collegios a custa da sua fazenda (...). E depois de avida a dita informação, assentey cõ parecer dos do meu cõselho, de mandar acabar nas ditas partes hum collegio da dita Companhia na cidade do Salvador da capitania da Baya de todos os Santos, onde já está começado; o qual collegio fosse tal que nelle podessem residir e estar até sessenta pessoas da dita Companhia, que parece que por agora deve aver nelle pellos diversos lugares e muitas partes em que os ditos Padres residem e a que do dito collegio são enviados pera bem da conversão e outras obras de serviço de Nosso Senhor, e pera sostentação do dito collegio e religiosos delle ey por bê de lhes aplicar e dotar, e de feito por esta minha carta de doação doto e aplico huma redizima de todos os dizimos e direitos que tenho e me pertencem e ao diante pertencerem nas ditas partes do Brasil (D. Sebastião I, 1938, p. 538-539).
Já o padre Manuel da Nóbrega, primeiro Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, de 1555 a 1559, em carta endereçada ao padre Diego Laynes2, em 1561, defendia a criação de colégios, pois os considerava indispensáveis para “remediar a perdição de almas” e converter as crianças indígenas ao cristianismo:
Nesta terra, Padre, temos por diante muito número de gentios, e grande falta de operários. Devem-se abraçar todos os modos possíveis de os buscar, e perpetuar a Companhia nestas partes, para remediar tanta perdição de almas. E se aqui é perigoso criá-los [meninos], porque têm mais ocasiões para não guardar a castidade depois que se fazem grandes, mandem-se antes deste tempo para à Europa, assim dos mestiços, como dos filhos dos gentios, e de lá nos enviem quantos estudantes moços puderem para cá estudar em nossos Colégios, porque nestes não há tanto perigo, e estes juntamente vão aprendendo a língua da terra, que é a mais principal ciência para cá mais necessária, e a experiência tem mostrado ser este útil meio. Porque alguns dos órfãos, que de Portugal enviaram, que depois cá admitimos na Companhia [padres Simeão Gonçalves, Manuel Viegas, João Pereira e António de Pina], são agora muito úteis operários. Esta troca queria eu fazer ao princípio, e enviei alguns mestiços, e deles um está agora em Coimbra [padre Cipriano do Brasil], mas fui avisado que não mandasse mais. Se não se há-de fazer conta senão dos operários, que se enviam de Espanha, segundo vêm poucos, e se acabam os que cá estão, muito devagar irá a conversão desta gentilidade. (Nóbrega, 1955, p. 390-391)
Para acelerar “a conversão desta gentilidade”, a instituição escolar jesuítica no Brasil não nasceu propriamente das normas prescritas, até porque os dois mais importantes documentos institucionais que passariam a regular o funcionamento da Ordem jesuítica ainda estavam em processo de elaboração: as Constituições (1558)3 e o Ratio Studiorum (1599)4. No início, tratava-se apenas de uma rústica escola de ensino das primeiras letras. As casas de bê-á-bá, termo com o qual designamos o ensino das primeiras letras nas casas coabitadas por crianças índias e padres jesuítas, não eram toscas apenas do ponto de vista da sua materialidade; mas também enfrentavam dificuldades relacionadas ao próprio processo de ensino e aprendizagem organizados pelos padres. A principal delas estava relacionada ao instrumental lingüístico que possibilitaria a propagação dos valores religiosos do cristianismo católico entre os “bárbaros da terra”, já que os inacianos ainda não dominavam a língua-mãe do grande tronco étnico tupi-guarani que habitava o litoral leste brasílico. As conseqüências pedagógicas advindas deste obstáculo de ordem lingüística só foram superadas depois que os jesuítas gramaticaram a língua tupi, tarefa iniciada por Juan Azpilcueta Navarro5 e concluída por José de Anchieta6.

Ocupando centralidade no “plano colonizador” propugnado por Manuel da Nóbrega7, as casas de bê-á-bá, embriões dos futuros colégios jesuíticos e locus irradiadores da cultura cristã, estavam assentadas em dois pilares que sustentaram os propósitos metropolitanos de ocupação das matas tropicais do litoral atlântico habitado pelos ameríndios: (A) desenvolveu uma pedagogia, consubstanciada nos catecismos bilíngües (tupi e português) baseada no processo de ensino e de aprendizagem mnemônico (ensino de cor, memorização) tanto das línguas quanto da própria dogmática cristã católica; e (B) estruturou a base material que garantiria a existência das casas de bê-á-bá por meio da organização econômica fundada no princípio da “grande plantação”: terras (sesmarias doadas pela Coroa), trabalho escravo desafricanizado e agropecuária (cana-de-açúcar e gado).

Inicialmente, os jesuítas não faziam distinção entre o regime de funcionamento das casas de bê-á-bá e o dos colégios. Mas, a partir de 1553 a situação começou a mudar. Chegava ao Brasil, trazida pelo padre Luis da Grã8, a versão preliminar das Constituições9 da Companhia de Jesus. O documento que passaria a reger o funcionamento institucional da Ordem dos inacianos estabelecia que somente os colégios poderiam amealhar bens de raiz10, ou seja, possuir propriedades como fonte de financiamento das suas atividades educacionais. A propósito, Paulo de Assunção, em Negócios Jesuíticos, analisando a simbiose que se estabeleceu entre o espiritual e o temporal no cotidiano da Companhia de Jesus no Brasil colonial, afirmou que a importância dos colégios extrapolava o interesse cultural-religioso de propagar os valores ocidentais cristãos nas terras brasílicas. Para o autor:
Os colégios eram parte importante da estrutura de funcionamento [da Companhia de Jesus], pois lhes era facultado terem propriedades. Segundo as Constituições da Companhia de Jesus, os colégios poderiam tornar-se proprietários, nomeando para a sua administração um reitor que teria como responsabilidade a ‘conservação e administração dos bens temporais’. (Assunção, 2004, p. 239)
Assim, movido pelos princípios da legalidade, Luis da Grã passou a exigir que Nóbrega cumprisse os preceitos constitucionais e, portanto, fechasse as casas de bê-á-bá, uma vez que, no texto da Magna Charta jesuítica não estava prevista a possibilidade de qualquer ordenação econômica para esse tipo de prática. Nóbrega resistiu, e, a partir daí, as divergências doutrinárias que se estabeleceram entre os dois foram dirimidas em seu favor devido à intervenção direta do padre Diego Laynes, sucessor de Loyola no comando da Companhia de Jesus.

Portanto, as casas de bê-á-bá, além de não terem sido fechadas, transformaram-se paulatinamente, durante a segunda metade do século XVI, nas celulae matres dos primeiros colégios jesuíticos do Brasil colonial. Deste modo, em 1570, antes que a primeira centúria chegasse ao fim, a colônia lusitana já contava com cinco casas de bê-á-bá – Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga – e três colégios – Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. (Anchieta, 1933, p. 405) Mas, contrariando as prescrições doutrinárias contidas nos documentos basilares da Ordem fundada por Inácio de Loyola, o colégio no período colonial não era apenas um estabelecimento educacional organizado no âmbito dos ensinos ginasial e secundário. Pois, após as divergências doutrinárias ocorridas entre Nóbrega e Grã, a Província do Brasil ganhou a chancela de Roma para praticar também o ensino elementar, ou seja, as casas de bê-á-bá11.

No contexto colonial, o colégio da Bahia foi o caso mais emblemático da vinculação institucional entre os vários níveis de ensino: primeiras letras, ginasial e secundário. Em Salvador, fundou-se primeiramente a casa de bê-á-bá, em 1549; depois, em 1554, implantou-se o colégio segundo as normativas contidas nas Constituições. Contudo, para Serafim Leite (1938, t. I, p. 57), o colégio jesuítico de Todos os Santos nunca deixou de manter “sempre unidade moral com a casa de 1549”, ou seja, a casa de bê-á-bá criada por Manuel da Nóbrega na qual o primeiro mestre foi Vicente Rodrigues (Rijo)12. Desde a sua origem, o colégio da Bahia manteve uma base de sustentação material que financiava os seus gastos. Em 1585, além da dotação régia de “três mil ducados”, a sua fazenda de gado e cana-de-açúcar era mantida pelas relações escravistas de produção baseada no trabalho de 150 “negros da Guiné” (homens e mulheres) e “alguns índios e índias”. (Anchieta, 1933, p. 414)

As atividades pedagógicas desenvolvidas no colégio da Bahia, segundo o Provincial do Brasil13, estavam concentradas nas seguintes classes:


(...) uma lição de teologia que ouvem dois ou três estudantes de fora, outra de casos de consciência que ouvem outros tantos e uma e outra alguns de casa, um curso de artes que ouvem dez de fora e alguns de casa, escola de ler, escrever e contar que tem até setenta rapazes filhos dos Portugueses, duas classes de humanidades, na primeira aprendem trinta e na segunda quinze escolares de fora e alguns de casa. (Anchieta, 1933, p. 415)
Já com relação ao colégio de Pernambuco, em sua Informação da Província do Brasil Anchieta (1933, p. 411) relata que ele era provido por “mil ducados que lhes há dotado el-rei D. Sebastião” e tinha “algumas cabeças de bois e vacas que se sustentam, por não haver matadouro na vila, e se assim não o fizessem, não teriam que comer”. As suas atividades pedagógicas, por outro lado, estavam organizadas em função de “uma classe de gramática que ouvem até 12 estudantes de fora, e também os casos e gramática estudam alguns de casa; escola de ler e escrever, que terá até 40 rapazes, filhos de portugueses”. (Anchieta, 1933, p. 412) Essas transcrições evidenciam que, nos colégios, a composição social dos alunos mudara, pois os filhos de portugueses já aparecem em número expressivo, diferentemente das casas de bê-á-bá, que abrigavam apenas crianças índias e mamelucas e os órfãos de Portugal.

Quanto à fazenda que sustentava o colégio do Rio de Janeiro, José de Anchieta (1933, p. 412) a descreveu do seguinte modo:


(...) tem duas léguas de terra em quadro das melhores da terra: nelas se fazem mantimentos e roçaria e residem os escravos e Índios da casa que são mais de 100, de Guiné e Índios da terra com suas mulheres e filhos, e uma igreja em que lhes ensinam a doutrina cristã, e destes a maior parte granjeiam aquela fazenda e outras que têm a sete léguas da cidade, que é muito maior e mais fértil, de três léguas em largo e quatro para o sertão, e outros são carpinteiros, carreiros, etc. Vivem dos nossos neste Colégio de ordinários 24: 10 Padres e os demais Irmãos. Tem de renda 2.500 cruzados que lhe dotou El-Rei D. Sebastião para 50, e os 2.000 se pagam na Baía ainda que mal e tarde, e os quinhentos na Capitania do Espírito Santo, e com esta renda e com a roçaria que hei dito, e com algumas cabeças de bois e vacas que têm de sua criação, se sustentam muito bem e aos escravos que tem, e ajudam as residências ao Colégio anexas.
Assim sendo, podemos dizer que os colégios jesuíticos do século XVI nasceram no interior das fazendas de cana-de-açúcar (engenho) e de criação de gado, cuja estrutura arquitetônica foi assim descrita por Lúcio Costa (1945, p.13):
O programa das construções jesuíticas era relativamente simples. Pode ser dividido em três partes, correspondendo cada uma destas a uma determinada utilização: para o culto, a igreja com o coro e a sacristia; para o trabalho, as aulas e oficinas [colégio]; para residência, os ‘cubículos’, a enfermaria e mais dependências de serviço, além da ‘cerca’, com horta e pomar.
Essa configuração foi desenvolvida para os principais colégios jesuíticos do Brasil colonial do século XVI, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, bem como para os que foram criados depois14. No entanto, na mesma proporção em que a Companhia de Jesus se transformava numa grande proprietária de terras (fazendas de gado e cana-de-açúcar) e escravos, os prédios das igrejas, colégios e residências foram ficando mais sólidos. Com o avanço do processo colonizador, eles foram se transformando em baluartes da cultura ocidental cristã entre a população colonial e, ao mesmo tempo, em instituições formadoras dos próprios quadros inacianos que deveriam divulgá-la e reproduzi-la. Analisando a proposta pedagógica contida no plano de estudos da Companhia de Jesus, o padre Leonel Franca (1952, p. 80), na Introdução que elaborou para a edição publicada em 1952, assim se referiu ao objetivo educacional máximo ministrado nos colégios mantidos pela Ordem dos jesuítas:
O alvo a que mira a formação do Ratio – nisto em concordância incontestada com o ideal do século XVI – é a eloqüência latina: ad perfectam informat eloquentiam. Levar o aluno a exprimir-se de maneira irrepreensível na linguagem de Cícero é o termo a que se subordinam todas as séries sabiamente graduadas do currículo. A gramática visa à expressão clara e correta; as humanidades, a expressão bela e elegante; a retórica, a expressão enérgica e convincente.
A propósito, as Constituições (Companhia de Jesus, 1997, p. 129) declaravam que “são de muito proveito os estudos humanísticos de várias línguas”, além da lógica, filosofia natural e moral, metafísica, teologia escolástica e Sagrada Escritura, como matérias que deviam ser estudadas. Quanto ao Ratio Studiorum, para admitir novos candidatos, exigia a proposição de “algumas frases para se verterem em latim, ou, se for mister, para traduzirem de algum autor clássico” (Companhia de Jesus, 1952, p. 169).

Portanto, o ideal pedagógico era formar alunos para o pleno domínio das artes liberais (humanidades) por meio da língua latina. Tal vocação estava ligada ao contexto histórico em que transcorreu a formulação do Ratio Studiorum, isto é, o convulsionado século XVI das reformas religiosas. Foi então que a educação fundada nas chamadas humanidades (história, poesia, geografia, política etc.), com base nas obras filosóficas e literárias do período clássico greco-romano (Virgílio, Horácio, Cícero, Luciano, Ovídio e outros), consolidou o latim como a língua oficial da cristandade fiel ao papado num duplo sentido: língua sagrada do catolicismo apostólico romano, mantendo fidelidade à versão bíblica denominada Vulgata Latina15, e língua do humanismo renascentista. Historicamente, as línguas principais em uso pelos povos que aderiram ao cristianismo desde a sua origem foram o aramaico, o grego, o siríaco, e depois o latim. Este acabou por substituir o grego a partir dos séculos III e IV, permanecendo por longos séculos a língua da cultura e da igreja romana enquanto deixava, progressivamente, de ser compreendido pela maioria dos fiéis. No século XVI, quando a cristandade se fragmentou, os reformadores passaram a empregar, nas celebrações litúrgicas, as línguas faladas nos Estados Nacionais, ao passo que na igreja que permaneceu fiel ao papado de Roma, o Concílio de Trento (1545-1564) manteve o uso quase exclusivo do latim. A reverência a essa língua pode ser compreendida considerando a sua própria origem. Segundo Vicenzo Loi (2002, p. 809-810), o latim cristão caracterizou-se:


pelos fenômenos lexiográficos (hebraísmos, helenismos, neologismos formados com processos normais de sufixação latina), semânticos e sintéticos, peculiares à linguagem das comunidades cristãs do Ocidente, do século II ao V, fenômenos que apareceram e se firmaram no contexto comunitário da vida de um grupo religioso, caracterizado também lingüisticamente por efeito da própria disciplina e da própria doutrina em relação à sociedade pagã.
Os aspectos disciplinares e doutrinários tornam compreensível a obediência do Ratio Studiorum às diretrizes do mencionado Concílio, como também explicam a razão de o ensino jesuítico estar empenhado no conhecimento e prática do latim, fazendo com que os seus colégios estivessem em “concordância incontestada com o ideal do século XVI”, conforme escreveu Leonel Franca. Criados com o intuito de formar os quadros intelectuais (internos e externos) que se empenhariam para recolocar a Igreja Católica no centro da comunidade cristã mundial, os colégios jesuíticos pautaram-se por uma educação de rígida disciplina intelectual, cujos conhecimentos estavam solidamente assentados na tradição cultural engendrada historicamente pelo helenismo. Desse modo, o currículo emanado do Ratio Studiorum conferia aos colégios da Companhia de Jesus uma base de conhecimentos fundados nos conteúdos canônicos das disciplinas denominadas de humanidades latinas.

Antes de cursar filosofia, estudos da Bíblia e da patrística, direito eclesiástico, direito moral e teologia, os alunos dos colégios jesuíticos freqüentavam as classes (inferiores e superiores) de humanidades e retórica como requisitos necessários para o domínio da arte do falar em latim e nas línguas vernáculas de forma substantiva e eloqüente. Isto porque o objetivo era que aprendessem a pregar a dogmática cristã tridentina e, quanto ao âmbito do mundo secular, se preparassem para a arte de governar.

Estruturada no método mnemônico de ensino e aprendizagem e na concepção de mundo da igreja romana, a educação jesuítica visava formar quadros capazes de dominar plenamente o conjunto dos conhecimentos humanos elaborados pelos autores clássicos, desde a literatura latina helenística à dogmática cristã herdada da tradição judaica. Para o domínio desses conhecimentos, os jesuítas tinham no Ratio Studiorum o instrumento pedagógico indispensável que, além disso, garantia rigor e excelência ao ensino ministrado nos seus colégios. Se considerarmos, ademais, que a Companhia de Jesus, diferentemente dos reformadores, não defendia ensino elementar para todos os meninos e meninas, além de não postular a vinculação entre formação intelectual e profissional, constataremos o caráter elitista dos seus colégios no contexto histórico do Brasil colonial. O método pedagógico praticado pelos jesuítas, por sua vez, estava assentado nos princípios herdados da universidade medieval e sistematizado da seguinte maneira:
1. Controle disciplinar rígido das normas pedagógicas estabelecidas pelo Ratio Studiorum, o que era exercido pelo Reitor e Prefeito dos Estudos;

2. Preleção dogmática, feita pelos professores, dos conteúdos canônicos dos conhecimentos curriculares (humanidades latinas, retórica, filosofia, estudos da Bíblia em hebraico, grego e latim, direito eclesiástico, direito moral e teologia);

3. Repetição (leitura por meio da memorização/aprendizagem mnemônica);

4. Disputas orais na língua latina (emulação entre grupos de alunos da mesma classe tendo como conteúdo as obras estudadas, ou seja, exercícios coletivos de fixação mnemônica dos conhecimentos por meio de perguntas e respostas);

5. Composição (redação de textos em latim tendo com referência os temas de estudo);

6. Interrogações (questões formuladas sobre as obras clássicas estudadas);

7. Declamação (exposição oral dos conhecimentos aprendidos por meio da retórica); e

8. Prática sistemática dos exercícios espirituais. (Franca, 1952, p. 119 et seq.)


Contudo, se o emprego do método de aprendizagem mnemônica no âmbito dos colégios jesuíticos logrou pleno êxito na educação das chamadas artes liberais (ciências humanas), o mesmo não podemos falar em relação ao ensino da moderna história natural (ciências da natureza) a partir do século XVI. Pois, como sabemos, a física, a química e a biologia passaram a exigir, desde então, o método empírico de investigação como fundamentação epistemológica primária para a comprovação das suas respectivas cientificidades, superando, assim, a lógica especulativa derivada da escolástica tomista. Mas, a Companhia de Jesus, depois de aprovadas as teses teológicas tridentinas, estava muito mais preocupada com a restauração da antiga ordem societária secular na qual a igreja católica romana havia ocupado o epicentro da universalidade religiosa; do que em empregar grandes esforços no avanço da cientificidade explicativa do mundo circundante. Para os inacianos, urgia formar homens que propugnassem pela restauração, teórica e prática, de um “reino cristão” na face da terra que fosse o mais cristão de todos os reinos até então existentes. Daí, a centralidade pedagógica que as humanidades latinas, consubstanciadas no Ratio Studiorum, assumiram no âmbito dos colégios jesuíticos.

: novo -> congressos -> cbhe6 -> anais vi cbhe -> conteudo -> file
file -> ComunicaçÕes individual
file -> EducaçÃO, ginástica e educaçÃo física: apropriaçÕes da pedagogia moderna no espírito santo entre as décadas de 1910 e 1930
file -> Universidade federal de sergipe: de faculdades isoladas a expansãO (1948 2008 )
file -> ImplicaçÕes da produçÃo didática de abílio césar borges para a escola primária brasileira do século XIX
file -> A concepçÃo de educaçÃo assumida pela igreja católica a partir do concílio vaticano II e das conferências gerais do episcopado latino-americano de medellín e puebla
file -> A origem da educaçÃO Árabe no paraná
file -> Práticas educativas: um estudo dos documentos de orientações didáticas para a disciplina de História das escolas de Ensino Fundamental da rede pública de São Paulo
file -> OrganizaçÃo do primário no rio grande do norte (1937-1945)i
file -> Relatório das atividades da biblioteca do Instituto de Educação Carlos Gomes, 1955 – 1061
file -> Rio grande do norte


  1   2   3


©livred.info 2019
enviar mensagem

    Página principal