EducaçÃo de meninas e moças por meio da traduçÃo e da ediçÃo de romances



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EDUCAÇÃO DE MENINAS E MOÇAS POR MEIO DA TRADUÇÃO E DA EDIÇÃO DE ROMANCES

Márcia Cabral da Silva – Faculdade de Educação- UERJ – marciacs@ism.com.br

Palavras-chave: romances; Rachel de Queiroz e José Olympio

No campo da História Cultural e, de modo específico, no campo da História da Educação nas últimas décadas, observa-se uma diversidade de fontes utilizadas como instrumental metodológico de investigação. Ao se problematizar os usos de fontes tradicionais na pesquisa histórica em diálogo com outras áreas das Ciências Sociais e Humanas, como a Sociologia, a Antropologia, a Teoria da Literatura, como refletiu Lynn Hunt (2001), apontou-se para a possibilidade de reconfiguração da base documental da pesquisa histórica, utilizando-se, inclusive, o impresso de modo mais amplo como objeto de análise ou mesmo como fonte para compreensão das práticas educativas.

Dentre as diversas abordagens que consideram as manifestações literárias, a investigação de base sociológica parece-nos a mais adequada, pois o instrumental teórico utilizado concorre, de modo geral, para a compreensão da obra literária como manifestação estética, sem que se excluam ou minimizem as determinações de natureza histórica e social. O crítico Antonio Candido (2000), ao se referir às relações entre crítica e sociologia, apresenta um quadro bastante útil para a apreensão do fenômeno literário, conforme critérios que tomam por vezes a sociologia, a história ou a crítica do conteúdo.

Em uma das abordagens, procura-se relacionar as manifestações literárias, um período, um gênero com as condições sociais. Neste caso, há o esforço de se mapear as sequências históricas e o panorama geral da época. Segundo o crítico, a dificuldade deste modelo reside em demonstrar em uma escala determinada as relações entre as condições sociais e as obras. Em uma segunda perspectiva de análise, enfatiza-se o modo como a obra “espelha ou representa” a sociedade, descrevendo-se os seus diversos aspectos. Talvez seja a abordagem mais comum, visto que se correlacionam os aspectos reais com aqueles expressos nas obras. De tal modo, segundo ainda o estudioso, quando se fala em crítica sociológica ou em sociologia da literatura, tem-se em mente este modelo. Por um terceiro ângulo de análise, evidencia-se o estudo da relação da obra como o seu público, a sua recepção. Uma quarta abordagem dedica-se ao estudo da posição e da função social do escritor, almejando-se associar essa posição com a organização da sociedade. O crítico trata um quinto tipo de abordagem como derivação do modelo anterior, visto que a preocupação dos estudiosos, nesse caso, reside em examinar a função política das obras e dos autores tendo em conta intenção ideológica marcada. O estudioso adverte para o fato de que esse modelo tem servido especialmente às análises de extração marxista. Um sexto e último modelo esforça-se para investigar, por hipótese, as origens das obras e dos gêneros (Candido, 2000, p. 10-12).

Como se vê, em todas as abordagens descritas os exames são legítimos. De um modo ou de outro, os horizontes de análise levam em conta os aspectos sociais que constituem a sua matéria, as circunstâncias do meio que concorreram para a sua elaboração ou para a sua função no âmbito social.

Em que pesem as distinções de abordagens entre as disciplinas, mais ou menos acentuadas, há um fator igualmente importante a ser considerado em trabalhos que tomam a obra literária como fonte de investigação, o que se aplica a este estudo no âmbito da história da educação. Trata-se da consideração de elementos designados por Antonio Candido (2000) como fatores externos (o social, o histórico) e internos (elementos que estruturam a obra). De modo a dar conta da análise desses elementos sem perder de vista uma ou outra dimensão, o autor propõe uma síntese interessante:

Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto ao outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam em momentos necessários do processo interpretativo. Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (Candido, 2000, p.6).

O instrumental analítico ancorado na crítica literária de natureza sociológica a par de contribuições extraídas da história cultural procura balizar, portanto, o exame deste estudo: Educação de Meninas e Moças por meio da Tradução e Edição de Romances. O texto encontra-se organizado em três partes: na primeira, contextualiza-se a Coleção Menina e Moça no cenário da produção editorial da década de 1930 voltada a este público; na segunda parte, reflete-se sobre o papel social da escritora e tradutora Rachel de Queiroz associando-o à ascensão da Livraria José Olympio Editora, representada pela figura do seu presidente, José Olympio; na terceira e última parte, examina-se o romance A Conquista da Torre Misteriosa, de 1951, que integra a Coleção e foi traduzido por Rachel de Queiroz, refletindo-se sobre a educação mais ampla de meninas e moças no cenário brasileiro da época.



A Coleção Menina e Moça: “romances açucarados” no horizonte de vendas de um mercado editorial em crescimento

A Coleção Menina e Moça consiste em uma tradução da Bibliothèque de Suzette, composta por romances voltados ao público feminino situado entre a infância e a mocidade. Esses romances circularam na França entre 1915 e 1965, sendo traduzidos para outras línguas como o espanhol, o turco, o italiano, o inglês, o português. No Brasil, a coleção foi lançada pela Livraria José Olímpio Editora em 1934, ano em que a Livraria transferiu-se de São Paulo para o Rio de Janeiro, então capital da república, instalando-se na famosa rua do Ouvidor.i A representação no cenário remodelado é lembrado por muitos intelectuaisii que usufruíram de um espaço a um só tempo “moderno” e afeito às redes de sociabilidades. As palavras de Rachel de Queiroz a esse respeito são esclarecedoras:

A Casa, como a chamávamos, chegou a ser a mais cobiçada editora do país: ela lançou primeiro a mim e depois a onda toda dos nordestinos. Mas foi a loja, a Livraria José Olympio propriamente dita, situada à rua do Ouvidor 110 (no tempo o coração do Rio), que se tornou o point preferido dos intelectuais mais famosos, dos já estabelecidos e dos emergentes. Quem queria ser visto e quem queria nos ver ia às tardes à José Olympio (Queiroz e Queiroz, 1998, p. 186).

Os anos de 1930 são emblemáticos de tensões no âmbito político, econômico e social no que respeita à sociedade brasileira. O cenário da belle époque, que antecedera a revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, mostrara-se extremamente contraditório. Se, de um lado, celebravam-se as transformações arquitetônicas na capital da República nos moldes europeus e o surgimento de camadas médias que se distinguiam em pequenos cargos no comércio e na administração pública; de outro, utilizavam-se dispositivos repressivos para regular as camadas pobres, analfabetas, em meio a condições insalubres de vida, à miséria reinante, o que, na visão científica e política dos dirigentes, mostrava-se absolutamente inadequado. Afinal, o quadro descrito por último não combinava com uma sociedade que se pretendia moderna e civilizada. (Svcenko, 1995).

A modernidade pretendida, além da moda, da arquitetura art nouveau, reinventadas nos trópicos, acenava para mudanças no campo da cultura. Essas mudanças apareciam aos poucos na emergência da fotografia, do cinema, da imprensa, das revistas ilustradas, que passavam a circular com mais frequência entre as camadas emergentes. Uma nação civilizada nos moldes europeus exigia, da mesma forma, cidadãos alfabetizados, a circulação de livros, a abertura de bibliotecas e de livrarias. Não é de se estranhar, portanto, a movimentação em torno de traduções e de publicações. No que diz respeito à expansão editorial, assiste-se a um cenário em movimento ascendente. Segundo estudo realizado por Miceli (2001), pode-se considerar, inclusive, ter havido um incremento no mercado de livros nos anos de 1930:

Monteiro Lobato foi o maior best-seller de 1937, com 1,2 milhão de exemplares de livros e traduções sob a sua responsabilidade, ou seja, mais de metade dos 2,3 milhões de exemplares impressos pela Companhia Editora Nacional e sua sucursal, a Editora Civilização Brasileira. Outros autores contribuíram para o sucesso comercial das principais editoras Humberto de Campos (José Olympio), Machado de Assis (Jackson), Afrânio Peixoto (Guanabara), Joaquim Nabuco (Civilização Brasileira), Aluízio Azevedo e Graça Aranha (Briguiet-Garnier), Agripino Grieco (Companhia Brasil Editora), ou seja, algumas das figuras de maior prestígio intelectual da geração de 1870 ao lado dos polígrafos anatolianos em evidência na República Velha (Miceli, 2001, p.146-147)

Todavia, esse movimento ascendente relativo ao mercado editorial devia-se também a outras formas de publicação ao longo das décadas de 1930 e 1940. Merece registro a circulação de livros de aventura, de romances policiais, de romances idílicos nos moldes “açucarados”, das biografias romanceadas, dos manuais de viver. Os estudiosos do livro são unânimes em apontar a crise de 1929 e, mais tarde, o início da Segunda Guerra Mundial, como acontecimentos que dificultaram a importação de livros portugueses e franceses, abrindo possibilidades para a produção nacional ao lado da inserção estrangeira no país por meio de traduções.iii

Em relação à produção editorial destinada ao público feminino, acompanham-se investimentos notáveis entre 1938 a 1943, conforme indica ainda Miceli (2001):

Um terço dos romances – 52 títulos entre 156 publicados em 1942, sendo 62% de traduções e 38% de obras de autores nacionais – foi veiculada pelas diversas coleções endereçadas ao público feminino (Biblioteca das Moças, da Companhia Editora Nacional; Menina e Moça, da José Olympio; Biblioteca das Senhorinhas, da Empresa Editora Brasileira; Romances para Moças, da Anchieta) ( Miceli, 2001, p. 154); (grifos meus).

As transformações no campo editorial e a hierarquia entre os gêneros que mais seduziam os leitores justificam, portanto, o investimento do editor José Olympio em uma coleção para meninas e moças no começo de sua trajetória como editor, que viria gozar de notável prestígio no campo editorial.iv Passaremos a tratar no tópico seguinte desse espaço que acenava para tamanha prosperidade.



Rachel de Queiroz e José Olympiov: intelectuais em ascensão nos anos de 1930

Rachel de Queiroz, à maneira de outros escritores à época, iniciou a sua carreira como colaboradora de jornais. Fortaleza, a sua cidade de origem, lhe proporcionaria considerável ambiente intelectual, onde se liam e se discutiam sobre os mais variados assuntos: poesia, prosa, economia, políticavi. A estreia da jovem escritora se deu com uma carta enviada em 1927 para o Jornal o Ceará, assinada com o pseudônimo Rita de Queluz, por meio da qual ironizava o concurso Rainha dos Estudantes. Logo, é convidada para colaborar com artigos e crônicas para O Ceará e O Povo, ambos periódicos da capital cearense, ainda muito moça e em início de carreira.vii A avaliação registrada em entrevista concedida por Raquel de Queiroz, em 1997, quando já se tratava de celebrada escritora, cronista e tradutora, revela muito da condição social dos homens e das mulheres de letras marcada por ambígua identidade. Nessa perspectiva e em resposta ao modo como a atividade jornalísticaviii influenciou o seu trabalho ficcional, afirmaria:

Eu tenho dito que me sinto mais jornalista do que ficcionista. Sempre. Na verdade, minha profissão é essa: jornalista. Há cinquenta anos que todas as semanas eu escrevo pelo menos um artigo (Cadernos de Literatura Brasileira, 1997, p.33).

Como se observa, a profissão de escritor no Brasil tem sido objeto de muita queixa entre aqueles que pretenderam a inserção no campo das letras. A começar pelas relações de trabalho e a findar no reconhecimento da crítica especializada, registram-se reiteradas disputas na configuração do campo intelectual. O rarefeito pagamento dos direitos autorais talvez constitua o emblema mais visível das infindáveis batalhas.

Com a escritora não aconteceu diferente. O seu primeiro romance, O Quinze, escrito a lápis e à luz de lampião, foi publicado por conta própria, pago por seu pai a uma pequena tipografia no Ceará: Tipografia Urânia. Ademais, a qualidade do trabalho de ficção de uma moça nos anos de 1930, em terras consideradas provincianas, causara grande desconfiança. Raquel rememora as redes de sociabilidade que precisou estabelecer junto aos intelectuais de prestígio, que circulavam no Rio de Janeiro e, por conseguinte, detinham expressivo capital cultural:
O Quinze foi publicado em agosto de 1930. Não fez grande sucesso quando saiu em Fortaleza. Escreveram até um artigo falando que o livro era impresso em papel inferior e não dizia nada de novo.

Outro sujeito escreveu afirmando que o livro não era meu, mas do meu ilustre pai, Daniel de Queiroz. E isso tudo me deixava meio ressabiada. Morava então no Ceará o jornalista carioca Renato Viana, que me deu os endereços das pessoas no Rio de Janeiro, uma lista de jornalistas e críticos para os quais eu devia mandar o livrinho. O mestre Antônio Sales, que adorou o livro, também me deu outra lista. Então me chegou uma carta do meu amigo Hyder Corrêa Lima, que morava no Rio, convivia com Nazareth Prado e a roda de Graça Aranha. Hyder mostrava na carta o maior alvoroço e contava o entusiasmo de Graça Aranha por O Quinze. Depois veio uma carta autografada do próprio Graça, realmente muito entusiasmado. Em seguida, começaram a chegar críticas, de Augusto Frederico Schmidt (no Novidades Literárias), do escritor Artur Mota, em São Paulo; foram pipocando notas e artigos, tudo muito animador. No Ceará, não. Não me lembro de nenhuma repercussão. Depois, quando a coisa virou, é que o livro começou a pegar por lá. (Queiroz e Queiroz, 1998, p. 31).

Dentre os vários aspectos comentados pela romancista, sublinha-se o ângulo de legitimação da produção literária pelos agentes culturais, responsáveis, em grande parte, pela recepção positiva de sua obra. Tudo indica que existia no período examinado um caminho bem traçado entre a província e as metrópoles, visando à circulação da obra literária. Em outras palavras, para que o livro chegasse ao leitor e significasse sucesso de venda, havia de passar pela avaliação de críticos e jornalistas, que centralizavam suas ações nos eixos de maior prestígio. Daí justificarem-se as duas listas de aprovação e a observação de Raquel de Queiroz de que “Depois, quando a coisa virou, é que o livro começou a pegar por lá”.

Pode-se considerar que, após o reconhecimento por parte da crítica, houve, pouco a pouco, a inserção de Rachel de Queiroz no campo das letras. Todavia, para que, de fato, se afirmasse como personalidade literária, profissional das letras, seria necessário ainda ampliar as redes sociais, incluindo-se a fiança de um editor reconhecido. De tal modo, a emergência de José Olympio no campo editorial no período configura-se um marco importante para consolidar as redes de sociabilidade que, então, se constituíam.

De início, assim como Raquel de Queiroz, José Olympio precisou construir redes sociais, que o legitimassem como agente no campo intelectual. Após ter trabalhado como balconista na Casa Garraux e adquirido duas importantes bibliotecas particulares, a de Alfredo Pujol e a de Estevão de Almeida, inaugura a Livraria José Olympio Editora em 1931 em São Paulo. Contudo, a cidade já não mantinha a hegemonia na produção editorial que conhecera nos anos de 1920 devido, em grande parte, às dificuldades políticas e econômicas resultantes da revolução constitucionalista de 1932, somadas à grande depressão dos anos de 1920. A centralidade da vida cultural tornara-se promissora na então capital da república e muitos intelectuais tomaram esse novo rumo: José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz.

No cenário desenhado, José Olympio transfere as suas atividades profissionais para o Rio de Janeiro. Em 1937, com a publicação de Caminhos de Pedra, terceiro romance escrito por Rachel de Queiroz, pela Livraria José Olympio Editora, iniciam-se as relações profissionais entre a escritora e o editor. Relação que se estenderia por praticamente toda a trajetória de ambos os intelectuais.

Mas, se Rachel se inseria nos anos de 1930 no circuito das letras no então centro cultural do país, a projeção não ficaria completa sem que se mencionasse o relevante papel da escritora no trabalho de tradução da Casa. A Casa era o nome afetivo pelo qual a editora passou a ser referida pelos escritores, os quais lá trabalhavam e passavam as tardes comentando assuntos políticos e literários; modo sui generis para se alcançar projeção como homens e mulheres do mundo das letras à época.

Aos fundos da loja na rua do Ouvidor, que a gente se habituara a frequentar todas as tardes, tínhamos nosso ponto oficial de encontro: chegava a haver um banco que era privativo de Graciliano, o banco e o cinzeiro, que, ao fechar a loja às seis horas, estava sempre cheio de baganas, apagadas de modo peculiar, marca registrada de Graciliano (Queiroz e Queiroz, 1998, p.186).

Uma crônica escrita por Raquel de Queiroz em 1949 fornece a um só tempo a medida e o alcance do ambiente de sociabilidade entre os escritores e o editor; os termos das condições de trabalho e a relevância da atividade de tradução nos anos de 1940, pela qual se projetariam muitos escritores-tradutores, o editor e A Casa:

Outra virtude essencial do editor José Olimpio é o seu respeito pela dignidade do escritor – dignidade de profissional e dignidade de indivíduo. Sendo ele o grande animador, o grande difusor da moderna literatura brasileira, lançando constantemente nomes novos, ampliando o âmbito de expansão dos nomes feitos, jamais entretanto tomou ares de mecenas; jamais alegou em conversa particulares ou em entrevistas de imprensa os benefícios que fez, os sacrifícios que aceitou por amor da cultura. E jamais igualmente caiu no erro oposto – o de nos tratar como simples produtores da mercadoria que ele vende, sabendo sempre estabelecer a essencial diferença que existe entre o trabalho manual e o labor intelectual (...).

Nunca, por exemplo, nestes anos e nos de negócios, entre nós e a nossa editora foi escrito qualquer termo de contrato, pois nunca houve necessidade de documentos entre a casa e os seus editados para que seja respeitada a correção e a boa fé entre as duas partes contratantes. Contam-se por dezenas as traduções que já fizemos para eles, por eles foi editado ou reeditado tudo que temos produzido, e querido publicar nestes dezoito anos de atividade literária; e deixando ao arbítrio da casa a retribuição ao nosso trabalho jamais tivemos que nos queixar por remuneração injusta, deficiente ou retardada (...)

Foi assim que José Olimpio se fez o grande amigo dos seus editados: detrás da sua banca de trabalho, tratando dos seus negócios. Não precisou ninguém lhe aparecer com apresentações importantes, recomendado por medalhões. Todos nós o desconhecíamos igualmente quando o procuramos com o nosso pequeno livro, pedindo-lhe que o mandasse ler e, se possível, editar. (...) ( Jornal O Povo, 23 de abril de 1949); (grifos meus)ix

A crônica extraída de um periódico de ampla circulação na capital cearense deixa entrever curiosos aspectos. Acentua-se um sentimento de admiração pelo intelectual incentivador da cultura brasileira, representação recorrente sobre José Olympiox, a par dos termos de remuneração e os direitos autorais concedidos aos profissionais das letras, aspectos quase inexistentes na literatura até então divulgada. Dos elementos sublinhados por Rachel de Queiroz, merece atenção o expressivo trabalho de tradução desenvolvido no âmbito da editora. No tópico seguinte, abordam-se tanto a atividade de tradução quanto aspectos da educação voltados para meninas e moças por meio do exame de A Conquista da Torre Misteriosa, um dos títulos da Coleção Menina e Moça.

A Conquista da Torre Misteriosa: leitura para seduzir e educar o “entre-aberto botão, entrefechada rosa”

As estratégias educativas apareciam veiculadas na obra nas mais diversas formas. O prefácio, porta de entrada do romance, anunciava o material para as jovens leitoras então idealizadas: “Os mais encantadores romances para a juventude feminina. Coleção Menina e Moça – 10 a 16 anos”. “Única Existente no Brasil”. Em seguida, o poema do consagrado escritor Machado de Assis cumpria a função de definir, em tom de acentuado lirismo, o que se compreendia à época por público feminino na faixa etária delimitada entre 10 e 16 anos:

MENINA E MOÇA

Está naquela idade inquieta e duvidosa.

Que não é dia claro e é já o alvorecer.

Entre-aberto botão, entrefechada rosa.

Um pouco menina e um pouco de mulher (Verdat, 1951, p.1).

Inseridas as delimitações quanto ao público previsto, o discurso introdutório passava, então, a indicar aspectos relacionados à materialidade da obra acrescidos do tipo de conteúdo e finalidades da coleção. Tratava-se de pequenos romances, de apurada qualidade gráfica. Despertariam a atenção pela construção do enredo bem arquitetado, sem que se abandonassem a “advertência moral e os ricos ensinamentos”. Na retórica, por meio da qual se afiançava o tipo de linha editorial estrategicamente pensado para meninas e moças, podia-se ler:

São romances atraentes, em que palpita a alma simples e sonhadora da juventude, envolta nas ciladas a que vive exposta a criatura humana desde o alvorecer da existência. Nem fantasia exagerada, nem sensacionalismo, nem pieguice. Tudo construído segundo as sóbrias leis do mundo real, tudo marcado de forte cunho de verossimilhança (...). A Coleção Menina e Moça vai ser sua melhor amiguinha; vai distraí-la, e muito, acredite; vai despertar o seu gosto pela boa literatura, vai aprimorar seu caráter ( Verdat, 1951, p.1-2).

O enredo é construído também sob medida: prevalecia a simplicidade. Abordam-se temáticas e construções de personagens já identificados em outro título da coleção, como se pôde examinar, por exemplo, em A Princesa e a Cigana, de 1934. Mistério, castelos, princesas e fadas eram os elementos associados na medida exata, para trazer boa literatura feminina de extração francesa aos trópicos, segundo a concepção identificada nos romances, que compunham “A coleção Menina e Moça”; “a única coleção existente no Brasil”.

Traduzir significa reescrever, traspor uma forma e um conteúdo discursivo para uma linguagem local. Rachel de Queiroz adaptaria com desenvoltura o romance francês `A La Conquete Du Mystérieux Donjonxi para o contexto brasileiro e feminino dos anos de 1940. A história se passa em uma aldeia francesa onde fixara residência Madame Breymond. No período de férias escolares de seus netos: Humberto e Guy, de doze e onze anos respectivamente; Jaquelina, Luiz (Lulú), de quatro anos e Lia (órfã, criada pela avó), desenha-se um ambiente propício às brincadeiras da infância e passeios nos arredores da aldeia, cujo marco é a torre de um castelo misterioso. Ali, habita uma menina triste e solitária, identificada por Amiga. Seu convívio diário restringe-se à Dama Branca, espécie de fada misteriosa, e dois serviçais de nome hindu: Hadja e Haroudi.

Já por ocasião da apresentação dos personagens, assinala-se um certo clima de mistério, pois Madame Breymond tivera dois filhos, o pai de Lia, e um segundo filho, que também tivera uma menina, os quais a avó evitava rememorar. Moraram na Índia, casaram-se e tiveram filhas, a que deram o mesmo nome: Lia. Todavia, após um massacre, apenas Lia sobreviveu, vivendo desde então sob a guarda da avó, Madame Breymond. O enredo ganha densidade à medida que as crianças tentam se aproximar da torre misteriosa. Lia é bem-sucedida e conquista a amizade da menina triste e solitária. Todavia, como na tradição dos contos maravilhosos, há obstáculos para evitar a aproximação: Lia é raptada por um dos criados e passa alguns dias isolada em uma cabana. Resgatada, a avó revela-lhe o segredo do massacre, que guardara para si há muito tempo. Ao reunir evidências, Lia descobre que a menina da torre é a sua prima e a Dama Branca, a sua tia, visto que ambas sobreviveram ao massacre. O mistério é desfeito pela protagonista, que ousou enfrentar o mistério da torre, e a família reúne-se, enfim, em um clima de alegria e encantamento. Prevalecem ao longo do enredo o sentimento de sacrifício e a noção de virtude. Por último, acompanha-se o fecho das histórias tradicionais: e foram felizes para sempre.

Temas, personagens, ambientação transfigurados em `A La Conquete Du Mystérieux Donjon serviam ao imaginário das moças francesas. Por meio do trabalho de tradução realizado por Raquel de Queiroz, foram deslocados, de modo a se adaptar à cultura brasileira dos anos de 1930 a 1950. Necessário observar, contudo, um aspecto contraditório no que diz respeito a deslocamentos culturais: a intelectual, ela própria, talvez se sentisse deslocada no ambiente da metrópole, visto que, em depoimentos, era recorrente a menção as suas origens nordestinas, de valor provinciano.

Em 1915, papai já deixara a cidade e estava muito interessado no sertão, onde mandara fazer umas plantações de arroz. Mas então veio a seca, ele perdeu a plantação e quase todo o gado. É a história que conto em O Quinze, embora na época eu só tivesse quatro anos. Mamãe sempre sonhou em vir para o Rio – como todas as moças e senhoras daquele tempo -, engraçado, hoje as moças da província não têm mais aquele desespero em vir para o Rio. Mas é que o salto qualitativo era muito grande, então. O Rio de Janeiro era o paraíso, a cidade maravilhosa, a vida social, teatro, cinema e não se tinha nada disso na província. (Queiroz e Queiroz, 1998, p. 15-16) (grifos meus).

Rachel de Queiroz tornara-se escritora exclusiva da Livraria José Olympio Editora desde o lançamento do romance Caminhos de Pedra, em 1937. Todavia, destacara-se também no trabalho de tradução da Casa. Ao comentar o caráter polígrafo de sua produção, rememora:

Já então minhas relações com a Casa não eram simplesmente de editor e autora. Passei a ser tradutora efetiva, um livro atrás do outro e recebendo uma retirada mensal. Às vezes me ocorre fazer uma conta dos livros que traduzi nesse período. Adestrei-me no inglês, no qual até então era fraca, desde que Vera Pereira, mulher de José Olympio, assumiu a escolha de autores a traduzir (...). Eu trabalhava regularmente oito a dez horas por dia; nisso ganhava a vida e a única vantagem que levava sobre os funcionários da firma é que trabalhava em casa (Queiroz e Queiroz, 1998, p. 187).

Os títulos da Coleção Menina e Moça, anunciados na folha de rosto da obra examinada, ilustram com propriedade a inserção da escritora na reescrita dos romances franceses para a mocidade brasileira. Na relação de trinta e quatro volumes que compuseram os primeiros volumes da coleção traduzidos para o português, Rachel comparece em oito: Aventuras de Carlota (1947); O Quarto Misterioso (1947), A Casa dos Cravos (1948); A Afilhada do Imperador (1950), A predileta (1950) e A Deusa da Tribo (1950).

Considerações Finais

Na configuração do papel intelectual de Rachel de Queiroz destaca-se, de um lado, a romancista comprometida com a sua origem, com os assuntos políticos e sociais que marcaram a sua obra desde o período de estreia, aos 19 anos, com o antológico romance O Quinze, retrato da seca e das vicissitudes enfrentadas pelo nordestino. De outro, sobressaem as crônicas jornalísticas e os textos em revistas ilustradas, exercício quase diário da escritora, primeira mulher a ingressar na ABL, quando esse espaço era ainda exclusivo do homem de letras. Todavia, e não menos importante, a intelectual projetou-se e afirmou-se financeiramente, sobretudo nos anos de 1940, graças ao papel de destaque como tradutora de inúmeros títulos para a Casa, dentre eles, como se pôde acompanhar, os romances que educariam “o entre-aberto botão e entrefechada rosa” em contexto brasileiro.

No que diz respeito ao intelectual José Olympio, embora tenha apostado em traduções de romances, que alimentaram o imaginário de mulheres leitoras desde a sua entrada no campo editorial em ascensão na capital da república, aos 32 anos de idade, foi melhor reconhecido como o editor da literatura brasileira, o incentivador da cultura nacional. Ao optar por uma estratégia de suposta neutralidade políticaxii, passa a ser autorizado, segundo tal representação, a editar autores e obras dos mais variados assuntos e vieses políticos. Inclusive, os romances “açucarados” para a mocidade feminina.

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Fontes documentais:

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QUEIROZ, Raquel de. Louvação do bom livreiro, 23 de abril de 1949, FUNDO Raquel de Queiroz. COLEÇÃO ALBA FROTA. RECORTES DE JORNAIS / O POVO - ANO 1949. Instituto Moreira Salles.

i Conforme Hallewell (1985) aponta, a publicação de obras para crianças por parte da Livraria José Olympio Editora foi pouco expressiva, quando comparada com o conjunto de sua produção. Indica também uma lacuna na produção da Coleção Menina e Moça, de 1934, ano do seu lançamento até 1940.

ii Sobre o papel dos intelectuais no campo da cultura, consultou-se, em especial, Sirinelli, Jean-François. Os intelectuais. In: Rémond, René (org.). Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 2010, p. 231-269 e Miceli, Sérgio. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

iii Ver a esse respeito, em especial, Hallewell (1985) e Miceli (2001)

iv Conforme indica Halewell (1985), ao se mudar de São Paulo para o Rio de Janeiro, o editor expande os negócios editoriais em proporções que merecem destaque. Na ocasião, o mercado para essa literatura estava crescendo rapidamente. Alguns dados são esclarecedores: o editor, em 1933, lançara apenas oito livros; em 1934, publicou trinta e dois; em 1935, cinquenta e nove e, em 1936, foram lançados sessenta e seis novas edições da José Olympio, o que permite considerá-lo o maior editor nacional no campo de edições literárias e livros não didáticos no período examinado. (p.356-357).

v Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, em 17 de novembro de 1910 e faleceu em 04 de novembro de 2002 no Rio de Janeiro, aos 92 anos de idade; José Olympio Pereira Filho nasceu em Batatais, São Paulo, e faleceu em 3 de maio de 1990 no Rio de Janeiro, aos 88 anos de idade.

vi A esse respeito conferir: entrevista da autora em cadernos de Literatura Brasileira e entrevista de Rachel de Queiroz a Carlos Cinira. Correio do Ceará: órgão dos Diários Associados – Fortaleza – Sábado, 20 de julho de 1963 – COORDENADORIA DE LITERATURA – COLEÇÃO ALBA FROTA - 1927-1967 - Caixa: recortes sobre Raquel de Queiroz reunidos por Laudomiro Pereira.

vii Conferir, em especial, Bezerra, Elvia. Nata e Flor do Nosso Povo. Introdução. In: Queiroz, Rachel. Mandacaru. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010, p. 9-54.

viii Conforme se lê na cronologia organizada pelos Cadernos de Literatura Brasileira, em 1961, ao recusar o convite do presidente Jânio Quadros para ocupar o cargo de ministra da Educação afirmara: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”. (p.13). Acresça-se que, em 1944, de colaboradora do Correio da Manhã, O Jornal e Diário da Tarde, Rachel passa a cronista exclusiva da Revista O Cruzeiro, onde inaugura à sessão A Última Página. Será colaboradora da revista até 1975.

ix Louvação do bom livreiro. Raquel de Queiroz, 23 de abril de 1949, FUNDO R. Q. / COLEÇÃO ALBA FROTA. RECORTES DE JORNAIS / O POVO - ANO 1949. Instituto Moreira Salles.

xConferir a este respeito Villaça, Antônio Carlos. José Olympio: o descobridor de escritores. Depoimentos dos acadêmicos em sessão especial na ABL, de 26.04.84, orelhas do livro. Rio de Janeiro: Thex Editora, 2001, assim como Ramos, Graciliano. A Livraria José Olympio. IN: Ramos, Graciliano. Linhas Tortas. Rio de Janeiro: Record; São Paulo: Martins, 1976, p. 121-122

xi O exemplar examinado VERDAT, Germaine. A Conquista da Torre Misteriosa ( 1948). Título do original francês: À La Conquete Du Mystérieux Donjon; Coleção Menina e Moça. Tradução de Rachel de Queiroz, 2ª edição, vol. 24, Rio de Janeiro, 1951, 154p. ASPECTOS MATERIAIS: Livro encadernado, contendo dois títulos: A Conquista da Torre Misteriosa e Os Robinsons da Montanha(1948), ambos traduzidos por Rachel de Queiroz. Constituído de 12 capítulos e um epílogo: 1- À sombra do castanheiro; 2-Folheando o álbum de vovó; 3-A caminho da aldeia;4- Uma merenda movimentada;5- A história de Humberto; 6-O aniversário de Lia; 7-Dois encontros no bosque; 8-Novas visitas à torre; 9-A Dama Branca;10- Dias sombrios; 11-Encontrada;12- No qual Lia se recorda de que devemos perdoar aos nossos inimigos; 13-Uma visita à Ermida; 14-Amiga adoece e Lia desobedece;15- O que estariam dizendo?; 16-Levanta-se uma ponta do véu;17- O fim de uma história; Epílogo – A conquista da torre.

xii O papel político exercido por José Olympio ao longo do seu trabalho como editor tem merecido atenção. Remeto, em especial, à leitura do trabalho desenvolvida por Gustavo Sorá. A arte da amizade: José Olympio, o campo do poder e a publicação de livros autenticamente brasileiros. In: Anais do I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 2004, p.1-19.




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