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JOHN KILGALLON


A PROFECIA
Tradução de Heloísa Mourão
EDITORA RECORD

2013



Para Sean, Marilyn, toda a minha família e os amigos próxi­mos, e em memória de minha mãe e meu pai. Tenho certeza de que todos fariam um brinde e sorririam ao ver uma nova vida sendo insuflada em um velho nome.


Capítulo Um
ONEIDA, ESTADO DE NOVA YORK, NOVEMBRO DE 2007
Sam Tynnan não fazia idéia do quão perto estava da morte; afinal, ele se habituara a escrever tais situações para seus personagens, não para si. Mas naquele momento ele estava tenso, a respiração presa por uma razão inteiramente diferente; tudo à sua volta parecia subitamente suspenso: o sussurro distante do vento nas copas das árvores à beira da floresta, a 100 metros da casa; um cão latindo em algum lugar ao longe; os acordes abafados do "Concerto de Aranjuez", na gravação de Paco de Lucia, na sala ao lado.

Em suspenso, em expectativa — as ávidas esperanças e ambições dos últimos 18 meses agora concentradas em apenas alguns momentos —, enquanto Sam Tynnan vasculhava em sua mente o parágrafo perfei­to com o qual concluir o livro que poderia torná-lo um milionário.

Mais que muitos, Sam sabia que se tratava de uma loteria. Após nove anos escrevendo sem parar, ele sabia que um manuscrito podia trazer qualquer coisa, desde um telegrama de rejeição de 20 centavos, passan­do por adiantamentos que sequer dariam para alimentar uma secretária por um mês, até chegar a valores de cinco, seis dígitos, do mais baixo ao mais alto, até o topo: adiantamentos de sete dígitos.

Seu agente, Elliot "Elli" Roschler, leu os resumos iniciais de Sam e pareceu realmente empolgado. "Pelo visto, esse aqui pode ser o grande trunfo." Mas o próprio termo mudara de significado nos últimos anos. Desde a publicação de O Código Madalena, de Adam Dayne, o mercado foi virado de ponta-cabeça. Subitamente, suspenses religiosos e mitoló­gicos se tornaram a febre do mês e do futuro próximo. O próprio Dayne ganhara mais de 40 milhões de dólares com o livro, mas também houve uma série de adiantamentos estratosféricos e royalties.

Sam observava as palavras na tela de seu computador com a devida reverência. Nunca mais preocupações com hipoteca e faturas do cartão de crédito, nunca mais se estressar com o dinheiro e o tempo perdido com folgas, nunca mais ter que perguntar a Kate se ela podia esperar pelo pagamento da pensão até o próximo adiantamento ser depositado.

Parecia tão próximo agora, tão tangível e real. Ele imaginava a exultação de Elli quando estivesse concluído e ele lesse. Alguns dias depois, os telefonemas começariam: a primeira proposta, coberta por uma ou duas outras, e depois algum malabarismo e Elli confrontando editores, colocando lenha na fogueira para o leilão final.

Contudo, embora as cifras alucinantes que Elli projetara parecessem irreais — especialmente após um período tão longo de bloqueio criativo —, uma parte de Sam sentia que não apenas eram reais, como se meta­de já estivesse depositada no banco, mas que também eram totalmente merecidas.

Isso porque aquele livro em particular tinha sido uma batalha. Uma batalha mais dura que qualquer outro livro que ele já havia escrito.

E seu escritório doméstico estava coberto de escombros daquela batalha: capítulos e segmentos escritos e reescritos, desconstruídos e reconstruídos, rabiscos como teias de aranha pelas margens, muitas vezes prolongando-se para o verso das páginas; incontáveis blocos de anotações, que o acompanhavam até em compras e jantares e ficavam junto à sua cabeceira toda noite, pelo medo de que uma corrente de idéias o atingisse e ele não conseguisse recuperá-la depois da mesma maneira.

Em seguida, havia a montanha de livros e papéis: 14 volumes só de Nostradamus, a Bíblia e o Corão, o Talmude, de Steinsaltz, os Hadith, de Bukhari, o Aqeedatut, de Tahawi, a Vulgata Clementina e incontáveis relatórios, comentários e citações da internet.

Mas a outra razão pela qual Sam sentia merecer isso agora era por­que, após todos aqueles anos escrevendo, ele sabia que idéias tão boas como aquela raramente surgiam. Na verdade, em geral elas não surgiam de jeito nenhum. Se por acaso ele não tivesse topado com uma passa­gem de Nostradamus enquanto pesquisava outra coisa, e depois associa­do aquilo a uma cadeia de eventos atual, talvez jamais teria concebido tal idéia. Surgindo apenas quatro meses após a morte de sua mãe, era como se ela estivesse dando uma força do céu. "Aqui está. Aqui está a peça do quebra-cabeça de sua vida, que estava perdida há tanto tempo."

Tão tangível, tão real agora. Tão perto. Sam estendeu a mão e tocou a tela, como se aquele contato físico pudesse ajudar no fluxo das últimas palavras. Somente mais algumas linhas e ele finalmente acabaria.


— Por que a demora?

  • Não sei. — O técnico em computação, com cerca de 20 anos, ergueu os olhos apenas brevemente de sua tela. Ele deu de ombros e sorriu, constrangido. — Leva tempo para terminar um livro, acho.

  • Você acha, não, Cali? — Havia 12 anos entre eles, mas, acima de tudo, havia três níveis hierárquicos. O sorriso do homem mais jovem se dissipou quando seu chefe de seção se inclinou sobre sua mesa. — Por que não faz um favor para mim e para todo o resto e nos lembra do que dizia o último comunicado?

Havia outros seis homens na sala — um armazém sujo de pare­des nuas, com uma mesa, um computador, três cadeiras e dois bancos como única mobília. Ninguém disse nada, mas houve alguns sorrisos amarelos.

Os outros estavam com Washington havia mais tempo; tempo su­ficiente para não cometer certos erros. Ou talvez porque eles eram a vanguarda de qualquer operação. Um deslize na opinião de Washington e ele faria questão de que você fosse o primeiro a entrar por qualquer porta, o primeiro na linha de tiro.

E também porque agora eles estavam em meio à última cena de uma operação; longos meses de planejamento finalizado em algumas horas, e depois os frenéticos últimos minutos, em que um passo em falso ou um tropeço de uma fração de segundo invariavelmente significava a morte. Não havia segundas chances.

Washington, Cali, Ohio, Illy, Montana, Utah, Nevada, Texas... Quan­do sua seção foi montada 15 meses antes, foi oferecida a escolha de um nome de estado a cada um deles para ocultar suas identidades.



  • Escolham qualquer um que queiram; mas não o estado em que moram. E não Washington; este já está tomado. Sou eu. — Logo de en­trada, um claro lembrete das posições hierárquicas. E estados de três ou quatro sílabas podiam ser encurtados para apelidos fáceis, mas Washington não.

Cali apontou um dedo para sua tela.

  • Aqui diz em seu último e-mail... "Estou na página 434, agora só falta mais uma ou duas para fechar. Espero terminar nesta tarde ainda e lhe mandar tudo antes que você saia."

  • E a que horas foi isso?

  • Foi às 14h18.

Washington olhou seu relógio.

  • Três horas e meia para escrever só uma ou duas páginas?

  • Os finais talvez sejam como os começos, imagino: a parte mais difícil. E preciso ter certeza de que tudo está amarrado direito, sem pon­tas soltas. E depois dá-se uma polida final e... — Cali se deteve quando percebeu o olhar congelante de Washington. Ele assentiu. — Mas, sim, é um longo tempo.

Os outros seis continuavam sem dizer nada, fora um vago arrastar de pés, um rangido num banco. O peso de um corpo trocando de perna, a inquietação se instalando profundamente. Já fazia mais de três horas que estavam esperando no fio da navalha, e agora talvez tivessem mais uma ou duas pela frente.

Quadrados, com ombros largos, seus coletes Kevlar faziam com que eles parecessem ainda maiores. A única luz na sala vinha de uma lumi­nária de mesa junto ao computador e, com suas fardas negras de com­bate, eles eram sombras agourentas.



  • Algum indício de que Roschler já tenha saído de seu escritório? — perguntou Washington.

  • Na verdade, não. Tudo que seu link diz é que ele está on-line, mas talvez esteja longe do computador. O que poderia significar qualquer coisa: que está apenas fazendo outra coisa em sua mesa, que está em outro lugar do escritório ou que saiu mesmo, mas deixou o computador ligado à noite para se conectar com ele de um computador em casa.

Nevada, o líder da tropa de assalto e segundo em comando abaixo de Washington, falou pela primeira vez.

  • Se ele se conectar de um computador em casa, isto significará uma virada de último minuto da qual Wyo não vai gostar nem um pouco.

  • Pois é, eu sei. — Washington fez uma careta.

Wyo, chefe do segundo time, estava esperando com a mesma tensão a 600 quilômetros de distância. E, embora eles tivessem previsto aquela e uma série de outras eventualidades, era um sutil lembrete de que algo ainda podia dar errado.

Entretanto, graças a seus vários anos dirigindo operações como esta, Washington conhecia o peso por trás daquele comentário: consolar a todos naqueles últimos momentos tensos, sabendo que alguém, em al­gum lugar, estava sob um perigo maior e com muito mais em jogo se tudo saísse errado.



Washington sabia que, mais que em qualquer outra operação, isso estava longe de ser verdade neste caso.
— Onde você está agora?

  • Estou atravessando a 38. — Olhando através da janela de seu táxi, Elli Roschler percebeu a insinuação de Sam. — Mas, se eu voltar agora para bus­car, chegarei atrasado neste jantar. — Elli checou seu relógio. — Pelo visto, já estou alguns minutos atrasado, até. Eu busco logo depois... Não deve durar mais que algumas horas. Você disse que mandou há três minutos apenas?

  • Foi. Eu liguei para o seu escritório primeiro, para ver se tinha chegado bem.

  • Por pouco não me pegou lá. E hoje à noite Maggie saiu dez mi­nutos antes de mim. — Elli soltou um suspiro lento e satisfeito. — Ora, ora, Sam. Terminado... Terminado! Você deve estar no sétimo céu. — Elli riu. — Isto é, depois que você se belisca e desperta daquela névoa de irrealidade de realmente terminar.

  • Algumas doses de Carlos Terceros devem fazer isso por mim.

  • Vou fazer um brinde a isso também no jantar.

  • Algo empolgante?

  • Não, na verdade não. Só farpas, tudo biográfico. Estrela de no­vela decadente. A mãe batia e abusava dela, depois vieram as drogas e a bebida, que ela atribui à mãe. Alcoólicos Anônimos e reabilitação, se casa e depois descobre que é lésbica, mais drogas e reabilitação. Ah, e o cachorro dela, por causa do trauma disso tudo, também está em terapia agora. Sabe como é, a típica história de sucesso americana.

Ambos riram. Nos últimos nove anos de sua sociedade, eles se tor­naram mais que apenas agente e cliente, tornaram-se amigos íntimos. Elli e Mike Kiernan — um escritor conhecido de Sam e também mora­dor de Oneida, Nova York — foram os primeiros a oferecer suas condo­lências e ombros onde chorar quando, três anos antes, Kate abandonou Sam e partiu para a Costa Oeste com o filho deles, Ashley, na época com apenas 6 anos, para lutar por sua carreira. Após um período dig­no de luto pelo relacionamento, os amigos de Sam fizeram o máximo para bancar os cupidos para ele. Contudo, os encontros invariavelmente faziam com que ele se sentisse ainda mais solitário e fora de rumo, pen­sando em como os casamentos de Elli e Mike haviam resistido ao teste do tempo, com seus lares repletos de provas fotográficas disso: aniversá­rios de casamento, férias em família, natais e festas de aniversário com os filhos e filhas. Mas Sam sabia que eles tinham boas intenções. Eram bons amigos. E, graças a Deus, tudo aquilo acabou quando Lorrena en­trou na vida dele, havia um ano.

  • Ouso dizer que você erguerá uma ou duas taças de champanhe com Lorrena esta noite, não? — indagou Elli.

  • Sim, sem dúvida.

Sam olhou para o relógio. Ainda faltava cerca de uma hora para a chegada dela. Recentemente, ela começara a ter aulas noturnas de italia­no; um súbito desejo de aprender a língua original de seus pais.

  • Eu vou buscar o livro na volta do jantar e começo a ler hoje mes­mo. E me parece um desses de virar a noite. — Elli riu, depois ficou mais sério. — E... Sam?

- Sim?

  • Parabéns. Porque eu sei que, em certos momentos, isso não foi fácil para você.

  • Obrigado. — Sam suspirou, como se finalmente se livrasse do res­tante daquele fardo. — Eu só espero que você ainda diga "parabéns" depois de ler.

  • Tenho certeza de que direi... Certeza.

Depois que eles se despediram, a casa ficou ainda mais parada, mais silenciosa. Não havia outra pessoa com quem falar até que Lorrena che­gasse e nenhum outro manuscrito no qual mergulhar. Ele havia termi­nado! De repente, Sam se sentia num descampado, ligeiramente vazio, como se alguém muito próximo com quem ele falava todos os dias ti­vesse acabado de partir; na verdade, era exatamente como ele se sentira depois que Kate foi embora com Ashley.

A televisão estava num canal de notícias, no mudo. Sam muitas ve­zes fazia isso para aliviar a solidão; lhe dava a sensação de estar ligado e de ser parte do mundo lá fora, mas sem suas perturbações. O CD de música clássica que estava ouvindo chegou ao fim.

Ele foi à sala de estar para colocar outro disco. Agora queria algo com energia para arrancá-lo de seu desânimo, para começar a comemo­rar o fato de que ele realmente, finalmente, havia terminado. Encontrou The Police — Greatest Hits, o quinto disco na estante. Perfeito. Este o levava de volta à adolescência. Sam escolheu a quarta faixa, "Message in a Bottle", e foi dançando até a cozinha, cantando com o refrão enquanto pegava uma Budweiser na geladeira. Ele bebeu um gole enquanto rodo­piava de volta à sala.

Com o baixo e a forte percussão da música, ele não percebeu ime­diatamente o som de vidro quebrando; e, quando se deu conta, Sam virou a cabeça bruscamente na direção da cozinha — talvez a porta da geladeira tenha se aberto e derrubado uma das garrafas? Mas um óbvio feixe de luz cruzou a sala aleatoriamente e o desorientou, e ele mal começou a reagir à silhueta assomando em sua direção quando um braço se fechou em torno de seu pescoço, puxando-o novamente para trás.

O aperto era forte, rígido. De repente, Sam sentiu suas pernas como geleia derretida, prontas para ceder, mas o braço o manteve firme en­quanto ele era arrastado para trás, agitando-se desesperadamente para continuar de pé, até seu escritório.


  • Khoob, computeresh hanooz mutassil ast. Mokham giriftee-esh?

  • Baley, man daaramesh!

Agora Sam podia ver mais dois homens: um deles tomando o lugar diante do computador, outro no extremo da sala junto à porta da frente, sem dúvida para o caso de ele julgar que fugir por ali era uma opção. Sam não entedia o que eles estavam dizendo, mas ouvira o bastante du­rante os últimos 18 meses de pesquisa para reconhecer a língua: árabe ou farsi. Mas o homem no computador agora se dirigia a ele em inglês.

  • O livro que você acabou de terminar. Para quem o mandou até agora?

  • Eu... não sei — gaguejou Sam. — Não consigo lembrar agora.

Ele estava em choque, mas outro pânico se ergueu subitamente: se eles tirassem os arquivos de A profecia do computador e conseguissem a cópia de Elli, seria o fim. Não havia nenhuma outra cópia lá fora.

  • Vamos tentar de novo, pode ser?

Um sotaque carregado, mas ainda assim era inglês americano — como se eles fossem imigrantes árabes de Nova York ou Buffalo, que chegaram ao país entre cinco e dez anos antes. Não eram as cadências claras, mas assoviadas, dos sauditas e egípcios com quem ele falou durante as pesquisas.

Sam sentiu o ar escapar de seu peito quando suas costas atingiram o chão e um dos homens se sentou sobre ele, imobilizando-o. Uma das mãos se fechou com força em sua garganta e uma arma se colou em seu rosto, com o cano a apenas alguns centímetros longe de seu nariz.



  • Onde, senhor? Onde? — gritou o homem que o imobilizava, fa­lando pela primeira vez. O homem no computador ficou repentinamen­te concentrado, os olhos fixos na tela enquanto filtrava os arquivos de Sam. A arma foi engatilhada.

Ele achou a última cópia! E Sam não podia mandar um bando como aquele no encalço de Elli. E se fossem para a casa dele quando Miriam e as crianças estivessem lá, e...?

O fôlego de Sam o abandonou num soluço trêmulo quando o gati­lho foi acionado com um só clique. A risada do homem no computador dominou o vazio ecoante.



  • Onde você comprou essa arma, Hadi? Num mercado de Gaza?

  • Nunca deu defeito antes.

A arma foi empurrada para mais perto, e o sorriso do homem desapareceu quando seus olhos assumiram uma nova e fulminante intensidade.

  • Pela última vez, onde... onde?

O homem no computador já tinha aberto o histórico de e-mails, e Sam percebeu a futilidade de resistir; de qualquer maneira, eles encon­trariam em alguns segundos.

  • Elliot Roschler, meu agente. Eu mandei uma cópia para ele há pouco tempo.

Algumas teclas digitadas e depois um lento suspiro do homem do computador.

  • Ok, está aqui. Elli Roschler. Enviado há nove minutos. — Um discreto meneio de cabeça para o homem da porta da frente, fora do campo de visão de Sam, e depois ele se voltou levemente para Sam outra vez. — Mais alguém?

Sam pensou por um momento.

  • Não... não. Isso é tudo.

  • E nenhuma outra cópia enviada a Roschler antes?

  • Ah, espere; sim. — Sam recordou subitamente. — Um esboço c os três primeiros capítulos quando comecei; e depois este, há alguns minutos.

A mão apertou sua garganta com mais força, como se o punisse pelo esquecimento momentâneo, e o sorriso feroz do atirador se abriu nova­mente enquanto o cano frio da pistola se enterrava sob seu olho esquer­do. Sam tremia, e a trepidação de seu corpo agora beirava a convulsão.

  • E ninguém mais?

  • Não, ele foi o único. Ninguém mais.

  • E, além da cópia impressa que vemos aqui — o homem do compu­tador gesticulou na direção dos papéis espalhados pela mesa e numa estante lateral —, alguma outra cópia em disco ou CD?

  • Não, não... é só isso. — Sam engoliu em seco, sentindo seu pomo de adão pulsando contra a mão fechada sobre sua garganta. — Está tudo aqui.

  • Soa como uma história furada para mim — disse o homem ar­mado. — Nenhuma outra cópia enviada durante todo esse tempo. E ne­nhuma cópia em disco.

O homem do computador ergueu uma sobrancelha intrigado, e após um segundo fez que sim enquanto se voltava mais uma vez para a tela.

  • Onde mais, filho da puta? Onde mais? — berrou o atirador, e Sam sentiu parte da saliva aterrissando em seu rosto. — Tem que haver outras cópias em algum lugar.

  • Não, não tem mais nenhuma, eu juro!

No extremo da sala, o terceiro homem falava em farsi com alguém ao celular. Sting cantava sobre mandar um S.O.S para o mundo, mas ninguém estava escutando.

O gatilho foi puxado. Outro estalido vazio.

Sam engoliu de volta a bile amarga.

O homem do computador riu.



  • Essa é uma arma realmente vagabunda, Hadi.

  • Ou talvez eu simplesmente não tenha carregado balas suficientes. — Um sorriso torcido e condescendente do atirador.

  • Ah, a velha tática da roleta-russa. Nunca falha.

  • Só que não estou lembrando quantas balas coloquei nela, se duas ou três. — O sorriso se ampliou, mas os olhos continuavam gelidamente fixos em Sam.

  • Logo vai chegar numa delas, imagino.

  • Sim.

Terminando sua ligação, o terceiro homem se aproximou com um triturador de papéis, ligou na tomada e começou a passar as páginas soltas do manuscrito na mesa e na estante lateral de Sam.

A arma foi engatilhada novamente.



  • Pela última vez: quem mais? — O atirador o encarava malevolamente, e todos os traços de humor, provocação ou qualquer outra coisa desapareceram de súbito. — E pense com muito cuidado antes de res­ponder dessa vez.

  • Eu juro, mais ninguém. Ninguém! — Sam voltou o olhar suplicante para o homem ao computador, sentindo que, no final das contas, era ele quem dava as cartas. — Nós tivemos que manter tudo em sigilo com este livro... como vocês podem imaginar.

Os olhos do homem no computador o fitaram longa e intensamen­te. Depois, após um momento congelado que pareceu durar uma vida inteira, outro suave meneio de cabeça.

  • Sim, eu posso imaginar, Sr. Tynnan. — Ele piscou lentamente e suspirou. — Acho que ele está dizendo a verdade, Hadi. Então acabe logo com isso. — Ele se voltou para o computador, como se Sam já não tivesse qualquer relevância, e inseriu um disco de inicialização para apa­gar o HD por completo.

O coração de Sam se apertou. Ele deveria ter imaginado que eles o matariam de qualquer jeito assim que tivessem o que queriam. Um se­gundo antes, ele se agarrava desesperadamente a 18 meses de trabalho, mas agora a própria vida escapava de suas mãos. Lágrimas transborda­ram de seus olhos, a arma e o homem atrás dela subitamente nublados por elas.

  • Por favor!suplicou ele, mas sua voz soou distante, desencarnada.

  • Claro, se agora vier uma bala — disse o atirador, ignorando-o.

  • Oh, Hadi, você não tem coração... Já basta de tortura por hoje.


Capítulo Dois
LONDRES, INGLATERRA
— Houve outro aumento de atividade, Adel.

  • Quanto?

  • Quatorze por cento desde ontem.

Adel concordou, pensativo.

  • E quanto às outras seções da TAME?

  • A seção um está apenas despertando. Mas para as TAMEs três até sete, praticamente a mesma coisa. Algumas até chegaram mais alto.

Adel passou um olhar breve pela sala: outros 79 computadores, cada um com seus próprios operadores e a maior parte do texto nas telas em árabe, farsi ou urdu.

Antes do 11 de Setembro, havia menos de quarenta agentes traduto­res de árabe entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. A rede Echelon podia filtrar milhões de mensagens de telefones e e-mails pelo mundo afora e passar adiante para a NSA e o GCHQ e, por sua vez, para a CIA e o MI5; mas, quando palavras-chave do árabe, do farsi e do urdu foram acrescentadas ao caldeirão, o fluxo extra de mensagens teve que ser lido e analisado. E isso virou metade do problema. Atolados pelo repentino dilúvio de "atividade" em língua árabe na seqüência do 11 de Setembro, aqueles agentes se viram incapazes de selecionar e encontrar as poucas mensagens vitais — ao menos a tempo.

Eles não pretendiam cometer aquele erro novamente.

Adel Al-Shaffir chefiava o TAME2 — ele era natural de Dumyat, Egito, mas, desde seus dias de LSE nos últimos vinte anos, considerava-se praticamente londrino. Sua contraparte, Jalil El-Abinah, natural de Nova Jersey e filho de pais libaneses, chefiava o TAME1 em Nova York. O TAME3 ficava em Paris, o 4 em Berlim, o 5 em Madri, o 6 em Roma, e os outros 12 TAMEs — Centros de Monitoramento e Avaliação de Atividade Terrorista — estavam espalhados entre Tel Aviv e Jacarta.

O recrutamento fora fundamental. Nações árabes como Egito, Jor­dânia e Arábia Saudita tinham um forte interesse particular em com­bater o terrorismo. Mas, por outro lado, Arafat era meio egípcio, Al-Zaqawi era jordaniano e Bin Laden era saudita. E se eles recrutassem um agente infiltrado, alguém trabalhando para que as mensagens vitais fossem ignoradas? Assim, além de um estrito processo de seleção, as áreas de responsabilidade eram trocadas regularmente, para que fosse quase impossível que uma célula terrorista tivesse a garantia de que suas mensagens alcançariam um computador "simpatizante".

Poucos sentiam a pressão mais que Adel Al-Shaffir, responsável por esta sala repleta em sua maioria de muçulmanos equilibrados sobre uma ética dúbia: por um lado, eles estavam rastreando bandidos; por outro, estavam traindo seus iguais.

Assim, Adel tinha que agir não apenas como chefe, mas como um conselheiro, amigo e confidente, tendo que ser próximo o bastante para perceber quando aquela ética moral se tornava pesada demais para eles. Consequentemente, o sigilo era mais vital em seu departamento que em qualquer outro: eles nunca podiam falar do lado de fora sobre o que faziam. Pois, embora estivessem de acordo com aquela ética, talvez outros adotassem um ponto de vista diferente — e falar sobre o trabalho poderia ser sua sentença de morte.

Em certos momentos, a pressão era demais para Adel — equilibran­do não apenas sua própria vida e ética nebulosa, mas as de todos os seus homens —, e trazia um tremor às suas mãos e o fazia acordar coberto de suor frio no meio da noite. Ele tinha deixado escapar alguma coisa?

Adel considerou as estatísticas. Quatorze por cento? Isoladamente, não era um número tão preocupante. Mas, todos os dias durante uma semana, houve aumentos de dez ou 11 por cento, com aumentos de cin­co e seis por cento ao longo de alguns dias antes daquilo. Um conside­rável aumento total de 120 por cento. Algo estava acontecendo lá fora.
Sam ouviu o disparo desta vez, sentiu o calor pegajoso do próprio san­gue em seu rosto e pescoço. Mas a dor parecia ser no peito e não na cabeça, e o homem que o imobilizava estava caído sobre seu corpo.

E, através de uma névoa borrada, aquosa — parte do sangue correra sobre seus olhos —, ele ouviu novos tiros e uma atividade frenética: uma correria de passos e vozes incisivas e urgentes, o homem do computador erguendo a arma apenas um segundo antes de dois tiros atravessarem seu peito e o atirarem 1 metro para trás; três outros tiros de algum lugar mais interno da sala, fora de vista — um dos disparos retumbando no corpo caído sobre ele, pois Sam sentiu que ele se movera 1 centímetro; talvez um último espasmo de morte, e não uma tentativa de reerguer-se.

E logo uma figura fardada para o combate se inclinou acima dele.


  • Você está bem? — Uma das mãos agarrou o ombro do corpo so­bre ele e o puxou bruscamente para o lado.

  • Sim, eu... eu acho que sim. Por... por um minuto eu pensei... — Ele engoliu de volta o gosto azedo causado por um pouco de sangue que havia penetrado em sua boca. Com urgência e desespero, Sam tentava ajustar-se ao que havia acontecido, enquanto seu coração ainda dispa­rado tatuava a mensagem em sua mente: ainda vivo, ainda vivo... vivo! — Aquele... aquele...

O homem segurou o ombro de Sam, afagando-o em consolo.

  • Não se preocupe, você está bem! Fique tranqüilo. — Ele exami­nou rapidamente o corpo de Sam para garantir que não havia deixado passar nada em sua primeira avaliação. — Chegamos aqui na hora H.

  • É o que parece mesmo, Sr. Tynnan — acrescentou outra voz.

O homem que falou era um quarentão robusto e tinha um toque grisalho nas têmporas e um saudável bronzeado, como se ele o manti­vesse com viagens regulares à Flórida ou à câmera de bronzeamento da academia local. Ele usava a mesma farda de combate que os outros, mas sem o rifle automático ou o capacete, e seu colete estava aberto no alto para revelar uma imaculada camisa branca e a gravata abaixo. Como se aquilo fosse apenas um desvio cansativo de seus deveres no escritório.

Nevada se pôs de lado e começou a dirigir seus homens na limpeza enquanto Washington se agachava, assumindo seu lugar.



  • Na verdade, planejávamos chegar aqui mais cedo. — O sorriso fá­cil de Washington se torceu numa careta tensa. — Já estávamos de olho neles há algum tempo, mas ainda assim nos pegaram de surpresa. Nosso plano era abatê-los quando ainda estivessem em sua porta dos fundos, e não aqui dentro com uma arma em sua cabeça.

Sam se sentou, enxugando o sangue dos olhos. Washington ofereceu um lenço, que Sam usou para limpar o restante com um agradecido meneio de cabeça.

  • Eles? — Sam passou os olhos pelos corpos próximos, um deles sendo fechado num saco plástico funerário.

  • Uma célula extremista do jihad. Como eu disse, há algum tem­po que os rastreamos. — Washington suspirou discretamente. — E há algum tempo que eles estão rastreando você, também. Verificando seus e-mails enviados e recebidos, qualquer coisa que eles pudessem desco­brir a ver com A profecia. Foi por isso que eles vieram agora: você man­dou a cópia final para Roschler.

Sam balançou a cabeça enquanto tentava dar algum sentido àquilo tudo. Uma célula extremista do jihad? E agora um esquadrão antiterrorismo? Era demais.

  • Mas, se eles já sabiam para quem eu mandei o livro... por que fizeram todas aquelas perguntas?

Washington encarou Sam com sobriedade.

  • Ah, eles sabiam sim. Só queriam ver se você diria a verdade. E também queriam descobrir se havia qualquer disco solto ou cópias em papel que talvez não conhecessem. Se você mentisse sobre as cópias ele­trônicas das quais eles sabiam, então haveria uma boa chance de que mentisse sobre o resto.

Sam fechou os olhos enquanto um arrepio percorria seu corpo. Tudo aquilo acarretaria mais chantagens, mais roletas-russas e mais tiros de câmera vazia até que ele finalmente cedesse.

  • Elli! — Sam arregalou os olhos novamente, depois que a menção de Washington sobre Roschler avivou a lembrança. — Provavelmente eles mandaram gente para lá também. Vocês têm que alcançá-lo!

Washington ergueu uma das mãos tranquilizando-o.

  • Não se preocupe. Isso já foi providenciado. Outra de minhas equipes deve chegar lá em breve. — Washington afagou o celular no bolso da lapela. — Eles vão me ligar assim que tiverem notícias.

Washington perguntou se era possível que Roschler ainda estivesse em seu escritório, e Sam relatou a conversa de dez minutos antes.

Washington franziu o cenho.



  • Ao menos um consolo. Ele não estava lá quando o visitaram. Se visitaram.

Sam concordou vagamente. O problema era que, se eles de fato o tivessem visitado, a última cópia de A profecia estaria perdida. Dezoito meses de trabalho descendo pelo ralo. Entretanto, naquele momento, Sam recordou que tinha sorte por estar vivo; aceitar a perda de A pro­fecia e o provável naufrágio subsequente seria um segundo estágio. Um passo de cada vez.

  • Existe alguma outra cópia de A profecia lá fora, Sr. Tynnan? — perguntou Washington, provocando uma ruga na testa de Sam: reprise do interrogatório do pesadelo anterior? Washington ergueu a mão. — Eu preciso saber, Sr. Tynnan. Realmente preciso. Pois, se cópias lá fora, essas pessoas vão descobrir e vão atrás de você novamente. E, da próxi­ma vez, talvez não cheguemos a tempo.

Sam encarou Washington diretamente. Ele gostaria que houvesse mais cópias lá fora, mas ter uma arma apontada para seu rosto e agora o pânico de que a última cópia talvez já estivesse perdida dominavam sua mente, de certa forma. Com um suspiro exausto, Sam repetiu o que dissera sob a mira de um revólver: nenhum disco de backup, as únicas cópias eletrônicas estavam com ele e Roschler e não havia nenhuma có­pia completa em papel, apenas páginas soltas e fragmentos de capítulos.

  • O pouco que talvez não tenham destruído. — Pelo visto, ele teria sorte se restassem trinta páginas intactas.

Washington se uniu a Sam brevemente para revisar a mesa e a es­tante lateral.

  • E nada mais em qualquer outro lugar?

Mais uma vez, aquele inquietante déjà-vu quando os olhos de Washington se fixaram nos dele. Sam começou a balançar a cabeça, de­pois lembrou subitamente daqueles três primeiros capítulos enviados a Roschler.

  • ... Há quase um ano, e da mesma maneira: anexo de e-mail. Mas fora isso, nada mais. É só isso! — Sam suspirou, absorvendo a dura rea­lidade: se eles pegaram aquela última cópia completa do computador de Elli, ele estava liquidado. Mesmo que Elli tenha guardado aqueles três capítulos separados em algum lugar, ainda haveria uma gigantesca lacuna de quatrocentas páginas no manuscrito. Ele jamais conseguiria reescrever e costurar tudo novamente.

Washington passou um olhar rápido pela sala, em parte examinan­do a atividade de seus homens, e, depois, apoiando as mãos nas coxas com um tapa audível, ele se pôs de pé.

  • Muito bem. Temos que tirar você daqui.

O último dos três sacos funerários foi retirado, e Sam observou a saída brevemente com Washington, como se os corpos talvez pudes­sem explicar por que eles tinham que partir. Depois ele se lembrou de Lorrena.

  • Minha... minha namorada deve vir para cá em breve. — Sam che­cou as horas. — Daqui a cerca de quarenta minutos.

  • Não se preocupe. Quando ela chegar, minha gente ainda estará aqui limpando. Eles a levarão ao hotel para onde eu o levarei agora. — Novamente aquele olhar tranquilizador enquanto Sam buscava algum resquício da realidade brutalmente arrancada dele apenas alguns mo­mentos antes. — Você não pode ficar aqui, Sr. Tynnan. Não é seguro. Um homem de reforço ou mesmo toda uma equipe poderia aparecer para checar o que houve com seus colegas; e nós não podemos correr este risco com você. Ou com sua namorada.

  • Certo. Certo. — Mas Sam olhava ao redor, entorpecido, como se inseguro sobre o que fazer.

Washington o despertou de seu torpor dizendo que ele precisava re­colher algumas coisas para passar a noite, e alguns minutos depois eles já saíam rapidamente da garagem de Sam. Estavam em meados de novem­bro, mas o ar noturno já parecia gelado quando Sam seguiu Washington e outro membro da equipe em direção a um Chevrolet Tahoe cinza. Uma longa caminhonete negra da SWAT estava parada atrás dele. Sam viu um motorista ao volante do Tahoe, mas as janelas da caminhonete eram fumês demais para que ele conseguisse ver o interior.

O terceiro homem se sentou na frente junto ao motorista, com Sam e Washington atrás. Eles fizeram a curva no fim da rua, saindo de Oneida rumo a Syracuse, e nenhum deles falou durante os primeiros minu­tos da viagem.



As luzes de cada lado da pista diminuíam à medida que os limites da zona residencial de Oneida eram substituídos por plantações; a mente e a boca do estômago de Sam estavam tão negras e vazias quanto a paisa­gem noturna que se descortinava ao redor. Quer fosse pelo movimento do carro ou pelos nervos em frangalhos ainda lhe agitando o estômago, Sam começou a sentir náuseas. Ele mordeu o lábio, engolindo o enjoo e fitando Washington.

  • Quem são eles? Você disse que faz tempo que os rastreava. Sabe o que exatamente havia em A profecia para atraí-los até mim?

Washington ponderou por um momento, um vago sorriso tocando seus lábios.

  • Nós achávamos que você seria a pessoa mais indicada para dar esta resposta, Sr. Tynnan. Afinal, você escreveu o livro. — Ele retribuiu firmemente o olhar de Sam, mas seu sorriso não tinha qualquer tra­ço de provocação; ele estava apenas abrandando uma verdade óbvia. Washington parecia prestes a acrescentar algo mais quando seu celular tocou. Ele verificou o visor antes de responder, e suspirou profunda­mente. — É minha equipe encarregada de Roschler.

Ele fitou Washington ansiosamente quando este começou a falar. Sam acabara de escapar com vida; agora ele descobriria exatamente se valeria a pena viver o que restava dela.


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