Economia e sociedade



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O Egito Antigo
(Ciro Flamarion S. Cardoso)
ÍNDICE
Introdução ........................................................................................................................... 7

A falência da “hipótese casual hidráulica’’ ........................................................................ 14

Economia e sociedade ........................................................................................................ 26

O poder: sinopse da histórica faraônica ............................................................................. 44

Aspectos da vida intelectual .............................................................................................. 83

Conclusão: “modo de produção asiático”? ....................................................................... 101

Indicações para leitura ...................................................................................................... 109
INTRODUÇÃO
O Egito faraônico não somente representa o primeiro reino unificado historicamente conhecido, como também a mais longa experiência humana documentada de continuidade política e cultural. Mesmo não incluindo o período greco-romano - embora os monarcas helenísticos e os imperadores de Roma tenham figurado como “faraós” em monumentos egípcios - , a história do Antigo Egito se estende por uns dois e setecentos anos, de aproximadamente 3000 a.C. até 332 a.C.: como todas as datas relativas à civilização faraônica são anteriores à era cristã, eliminaremos doravante a menção “antes de Cristo”, a não ser que por alguma razão seja necessária. Tal história conheceu, é verdade, fases de descentralização, anarquia e domínio estrangeiro, mas durante estes longos séculos o Egito constituiu uma mesma entidade política reconhecível.

A continuidade e a longevidade são ainda mais impressionantes do ponto de vista cultural: a antiga língua egípcia manteve-se relativamente estável, embora sofrendo algumas mudanças, durante quatro mil e quinhentos anos. E de cerca de 3000 a.C. até o quinto século da nossa era, muitos outros aspectos atestam, com sua presença ininterrupta, a grande permanência dos padrões culturais egípcios: escrita hieroglífica, concepções acerca da realeza, religião, estilos artísticos, estruturações econômico-sociais... Um egípcio da época das grandes pirâmides (meados do III milênio) que, por um ato de mágica, fosse transportado ao apogeu da XVIII dinastia, mil anos mais tarde, notaria sem dúvida muitas mudanças no país; mas a sua dificuldade de adaptação às novas circunstâncias seria provavelmente bem menor do que a de um francês de 1781 - ou seja, contemporâneo de Luís XVI - que se visse trazido por milagre à França de hoje, apenas duzentos anos depois.

O último faraó - no sentido exato da palavra -, Nectanebo II, morreu na cidade de Tebas em 341, quando uma expedição militar impunha o segundo domínio persa sobre o país: há mais de vinte e três séculos, portanto. Um milênio e meio nos separa dos últimos estertores da cultura egípcia antiga. E no entanto esta distante civilização continua despertando hoje um profundo interesse, que não se limita aos especialistas em Egiptologia. Nenhuma outra cultura da Antigüidade inspirou a elaboração de tantos livros de divulgação destinados ao grande público.

A que se deve a atração do Egito antigo? Em parte, talvez às suas já mencionadas longevidade e continuidade. É um fenômeno fascinante o de uma civilização que, através de numerosas transformações, arrosta impávida várias dezenas de séculos sem perda das características essenciais que definem sua especificidade. Outra razão parece ser uma espécie de fascínio exótico e nostálgico exercido sobre o nosso mundo secularizado de hoje por alguns dos elementos culturais do Egito faraônico, em particular a realeza de caráter divino e a religião funerária tão elaborada, com sua obsessão milenar pelo renascer, pela imortalidade.



Em nossa opinião, porém, o mais apaixonante dos traços do velho Egito é outro, que trataremos de ilustrar com um exemplo. Na tumba do chefe de polícia Mahu, em Akhetaton (Tell el-Amarna), que data do século XIV, vemos um mural representando tal funcionário ocupando-se da distribuição de víveres aos seus subordinados. (Ver a Figura 1.) A primeira vista, o que chama a atenção são as convenções da arte egípcia: as personagens de alta hierarquia (registro superior direito) são representadas em tamanho bem maior do que os homens comuns; as figuras humanas aparecem de perfil (embora com os olhos e os ombros de frente); inexiste qualquer efeito de perspectiva. E, no entanto, se observarmos mais de perto a parte direita do mural, no registro superior, entre Mahu e o outro dignatário (espécie de primeiro-ministro, acompanhado por um de seus altos funcionários) que, vestido de uma longa túnica, dá ao chefe de polícia a autorização para retirar os víveres dos depósitos do rei, notaremos no chão um braseiro, o que indica que a cena tem lugar de manhã cedo e no inverno. Logo abaixo, o transporte dos alimentos inspira um quadro pitoresco de grande vivacidade. E no último registro, sempre à direita, estando as itualhas já entregues, vemos, entre outras figuras, uma camponesa confortavelmente instalada sobre um grande cesto, gesticulando e conversando com um tropeiro... É realmente fascinante tal mistura de convenção e naturalismo, a coexistência, que podemos seguir ao longo de milênios, de solenes cerimônias religiosas e monárquicas com cenas de felicidade doméstica, trabalho agrícola e artesanal, esportes e jogos - enfim, mil detalhes da vida quotidiana de nobres e plebeus.

No século III, isto é, no Egito helenístico, um sacerdote - Manethon - escreveu uma História do Egito, hoje perdida. Dispomos, porém, de fragmentos da mesma, transmitidos por outros autores, e em especial temos as listas das casas reais ou dinastias do Egito faraônico que elaborou. Manethon deve ter utilizado os arquivos dos templos de sua época. Apesar de erros contidos em suas listas, e outros devidos a sucessivos copistas, e embora saibamos que houve dinastias paralelas (em épocas de divisão política), efêmeras ou mesmo inexistentes, o contexto cronológico habitualmente seguido para a História egípcia continua usando o quadro defeituoso, mas segundo parece insubstituível, de tais dinastias. Engloba-as, porém, em divisões mais vastas: Reino Antigo, Reino Médio, Reino Novo e Época Tardia, sendo tais fases básicas separadas entre si por três “períodos intermediários”, épocas de anarquia, descentralização do poder, declínio econômico, ásperas lutas sociais e políticas e mesmo fases de domínio estrangeiro. Apesar dos progressos constatáveis na cronologia da História do Egito antigo, às vezes com base em fatos astronômicos datáveis, muita incerteza subsiste em quase todas as datas anteriores a 664. A margem de erro no início da História dinástica é de até 150 anos; as datas do Reino Médio são em geral bastante seguras; quanto ao período que se estende do início do Reino Novo a 664, o erro possível é de uma década aproximadamente. O Quadro n° 1 resume a cronologia da civilização egípcia até a conquista de Alexandre. A não ser para as fases anteriores à primeira dinastia de Manethon, optamos pelas soluções propostas recentemente, em matéria de datação, por: John Baines e Jaromír Málek, Atlas of Ancient Egypt, Oxford, Phaidon, 1980, pp. 36-37.

Muitas “Histórias do Egito” são, na verdade, quase exclusivamente Histórias dos reis egípcios: suas dinastias, batalhas, conquistas, construções e outros feitos. Uma tal distorção é em parte o resultado do caráter predominante da documentação escrita e arqueológica disponível, a qual ilumina sobretudo a religião e a monarquia. Neste pequeno livro trataremos de dar atenção suficiente - nos limites das dimensões reduzidas da obra - às estruturas econômico-sociais e culturais mais vastas da civilização faraônica, inclusive ao abordar a História política.
QUADRO : CRONOLOGIA DA CIVILIZAÇÃO DO EGITO ANTIGO ATÉ A CONQUISTA MACEDÔNICA.

Período


Dinastia


De Manethon

Datas antes

De Cristo

Paleolítico e Mesolí-

tico
Neolítico e Eneolítico

(pré-dinástico)


Período da Unificação (protodinástico)
Dinástico Primitivo

Reino Antigo

Primeiro Período In- termediário

Reino Médio

Segundo Período In termediário

Reino Novo

Terceiro Período In- termediário
Época Tardia

___


___

___


I a III

IV a VIII

IX, X, parte da XI
Parte da XI, XII a XIV

XV a XVII


XVIII a XX

XXI a XXIV; parte

da XXV
Parte da XXV; XXVI a XXX

Antes de 4500 (ou 5500

segundo outros)
De 4500 (ou 5500) a

3000 (ou 3100)


De 3000 (ou 3l00) a

2920
2920 - 2575

2575 - 2134

2134 - 2040


2040 - 1640

1640 - 1550


1550 - 1070

1070 - 712

712 - 332

A FALÊNCIA DA “HIPÓTESE CAUSAL HIDRÁULICA”


O povoamento do Egito é questão das mais discutidas. Há algumas décadas, a teoria mais corrente a respeito ligava-o à formação da ecologia atual do norte da África. Isto porque, durante milênios, o atual deserto do Saara foi região de savanas, habitada por caçadores, pescadores e posteriormente por criadores de gado e agricultores. A medida, porém, que se foi dando o progressivo ressecamento climático responsável pela formação do grande deserto, sendo o Nilo um curso de água perene - por não depender das escassas chuvas egípcias, e sim de fenômenos atmosféricos que se dão bem mais ao sul, na região dos grandes lagos africanos e da Abissínia -, o seu vale foi atraindo cada vez mais saarianos “brancos”, do grupo lingüístico chamado hamita, aos quais se misturaram semitas ou proto-semitas vindos da Ásia ocidental pelo istmo do Sinai ou atravessando o Mar Vermelho, e negróides que desceram o vale do Nilo no sentido sul-norte. Alguns autores, apoiados em argumentos principalmente arqueológicos, afirmavam ter ocorrido também uma migração ou conquista proveniente da Baixa Mesopotâmia, por volta de 3300 - 3100.

Esta visão, que assegurava serem “caucasóides” (brancos) em forma predominante os antigos egípcios, foi fortemente atacada por historiadores negro-africanos - C. Anta Diop e T. Obenga -, que com argumentos lingüísticos (semelhança entre o antigo egípcio e línguas negro-africanas de hoje) e de outros tipos trataram de provar que os egípcios da Antigüidade eram negros. Se o desejo de apresentá-los como “brancos”, nos autores do século XIX e começos do século atual, cheirava a racismo, a nova teoria tem fortes conotações sentimentais e sobretudo políticas (pan-africanismo). Este último ponto aparece com clareza num trecho de A. Diop:


“A redescoberta do verdadeiro passado dos povos africanos deve contribuir não para afastá-los uns dos outros, mas para uni-los na plenitude, para cimentá-los de norte a sul do continente, para torná-los aptos a que cumpram juntos uma nova missão histórica para maior bem da humanidade...” (Cheikh Anta Diop, “Origine des anciens Egyptiens”, in G. Mokhtar, ed., Histoire géneale de l’Afrique, II, Paris, Jeune Afrique - Stock UNESCO, 1980, p. 72.)
Em 1974, reuniu-se no Cairo um colóquio científico dedicado à questão do povoamento do Egito. Força é confessar que, além de não chegar a resultados conclusivos (o que é de fato impossível com os dados que temos atualmente), a reunião caracterizou-se às vezes por debates estéreis e dogmáticos, baseados em certos casos na distorção dos fatos disponíveis. Felizmente algumas vozes sensatas fizeram-se então ouvir. Mostrou-se ser absurdo querer estabelecer correlações automáticas entre grupos étnicos, línguas e sistemas culturais (a verdade é que termos como “hamita” e “negróide”, por exemplo, não correspondem a conceitos claros). Foi lembrado também que o Egito, situado na confluência da África e da Ásia, nunca esteve isolado, sendo inaceitável pretender que sua população foi exclusiva ou predominantemente “branca”, tanto quanto “negra” já que tudo indica ter sido sempre muito mesclada, pelo menos desde o Neolítico. E recordou-se que, no fundo, uma discussão abstrata sobre a cor da pele é bastante irrelevante diante de questões bem mais importantes, como por exemplo a necessidade de explicar descontinuidades e continuidades técnico-culturais em distintas épocas no interior do Egito, e entre o Egito e a Núbia. Seja como for, o debate acerca do povoamento egípcio anteriormente à unificação depende de fontes - restos humanos, iconografia, dados lingüísticos e etnológicos - em certos casos insuficientes, problemáticas ou mal distribuídas, além de ainda mal exploradas em detalhe. Por exemplo, restos humanos paleolíticos só foram achados na Baixa Núbia; os do Neolítico e do protodinástico cobrem esta última e - insuficientemente - o Alto Egito (ou seja, o Vale do Nilo egípcio, com exclusão da parte setentrional do país, conhecida como Baixo Egito ou Delta). Alguns destes restos são tão fragmentários que não puderam ser objeto de estudos de Antropologia Física. (Ver: Le peuplement de l’Egypte ancienne et le déchiffrement de l’écriture méroïtique, Paris, UNESCO, 1978.)

Deixando de lado o tema do povoamento, de que maneira, partindo de grupos dispersos de caçadores, pescadores e agricultores primitivos, chegou-se a um único reino egípcio - embora persistentemente dual em caráter (o faraó era “rei do Alto e Baixo Egito”, e sua coroa era dupla)?

Estudo paleoecológicos recentes, realizados em particular por K. Butzer e B. Bell, verificaram que, entre 3300 e 3000, ocorreu no Egito uma queda pronunciada da pluviosidade. A agricultura e a criação de gado, antes possíveis numa faixa de cinco a seis quilômetros de cada lado do rio, e em vales tributários (wadis), com a extensão das áreas desérticas passaram a ser praticáveis unicamente no vale do Nilo, e no delta formado pelo rio ao desembocar no Mediterrâneo. Por outro lado, entre 3100 e 2700 deu-se uma diminuição dos níveis médios da cheia anual do Nilo. Tudo isto indicaria, então, uma crescente dependência da água do rio, no período 3300 - 2700, à medida que o país se tornava mais seco. A partir de então ficou definitivamente estabelecida a atual ecologia do Egito, com suas três regiões: o Delta, com maior extensão de terras aráveis e de pastos, e contendo também muitos pântanos; o Vale, estreita faixa de terra arável apertada entre desertos, que na Antigüidade continha igualmente manchas pantanosas; e o deserto estéril. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se crescentemente uma agricultura dependente da irrigação, com aproveitamento e controle do fenômeno natural das cheias anuais do Nilo. (Ver a Figura n° 2.)

Sendo assim, é forte a tentação de atribuir a unificação do Egito num só reino, ocorrida por volta do ano 3000, à necessidade de uma administração centralizada das obras de irrigação para o bom funcionamento da economia agrícola num país de clima desértico. Esta tese foi muito popular no século passado (K. Marx) e em boa parte do nosso século



(K. Wittfogel). Um dos últimos a defender uma tal “hipótese causal hidráulica” para os começos do Estado e da civilização no Egito, e para sua posterior estabilidade, foi J. Vercoutter:
“Há quem se extasie muito a respeito da estabilidade do povo egípcio... Esta característica... foi favorecida pela necessidade de um governo politicamente forte para assegurar a irrigação... (cuja) manutenção não pode ser assegurada senão por um poder central forte que a saiba impor a todas as províncias. Assim, todo o sistema político egípcio repousa sobre uma necessidade física, geográfica, da qual não temos equivalente algum em nossas sociedades ocidentais.’’ (Jean Vercoutter, L ‘Egypte ancienne, Paris, Presses Universitaires de France, 1968, 6ª Ed., p. 18; existe em português: São Paulo, DIFEL.)


Fig. 2 - Mapa do Egito e da Núbia (o limite entre Egito e Núbia antigos era a localidade de Elefantina, junto à primeira catarata do rio Nilo). (Cyril Aldred, Os Egípcios, Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 33.) (Note-se que nem sempre coincidiremos com as opções em matéria de transcrição de nomes de localidades antigas presentes neste mapa.)
Será aceitável uma hipótese deste tipo? Para começar a discussão a respeito, forçoso é constatar que, ao contrário do que geralmente se acredita, as indicações precisas de que dispomos sobre a irrigação do Egito antigo não são muito numerosas. O estudo dos sistemas antigos de irrigação pela Arqueologia é difícil. A agricultura irrigada nunca cessou no país da Antigüidade aos nossos dias, o que significa que os consertos e sucessivas construções novas de diques e canais destroem os traços de sistemas mais velhos.

Hoje como no passado, a maioria dos autores continua interpretando a cena representada na cabeça de tacape do rei Escorpião (por volta de 3000) como significando o rito solene de inauguração dos trabalhos de um canal de irrigação, ou pelo menos como um rito agrário vinculado à agricultura irrigada. Uma tradição relativamente tardia, veiculada por Heródoto, atribui ao primeiro rei da primeira dinastia de Manethon - Menes (não comprovado indubitavelmente com este nome pela Arqueologia) - a construção de um dique para proteger o Delta das inundações mais violentas, ou, segundo outra interpretação, para drenar o território à volta da cidade de Mênfis. Se tal tradição é duvidosa, no Museu Metropolitano de Nova lorque há uma espécie de bandeja de pedra de começos da I dinastia que comemora a abertura de um lago em Mênfis, talvez para irrigação dos campos circunvizinhos. Quanto a textos escritos explícitos tratando da irrigação, só a partir do Reino Médio se tornam relativamente mais abundantes. Ao contrário da Mesopotâmia, o Egito não nos deixou códigos ou compilações de leis. Quando muito podemos constatar que no principal texto da religião funerária egípcia, o Livro dos Mortos, a confissão negativa do morto no tribunal de Osíris inclui alguns elementos que podem ser interpretados no sentido de que desviar ou sujar a água dos canais eram pecados graves para os egípcios; o mesmo texto menciona a existência, no mundo dos mortos, de um “tribunal da irrigação”, refletindo um dado real do Egito faraônico.

Um exemplo concreto de generalização insatisfatória feita à base de uma documentação mais do que duvidosa é a atribuição a Amenemhat III (1844 - 1797), ou a outro rei da XII dinastia, da construção de um imenso reservatório de água para controle da inundação a região do Fayum, equipado com enormes canais diques e eclusas. John Wilson, J. J. Clère, Arthur Weigall e muitos outros autores dão a entender que o “lago Moeris” (atual Birket Karun) seria artificial. Por incrível que pareça, uma afirmação de tal envergadura se sustenta exclusivamente em certas passagens de autores greco-romanos (Heródoto, Estrabão, Diodoro da Sicília), sem qualquer base na Arqueologia ou em documentos da época faraônica! Certos autores de fins do século passado e começos deste foram bem menos crédulos. Assim, G. Maspero fala, com razão, da “lenda do lago Moeris”, atribuindo-a a uma falsa interpretação, por Herótodo, do fenômeno da inundação que presenciou no Egito. Da mesma maneira, A. Moret mostra que o que os faraós do Reino Médio fizeram, segundo os dados disponíveis, foi regularizar e drenar um lago natural, no sentido de reduzir sua extensão e assim obter novas superfícies cultiváveis, e não de inundar a região transformando-a em “depósito regulador da inundação”. Não há dúvida de que os faraós da XII dinastia tenham executado obras de drenagem e irrigação no Fayum, provavelmente desde que Senuosret II (1897 - 1878) transportou para lá a sua capital, ganhando assim uns 450 km de novos terrenos cultiváveis. Mas também é seguro que o atual Birket Karun é um lago natural – ou o que resta dele: foi drenado, regularizado e utilizado na Antiguidade, mas não “construído”.

Na descrição da agricultura irriga da egípcia a primeira coisa que deve ser esclarecida é que suas condições eram diferentes das que imperavam na Mesopotâmia. A inundação anual do Nilo é muito menos violenta do que a dos rios Tigre e Eufrates, e também muito mais regular em sua data. Além disto, começa em julho, e a retirada das águas, em fins de outubro, coincide com o momento adequado para semear. Depois, entre a colheita e a nova inundação, passam-se vários meses, permitindo a limpeza e conserto dos diques e canais. Depois que o cereal é segado, o solo dos campos se torna seco e se fende, ficando pronto para ser penetrado em profundidade pela água e pelos aluviões fertilizantes da inundação. Assim, não são necessárias no Egito as importantes obras de proteção contra a cheia fluvial imprescindíveis na Baixa Mesopotâmia. Por outro lado, os meses mais quentes coincidem com o período em que a terra arável está coberta pelas águas da inundação; nos meses de seca - os menos quentes - a água do Nilo e dos reservatórios basta para regar campos e hortas. Em circunstâncias tão favoráveis, o sistema hidráulico de irrigação por tanques desenvolvido na Antigüidade foi bem mais simples do que o da Mesopotâmia. Eis aqui uma boa descrição:


“O sistema consiste em que a terra ao longo do rio fique dividida em compartimentos - tanques - por diques levantados em ângulo reto em relação ao curso fluvial; um canal iniciado a montante conduz a água do rio ao tanque, onde canais menores e valas a estendem uniformemente por todo o compartimento; outro canal recolhe o excesso de água e o leva a um segundo tanque, ou então de volta ao rio, a jusante. A irrigação de tanque só pode produzir uma colheita por ano, porque, quando o rio desce abaixo de certo nível, os canais que alimentam os tanques secam. Mas, com o rico solo do Egito, uma colheita é o bastante, e o sistema tem a vantagem de canais curtos, da fácil manutenção e lenta obstrução dos canais pelos sedimentos. Isto significa que cada aldeia era economicamente independente; ao passo que o trabalho necessário para obtenção de um excedente de alimentos estava folgadamente ao alcance de uma pequena unidade social, deixava realmente uma boa quantidade de tempo livre e permitia a especialização artesanal.” (L. Woolley, “Los comienzos de la civilización”, in J. Hawkes e L.Woolley, História de la Humanidad. Desarrollo cultural y científico, tomo I, Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1966, p. 489.)
Os trabalhos recentes mostraram que o sistema egípcio de irrigação por tanques tinha um caráter local a princípio: não há qualquer prova de uma administração centralizada de redes de irrigação até o Reino Médio, isto é, até mil anos depois da unificação do reino egípcio. Nestas condições, tudo indica que o papel da agricultura irrigada foi enorme na formação e consolidação das confederações tribais que deram origem, em cada região do país, ao spat (mais conhecido pelo termo grego “nomo”), que no reino unificado funcionou como província; o Egito antigo compreendia cerca de quarenta nomos. A irrigação não pode, porém, ser vista como a causa do surgimento do Estado centralizado e da civilização egípcia: pelo contrário, um sistema centralizado de obras hidráulicas para a agricultura irrigada surgiu como um resultado tardio da existência de um Estado forte. Note-se que o abandono da “hipótese causal hidráulica” não significa que a irrigação não fosse muito importante. E, inclusive, uma vez instalado um sistema planejado e centralizado de irrigação, mesmo tardiamente, nas novas condições o controle institucional unificado da rede de canais e diques acabou por transforma-se em algo necessário: sua ausência poderia agora provocar uma catástrofe econômica, já que se tornara difícil voltar à descentralização anterior. Por outro lado, a crítica a uma causalidade única ou linear baseada na “hipótese hidráulica” não quer dizer que, abandonada esta, seja impossível integrar a irrigação como um fator entre vários outros, em modelo causais mais amplos.

A que atribuir, então, a unificação do Egito? Existem muitas teorias a respeito, difíceis de avaliar em virtude da escassez de dados e fontes. Muitas das tentativas contemporâneas de explicação (L. Krader, B. Trigger, R. Carneiro) enfatizam fatores ligados à guerra, à conquista, ao militarismo. Seja como for, tudo indica que o processo de formação do Egito como reino centralizado dependeu de numerosos fatores – demográficos, ecológicos, políticos etc. -, entre os quais a irrigação, pelo menos indiretamente, foi elemento de peso.



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