Economia aplicada



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LADISLAU DOWBOR




A REPRODUÇÃO SOCIAL
Propostas para uma Gestão Descentralizada

São Paulo, Fevereiro de 1998



Prólogo 3

Introdução 5



I - MUDANÇA E GOVERNABILIDADE 8

1 - Técnicas, tempo e organização social 9

2 - Da globalização ao poder local: a nova hierarquia dos espaços 15

3 - As polarizações econômicas 26

4 - A reestruturação demográfica e as novas dinâmicas do trabalho 32

5 - Governabilidade: o deslocamento do poder 45



II - A REPRODUÇÃO SOCIAL 55

6 - O ciclo da reprodução social 58

7 - As grandes áreas da reprodução social 84

8 - Atividades produtivas 88

9 - As infraestruturas econômicas 108

10 - Intermediação comercial e financeira 125

11- As infraestruturas sociais 141

12 - A gestão do desenvolvimento 181



III - RECUPERANDO O CONTROLE 205

13 - Estado e sociedade civil: a democracia participativa 206

14 - O espaço local: âncora da organização social 215

15 - Motivação, valores e ética 226

Conclusões 237

Conceitos 244



Responsabilidade social 253

Bibliografia 255



Sobre o autor 259



Prólogo

No longer inevitable, poverty should be relegated to history – along with slavery, colonialism and nuclear warfare” Human Development Report, United Nations, 1997


Não há grandes mistérios quanto ao que queremos como sociedade: a segurança do necessário para uma vida digna, a tranquilidade no relacionamento social, o sentimento de participar criativamente das coisas que acontecem, a liberdade moderada pelas necessidades, a paz do amor, o estímulo do trabalho, a alegria de rir com os outros, o realismo de rir de si mesmo.
Mas estes objetivos passam por um valor esssencial que precisa ser resgatado: o da solidariedade humana. Primeiro, porque é triste ver estes pobres seres humanos, que passam numa breve viagem pela vida, gastar o seu pouco tempo arreganhando os dentes uns para os outros, como que impotentes frente às suas raizes animais – homo homini lupus – incapazes de ver, ou de ter o tempo para ver a beleza do rio que passa, o esplendor do pôr do sol, a genialidade de um poema, o gosto de um trabalho bem feito, a magia de uma criança que descobre uma coisa nova, cada vez mais motivados negativamente pela insegurança generalizada, numa eterna fuga para a frente, acumulando riquezas fúteis, correndo como loucos atrás do sucesso, ainda que sabendo perfeitamente onde termina a corrida. A solidariedade social é uma questão de elementar senso das realidades.
Segundo, porque não há dúvidas de que a nossa sociedade precisa de um choque de ética e de visão social e ambiental. Acostumamo-nos a ver como normal o latifundiário que acumula gigantescos espaços de terra que não consegue sequer utilizar, enquanto familias passam fome sem poder cultivá-las; o banqueiro que se enche de dinheiro enquanto unidades produtivas ficam estranguladas; o político que gere privilégios, corrompe e se deixa corromper afirmando que o mundo é assim mesmo, o dono de meios de comunicação que negocia qualquer coisa sem atentar para os valores sociais que são necessários para a nossa sobrevivência social e ambiental; o cientista que estremece de contentamento frente à manipulação genética sem pensar na responsabilidade e utilidade social; o economista que esquece as dimensões humanas dos reajustes econômicos, ou o juiz que esqueceu o seu juramento e justifica tudo e qualquer coisa.
São formas diversas de prostituição das oligarquias, que atinge inclusive os advogados que as defendem, os jornalistas que as comentam, os policiais que por elas cometem atrocidades. Trata-se de um amplo espaço de esperteza e de prepotência, com pouca inteligência da vida. É este lastro prehistórico de incultura política que se trata hoje de mudar.
Esta crítica é benigna. A realidade enfrentada por grande parte da humanidade é muito dura. Hoje temos os olhos cheios das crianças das esquinas de São Paulo, dos Sowetos sul-africanos, das meninas prostituidas da Asia, dos massacres que transformam a insegurança dos poderosos em insegurança de todos. E não se trata somente de justiça social. Com os poderosos instrumentos tecnológicos que hoje manejam o cientista, o operador financeiro, o dono de emissoras de televisão, o militar ou o terrorista, uma melhor organização social torna-se indispensável para a nossa sobrevivência, ricos ou pobres.
De ninguém se exige a clarividência de todas as respostas. Mas de todos se exige o comprometimento pessoal por uma humanidade mais justa e solidária. O egoismo como valor universal, frágil construção que herdamos dos utilitaristas ingleses, está deixando de ser útil. Como estão se tornando insustentáveis as grandes simplificações econômicas e sociais da sobrevivência do mais apto, e de uma sociedade baseada no individualismo. Temos assim de iniciar a penosa reconstrução de uma ética social.
Temos frequentemente uma curiosa tendência a identificar os culpados do estado de coisas que enfrentamos, e a ficar à espera que de alguma forma desapareçam. A identificação nos sossega, pois podemos nos queixar dos culpados a cada momento, sem carregar as nossas próprias responsabilidades. Sejam quais forem as soluções, exigirão difícil costura política com todos os atores sociais da sociedade realmente existente. E a construção do novo não se fará no caminho simplificado da punição dos culpados.
Temos de reconhecer também que muitos dos que identificamos como “inimigos” são também os que contribuiram para a nossa relativa prosperidade, seja descobrindo novos processos produtivos, seja batalhando uma repartição mais justa do produto. Não se trata de olhar para trás, com saudade de uma paz social que nunca existiu. Temos de olhar para a frente, onde ideologias simplificadoras do século XIX, sejam de mercado ou estatistas, já não correspondem às novas necessidades de regulação social.
Não é preciso ter uma bússola muito afinada para saber qual é o nosso “norte”. A mesma amplitude de tomada de consciência que permitiu no passado ultrapassar as grandes chagas mundiais que constituiram a escravidão e o colonialismo, é hoje necessária para enfrentarmos o drama da pobreza no mundo, esta trágica articulação de degradação humana e ambiental que nos aflige. Há pouco mais de um século a escravidão aparecia como natural, e até há poucas décadas o colonialismo era visto como legítimo. Hoje temos instrumentos técnicos e meios econômicos amplamente suficientes para enfrentar este novo desafio de humanização do planeta.



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