E o que é facto é que não encontrei nenhum



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Encontro26.10.2017
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INFORMÁTICA/AMBIENTE

As escolhas possíveis em termos profissionais para a minha geração dependiam muito da questão da guerra colonial. De facto, todos os que fomos MANCEBOS nos anos 60 tivemos que enfrentar, de uma maneira ou de outra, uma MANCEBIA forçada com os fantasmas de uma guerra absurda que parecia não ter fim. Se aos fantasmas nenhum de nós podia escapar, aqueles que ‘andavam a estudar’ tinham um privilégio – ir adiando a incorporação, desde que fossem ‘passando de ano’.

Quando acabei Engenharia Química no Técnico, aproveitando mais um adiamento e com a ideia de desertar, fui especializar-me em ‘concepção de evaporadores’ para a Hoffman la Roche, em Basileia. A partir desse poiso, percorri, durante o Verão de 1969, os locais tradicionais de exílio dos meus companheiros de luta contra o regime, com o objectivo de ‘seleccionar’ um sítio para viver.

E o que é facto é que não encontrei nenhum (mas isso é outra estória).

Assim, decidi regressar a Lisboa e aceitar um convite que entretanto tinha recebido para ir para a Junta de Energia Nuclear, no proviso de que iria beneficiar de uma requisição ao exército, para trabalhar na ‘investigação científica’, após a recruta.

Nesses tempos já longínquos, pensava-se (ou seja, pensava o Kaúlza, o megalómano presidente da Junta) que a associação Portugal&Colónias podia ‘afirmar-se’ na cena internacional como produtor de minério de U para alimentar, ab initio, os processos energéticos baseados no nuclear (mas dizia-se à boca pequena que esse minério era ‘para a bomba atómica’, à semelhança do rumor que corria sobre a origem lusitana da matéria prima que levou à destruição de Hiroshima e Nagasaki).

O que acontecia é que, embora existissem em Portugal ocorrências reconhecidas desde os tempos da Madame Curie e um potencial enorme em Angola, não havia no país qualquer competência no problema da prospecção e exploração do minério de onde se extrai o Urânio que, depois de enriquecido, viria a alimentar as centrais nucleares (e talvez servir de ponto de partida para a Bomba).

Assim, foi-me proposto ‘continuar a estudar’, fazendo a agulha da minha vaguíssima vocação de ‘químico’ para um curso de que nem sequer tinha ouvido falar – Engenharia de Minas. A perspectiva de passar mais três anos no Técnico, sem obrigações burocráticas de picar o ponto na Junta, agradou-me bastante (e não tinha pressa nenhuma em ‘entrar no marcado de trabalho’, já que recebia o mesmo ordenado).

Durante esses três anos deu-se a confluência de três factores – a valorização estratégica do interesse pelos recursos minerais (o clube de Roma só reuniu em 1972), o desenvolvimento dos computadores no IST (que me tinham passado ao lado durante o curso de química) e uma certa internacionalização do saber científico (com a reforma Veiga Simão).

E foi desta caldeirada que saiu a minha nova vocação: a Geoestatística – ou seja, a aplicação da informática às Ciências da Terra, com o objectivo de optimizar o reconhecimento dos recursos minerais. Tirando partido de um estágio na École des Mines de Paris, iniciei-me a muito custo nas lides exigentíssimas da nova disciplina que despontava sob a batuta de um estranho mestre, que dava pelo nome de Georges Matheron, e que, durante a sua experiência de prospector na Argélia colonial (associada a uma profunda preparação matemática), tinha tido a excelente ideia de aplicar métodos estatísticos à geologia, onde imperava, até aí, uma atitude ferozmente ‘descritiva’ de fenómenos únicos e irrepetitíveis. O eixo central da nova disciplina assentava na hipótese de que, para matematizar as ciências da Terra, bastava ‘substituir’ a repetição no tempo por uma certa estacionaridade no espaço. Tratava-se de exprimir, agora em termos algorítmicos, a velha teoria do UNIFORMITARISMO de Charles Leyell, companheiro de Darwin nas suas campanhas contra a visão teológica da origem da Terra e da Vida. Segundo Leyell, “the present is the Key for the past”, o que implicava uma certa invariância espacio-temporal das leis geológicas. E assim, por este truque (que tinha os seus quês, dada a anisotropia e a não-sequencialidade que se verifica no espaço), os processos estocásticos – variáveis aleatórias no tempo - passaram a representar, num referencial tri-dimensional, os processos de formação dos recursos minerais, com a vantagem de permitir quantificar o ‘valor da informação’ sobre uma realidade escondida nas entranhas da Terra. É que, desde o momento em que se torna possível aplicar uma certa forma de estatística, fica-se a conhecer o erro das estimações, e pode-se assim escrever uma equação que liga o custo de amostragem com o seu benefício, em termos económicos. Isto tinha uma repercussão importantíssima quando se começava a falar em obter a mesma informação com base em menos sondagens (que podiam custar muitos milhões de dólares, quando se tratava de petróleo, por exemplo). Faziam-se então programas informáticos pesadíssimos que permitiam maximizar uma função económica que traduzia em dólares a realidade geológica, aconselhando onde era mais provável encontrar novas jazidas (à maneira do vedor que diz onde se deve furar para encontrar água).


Esta longa introdução ao que eu “ando a investigar” serve para contextualizar as bifurcações impostas pela contingência e para dismistificar a ideia de que há uma vocação essencialista que impediria qualquer deriva nos nossos interesses, enquanto investigadores.
E então, o que é que eu ando a investigar ?
Prosseguindo a deriva, o objecto da investigação foi-se deslocando dos recursos minerais para os recursos naturais, e destes para o Ambiente, mantendo-se, no entanto, a metodologia básica – essa ideia de quantificar e modelizar as interacções do Homem com a Natureza, a partir da descoberta de leis fracas, singulares e pouco generalizáveis (it’s better to be aproximatively right than precisely wrong, é o mote da geoestatística, que entretanto escapou ao seu casulo ‘francês’ pela globalização).

E o ponto de vista sobre a exploração dos recursos naturais também se foi alterando – passou-se de uma atitude produtivista e prometeica para uma perspectiva mais sistémica e holística, em que o Homem era parte integrante da Natureza. Assim, com a emergência das preocupações ambientais, longe vão os tempos em que o homem, mesmo à esquerda, temperava o aço sem quaisquer contemplações, e em que Allende ganhava as eleições com o slogan “Vamos encher de fumo os céus do Chile”, aludindo, sem comtemporizar com a Natureza, ao fomento da indústria do Cu, que assegurava milhares de empregos.


A passagem para o Ambiente coloca no entanto à Geoestatística novos desafios que ultrapassam claramente a sua formulação inicial. De facto, na modelização ambiental, entram em jogo uma série infinita de interacções complexas entre sub-sistemas muito distintos, onde a acção antropogénica tem um papel relevante. Por outro lado, não existe um corpo coerente de conhecimentos científicos onde os modelos possam ir buscar a sua base conceptual, nem uma teoria económica bem (ou mesmo mal) definida que sirva de receptáculo às aplicações (como acontecia com o productivismo marginalista, desde que, até o Lénine associava a electricidade aos Sovietes).
Então, a investigação neste domínio confronta-se hoje com um repto de vertentes múltiplas, centradas em dois pólos: por um lado, ‘por em ordem’ as disciplinas hard que permitem modelizar os fenómenos ambientais na sua base ‘material’ (geologia, biologia, ecologia, física, química, etc....), e por outro, encontrar uma formulação económica adequada para a interacção desses fenómenos com o Homem.

Se, no primeiro dos pólos, a questão pode ser abordada à custa de uma visão sistémica introduzindo o conceito de GEO-SISTEMA como a projecção, no espaço do conhecimento, das interdependências entre os atributos que dão ‘valor’ aos recursos naturais, já o segundo pólo é mais difícil de modelizar, visto que o ‘valor’ tem de ser ‘posto em equação’ com efeitos a longuíssimo prazo, difíceis de prever e dependentes, hoje, de representações simbólicas que são mutáveis e não consensuais. Todas as tentativas de exprimir ‘nas mesmas unidades’ os dois membros da equação custos/benefícios saíram gorados (é a velha questão de como comparar batatas com cebolas, sem as reduzir ao preço, ou a uma outra qualquer grandeza comum que seja relevante...). Esta atitude redutora encontrava-se, aliás, nos dois pratos da balança – há quem queira quantificar o valor simbólico da paisagem pelo ganho resultante do turismo e há quem contabilize os efeitos nocivos de um poluente pelos custos à segurança social que derivam das doenças que possa vir a provocar). E mesmo que fosse minimamente credível passar tudo a unidades monetárias, ficava ainda por resolver o problema do discounted chash flow, ou seja, como referir ao instante presente o valor ou o custo de efeitos futuros, num mundo em que o previsível nunca acontece e em que o inesperado está aí?


Para evitar o reducionismo sem não cair no ecologismo ideológico fundamentalista, a Geostatística abandonou a perspectiva de optimização, e ficou-se pela simulação de cenários, deixando em aberto a questão da selecção multi-critério entre opções alternativas. Esta atitude menos ambiciosa é no entanto temperada pela capacidade acrescida de produzir modelos mais potentes, baseados nos novos instrumentos informáticas da Análise de Imagem, da Detecção Remota, da Inteligência Artificial, dos Sistemas de Informação Geográfica, da Realidade Virtual. Estes modelos abandonam a ideia de Natureza como stock de matérias primas à espera de entrar numa qualquer linha de produção (e como depósito de lixo), tomando à letra a palavra resource como ‘fonte’ que é preciso re-tomar, que é preciso re-fazer. É possível, assim, dar em paralelo, uma multiplicidade de representações não-lineares dos fluxos bi-direccionais, rigorosamente planeados e controlados, que fazem a interface Homem/Ambiente.

É exactamente nesta interface que se situam os dois projectos da Fundação para a Ciência e Tecnologia que estou actualmente a coordenar, com o IST, o ISCTE e a Nova.

O primeiro refere-se à informatização das características simbólicas e físicas das ocorrência de rochas ornamentais, feita in situ, isto é, antes de as desmontar, evitando assim a produção de desperdícios que dão origem, hoje, às paisagens lunares de Borba e Vila Viçosa. A partir da cartografia dessas características, é então possível definir ‘ilhas de valor’ que respondem às especificações dos consumidores, e planear, nesses locais (e só nesses), ‘intervenções cirúrgicas’ que deixam praticamente inalterada a paisagem, colhendo nela, os seus frutos mais apetecidos (e só esses) com o mínimo de ‘danos colaterais’.

No segundo projecto, faz-se a inventariação dos recursos naturais de uma região (o Alentejo) e combina-se essa Base de Conhecimentos, vista como um Geo-sistema, com as representações sociais da gestão desses recursos, de modo a construir cenários de exploração/preservação que suportem um desenvolvimento sustentado da região.



É isto então o que eu ando a investigar agora, nesta época que marca o fim das Duas Culturas, o fim da Natureza como o último reduto do Outro, e a emergência de um saber produtor de formas, à custa da informação que ‘transforma’ os recursos naturais em recursos semióticos.






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