E, no entanto, se move



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E, no entanto, se move

FOLHA DE SÃO PAULO São Paulo, domingo, 14 de junho de 2009

NOS 400 ANOS DAS OBSERVAÇÕES DE GALILEU, QUE INAUGURARAM A CIÊNCIA MODERNA E SEU CONFLITO COM A IGREJA, PADRE PREMIADO POR UNIÃO ASTRONÔMICA DIZ QUE RELAÇÃO ENTRE ESSAS ÁREAS EVOLUI, MAS LENTAMENTE

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Retrato do astrônomo Galileu Galilei, condenado pela Igreja Católica por defender a ideia de que a Terra gira em torno do Sol

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL

No quarto centenário das observações lunares de Galileu Galilei (1564-1642), o padre americano George Coyne, 76, conseguiu um feito memorável para um líder religioso: receber uma condecoração de uma associação científica.


Tendo dirigido o Observatório do Vaticano por 28 anos, o matemático jesuíta com doutorado em astronomia foi julgado digno de receber o prêmio Van Biesbroeck, da AAS (Associação Americana de Astronomia), concedido àqueles que prestam "generosos serviços de longo prazo" à comunidade acadêmica de astrônomos.
Além de ter criado um curso de verão que introduziu centenas de estudantes jovens na carreira de astronomia, Coyne foi o pesquisador que colocou o observatório numa condição de fazer pesquisa de ponta. Por meio de um convênio com a Universidade do Arizona, onde Coyne leciona, a instituição religiosa construiu um telescópio de primeira linha.
Donna Wiestrop, astrônoma da AAS que coordena o prêmio Van Biesbroeck, diz que aparentemente esta é a primeira vez que a maior associação de astronomia do mundo premia um padre. Os "serviços prestados" por Coyne, porém, vão além de sua área de pesquisa.
Ele escreveu livros e deu grande contribuição ao diálogo entre religião e ciência. Coyne também se meteu em controvérsias por defender a teoria da evolução de Darwin como a melhor explicação científica para a origem do Universo e dos sistemas vivos.
Tal defesa colocou-o em choque contra um cardeal, ex-aluno do papa Bento 16, que advogava o design inteligente. Segundo a imprensa britânica, isso lhe custou o posto no observatório, em 2006. Coyne nega. Em entrevista à Folha por telefone de seu escritório em Tucson (EUA), ele explica como acredita que essa relação conturbada pode amadurecer.

 



FOLHA - Neste ano a ciência tal qual desenvolvida por Galileu completa quatro séculos. Em sua época, o cientista teve entreveros com a Igreja Católica, e isso parece estar acontecendo ainda hoje, nas igrejas cristãs de um modo geral. Alguma coisa amadureceu nesses 400 anos na relação entre ciência e religião, ou ela continua a mesma?
GEORGE COYNE
- Há muito que pode ser dito sobre o período de Galileu até hoje. Durante esses 400 anos, muitas coisas mudaram na ciência e na igreja. Na época de Galileu, a ciência moderna, tal qual a conhecemos, ainda estava nascendo. Galileu foi um dos pioneiros, com Descartes, Kepler e depois Newton. Partamos desse princípio.
O que aconteceu em 400 anos ou mais foi que a ciência cresceu para se tornar um método muito bem definido de explorar o Universo. Mas é um método muito limitado. Ele busca causas naturais para eventos naturais, e ele foi muito bem sucedido em fazê-lo.
Veja a cosmologia do Big Bang, que é a melhor explicação para todas as observações que já fizemos durante esses 400 anos sobre o Universo. É a melhor explicação científica. Talvez amanhã ela sofra aprimoramentos. É assim que a ciência caminha. Além da cosmologia do Big Bang eu mencionaria a evolução neodarwinista. É a melhor explicação que temos - se a estendermos para o Universo todo- para todos os processos físicos e biológicos. Ela se aplica diretamente a sistemas vivos, mas vamos estendê-la para o Universo e tudo o que há nele, incluindo nós mesmos. Esses são apenas dois exemplos, entre muitos, mas acho que a maioria das pessoas concordaria que essas são duas das realizações mais significativas da ciência, desde o tempo de Galileu até hoje. Ainda assim, às vezes elas se encontram em grandes controvérsias. A razão pela qual isso ocorre é porque alguns cientistas pisam fora dos limites da ciência. A ciência, como tal, não pode provar a existência de Deus nem prová-la falsa usando sua própria metodologia. Repito: ela se limita a procurar explicações naturais para eventos naturais. E se existe um Deus -a natureza própria de um Deus-, isso está além da natureza.

FOLHA - A Igreja Católica só pediu perdão a Galileu no ano 2000, mas o Observatório do Vaticano é uma instituição bem mais antiga e já tinha começado a fazer astronomia com seriedade antes disso. Quando exatamente as autoridades católicas começaram a mudar de ideia com relação a Galileu?
COYNE
- Não existe uma data precisa. A igreja é como um ser vivo, que cresce e muda com o tempo, assim como qualquer outra instituição. E a mudança foi principalmente em duas áreas: a compreensão das escrituras pela igreja e a compreensão da ciência pela igreja.
Não sou historiador, mas sei que o entendimento da ciência pela igreja só veio a ocorrer do século 18 para o meio do século 19, quando a igreja finalmente removeu todos os livros relacionados ao copernicanismo do Index. Isso foi por volta de 1845. Até um século antes, houve muitas tentativas de correção por parte da igreja, removendo os livros de Copérnico do Index, mas isso nunca tinha sido feito de maneira completa.
A igreja levou tempo para se acomodar às mudanças. Você poderia perguntar quando surgiu a prova do copernicanismo. Mas o que é uma prova em ciência? Acho que você aceitaria como prova a descoberta da paralaxe e a descoberta da aberração da luz.
A paralaxe era explicada da melhor forma pela Terra dando voltas ao redor do Sol. E a aberração é explicada da melhor forma pela Terra circundando o Sol e girando em seu próprio eixo. A aberração da luz da luz das estrelas foi descoberta lá pelo meio do século 17, e a paralaxe, por volta de 1830.
Então, o entendimento da ciência por parte igreja cresceu, assim como a própria ciência cresceu, mas de modo lento. E, quando apareceu o darwinismo, a igreja novamente hesitou. Isso é por causa da compreensão da ciência. Ainda hoje a igreja está elaborando sua compreensão da ciência. O que a ciência faz? Ela não faz tudo. Ela é uma ferramenta muito limitada, mas muito poderosa.



"A ciência não pode provar a existência de Deus nem prová-la falsa usando sua própria metodologia. Ela se limita a procurar explicações naturais para eventos naturais"



FOLHA - E o que isso tem a ver com a compreensão das escrituras pela Igreja Católica?
COYNE
- Um dos grandes problemas na época de Galileu é que a igreja disse que o copernicanismo era claramente contraditório com as escrituras, que em muitos trechos afirmam ou implicam que o Sol esteja se movendo. Mesmo hoje dizemos "o Sol se levanta" e "o Sol se põe". É modo de falar, mas a igreja encarava isso como se a escritura estivesse ensinando ciência. A igreja, depois de quatro séculos, se deu conta de que isso está errado.
Uma grande realização dentro da igreja foi a encíclica "Providentissimus Deus", de Leão 13, que começou a ensinar aquilo que a igreja defende hoje: você deve interpretar as escrituras de acordo com a técnica literária. Você não pode interpretá-las literalmente. E além disso: não há nenhuma ciência nas escrituras. As escrituras começaram a ser compostas por volta de 5.000 a.C., com o patriarca Abraão, até cerca de 200 d.C., mais ou menos. A ciência moderna começou a existir entre os séculos 16 e 17. Como poderia haver alguma ciência nas escrituras? Há uma separação de pelo menos 1.500 anos entre a redação final das escrituras e a ciência moderna. Então, não há nenhuma ciência nas escrituras. Zero. E qualquer um que quiser usar as escrituras de modo científico incorrerá em erros.

FOLHA - Pouca gente esperava que o Vaticano fosse se desculpar pelo episódio de Galileu, muito menos quatro séculos depois, em 2000, com João Paulo 2º. Por que isso foi decidido naquele momento?
COYNE
- Ele sabia que seria um gesto importante. E a razão disso data de muito antes. Antes de ele se tornar papa, quando era cardeal-arcebispo de Cracóvia, ele costumava promover encontros de cientistas, filósofos e teólogos. Ele tinha entusiasmo pelo diálogo entre a cultura científica e a religiosa.
Quando ele se tornou papa, ele se deu conta de que o caso de Galileu, nas palavras dele próprio, ainda era um mito. O mito de que, por causa da controvérsia com Galileu, havia um conflito intrínseco entre a crença religiosa e a ciência. E ele queria acabar com isso. Então, uma das coisas que fez, em um dos primeiros anos de seu papado, foi indicar que ele queria estabelecer uma comissão para tratar disso. Ele foi muito dedicado em estabelecer um diálogo entre a igreja e a ciência e se livrar de coisas negativas do passado. Uma das principais, claro, era Galileu.

FOLHA - A controvérsia envolvendo o darwinismo é em grande parte restrita a países com grande contingente protestante, mas não se ouve falar muito da posição do Vaticano.
COYNE
- Não há documento oficial. Não uma declaração oficial a respeito de evolução e design inteligente. É isso, ponto. Há alguns integrantes da igreja que estão discutindo o assunto. Alguns estão discutindo de maneira inteligente, outros não, porque não entendem o que a ciência é nem o que a evolução representa como explicação científica. João Paulo 2º, em uma mensagem para a Pontifícia Academia de Ciências, disse que a evolução "não é mais uma mera hipótese". Disse que a paleontologia, a geologia, a biologia, a química e a cosmologia, todas convergem no sentido de que a evolução é a melhor teoria científica que temos hoje. O papa Bento 16 ainda não deu declarações de alta importância sobre isso.

FOLHA - Quando o sr. deixou a direção do Observatório do Vaticano em 2006, depois de 28 anos de trabalho, alguns jornais disseram que o papa Bento 16 teria lhe pedido a renúncia por causa de suas críticas ao design inteligente. Isso é verdade?
COYNE
- Não, absolutamente. E não digo isso para me defender, mas para defender a verdade. Eu já tinha pedido renúncia voluntariamente por quatro vezes durante minha gestão. Apesar de amar meu emprego, eu francamente acho que a direção de uma instituição científica precisa sempre de sangue novo. Quando eu completei oito anos na direção, pedi demissão, quando completei 16 anos, pedi de novo, e depois de 24, mais uma vez. Quando pedi após 28 anos na diretoria, eles finalmente a aceitaram.
Fora isso, o papa Bento nunca falou da evolução de maneira negativa e nunca apoiou ou rejeitou o design inteligente. Depende de o que você considera design inteligente. Se você considera que é uma explicação científica, está errado. Não é. Para começar, não conseguimos detectar inteligência pelo método científico. Não conseguimos encontrar o design inteligente na ciência.
Agora, a fé pode me ensinar que tudo isso foi projetado de maneira inteligente, e eu acredito nisso, mas não consigo descobrir isso como cientista.
E uma coisa não está em contradição com a outra. Na verdade, se eu acreditar em Deus, o Universo em evolução me diz um bocado sobre Deus como criador inteligente. Ele criou um Universo que não é uma máquina de lavar, nem um carro, nem um relógio. Ele criou um Universo que tem um dinamismo e uma criatividade próprios. É um "se" importante.

FOLHA - Como foi sua carreira? Por que o sr. veio a se interessar tanto por ciência quanto por religião?
COYNE
- Eu entrei para o seminário como jesuíta aos 18 anos, em 1951. Fiz meus estudos espirituais, meu noviciado, onde estudei história antiga e literaturas latina e grega por dois anos. Também estudei filosofia por três anos, e durante esse tempo conclui minha graduação em matemática. No fim desse período, ainda como seminarista, fui enviado para um doutorado em astronomia e astrofísica. Quando terminei, depois de cinco anos, fui estudar teologia. Depois fui ordenado padre. E, então, comecei minha carreira pesquisando astronomia na Universidade do Arizona. Tudo foi meio emaranhado, e sou feliz com isso.
Não vejo nenhum conflito na minha vida em ser padre e cientista. Acho que ambos complementam um ao outro. Não sou um cérebro ambulante. Sou uma pessoa. E, como todas as pessoas tenho experiências em minha vida: experiências de fé, experiências de amizade... todos nós temos essas emoções.
Temos partes das nossas vidas que tentamos integrar. Isso é o que torna a vida interessante.

FOLHA - O fato de ser jesuíta o influenciou, já que a Companhia de Jesus tem uma tradição em se relacionar com a Academia?
COYNE
- Sim. É uma longa tradição. Após 30 anos da fundação da Companhia de Jesus, em 1540, nós tínhamos um grupo renomado de matemáticos e astrônomos no Colégio Romano, e alguns deles foram contemporâneos de Galileu. Foram os precursores do observatório, e trabalharam para a reforma do calendário. Esses jesuítas foram os primeiros a corroborar as observações telescópicas de Galileu, que foram, claro, o começo da ciência moderna. Nós [jesuítas] realmente temos uma longa tradição de cientistas, mas ela não é exclusiva. Mendel, o pai da genética, era um agostiniano.



"Não vejo nenhum conflito em ser padre e cientista. Acho que ambos complementam um ao outro. Não sou um cérebro ambulante. Sou uma pessoa"



FOLHA - O sr. já enfrentou algum tipo de preconceito no meio científico por ser padre?
COYNE
- Nunca. E trabalhei durante toda a minha carreira como cientista na universidade estadual, que não era um seminário nem uma universidade de afiliação religiosa. Sempre fui muito bem recebido lá, colaborei com pessoas lá em minha pesquisa. Colaborei com pessoas na Finlândia e até no Brasil, na Universidade de São Paulo. Faz tempo que não vou para aí, mas em algumas vezes passei vários meses em São Paulo e no Rio. "Falo um pouco de português brasileiro [falando em português]."

FOLHA - O sr. pretende vir ao Rio neste ano para o encontro da União Astronômica Internacional?
COYNE
- Eu espero conseguir ir. Tenho alguns problemas para resolver, mas acho que conseguirei fazer isso a tempo.

FOLHA - O sr. foi premiado pela AAS, em grande parte por conta dos cursos de verão no Vaticano. O que era esse programa?
COYNE
- Antes de começarmos as escolas de verão, éramos apenas um instituto de pesquisa. Alguns de nós ensinávamos -como eu, no Arizona-, mas isso era pessoal. Não tinha nada a ver com o Observatório do Vaticano. E nós colaborávamos com astrônomos ao redor do mundo. Nós nunca conseguíamos nos relacionar com astrônomos jovens, estudantes. Mas também não podíamos transformar o observatório em um instituição de ensino.
Então, resolvemos criar esse tipo especial de evento, uma escola de verão de um mês em astrofísica, para o qual convidaríamos astrônomos jovens de todo o mundo. Tivemos apoio de nossos superiores no Vaticano para isso, em particular do papa João Paulo 2º, e o projeto deu certo. Chegamos a 11 edições, para onde levamos ao todo 275 jovens do mundo todo, de 22 países, sendo 62% de países em desenvolvimento. As mulheres eram 48%.

FOLHA - O que o sr. tem pesquisado ultimamente?
COYNE
- Eu não tenho sido muito ativo em pesquisa agora porque tenho um trabalho em tempo integral, que é levantar fundos para financiar o nosso telescópio. Mas, quando vim para o Arizona, eu trabalhei com raios e partículas interestelares. Eu trabalhei por muitos anos em estudos de polarização, em meio interestelar, em estrelas com atmosferas estendidas e até em alguns tipos de galáxias. Os estudos de polarização nos ajudam a entender a geometria dos sistemas.

FOLHA - O telescópio com o qual o sr. trabalha foi uma iniciativa do Observatório do Vaticano, não?
COYNE
- Sim. Nos foi oferecida a opção de nos unirmos à Universidade do Arizona quando ela estava começando a trabalhar em uma nova tecnologia de espelhos de telescópios. O primeiro espelho que eles produziram foi o do nosso. Colaboramos no desenvolvimento dessa tecnologia, e nosso telescópio foi o tubo de ensaio dela. E deu tão certo que agora temos como vizinho o maior telescópio do mundo usando essa tecnologia com dois espelhos de oito metros de diâmetro.

Ano da Astronomia comemora observações pioneiras

DA REDAÇÃO

Em meados de 1609, após ter sido rejeitado como matemático oficial da corte dos Médici, em Florença, um professor da Universidade de Pádua chamado Galileu Galilei resolveu testar um brinquedo novo. O gesto acabaria por revolucionar a ciência -e levá-lo à prisão perpétua.
O tal brinquedo era a luneta, inventada na Holanda, que era tratada como mera curiosidade até então.
Galileu aperfeiçoou o instrumento, aumentando sua potência. No fim de 1609, ele apontou sua luneta (chamada de "telescópio") para a Lua. Estava dada a largada a um choque com a astronomia ptolomaica e a cosmologia aristotélica, defendidas pela igreja.
A Lua, observou Galileu, não era uma esfera perfeita (como dizia Aristóteles), mas sim cheia de montes e vales. Em outras observações seminais, o italiano descobriu quatro luas em torno de Júpiter e que Vênus tinha fases, como a Lua.
Isso era um problema para o modelo de Ptolomeu, que via a Terra no centro do Universo. Para que Vênus tivesse fases, seria necessário que os planetas se movessem em volta do Sol, e não o contrário. As fases de Vênus, no entanto, eram compatíveis com um outro modelo de Universo, descrito pelo polonês Nicolau Copérnico em 1543. Galileu passou a defender Copérnico, irritando o clero.
Em 1616, o cardeal Roberto Bellarmino, um aristotélico, ordenou a Galileu que não mais defendesse a teoria copernicana.
Arrogante, Galileu desafiou a proibição em 1632 com a obra "Diálogo", na qual um dos personagens, Simplício, é um aristotélico caricatural e estúpido.
No ano seguinte, iniciou-se um processo contra Galileu na Inquisição e um julgamento no qual o astrônomo foi considerado "veementemente suspeito de heresia" e condenado a abjurar suas ideias heliocêntricas. Galileu abjurou publicamente. Conta a lenda que teria murmurado depois: "Eppur si muove" ("e, no entanto, se move"). Foi condenado à prisão domiciliar, onde ficou até morrer.
Galileu é considerado o primeiro cientista moderno. A Unesco decretou 2009 o Ano Internacional da Astronomia, para marcar o quadricentenário das observações do italiano.

Interpretando Galileu

PEÇA DE BERTOLT BRECHT QUE INTRODUZIU A VIDA E OS DILEMAS ÉTICOS DO CIENTISTA ITALIANO A GERAÇÕES DE ESPECTADORES COMPLETA 70 ANOS




O Galileu de Brecht não aceita a absolvição. Ele afirma ter errado ao abjurar sua doutrina



TIAGO TRANJAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Galileu: "(...) Repassei o meu caso, e pensei sobre o juízo que o mundo da ciência (...) deverá fazer a respeito."


Duas bombas atômicas -e uma guerra, a emigração para os EUA, o macartismo, o retorno para a Alemanha Oriental- separam o texto final de "A Vida de Galileu" (1955) de sua primeira versão, escrita por Bertolt Brecht em 1939, durante o exílio na Dinamarca.
A peça, considerada por muitos o ponto culminante do teatro brechtiano, introduziu gerações de plateias ao personagem Galileu, não apenas como genial cientista, mas como portador de um dilema ético central para toda a ciência contemporânea. Essa ciência que, justamente a partir da Renascença, foi ganhando relevância progressiva, até se tornar importante força de moldagem social, ao mesmo tempo em que se institucionalizava e se profissionalizava.
Um antigo discípulo: "O senhor escondeu a verdade, diante do inimigo. Também no campo da ética o senhor estava séculos adiante de nós (...) O senhor fugia meramente a uma briga política sem chances, para avançar o trabalho verdadeiro da ciência".
Em retiro forçado, após abjurar a doutrina heliocêntrica de Copérnico devido às ameaças da Inquisição, Galileu prossegue solitariamente seu trabalho científico. É nessas condições que escreve sua obra máxima, os "Discursos sobre Duas Novas Ciências". Com ela, a ciência começa a assumir a forma como a conhecemos hoje, como descrição matemática do mundo, baseada na livre investigação dos fatos. Galileu aparece envolvido, aqui, em uma luta grandiosa: para libertar a ciência do jugo da religião, dos preconceitos intelectuais, da tirania ideológica. Para ele, o livro da natureza está aberto para quem deseje ler; e o valor a ser buscado é a verdade, o conhecimento. Delineiam-se nessa luta valores que viriam a ser vistos como fundamentais para a ciência: imparcialidade, autonomia e neutralidade. Valores cognitivos puros. Valores da busca pelo conhecimento.
Galileu: "A prática da ciência me parece exigir notável coragem (...). Ela negocia com o saber obtido através da dúvida. Arranjando saber, a respeito de tudo e para todos, ela procura fazer com que todos duvidem."
De maneira surpreendente e cruel, porém, na última cena da peça, o Galileu de Brecht não aceita a absolvição oferecida por seu ex-discípulo. Ele afirma ter errado ao abjurar sua doutrina. Diz ter perdido a luta: essa luta pela nova física que, hoje, nos parece ganha. Por que, então, o genial cientista não consegue perdoar-se? Acontece que o Galileu de Brecht está falando de uma outra luta. "A miséria de muitos é velha como as montanhas, e, segundo os púlpitos e as cátedras, ela é indestrutível, como as montanhas."
Para Brecht, o conhecimento era um instrumento de transformação. Toda sua teoria do teatro épico fundava-se na ideia de que o homem podia sempre reconstruir-se, ao mesmo tempo em que reconstruía as próprias estruturas sociais. Não havia natureza definitiva da humanidade, senão a possibilidade de avançar, de descobrir novas formas de sociabilidade, mais justas e fraternas. Para isso, porém, uma condição impunha-se: que as pessoas pudessem compreender sua própria realidade, e refletir acerca de seu papel no mundo.
Galileu: "E se os cientistas (...) acham que basta amontoar saber, a ciência pode se transformar em aleijão (...) Com o tempo, é possível que vocês descubram tudo o que haja por descobrir, e ainda assim o seu avanço há de ser apenas um avanço para longe da humanidade. O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que, ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror."
As duas bombas atômicas haviam se tornado a marca profunda do que Brecht vinha tentando dizer. Podia-se ver agora, que a ciência não possuía apenas um método, a ser libertado e aperfeiçoado, nem somente um objetivo -o conhecimento -a ser buscado. Ela possuía também um uso político e uma apropriação social, e estes exigiam, urgentemente, uma nova configuração. Diferentes lutas, mas que precisavam ser lutadas sempre ao mesmo tempo.
Tanto Galileu quanto Brecht buscam a "verdade". Mas qual verdade? Brecht pede a Galileu que faça com sua busca científica o que ele próprio fizera com sua arte: a busca da "verdade" como revelação do homem ao próprio homem. Cabe então perguntar: estaria Brecht oferecendo, assim, um novo dogmatismo ideológico, que deveria submeter a investigação científica assim como o "realismo socialista" havia tentado submeter a arte?
A mensagem é mais crucial e precisa. Brecht coloca em dúvida a possibilidade do valor cognitivo puro, pois sabe que valores estão sempre imersos em uma sociedade. O termo "verdade" só pode apontar em uma direção: para uma melhor compreensão do ser humano e de suas possibilidades no mundo; para a consciência do homem que constantemente se reconstrói. A cobrança que Brecht dirige a Galileu -aos cientistas e homens de sua época- é tudo menos dogmática. Existe uma busca pelo conhecimento científico? Não se questiona. Mas, tudo somado, a "verdade" pode apenas ser uma busca humana.
Marcelo Gleiser - São Paulo, domingo, 19 de julho de 2009

Raridade não é milagre



Pessoas podem querer achar lugar para a fé na ciência, mas a vida não é esse lugar



Talvez a confusão entre um fenômeno raro e um milagre seja inevitável, sobretudo se a pessoa for religiosa, procurando na fé respostas para questões que a ciência ainda não respondeu. Mas não deveria ser.
Na semana passada, escrevi sobre uma hipótese científica chamada "Terra Rara". Segundo ela, os avanços das ciências físicas e biológicas apontam para um fato um tanto curioso e de extrema importância: ao contrário do que supõem muitos cientistas, a Terra é um planeta raro.
Por raridade, aqui, quero dizer que nosso planeta tem uma série de propriedades que favorecem a vida e que, tomadas juntas, são bastante difíceis de serem reproduzidas em planetas e em suas luas na nossa ou em outras galáxias. Segundo a hipótese, a raridade da Terra implica na raridade de formas de vida extraterrestre complexas, ou seja, na raridade de seres multicelulares, como insetos ou mamíferos (e seus primos alienígenas).
Os autores da hipótese, Peter Ward e Donald Brownlee, não questionam se bactérias podem ser relativamente fáceis de encontrar em outros planetas e luas que tenham água líquida, química favorável e fontes de energia capazes de manter seu metabolismo.
Mas Ward e Brownlee insistem que "monstros" ou ETs inteligentes devem ser muito raros.
A conclusão imediata é que, se a hipótese estiver correta -e eu acho que está, por motivos que explorarei em novo livro que será publicado em 2010-, o homem (ou melhor, os humanos) volta a ser importante. Volta porque, como sabemos, antes de Copérnico sugerir que o Sol, e não a Terra, é o centro do cosmo (ao menos o cosmo do século 16), a Terra e, consequentemente, o homem, era o centro da Criação. Esse antropocentrismo antiquado e de base religiosa não tem nada a ver com o novo antropocentrismo (humanocentrismo seria melhor) que estou propondo.
Esse esclarecimento é importante.
Logo após a minha coluna da semana passada ter aparecido, recebi mensagens de vários leitores agradecendo-me por justificar sua crença de que fomos criados por Deus. Ou seja, pessoas ávidas por uma justificação científica para a sua fé em Deus veem a afirmação de que a vida complexa é rara no cosmo como prova de que deve ter surgido milagrosamente por intervenção sobrenatural.
Entendo a necessidade de pessoas quererem achar um lugar para a sua fé na descrição científica do universo.
Mas a raridade da vida complexa e de seres inteligentes não é esse lugar. O fato de um evento ser raro, ou de baixa probabilidade, não faz com que não possa ser explicado por argumentos científicos. Raridade não é milagre.
Achar uma orquídea florescendo na avenida Paulista, ver um tucano sobrevoando o aeroporto de Congonhas, ganhar na loteria, engravidar aos 44 anos ou ver a explosão de uma supernova são todos eventos raros. Nenhum deles é um milagre sobrenatural, embora possa ser tentador para alguns atribuí-los a algo inexplicável.
Essa é a diferença fundamental entre ciência e fé. Na fé, o raro é atribuído a causas sobrenaturais. Na ciência, é um fenômeno natural de pouca frequência. Se a vida complexa for rara no Universo, nós passamos a ser a exceção, não a regra. Apesar de ser tentador atribuir nossa raridade (ou a dificuldade dos vários passos evolucionários até a vida complexa) a um milagre sobrenatural, mais significativo é compreender a importância de sermos um raro acidente da Natureza.
Em vez de darmos graças a Deus por estarmos aqui, devemos tomar nosso destino em nossas mãos e fazer todo o possível para preservar a vida nesse planeta e, por que não, espalhá-la pelo Universo.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"



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