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Entre o Antigo e o Novo Testamentos

O Período Interbíblico

D.S.Russell

©Abba Press Editora e Divulgadora Cultural Ltda.
Categoria: História

Cód. 01.12101.0507.2
2" Edição no Brasil

Maio de 2007
Tradução

Eliseu Pereira
Revisão

Irene Pereira

Maria Isabel C. Dutra
Coordenação Editorial

Oswaldo Paião
Impressão

Gráfica Sumago
ISBN 978-85-85931-58-2

E permitida a reprodução de partes

desse livro, desde que citada a fonte

e com a devida autorização escrita dos editores.
Abba Press

R. Manuel Alonso Medina, 298 - CEP 04650-031 - São Paulo / SP Tels./Fax (11) 5686-5058 / 5686-7046 / 5523-9441

Site: www.abbapress.com.br

E-mail: abbapress@abbapress.com.br

Conteúdo

Prefácio
PARTE UM



O Fundo Cultural e Literário
1. Judaísmo versus Helenismo

1. Surgimento e Expansão do Helenismo

A. Os Gregos e os Romanos

B. A Septuaginta e a Literatura Helenística

C. A Cultura Grega na Palestina

D. A Influência Religiosa do Helenismo


2. A reação contra o Helenismo

A. O Partido Helenista em Jerusalém

B. A Vingança de Antíoco

C. Os Macabeus e a Revolta dos Macabeus

D. A Casa de Hasmoneu

E. Herodes e os Romanos


2. O Povo do Livro

1. A Religião da Torah

A. Do templo à Torah

B. O Ponto de Levante da Revolta

C. A Santa Aliança
2. A Torah e as seitas

A. Os Fariseus

B. Os Saduceus

C. Os Essênios

D. Os Zelotes

E. Os Pactuantes de Qumran


3. Os Escritos Sagrados

1. As Sagradas Escrituras

A. O Cânon Hebraico

B. As Escrituras na Dispersão


2. A Tradição Oral

A. Sua Origem e Desenvolvimento

B. Sua Forma e Conteúdo
3. Os "Livros Não Incluídos"

A. A Literatura Não-Canônica

B. O Ambiente dos Apocalípticos
4. A Literatura Apócrifa

1. Os Livros Comumente Chamados "Apócrifos"

A. Sua Identidade

B. Seu Conteúdo e Gênero Literário

C. Seu Valor Histórico e Religioso
2. Os Outros Livros "Apócrifos" (ou Pseudepígrafos)

A. Sua Identidade

B. Na Comunidade de Qumran
3. Os livros Apócrifos no Cristianismo

A. No Novo Testamento

B. Na História da Igreja

PARTE DOIS

Os Apocalípticos
5. A Mensagem e o Método dos Apocalípticos

1. A Tradição Apocalíptica

A. O Segredo Oculto

B. A Linguagem do Simbolismo

C. A Lenda de Esdras
2. Os Apocalípticos e a Profecia

A. A Unidade da História

B. As Últimas Coisas

C. A Forma de Inspiração


3. Pseudonímia

A. Um Recurso Literário

B. Extensão de Personalidade

C. O Significado do "Nome"


6. O Messias e o Filho do Homem

1. O Pano de Fundo do Antigo Testamento


2. O Messias Tradicional ou Nacional

A. O Messias Não Indispensável

B. O Messias Levítico

C. O Messias Davídico

D. O Messias e os Rolos do Mar Morto

E. Jesus e o Messias


3. O Messias Transcendente e o Filho do Homem

A. O Filho do Homem Apocalíptico

B. O Pano de Fundo do Oriente

C. O Filho do Homem como Messias

D. Sofrimento e Morte

E. Jesus e o Filho do Homem


7. A Ressurreição e a Vida Após a Morte

1. A Ressurreição: Origem e Desenvolvimento

A. A preparação no Antigo Testamento

B. Sua Origem Histórica

C. Desenvolvimento Subseqüentes

D. A Ressurreição e o Reino Messiânico


2. A Natureza da Sobrevivência

A. Sheol, a Morada das Almas

B. Distinções Morais no Sheol

C. Mudança Moral na Vida Além

D. A Alma Individual e o Julgamento Final
3. A Crença na Ressurreição e a Natureza do Corpo da Ressurreição

A. A Ressurreição do Corpo e a Sobrevivência da Personalidade

B. A Ressurreição do Corpo e sua Relação com o Ambiente

C. A Relação do Corpo "Espiritual" com o Corpo Físico

Bibliografia Selecionada

Literatura Apócrifa

Governantes e Principais Acontecimentos
Dedicado a Marion, Helen e Douglas

Prefácio
Na maioria das Bíblias, o período entre o Antigo e o Novo Testamentos é representado por uma única página em branco o que, talvez, tenha um significado simbólico. O período "de Malaquias a Mateus" por muito tempo tem permanecido vago e desconhecido para muitos leitores da Bíblia. Vários mistérios permanecem, mas nos últimos tempos, muita luz tem sido lançada sobre todo esse período. Os escritos de grande número de eruditos e algumas notáveis descobertas arqueológicas têm fornecido novos e deslumbrantes pontos de vista a respeito do assunto.

No início deste século, o Dr. R.H.Charles escreveu com freqüência sobre o assunto, e a publicação, em 1914, de seu pequeno livro Desenvolvimento Religioso entre o Antigo e o Novo Testamento, incluiu um outro público de leitura nesse campo de estudo e auxiliou grandemente a preencher a lacuna no entendimento das pessoas em relação a esse assunto. Mas ninguém poderia prever que esse período ainda se tornaria um foco de atenção, não apenas para os eruditos, mas também para o "cidadão comum". A descoberta dos pergaminhos do Mar Morto despertou a imaginação popular e atraiu a atenção de eruditos do mundo inteiro. Esses escritos são de extrema importância, não somente pelos relatos que fornecem sobre as crenças e práticas dos Pactuantes de Qumran, mas também pelo novo interesse e conhecimento que trazem a todo o período interbíblico.

Neste pequeno volume, fiz uma tentativa de revisar esses anos, à luz dos recentes estudos e descobertas, e em particular para avaliar a contribuição religiosa desse grupo de homens, um tanto estranhos, conhecido como "os apocalípticos". Muitas outras questões pertinentes a esse período interbíblico poderiam ter sido tratadas, mas o propósito deste livro é seletivo e não, exaustivo, indicando a participação que os apocalípticos tiveram no desenvol­vimento religioso do Judaísmo e na preparação das mentes dos homens para a vinda do Cristianismo.

Espero que este breve estudo estimule o apetite do leitor, levando-o a aprimorar estes estudos, ainda mais, com ajuda da bibliografia sugerida.



David S. Russell

College Rawdon, Leeds

Parte Um

O Pano de Fundo

Cultural e Literário
1
Judaísmo Versus Helenismo
Os anos que se estendem de 200 a.C. a 100 d.C, geral­mente citados como "o período interbíblico", são de fundamental importância tanto para o Cristianismo como para o Judaísmo rabínico, porque foi durante esses séculos que, num sentido muito especial, o caminho foi sendo prepa­rado para o aparecimento dessas duas grandes crenças religiosas. O propósito deste livro é examinar, embora resumidamente, a cultura e a literatura desses importantes anos e analisar o desen­volvimento de certas crenças religiosas, cuja influência foi sentida particularmente dentro da Igreja Cristã em crescimento.

Ao longo de todo esse período, os judeus estavam rode­ados pela cultura e civilização gregas e, particularmente na Dispersão, muitos tiveram que adotar a língua grega ou como seu único idioma ou como alternativa à sua própria língua, o aramaico. Era inevitável que eles fossem influenciados, e pro­fundamente, pelo ambiente helenístico em que viviam; o sur­preendente é que a reação deles a esse ambiente não foi tão marcante e que, apesar da pressão trazida sobre eles, eles conse­guiram manter sua distinta fé judaica.

No período de 170 a.C. a 70 d.C, o nacionalismo judaico desempenhou um papel mais importante na resistência ao avanço do helenismo. Como veremos, esse nacionalismo não foi motivado apenas por objetivos políticos, mas também por ideais religiosos oriundos de uma devoção profunda por parte de muitos e arraigados em firmes convicções teológicas. Porque o Judaísmo, ao contrário do Helenismo, representava não tanto um modo de vida, mas um movimento religioso nacional. O Dr F. C. Burkitt, escrevendo sobre o Judaísmo desses dois sécu­los e meio, descreve-o como "uma alternativa para a civilização como se considerava então". Ele não era apenas uma alternativa, mas era a alternativa, pois, na convicção de muitos, o judaísmo conduziria afinal os homens para o Reino de Deus, cuja vinda precederia à Nova Era determinada por Deus.
1. Surgimento e Expansão do Helenismo
A. Os Gregos e os Romanos

A palavra "helenismo" é comumente usada para descre­ver a civilização dos três séculos aproximadamente desde o tempo de Alexandre, o Grande (336-323 a.C.) durante os quais a influência da cultura grega era sentida de Leste a Oeste. Era o forte desejo desse imperador fundar um império mundial associado à unidade da língua, costume e civilização e, em suas grandes conquistas militares, ele se empenhou em concretizar tal idéia. Após sua morte, quando seu Império no Leste foi dividido entre os Selêucidas na Síria e os Ptolomeus no Egito, o processo de helenização continuou rapidamente nos países sobre os quais eles governaram.

Desde o início, os judeus devem ter sentido o impacto dessa cultura sobre seu estilo de vida e particularmente sobre sua religião. A exceção de uma área comparativamente pequena ao redor de Jerusalém, eles não constituíam um Estado, pelo contrário, uma Dispersão, espalhados não apenas por toda a Palestina, mas por todas as regiões do Império. Eles ficaram especialmente vulneráveis à influência do helenismo por intermédio dos negócios e das trocas comerciais. A política de Alexandre e de seus sucessores era enviar os colonos gregos no rastro de seus exércitos e plantá-los como comerciantes nas terras conquistadas. Nessas terras, particularmente no leste, viviam muitos judeus que haviam sido exilados da Palestina muitos anos antes, e outros que, até mesmo antes do tempo de Alexandre, haviam emigrado e se instalado em cidades gregas no extremo oeste. Muitas comunidades judias podiam ser encontradas em lugares tais como Síria, Antioquia, Damasco, Ásia Menor, Macedónia, Grécia, Chipre, Cirene e Roma. Onde quer que os judeus estivessem, sob o governo dos Selêucidas ou dos Ptolomeus, eles haviam desfrutado por muito tempo das bênçãos da liberdade religiosa sob uma política de tolerância religiosa que, sem dúvida, os deixaria abertos à influência sutil da cultura helenística. Os romanos, por sua vez, continuaram a estimular o desenvolvimento dessa cultura, especialmente nas províncias orientais, e buscaram por esses meios realizar os sonhos de Alexandre, o Grande. Nesse sentido, não houve um verdadeiro rompimento entre o regime grego e o romano, ou, realmente, entre os anos antes de Cristo e os anos depois de Cristo. A cultura e a civilização helenísticas foram características de todo o período greco-romano e é com esse amplo fundo histórico e cultural que vamos estudar as reações do povo judeu e sua fé religiosa.
B. A Septuaginta e a Uteratura Helenística

Desde tempos remotos, houve assentamentos de judeus no Egito, e Alexandria logo alcançou um honrado nome, parti­cularmente como centro literário. Foi aqui que a tradução Sep­tuaginta das Escrituras para a língua grega foi apresentada para uso dos judeus de fala grega do Egito, que não mais conseguiam ler hebraico e para quem as traduções disponíveis nos ofícios das sinagogas mostravam-se inadequadas. A tradução da 'Torah" ou Pentateuco aconteceu, provavelmente, durante o reinado de Ptolomeu II (285-247 a.C), com o nome "Septuaginta" sendo estendido para abranger também as outras partes do Antigo Testamento. Na Carta de Aristéia, que mais tarde acompanhou a Bíblia grega, há uma lenda de que a Septuaginta foi o resultado de uma ordem real de Ptolomeu II, do Egito, que teria delegado a tarefa da tradução a 72 "anciões". Em formas posteriores da história, o número é citado como 70. Esses homens levaram a cabo a obra de tradução em ambientes separados e produziram resultados precisamente semelhantes! Porém, é provável que a Septuaginta tenha vindo a existir como um Targum1, assim como na Palestina passou a existir um Targum1 para ajudar aqueles que não conseguiam entender as Escrituras hebraicas. A influência da Septuaginta sobre os judeus da Dispersão e mesmo sobre a jovem Igreja Cristã não pode ser superestimada. A exceção de certas notáveis implicações gregas aqui e ali, que poderiam lembrar seus leitores de seu fundo cultural, ela era quase desconsiderável como um veículo de helenizaçâo. Mas como um instrumento de propagação de Judaísmo durante a Dispersão, sua contribuição foi de importância inestimável.

Em Alexandria, também, foram escritos muitos livros gentílicos e enviados para muitas partes do mundo onde, sem dúvida, foram estudados pelos mais instruídos dentre os judeus. Não raro, esses livros continham acusações difamadoras contra a raça e a religião judaica que eram normalmente considerados supersticiosos e ateístas. Os judeus, por sua vez, não tentavam disfarçar, em seus próprios escritos, o absoluto desprezo que unham pelos pagãos. De fato, toda a literatura judaico-helenística, da época da Septuaginta até Josefo ao final do primeiro século d.C, tinha como alvo a condenação da idolatria, principalmente através de ridicularizações, e a defesa do Judaísmo contra as intromissões de tal influência pagã2. Muito dessa literatura é conhecida por nós apenas por fragmentos ou em referências em outras obras3, mas esses escritos que sobrevi­veram mostram muito claramente a mescla de pensamento grego e judeu que predominava bem antes do começo da era cristã.

Isso é bem ilustrado em livros tais como os Oráculos Sibilinos (Livro III) e Sabedoria de Salomão. Os Oráculos Sibilinos foram escritos durante a última metade do segundo século a.C, em Alexandria. São semelhantes à Sibil grega que exerceu considerável influência sobre o pensamento pagão, tanto antes como depois desse tempo. A Sibil pagã era uma profetisa que, sob inspiração de um deus, podia dar sabedoria aos homens e revelar-lhes a vontade divina. Havia uma variedade de tais oráculos em diferentes países, e no Egito, em particular, eles passaram a gozar de um crescente interesse e significado.


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1A palavra "Targum" (no grego) significa uma tradução ou paráfrase da Escrituras Hebraicas na língua do povo. Nas regiões de fala aramaica, a leitura das Escrituras na sinagoga era acompanhada por uma repetição oral (veja p. 63 ss). Acredita-se que esse costume reportava aos tempos de Esdras (cf. Ne 8.8). No segundo século d.C. os Targuns aramaicos passaram a existir na forma escrita.

Os judeus de Alexandria viam nesse tipo de literatura um excelente meio de propaganda. Por meio de alte­rações e acréscimos discretos, eles usaram a estrutura dos oráculos pagãos para propagar a fé no "único Deus vivo e verdadeiro".

De muito maior significado é o livro Sabedoria de Salo­mão, escrito no primeiro século a.C. por um judeu de Alexandria que, ao apresentar sua fé, demonstra que havia sido profunda­mente influenciado, em seu pensamento, pela perspectiva e filosofia do mundo grego gentio e que ele era, sem dúvida, muito versado nesse campo. Por exemplo, essa influência pode ser percebida ao tratar da idéia de "sabedoria" que ele personi­fica de modo semelhante ao ensinamento estóico referente ao conceito amplamente conhecido de Logos ou Verbo4. Neste ponto, de fato, trata-se de uma forte tentativa de reunir a piedade do judaísmo ortodoxo e a forma de pensamento grego da época. De acordo com outros escritos judaicos daquele tempo, ele incorpora uma forte polêmica contra os gentios e exalta a verdadeira religião que Deus revelou a seu servo Moisés.

Um bom exemplo de Judaísmo helenístico pode ser encontrado no escritor judeu alexandrino Philo, que foi contemporâneo de Jesus e de Paulo. Ele era bem versado não apenas nas Escrituras em hebraico, como nos escritos judaico-helenistas, e também em filosofia grega.

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2Este também era o tema de outros livros judeus, oriundos da Palestina, que no devido tempo foram traduzidos para o grego, e finalmente, acharam lugar na Septuaginta, como I Macabeus, Bel e o Dragão, Judite, o Resto de Ester, Tobias e Susana (veja pp. 78 ss).

3Ver R. H. Pfeiffer, History of New Testament Times, with a Introduction to the Apocrypha (História dos Tempos do Novo Testamento, com uma Introdução aos Apócrifos), 1949, p. 200 ss.
O objetivo de seus escritos era demonstrar a relação entre a religião das Escrituras e a verdade das filosofias gregas. Ele fez uso livre da alegoria, prática comum em Alexandria, e através dela demonstrou, por exemplo, que Moisés estava em consonância com os filósofos gregos. A posição de Philo não era aceita pelo Judaísmo ortodoxo de seus dias, mas sua abordagem da religião e da filosofia, e a relação entre elas, teve uma influência considerável no desenvolvimento da teologia cristã nos anos que se seguiram.
C. A. Cultura Grega na Palestina

O impacto do helenismo sobre o judaísmo foi sentido até mesmo na própria Palestina onde, na maior parte, os judeus passaram pela Dispersão e viviam como membros de uma comunidade grega. Durante o período dos Selêucidas, muitas cidades da Palestina foram conquistadas pelo estilo de vida grego e algumas novas cidades foram construídas em estilo grego. Essas comunidades, governadas por um senado demo­crático, semelhante ao Boulê ou Conselho Ateniense, eleito anualmente e composto de representantes do povo, trouxeram para os judeus uma perspectiva mental completamente nova e uma, até então desconhecida, visão da cultura e civilização helenística, muito do que, para o judeu fiel, parecia ser prejudicial e até mesmo subversivo à fé de Israel. Mesmo em Jerusalém e seus arredores havia muitos que adotaram o estilo de vida grego desde o início do período da supremacia ptolomaica, e muitos mais sucumbiram sob a propaganda concentrada dos Selêucidas.

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4Para uma abordagem mais completa, ver p. 23 s.

O Primeiro Livro de Macabeus lança luz sobre a situação daquele tempo nestes palavras: "Nesta época saíram também de Israel uns filhos perversos que seduziram a muitos outros dizendo: Vamos e façamos alianças com as nações ckcunvizinhas, porque desde que nós nos separamos deles, caímos em infortúnios sem conta. Semelhante linguagem pareceu-lhes boa, e houve entre eles quem se apressasse a ir ter com o rei, que concedeu a licença de adotarem os costumes pagãos. Edificaram em Jerusalém um ginásio como os gentios, dissimularam os sinais da circuncisão, afastaram-se da aliança com Deus, para se unir aos estrangeiros e se escravizar ao pecado" (1 Mac 1.12-15). Comentando sobre essa passagem, A.C. Purdy escreve: "Lendo nas entrelinhas, podemos inferir que o desafio para o Judaísmo aqui não era o de uma religião rival, mas o de uma cultura rival. Era o desafio do secularismo. A religião dos judeus estava ainda para ser diretamente atacada, mas um helenismo definido e agressivo havia surgido entre eles"5.

Um fator importante de expansão dessa cultura rival foi indubitavelmente a formação de ginásios que foram construídos não apenas em Jerusalém, mas em muitas regiões da Dispersão, na Palestina e arredores. "Eles expressavam", escreve o Dr. Edwin Bevan: "tendências fundamentais da mentalidade grega — sua inclinação para a beleza harmoniosa da forma, o prazer do corpo, a franqueza imperturbável com respeito ao mundo natural."6 A ênfase grega na beleza, forma e movimento iriam abrir o horizonte estético, desconhecido até então para muitos judeus.

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5Q H. C. MacGregor e A. C. Pwdy,Jewand Greek (O Judeu e o Grego), 1937, p. 30.

Por essa razão, alguns dos ritos religiosos judaicos que pareciam inestéticos para os gregos, passaram a ser negligenciados por certos judeus. Como a citação anterior de 1 Macabeus mostra, os atletas judeus, por exemplo, que iam normalmente correr nus na pista, passaram a ser "incircuncidados" por meio de uma leve operação cirúrgica para evitar o escárnio da multidão.

Jogos e corridas no estádio e no hipódromo eram marcas distintas das cidades helenizadas e eram populares entre os jovens judeus, não menos do que entre pessoas de outras tradições religiosas e culturais. O teatro também desempenhou um papel importante na disseminação da cultura grega. Sabemos de judeus que escreveram tragédias em versos gregos, e cujas peças, como Êxodo de um certo Ezequiel, foram, com certeza, apresentadas no teatro que Herodes construiu perto do Templo de Jerusalém. Os ritos e cerimônias religiosos, aos quais muitos dos jogos e apresentações eram associados, tinham uma influência inevitável sobre a população judia e tendiam a corromper as mentes dos jovens, acompanhadas, como eram muitas vezes, de uma medida de imoralidade e vícios. O hele­nismo com o qual os judeus estavam em contato durante esse período, embora contivesse muito do que era bom e bonito, tinha, na concepção popular, uma íntima conexão com o 'túmulo de Dafne, e os caminhos dos soldados, guardiães de bordéis e comerciantes7.
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6Jerusalem under the High Priests (Jerusalém sob a Liderança dos Sumos Sacerdotes), 1920, p. 35.
D. A Influência Religiosa do Helenismo

E óbvio, a partir do que se tem sido dito, que a influência do helenismo não podia estar confinada estritamente aos aspectos sociais ou literários ou culturais ou estéticos; por sua própria natureza, criou-se uma atmosfera definitivamente espiritual que era, em muitos aspectos, completamente estranha à perspectiva religiosa dos judeus. Os vários festivais e cerimô­nias, associados a quase tudo na vida social grega, deixaria sua impressão na vida religiosa e nos costumes do povo.

E importante, nesta conexão, observar que o Helenismo era um sistema sincretista, sob cuja superfície o pensamento e as crenças de muitas antigas religiões orientais continuaram a exercer uma forte influência. No ramo sírio do helenismo, por exemplo, o Zoroastrismo, religião do antigo Império Persa, ainda estava bem vivo8. Em sua forma mais primitiva, de alguma forma o Zoroastrismo ensinava um dualismo no qual havia uma interminável batalha entre os poderes da luz, liderados pelo espírito bom Ahura-Mazda, e os poderes das trevas, conduzidos pelo espírito mau Angra-Mainyu. Esse princípio dualista é formulado em uma doutrina de "duas eras" na qual a "presente era" de impiedade é contraposta à "era futura" de retidão. Afinal, pelos bons ofícios de Shaoshyant, o salvador, Ahura-Mazda lança Angra-Mainyu no abismo. O fim do mundo sobrevêm; os mortos são ressuscitados e enfrentam o julga­mento. Todos os homens são sujeitados à chama de um fogo purificador; por rim, todos são salvos e surge a nova era com um novo céu e uma nova terra.

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7g. H. c. Macgregor e a/c. Purdy, op. cit, p. 143.

8Ver p. 95,107 ss, 112,135.
Ao lado desse ensino do Zoroastrismo, havia o antigo culto babilónico baseado nos luminares celestes e especialmente nos sete planetas que, em suas voltas ao redor da terra, controlavam, acreditava-se, as vidas dos homens e as nações. A sobrevivência desse culto é bastante compreensível porque o Império Persa que Alexandre, o Grande, conquistara, tinha, por sua vez, sucedido o antigo Império Babilônico e, no processo, havia incorporado muitos de seus costumes e crenças e adotara o aramaico ou "caldeu" como o idioma oficial do governo. Assim, ali emergiu o sincretismo perso-babilônico, ou "mescla" de cultura, que ao longo do tempo coloriu profundamente o helenismo sírio.

Por meio do helenismo sírio, o impacto dessa cultura seria sentido pelos judeus na Palestina. Realmente, muitos dos judeus tinham contato direto com o pensamento e a cultura perso-babilônica porque, desde o tempo do Cativeiro, eles tinham vivido lado a lado com iranianos (ou persas) na Mesopotâmia.

De vez em quando esses judeus babilónicos voltavam à Palestina, trazendo consigo uma avaliação simpatizante de alguns aspectos do pensamento persa, particularmente aqueles que não eram necessariamente incompatíveis com sua própria religião hebraica. Sem dúvida, muitos foram atraídos a voltar à Palestina no tempo dos Macabeus e seus sucessores, quando um estado judeu forte começava a surgir.

A influência do Zoroastrismo, e de fato, de toda a cultura perso-babilônica é amplamente ilustrada nos escritos dos judeus apocalípticos desse período e mesmo, embora em menos extensão, nas obras dos Judaísmo farisaico. E evidente também nos escritos dos Pactuantes de Qumran, nos quais aparece, por exemplo, uma forma

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9Compare o interesse nos corpos celestes demonstrados nos escritos como Jubileus e I Enoque 72-82.
de dualismo, em muitos sentidos semelhante ao do Zoroastrismo, que não pode ser explicado simplesmente através da referência à religião do Antigo Testamento . Uma relação com a escatologia (isto é, doutrina das "últimas coisas") do Zoroastrismo é indicada no próprio Antigo Testamento ; mas os judeus apocalípticos, incluindo o escritor do Livro de Daniel, são muito mais fortemente influenciados por ele. Toda a perspectiva deles é governada pela convicção de que aquela era presente maligna estava na iminência de terminar e que a nova era se seguiria imedia­tamente . Essa visão dualística do universo coloriu suas convic­ções em relação à esperança messiânica, por exemplo, que ao longo do tempo assumiu características transcendentais e também sua concepção da vida após a morte. Neste último caso, a influência do Zoroastrismo é evidente em questões tais como a separação da alma do corpo no momento da morte, o destino dos mortos no lapso de tempo entre a morte e a ressurreição, a doutrina da ressurreição e o ensino relativo ao Juízo Final. Outro campo no qual se percebeu profundamente essa influência, é na doutrina amplamente difundida sobre anjos e demônios e, em particular, a personalização de espíritos maus para os quais não há paralelo no pensamento do Antigo Testamento. 16
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10Ver p. 50.

11Compare particularmente o rolo intitulado 'The War of the Sons of Light and the Sons of Darkness" (A Guerra entre os Filhos da Luz e os Filhos de Trevas).

12Por exemplo, Isaías 24-27; 65.17 ss.

13Ver p. 94, 107 ss, 120 ss.

14Ver p. 130 ss.

15 Ver capítulo 7.

16Verp. 50,112.

Ainda mais importante do que o helenismo sírio foi o helenismo egípcio que tomou forma sob os Ptolomeus. As antigas tradições religiosas e místicas do Egito e da Babilônia entraram em contato com a nova ciência e cultura gregas, produzindo um sistema de pensamento muito mais abstrato em forma do que o ramo sírio de helenismo. Muitos judeus, especialmente os da Dispersão, foram grandemente influenciados pelo tipo filosófico de religião que acompanhava essa forma particular da cultura grega.

Este ponto é bem ilustrado pelo autor de Sabedoria de Salomão , cuja familiaridade com o pensamento grego é evidente, por exemplo, no ensino referente à "sabedoria". A idéia de "sabedoria" é bem familiar para os leitores do Antigo Testamento em livros como Provérbios, Jó e Eclesiastes, mas em Sabedoria de Salomão a influência da filosofia grega está mais claramente demonstrada. "O ensino do autor referente à sabedoria divina e humana", escreve B. M. Metzger, "é uma explicação das idéias primitivas sobre esse tema expressadas no Livro de Provérbios, com uma distorção metafísica emprestada da concepção estóica do Logos universal, aquele mediador impessoal entre Deus e a criação." Tendo "criado o mundo a partir da matéria informe" (11.17, cf. Gn 1.2), Deus envia à criação uma alma que, para o escritor desse livro, é nada menos que a própria sabedoria. O espírito de sabedoria vem de Deus (7.7, etc.) e é "uma clara efluência da glória do Todo-Poderoso" (7.25). Deus criou todas as coisas por Sua palavra (9.1), mas a sabedoria estava presente antes da criação (9.9). Desde então, ela tem sido "o artífice" (7.22), o renovador (7.27), o ordenador (8.1) e o realizador (8.5) de todas as coisas.

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17 Ver também IV Macabeus que mostra um conhecimento íntimo da filosofia grega, especialmente 1.13 - 3.18, 5.22-26, 7.17-23.

18An Introduction to the Apocrypha (Uma Introdução aos Apócrifos), 1957, p. 73.
Em 7.22s ele faz uma tentativa de definir sabedoria e atribui nada menos que 21 qualidades a ela; mesmo assim, ela permanece um enigma.

A influência do pensamento grego no livro Sabedoria de Salomão também é evidente em seu ensino referente à doutrina platônica sobre a preexistência da alma, como em 8.19-20, em que lemos: "Eu era um menino vigoroso, dotado de uma alma excelente, ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intacto." Essa mesma ideia esta presente no escntor judeu Philo (morto em cerca de 50 d.C.) e em livros tais como II Enoque (1-50 d.C.) onde aparecem estas palavras: "Sente-se e escreva para todos os filhos dos homens, porém, muitos deles nascem, e os lugares são preparados para eles na eternidade; porque todas as almas são preparadas para a eternidade, antes da fundação do mundo" (23.4-5).

A maioria desses livros judeus (particularmente os de caráter apocalíptico) expressa a crença em uma ressurreição da morte na qual a alma ou o espírito é reunido ao corpo, mas em alguns deles a influência do pensamento platônico é nova­mente evidente em passagens que expressam a crença na imortalidade da alma. Em Sabedoria de Salomão 3.1-5, por exemplo, lemos: "Mas as almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente eles estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se eles, aos olhos dos homens, suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens. Porque Deus, que os provou, achou-os dignos dele." Pelo menos dois outros livros expressam essa mesma crença.

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19Cf. também 15.8,11, IV Mac 13.13, 21; 18.23

20Ver p. 84,146 ss.

Em I Enoque 91-104 (cerca de 164 a.C), o escritor refuta a visão dos saduceus de que não há nenhuma diferença entre a sorte dos justos e a dos ímpios após a morte (102.6-8,11) e afirma que, pelo con­trário, "toda bondade e alegria e glória estão preparadas" para as almas dos justos (103.3). Eles vão viver e se regozijar e seus espíritos jamais perecerão (103.4). Assim também no Livro de Jubileus, (c. 150 a.C.) o justo passa imediatamente da morte para a bem-aventurança da imortalidade — "Seus ossos vão descansar na terra, e seus espíritos terão muita alegria" (23.31).

A influência desses diferentes tipos de helenismo no Judaísmo durante esse período está clara; mas em suas doutrinas fundamentais, o Judaísmo permaneceu fiel à fé de seus pais e preparou o caminho não apenas para sua própria sobrevivência, mas também para o nascimento da religião cristã.
2. A Reação Contra o Helenismo

Já se mencionou a política de tolerância seguida tanto pelos Ptolomeus como pelos Selêucidas, por meio da qual foi permitido ao Judaísmo e ao Helenismo existirem lado a lado. Esses foram anos de grande perigo para a fé judaica. Porque essa política visava uma helenização por meio de uma infiltração gradual de influência grega e uma assimilação gradual do estilo de vida grego. Foi quando essa política de penetração pacífica foi substituída por uma política de perseguição, notavelmente no reinado de Antíoco IV (175-163 a.C), que irrompeu uma violenta reação transformada, com o tempo, num ódio ardente contra todo o estilo de vida helenístico.




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