E. B. J escola Bíblica Jovem



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E.B.J – Escola Bíblica Jovem

É proibido

O que a Bíblia permite e a igreja proíbe

Ricardo Gondim

EDITORA MUNDO CRISTÃO

São Paulo

Ao pastor Manoel Gonzaga dos Santos Só agora entendo como ele foi corajoso quando optou andar comigo.



Sumário


Introdução

Primeira Parte

OS USOS E COSTUMES NAS DIVERSAS CULTURAS

1. A cultura, a Bíblia e os usos e costumes

2. Os usos e costumes na cultura judaica

3. O que a Bíblia diz sobre moda, jóias e adornos

4. O que é e o que não é vaidade?

5. Casos aparentemente difíceis

Segunda Parte

NÃO VER, NÃO OUVIR, NÃO FAZER — CAMINHO PARA A SANTIDADE?

6. Cinema: arte ou degeneração?

7. Você ouve música não-evangélica?

8. Uma teologia do esporte e lazer

Terceira Parte

QUEST'ES HUMANAS OU PRINCÍPIOS DIVINOS?

9. A maravilhosa graça de Deus

10. Buscando a santificação

Introdução



Abrindo o debate

Para Jeílson, pastor de uma igreja muito ativa e crescente, o dia começou como tantos outros. Ao acordar pela manhã, ajoelhou-se ao pé da cama e orou. Logo à mesa do café, começaram as muitas preocupações: notícias da congregação que rejeitava o novo obreiro; problemas com o pedreiro na construção do templo; finanças apertadas. No pequeno alpendre da casa pastoral, mais de uma dezena de irmãos já aguardava aconselhamento. As necessidades eram as mais diversas: ajuda para internar o filho doente; a nova convertida, proibida de participar dos cultos, queria saber como contornar a antipatia do marido; um ancião precisava resolver a situação da aposentadoria... Jeílson enfrentava com certa naturalidade aquele amontoado de dificuldades; seu dia-a-dia já era assim há anos. Ele só não se preparara para a notícia que receberia ainda naquelas primeiras horas do dia. "Miriam, sua filha mais velha", relatou-lhe sua esposa, "cortou o cabelo".

Tudo, menos aquilo. Aturdido, sem acreditar no que lhe acontecera, Jeílson abandonou seus compromissos, deixou todos os irmãos esperando no alpendre e correu enfurecido pelo corredor até chegar ao quarto que ficava nos fundos da estreita casa pastoral. Miriam - constatou ele - aparara de fato as pontas do cabelo. Desde a infância de sua filha, Jeílson jamais permitira que uma tesoura tocasse nas mechas castanhas que agora, aos 18 anos de Miriam, já alcançavam a cintura. Totalmente descontrolado, Jeílson perguntou rispidamente, mas sem esperar resposta: "O que você quer comigo? Está querendo envergonhar-me, acabar com o meu ministério?".

Movido por uma ira descomedida, desafivelou o cinto, dobrou em duas voltas e bateu em Miriam até que os vergões se desenhassem em suas costas e pernas. Envolvido pela mesma ira com que a surrava, desabafou: "Não vou tolerar uma desviada dentro da minha casa. Enquanto você morar aqui, não vou admitir que corte seu cabelo novamente, você está me ouvindo?". Ainda Ruborizado e com o coração acelerado, voltou ao alpendre para tratar dos seus assuntos ministeriais.

Duas horas depois, recebeu a notícia mais devastadora de sua vida: Miriam havia derramado álcool sobre todo o corpo e ateado fogo. Jeílson correu mais uma vez, agora desesperado, e encontrou no mesmo quarto sua filha agonizando com queimaduras profundas. Naquele mesmo dia, à tarde, Miriam morreu no ambulatório de um hospital.

Embora os nomes e alguns detalhes da história acima sejam fictícios, ela é verdadeira. Aconteceu em alguma cidade do Brasil. Pior, ela se repete, claro que sem os mesmos extremos, quase todos os dias em alguma família evangélica brasileira. Retrata exatamente a severidade com que algumas denominações brasileiras encaram o problema dos usos e costumes.

Sei de muitas jovens que hoje vivem longe de suas igrejas e totalmente indiferentes à mensagem do evangelho porque sofreram exclusões e disciplinas públicas quando foram vistas usando calças compridas, um colar ou até mesmo brincos. Muitas vezes um jogo de futebol entre crianças ou soltar pipas ocasionam 45 minutos de repreensão do pastor. Em determinadas igrejas, raramente o sermão expõe a Bíblia, pois quase sempre começa com um versículo e acaba tratando do que pode e do que não pode. Alguns ficariam estarrecidos com o número de pessoas que sai pela porta dos fundos de suas igrejas, rejeitando e odiando o cristianismo, devido a esse rigor legalista sobre usos e costumes.

Nossa igreja realiza, pelas ruas de São Paulo, um trabalho de assistência a mendigos, prostitutas e viciados. Chocam-nos encontrar inúmeros desviados que cresceram nas igrejas, mas, por não suportarem o fardo do legalismo, acabaram nas sarjetas das grandes cidades. Filhos e filhas de pastores estão entre alguns dos que perambulam pelas ruas do Brasil. Vítimas do legalismo religioso, cometem uma espécie de suicídio gradativo. Envolvidos em drogas, crime e prostituição, estão em pleno processo autodestrutivo.

Esse jugo pesado, quando não aliena, gera também uma outra excrescência: a hipocrisia. Existem muitos que se acomodam ao sistema religioso e mostram-se coerentes com as exigências do pastor somente quando estão na igreja. Longe da fiscalização religiosa, porém, vivem noutra realidade. Esse largo contingente de evangélicos conseguiu desenvolver uma duplicidade comportamental. Na esfera privada agem e convivem com mais liberdade, brincam e riem, vestem-se de acordo com as últimas novidades da moda. Mas, quando vão à igreja, passam por uma metamorfose impressionante. Assumem um ar mais grave. Agem dentro do ambiente religioso de acordo com os códigos impostos pela liderança, mas com revolta. A cada palavra dita no púlpito, haverá sempre um árduo exercício de decodificação. Como defesa, desprezam os sermões legalistas que ouvem. O jugo apregoado não lhes diz respeito. Vivem uma espécie de hipocrisia involuntária, que os agride.

Quase que invariavelmente a conversa durante qualquer refeição entre amigos pertencentes a essas igrejas gira ao redor de usos e costumes. As críticas ao sermão do pastor são sempre ácidas. O rigoroso discurso de alguns líderes hoje, mal sabem eles, faz parte do cardápio dos encontros entre os membros de suas igrejas. Esses líderes morreriam de vergonha se soubessem o que se comenta sobre eles, e em que situações eles são vistos nessas conversas: como ridículos.

Porém, devemos reconhecer com tristeza, que algumas igrejas chegam a alterar o rigor de suas exigências de acordo com o nível social dos seus membros. Quanto mais rico o rebanho, menos policiamento; quanto mais pobre, maior a disciplina. A condição social define claramente quão rigorosos são alguns pastores quando cobram "santidade" nos trajes de seus membros ou definem se é ou não permitido assistir à televisão.

Denominações já experimentaram até cismas por causa de usos e costumes. Aquelas que se auto-intitulam "Igrejas da Restauração" geralmente reagem contra o que consideram libertinagem em suas congregações. Com um conservadorismo sufocante, tentam restaurar os "costumes dos nossos pais"; brigam com aqueles a quem chamam de liberais, acusando-os de jogar a igreja no esgoto do mundanismo. Entre eles, as mulheres que fazem uso de qualquer tipo de maquilagem recebem a pecha de "Jezabel"; os que assistem à televisão são tachados de "aliados do diabo"; os jovens que escutam qualquer tipo de música que não seja "evangélica" são vistos como desviados.

Algumas igrejas históricas principiaram trabalhos de evangelização no país, atribuindo seu crescimento numérico à unção do Espírito Santo. Sempre creram ser ele o responsável pelo poder que as capacitaria para cumprir a missão de propagar o evangelho. A revista Obreiro, destinada aos obreiros em geral das Assembléias de Deus (abril/maio de 1996), registra dados sobre esta que talvez seja a maior denominação evangélica do Brasil. Durante a "Década da Colheita" (estratégia de evangelização denominacional para a década de noventa), levantaram-se dados sobre o vertiginoso crescimento desse segmento evangélico em seus oitenta e cinco anos de fundação:

12 milhões de membros;


9 mil igrejas-sede;
12 mil pastores;
100 mil templos;
milhares de crentes congregados.

Há, lamentavelmente, alguns que atrelam o crescimento de suas igrejas ao rigor nos usos e costumes. Eles saudosamente acreditam que sua denominação cresceu porque era rigorosa nesse item, e não como resultado de uma exuberante atuação do Espírito que capacitava e ungia os crentes para o mandato evangelístico. Esse grupo não só atrasa o processo de atualização cultural da denominação, como é responsável pela estagnação numérica da igreja. Para cada 10 convertidos, quantos saem sem suportar o pesado jugo do legalismo?

Essa falta de sintonia de algumas igrejas com as mudanças sociais e culturais entristecem. Pior, suas conseqüências vêm-se revelando desastrosas para as denominações. Segundo algumas pesquisas, o crescimento em muitas igrejas está sendo vegetativo, ou seja, na mesma faixa dos dois por cento de crescimento anual da população brasileira. Os dados demonstram que há uma sangria de membros alarmante; cerca de 10 a 20% dos membros vão para outras igrejas evangélicas.

Infelizmente essa parcela legalista, responsável pelo descompasso cultural da denominação, não pára de crescer. Espelhando-se no exemplo de outras igrejas que também se estagnaram, ela retarda o crescimento da denominação com um legalismo destruidor. Advoga um recrudescimento nas normas da denominação e quer que esta volte aos costumes dos anos cinqüenta, quando as mulheres, segundo eles, trajavamse com roupas mais modestas e meias grossas, e os homens usavam chapéus. Esquecem-se de que um dos pais da igreja, Cipriano de Cartago, exortava seus contemporâneos no primeiro século: "Uma antiga tradição pode ser simplesmente um antigo erro".

O sociólogo Ricardo Mariano, na sua dissertação de mestrado sobre as mudanças que ocorrem em denominações brasileiras, responsabiliza essa estreiteza quanto a usos e costumes por inúmeras anomalias comportamentais entre os jovens educados sob esse rigor legalista:

A aplicação prática dos tradicionais costumes e hábitos de santidade gera conflitos domésticos, sobretudo na relação pais e filhos. Acuados por imposições, privados de usufruir de prazeres ou entretenimentos mundanos elementares, como assistir à TV, a criança e o adolescente tendem a rebelarse contra a tirania paterna. Não raro, a reação ou insubordinação das crianças e sobretudo dos adolescentes desencadeia sérias contendas familiares. Depois de frustradas tentativas de persuasão quando finalmente se vêem impotentes diante da rebelião filial arremetida contra sua autoridade, que por ser bíblica não pode ser contestada, muitos pais lançam mão da violência. A relação vertical entre pais e filhos descamba para atos de privação, cárcere, agressão física, maus tratos, podendo, até mesmo, provocar o abandono do lar. 1

Em alguns casos, o zelo pela defesa de usos e costumes chega sim às raias do fanatismo. O Globo, em 2 de abril de 1992, e O Jornal da Bahia, em 3 de abril de 1992, relataram uma pesquisa feita pela ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência) do Rio de Janeiro. Constatouse que 33% dos casos registrados de agressão física contra menores ocorreram em razão do "fanatismo religioso". O sociólogo Ricardo Mariano escreveu para a ABRAPIA e recebeu de uma funcionária evangélica uma resposta preocupante:

O tema em questão — 'violência contra criança por motivos e com justificativas bíblico-religiosas' — é sumamente complexo... Na maioria das vezes, a violência começa com a privação da criança e sobretudo do adolescente à vida social. A privação de participar em festinhas, ir ao cinema, ver TV, sair com os amigos, acaba numa relação pais-filhos/filhas muito conflitiva. A justificativa dos pais, nestes casos, é proteger a criança das perversidades do mundo e preservá-las para Deus. Para isto, vale até surrá-las, trancá-las, tirá-las da escola, etc. Quando se trata de uma criança normal, todas estas regras rígidas são desobedecidas, o que provoca a ira santa dos pais ou responsáveis. A partir daí, para tirar o demônio do corpo da criança vale tudo. Muitas vezes, a criança foge e vai somar-se a muitos "meninos de rua". Outras vezes, o controle permanente dos pais mantém os filhos em regime de escravidão e tortura. As explicações religiosas são repetidas como argumento para tais atitudes. O mais grave ao nosso entender é que a religião tem reforçado o poder dos pais sobre os filhos, construindo uma relação desigual, de dominação do mais forte sobre o mais fraco. Nesta relação, a mãe, por ser mulher, está também em desobediência ao 'cabeça da família', o homem. 2

A própria expressão "vaidade no vestuário" já está carregada de valores espirituais e éticos em muitas igrejas. Em certas denominações, as questões sobre o aspecto da mulher e sua indumentária (desde o tamanho do cabelo à dúvida relativa ao uso das calças compridas) ou sobre o uso de barba por parte dos homens ainda são tão explosivas, que não há sequer espaço para um diálogo maduro e isento de preconceitos entre elas.

Nesta introdução, peço a compreensão dos segmentos evangélicos que consideram de menor importância essa discussão. Quem julga ser desnecessário o debate sobre a problemática abordada por este livro desconhece quão sufocante é a vida cristã em determinados redutos evangélico-brasileiros. O número de pessoas desviadas ou vivendo um cristianismo mascarado demonstra, todavia, que o assunto precisa urgentemente de uma resposta bíblica.

Reconheço que, diante dos temas levantados ainda nos primeiros séculos, tanto pelos apóstolos como pelos pais da igreja, discutir roupas e televisão é meio ridículo. Concordo em que a questão da deidade e nascimento virginal de Cristo, assim como a do cânone das Escrituras foram vitais para a própria sobrevivência da igreja. Não defendê-las significaria tergiversar e cair na pode não alterar a dimensão mais substancial da fé, certamente pode libertar muita gente da culpa e do fardo pesadíssimo que dele advêm.

Há minúcias consideradas de menor importância teológica, isto é, não essenciais ao pleno desenvolvimento do cristianismo; são as formas de culto (quais hinos devem ser cantados na liturgia), a arquitetura de templos, as formas de governo, o número de vezes em que se celebra a Santa Ceia, etc. Estas e tantas outras doutrinas periféricas podem, entretanto, sinalizar o grau de compreensão que se tem das doutrinas fundamentais, tais como a da regeneração, a da expiação e a da graça. Nosso interesse em tratar de usos e costumes na igreja não significa que desejemos assumir uma postura eticamente liberal e antinomista (sem qualquer referencial ético); pretendemos, tãosomente, reavivar a Teologia da Graça.

Quando Lutero pregou suas noventa e cinco teses na Catedral de Wittemburgo, ele não almejava simplesmente acabar com um sistema iníquo de levantamento de fundos da Igreja da época. Queria, mais do que isso, restabelecer a pregação de que o justo não mais vive por obras da lei, mas pela graça.

Preocupa-me imaginar a possibilidade de que muitos crentes hodiernos não tenham alicerçado sua fé na graça de Deus; infelizmente, ainda dependem de suas boas obras como garantia de salvação. Têm sido acrescentadas fórmulas e exigências comportamentais à mensagem da salvação, tornando o sacrifício de Cristo ineficaz. Indago-me freqüentemente se muitos crentes não se estribam nas doutrinas e proibições de suas igrejas como um meio de alcançarem a salvação.

No Brasil, devido ao largo preconceito sobre o tema e por falta de literatura que discorra biblicamente sobre usos e costumes, alguns evangélicos continuam com dúvidas sobre seu Comportamento. Em muitas das minhas viagens por este país, ouço homens e mulheres questionando: "Como distinguir a doutrina bíblica dos costumes provenientes das tradições humanas?" Inquietos, querem saber se podem jogar futebol, usar uma jóia ou até mesmo ouvir uma música no rádio sem entristecer o Espírito Santo.

Ao dizer a algumas pessoas que intentava escrever sobre este assunto, ouvi comentários positivos e negativos. Estou certo de que para as mulheres, especialmente, a leitura deste livro mostrar-se-á libertadora. Como as lideranças evangélicas são masculinas, a maioria das proibições visa às mulheres. Revoltadas, mas sem poder para contestar, elas sofrem humilhações públicas. Nos púlpitos, os pregadores vociferam acusando-as de vaidosas. Em muitas ocasiões esses pastores, trajando um terno caríssimo e ostentando uma bela gravata de seda importada (às vezes presa por um grampo de ouro), exigem simplicidade no trajar das mulheres. As pobres irmãs, enojadas com tanta hipocrisia, anseiam por liberdade espiritual.

Entendo que os argumentos aqui apresentados não encontrarão a concordância de algumas lideranças evangélicas. Eu as respeito. Peço apenas que ninguém discorde sem antes ler a argumentação. Por favor, tente discernir o propósito com que escrevo cada capítulo. Antes de me condenar à fogueira como um libertino herege, peço que refute os meus argumentos com outros argumentos. Não desçamos ao nível de ataques pessoais.

Não viso a ofender, contender ou zombar de qualquer postura denominacional. Não pretendo criar um novo motivo de divisão no corpo de Cristo, já lamentavelmente muito fragmentado. Meu intento é ajudar aquelas pessoas que carregam m enorme ponto de interrogação sobre qual procedimento bíblico deve ser adotado quando se vestem, se maquilam, cortam o cabelo, usam calças compridas, se divertem e lêem. Busco ajudar você, querido leitor, a manter-se santo diante de Deus sem legalismos e sem um conceito libertino de vida cristã. Conheço muitas pessoas que também não desejam quebrar a lei de Deus, todavia, estas entendem que o legalismo religioso produz muito mais prisão que a liberdade dos Evangelhos.

Na primeira parte do livro, tentarei responder às indagações mais freqüentes, tais como: As mulheres podem ou não aderir à moda? Jóias, colares, brincos e pulseiras podem fazer parte da indumentária cristã? Por que Paulo discorre sobre cabelo em sua carta aos Coríntios? O que é indumentária masculina e feminina? Até que ponto Deus se preocupa com esse assunto?

Dividi a primeira parte deste livro em tópicos distintos, procurando demonstrar que:

1. Moda, adornos, usos e costumes não constituem valores espirituais em si mesmos; não fazem parte da lei moral de Deus; devem ser concebidos como valores culturais.

2. Não é negativa a abordagem bíblica sobre a moda e sobre a utilização de adornos no corpo; a Bíblia está repleta de passagens em que homens santos e o próprio Deus participam em atividades de adorno.

3. O conceito evangélico-brasileiro sobre "vaidade" não se coaduna com o significado desse termo, usado largamente tanto no Antigo como no Novo Testamento.

4. As roupas masculinas e femininas podem perder, com o passar do tempo, suas repercussões culturais iniciais e, conseqüentemente, deixar de ser um veículo de identificação da masculinidade ou da feminilidade de alguém.

5. Os trechos bíblicos usados para combater a moda e o uso de adornos são comumente lidos de uma maneira errônea. Muitos são tirados de seus respectivos contextos e adaptados para sustentar a doutrina de uma determinada igreja e de seus líderes.

Na segunda parte deste livro trataremos de questões mais ligadas à cultura, aos esportes e ao lazer. Os evangélicos brasileiros demonstram grande fragilidade em compreender o real Significado da palavra "cultura". Não sabem discernir eticamente sobre o que podem ou não experimentar. Por exemplo, numa reunião de diretoria, numa determinada igreja, decidiu-se que:

Ir à praia ou piscina pública, ficar seminu e tomar banho; ir à praia ou piscina pública e só assistir aos banhistas e ficar no seu traje normal vendo o pecado, é proibido segundo a Bíblia em: SI 1:1; Rm 6:12-13; 1 Co 5:8; Ap3:18; Ap 16:15.

Punição: Banhistas Punição: Assistentes

Membros: Membros

1a vez — 6 meses; 1a vez—3 meses;

2ª vez — 1 ano; 2avez—6 meses;

3a vez — exclusão 3ª vez --1 ano;

4a vez — exclusão

Obreiros

1avez—1 ano; Obreiros

2ª vez—exclusão 1ªvez — 6 meses;

2a vez—1 ano; 3a vez —exclusão

Será que o lazer de uma piscina ou um banho de praia estão proibidos aos cristãos que quiserem viver santamente? Ou será que as igrejas que adotam essa política comportamental não entendem corretamente as exigências morais de Deus?

Procurarei mostrar que estando no mundo não devemos ausentar-nos dele, mas sim influenciá-lo como filhos da luz. Por incrível que pareça, continua vigoroso o debate sobre os crentes poderem ou não assistir à televisão. Em outras três reuniões de diretoria da igreja supracitada, ficou aprovado:

Todos os obreiros deste ministério não poderão ter aparelho de televisão em sua casa e não mais será separado o obreiro que a possua, devendo tirar o referido aparelho de sua casa. É proibido segundo a Bíblia em Sl 25:15; Sl 101:3, etc. Exceção: Quando o aparelho for da esposa ou filhos não crentes.

Essa resistência aos meios de comunicação será mero obscurantismo ou advém de um legalismo hipócrita? Por que essa comunidade evangélica não soube aproveitar a televisão como meio de comunicação do evangelho perdendo, dessa forma, um precioso momento de realmente influenciar o povo brasileiro?

Não concordo com a tese de que muitos desses posicionamentos nasceram de uma conspiração das elites religiosas ávidas por se manterem em posição de autoridade. Creio que, na verdade, o legalismo origina-se de uma fraca compreensão do que significa o vocábulo "mundo" na Bíblia. Buscarei mostrar que muitas vezes agimos ambiguamente ao nos relacionarmos com a produção cultural dos não cristãos. Rejeitamos suas músicas, mas aceitamos suas descobertas médicas; julgamos ser o teatro algo estritamente mundano, mas aceitamos as propostas de um partido político e chegamos a franquear o púlpito de nossas igrejas aos seus discursos.

Na terceira parte deste livro me concentrarei em estudar sobre a graça. Sem entender que todas as pessoas, mesmo caídas, ainda mantêm a imagem de Deus, não há como conviver no mundo. Os reformadores protestantes do século XVI concordavam em que há uma graça comum distribuída a todas as pessoas, mesmo às pagas. Essa graça é o favor de Deus que capacita as pessoas a fazer o bem, a agir dignamente e a executar a justiça. Caso contrário, esse mundo se transformaria em completo caos. Devido a essa graça comum, um juiz pode, mesmo não sendo cristão, julgar com justiça. Do mesmo modo, é possível um artista fazer arte com beleza ainda que não seja convertido.

A cultura, como parte da nossa humanidade, traz reflexos da imagem de Deus. No entanto, também participa de nossa natureza caída. Não se pode a priori condenar toda cultura, mas os cristãos necessitam saber julgá-la. Proibi-los de participarem dela não significa promover a santidade; pelo contrário, força-os a uma vida dupla ou diminui sua capacidade de discernir corretamente sobre o que pode ou não ser consumido por um cristão.

Sem a compreensão da graça, os crentes irão manter-se Vulneráveis ao fermento do legalismo c do farisaísmo. A carta de Paulo aos Gálatas atesta que mesmo aqueles que começaram na fé podem rapidamente ser degenerados em um cristianismo de obras. O mesmo processo que ocorreu naquela igreja pode repetir-se em qualquer comunidade. Importa saber como se dá essa decadência espiritual.

Estudaremos a graça de Deus não apenas como um favor imerecido de Deus; veremos que ela é a capacitação divina para sabermos como obedecer e nos comportar conforme a sua vontade.

Espero que este livro contribua para tornar o cristianismo brasileiro menos antipático. Precisamos urgentemente de uma mensagem mais positiva e menos proibitiva. Muitas pessoas não se interessam por conhecer os conteúdos do evangelho em virtude de as igrejas passarem a imagem de que são sempre do contra. Somos conhecidos como os que proíbem tudo. Urge mostrar uma face mais real e simpática do cristianismo.

Muitos aguardam o dia em que não terão mais de representar diante dos seus pastores e líderes. Querem viver coerente-mente tanto na igreja como em suas atividades seculares. Espero ajudar a aliviar a culpa daqueles que anseiam participar intensamente da vida. Tudo o que fizermos poderá ser feito ara a glória de Deus. A igreja não deve ser um lugar onde nos sentimos reprimidos, mas sim amados. Não devemos ensinar nossos jovens sobre um Deus estraga-prazeres, disposto a impedir a felicidade de seus filhos. Temos de apregoar que o Senhor proporciona vida em abundância. Os pastores não se devem enxergar como fiscais dos atos de seus membros. Devem, de maneira oposta, facilitar para que os talentos e dons sejam usados para a expansão do reino de Deus. A igreja é lugar de celebração; Deus, a fonte de toda felicidade; os líderes, pastores do rebanho de Cristo.



Notas

1 MARIANO, Ricardo. Neopentecostalismo, os Pentecostais Estão Mudando. (Dissertação de Mestrado em Sociologia / USP.) São Paulo, 1995, p. 204.


2 MARIANO, Ricardo.Neopentecostalismo, os Pentecostais Estão Mudando. Idem,
Ibidem.p.205.

Primeira Parte

OS USOS E COSTUMES NAS DIVERSAS CULTURAS



Capítulo 1

A cultura, a Bíblia e os usos e costumes

Ao final da década de 80, uma expressiva liderança evangélica brasileira participou do Segundo Congresso de Lausanne, realizado nas Filipinas. Interagimos com líderes de vários outros países. Numa determinada tarde, diversos pastores e eu comparecemos a uma programação cultural que o maior seminário teológico de nossa denominação em Manila nos oferecia. Almoçamos, cantamos e conhecemos os principais líderes de quase todos os continentes. Um homem corpulento chamou-nos a atenção. De Bíblia na mão, ele trajava uma saia marrom amarrada à cintura com um cipó. Para completar, ainda vestia paletó e gravata. Eu sabia que os escoceses usam saias quadriculadas, mas confesso que aquela saia pareceu-me esquisita demais. Ele também despertou a atenção de outros líderes; muitos buscaram posar para fotografias ao seu lado. Meio constrangido, indaguei quem era aquele pastor trajado de forma tão bizarra. A resposta veio como uma bomba: "Ele é o presidente desta denominação do Fiji". Ninguém conseguiu disfarçar o espanto. Dava para perceber no rosto de todos a exclamação: "...Mas de saias!?".

Por que as pessoas se vestem tão diferenciadamente de um lugar para outro? E por que aquele pastor sentia-se tão à vontade com a sua saia e nós não conseguíamos sentir-nos confortáveis só em vê-lo vestido daquele jeito? A resposta simplesmente é que sua cultura é diferente da nossa. Nem nossa maneira de nos trajar é melhor e mais santa diante de Deus, nem há como atribuir qualquer valor negativo à maneira como aquele digno pastor se vestia. Unicamente crescemos em ambientes diferentes. Como as nações desenvolveram-se em condições históricas, geográficas, sociais e políticas distintas, espera-se que elas também possuam culturas diferentes. Assim corno há comidas diferentes e ritmos musicais diversos, há também trajes típicos pertencentes aos mais variados países, regiões e etnias.

O que é cultura?

A definição de cultura não é tão simples como parece. Os antropólogos já criaram mais de trezentas definições. O conceito mais básico de cultura é relativo ao jeito próprio de as pessoas enfrentarem suas atividades cotidianas e perceberem o mundo em que vivem. "Este conceito refere-se a coisas muito concretas, como a forma de dormir, levantar-se, comer, beber, trabalhar, brincar, lutar, expressar amor, casar-se, criar e educar os filhos, adoecer, morrer, etc. Existem, por exemplo, várias maneiras de dormir. Nem todos dormem do mesmo jeito, usando cama, colchão e lençóis. Em muitas comunidades do interior, dorme-se no chão ou numa plataforma de barro com pelegos de carneiro. Na selva, como também em várias regiões do continente, usamse rede e estrados de madeira".1

Os hábitos de higiene pessoal diferem muito de país para país. Sabe-se que os franceses não são muito achegados ao banho diário. Para disfarçarem os maus adores desenvolveram a maior indústria de perfumaria do mundo. Nós, brasileiros, nos banhamos todos os dias; em alguns lugares, devido ao excessivo calor, várias vezes ao dia. Já os escandinavos banham-se em saunas. Nos climas frios nórdicos pouco se transpira, e a sauna produz artificialmente um ambiente em que os poros se dilatam e o suor limpa a pele de bactérias mortas. Edward Taylor, antropólogo norte-americano, assim definiu a cultura:

Cultura, tomada em seu amplo sentido etnográfico, é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. 2

Examinando os primeiros relatos históricos das civilizações mais antigas, observamos que as sociedades transformavam em arte o que primeiramente haviam criado apenas para atender suas necessidades mais básicas. Além de caçar, os povos primevos buscavam desenhar suas aventuras nas paredes das cavernas. Os potes de barro, inicialmente usados apenas para conter alimentos e cozinhá-los ao fogo, passaram também a receber adornos. O mesmo processo aconteceu com as roupas. Desde os tempos mais remotos, há nítida demonstração de que as roupas não eram usadas apenas para cobrir e proteger

O corpo. Elas adquiriram valores artísticos e estéticos, expressando a criatividade própria das pessoas e de uma determinada sociedade.

O clima, na maioria das vezes, pode determinar não apenas o tipo, mas também as cores e até o material usado na Confecção de roupas. Nos ambientes frios, as roupas não só escondem o corpo completamente, como adquirem cores pretas e cinzentas, por serem as que melhor conservam as pessoas aquecidas. Nos climas tropicais, com fartura de sol, as Vestimentas são brancas ou muito coloridas, além de possuírem tecidos bem leves. A moda escocesa dos homens se vestirem com saias de lã e grossas meias só tem sentido no clima do norte da Europa.

O deserto árido e seco obriga os árabes a se vestirem com grandes blusões de algodão branco; já o clima tropical e úmido da Amazônia leva os índios a andarem nus. Os vaqueiros nordestinos usam gibões de couro, mesmo vivendo sob o sol causticante das caatingas, porque necessitam proteger-se dos garranchos espinhosos da mata. As mulheres bolivianas, de forma igualmente peculiar, vestem-se com várias camadas de roupas para se defenderem do frio andino.

Não se pode atrelar qualquer valor moral a essas diferenças; as pessoas não optaram por se vestir de certa maneira em razão de ser moralmente depravadas ou mais santas que outras. Pode-se concluir, deste modo, que a topografia e a vegetação são os fatores que exigem a utilização dos mais diversificados tipos de vestes.

Uma sociedade que veste pouca roupa, ou até nenhuma, não sente vergonha de viver assim e não compreende porque outros povos (de clima frio) precisam usar tanta roupa. Quando um europeu observa um africano trajando roupas tão coloridas, ele também acha estranho. No Nordeste brasileiro é muito comum homens calçarem sandálias. Já estive em congressos em que alguns pastores compareceram às reuniões com uma chinela de couro. Esse comportamento seria totalmente inaceitável num congresso de pastores nos Estados Unidos.

E. A. Nida, em seu livro de antropologia missionária Costumes e Cultura, mostra porque é importante saber respeitar as diferenças culturais no cumprimento do mandato missionário:

...estudos contemporâneos sobre os costumes e os valores estéticos e morais dos tipos de roupas têm concluído que o uso de pouca roupa por parte de certos povos pouco tem a ver com a moralidade de uma sociedade. O que afeta a moralidade de uma sociedade é o desobedecer às leis que determinam quais as roupas que podem e devem ser usadas dentro daquela sociedade.

Isso significa que a moralidade de um povo não pode ser medida segundo as leis de nossa sociedade, mas sim, pelas leis particulares de cada sociedade em si.3

A própria origem da palavra "roupa" fornece algumas pistas para a compreensão de seu valor cultural. A Enciclopédia Mirador mostra que este vocábulo advém do século XII. "De origem portuguesa, 'roba' procede do vocábulo germânico 'rauba', que significa 'saquear, roubar com violência'."4 Possivelmente as roupas, como despojo de guerra, valorizavam o guerreiro vencedor.

As civilizações, portanto, criam roupas e adornos específicos de acordo com os seus parâmetros próprios. Estes, por sua vez, são consoantes às suas próprias convenções sociais e podem ou não ser apropriados em outras culturas. Há roupas e adornos característicos dos anciãos e das crianças que podem ter relevância numa cultura, mas não significar nada em outra. Em determinadas tribos, os guerreiros se adornam para uma batalha pintando os olhos com uma cor, enquanto noutras o ornamento de guerra é alguma pele de animal selvagem. No Brasil, por exemplo, os militares possuem diversos tipos de vestes, uma para cada ocasião específica. As noivas, em virtude da cerimônia do casamento, também se vestem de maneira diferenciada; nossa cultura aceita que uma mulher se case de branco, com grinalda, véu e muito bordado. Porém, se uma mulher se vestir com roupa de noiva e for a uma cerimônia fúnebre, as pessoas certamente irão considerá-la louca, pois, segundo nossos costumes, seu procedimento seria impróprio. Há roupas específicas, inclusive para os sacerdotes. Desde as religiões pagãs da Babilônia, Pérsia, Grécia até as dos índios mais primitivos, criaram-se roupas sagradas para uso exclusivo dos sacerdotes. Na cultura judaica, a indumentária dos sacerdotes foi meticulosamente detalhada no Pentateuco.

Em Êxodo 28:1-6, Deus forneceu uma minuciosa descrição de como o sacerdote deveria trajar-se. O próprio texto fornece o objetivo de se usar roupas tão distintas das que usariam os demais judeus:

Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os filhos de Israel, para me oficiarem como sacerdotes, a saber, Arão, e seus filhos Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar. Farás vestes sagradas para Arão, teu irmão, para glória e ornamento. Falarás também a todos os homens hábeis, a quem enchi do espírito de sabedoria, que façam vestes para Arão, para consagrá-lo; para que me ministre o ofício sacerdotal. As vestes, pois, que farão são estas: um peitoral, uma estola sacerdotal, uma sobrepeliz, uma túnica bordada, mitra e cinto. Farão vestes sagradas para Arão, teu irmão, e para seus filhos, para me oficiarem como sacerdotes. Tomarão ouro, estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino... retorcido, obra esmerada, (grifos do autor)

A Igreja medieval tentou imitar o Antigo Testamento e vestiu seus padres com vários tipos de vestes clericais. Havia, também, vestes sacerdotais que distinguiam as hierarquias: o papa, os cardeais, bispos e padres. Na Reforma Protestante, no século XVI, Lutero não reformou a liturgia tão profundamente, de sorte que muitos pastores luteranos continuaram basicamente com os mesmos paramentos clericais. Calvino, por sua vez, entendendo que a função do sacerdote não era mais sacramentai, resolveu vestir os pastores com as roupas dos juizes. As togas dos pastores deveriam mostrar à congregação que as funções do homem de Deus no púlpito eram de, à semelhança do que faz um juiz com as leis, interpretar e explicar a Bíblia.

Até para expressar luto, cada sociedade adota um tipo de traje. No Brasil, devido à influência católica luso-italiana, veste-se de preto para indicar a dor da morte. Alguns anos atrás, exigia-se que as viúvas trajassem roupas negras e fechadas durante um ano; aquelas que violassem esse código social seriam consideradas levianas. Já em Israel, para expressar luto, as pessoas vestiam-se com roupas de saco e sentavam-se em cinzas. Na Índia, as mulheres quando choram os seus mortos trajam-se de branco. Em Israel a cor roxa significava realeza; mas, no Brasil, durante anos essa foi a cor das casas mortuárias.

A cultura é semelhantemente responsável, em qualquer sociedade, pelos códigos comportamentais das pessoas. Criam-se regras que valem apenas em determinado círculo social. Dessa forma, fica impróprio um ancião vestir-se com as roupas de uma criança, assim como um guerreiro trajar-se do mesmo modo como se casou. Para sabermos se um homem está vestido com roupas de mulher, precisamos ter conhecimento de como a cultura em que ele está inserido determinou o que um homem e uma mulher devem vestir. No ocidente, um homem trajar-se com um camisolão pode significar que ele queira travestir-se de mulher; na palestina, contudo, será identificada apenas a sua tribo. Os cabelos longos e brancos podem representar experiência, daí os juizes europeus usarem perucas quando entram nas cortes. O cabelo raspado é um costume típico dos monges budistas, enquanto os judeus mais devotos não cortam as franjas laterais de seus cabelos.

Sendo assim, de acordo com as próprias regras de uma demarcada sociedade, uma vestimenta pode ou não carregar valores morais. E. A. Nida exemplifica:

...uma certa tribo indígena brasileira determina que as mulheres devem usar como roupa um cordão em volta da cintura com outro amarrado na direção oposta. Como brasileiros que so-mos, achamos que isso é muito pouco para cobrir a nudez de uma mulher. Mas dentro daquela sociedade, isso é suficiente. E não é imoral. Os homens não se sentem perturbados por causa daquele cordão apenas. Mas, se uma daquelas mulheres sair para o trabalho sem o cordão, ela estará cometendo um ato grandemente imoral. 5

As roupas nas culturas portuguesa e brasileira

Posso recordar vividamente de um congresso do qual participei como preletor. Eu havia falado na noite anterior e interessei-me muito em ouvir o preletor daquela noite. Ele também desenvolveria o tema do congresso: Santidade ao Senhor. Considerado como um dos bons pregadores da nova geração dos avivalistas brasileiros, interesseime por ouvi-lo. Porém, bastaram alguns minutos para que eu percebesse o rumo que ele daria ao seu sermão. Exemplificando com a vida da sua jovem esposa que nunca tocara seus cabelos com uma tesoura e jamais havia vestido uma calça esporte, ele redargüiu aos jovens: "Devemos ser santos." A ala conservadora da igreja gritava glória a Deus, mas o meu coração chorou de tristeza. Saí da reunião lamentando o futuro da igreja. Antes de querer agradar os mais conservadores, ele deveria discernir o poder que a cultura exerce sobre nossos comportamentos e saber que nossas raízes portuguesas, indígenas e africanas não são mais pecadoras ou santas que as de qualquer outra nação.

Os brasileiros falam, comem, vestem-se e agem de acordo com a cultura brasileira. Tomemos, por exemplo, nosso idioma. Quem já foi a Portugal sabe que o português que falamos aqui é diferente do de lá. Nossa língua sofreu influências aqui que nos levaram a falar diferente de nossos antepassados lusitanos. Os negros africanos nos ensinaram um jeito mais manso, carinhoso de falar. Quando queremos saber de uma criança se um ferimento está doendo, não perguntamos secamente: dói muito? Perguntamos: está dodói? Repetindo a palavra duas vezes, suavizamos o seu sentido e nos comunicamos com ternura. Isso é muito brasileiro.

Nossa cozinha também tem um sabor singular. No Nordeste e Norte do Brasil, nossos cardápios têm muita influência indígena. A farinha, a rapadura, a carne-seca vêm da mesa dos nativos. Já na Bahia e em Minhas Gerais, há muito da cultura africana nos pratos. O azeite de dendê, as frituras são dos nossos pais africanos. Já no sul do país, os churrascos têm muita influência dos pampas e da cultura européia que imigrou para o nosso país.

Na cultura portuguesa as roupas adquiriram seus valores pela fortíssima influência católica. Durante anos os portugueses trajaram-se de forma bem conservadora. Há pouco mais de cem anos, as mulheres não podiam mostrar o torno-

zelo, então considerado muito sensual; cobriam-se completamente com saias, anáguas, meias grossas e mangas longas.

Os homens trajavam-se de calças compridas (somente crianças vestiam-se de calças curtas), com austeros casacos, fraques e coletes.

Enquanto os ingleses, ao viajarem para os países tropicais, vestiam-se de bermudas, os portugueses mantinham-se fiéis ás tradições de se trajarem com roupas que eles mesmos consideravam recatadas. Mas, mesmo mantendo-se conservadores quanto aos seus costumes e tradições, os portugueses sabiam que há roupas neutras, as quais, por não designarem o sexo a que se destinam, podem ser usadas tanto por homens como mulheres (chinelas, blusas, camisetas). 6

Tanto um homem como uma mulher podem calçar chinelas de dedo (tipo japonesa ou havaiana) sem experimentarem constrangimento; todavia, convencionou-se que as sandálias com qualquer tipo de salto são sempre femininas. Nenhum homem sente-se bem ao calçar uma sandália que possua salto alto. Há detalhes que muitas vezes passam até despercebidos: a cultura portuguesa convencionou que as blusas masculinas devem ser fechadas com botões no sentido da esquerda para a direita, ao passo que as blusas femininas devem ser abotoadas no sentido inverso.

A cultura brasileira adotou muitos padrões comportamentais do catolicismo português. Os homens, mesmo num clima tórrido, continuam vestindo-se com paletós; as calças curtas ainda significam trajes infantis, e as mulheres seguem identificando nas longas saias sua feminilidade. Mas a cultura não é estática, ela muda com o passar dos anos. Os brasileiros, depois, passaram a imitar a moda francesa, que na virada do século era o que havia de mais moderno. Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, os americanos passaram a dar o novo tom das vestimentas. O mais típico exemplo são as calças jeans. Desde o século passado, o índigo tem servido para confeccionar as roupas dos trabalhadores rurais da América do Norte. Contudo, elas só se popularizaram como uma vestimenta resistente nos anos cinqüenta, ganhando, a partir daí, o mundo inteiro; tornaram-se as vestimentas globais.

Mas por mais forte que tenham sido as influências européia e americana, há um resto de índio e africano em todos nós. Será essa a razão por que temos uma forte inclinação para nos vestir com poucas roupas? Além do calor, esse resquício indígena nos leva a chegar em casa e tirar as roupas pesadas e sóbrias. Procuramos camisetas largas, calções frouxos. Queremos nos sentir mais à vontade. Será que nossos antecedentes africanos não surgem, vez por outra, em nossa indumentária colorida? Essa queda que o brasileiro tem pelo colorido não vem de berço?

A globalização e a cultura

Em tempos mais antigos, os costumes revelavam com exuberância as características próprias de cada povo. Hoje, porém, com o avanço dos meios de comunicação, a rapidez dos transportes aéreos e a globalização da economia, fica cada vez mais difícil notar diferença entre o traje de um executivo de Nova Iorque e o de um executivo de Tóquio; as noivas brasileiras vestem-se basicamente como as norueguesas; os militares franceses usam mais ou menos as mesmas fardas que o exército cubano; os jovens suecos compram os mesmos jeans que os argentinos; os pastores ingleses trajam o mesmo paletó que os russos. Há restaurantes chineses em todas as cidades do mundo. Há provavelmente mais pizzarias em São Paulo que na Itália. A televisão a cabo traz o noticiário dos principais telejornais dos Estados Unidos, Alemanha, França, México. Os cientistas das universidades brasileiras têm acesso direto aos descobrimentos dos cientistas americanos ou ingleses. A Internet já é parte do cotidiano da academia. O mundo encolheu. Vivemos em uma aldeia global.

Esse encolhimento do mundo traz um novo conceito de cultura global. A cada dia que passa as pessoas se tornam participantes dos costumes de outros países. Os conceitos outrora arraigados sobre a legitimidade ou não de um determinado comportamento agora têm maiores chances de ser confrontados com outras tradições. Se, em algum tempo, considerou-se um absurdo vestir-se de um determinado jeito, agora é possível confrontar-se como outras nações agem e ver que não há perversão naquele comportamento.

A ética evangélica sobre a moda

Em qualquer cultura as roupas participam da elaboração cultural. A comida, a música, o idioma e as relações sociais também são parte do modo pelo qual um povo se expressa. Assim, não há como desenvolver uma teologia sobre indumentária sem levar em conta as manifestações culturais. Se legislar sobre a quantidade de pimenta que se coloca na comida de um africano é absurdo, então não se pode também querer atribuir valores morais ao modo como os chineses ou africanos se vestem.

Uma das mais duras críticas direcionadas aos missionários jesuítas que evangelizaram a América Latina diz respeito à falta de diálogo intercultural. Os pregadores portugueses que aqui chegaram compreendiam-se como mensageiros não só do evangelho, ma também de uma cultura que consideravam perfeita. Partindo de seus preconceitos europeus e enxergando sua cultura como superior, detectavam pecado na nudez dos índios. Por conta disso, violentaram os costumes silvícolas, ordenando que todos se vestissem da maneira como achavam certo (ao estilo europeu). Acontece que a nudez dos índios não advinha do pecado, mas da sua própria elaboração cultural.

Certa vez, no Nordeste, vi um irmão pregando às três horas da tarde, numa temperatura de 40 graus, de paletó e gravata. Por quê? Há uma exigência divina para que os seus pastores se trajem assim? Não. Essa é uma exigência cultural. Nos primeiros anos de meu ministério, alguns pastores mais jovens gostavam de desafiar os limites. Vestiam-se de paletó mas sem gravata. O colarinho da camisa era dobrado por cima do paletó. Não apago da minha memória o dia em que eu e meu amigo evangelista fomos repreendidos de púlpito. O pastor presidente leu naquela noite um texto do livro de Provérbios sobre não removermos os marcos antigos que os pais haviam estabelecido. Por vinte e cinco minutos que mais pareciam uma eternidade, cabisbaixos, ouvimos a acusação de que alguns pastores queriam desenvolver seus ministérios levianamente. Tudo porque estávamos de paletó sem gravata.

O pastor de saias que vimos nas Filipinas estava mal vestido para nossa cultura e nós o olhamos com espanto. Porém, minha resistência ao seu modo de se trajar não indica que ele estivesse com algum tipo de desvio moral. Indica apenas que minha visão da cultura é obtusa e que sou preconceituoso.

Já ouvi duras críticas ao uso de atabaques e tambores em cultos. Contudo, o órgão e o piano fazem parte das exigências do Espírito Santo para abençoar uma reunião? Como recebemos influência dos americanos e dos ingleses sobre a liturgia dos cultos, não conseguimos imaginar que na África não se cultue a Deus com pianos, mas sim com tambores. Escutei contundente rejeição a hinos cantados em ritmo de samba. Por quê? O samba é um ritmo profano? Qual seria o ritmo divino e sagrado então? Os cânticos gregorianos, a valsa?

Muitos não sabem que a maioria dos hinos compostos por Charles Wesley e tantos evangelistas de seus dias continham melodias dos bares ingleses e em seus dias produziram grandes escândalos. Já presenciei debates sobre qual é a roupa mais adequada para a vestimenta do coral. As becas não representam apenas uma tradição européia que nada significa no clima e na cultura brasileira? Essas questões demonstram que ainda há pouquíssima compreensão nos meios evangélicos de como a fé e a cultura convivem.

René Padilla, escrevendo acerca desse tema, chegou à conclusão de que nenhuma cultura representa totalmente o propósito de Deus e, "por essa razão, o evangelho nunca se encarna totalmente em nenhuma cultura em particular. Ele vai além de qualquer cultura, ainda quando esta tenha sido influenciada por ele”. 7

Essa tentativa de identificar o evangelho à cultura do evangelista muitas vezes diminui, também, a efetividade de comunicação da mensagem. Conforme assinalou Padilla, "desde que a palavra de Deus se fez homem, a única possibilidade quanto à comunicação do evangelho é aquela em que este se encarna na cultura para colocarse ao alcance do homem como ser cultural. Qualquer tentativa de comunicar o evangelho sem uma inserção prévia e profunda por parte do sujeito comunicante na cultura receptora é subcristã”. 8

A Bíblia está repleta de exemplos de evangelistas e missionários que, chegando a um contexto cultural diferente do seu, respeitaram a maneira de ser daquele povo e procuraram adaptar-se aos seus ouvintes.

Pedro que, notoriamente, resistia a mudanças no judaísmo de sua infância, viu-se obrigado a reconhecer que a cultura judaica não se sobrepunha à dos gentios. Hospedado em Jope, na casa de um certo Simão, ele teve uma visão que não só transformaria sua vida, como abriria caminho para que o cristianismo não se cristalizasse em mais uma seita judaica (At 10). Orando no eirado da casa, "ele viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado á terra pelas quatro pontas, contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra, e aves do céu". Pedro recebeu ordens para comer. Acontece que aqueles animais, segundo a lei, tradição e costume dos judeus, eram impuros e ele jamais conseguiria cumprir aquela ordem sem romper com suas bitolas culturais. Três vezes sucedeu a mesma visão com ordens específicas para que comesse e não considerasse impuro o que Deus purificara. Enquanto Pedro, perplexo, tentava entender o que lhe sucedia, chegou uma comitiva enviada pelo centurião Cornélio pedindo a Pedro que o visitasse e explicasse a mensagem do Evangelho.

O impacto daquela visão deu a Pedro condições de vencer suas próprias dificuldades de conviver em um ambiente gentílico. Forçosamente, ele necessitaria aprender a respeitar o modo de ser dos gentios e, ainda mais tarde, defendê-los, quando indagado pelos austeros fariseus convertidos sobre o que um judeu fazia no meio de pagãos mundanos. Graças àquela visão, o Evangelho pela primeira vez conseguiu sair da rígida moldura cultural judaica. Pedro pavimentou o caminho de Paulo. Breve o Evangelho não pertenceria mais aos judeus, seria de todas as nações da Terra.

Viajando pelo mundo antigo sem as viseiras restritivas dos judeus, Paulo difundiu o Evangelho como nenhum outro. Seguramente, seu grande sucesso deveu-se à sua habilidade de saber adaptar-se ao contexto cultural aonde chegava:

Fiz-me fraco para com os fracos, com fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. (1 Co 9:22)

Hudson Taylor foi missionário na China. Antes de lá chegar, ele dormia no chão, sobre esteiras, e aprendeu a comer como os orientais, de palitinho; educou-se a comer as mesmas comidas que os chineses. Logo que aportou na China notou que os missionários restringiam seus esforços no litoral e nas grandes cidades. Fechavam-se em vilas missionárias, de muros altos. Hudson Taylor viu que os missionários tinham uma atitude colonialista. Consideravam sua cultura superior e mais santa que a dos chineses. Sem hesitar, ele raspou a cabeça, mas deixou crescer um longo "rabo de cavalo", vestiu-se e calçou-se como um chinês e partiu para o interior da China. Os ingleses não eram (e nem são) superiores a ninguém. Não há cultura sagrada.

Apesar de moralmente as pessoas estarem degeneradas e carentes de restauração, todas as culturas possuem traços positivos e negativos. "É interessante notar que é aos filhos de Caim que se atribui a criação da música, das cidades, do bronze e do ferro (Gn 4:17-24)".9 Até mesmo o povo judeu desenvolveu aspectos positivos e negativos em sua cultura. As leis sanitárias, o cuidado com os anciãos, a mordomia da terra são aspectos bonitos da cultura judaica. Mas por diversas vezes Deus condenou os judeus por estarem propagando dimensões pecaminosas para outras nações. O culto mecânico é condenado no capítulo 1 de Isaías, o desprezo pelas viúvas e pelos pobres é condenado em Jeremias, e o egoísmo é condenado em Joel.

O grande desafio para os evangélicos é o de não condenar ou afastar-se da cultura por medo de ceder ao mundanismo. Agindo assim, rechaçamos e subestimamos a cultura e assim passamos a viver em guetos. Urge avaliarmos cuidadosamente a expressão cultural dos brasileiros, de forma que possamos celebrar a multiforme graça de Deus derramada sobre nosso povo. Em muito do que o brasileiro tem de bonito. Importa, igual e concomitantemente, denunciar e descartar o pecado infiltrado em toda nossa nação.

Ser evangélico não significa pertencer a uma cultura própria e separada. Cristo nunca intencionou isso. Tanto que na oração sacerdotal de João 17, ele pediu ao pai que não retirasse as pessoas do mundo, mas que as livrasse do mal. A intenção de

Deus não é que formemos guetos culturais, mas que fôssemos sal e luz dentro de nossa própria realidade. A ética evangélica sobre a cultura deve discernir com precisão o que é produto do pecado e o que é fruto da graça comum de Deus.

Notas


1 -PAREDES, Tito.A Missão da Igreja. Minas Gerais: Ed. Missão, 1994,p.245.
2 Citado por Leonardo Boff emNova Evangelização: Perspectiva dos Oprimidos.
Rio de Janeiro: Ed. Vozes, p. 19.

3 NIDA, E. A. Costumes e Culturas. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1985, p. 30.


4 Enciclopédia Britânica do Brasil. Mirador, Tomo 18, verbete 'Roupa', p. 10079.
5 NIDA, E. A. Costumes e Culturas. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1985, p. 30.
6 Enciclopédia Britânica do Brasil. Mirador, Tomo 18, p. 10089.
7 PADILLA, René. Missão Integral. São Paulo: Temática Publicações - FTL-B,
p.98.

8 Ibidem, p. 101.

9 PAREDES, Tito. A Missão da Igreja. Minas Gerais: Ed. Missão, 1994, p. 251.

Os usos e costumes na cultura judaica

Recordo-me de minha decepção quando li a Bíblia pela primeira vez. Pensava tratar-se de um manual de religião. Qual não foi meu desapontamento quando me deparei com um livro de história. Descobri que as páginas do Antigo Testamento contam a trajetória de um povo, seu relacionamento de obediência, mas também de rejeição a Deus e como aguardavam o seu Messias prometido. O Novo Testamento prossegue relatando a chegada do Messias. Porém, como esse povo que tanto o aguardava não o recebeu como o Cordeiro de Deus, ele se tornou o Cristo de todas as nações.

A Bíblia, portanto, sendo um livro histórico, registra primordialmente a cultura dos judeus. Suas páginas fornecem grande parte do que se sabe hoje sobre os hebreus. Cada episódio narrado traz um contexto cultural riquíssimo. Neste capítulo nos prenderemos especificamente às roupas e aos adornos da cultura oriental, procurando compreender o que a Bíblia ensina sobre o assunto.

OS judeus, como todos os outros povos, criaram uma forma de expressão cultural na sua indumentária. Os povos antigos consideravam a comida e a vestimenta necessidades básicas (1 Tm 6:8). Vestir-se para a labuta não requeria muito esmero, as roupas para trabalhar deveriam ser básicas e muito simples, de forma que se pudesse entrar no trabalho ou dele sair com rapidez. Um antigo palestino podia demorar muitas horas ataviando-se com adereços, perfumes, jóias turbantes, mantos e capas, quando se vestia para uma festa culto religioso ou casamento, mas nunca gastaria esse tempo todo quando se vestia para trabalhar.1 Na antigüidade, um trabalhador que perdesse tempo vestindo-se para o trabalho era considerado de pouca qualificação. Alguns historiadores enxergam nas roupas largas e frouxas da cultura palestina uma expressão do pensamento entanto, havia uma diversificação enorme na maneira como as pessoas se trajavam; as roupas transmitiam valores, tanto estéticos como morais.

Na cultura judaica, a nudez representava pobreza vergonha e fragilidade moral. Quando empobrecido pelo mordaz ataque do Diabo, Jó viu-se fragilizado e bradou: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!" Em Gênesis 37 o pecado gerou vergonha quando Adão e Eva perceberam que estavam nus. Assim, os judeus buscavam cobrir-se para demonstrar sua dignidade e pureza diante de Deus

Em Marcos 5:1-20 Jesus expulsou uma legião de demônios de um homem que habitava a terra dos gerasenos O evangelista relata o estado deplorável em que esse ser humano se encontrava. Alienado da sociedade, vivia habitado por demônios e não por Deus. O confronto de Jesus com esse homem

Impactou a região, pois os espíritos maus transferiram-se para porcos que acabaram caindo em um despenhadeiro. As pessoas que saíram para assistir ao que sucedera surpreenderam-se ao notar "o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo". (Mc 5:15). A ausência de roupas indicava o estado abjeto desse homem que, agora vestido, testemunhava o milagre realizado por Cristo em sua vida. Na Bíblia há uma grande quantidade de textos sugerindo que as roupas podem transmitir, culturalmente, valores tanto espirituais como ornamentais. O uso metafórico dos tecidos e das cores mostra, de modo conclusivo, que havia uma percepção muito clara de que as roupas e as indumentárias passavam mensagens culturais. Lembremo-nos de Isaías, que se alegra por Deus trajar seu povo com vestes de salvação, envolvendo-o "com o manto da justiça, como noivo que se adorna de turbante, como noiva que se enfeita com as suas jóias" (Is 61.10); bem como de Pedro, rogando aos crentes que se "vistam de humildade" (1 Pe 5:5); ou também do fato de a igreja de Laodicéia ser exortada pelo Senhor a comprar "vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez" (Ap 3:18). Esses textos demonstram claramente que, na mentalidade judaica, vestir-se representava muito mais que simplesmente se cobrir. Verdadeiramente, as vestimentas continham toda uma produção cultural. Assim, a simples menção de um anel, manto ou sandálias (como no caso do filho pródigo), denota uma riqueza espiritual muito grande.

Os cintos, por exemplo, significavam força, como no caso da profecia de Jeremias (13:11), em que o Senhor diz: "como o cinto se apega aos lombos do homem, assim eu fiz apegar-se a mim toda a casa de Israel, e toda a casa de Judá".árabe, que contempla a vida como uma busca do prazer e da felicidade, mas o trabalho como uma maldição divina.

Nas Escrituras, entretanto, a roupa e a comida não representam apenas as meras funções de vestir e alimentar mas também de oferecer ornamento e prazer. O calor da Palestina não exigia roupas diferenciadas para cada estação do ano, no

Os materiais e seu significado cultural

Os materiais com que se confeccionavam roupas eram importantes e também carregavam uma simbologia cultural e espiritual.

Produziam-se roupas a partir de seis produtos principais. Havia a lã, o pêlo de cabritos e de camelos, o algodão, o linho e a seda. Interessante notar que a lei proibia que se usassem roupas de tecidos misturados como a lã e o linho (Dt 22:11). Não havia nenhuma conotação imoral em vestes mescladas de dois materiais, essa proibição era apenas mais um detalhe da lei que procurava imprimir no judeu uma percepção dualista do seu mundo; ele precisava aprender a discernir entre o certo e o errado, o Deus verdadeiro e o ídolo, quem era o povo escolhido e quais eram os povos pagãos. O linho, de origem vegetal, e a lã, de origem animal, não podiam misturar-se. Deus desejava ensiná-los a distinguir uma realidade da outra a fim de que pudessem identificar os valores espirituais opostos. Havia ainda o fato de que a lã, muitas vezes, chegava a Israel importada da Síria. Assim sendo, como as roupas demonstravam valores culturais, vestir-se com roupas de tecido misturado poderia representar que a nacionalidade judaica estivesse comprometida. Para se preservarem, os judeus necessitavam manter-se intolerantes a qualquer amálgama.

O algodão e o linho, devido ao clima quente, tornaram-se os elementos mais comuns na confecção de tecidos. Em princípio, os judeus faziam distinção entre linho e algodão. Ao saberem, porém, que ambos eram de origem vegetal, passaram a aceitar a mistura. A seda, produto muito mais caro em razão de ser importado do Extremo Oriente, não possuía a mesma simbologia dos demais materiais; todavia, nas poucas vezes em que é mencionada, representa prosperidade.

Também te vesti de roupas bordadas, e te calcei com peles de animais marinhos, e te cingi de linho fino e te cobri de seda. .. .Assim foste ornada de ouro e prata; o teu vestido era de linho fino, de seda, e de bordados; nutristete de flor de farinha, de mel e azeite; eras formosa em extremo e chegaste a ser rainha. (Ez 16:10,13)

Os pêlos de camelos e bodes eram trançados na confecção de tecidos geralmente grosseiros e baratos. O texto de Marcos 1:6 indica que as roupas de João Batista, tecidas com pêlos de camelos, eram baratas e próprias de uma personagem como ele, proveniente da seita dos essênios.

As vestes de João eram feitas de pêlos de camelo; ele trazia um cinto de couro, e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.

A cor branca, tanto nas roupas de lã como nas de linho, simbolizava pureza espiritual e moral. Nas noivas, por exemplo, representava virgindade.

Alegremo-nos, exultemos, e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. (Ap 19:7-8)

Chamo a atenção para o fato de que algumas culturas se utilizam do branco para transmitir conceitos pagãos. Em Salvador, na Bahia, vestir-se de branco numa sextafeira significa reverenciar uma entidade da religiosidade afro-brasileira. Em todo o Brasil, vestir-se de branco na noite do reveillon representa esperar pela sorte no ano que irá iniciar.

A aplicação da tintura nos tecidos era generalizada. De procedência animal ou vegetal, as roupas dos levitas eram tingidas com amarelo açafrão, sendo que o azul e o marrom eram as cores mais comuns. As capas listradas de branco e marrom também tinham grande aceitação. A casca da romeira fornecia um aroma muito apreciado, e o vermelho era extraído de um pequeno inseto escamado que vive na nogueira. A tintura mais apreciada, contudo, era a púrpura, obtida de um molusco denominado murex, que os fenícios pescavam desde há séculos em toda a costa do Mediterrâneo Oriental. A púrpura, tanto em Israel como em Roma e Cartago, era um sinal de poder. O homem rico da parábola estava vestido de "púrpura e de linho finíssimo" (Lc 16:19).

Na maioria das vezes não há aprovação ou condenação bíblica em relação ao uso de roupas. Simplesmente em determinado momento estas poderiam ser consideradas dignas ou não. Os cintos podiam, como já vimos anteriormente, ter uma conotação positiva; no entanto, seu uso também podia assumir uma concepção negativa. Na velhice de João, o cinto representaria uma debilidade tamanha, que sozinho o apóstolo não iria conseguir atá-lo à sua própria cintura (Jo 21:18).

Deus não atrelava, necessariamente, uma concepção pecaminosa ao desejo de vestir-se bem ou de acordo com a moda. E preciso repetir que as roupas e adereços não estão associados à queda ou ao estado regenerado das pessoas; unicamente fazem parte da produção cultural. Esta sim pode adoecer e tornar-se uma forma pervertida de uma determinada sociedade se expressar.

Observemos alguns textos em que a Bíblia apresenta formas de expressão cultural sem qualquer conotação pecaminosa.

As roupas e o estilo de cabelo podiam classificar socialmente os indivíduos; pois havia vestimenta de pobres:

As vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e os seus cabelos serão desgrenhados; cobrirá o bigode e clamará: Imundo, imundo! (Lv 13:45)

Assim como as viúvas brasileiras usavam antigamente roupas pretas, em Israel as viúvas também se vestiam de maneira diferenciada; não necessariamente de preto, mas de tal forma que podiam ser identificadas em seu luto:

Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva. (Dt 24:17)

Cada vez que vamos ao guarda-roupas para escolher nossa vestimenta do dia, a escolhemos cuidadosamente de acordo com várias referências. Analisamos quem vamos encontrar, assim como o ambiente e as regras que a nossa sociedade convencionou como aceitáveis para nos vestirmos. Logicamente, ninguém de sã consciência iria a uma praia de paletó e gravata, bem como ninguém se atreveria a comparecer a um tribunal trajando apenas calção.

Há roupas que consideramos próprias para o trabalho braçal, pois são mais confortáveis, feitas de material mais resistente e sem muita pretensão de beleza. Quem vestir roupas de trabalho numa festa ou em um culto solene estará violando as regras de boa conduta impostas pela sociedade. Separamos roupas para usar em ocasiões especiais, visto que são as mais caras e possivelmente aquelas a que atribuímos um valor (subjetivo, diga-se de passagem) de beleza maior.

Recordo uma frase de minha infância muito repetida por minha mãe: "Ricardo, vista a roupa de ver Deus". Esta ordem lembrava-me de que eu deveria vestir minha melhor indumentária. Israel também fazia distinção entre as roupas comuns e as excelentes. Quando Rute preparava-se para encontrar com o seu remidor e futuro marido, Noemi lhe aconselhou que se vestisse com maior esmero: Banha-te, unge-te, e põe os teus melhores vestidos, e desce à eira; porém não te dês a conhecer ao homem, até que tenha acabado de comer e beber. (Rt 3:3)

Israel foi admoestado a não esquecer de juntar nos despojos de guerras as roupas mais caras: Também Judá pelejará em Jerusalém; e se ajuntarão as riquezas de todas as nações circunvizinhas, ouro e prata e vestes em grande abundância. (Zc 14:14)

Logicamente, os reis vestiam-se de maneira diferente dos comuns.

Tragam-se as vestes reais de que o rei costuma usar, e o cavalo em que o rei costuma andar montado, e tenha na cabeça a coroa real. (Et 6:8)

Da mesma forma, como em outras culturas, as vestes sacerdotais diferenciavamse da indumentária do povo. No Pentateuco o próprio Deus deu ordens de como seria a vestimenta da tribo de Levi, responsável pelo sacerdócio.

Farás vestes sagradas para Arão, teu irmão, para glória e ornamento. (Êx 28:2)

Os sacerdotes daqueles dias vestiam-se de modo muito distinto ao dos padres e pastores de hoje. As vestes sacerdotais eram detalhadamente descritas por Deus. As túnicas que revestiam mantas eram adornadas com bordados, multicoloridas e de uma simbologia riquíssima; o linho representava pureza; as cores, a multiforme graça de Deus; o ouro, a realeza; as pedras preciosas, as diversas tribos de Israel.

As vestes, pois, que farão são estas: um peitoral, uma estola sacerdotal, uma sobrepeliz, uma túnica bordada, micra e cinto. Farão vestes sagradas para Arão, teu irmão e para seus filhos, para me oficiarem como sacerdotes. Tomarão ouro, estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino. (Êx 28:4,5)

Tecerás quadriculada túnica de linho fino, e farás uma mitra de linho fino, e um cinto de obra de bordador. (Êx 28:39)

Como as roupas também são um meio de expressão cultural, os materiais e a forma como são confeccionadas podem passar uma mensagem de pesar, de alegria, ou até mesmo de louvor a Deus. Os povos antigos (inclusive os judeus), por exemplo, quando estavam em profundo lamento por causa de seus pecados, vestiam-se de sacos tecidos com pêlos de camelos ou de bodes. Em Israel, alguém vestido com esse material transmitia a idéia de quebrantamento e arrependimento:

Chegou esta notícia ao rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco, e assentou-se sobre cinza. (]n 3:6)

Naqueles dias, assim como ainda fazemos hoje, já se presenteavam pessoas benquistas com roupas. O preço desses presentes significava o tamanho do nosso carinho:

Tirou jóias de ouro e de prata, e vestidos, e os deu a Rebeca; também deu ricos presentes a seu irmão e a sua mãe. (Gn 24:53)

O Antigo Testamento está repleto de referências sobre como homens e mulheres usavam seus cabelos. Em oposição ao que se pensa, arrumar o cabelo de uma forma meticulosa e demorada não representava um desagrado a Deus; pelo contrário, era uma forma de expressar o seu favor. Havia cabeleireiros que penteavam de acordo com a ocasião. Veja como o relato de Isaías 61:10 assemelha o favor de Deus a um noivo que se prepara para casar:

Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegra no meu Deus porque me cobriu de vestes de salvação, e me envolveu com o manto de justiça, como noivo que se adorna de turbante, como noiva que se enfeita com as suas jóias.

Os sacerdotes também se penteavam com muito cuidado. Além de inúmeros adereços e ornamentos nas roupas, colocavam tiaras de linho na cabeça.

Fizeram também as túnicas de linho fino, de obra tecida, para Arão e para seus filhos, e a mitra de linho fino e as tiaras de linho fino e os calções de linho fino retorcido. (Êx 39:27-28) Tiaras de linho lhes estarão sobre as cabeças, e calções de linho sobre as coxas; não se cingirão a ponto de lhes vir suor. (Ez 44:18)

Parece, entretanto, que havia diferentes tipos de tiaras e turbantes para diferentes momentos; até a maneira de amarrar os turbantes transmitia uma mensagem de alegria ou de luto.

Geme em silêncio, não faças lamentação pelos mortos, prende o teu turbante, mete as tuas sandálias nos pés, não cubras os teus bigodes e não comas o pão que te mandam. (Ez 24:17)

Os judeus também gostavam de ornamentos imitando coroas (diademas), pois simbolizavam juventude, alegria e favor de Deus. Colocados sobre a cabeça, esses ornamentos pareciam mais ou menos os arcos que as mulheres contemporâneas utilizam, alguns deles fartos de pedras coloridas.

E a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de pranto, veste de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a sua glória. (Is 61:3)

Os ornamentos de ouro, prata e pedras preciosas serviam basicamente para os mesmos fins que hoje. Uma das simbologias tipificadas pelo uso do anel era a da autoridade.

Então tirou Faraó o seu anel de sinete da mão e o pôs na mão de José, fê-lo vestir roupas de linho fino e lhe pôs ao pescoço um colar de ouro. (Gn 41:42)

Tirou o rei o seu anel, que tinha tomado a Hamã, e o deu a Mordecai.(Et 8:2)

Os colares, também comumente usados pelos judeus, apaceram inicialmente como uma forma de firmar aliança. Eram uma espécie de coleira simbólica com que as pessoas se com prometiam mutuamente. Com o passar do tempo os colares perderam essa tipologia e passaram a ser meros objetos de adorno. Judá, quando se deitou com Tamar pensando ser ela uma prostituta, foi indagado a respeito do que ofereceria à moça para com ela manter relações. Ele lhe prometeu um cabrito; ela, por outro lado, pediu-lhe um penhor.

Ela disse: O teu selo, o teu cordão (colar) e o cajado que seguras. Ele, pois, lhos deu... (Gn 38:18)

Os colares adornavam o pescoço, considerado pelos antigos uma parte sensual da mulher.

Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares. Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.. (Ct 1:10-11)

Há indícios de que os colares combinavam com os braceletes formando assim conjuntos de jóias lindíssimos que certa-mente tornavam a mulher mais formosa.

Também te adornei com enfeites, e te pus braceletes nas mãos e colar à roda do teu pescoço. (Ez 16:11)

Hoje, algumas pessoas estranham que jovens usem brincos no nariz. Nos tempos antigos, porém, as mulheres já usavam brincos tanto nas orelhas como no nariz. O servo de Abraão,quando se encontrou com Rebeca (ela mais tarde viria a ser a esposa de Isaque), cuidou de adorná-la de acordo com o juízo que ele fazia do que seria a moda mais bonita.

Daí lhe perguntei: De quem és filha? Ela respondeu: Filha de Betuel, filho de Naor e Milca. Então lhe pus o pendente no nariz e as pulseiras nas mãos. (Gn 24:47)

Como pendentes e jóias de ouro puro, assim é o sábio repreensor para o ouvido atento. (Pv 25:12)

Coloquei-te um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas, e linda coroa na cabeça. (Ez 16:12)

Há algumas questões que devem ser levantadas quanto à leitura que se faz do comportamento dos judeus. Se a Bíblia descreve a rica cultura dos judeus sem qualquer censura, a pergunta deve ser feita sem medo. De onde vêm os sermões bombásticos condenando os adornos como vaidade? Se não vêm do coração de Deus, brota de uma fraca percepção de que a Bíblia não é um livro de codificação doutrinária, mas a história de um povo.

Não desejamos imitar o povo judeu no Antigo Testamento nem os primeiros cristãos do Novo Testamento. Isso nos seria impossível. Eles viveram realidades diferentes em um tempo muito longínquo do nosso. Não desejamos que os nossos pastores usem turbantes na cabeça, que se pague um dote aos pais das noivas, ou que os cunhados se casem com as viúvas de seus irmãos. Na verdade, há uma inconsistência enorme quando tentamos buscar um versículo de Deuteronômio que nos ensine como as mulheres devem se trajar. Como todos os outros textos que falam de nosso comportamento são desprezados, fica-se com a estranha sensação de que aquele texto foi pinçado apenas para satisfazer uma doutrina de homens.

A primeira vez que visitei Israel, tive o cuidado de ir a uma loja de suvenir e comprar um kippar; aquele pequeno disco de pano que os judeus usam para cobrir a coroa da cabeça. Como tenho poucos cabelos, precisei de um bom grampo para fixálo nos ralos fios que me sobram. Todos os dias usei o meu kippar.

Eu queria andar pelas ruas sem ser notado como turista. Não consegui. Sei, contudo, que estava longe de ser um verdadeiro judeu. Não falo hebraico, desconheço os costumes de Israel, e a bem da verdade, conheço poucos judeus. Embora cultive uma genuína admiração por esse povo (meu Senhor foi judeu), não quero converter minha igreja numa sinagoga. Não vou ensinar as famílias a circuncidarem os seus filhos nem se trajarem como fazem os descendentes de Jacó.

Como brasileiro, quero ensinar o povo a aplicar os princípios básicos da Bíblia. Desejo que os valores eternos do Rei-no de Deus sejam implementados no coração das pessoas. Não entendo que os pastores sejam codificadores de trajes, ou que estejam capacitados por Deus a medir os centímetros das bermudas acima ou abaixo dos joelhos. Quando caem nessa armadilha, os pastores tornam-se alvos de chacotas e perdem o vigor de seus ministérios.

Nota


1 A Dictionary of the Bible- Dealing with its Language, Literature and Contents. James Hastings, Editor, verbete dress, p. 628.Edinburgh,Scotland, Junho, 1904.

Capítulo 3

O que a Bíblia diz sobre moda, jóias e adornos

O congresso, marcado com grande antecedência, reunira milhares de jovens de várias partes do Brasil. Sobejava adrenalina espiritual na excitação daqueles rapazes e moças. No primeiro culto, os grupos musicais tocaram com grande unção, e a mensagem, ponto mais alto da noite, certamente incendiaria aquela juventude para o reino de Deus. Mas o que se ouviu infelizmente caiu como uma ducha d'água fria. Ao invés de pregar uma mensagem bíblica, o conferencista destilou ataques sobre o que chamava de mundanismo.

Os congressistas escutaram que Deus desaprova a preocupação dos jovens em se vestirem bem ou usarem qualquer tipo de adorno no corpo. "Ele exige santidade dos seus filhos", argumentava o conferencista. Talvez tentando demonstrar fidelidade aos costumes dos antigos, levantou o dedo em riste denunciando: "as moças crentes que se entregarem à 'vaidade' não subirão ao céu no dia do arrebatamento. Esmaltes, brincos e lábios pintados são vaidade, e só vão para o céu os que não entregam sua alma à vaidade", exclamava fervorosamente.

Mesmo omitindo o nome do pregador e em qual congresso aconteceu esse episódio, sei que muitos se identificarão com esses fatos, pois eles já aconteceram milhares de vezes em todo o Brasil.

Algumas igrejas evangélicas assumiram uma postura restritiva de usos e costumes; hoje já não se diferencia a doutrina de Deus da doutrina dos homens. Será que Deus condena mesmo o uso de adornos, jóias e de roupas mais bem ajustadas ao tempo e à cultura do povo? A Bíblia contém referências claras afirmando que Deus não se agrada dos assuntos relacionados com vestimentas? Respondemos que não.

Há uma igreja que tomou a seguinte decisão ministerial:

Sobre as irmãs usarem cintos exagerados que chamem a atenção. O Ministério não concorda baseado na Bíblia em 1 Tm 2:9. É permitido o uso de cinto de couro ou de pano desde que o cinto não ultrapasse 2 (dois) cm (centímetros). Quem não obedecer fica fora de comunhão até o uso permitido.

Nessa mesma reunião fatídica, o ministério decidiu ainda:

Sobre usar brincos, colares, pulseiras ou anéis ou outro tipo de jóias ou bijuterias (sic), inclusive anel de formatura. O Ministério não permite pois está escrito em Dt 22:5; Rm 1:28; 1 Co 11:16; l Ts 5:23;l Tm 2:9;l Pe 3:4.

Quem não obedecer será punido

Primeira vez - Chamar a atenção dentro (sic) da Bíblia e 60 dias fora da comunhão.

Segunda vez - 180 dias de prova.


Terceira vez - Um ano de prova.
Quarta vez - Exclusão.

Exceção (sic): é permitido usar relógio de pulso ou de bolso e alianças de casamento, noivados, bodas (sic) de prata ou de ouro.

Transcritos aqui no contexto deste livro, os textos acima podem parecer ridículos. Mas são raros os momentos em que lento com irmãos e irmãs de algumas igrejas que não surjam perguntas exatamente sobre esses assuntos. Viajando certa vez com um grupo de pastores, perguntaram-me como eu conseguia manter um mínimo de vida cristã entre os crentes da nossa igreja sem impor regras e normas. Não há o perigo de descambar? Dando às pessoas liberdade, elas não acabam em autêntica libertinagem? Mostrei-lhes que se nascemos do Espírito Santo, seremos guiados pelo mesmo Espírito, e que se o coração está em submissão a Deus não há necessidade de lei. Mostrei-lhes também que se Deus não for o Senhor, não há lei que imponha esse sentido de responsabilidade.

Procurarei provar que essas proibições são fruto do autoritarismo inconseqüente de homens e que, na Bíblia, Deus não assume uma postura condenatória quando relata o uso de jóias e adornos. Há vários trechos nas Escrituras em que tanto os patriarcas quanto outras personagens da fé (inclusive o próprio Deus Pai no Antigo Testamento, Jesus e os apóstolos no Novo Testamento) não apenas usaram jóias, mas também aprovaram o seu uso. Deus inúmeras vezes se valeu de metáforas nas quais se inseriram jóias, roupas caras e adereços, a fim de simbolizar sua bênção para o seu povo. Eis um exemplo:

Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto, e cobri a tua nudez, dei-te juramento, e entrei em aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha. Então te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue e te ungi com óleo. Também te vesti de roupas bordadas, e te calcei com peles de animais marinhos, e te cingi de linho fino e te cobri de seda. Também te adornei com enfeites, e te pus braceletes nas mãos e colar à roda do teu pescoço. Coloquei-te um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas e linda coroa na cabeça. Assim foste ornada de ouro e prata; o teu vestido era de linho fino, de seda, e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, de mel e azeite; eras formosa em extremo e chegaste a ser rainha. Correu a tua fama entre as nações, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor Deus. (Ez 16:8-14, grifos do autor)

O rico patriarca Abraão dispunha de jóias em seu tesouro (Gn 13:2). Observe que o seu servo, visitando a casa de Rebeca para convidá-la a desposar Isaque, não hesitou em adorná-la com as jóias da riqueza de seu senhor:

Tendo os camelos acabado de beber, tomou o homem um pendente de ouro de meio siclo de peso, e duas pulseiras para as mãos dela, do peso de dez siclos de ouro. (Gn 24:22)

José, mesmo sendo piedoso e temente a Deus, não recusou ataviar-se com as jóias que Faraó lhe presenteou:

Então tirou Faraó o seu anel de sinete da mão e o pôs na mão de José, fê-lo vestir roupas de linho fino e lhe pôs ao pescoço um colar de ouro. (Gn 41:42)

Aos sacerdotes, Deus mandou que se vestissem de forma meticulosa e bonita, pois as vestes sacerdotais representariam um sinal da bênção do Senhor. Os artesãos convocados para elaborá-las esmeraram-se nos detalhes e na riqueza de sua confecção:

As vestes, pois, que farão são estas: um peitoral, uma estola sacerdotal, uma sobrepeliz, uma túnica bordada, mitra e cinto. Farão vestes sagradas para Arão, teu irmão, e para seus filhos, para me oficiarem como sacerdotes. Tomarão ouro, estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino, e farão a estola sacerdotal de ouro, estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino retorcido, obra esmerada. (Êx 28:4-6)

Isaías usa, sem hesitação, a linguagem das roupas, jóias e adornos para simbolizar a bênção de Jeová sobre Israel:

Desperta, desperta, reveste-te da tua fortaleza, ó Sião; veste-te das tuas roupagens formosas, ó Jerusalém, cidade santa... (Is 52:1)

Jeremias, falando em nome de Deus, chega a comparar o cuidado de uma noiva em não se esquecer de seus adornos com Israel, que é indesculpável quando se esquece do Senhor:

Acaso se esquece a virgem dos seus adornos, ou a noiva do seu cinto? Todavia o meu povo se esqueceu de mim por dias sem conta.(jr2:32)

Daniel é muitas vezes citado nas igrejas evangélicas como homem sem vaidades por se ter recusado a contaminar-se com os manjares que o rei comia. Entretanto, Daniel não se recusou a vestir-se de materiais caros, ornar-se com beleza e andar de acordo com a moda da Babilônia, onde passava seus dias de exílio:

Eu, porém, tenho ouvido dizer de ti que podes dar interpretações e solucionar
casos difíceis; agora, se puderes ler esta escritura, e fazer-me saber a sua
interpretação, serás vestido de púrpura, terás cadeia de ouro ao pescoço, e
serás o terceiro no meu reino. (...) Então mandou Belsazar que vestissem
Daniel de púrpura, e lhe pusessem cadeia de ouro ao pescoço, e
proclamassem que passaria a ser o terceiro no governo do seu reino. (Dn
5:16,29)

Já para o sumo sacerdote Josué, vestir-se com roupas caras representou uma revirada na sorte. Como Israel não conseguia recuperar-se nunca de seus constantes fracassos, Deus prometeu a Zacarias que reverteria a sorte de sua nação, assim como estava fazendo com Josué. Tal reviravolta seria tão radical, que seria como se uma pessoa que se vestisse de andrajos passasse a trajar-se com roupas de alto valor:

Tomou este a palavra, e disse aos que estavam diante dele: Tirai-lhe as vestes sujas. A Josué disse: Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniqüidade, e te vestirei de finos trajes. (Zc 3:4)

Ao contar a parábola do Filho Pródigo, Jesus não receia afirmar que o pai ornou o seu filho com um anel. Embora aquele anel representasse uma forma de restituir a autoridade do filho, não se pode esquecer de que o anel também era uma peça de ouro e de adorno:

O Pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. (Lc 15:22)

Ao contar as chamadas Parábolas do Reino, no capítulo 13 de Mateus, Jesus não atribuiu qualquer valor negativo àquele que negociava pérolas. Talvez, em alguns círculos religiosos de hoje, um vendedor de pérolas fosse aconselhado a abandonar o seu negócio, pois estaria comercializando objetos de vaidades. Cristo, entretanto, usou esse ofício para exemplificar o reino de Deus.

O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e tendo achado uma pérola de grande valor, vendeu tudo o que possuía, e a comprou. (Mt 13:45-46)

Ora, se Deus não assume uma postura condenatória sobre o uso de objetos de adorno ou moda, de onde vem essa abundância de doutrina humana reprovando severamente os jovens que se trajam de acordo com a cultura e os hábitos de outros jovens?

Há várias explicações, mas podemos restringir-nos a pelo menos três falácias usadas na defesa do legalismo nas igrejas:

1. Há certo tipo de pessoa que necessita de cabrestos e leis proibitivas.

Entenda-se que esse tipo de pessoa seja o pobre e o simples. Esse argumento reforça a idéia de que os pobres e os simples não têm condições de participar do evangelho da graça. Aqueles que defendem esse argumento acreditam que há pessoas social e culturalmente atrasadas e que precisam de cabrestos, leis rígidas e muita proibição. Isso não é preconceito? A mocinha que freqüenta uma congregação de periferia seria mais atrasada do que a mocinha que vive atrás dos altos muros de um condomínio fechado? Ela não pode desfrutar do evangelho da graça, sem o bordão da lei, para ser santa? Será que Deus realmente usa parâmetros diferentes quando lida com seus filhos? Com esse arrazoamento chegaríamos à absurda conclusão de que há dois evangelhos: o da graça, para os socialmente abastados e cultos; e o legalista, para os pobres e indoutos. O Salmo 32.8-9 ensina que Deus não deseja estabelecer com ninguém um relacionamento proibitivo; ele almeja que sejamos íntimos e livres para desfrutar de sua companhia. Ele não quer nos mandar aos gritos, e sim deseja nossa obediência por amor. Suas leis não são arbitrárias, elas almejam o nosso bem:

Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho. Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem.

2. Abertura demais resulta em libertinagem.

De acordo com esse argumento, não se pode pregar a liberdade em Cristo; devem-se manter algumas proibições para as pessoas não partirem para o extremo da carnalidade. A vulnerabilidade e falência desse raciocínio vem da baixa estima que se dá ao poder do evangelho. Para essas pessoas, a mensagem da graça precisa do reforço da lei. Será? Paulo afirma, repetidas vezes, que a mensagem da cruz não necessita do auxílio da lei para alcançar seus extraordinários feitos:

Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão. Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. (Gl 5:1-2)

A lei não arbitra sobre a santidade. As proibições mostram-se inócuas na tarefa de santificar os crentes.

Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das cousas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo... Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? pois que todas estas cousas, com o uso, se destroem. Tais cousas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e falsa humildade, e rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. (Cl 2:16-17,20-23)

Paulo insistiu com os crentes da Galácia para que aquelas normas e exigências do Antigo Testamento minguassem diante da excelência da fé:

Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que provém da fé. Porque em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão, tem valor algum, mas a fé que atua pelo amor. (Gl 5:5-6)

3. A salvação vem pela graça, porém a santificação depende de nós.

Segundo essa inferência, Deus fez sua parte na cruz e agora exige que seus filhos se aperfeiçoem em santidade. Mais uma vez nos defrontamos com uma argumentação falida e sem sustentação teológica. Seria uma irresponsabilidade divina se Deus providenciasse, através dos méritos exclusivos de Cristo, a nossa salvação e depois exigisse que, por meio de nossos esforços, desenvolvêssemos o que ele começou. Tanto a salvação como a santificação acontecem na vida do cristão pela fé, não advêm dele mesmo, são dons gratuitos de Deus:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros, que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para salvação preparada para revelar-se nesse último tempo. (1 Pe 1:3-5)

Infelizmente temos de admitir que alguns líderes, caudilhescamente, firmam-se em seus cargos incutindo medo nas pessoas. Primeiro, diminuem a obra vicaria de Cristo pelas exigências pesadíssimas que impõem sobre as pessoas. Depois, mantêm-nas presas pelo medo inerente à quebra de algum dos inúmeros mandamentos apregoados a cada sermão. Como legisladores de pesadas exigências religiosas, tais líderes se estabelecem como autênticos messias. Essa situação é duradoura porque, ao elaborarem um sistema tão implacável, ninguém nunca se sente isento de culpa para poder questioná-los.

Já me perguntaram se considero autenticamente cristã uma pessoa presa pelo legalismo religioso. Há duas dimensões nessa pergunta que necessitam ser pensadas. Uma negativa e outra positiva.

Primeiro, analisemos, do ponto de vista negativo, o caso dos líderes.

Jesus condenou severamente os líderes religiosos que atam fardos pesados de normas, exigências e condenações nos ombros das pessoas. A linguagem grave e reprovadora em Mateus 23 evidencia a intolerância de Cristo em relação ao legalismo:

Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens, entretanto eles mesmos nem com o dedo querem movê-los... Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando... Guias cegos! que coais o mosquito e engolis o camelo. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. (Mt 23:4,13,24-27)

Nenhum líder religioso pode alegar que não compreendeu bem os desígnios de Deus. Se uma corte humana condena um médico por imperícia, imagine quando Deus trouxer seus ministros diante do tribunal de Cristo para prestarem contas de como manusearam sua Palavra. Paulo admoestou Timóteo - e por inferência, todos os obreiros - sobre a responsabilidade de manejarem bem a Palavra da verdade:

Procura apresentar-te diante de Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. (2 Tm 2:15)

Nesse texto, manejar vem da palavra grega orthotomeo e transmite o conceito de "cortar certo", como um soldado deveria fazer com sua espada. Requer-se, portanto, que um líder saiba "cortar" corretamente o texto sagrado, diferenciando o certo do errado e ensinando que a letra da lei mata, enquanto o seu espírito (sentido, significação) vivifica. O legalismo é in-justificável diante de Deus.

Segundo, positivamente e com misericórdia, nós precisamos lembrar que o povo de Deus está preso a um sistema religioso tiranizador. Essas doutrinas algemam as pessoas a um evangelho que promete libertação mas que, ao contrário, condena:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do Inferno duas vezes mais do que vós. (Mt 23:15)

Jesus irou-se com os fariseus porque eles esmagavam seus prosélitos com uma religiosidade perversa, condenando-os duas vezes mais. Por que esse duplo inferno? O legalismo, além de não garantir salvação, oprime lastimosamente devido à pressão de leis arbitrárias. O inferno é dobrado também, porque a própria instituição que promete libertação e vida abundante responsabiliza-se em criar métodos para impedir que suas promessas se concretizem.

Vale lembrar a admoestação de 1 Pedro 5:1-3:

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelos do rebanho.

Os valores estéticos da Bíblia não estão ligados sempre à moralidade. Uma mulher bem vestida e adornada nos tempos bíblicos não representava vulgaridade ou falta de temor a DeuS. Tenho como certeza que se algumas delas comparecessem aos nossos cultos chamariam a atenção pelo número de anéis em seus dedos, pelas tinturas do cabelo ou pela forma de se trajar. Surpreendi-me, por exemplo, quando visitei a índia.

As mulheres cristãs vestem-se como todas as demais mulheres indianas, com o tradicional sari. Eu não saberia descrevê-lo com todos os detalhes. O pano se enrola no corpo da mulher por tantas voltas que somente as indianas ou alguém que more lá por muito tempo sabe explicar. Aqui, basta dizer que o sari descobre a barriga e o umbigo. Com toda a minha experiência internacional, confesso que me senti um pouco constrangido com algumas senhoras de idade com a barriga de fora em pleno culto a Deus. "Algumas mais gordas não deveriam se vestir assim", pensei. Mas quando vi que as mulheres crentes usam brincos no nariz, anel nos dedos dos pés, caí em mim. Eu estava tentando entender o costume dos indianos com a minha mentalidade brasileira.

Com certeza muitas das proibições de nossas igrejas foram importações culturais que uma mentalidade missionária forçou sobre nós e que aceitamos sem questionar.



Capítulo 4

O que é e o que não é vaidade

As igrejas evangélicas brasileiras têm grande dificuldade de compreender o termo "vaidade" que, no jargão próprio do mundo dos crentes, carrega toda uma conotação pejorativa. Gostar de vestir-se com esmero, adornar-se com qualquer jóia ou cuidar do cabelo, tingindo-o ou penteando-o de alguma forma estética, é considerado pecado na maioria das nossas igrejas. O texto apresentado como base bíblica para tal conclusão é o Salmo 24:3-4:

Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. (Bíblia Almeida, edição corrigida e revisada)

Precisamos estudar a palavra "vaidade" no original hebraico e grego, compararmos as várias vezes em que ela é usada na Escritura e qual o verdadeiro sentido que esse vocábulo possuía nos tempos antigos.

Vaidade no hebraico advém de duas palavras. Primeiro, de habel, que significa vazio, oco. Seu uso no Antigo Testamento estava muito relacionado ao abandono do único Deus verdadeiro e à busca de ídolos que não podiam satisfazer às necessidades de Israel pelo simples fato de não existirem. A adoração a ídolos, então, tornouse sinônimo de vaidade, pois era como se o povo israelita estivesse buscando ajuda no vazio:

Rejeitaram os estatutos e a aliança que fizera com seus pais, como também as suas advertências com que protestara contra eles; seguiram os ídolos e se tornaram vãos, e seguiram as nações que estavam em derredor deles, das quais o Senhor lhes havia ordenado que não as imitassem. (2 Rs 17:15)

A segunda palavra hebraica era shav, que assumia uma conotação também de vazio, mas com uma compreensão mais ligada à desolação, abandono. Jó usa essa expressão quando se sente vazio, pois se vê abandonado e percebe sua vida esvairse em nada. A palavra sopro, no texto abaixo, é a mesma palavra hebraica traduzida por vaidade:

Estou farto da minha vida; não quero viver para sempre. Deixa-me, pois, porque os meus dias são um sopro. (Jó 7:16)

No grego, vaidade é representada pelo substantivo mataiotes e também significa vazio. Não há qualquer relação entre vaidade e o uso de jóias, roupas ou ornamentos. Seu significado, em primeiro lugar, refere-se ao mundo criado que, no pecado e sem preencher o propósito inicial para o qual foi criado, tornou-se vazio:

Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou. (Rm 8:20, Bíblia Almeida, edição corrigida e revisada)

Vaidade - mataiotes - é também usada por Paulo para expor a forma de pensar e o estilo de vida dos gentios, que não conhecem a Deus:

Isto, portanto, digo e no Senhor testifico, que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos. (Ef 4:17)

Vaidade- mataiotes- também podia denotar as palavras impressionantes, mas vazias, de falsos mestres que muito falam, mas não possuem conteúdo nenhum:

Porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro. (2 Pe 2:18)

Portanto, há muita firmeza em afirmar que, quando a Bíblia fala de vaidade, seu significado é sempre sopro, efemeridade, algo vazio. Daí o Salmo 39:5 declarar:

Deste aos meus dias o comprimento de alguns palmos; à tua presença o prazo da minha vida é nada. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade.

Salomão também usa a palavra vaidade nesse sentido de algo vazio, oco. Quando escreveu o livro de Eclesiastes, cansado e profundamente amargo com a vida, ele concluiu, de um modo sarcástico, em diversos pontos do texto que:

Vaidade de vaidades! diz o Pregador; vaidade de vaidades! Tudo é vaidade. (Ec 1:2)

Observe que, na lógica do apóstolo Paulo, vaidade é colocar esperança naquilo que é vão, passageiro, perecível. Ele, então, fala em viver sua vida à luz da eternidade:

Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Fp 3:14)

Paulo vivia sob o postulado de que as coisas importantes são aquelas que não se vêem, pois tudo o que os nossos olhos contemplam um dia passará. Sendo assim, para o apóstolo o que é finito deveria ser considerado vaidade:

Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem, porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas. (2 Co 4:18)

A vaidade exterior e interior

As normas de conduta do cristianismo neotestamentário parecem mais interessadas no interior do que no exterior dos homens. A palavra "vaidade" não é um termo que descreve uma pessoa cuidadosa de vestimenta ou de adornos do corpo; pelo contrário, esse vocábulo refere-se ao modo de viver de uma pessoa que busca valorizar-se através de meios terrenos e passageiros. As palavras de Paulo deveriam ser sublinhadas em todas as Bíblias, para que não haja uma má compreensão do que significa vaidade:

Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças; não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? pois que todas estas cousas, com o uso, se destroem. Tais cousas, com efeito, têm

1. Faz-nos juizes da lei

Muitas vezes, quando estamos julgando nosso irmão por causa da sua postura exterior, podemos estar julgando mal. Isto porque não temos condições de conhecer o coração das pessoas. Uma pessoa pode aparentar muita piedade por causa de sua indumentária, mas o seu coração pode estar completamente contrário a Deus.

Há diversos casos na Bíblia em que a postura exterior das pessoas contradizia o seu estado interior. Saul, que era tão belo (1 Sm 9:2), "que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima", mostrou que interiormente seu coração era feio. Ao profetizar com os outros profetas (1 Sm 10:10), mostrou claramente aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e falsa humildade, e rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. (Cl 2:20-23)

Essa busca de estipular a vaidade de um coração, julgando o valor que uma determinada pessoa empresta aos ornamentos, pode tornar-se uma obsessão doentia. Além do mais, há vários inconvenientes nessa postura: que o uso dos dons e talentos religiosos nada tem a ver com verdadeira


espiritualidade. Quando se escondeu na bagagem (1 Sm 10:22), mostrou uma
aparência de humildade, mas se sabe que, na verdade, Saul era uma pessoa muito
insegura.

Há outros casos em que as pessoas aparentemente desqualificadas pelo seu porte e aparência exterior são plenamente aceitas por Deus. Quando Jesus entrou na casa de Simão, o fariseu (Lc 7:36-38), uma mulher aproximou-se por detrás do Senhor, chorando, regando-lhe os pés com suas lágrimas, enxugando-os cornos próprios cabelos e ungindo-os com ungüento.

Ao ver isso, o fariseu logo julgou a pobre mulher pela sua aparência exterior e pela sua reputação (que também é um juízo meramente exterior); como se não bastasse, disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. Jesus então confrontou Simão, afirmando que este, mesmo tendo toda a aparência e forma religiosa, estava seco por dentro. Aquela mulher, todavia, ainda que possuidora de uma baixa reputação, era rica interiormente. A aplicação prática daquele evento é avassaladora: "Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama(v.47)".

Esforçar-se para julgar uma pessoa pela sua maneira de vestir é um exercício inútil, porquanto o profeta Jeremias (17:9) nos afirma que "enganoso é o coração, mais do que todas as cousas, e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?". O cuidado com as vestimentas e adornos pode não revelar um coração tendente a valores mundanos, visto que pode ser apenas um traço cultural ou próprio de um tipo de personalidade. Portanto, devemos ter o máximo cuidado para não incorrer na tentação de Tiago 4:11-12:

Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do seu irmão, ou julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz. Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas ao próximo?

2. Legislar sobre quais vestimentas são ou não "vaidosas" leva-nos a um nível de legalismo sufocante.

Há igrejas com normas comportamentais sobremodo asfixiantes. O manual de "Regulamento Interno" para membros de uma dessas denominações contém tantas proibições, e procura legislar sobre tantos aspectos da vida cristã, que até os fariseus estranhariam. Uma das páginas que iniciam o referido opúsculo apresenta determinações que causam perplexidade:

É permitido o uso de ombreira para irmãos e irmãs, porque a ombreira é parte complementar do vestuário. Também é permitido o uso de meia-calça, meias de lã, desde que não sejam de cores berrantes ou que chame (sic) a atenção, 1 Ts 5:23. A saia jeans só c permitido (sic) no lugar de trabalho, desde que não seja escandalosa, 1 Ts 5:23. Sobre usar roupas vermelhas e pretas, é permitido para mulher. Ao homem, entretanto, ficam proibidas roupas vermelhas, Tg 4:4.

É permitido a (sic) mulher usar presilhas no cabelo, desde que não haja exagero; também é permitido usar correntes para segurar os óculos, desde que haja necessidade. O uso de perfumes para o homem e a (sic) mulher é permitido, pois o Nosso Jesus também foi perfumado, Mc 14:3, Mt 26:7.O uso de lenço na cabeça pelas irmãs é permitido (sic). Os irmãos usarem gravatas vermelhas ou cores berrantes não é permitido. O uso de perneira (sic) para as irmãs é permitido. Fica proibido o uso de camisetas com estampas mundanas e dizeres em português ou qualquer outra língua, a não ser dizeres bíblicos ou da IPDA, 1 Co 14:40. As saias e os vestidos das irmãs (sic) deverão cobrir os joelhos mesmo sentadas. Não é permitido o uso de roupa longa, tipo roupa de gala, pois isso já é exagero, e o uso de tênis para o (sic) homem e mulher só é permitido para o trabalho ou em casa.

Quanto ao assobiar é permitido, se for para louvar a Deus, Zc 10:8 e Sl 150:6.

Sobre amigo secreto, brincadeira que se faz normalmente no Natal ou final do (sic) ano ou em época de festa, não é permitido, pois se trata de algo mundano, 1 Jo 2:15-17.

Estipular que um tipo de ornamento no corpo é vaidade, mas um quadro que coloco na parede de minha casa para ornamentá-la não, pode indicar, no mínimo, uma postura incoerente. Os lustres que usamos para decorar as luzes que iluminam nossas casas não seriam também uma espécie de vaidade?

Uma miríade de perguntas surgem imediatamente quando se pensa na questão da vaidade. Por exemplo: Não seria o uso da gravata uma vaidade? A gravata surgiu em culturas de clima frio como uma espécie de cachecol que esquentava o pescoço. Entretanto, devido a ter sido estilizada e aperfeiçoada a ponto de perder sua função inicial, tornou-se mero adorno no pescoço dos homens. Em um país de clima tropical como o Brasil, a gravata não possui utilidade nenhuma senão adornar.

Há ainda aqueles quatro botões que enfeitam as mangas dos paletós dos homens; qual a utilidade deles, já que não servem para abotoar nada? São meros adornos. Aliás, qualquer botão, desde que esteja exposto, serve para adornar. Quem quiser legislar sobre a vaidade sucumbirá por gerar uma paranóia, visto que, ao ter de lidar com inúmeras questões, acabará sendo incoerente. Dizer que uma mulher que usa jóias é vaidosa, mas comprar um carro cheio de frisos niquelados e de cores berrantes não é farisaísmo? Teríamos de arbitrar sobre os enfeites que deveriam fazer parte dos nossos óculos, quais cores seriam permitidas nas nossas roupas, ou seja, estaríamos presos a um exasperante sistema de fiscalização de nossa conduta. Seríamos, em última análise, roubados da liberdade em Cristo.

3. Buscar em roupas e adornos uma forma de agradar a Deus é inútil e pode levar a um conceito de salvação pelas obras.

Podemos sofrer o que sofreram os gálatas. A igreja da Galácia estava sendo impregnada de fariseus convertidos. A heresia deles era tão sutil, que Paulo precisou escrever uma das suas mais duras cartas. Eles não chegavam a afirmar que a cruz não possuía poder para salvar, diziam apenas que além da cruz era necessário a circuncisão. Paulo, veementemente, contradiz essa heresia asseverando que, se alguma coisa for acrescentada à cruz, será anulado todo o poder que dela procede.

...mas agora que conheceis a Deus, ou antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando outra vez aos rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. (Gl 4:9-10)

4. Gerar confusão sobre o que é na verdade mundanismo.

Levantar a questão da vaidade para provar que as pessoas que usam adornos e roupas da moda amam o mundo, significa confundir a real acepção que a Bíblia atribui ao vocábulo "mundo".

Há uma necessidade clara de entendermos o imperativo bíblico "não ameis o mundo", pois há uma punição muito séria para aqueles que desobedecem a esse mandamento; seria importante lermos a exortação em seu contexto:

Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente. (1 Jo 2:15-17)

Logicamente esse mundo a que João se refere não se trata do mundo natural (físico), pois o mundo criado por Deus é muito bom. Embora caído e sofrendo os efeitos da queda, o mundo natural aguarda o dia da redenção e geme na expectativa de ser restabelecido das conseqüências do pecado humano:

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias até agora. (Rm 8:20-22)

O mundo que devemos odiar também não é o mundo humano, pois a este o próprio Deus declara o seu amor. O texto de João 3:16, o mais conhecido do mundo evangélico, declara peremptoriamente que Deus ama o mundo com um amor infinito.

Então, qual mundo devemos odiar? A resposta a essa pergunta trará nova luz sobre toda a subcultura de proibições no meio evangélico (desde os tipos de diversão, até às vestimentas que são ou não permitidas ao crente).

O mundo é descrito na Bíblia como um sistema (cosmos) que se opõe ao reino de Deus. Paulo chega a dizer que esse mundo manifesta-se através dos sistemas de pensamento que rejeitam a verdade:

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e, sim, poderosas em Deus,
para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o
conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. (2 Co
10:4-5)

O mundo é todo o sistema que se desenvolve na cultura e que leva, legitimado pelo egocentrismo do homem, ao exagerado e desmedido desejo da carne e dos olhos. É o adoecimento de toda produção humana e a manifestação do desejo doentio de poder. Está em relevo na ânsia obcecada por prosperidade. É também a necessidade de seduzir o próximo através do sexo ou do dinheiro. Não somente isso, pois pode ser também a busca de poder eclesiástico de algumas elites evangélicas, ou até mesmo a gula.

Todos temos um amor próprio. Uma dignidade intrínseca. Esse sentido de valorização nos foi dado por Deus. É por causa dele que sentimos necessidade de nos vestir e cheirar bem. Quando nos vestimos desejamos agradar os olhos de quem nos admira; todos nos sentimos bem quando somos valorizados e admirados. Sabemos que ninguém gosta de estar perto de uma pessoa com roupas sujas, que não escovou os dentes pela manhã ou que não cuida bem da higiene de seus pés.

Lavamo-nos por um sentido de autovalorização, nos trajamos por que entendemos que em nossa cultura aquela indumentária será mais bem aceita. Quando vamos a uma festa de casamento nos enfeitamos porque consideramos que aquela data requer que estejamos o mais bonito possível. Se isso é vaidade, ela é aceita e estimulada por Deus. Não há qualquer relação desta busca com aquele sentimento pernicioso de querer apoiar nossa existência no que é vazio.

Limitar o conceito de mundo ao desejo de vestir-se bem é adotar uma visão muito reduzida daquilo que o vocábulo representa em toda a Escritura.

Para Jesus vaidade também é sinônimo do que é vão. Ele associa o que é vão à prece dos gentios que pensam que serão ouvidos pelo muito falar (Mt 6:7). Ele considera vaidade a piedade dos fariseus:

E em vão (com vaidade) me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. E, tendo convocado a multidão, lhes disse: Ouvi e entendei: não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim contamina o homem. (Mt 15:9-11)

O conceito popular de vaidade é declarado na Bíblia pela expressão composta de vangloria:

Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. (Fp 2:3)

Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros. (Gl 5:26)

Assim aprendemos que vaidade é objetivamente descrita com o sentido de vazio, inutilidade e falta de consistência. Todas as vezes que buscarmos nossa identidade no que for irreal estamos sendo vaidosos. Não há necessidade de se estabelecer uma relação direta com adornos, roupas ou bens materiais. O exercício do ministério, oração, e até boas obras podem, em alguns casos, também ser vaidade e um correr inútil em direção ao vento.

Capítulo 5

Casos aparentemente difíceis

O ensaio do coral naquela noite não transcorreu num ambiente ameno. Pelo contrário, respirava-se um ar pesado; pressentiam-se problemas. Há nessas inquietações um desconforto imobilizador que ninguém se atreve a enfrentar. Todavia, a agitação daquele ensaio não permitia ser varrida para baixo de um tapete religioso. Não havia como espiritualizar tão grande mal-estar, rotulando-o de mero estorvo satânico.

Identificou-se em Ezequiel a causa de tudo isso. Ele era rapaz de cabelos contornados acima da orelha, olhos arregalados, testa sempre franzida como se estivesse em estado de constante sobressalto. Consternou e surpreendeu naquele dia por ostentar uma barba meio crescida. O clima tenso, sem dúvida, advinha desse seu "descaso" para com os mandamentos da igreja. Cansado de escanhoar os pêlos cerrados que lhe cresciam teimosamente a cada noite bem dormida, resolveu dar repouso à pele de seu rosto. Como o coral só se reunia aos finais de semana, vê-lo assim com pelos germinando por toda a face causou uma insólita perplexidade .

O comportamento de Ezequiel parecia extravagante; primeiro, por sua coragem de desafiar uma tradição remotíssima de que gente barbada tinha alguma ligação com o diabo. Depois, porque as pessoas se questionavam: "Ele permite que os cabelos de seu rosto cresçam por comodismo, vaidade ou rebelião?". Aí, nessa cruel dúvida, residia toda a excitação daquele sábado de treino musical.

O pastor, notificado da ousadia incomum de Ezequiel, pediu uma conversa com os coristas para o sábado seguinte. Depois de discorrer contra a barba, advertiu que não permitiria a quebra das tradições dos antigos fundadores daquela denominação. O ambiente fechou-se como se uma carregada tempestade estivesse pronta para abalar toda a igreja; Ezequiel, mais barbado ainda, levantou uma de suas mãos, pedindo a palavra. O pastor acenou que permitiria a pergunta logo que terminasse de dizer o seu recado repreensivo.

Ezequiel, ao contrário do que se esperava, indagou com doçura; queria saber, não contestar: — Pastor, há bases bíblicas para se proibir o uso de barba? Como podemos biblicamente condenar um jovem que deixe a barba crescer? — indagou sem acrescentar uma nova ruga à sua testa sempre contrita. Com essas duas perguntas baixou a mão e aguardou a réplica.

O pastor solenemente abriu sua Bíblia e com ares de vitorioso pediu ao coral que o acompanhasse na leitura de Gênesis 41:14:

Então mandou Faraó chamar a José, e o fizeram sair apressadamente da masmorra; ele se barbeou, mudou de traje e apresentou-se a Faraó.

O pastor explicou que José, preso em um calabouço no Egito, não pôde barbear-se por um longo período; no entanto, por ser homem de Deus, não quis dar um mau testemunho a Faraó. O que pensaria o rei ao ver um homem de Deus barbado? Assim, para comparecer à presença do rei, José barbeou-se como todo autêntico servo de Deus deve fazer. A mania como desenvolveu seu raciocínio não apenas silenciou todo o auditório, como constrangeu Ezequiel. Sem ter como contestá-lo, todos aceitaram a argumentação; por outro lado, todos saíram amargurados. Aceitar não significa, necessariamente, convencer-se. O pastor usou um recurso de argumentação no mínimo desonesto. Retirou a passagem do contexto. Desprezou centenas de outros textos nos quais homens de Deus aparecem usando barba. Além disso, exigindo uma adesão irrestrita aos seus argumentos, subestimou o bom senso de seus ouvintes.

Sempre que se faz uma abordagem casuística da Bíblia gera-se erro doutrinário. Uma falha desse tipo, apesar de não possuir a mesma gravidade de uma heresia, deve ser combatida. É verdade que errar na compreensão dos textos bíblicos é uma possibilidade a que todos nos sujeitamos; porém, quem tem compromisso com a verdade não pode tolerar inexatidão. Todo cristão deve humildemente aceitar sua falibilidade, porquanto ninguém é onisciente. Sabemos em parte, não possuímos esse atributo divino que reúne todo o conhecimento. Ademais, somos pecadores. Nossos processos de aprendizagem e compreensão da verdade têm sido maculados pela queda original. Todas as vezes que abrimos a Bíblia, devemos admitir que nossa compreensão do que está escrito é parcial, falha e passível de incorreções.

Ninguém deve espantar-se porque há diversas interpretações sobre os ensinos da Bíblia. Cada pessoa filtra o que lê através de sua cultura, preconceitos e ensinos que lhe foram passados por outras pessoas. Não sendo Deus autor de confusão (1 Co 14:33), sabemos que a falha em não compreender corretamente o texto não é dele ou da Bíblia. A falha é nossa; simplesmente usamos nossas lentes da tradição e de nosso preconceito. Lemos a Bíblia como queremos, mas não como o autor sagrado e o próprio Espírito Santo gostariam que lêssemos.

Uma das máximas da Reforma Protestante do século XVI consistiu no princípio de que todo cristão tem o direito de interpretar as Escrituras sem o cabresto de uma elite religiosa. Esse direito, certamente influenciado pelo ambiente da Renascença, dá a todos os indivíduos liberdade de lerem e entender o texto segundo sua própria determinação. Essa faculdade, entretanto, pode gerar compreensões díspares, radicalmente contrárias entre si.

Os reformadores, ao proporem o direito individual de interpretar a Bíblia, não pretendiam gerar uma barafunda doutrinária. Eles também apresentaram outro princípio quando colocaram as Sagradas Escrituras nas mãos do povo. Os reformadores ensinavam que há uma verdade objetiva nos livros sagrados. Isso significa que, quando lemos um referido texto, podemos entendê-lo à nossa maneira, mas a verdade nele contida não depende de nossa interpretação. Em outras palavras, um texto não deixa de transmitir a mensagem que seu autor pretendeu só porque gostaríamos que ele significasse outra coisa.

Quem lê a Bíblia pode encontrar milhares de aplicações para um determinado texto, mas deve achar apenas uma interpretação. Deus não concede a ninguém o direito de distorcer o significado da Escritura. Essa ciência de compreender e interpretar corretamente o texto chama-se Hermenêutica. Quando se violam as regras de hermenêutica, dependendo da gravidade da infração, geram-se erros ou heresias.

Pela falta de fidelidade à Hermenêutica, muitos textos da Bíblia são lidos e comumente distorcidos para se moldarem à doutrina de uma denominação. Às vezes, violam-se regras básicas e, quando fica óbvio demais a ponto de não ser possível o uso da Bíblia para autenticar doutrinas humanas, advoga-se que estas advêm da tradição da igreja. Tais doutrinas, por assim desejarem seus sectários, devem ser obedecidas por seus membros sem quaisquer indagações. No Brasil, repete-se muito esse recurso autoritário, muitas vezes irracional. Há lideres, apoiando-se na autoridade de seus cargos e títulos, exigindo que seus pontos de vista sejam admitidos sem qualquer argumentação. Ordenam que os crentes cometam uma espécie de suicídio intelectual em nome da tão aclamada "submissão". Veremos abaixo alguns textos que servem de apoio às doutrinas anacrônicas sobre usos e costumes nas igrejas.

O bezerro de ouro nasceu da vaidade?

Algumas igrejas evangélicas usam o texto de Êxodo 32:2 com a argumentação de que as jóias das mulheres judias foram pedra de tropeço para o povo hebreu.

Disse-lhes Arão: Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas, e trazei-mas.

Nessa linha de raciocínio, afirma-se que o ouro que os judeus saquearam do Egito só era útil para fazer ídolos. Sustenta-se que as mulheres que servem a Deus hoje, ao usarem ouro, serão igualmente tentadas à semelhança do relato bíblico e terminarão edificando ídolos. Esse texto pode, de fato, ser alegoricamente usado para dizer que o uso de jóias e adornos leva uma pessoa a rejeitar o Deus verdadeiro e a reverenciar um falso deus. Senão, leiamos o restante do relato:

Então todo o povo tirou das orelhas as argolas e as trouxeram a Arão. Este, recebendo-as das suas mãos, trabalhou o ouro com buril, e fez dele um bezerro fundido. Então disseram: são estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito. (Êx 32:3-4)

Entretanto, entender o texto acima como sendo uma boa argumentação para considerar vaidade o uso de jóias e adornos, significa descartar vários outros textos em que o mesmo ouro também foi usado para a construção do tabernáculo (Êx 36:3438), dos utensílios de culto e da própria arca do concerto (Êx 25:11-13).

O que se pode compreender dessa passagem é que o povo estava peregrinando no deserto sem a possibilidade de garimpar uma pepita de ouro sequer; sendo assim, qualquer objeto de ouro que se quisesse compor deveria ser doado pelas pessoas. Quer dizer, o mesmo ouro que servia para fabricar um ídolo também era útil para confeccionar os querubins da arca do concerto.

Pelo que trouxemos uma oferta ao Senhor, cada um o que achou, objetos de ouro, ornamentos para o braço, pulseiras, sinetes, arrecadas e colares, para fazer expiação por nós mesmos perante o Senhor. (Nm 31:50)

O que deduzimos a partir desse texto é que o uso de jóias em si mesmo não está errado. Nossas posses é que podem ter destinação correta ou maligna, dependendo de onde e para onde está inclinado o nosso coração.

A condenação das mulheres altivas de Sião prova o que?

O texto de Isaías 3:16-26 pode, numa leitura muito superficial, também aparentar que Deus está condenando o uso de adornos e enfeites nas mulheres de Sião.

Diz ainda mais o Senhor: visto que são altivas as filhas de Sião, e andam de pescoço emproado, de olhares impudentes, andam a passos curtos, fazendo tinir os ornamentos de seus pés, o Senhor fará tinhosa a cabeça das filhas de Sião, o Senhor porá a descoberto as suas vergonhas. Naquele dia tirará o Senhor o enfeite dos anéis dos artelhos, e as toucas e os ornamentos em forma de meia lua; os pendentes, e os braceletes, e os véus esvoaçantes; os turbantes, as cadeiazinhas para os passos, as cintas, as caixinhas de perfumes e os amuletos; os sinetes, e as jóias pendentes do nariz; os vestidos de festa, os mantos, os xales e as bolsas; os espelhos, as camisas finíssimas, os atavios de cabeça e os véus grandes. Será que em lugar de perfume haverá podridão, e por cinta, corda, em lugar de encrespadura de cabelos, calvície, e em lugar de veste suntuosa, cilício, e marca de fogo em lugar de formosura. Os teus homens cairão à espada e os teus valentes na guerra. As suas portas chorarão e estarão de luto, Sião, desolada, se assentará em terra.

Ao leitor desarmado de preconceitos, entretanto, fica claro que a retirada desses enfeites veio como castigo de Deus por um outro pecado: andar de pescoço emproado, com altivez de coração. O pecado aqui não é o ornamento, e sim a prepotência.

Contudo, pode-se ainda argumentar que foi o uso de jóias e de adornos que tornou essas mulheres arrogantes e altivas. Sim, é verdade que uma pessoa altamente preocupada com jóias, moda e adornos, pode tornar-se ainda mais arrogante. Mas a preocupação obsessiva com outros valores também pode gerar soberba. Paulo advertiu a Timóteo que o amor ao dinheiro pode levar a um fracasso espiritual (1 Tm 6:6-10). Provérbios ensina-nos que a comida, o sono (20:13) e o sexo (5:18-20), desde que mal usados por nós, também podem ser danosos. Jesus, de igual maneira, mostra-nos que ofertar na igreja (Mt 6:1-4), orar a Deus (Mt 6:6-8), ou até mesmo praticar jejum (Mt 6:16-18), podem tornar-se grandes perigos espirituais.

Deve-se entender que, assim como ninguém de bom siso acha que o problema está no dinheiro, na comida ou no jejum, o problema não estava nas jóias e enfeites, mas sim na atitude do coração daquelas mulheres.

Muitas vezes as pessoas cuidam de corrigir hábitos e tentam desesperadamente formular uma doutrina que conserte a tradição das pessoas. O problema, porém, nem está naquele hábito ou tradição. Uma jovem rica pode não ter o seu coração voltado para jóias; para ela o uso ou não de brincos pode não trazer consigo qualquer valor moral. Por outro lado, uma mocinha pouco abastada pode fazer do uso de um cordão de ouro uma busca doentia. O uso de jóias, contudo, pode não ser importante para nenhuma delas, apesar de uma ser abastada e a outra não. Ambas, no entanto, correm o risco de supervalorizar esse uso. O pastor, então, deve preocupar-se em admoestá-las a não depositar sua confiança em coisas vãs, que nada aproveitam e tampouco podem acrescentar dignidade a ninguém. (1 Sm 12:21)

A exortação de Paulo em 1 Timóteo 2:9

Há duas posturas que podemos adotar ao ler esse texto. Podemos considerar que Paulo está, por assim dizer, doutrinando as mulheres para que absolutamente não usem qualquer tipo de jóia, não frisem os seus cabelos e não comprem vestidos dispendiosos; ou podemos entender que Paulo foi o grande oráculo de um cristianismo livre de qualquer tipo de lei e que ele, veementemente, protestava que se tentasse regular o comportamento cristão. Para aqueles que adotam a primeira leitura, não há o que discutir; Paulo proíbe e está fechada a questão. No entanto, devemos ser justos com os relatos em que o apóstolo dos gentios: 1o) anuncia que os verdadeiros salvos não são os guardadores da lei "pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa" (Rm 4:14); 2") protesta contra os falsos irmãos "que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, e reduzir-nos à escravidão" (Gl 2:4); 3o) não aceita que a vida cristã seja reduzida a um sistema de "não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens". (Cl 2:21, 22)

Leiamos o texto com essa mentalidade:

Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas). (1 Tm 2:9-10)

Vejamos que Paulo não intenta proibir certos tipos de trajes. O apóstolo busca, tão-somente, mostrar às mulheres que a verdadeira beleza não pode ficar resumida ao exterior, devendo sempre estar em companhia do crescimento espiritual. Sua condenação ali não está nos objetos de adorno, mas na extravagância, na falta de bom senso, na ausência de pudor.

Há unanimidade entre os estudiosos da Bíblia a esse respeito.

Para Russel Shedd, comentarista da Bíblia Vida Nova, "Mulheres em traje decente - traje (grego kastolé) - refere-se ao comportamento em geral, e não somente às vestes. Decente (grego kosmios) tem o efeito de 'em ordem'. A idéia dominante da frase inteira é de bom gosto, sensibilidade, em contraste com os excessos e a falsidade".

Um dos expositores e comentaristas bíblicos de tradição mais fundamentalista, Finis Jenning Dake, analisando esse versículo afirma:

Paulo condena a extravagância dos ornamentos. De fato, a passagem não se refere a um estilo específico, ornamento ou vestimenta. Ele demanda moderação nas roupas e no proceder de uma maneira geral, com 'boas obras' (v.10). Quando o homem ou mulher vivem primordialmente para mostrarem roupas, alguma coisa está errada.

É necessário ler as ordens específicas de Paulo tendo em mente sua situação cultural. Ademais, deve-se saber distinguir entre aquilo que é mandamento específico e aquela situação da sociedade dos princípios universais de Deus.

Quando lemos 1 Tessalonicenses 5:26: "Saudai a todos os irmãos com ósculo santo", não devemos entender que essa ordem deve ser obedecida ao pé da letra, pois em algumas culturas homem beijar homem é indecoroso, enquanto em outras, como na Rússia, o ósculo entre pessoas do mesmo sexo é perfeitamente aceitável. Quando Paulo manda beijar todos os irmãos, é preciso que se entenda o contexto histórico sem deixar de lado o princípio universal que o apóstolo quis ensinar: devemos tratar-nos afetuosamente (acima, portanto, de qualquer compreensão cultural do que significa afeto).

Igualmente, seria absurdo ser forçado a admitir que o texto de 1 Timóteo 4:8 é também uma proibição: "Pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser". Obviamente, há nesse texto não uma proibição, mas uma chamada a que se reflita sobre valores e prioridades. Em uma sociedade obcecada pelo culto ao corpo, deve-se chamar a atenção para o fato de que a modelação física, através de extenuantes exercícios, não traz em si o valor sublime do crescimento espiritual.

Expor um texto como esse para proibir e determinar quais os tipos de roupas e adornos que devem ser usados é tão errado quanto achar que Paulo está combatendo o casamento quando pergunta: "Estás casado? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures casamento" (1 Co 7:27). A resposta para essa frase deve ser compreendida no contexto ministerial daqueles dias em que as viagens demoravam meses inteiros; uma pessoa casada certamente teria dificuldade em administrar um casamento com tantas ausências. Sua sugestão era às pessoas que, sentindo-se chamadas para o ministério, não ficassem tão ansiosas para se casarem. O casamento, nesse contexto, limitaria o potencial de quem desejasse dar-se inteiramente ao ministério e, de igual modo, prejudicaria a vida conjugai de quem por ela optasse.

Para entendermos qual o pensamento de Paulo quando escreveu suas cartas, necessitamos lembrar que ele não desejava acrescer mais mandamentos ao já penoso sistema farisaico de "faze e não faças".

Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão. Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. De Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes. Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que provém da fé. Porque em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão, tem valor algum, mas a fé que atua pelo amor. Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chama. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Confio de vós, no Senhor, que não alimentareis nenhum outro sentimento; mas aquele que vos perturba, seja ele quem for, sofrerá condenação. (Gl 5:1-10) vida piedosa das mulheres, segundo Pedro

No contexto em que havia muitas mulheres cujos maridos não eram crentes, Pedro lembra que a melhor arma, por assim dizer, para convertê-los, não seriam atavios nem beleza exterior. O melhor trunfo seria, simplesmente, um procedimento digno que aquelas irmãs uma vez abraçaram. Novamente a ênfase não repousa sobre a indumentária, mas sobre o uso que se faz da mesma. Leiamos o texto:

Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vossos próprios maridos, para que, se alguns deles ainda não obedecem à Palavra, sejam ganhos, sem palavra alguma, por meio do procedimento de suas esposas, ao observarem o vosso honesto comportamento cheio de temor. Não seja o adorno das esposas o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível de um espírito manso e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus. (1 Pe 3:1-4)

Vejamos o comentário de alguns estudiosos da Bíblia sobre este texto:

Não há condenação total de adornos aqui; a ênfase é que a ornamentação externa não deve prevalecer à interna. Alguns vão a extremos como querer condenar anéis, pulseiras e ornamentos. Pedro, porém, não quis dizer aqui serem pecado, apenas não podem ser a maior razão de viver das mulheres. (Dake's Bible, Finnis Jennings Dake, 1961)

O adorno (...) (...) exterior - a ênfase não está tanto na condenação dos adornos exteriores, como frisado de cabelos, aparato do vestuário etc, mas na aparência exterior, apreciada pelos homens em contraste com a santidade apreciada por Deus. (1 Sm 16:7) (Russel Shedd, A Bíblia Vida Nova, Edições Vida Nova)

Os intérpretes salientam que as santas mulheres do Antigo Testamento usavam jóias (veja Gn 24:53), supondo que essa objeção é contra o excesso nessas coisas e não contra o uso completo de jóias. E é bem provável que essa posição seja correta. Cada crente deveria estar individualmente convencido, ele mesmo, acerca de onde traçar a linha entre modéstia e exagero, no que diz respeito ao que é abordado pelo presente versículo. Se uma mulher crente se mostra cuidadosa a respeito do decoro de sua alma, também terá bom senso de como ornamentar a sua tenda de carne. (Russel Norman Chaplin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Milenium Distribuidora Cultural)

Parece que chegamos ao consenso de que a verdadeira doutrina bíblica não consiste em tentar vestir-nos como os contemporâneos de Jesus (não conseguiríamos nunca) nem em estipularmos uma espécie de "moda evangélica". Devemos buscar, isto sim, um padrão evangélico de modéstia, bom senso e, acima de tudo, moderação. Paulo advertiu-nos para que tornássemos nossa moderação conhecida de todos os homens, pois a vinda do Senhor estaria (como acreditamos que está) próxima (Fp 4:5). Além do mais, afirmou que o mesmo Deus que nos concedeu espírito de poder e de amor, também nos concedeu espírito de moderação (2 Tm 1:7).

Calças compridas à luz de Deuteronômio 22:5

Há igrejas que proíbem, terminantemente, às mulheres o uso de calças compridas. Utilizam, como argumento para validarem essa proibição, o texto de Deuteronômio 22:5. Leiamo-lo:

A mulher não usará roupa de homem, nem homem veste peculiar à mulher; porque qualquer que faz tais cousas é abominável ao Senhor teu Deus.

É extremamente difícil estabelecer, primeiramente, quais eram as diferenças entre as vestes masculinas e femininas nos dias de Moisés. As palavras hebraicas originais usadas para denotar casaco, capa, cinto, são empregadas indistintamente tanto para designar vestes masculinas como femininas. Diferenciava-se o gênero de uma vestimenta com parâmetros diferentes dos nossos. Muitas vezes as roupas de um homem e de uma mulher eram exatamente iguais. Distinguia-se uma da outra, unicamente, pela finura do tecido usado para confeccionar as roupas das mulheres. 1

Daí partimos para o nosso primeiro argumento: O que uma sociedade estabelece como indumentária masculina e feminina não vale necessariamente para outra região geográfica. As roupas das mulheres da Palestina podem não transparecer feminilidade noutro país; em nossa cultura, por exemplo, iriam ser consideradas muito pouco femininas. Um homem que usasse, aqui no Brasil, aquilo que os beduínos consideram ser roupa masculina, certamente seria alvo de risos e provocações. Por outro lado, alguém vestido de bombachas gaúchas nas ruas de Nazaré, também seria o centro de todos os olhares da cidade.

Não compete ao Espírito Santo designar quais roupas são masculinas ou femininas; isso é convenção cultural, portanto humana. O índio do Amazonas ostenta sua masculinidade com um certo tipo de cor pintado nas maçãs do rosto. Na Escócia, saias de lã, traspassadas e seguras por um grande alfinete são traje de guerreiro.

Em segundo lugar, deve-se observar que as roupas e tradições também variam de geração para geração. Aquilo que se determinava como roupa masculina duzentos ou trezentos anos atrás, pode ser hoje um traje muito afeminado, como é o caso das calças justas usadas por navegadores, ou dos brincos que os piratas (os quais eram tudo, menos afeminados) ostentavam nas orelhas.

O que era considerado vestimenta masculina algum tempo atrás é permitido hodiernamente às mulheres, sem que com isso elas estejam masculinizando-se. O caso mais típico dessa argumentação vem das calças compridas.

É verdade que as calças compridas eram roupas de homem ainda no começo deste século. Como as mulheres passaram a trabalhar fora de casa e necessitavam de roupas fortes que protegessem suas pernas do frio e dos acidentes de trabalho, o uso acabou sendo inevitável. Inicialmente, causava inquietação e gerava muita tensão; porém, como o costume não ad-vinha de uma tentativa de masculinização, mas sim da carência de proteção, logo pôde contar com o consentimento da sociedade. Veja que uma necessidade social e não moral provocou essa mudança no comportamento das pessoas. Hoje as calças compridas já nem são mais roupas masculinas, e sim neutras em seu gênero ou epicenas, isto é, podem ser usadas tanto por homens como por mulheres.

Há outras vestimentas que também são neutras e não trazem qualquer inquietação, como por exemplo: as sandálias, dessas de borracha que usamos entre os dedos; as camisetas de malha, utilizadas tanto por homens quanto por mulheres cotidianamente; certos tipos de casaco, usados para nos proteger mos do frio; e até mesmo alguns modelos de armação para óculos de grau. Hoje, o que designa uma calça masculina ou feminina pode ser a cor (no Brasil uma calça de cor rosa é sempre para mulher) ou o zíper (convencionou-se que uma calça com fecho traseiro ou lateral é sempre para mulher).

Sendo assim, quando Deus ordena que a mulher não se vista com roupas de homem, ele não está escolhendo certo tipo de roupa, mas apenas rechaçando o travestismo. O ideal de Deus é que os homens queiram ser homens e as mulheres desejem ser mulheres. A mensagem de Deuteronômio 22:5 trata de princípios, e não de uma lei sobre moda.

Os cabelos compridos de acordo com 1 Coríntios 11

Os versículos escritos por Paulo à igreja de Corinto, tratando sobre os cabelos de homens e mulheres, são largamente citados por algumas igrejas para consubstanciar a doutrina que proíbe as mulheres de sequer aparar as pontas dos cabelos. A postura de Paulo é tão enfática, tão clara e tão universal, que ele invoca a natureza (v. 14) como testemunha de sua argumentação. O regulamento interno de certas igrejas traduz claramente o que pensam a maioria de seus membros sobre esse assunto:

É proibido as irmãs cortarem o cabelo, mesmo aparar as pontas, usarem perucas, bobes, pintarem o cabelo ou esticarem (sic), usarem penteados vaidosos que chamem a atenção.

Punição:

1a vez - Seis meses de suspensão.
2a vez - Um ano de suspensão
3a vez - Exclusão.

O ministério não concorda baseado na Bíblia em Sl 4:2, 1 Co 11:14-16; Ef 4:17; Tt 2:12; 1 Pe 3:3-5.

Em primeiro lugar, compreendamos o contexto da cidade de Corinto e o porquê das duas cartas de Paulo.

Corinto localizava-se no istmo entre o mar Egeu e Adriático. Assim, estrategicamente estabelecida, tornou-se um porto rico e muito famoso. Como a maioria das viagens daqueles dias eram por via marítima, Corinto foi uma autêntica metrópole, abrigando gente de todas as culturas antigas. Muitos romanos gostavam de descansar em Corinto após suas longas viagens em alto-mar, porque a cidade fornecia mais divertimento e opções culturais que outros portos menos importantes. Lá ficava o único anfiteatro (uma construção romana) da Grécia com capacidade para mais de 20.000 espectadores. O grande orgulho de Corinto era o seu templo de Afrodite. Sendo essa deusa identificada com a lascívia e com a prostituição cultuai, seu templo abrigava mais de 1.000 prostitutas. Com essa fama de agregar tantas prostitutas, a cidade tornou-se símbolo de decadência moral. O termo grego korintianozomai (lit, agir como um coríntio) significava promiscuidade.

Paulo não evitou Corinto ao planejar sua segunda viagem missionária. Por volta do ano 50, mudou-se para a cidade e foi morar na casa de Priscila e Áquila. Depois que pregou insistentemente numa sinagoga sobre Jesus, sua crucificação e ressurreição, viu-se obrigado a mudar-se para a casa de Tício Justo. Paulo morou na cidade 18 meses e, mesmo debaixo de grande perseguição, conseguiu deixar uma igreja implantada.

Depois que partiu, Paulo escreveu uma carta, hoje perdida (5:9). Talvez em resposta a essa carta, os crentes lhe redigiram algumas perguntas inquietantes. A consternação de Paulo sobre os problemas de divisão (1:11), a imoralidade entre os irmãos (caps. 5 e 6:9-20) e as perguntas concernentes a casamento, alimentos, adoração e ressurreição, provocaram a composição de 1 Coríntios.

A cultura de Corinto não era judaica, mas grega e fortemente influenciada pelos viajantes romanos que lá passavam.

As mulheres gregas vestiam-se de modo completamente diferente das judias. Os homens portavam-se com costumes radicalmente opostos aos dos hebreus. Os judeus jamais comeriam uma comida vendida em mercado, principalmente sacrificada a ídolos; entretanto os gentios de Corinto não se sentiam compelidos a comprar carne de melhor qualidade, visto não se importarem com a sua procedência. Um judeu de modo algum permitiria que as mulheres falassem nas suas sinagogas, mas na cultura helênica, contanto que cubrissem a cabeça, as mulheres recebiam permissão para orar, pregar (profetizar) e exercer alguns ministérios.

Quanto às roupas, os costumes dos Coríntios também se diferenciavam dos costumes dos judeus. Antigamente, uma das principais características da cultura hebréia que se chocava com os costumes das mulheres de Corinto era o uso do véu. Uma mulher judia sem véu era tida como prostituta. Entre as mulheres de Israel, só não faziam uso do véu aquelas que se encontrassem em período de luto ou as que fossem esposas infiéis. Destas últimas, o véu lhes era tirado e o cabelo lhes era rapado, a fim de que exibissem o seu opróbrio. O homem judeu também se cobria para orar, principalmente em tempos de luto:

Mas Davi, subindo pela encosta do monte das Oliveiras, ia chorando; tinha a cabeça coberta, e caminhava com os pés descalços. Também todo o povo que ia com ele tinha a cabeça coberta, e subia chorando sem cessar. (2 Sm 15:30)

Por não ter havido chuva sobre a terra esta se acha deprimida, e por isto os lavradores, decepcionados, cobrem a cabeça. (Jr 14:4).

Naqueles dias os homens jamais cobriam a cabeça para orar a Deus; somente as mulheres assim o faziam. Séculos depois, esse costume judaico mudou. Quando um homem entrava na sinagoga recebia o talith, um xale de quatro pontas para ser posto sobre sua cabeça. Os romanos, antes mesmo do aparecimento do talith judaico, já costumavam entrar em seus templos com a cabeça coberta. Os gregos, todavia, tradicionalmente oravam e adoravam com a cabeça descoberta. Traduzindo essa concepção grega, Paulo argumenta que o homem deve orar assim porque ele é a imagem de Deus na terra, e essa imagem não pode ser encapuzada.

Insistimos em que tudo isso era cultural, nada tinha a ver com princípios morais eternos. Senão vejamos:

1. O véu é um costume antigo que não diz respeito à cultura ocidental.

A decência das mulheres da antigüidade estava no véu. Quando Rebeca se encontrou com Isaque pela primeira vez, sua reação de pudor foi cobrir-se com um véu: E perguntou ao servo: Quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? É meu senhor, respondeu. Então tomou ela o véu e se cobriu. (Gn 24:65)

Hoje, com exceção dos países muçulmanos, as mulheres não precisam mais de véu para mostrar recato. Alguns traços dessa cultura permanecem no uso dos véus em raríssimas celebrações fúnebres e, com mais freqüência, nas cerimônias de casamento.

2. Gradualmente os costumes foram mudando, e os cabelos longos das mulheres passaram a desempenhar a mesma função do véu.

Ao afirmar que "toda mulher, porém, que ora, ou profetiza, com a cabeça sem véu, desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada"(l Co 11:5), Paulo confere ao uso de cabelos compridos a mesma relevância que acompanhava a utilização do véu. Recorrendo à analogia, o apóstolo tenta mostrar que uma mulher sem véu simbolizava, na igreja, o mesmo que uma mulher com a cabeça rapada simbolizava na sociedade grega (e até mesmo na judaica, pois as esposas infiéis tinham a cabeça rapada). Ao que parece, Paulo apenas deseja manter o costume judaico da utilização do véu numa cultura que já o substituíra pelo uso de cabelos longos. Ele sugere que, por uma questão de coerência, aqueles que quisessem manter a tradição do uso do véu hebraico deveriam também preservar o uso dos cabelos compridos presente na cultura helênica. Isto porque, da mesma forma que uma mulher sem véu era considerada prostituta pelos judeus, uma mulher com a cabeça rapada era tida como meretriz pelos gregos. A experiência de Paulo, portanto, apresenta-nos contundente silogismo.

As mulheres da igreja de Corinto viviam em meio a duas tradições distintas; Paulo, por ser judeu, propunha a manutenção do costume hebraico; logo, a questão do uso do véu ou dos cabelos compridos era apenas pertinente àquele contexto cultural.

Seria um absurdo imensurável pastores exigirem que seus membros adotem essa prática, já que as mulheres de suas congregações não estão inseridas na cultura dos judeus, tampouco na da Grécia antiga.

Em "O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo", Russel Norman Champlin grifa o seguinte:

É impossível tornar compatíveis os costumes da igreja do século XX, no que diz respeito às mulheres e ao que podem fazer na igreja, com os costumes do primeiro século da era cristã. A tentativa é absurda, e as interpretações dadas por aqueles que seguem à risca esses preceitos são desonestas ou baseadas na falta de conhecimento próprio (...) (...) Ora, tudo isso pode ser compreendido somente à luz dos costumes sociais da época, visto que o véu não mais significa qualquer coisa para nós. Porém, em várias culturas antigas, às mulheres não era permitido terem livre contacto social, mas, antes, tinham de permanecer em relativa reclusão.2

3. A natureza como produção cultural, e não a natureza como ordenação de Deus, é que estabelece qual o tamanho do cabelo dos homens e das mulheres.

A argumentação de que há preceito bíblico estipulando o tamanho dos cabelos masculinos e femininos baseia-se no fato de Paulo ter mencionado, no versículo 14, a própria natureza como testemunha da desonra que é para o homem o uso de cabelos compridos. Mas qual natureza ele convoca para autenticar tal ensino? A natureza como força ativa que conserva a ordem natural, ou os preceitos sociais dos Coríntios?

Geralmente os judeus andavam com cabelos compridos. Já os gregos preferiamnos bem curtos. Dizer que a natureza como ordenação divina é que estabelece que os cabelos dos homens devem ser curtos é não levar em conta que Deus instituiu, no caso dos nazireus, que não se passasse navalha na cabeça.

Disse o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel, dize-lhes: Quando alguém, seja homem, seja mulher, fizer voto especial, o voto de nazireu, a fim de consagrar-se para o Senhor, abster-se-á de vinho e de bebida forte; não beberá vinagre de vinho, nem vinagre de bebida forte, nem tomará beberagens de uvas, nem comerá uvas frescas nem secas. Todos os dias do seu nazireado não comerá de coisa alguma que se faz da vinha, desde as sementes até às cascas. Todos os dias do seu voto de nazireado, não passará navalha pela cabeça; até que se cumpram os dias para os quais se consagrou ao Senhor, santo será, deixando crescer livremente a cabeleira. Todos os dias da sua consagração para o Senhor não se aproximará dum cadáver. Por seu pai, ou por sua mãe, por seu irmão, ou por sua irmã, por eles não contaminará, quando morrerem; porquanto o nazireado do seu Deus está sobre a sua cabeça. Por todos os dias do seu nazireado santo será ao Senhor. (Nm 6:1-8)

Ora, se a natureza eterna, e não cultural, ensina que os cabelos dos homens não podem e nem devem ser longos, por que Deus instituiria o nazireado? Não seria estabelecer algo contrário a sua própria natureza? Se a desonra a que Paulo se refere em 1 Coríntios 11:14 é espiritual, e não cultural, os nazireus seriam um grupo que colocaria a palavra do Senhor dita a Moisés em descrédito. Isso tornaria Deus incoerente e pecador, o que é um absurdo.

A questão dos cabelos longos para mulheres e curtos para os homens é meramente cultural. Paulo pede que esses preceitos sejam respeitados apenas no contexto de Corinto. Ele não poderia exigir que essas normas fossem obedecidas hoje, pois o véu e os cabelos compridos já não possuem a mesma significação daqueles dias. Na antigüidade, uma mulher, através da maneira como cortava seus cabelos, podia transmitir lealdade ou insubmissão ao seu marido; hoje, contudo, a submissão de uma mulher é transmitida pela aliança que carrega no dedo da mão esquerda. Se o uso de cabelos longos naquela época simbolizava o mesmo pudor da utilização do véu, no mundo contemporâneo já não é assim.

Mais uma vez, deve-se levar em conta o princípio por detrás do costume e não o costume em si. Paulo desejava que as mulheres respeitassem a idéia de submissão e que os símbolos dessa subordinação fossem igualmente acatados. Se naquela cultura o símbolo da sujeição da mulher era manter os cabelos compridos, as mulheres não deveriam cortá-los; mas se numa outra cultura (como a japonesa) estiver estabelecido que as mulheres demonstram submissão andando alguns passos atrás do marido, que se respeite tal hábito para que o princípio seja preservado.

No Japão, o fato de uma mulher cortar ou não o cabelo não contém nenhum valor ético e moral, mas andar à frente do esposo sim. A Bíblia, nesse caso, aconselharia que as mulheres andassem conforme a maneira admitida culturalmente por aquela sociedade, nada mencionando, portanto, sobre o tamanho de seus cabelos.

Atente para o fato de que a preocupação bíblica é com o espírito da lei e não com a letra. Preservar apenas a letra (o uso e o costume), mas não entender o porquê de quaisquer mandamentos, provoca a morte:

...o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata, mas o espírito vivifica. (2 Co 3:6)

Qual seria o tamanho de cabelo ideal para caracterizar a submissão de uma mulher? Qual a medida de cabelo destinada a homens que determinaria a masculinidade de alguém? Simplesmente não há parâmetros, a própria sociedade é quem decide essas questões. Na África os negros não poderiam adaptar-se a esses conceitos, uma vez que o cabelo crespo e encarapinhado simplesmente não cresce. Lá, a natureza ensina que tanto homens como mulheres devem ter cabelos curtos. Há de se convir, dessa forma, que são as múltiplas ambiências culturais que determinam tais valores.

Além disso, faz-se necessário lembrar que um ensino bíblico, para ser válido, deve ter aplicabilidade universal. Ao ensinar sobre amor, fidelidade e coragem, a Bíblia coloca-se acima de toda cultura; por isso, independentemente de como nossa sociedade lida com esses valores, todos eles têm algo a nos ensinar.

Notas

1 ROPS, Henri Daniel. A Vida Diária nos Tempos de Jesus. São Paulo: Ed. Vida Nova, p. 142



2 CHAMPLIN, Norman Russel. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural, vol. IV, pp. 172-173



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