Doce encanto



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DOCE ENCANTO

Capítulo 01

Pág.:





DOCE ENCANTO
Capítulo 01

Novela de:

AHAROM AVELINO

Escrita por:

AHAROM AVELINO

Personagens:

CARLOS


MARIA

ABIGAIL


CLARA

LEO


DORA

ALEX


VIDA

JULIETA


ABELARDO

RAUL


LEDA

NINA


AMARA

JUREMA


SEVERA

DINA



Participações no capítulo:
FONSECA, MOTORISTA, EMPREGADA, FUNCIONÁRIO DO BAR, POPULARES, FREGUESES DO BAR, MORADORES DA FAVELA, MORADORES DA VILA

CENA 01. ALGUM LUGAR – INT/DIA

ESSA CENA DEVERÁ TER UM TOM SÉPIA.


UMA IMAGEM DESFOCADA TOMA CONTA DA TELA, AOS POUCOS ELA VAI SE TORNANDO NÍTIDA, CADA VEZ MAIS NÍTIDA, ATÉ QUE PERCEBEMOS SE TRATAR DE UM LIVRO. UM DESSES LIVROS VELHOS, DE CAPA DE COURO GROSSA, NELA PODEMOS VER GRAVADO O NOME “DOCE ENCANTO”, DUAS MÃOS INVADEM A IMAGEM, PASSA A MÃO PELO LIVRO, COMO SE O ALISASSE, E O ABRE...

ESCRITA EM LETRAS ANTIGAS COMO ANTIGOS CONTOS DE FADA NA PRIMEIRA PÁGINA ESTÁ “ERA UMA VEZ...” A PÁGINA É VIRADA, E NA SEGUNDA PÁGINA HÁ UMA FOTO ENVELHECIDA DE UMA FAMÍLIA COMPOSTA POR CRIANÇAS E UMA MULHER – A FAMÍLIA DE CLARA.


VOZ DE MULHER: (OFF) Toda história tem um começo, e a nossa não é diferente, nossa história começa assim... Era uma vez dois jovens apaixonados...
FUSÃO PARA

CENA 02. PARQUE PÚBLICO – EXT/DIA
INSERIR LEGENDA: EM ALGUM LUGAR DO PASSADO. (NÃO PRECISA IDENTIFICAR O ANO)
PRAÇA BONITA, MUITO VERDE, FLORES, CASAIS NAMORANDO, BABÁS PASSEIAM COM CARRINHOS DE BEBÊS. LOGO A CÂMERA ENCONTRA UM CASAL APAIXONADO, ESTÃO FAZENDO UM PIQUENIQUE, A MOÇA COLOCA UVAS OU OUTRA FRUTA NA BOCA DO RAPAZ QUE ESTÁ DEITADO EM SEU COLO. UMA MOÇA COM LINDOS CABELOS NEGROS E ONDULADOS, ELA PARECE UMA MENINA SIMPLES, MAS MUITO BONITA, ELE UM RAPAZ ELEGANTE, FINO E VISIVELMENTE ENDINHEIRADO.
CARLOS: Estou me sentindo no paraíso, se o mundo acabasse agora, eu ia morrer feliz, só por estar do seu lado.
MARIA: Pois eu não, eu ainda quero viver muitos momentos como esse! Quero viver muito tempo ao seu lado, ainda, meu amor.
CARLOS: (OLHA COM CARINHO PARA MARIA) Eu já disse que te amo hoje?
MARIA: Deixa eu ver? (PENSA UM POUCO)... não sei, será que já disse?

CARLOS: Eu te amo! Como nunca amei uma outra mulher na vida!
MARIA: Eu também te amo... te amo muito, tanto que nem sei como descrever! É tanto amor que eu sinto, que chega a doer quando penso que isso pode acabar um dia.
CARLOS: Não vai acabar. Nosso amor será para sempre. Nós vamos ser muito felizes, e vamos ter filhos lindos, você vai ver! Vai ser a família mais bonita do mundo: eu, você e nossos filhos... aliás, muitos filhos.
CLOSE NO ROSTO DE MARIA, ELA ESTÁ VISIVELMENTE PREOCUPADA EM RELAÇÃO A ÚLTIMA FALA DE CARLOS.
SONOPLASTIA: MÚSICA ROMÂNTICA.
CORTA PARA

CENA 03.FRENTE DO PRÉDIO DE CARLOS – EXT/DIA
STOCK-SHOT DE AMBIENTAÇÃO.
CORTE PARA

CENA 04.COBERTURA DE CARLOS – SALA – INT/DIA
A SALA É AMPLA E ELEGANTE, A DECORAÇÃO MOSTRA QUE SE TRATA DE UMA FAMÍLIA COM MUITO DINHERO E BOM GOSTO, PODE HAVER QUADROS E OUTRAS OBRAS DE ARTE ESPALHADAS PELO AMBIENTE.
UM HOMEM ESPERA SENTADO NO SOFÁ, ELE SE VESTE DE FORMA SÉRIA E SOTURNA, TEM A CARA SÉRIA. LOGO EM SEGUIDA ENTRA ABIGAIL, UMA SENHORA ELEGANTE, FINA, ERETA E COM UM PORTE ALTIVO. O HOMEM SE LEVANTA PARA CUMPRIMENTÁ-LA.
FONSECA: Bom dia, dona Abigail!
ABIGAIL: Pode se sentar, Fonseca... não precisamos dessas cerimônias. Meu assunto com você será rápido!
ELE SE SENTA, ELA TOMA LUGAR NUMA POLTRONA DE FRENTE PARA ELE.
ABIGAIL: E então, alguma novidade? Em que pé anda sua investigação?
FONSECA: Ainda não tenho nada de concreto, mas acho que até o final do dia terei alguma novidade para a senhora, minha equipe está trabalhando no caso agora mesmo.
ABIGAIL: Muito bem; espero que tenha alguma novidade mesmo, eu não estou pagando uma fortuna para sua equipe ficar perambulando por aí às minhas custas, não é mesmo?
FONSECA: Certamente...
ABIGAIL SE LEVANTA, FONSECA FAZ O MESMO.
ABIGAIL: Ótimo, era só isso que eu queria: saber como andam as coisas. E como não temos novidades nenhuma, acho que não preciso mais do senhor aqui!
FONSECA: As coisas estão caminhando... Estão caminhando, a senhora não precisa se preocupar. (TOM) Agora, se me permite, vou me juntar à equipe para agilizar mais ainda as investigações.
ABIGAIL LEVA FONSECA À PORTA.
ABIGAIL: Hoje à noite, seu Fonseca. Quero uma posição definitiva hoje à noite; nem mais nem menos...
FONSECA: Com certeza, dona Abigail... Com certeza... Agora se a senhora me der licença.
ABIGAIL: Toda, seu Fonseca.
FONSECA SAI. ABIGAIL PERMANECE DE PÉ COM SEU OLHAR FRIO E DISTANTE.
ABIGAIL: Se aquela empregadinha acha que vai me fazer de idiota, ela está muito enganada, porque de boba eu não tenho nada!
CORTA PARA

CENA 05.PARQUE PÚBLICO – EXT/DIA
MARIA E CARLOS SAEM ABRAÇADOS DO PARQUE. ESTÃO MUITO FELIZES.
CARLOS: E então, quando nós vamos contar pra ela?
MARIA: Acho que ainda não é hora pra isso... Pelo menos eu ainda não estou pronta pra contar pra ela.
CARLOS: Maria, você não pode ficar com medo da minha mãe assim!
MARIA: Eu sei, Carlos, não é medo, é que... Ah, não sei o que é....
CARLOS: Minha mãe vai ter que aceitar, meu amor. Ela vai ter que entender que eu te amo e que quero passar o resto da minha vida com você.
MARIA: Não sei não... Ela não vai gostar nenhum pouco de saber que você está namorando a empregada dela.
CARLOS

O fato de você ser, ou não empregada, não me importa, você sabe!


MARIA: Eu sei que não importa pra você, mas será que a sua mãe vai pensar da mesma forma?
CARLOS: A gente só vai saber se contar pra ela...
MARIA: Vamos esperar mais um pouco, só mais essa semana... Eu prometo!
CARLOS: Tudo bem, eu vou esperar... Só porque você está pedindo, porque se dependesse de mim a gente falava hoje mesmo...
ELES CONTINUAM ANDANDO.
CORTA PARA

CENA 05.VILA – EXT/DIA
APRESENTAÇÃO DA VILA ENCANTO, UM LUGAR COM UMA RUA APENAS, COM CASAS GEMINADAS E DE CORES FORTES E DIVERTIDAS, HÁ UM CASARÃO NO FUNDO DA RUA, UMA PEQUENA PRAÇA COM SEU CORETO, RUA CALÇADA DE BLOCOS, CLIMA DE INTERIOR, ETC. AS CASAS NÃO TÊM MUROS OU PORTÕES, AS PORTAS DÃO DIRETO PARA A RUA.
CORTA PARA

CENA 06.CASA DE DORA – SALA – INT/DIA
CASA SIMPLES, UMA SALA HUMILDE, MAS BEM ARRUMADA. CLARA ANDA DE UM LADO PARA OUTRO COM UMA CRIANÇA NO COLO A QUAL ESTÁ FAZENDO DORMIR, SENTADOS NOS SOFÁS ESTÃO DORA E LEO. DORA COSTURA ALGUMA COISA COM A MÃO MESMO, E LEO USA UM UNIFORME DE SEGURANÇA OU ALGO DO TIPO.
CLARA: Léo, ela é minha sobrinha!
LEO: Eu sei...
CLARA: Então? Como você quer que eu deixe ela por aí, nas ruas?
LEO: Eu não disse para você deixar ela na rua. Pode deixar ela lá no orfanato onde ela tá!
CLARA: No orfanato? Nunca! Eu não vou fazer isso com minha sobrinha, se fossem meus filhos, minha irmã não ia deixar eles aí pelo mundo, sozinhos. Não mesmo!
LEO: Se fossem seus filhos, eles teriam o pai aqui para cuidar deles...
DORA: (ENTRANDO NA CONVERSA) Nesse ponto eu concordo com a Clara, meu filho, ela não pode deixar a sobrinha dela jogada por aí como se não tivesse parente vivo.
CLARA: Viu? Até sua mãe concorda comigo! Eu tenho que tomar conta da Deise, Léo.
LEO: Entrega ela pra adoção, puxa vida. (TOM) Clara, nós temos dois filhos... Dois filhos, quando eu me casei com você eu não estava planejando ter três filhos não.
CLARA: Quando você se casou comigo, minha irmã não planejava morrer naquele acidente de carro também não.
LEO: Como nós vamos sustentar mais uma criança, em? Me fala? A gente tá no maior aperto. Meu salário é uma piada, e o que você ganha como manicure não é muita coisa também, você sabe disso.
CLARA: Eu sei, mas isso não vai ser motivo pra eu abandonar minha sobrinha numa hora dessas.
LEO: (DESISTINDO) Já vi que não tem jeito mesmo. (TOM) Mas pensa bem, pensa direitinho. Se você trouxer sua sobrinha pra morar com a gente, não vamos poder dar tudo o que planejamos dar pros nossos filhos.

CLARA: Minha sobrinha também merece receber carinho, do mesmo jeito que a Lisa e o Bruno...
CORTA PARA

CENA 07.CIDADE –EXT/DIA
CLIPE COM CENAS DE ARQUIVO DA CIDADE.
CORTA PARA

CENA 08.COBERTURA DE CARLOS – SALA – INT/DIA
MARIA ESTÁ ARRUMANDO A SALA, COLOCANDA AS COISAS NOS DEVIDOS LUGARES E USANDO O ASPIRADOR DE PÓ. ABIGAIL ENTRA SORRATEIRAMENTE E A OBSERVA POR ALGUNS SEGUNDOS, QUANDO MARIA SE VIRA, LEVA UM SUSTO COM A PRESENÇA DE ABIGAIL QUE PARECE MAIS UMA APARIÇÃO.
MARIA: Dona Abigail? Que susto!
ABIGAIL: (SENTANDO-SE) Ta assustada, Maria?
MARIA: Não, eu só não imaginei que a senhora estivesse aqui. A senhora entrou, assim, sem fazer barulho.
ABIGAIL: Você parece agitada, até nervosa, eu diria... Será que você tem algum motivo para ficar nervosa desse jeito?
MARIA: Claro que não, dona Abigail!
ABIGAIL: Eu imagino que não tenha mesmo... Posso saber aonde você foi hoje pela manhã? Você sumiu a manhã inteira.
MARIA: Eu fui ao dentista. Mas eu avisei pra senhora que eu tinha dentista.
ABIGAIL: (OBSERVADORA) É verdade, você me avisou mesmo, (CURIOSA) mas você foi somente ao dentista? Não aproveitou a folga para dar uma volta por aí? Ir passear no parque por exemplo?
MARIA: (NERVOSA) Não, senhora, eu fui só ao dentista mesmo!
ABIGAIL: (IRÔNICA) Tudo bem, eu acredito, e depois você não mentiria pra mim, não é mesmo?
MARIA: Não. Nunca!
ABIGAL: Ótimo, eu espero que não minta mesmo... Agora me faz um favor? Vá limpar lá dentro, depois você continua limpando aqui, eu estou com uma dorzinha de cabeça incômoda, e esse barulho tá me deixando irritada!
MARIA: Sim, senhora.
MARIA SAI, ABIGAIL A ACOMPANHA COM UM OLHAR ACUSADOR.
CORTA PARA

CENA 09.FRENTE DE UM RESTAURANTE – EXT/DIA
STOCK-SHOT DE AMBIENTAÇÃO.
CORTA PARA

CENA 10.RESTAURANTE – INT/DIA
CARLOS ALMOÇA ACOMPANHADO DE ALEX, É UM RESTAURANTE FINO, ALGUMAS PESSOAS NAS MESAS PRÓXIMAS PARECEM ANIMADAS E FELIZES, CARLOS TAMBÉM PARECE ANIMADO.
CARLOS: Esse é o melhor momento da minha vida, meu amigo. Desde a morte da mãe do Artur que eu não me sentia tão feliz.
ALEX: É tô vendo no seu rosto essa felicidade. E o Artur, o que ele acha de tudo isso, ele já sabe dessa história?
CARLOS: O Artur adora a Maria, eles se dão super bem, até parecem mãe e filho.
ALEX: Que bom, então acho que você está com a faca e o queijo na mão.
CARLOS: (FELIZ) É. Estou mesmo. (TOM) Pra ficar tudo perfeito só falta dobrar a minha mãe.
ALEX: (RINDO) Como é que é? Quer dizer que a Dona Abigail ainda não sabe desse seu romance com a Maria?
CARLOS: Ela nem sonha, meu amigo.
ALEX: Ai, ai, ai... Então você tem um tremendo de um abacaxi para descascar.
CARLOS: Coloca abacaxi nisso. Você sabe como dona Abigail é complicada.
ALEX: Se sei. Mas e aí? Como você resolver isso?
CARLOS: Sinceramente, ainda não tenho idéia, eu queria dizer tudo a minha mãe, ontem se possível, inclusive. Mas a Maria ainda não se sente pronta.
ALEX: Infelizmente eu não posso te ajudar nesse caso. A única coisa que posso fazer é torcer por vocês, então.
CARLOS: Já é alguma coisa...
CORTA PARA

CENA 11. COBERTURA DE CARLOS – ESCRITÓRIO – INT/DIA
ESCRITÓRIO MUITO BEM DECORADO, SÓBRIO, MAS ELEGANTE, VIDA ESTÁ SENTADA EM UMA CADEIRA, ATRÁS DA MESA, ESTÁ ABIGAIL, ELA FALA COM AR DE SOBERBA E RAIVA.
ABIGAIL: E ela mente com uma cara de deboche que é capaz de convencer até o melhor ator do mundo.
VIDA: Abigail, minha amiga, você não está sendo muito rigorosa com essa moça não?
ABIGAIL: Claro que não. Ela quer se casar com meu filho, Vida. Como eu vou deixar meu filho, meu único filho se casar com uma... Com uma empregada? O Carlos merece coisa bem melhor.
VIDA: Mas eles não se amam? Seja razoável. Essas brigas de classes são coisas do passado. Nessas horas o amor fala mais alto.
ABIGAIL: Amor, Vida? Desde quando amor foi algo determinante num casamento? Nós duas sabemos melhor do que ninguém que amor e casamento não andam juntos. (TOM) E depois, eu sou razoável, mas não sou idiota.
VIDA: Sinceramente, Abigail, eu não vejo problema nenhuma nisso. Se meu filho decidisse se casar com minha empregada eu o apoiaria e torceria para que ele fosse muito feliz.
ABIGAIL: Você diz isso porque seu filho tem a cabeça no lugar, ele nunca se envolveria com uma pessoa como a Maria. Tanto que ele se casou com minha sobrinha, que se não é rica, pelo menos é uma médica. Agora me diga: quem pode ser feliz se casando com uma empregada? Ninguém. (TOM) Eu sonho com algo maior para meu filho...
VIDA: Mas será que seu filho sonha com isso também?
ABIGAIL SE LEVANTA E COMEÇA A ANDAR PELO ESCRITÓRIO.
ABIGAIL: Desde quando essas crianças sabem o que é bom para elas? O Carlos já cometeu um erro se casando com aquela outra, que Deus a tenha. Eu não vou deixar que ela faça isso novamente.
VIDA: Por falar nisso, já faz o que... Dois anos, que aconteceu o acidente? Como terminaram as investigações?
ABIGAIL: Terminou da forma que deveria ter terminado. Ela perdeu o controle do carro e bateu no ônibus que vinha em sentido contrário. Foi isso.
VIDA: Terrível isso...
ABIGAIL: É, foi uma coisa horrível mesmo. Uma noite longa aquela. Longa e chuvosa. Mas parece que o Carlos já esqueceu aquela infeliz, tanto que está de lero-lero com a empregadinha aqui de casa.
CLOSE NO ROSTO FURIOSO DE ABIGAIL.
CORTA PARA ABERTURA E 1º COMÉRCIAL

CENA 12. CASA DE ABELARDO – SALA – INT/DIA
A SALA É SIMPLES, DESDE OS MÓVEIS AOS OBJETOS DE DECORAÇÃO, SIMPLES TAMBÉM SÃO AS DUAS FIGURAS NO LOCAL: ABELARDO E JULIETA. ELE ESTÁ JOGADO NO SOFÁ, ELA COM UMA VASSOURA NA MÃO TENTA TIRÁ-LO DE LÁ.
JULIETA: Levanta, homem, toma uma atitude!
ABELARDO: (ELE CHUPA O DEDO)Eu não quero, eu não posso!
JULIETA: Não pode? Não pode é ficar prostrado aí parecendo um sapo gordo!
ABELARDO: O que cê quer que eu faça, mulher?
JULIETA: O que eu quero? Imagina. Eu quero que ocê tire esse traseiro do sofá e vá lá naquele lugar buscar seus netos!
ABELARDO: Eu não vou buscar aquelas pestes, não vou mesmo, eles tão muito bem lá... E eu tô muito bem aqui sozinho sem eles.
JULIETA: (MÃO NA CINTURA) Ah, ocê não vai? E vai deixar eles lá sozinho? Home de Deus, eles são seus neto, ocê não pode deixar eles num orfanato. Já faz um tempão, quase um mês, que eles tão lá... Cê não tem dó não?
ABELARDO: O quê que eu vô fazer com um bando de menino aqui em casa, Julieta? Eu num tenho mais idade pra cuidar de menino não. Quem vai ter dó de mim?
JULIETA: Quem vai ter dó do cê eu não sei, mas sei o que cê vai fazer com eles. Vai educar, ensinar as coisas da vida... O que é certo e o que é errado.
ABELARDO: Eu nem sei mais como se educa criança, Julieta!
JULIETA: Não interessa se ocê sabe, ou se não sabe. Ocê vai ter que cuidar dos meninos agora.
ABELARDO: Mas eles vão destruir a minha casa, bagunçar a minha vida, vão comer toda a minha comida.
JULIETA: Eu não acredito que ocê ta pensando em comida numa hora dessa, homem. Pelo amor de Deus, eles são seus netos. Vivem num lugar com um monte de menino. Tão sozinho no mundo. Só tem ocê, seu avô desnaturado! (BATE NELE COM A VASSOURA)Vamo, levanta daí, vai lá busca os menino! Eu ainda num acredito que ocê esperô um mês pra toma essa atitude...e se eles virá um bando de marginal, em?
ABELARDO: (COM DÚVIDA) Será que isso pode acontecer?
JULIETA: Mas é claro que pode.
ABELARDO LEVANTA A CONTRAGOSTO.
ABELARDO: Ta, bom, ta bom, eu vou... Fazer o quê, né? E depois se eu não for, você vai ficar me enchendo o saco o tempo todo.
JULIETA: Pode acreditar que vou mesmo.
ELE SAI RESMUNGANDO.
CORTA PARA

CENA 13. COBERTURA DE CARLOS – ESCRITÓRIO – INT/DIA
O DETETIVE ESTÁ SENTADO NA MESMA CADEIRA QUE ANTES ESTAVA VIDA, ABIGAIL ESTÁ FECHANDO A PORTA E SE CERTIFICANDO DE QUE NÃO TEM NINGUÉM OUVINDO. ELA VOLTA À MESA DO ESCRITÓRIO.
ABIGAIL: E então? Trouxe as encomendas que eu pedi?
FONSECA: Sim, e antes do esperado. Tá tudo aqui. Eu disse que era serviço garantido.
FEITOSA COLOCA DOIS ENVELOPES PARDOS SOBRE A MESA.
FONSECA: Nesse aqui, estão as provas que a senhora me pediu. Nesse outro o material secreto que me solicitou.
ABIGAIL: Ok, vamos ver o que temos aqui...
ABIGAIL ABRE O PRIMEIRO ENVELOPE, NELE HÁ VÁRIAS FOTOS. FOCO DAS FOTOS, SÃO FOTOS DE MARIA E CARLOS NAMORANDO EM VÁRIOS LUGARES.
ABIGAIL: (PARA SI) E você pensando que ia me enganar né, Maria? Você não sabe com quem se meteu, sua domesticazinha!
FONSECA: A senhora está bem?
ABIGAIL: (TOM)Estou ótima! Estou muito bem...(ELA COLOCA AS FOTOS NO ENVELOPE COM FÚRIA, EM SEGUIDA ABRE O OUTRO ENVELOPE, SÃO MAIS FOTOS, MAS AGORA NÃO VEMOS COMO SÃO) Bom trabalho, senhor Fonseca. Tem certeza que ninguém vai desconfiar que são montagens?
FONSECA: Absoluta. São muito bem feitas, não tem como desconfiarem.
ABIGAIL: Muito bem, acho que o senhor fez por merecer... (ABIGAIL PEGA UM BOLO DE DINHEIRO NA GAVETA E ENTREGA A FEITOSA, ELE CRESCE O OLHO PARA O DINHEIRO DEIXANDO TRANSPARECER SUA GANÂNCIA) E espero contar com a sua descrição nesse assunto, ninguém pode ficar sabendo sobre esse material. Ninguém, entedeu, seu Fonseca?
FONSECA: (DISTANTE CONTANDO O DINHEIRO) Com certeza, eu sou muito discreto.
ABIGAIL SE LEVANTA E VAI LEVANDO FONSECA À PORTA QUASE A FOÇA.
ABIGAIL: Ótimo, agora é comigo. O senhor pode ir, se precisar de seu trabalho novamente volto a procurá-lo.
FONSECA: Ta, certo, e eu espero poder ajudar...
ABIGAIL: Passar bem, seu Fonseca.
ABIGAIL FECHA A PORTA, CLOSE EM SEU ROSTO.
ABIGAIL: Vamos ver se os pombinhos vão sorrir depois dessa!
FUSÃO PARA

CENA 14. PÁTIO DO PRÉDIO DE CARLOS – EXT/DIA
EQUANTO A CENA DE ABIGAIL SE APAGA O ROSTO DE MARIA SURGE, ELA ESTÁ PREOCUPADA, SENTADA NUM BANCO DE CONCRETO COM OUTRA EMPREGADA NÃO PARECE MUITO ANIMADA.
MARIA: Às vezes, eu acho que a dona Abigail desconfia de alguma coisa. Pra falar a verdade, eu tenho quase certeza disso.
EMPREGADA: Será? Eu acho difícil ela saber, vocês são tão discretos.
MARIA: Sei não, viu, ela anda meio estranha.
EMPREGADA: Como assim, estranha?
MARIA: Não sei como dizer... Mas anda fazendo umas perguntas. Como se desconfiasse de alguma coisa. Figa jogando umas piadinhas. (TOM) Ai, meu Deus, e se ela descobre tudo? A dona Abigail me mata!
EMPREGADA: É por isso que eu acho que vocês deveriam contar logo pra ela, pra num ficar esse clima pesado.
MARIA: Ah sei lá, eu to com medo, sabe? Tem alguma coisa errada, eu sinto.
EMPREGADA: Você anda muito desconfiada também, deve ser imaginação sua... Coisa da sua cabeça.
MARIA: Acho que é mais do que imaginação...
CLOSE NO ROSTO PREOCUPADO DE MARIA.
CORTA PARA

CENA 15. CIDADE – EXT/NOITE
ANOITECER – CENAS DE ARQUIVO.
CORTA PARA

CENA 16. FRENTE DA MANSÃO DE RAUL – EXT/NOITE
STOCK-SHOT DE AMBIENTAÇÃO.
CORTA PARA

CENA 17. MANSÃO DE RAUL – SALA – INT/NOITE
UMA SALA ESPETACULAR, GRANDIOSA, COM UMA ESCADARIA, OBRAS DE ARTE IMPORTANTES. RAUL ESTÁ SENTADO NO SOFÁ LENDO UM JORNAL E TOMANDO UM CONHAQUE. LEDA LOGO DESCE A ESCADA, BONITA, BEM VESTIDA E ELEGANTE, UM ROSTO BEM JOVEM.
LEDA: Papai, o senhor em casa tão cedo? Há uma semana que não janta com a gente.
RAUL: Pois é, meu amor. Eu estava com saudade da minha família e principalmente da minha princesinha.
LEDA BEIJA O PAI, OS DOIS SE SENTAM ABRAÇADOS NO SOFÁ.
RAUL: E aí, como foi seu dia, minha linda?
LEDA: Muito cansativo, estou morta.
NINA ENTRA.
NINA: Não sabia que ficar o dia todo na piscina cansava tanto.
LEDA: E quem disse que eu passei o dia todo na piscina? Eu fiz um monte de coisas...
NINA: É verdade, você foi ao shopping torrar dinheiro também, já havia me esquecido desse detalhe.
RAUL: Nina, você não vai ficar implicando com nossa queridinha agora, vai?
NINA: Eu? Imagina, quem sou eu para censurar essa menina?
LEDA: (LEVANTA-SE E CORRE ATÉ A MÃE) Mamãe, a senhora sabe que eu te amo também.
NINA: Eu sei, meu bem, eu sei... E então? Será que podemos jantar?
RAUL: Claro. Estou morrendo de fome.
CORTA PARA

CENA 18. PRAÇA DA VILA – EXT/NOITE
CLARA ESTÁ SENTADA NUM BANCO DA PRAÇA, ELA OLHA PARA O CÉU, UM OLHAR DISTANTE. AMARA ESTÁ PASSANDO COM UNS CADERNOS PARECE ESTAR CHEGANDO DA ESCOLA, ELA VÊ CLARA E VAI ATÉ ELA.
AMARA: Clara? Está tudo bem?
CLARA: (OLHA PARA AMARA, ESTÁ TRISTE) Oi, Amara, tá tudo bem sim.
AMARA SE SENTA PRÓXIMO A CLARA.
AMARA: Ih, não é o que tá parecendo, amiga.
CLARA: Eu to bem, sério. Só tive um bate-boca com o Leo hoje. Coisa de marido e mulher.
AMARA: Por causa da sua sobrinha, né?
CLARA: Isso mesmo. Ele não quer que eu busque a Deise para morar com a gente.
AMARA: E você?
CLARA: Eu gosto do Leo, gosto muito, mas não vou deixar minha sobrinha num orfanato, Amara. Nem por ele eu vou fazer isso. Já faz dois anos que minha irmã morreu, e há um mese o meu cunhado deixou ela lá abandonada naquele lugar sem dar explicações. Eu tenho que ajudar, eu preciso cuidar dela.
AMARA: É, amiga, não vai ser fácil, mas eu te desejo boa sorte. E você sabe que pode contar comigo no que for preciso.
CLARA: Obrigada! Eu vou precisar de todo o apoio possível.
AMARA COLOCA SUA MÃO SOBRE A DE CLARA, AS DUAS CONTINUAM EM SILÊNCIO OLHANDO O CÉU.

PV DAS DUAS: O CÉU TODO ABERTO, LINDO E ESTRELADO.
CORTA PARA

CENA 19. COBERTURA DE CARLOS – QUARTO DELE – INT/NOITE
MARIA ENTRA NO QUARTO DE CARLOS TRAZENDO ALGUMAS ROUPAS LIMPAS, O LUGAR É SÓBRIO, SÉRIO, COMO O PRÓPRIO DONO. CARLOS CORRE PARA FECHAR A PORTA E VAI ABRAÇÁ-LA.
CARLOS: Meu amor, como estava com saudade de você. (TOM) O que foi? Você parece tensa. O que aconteceu, Maria?
MARIA: Não aconteceu nada. Eu só acho que sua mãe desconfia de alguma coisa.
CARLOS: (EMPOLGADO) Ótimo, isso é ótimo, vamos aproveitar e contar tudo pra ela de uma vez.
MARIA: Não sei não, Carlos. Acho melhor não. Eu estou com medo.
CARLOS: Nós estamos juntos, meu amor, você não precisa ter medo. Vai dar tudo certo, eu prometo. Nós vamos ser felizes para sempre.
MARIA: (PREOCUPADA) Será?
CARLOS E MARIA SE ABRAÇAM.
CORTA PARA

CENA 20. COBERTURA DE CARLOS – ESCRITÓRIO – INT/NOITE
ABIGAIL ANDA DE UM LADO PARA OUTRO. ESTÁ NERVOSA, OLHA O RELÓGIO. VAI ATÉ A PORTA E VOLTA. CHEGA A SUA MESA OLHA OS DOIS ENVELOPES SOBRE ELA, SÃO DIFERENTES DOS ANTERIORES. ELA OS SEPARA, OLHA MAIS UMA VEZ O RELÓGIO.
CORTA PARA

CENA 21. CASA DE DORA – SALA – INT/NOITE
CLARA ENTRA SILENCIOSAMENTE NA SALA, O AMBIENTE ESTÁ MEIO ESCURO, APENAS A LUZ DA RUA ENTRA NO LOCAL. LEO ESTÁ SENTADO EM UM CANTO ESCURO. QUANDO CLARA FECHA A PORTA ATRÁS DE SI, ELE LIGA A LUZ.
CLARA: (COM A MÃO NO PEITO) Que susto, Leo, quer me matar do coração?
LEO: Eu estava te esperando pra gente terminar aquele assunto. E aí, pensou bem no que te falei?
CLARA: Pensei. Pensei muito. Refleti, avaliei os prós e contras, tudo direitinho.
LEO: E o que você decidiu?
CLARA PERMANECE CALADA E PARADA, CLOSE EM SEU ROSTO ANGUSTIADO.
CORTA PARA

CENA 22. MANSÃO DE RAUL – SALA DE JANTAR – INT/NOITE
MESA FARTA, MUITO COMIDA, EMBORA ESTEJA APENAS RAUL, LEDA E NINA COMENDO, PARADO NA SALA ESTÁ UMA EMPREGADA COMO SE FOSSE UM OBJETO DE DECORAÇÃO. ELES CONVERSAM COMO SE ELA NÃO EXISTISSE.
RAUL: E o Carlos, minha filha? Falou com ele hoje?
LEDA: Não, não consegui encontrá-lo hoje, mas vou procurar amanhã. O Carlos anda tão distante ultimamente.
NINA: Eu não entendo essa sua mania de correr atrás desse rapaz, Leda. Isso não pega bem pra uma moça.
LEDA: Eu gosto dele, mamãe, e vou lutar por esse amor. Só isso.
NINA: Mas ele não parece muito interessado em suas investidas.
LEDA: Ainda não está interessado. Ainda. Mas vai ficar, acho que já passou da hora dele esquecer aquela mulherezinha dele.
NINA: Leda, olha como você fala. A ex-esposa dele morreu naquele acidente horrível. Tenha um pouco mais de respeito com os mortos, minha filha.
LEDA: Pois é, mãe. Ela morreu, mas eu estou vida, agora é minha vez!
NINA: Eu não acredito que estou ouvindo isso. (PARA RAUL) Raul, diga alguma coisa!
RAUL SORRI, NINA FAZ CARA DE REPROVAÇÃO.
CORTA PARA 2º COMERCIAL

CENA 23.CIDADE – EXT/DIA
CENAS DE ARQUIVO – AMANHECER.
CORTE PARA

CENA 24. CASA DE DORA – SALA – INT/DIA
CLARA ESTÁ PREPARANDO UMA GRANDE SACOLA. COLOCA ROUPAS E OUTROS OBJETOS DENTRO DELA. DORA A AJUDA.
DORA: Olha, minha filha, você sabe que eu to com você pra qualquer coisa, para o que der e vier.
CLARA: Eu sei, Dora, e agradeço muito sua ajuda, eu vou precisar muito de uma força nessa nova fase da minha vida.
DORA: Vai ficar quantos dias lá?
CLARA: Não sei. Vou ficar só o suficiente para resolver tudo, pegar a Deise e volto.
DORA: Ta certo? Você tem dinheiro suficiente?
CLARO: Tenho um pouco, acho que dá.
DORA: Olha, se precisar de qualquer coisa, me liga, pode ser de dia, de noite, não importa, pode ligar.
CLARA: Obrigada. Você é uma mãe pra mim.
TERMINAM DE MONTAR A MALA, CLARA ABRAÇA DORA.
CLARA: Reza por mim, ta?
DORA: Eu vou rezar, minha filha, eu vou rezar.
CLARA PEGA A MALA E VAI SAINDO. QUANDO ESTÁ À PORTA SE VOLTA PARA DORA.
CLARA: E cuida bem dos meus filhos, por favor.
DORA: Claro, não se preocupe, elas vão ficar bem. Pode ficar sossegada.
CLARA SAI, DORA A ACOMPANHA.
CORTA PARA

CENA 25. COBERTURA DE CARLOS – ESCRITÓRIO – INT/DIA
ABIGAIL ESTÁ SENTADA ATRÁS DA MESA, HÁ UM ENVELOPE A SUA FRENTE. MARIA BATE NA PORTA, ABRE E SE MOSTRA. ABIGAIL FAZ UM SINAL PARA ELA ENTRAR. ELA ENTRA E FICA PARADA PERTO DA PORTA.
ABIGAIL: Maria. Vamos entrando. Por favor, fecha a porta e se sente aqui.
MARIA OBEDECE AS ORDENS, ELA ESTÁ TENSA.
MARIA: A senhora queria falar comigo?
ABIGAIL: Maria, como você sabe, eu não sou uma mulher de rodeios. Por isso, vamos direto ao assunto. Eu te chamei aqui para falar do meu filho: o Carlos.
MARIA: Olha, dona Abigail, eu...
ABIGAIL: (FAZ SINAL PARA ELA PARAR) Não precisa falar nada. Eu já sei de tudo, sei que você e o Carlos estão se encontrando às escondidas, sei também que você acredita que estão namorando. (TOM) E quer saber? Eu não te culpo por isso, afinal o Carlos é um belo rapaz, bem educado, fino, rico...
MARIA: Eu não estou interessada no dinheiro dele.
ABIGAIL: (IRÔNICA) É claro que não está. (TOM) Olha, eu não sei se você acredita, realmente, que essa palhaçada toda vai dar em alguma coisa...
MARIA: (CORTANDO) A gente se ama, dona Abigail. A senhora pode não acreditar, mas é verdade. Eu e o Carlos nos apaixonamos.
ABIGAIL: Amor, amor, amor, sempre a mesma desculpa, você não está falando sério, né?
MARIA: Estou sim.
ABIGAIL: Você acha realmente que meu filho ia se apaixonar por uma mulher como você? Olha bem pra você, criatura! Você é uma empregada? E o que uma empregada pode oferecer pra ele? Nada! Você não tem nada que o Carlos precise. (SÉRIA) Maria, meu filho ama outra mulher. Ele está apenas se divertindo com você, passando o tempoRIA)losnada que el nada que eleisa!

r preciso..(TOM) Ele não teve coragem de te dizer isso pessoalmente, então pediu pra que eu falasse com você.
MARIA: Não é verdade.
ABIGAIL: É, o Carlos já sabia que você não iria acreditar em mim mesmo, por isso me pediu para te entregar. Olha isso!
ABIGAIL ENTREGA O ENVELOPE A MARIA, ELA ABRE E PEGA UMAS FOTOS, SÃO FOTOS DE CARLOS COM OUTRA MULHER. MARIA COMEÇA A FICAR NERVOSA. UMA TRISTEZA TOMA CONTA DELA.
ABIGAIL: Tem uma carta aí também. Uma carta de despedida, onde ele fala que tudo não passou de um engano, e até pede desculpa por ter feito você acreditar nessa mentira.
MARIA: (CHORANDO) Não pode ser... Ele não pode me deixar agora, não agora. O que eu vou fazer sozinha?... Eu estou grávida.
A NOTÍCIA CAI COMO UMA BOMBA SOBRE ABIGAIL.
ABIGAIL: Grávida? Como assim? (TOM) Ta bom, tudo bem... (NERVOSA) vamos fazer assim: eu vou te dar um dinheiro, um bom dinheiro pra você se livrar dessa criança. Você precisa tirar essa criança. O Carlos não aceitar um bastardo agora.
MARIA: (DECIDIDA) Não! Eu não vou tirar meu filho.
ABIGAIL: Não seja estúpida, garota, o que você vai fazer da sua vida com um pirralho? Meu filho não vai querer saber dessa criança, ele não vai deixar um bastardinho estragar o grande casamento que ele está planejando para ao final do ano. Você precisa se livrar dessa criança.
MARIA ABAIXA A CABEÇA E CHORA.
CORTA PARA

CENA 26.UM BAR – INT/DIA
ALEX E CARLOS ESTÃO BEBENDO ALGUMA COISA EM UM BAR, UM BAR CHIQUE E REFINADO, ELES ESTÃO SENTADOS PRÓXIMOS AO BALCÃO. HÁ MESAS DE BILHAR ONDE AS PESSOAS SE DIVERTEM.
CARLOS: Já tomei minha decisão, meu amigo. Vou pedir a Maria em casamento hoje.
ALEX: E sua mãe?
CARLOS: Ela vai ter que aceitar, a vida é minha, quem decide sou eu. Acho que essa situação está mexendo com a Maria, ela anda meio estranha, calada... A gente precisa resolver tudo logo antes que piore.
ALEX

É isso aí, nunca te vi tão decidido assim.


UM FUNCIONÁRIO DO BAR SE APROXIMA DELES.
FUNCIONÁRIO: Senhores, já temos uma mesa disponível para vocês.
CARLOS E ALEX O ACOMPANHAM.
CORTA PARA

CENA 27.COBERTURA DE CARLOS – SALA – INT/DIA
ABIGAIL ESTÁ SENTADA IMPONENTE COMO SEMPRE, COM AR DE SUPERIORIDADE. ELA PARECE, FINALMENTE, FELIZ. MARIA ENTRA CABEÇA BAIXA, TRISTE. ELA CARREGA UMA PEQUENA MALA NAS MÃOS.
MARIA: Eu já vou, então. Só coloquei as minhas coisas aqui na mala, a senhora quer ver?
ABIGAIL: Não, não precisa. Eu confio em você, afinal já trabalha aqui há tanto tempo... O motorista vai te deixar na rodoviária. Pegou a passagem que eu comprei pra você?
MARIA: Peguei sim, senhora.
ABIGAIL: Ótimo...
ABIGAIL SE LEVANTA E PEGA NOS OMBROS DE MARIA, NUM FALSO TOM DE AFETIVIDADE.
ABIGAIL: Vai ser melhor pra você. Essa história sua com o Carlos não ia terminar bem mesmo. Eu vou depositar mais um pouco de dinheiro na sua conta, o suficiente para você procurar um bom médico e se livrar dessa criança. Não estrague sua vida, Maria. Tira essa criança!
ABIGAIL BEIJA A TESTA DE MARIA. E A ENCAMINHA A ATÉ A PORTA.
ABIGAIL: Maria, faça um favor para nós duas... Esqueça o Carlos, não volte mais aqui, nem o procure. Eu estou deixando você ir em paz, mas não vou deixar barato caso você queira interferir na vida do meu filho, impedindo ele de ser feliz.
MARIA SAI, ABIGAIL FECHA A PORTA E DEIXA ESCAPAR UM SORRISINHO DE FELICIDADE.
CORTA PARA

CENA 28. RUA DA VILA – EXT/DIA
CLARA SAI DE CASA ACOMPANHADA DE DORA E CARREGANDO UMA MALA. AMARA VEM SE DESPEDIR DA AMIGA, JUREMA ESTÁ COM ELA.
DORA: Vá com Deus, minha filha.
CLARA: Obrigada, Dora...
AMARA: (ABRAÇA CLARA) Amiga, vou ficar aqui torcendo por você. Vai dar tudo certo.
CLARA: Eu espero que sim, Amara. Espero que sim! Eu ainda vou resolver algumas coisas no centro da cidade e de lá vou pra rodoviária.
JUREMA: Olha, nós vamos ficar aqui loucas esperando por você e a menina Deise.
DORA: Como se fizesse alguma diferença você ficar ou não esperando minha nora com a sobrinha né?
JUREMA: Gente, eu to ouvindo um barulho de máquina de costura, ou é alucinação minha?
DORA: Olha aqui, sua jararaca, eu vou te mostrar do que uma costureira é capaz!
JUREMA: Ai, to morrendo de medo, jibóia desdentada!
AMARA: Gente, por favor... Não é hora nem lugar pra vocês duas se pegarem né?
DORA E JUREMA FICAM FAZENDO CARETA UMA PARA A OUTRA, AMARA COLOCA CLARA NO TÁXI. CLARA PARTE, AMARA DÁ UM TCHAU PARA ELA QUE SE DESPEDE DA JANELA.

SEVERA, VESTIDA NUM TERNO BEM COLORIDO APARECE.


SEVERA: Então a Clara decidiu mesmo buscar a trombadinha?
AMARA: Nos poupe de seus comentários, Severa.
SEVERA: E a menina não é uma trombadinha? Aliás, mais uma trombadinha, porque o Abelardo também vai buscar os diabinhos dos netos dele.
AMARA: Ta mais do que certo o seu Abelardo, são seus netos, são responsabilidades dele...
SEVERA: Só quero ver o que vai ser dessa vila com esse monte de piralhos correndo pra lá e pra cá...
JUREMA: Vai ser uma alegria só. Adoro criança brincando.
SEVERA: Vai ser um inferno, isso sim!

CORTA PARA



CENA 29. COBERTURA DE CARLOS – ESCRITÓRIO – INT/DIA
ABIGAIL ESTÁ SENTADA DANDO INSTRUÇÕES AO MOTORISTA QUE ESTÁ DE PÉ OUVINDO-A.
ABIGAIL: Eu quero que você se certifique de que ela vá pegar aquele ônibus, só saia de lá quando ela tiver partido, entendeu? Ela vai fazer algumas compras, e o ônibus sai no início da tarde. Veja ela embarcando e o ônibus partindo.
O MOTORISTA CONFIRMA COM A CABEÇA.
ABIGAIL: Ótimo, agora vá. O Carlos está chegando e não quero que eles se vejam. Vá, vá!
CORTA PARA

CENA 30. CIDADE – EXT/DIA
CENAS DE ARQUIVO DA CIDADE.
CORTA PARA

CENA 31. COBERTURA DE CARLOS – QUARTO DELE – INT/DIA
CARLOS ENTRA NO QUARTO, RETIRA O PALETÓ E O COLOCA SOBRE UMA POLTRONA, ELE COMEÇA A SE DESPIR QUANDO DÁ CONTA DE UM ENVELOPE PARDO SOBRE A CAMA. ELE O PEGA, ABRE E COMEÇA A LER UMA CARTA QUE ESTÁ LÁ DENTRO.
VOZ DE MARIA: (OFF)Querido Carlos, há dias venho ensaiando um jeito de te dizer isso, mas como me faltou coragem, e não tive um bom momento para lhe dizer pessoalmente, decidi escrever essa carta. Nossa relação foi um engano, eu não te amo, nunca te amei, vi em você a chance de mudar de vida, mudar meu status social; mas não consigo mais manter essa farsa, não posso viver longe do homem que amo de verdade. Nesse envelope você encontrará algumas fotos minhas com o amor da minha vida, o verdadeiro amor da minha vida. Gostaria que você me esquecesse, não me procurasse e me deixasse ser feliz. Se você gosta mesmo de mim, não me procure nunca mais. Ass. Maria.
CARLOS ABRE O ENVELOPE COM FÚRIA E RETIRA VÁRIAS FOTOS DE LÁ, ELE PASSA UMA POR UMA DEIXANDO-AS CAIR NO CHÃO. UMA ANGÚSTIA TOMA CONTA DELE, AS LÁGRIMAS BROTAM E ELE CAI NO CHÃO CHORANDO, CONFERE MAIS UMA VEZ AS FOTOS PARA SE CERTIFICAR. CLOSE EM ALGUMAS FOTOS QUE MOSTRAM MARIA E UM RAPAZ ABRAÇADOS E DE MÃOS DADAS.

CÂMERA FECHA NO ROSTO DE CARLOS QUE ESTÁ ARRASADO.


FUSÃO PARA

CENA 32. COBERTURA DE CARLOS – QUARTO DE ABIGAIL – INT/DIA
ABIGAIL ESTÁ DEITADA DE OLHOS FECHADOS NA CAMA. ELA OUVE UMA ÓPERA E DEIXA APARECER TODA SUA FELICIDADE, A CÂMERA PASSEIA POR TODO O CORPO RELAXADO DE ABIGAIL, ELA SORRI COMO SE TIVESSE SE LIVRADO DE UM GRANDE PROBLEMA.
SONOPLASTIA: UM TRECHO DE UMA ÓPERA COM MARIA CALLAS.
CORTA PARA

CENA 33. FAVELA – EXT/DIA
O CARRO DE ABIGAIL PÁRA NUMA FAVELA QUALQUER. MARIA ESTÁ TRISTE, ELA OLHA A COMUNIDADE AINDA DENTRO DO CARRO. O MOTORISTA ESPERA UM POUCO ANTES DE PERGUNTAR.
MOTORISTA: Tem certeza que quer ficar aqui, Maria?
MARIA: Tenho sim, obrigada... Mas faça um favor pra mim, não diga a ninguém que você me deixou aqui não ta? Principalmente pro Carlos e pra dona Abigail.
MOTORISTA: Pode deixar, Maria, ninguém vai saber onde você está. Vou dizer pra todo mundo que te deixei na rodoviária do jeito que me pediram...
MARIA: Obrigada...
MOTORISTA: De nada. E vê se te cuida , menina.
MARIA DESCE DO CARRO COM SUA MALA E FICA PARADA DE PÉ. O MOTORISTA DÁ PARTIDA E SAI.
CORTA PARA

CENA 34. CIDADE – EXT/DIA
CENAS DE ARQUIVO – ANOITECER.
FUSÃO PARA

CENA 35. RODOVIÁRIA – INT/NOITE
CLARA ESTÁ SENTADA ESPERANDO PELO ÔNIBUS, ELA CONFERE MAIS UMA VEZ A PASSAGEM E O HORÁRIO. CARLOS PASSA APRESSADO POR ELA, ELE CONFERE ALGUNS ÔNIBUS, ESTÁ ANSIOSO PROCURANDO POR MARIA. COMO NÃO ACHA NINGUÉM, DESANIMA E SE SENTA PRÓXIMO A CLARA.

CLARA: Procurando alguém, moço?
CARLOS: (PERCEBENDO CLARA) Hã? Ah, sim... Minha namorada.
CLARA: Vocês brigaram?
CARLOS: Não... Na verdade, nem tivemos tempo. Ela sumiu sem falar comigo.
CLARA: Não se preocupe, ela volta.
CARLOS: Acho que não. Acho que não vamos nos encontrar nunca mais. Eu nunca mais vou ser feliz na vida.
CLARA: Claro que vai. Todo mundo tem direito a ser feliz, se você não foi feliz com essa mulher talvez ela não seja sua alma gêmea.
CARLOS: Eu não consigo imaginar minha vida sem a Maria.
CLARA: (PASSA A MÃO NO ROSTO DE CARLOS) Ás vezes, a felicidade está mais perto da gente do que imaginamos.
CARLOS OLHA PARA CLARA. ELE A ENCARA COMO SE VISSE ALGO DE ESPECIAL NELA. CLARA VÊ QUE SEU ÔNIBUS ESTÁ SAINDO.
CLARA: Meu ônibus está saindo. Foi um prazer.
CARLOS: O prazer foi todo meu...
CARLOS OBSERVA CLARA PEGAR O ÔNIBUS. ELES ACENAM UM PARA O OUTRO. QUANDO O ÔNIBUS PARTE, CARLOS VAI EMBORA, SÓ ENTÃO A CÂMERA ABRE MAIS E VEMOS QUE LEO ESTAVA DE LONGE OBSERVANDO TUDO.

A CÂMERA FECHA NO ROSTO DE LEO QUE ESTÁ ENFURECIDO.


CORTA PARA

CENA 36. CIDADE – EXT/DIA
CENAS DE ARQUIVO – PASSAGEM DE TEMPO

LEGENGA: MESES DEPOIS.
CORTA PARA

CENA 37.COBERTURA DE CARLOS – SALA DE JANTAR – INT/DIA
ABIGAIL ESTÁ MUITO FELIZ JOGANDO CARTAS COM SUA AMIGA VIDA.
VIDA: Estou impressionada com sua felicidade, Abigail. Parece até que viu passarinho verde, como dizem.
ABIGAIL: Não vi passarinho nenhum, minha amiga, nem verde, nem amarelo, nem de cor nenhuma. Mas eu estou muito feliz mesmo!
VIDA: E qual seria o motivo para tamanha felicidade?
ABIGAIL: Digamos que a vida tem sido muito boa comigo. Há alguns meses pensei que todos os meus planos tinham ido por água abaixo, mas hoje vejo que tudo corre como eu sempre desejei.
VIDA: Está falando do noivado de Carlos e Leda, né?
ABIGAIL: Justamente.
VIDA: Já imaginava. (TOM) Só tem uma coisa que não entendo: o Carlos amava tanto a Maria. Aliás, você teve alguma notícia dela?
ABIGAIL: Não. Ela deve ter se casado com aquele namoradinho que ela tinha lá na cidade natal dela. Pelo menos foi isso que ela disse que ia fazer.
VIDA: Sabe que até hoje eu não entendi essa história da Maria ter um namorado de infância, eu pensava que ela era apaixonada pelo Carlos.
ABIGAIL: Pra você ver como essa gente não é confiável... (TOM) não é sua vez de jogar?
VIDA: Claro, e acho que eu ganhei...
ABIGAIL: (OBSERVA AS CARTAS VENCEDORAS DE VIDA) Parabéns, Vida. Eu ando tão feliz, que nem vou discutir sua vitória hoje. Estou até aceitando essa derrota nas cartas.
ABIGAIL SORRI FELIZ.
CORTA PARA

CENA 38. MANSÃO DE RAUL – SALA – INT/DIA
CARLOS ESTÁ ESPERANDO NA SALA, LEDA DESCE, RADIANTE, AS ESCADAS.
LEDA: Boa dia, meu amor. Demorei muito?
CARLOS: estou acostumando com isso, Leda.
LEDA: Seu bobo.
CARLOS: Vamos logo, senão ao invés de almoçar, nós vamos é jantar.
OS DOIS SE BEIJAM E SAEM.
CORTA PARA

CENA 39. CASA DE DORA – SALA – INT/DIA
CLARA COLOCA ROUPAS DENTRO DE UMA MALA, DORA A OBSERVA.
DORA: Tem certeza do que tá fazendo, minha filha?
CLARA: Tenho sim, Dora. Eu não vou ficar aqui ouvindo desaforos do Léo, não vou mesmo.
DORA: Mas pensa bem, Clara, onde você vai morar?
CLARA: No casarão!
DORA: Naquele casarão abandonado? Mas aquilo é um perigo!
CLARA: Ele está ótimo, Dora, eu já verifique. E depois, o pessoal da vila tá me ajudando. O seu Zeca já até pintou tudo pra mim. E eu e Amara já fizemos uma faxina lá. Por enquanto é lá que eu vou ficar. Aquele casarão não tem dono mesmo.
DORA: Minha filha, você sabe que me corta o coração ver você saindo de casa desse jeito.
CLARA: Eu sei, Dora. E eu nunca vou esquecer o carinho que você teve por mim. Nunca. Mas eu tenho que ir.
LEO APARECE.
LEO: Deixa ela ir, mãe. Aqui não é lugar de adúltera.
CLARA: (SE APROXIMA DE LEO) Um dia você vai ver que eu não te trair, Léo. Mas aí, vai ser tarde demais!

CORTA PARA



CENA 40. FAVELA – EXT/DIA
STOCK-SHOT DE AMBIENTAÇÃO.
CORTA PARA

CENA 41. BARRACO – INT/DIA
BARRACO POBRE DA FAVELA, ONDE QUARTO-COZINHA E SALA SÃO OS MESMOS, MARIA ESTÁ SOFRENDO DEITADA NA CAMA. ELA ESTÁ SENTINDO DOR. UMA SENHORA IDOSA ESTÁ PRÓXIMA A ELA AJUDANDO-A.
PARTEIRA: Traz mais água, por favor.
DINA FICA PARADA OLHANDO PARA A PARTEIRA E MARIA.
PARTEIRA: (PARA DINA) Algum problema, minha filha? Cadê a água?
DINA: A água? Ah é... eu já vou buscar.
DINA SAI, LOGO ELA VOLTA TRANZENDO UMA BACIA COM ÁGUA.
PARTEIRA: (PARA DINA) Me dá aqui a água. (PARA MARIA) Vamos, querida, faz força. Ta vindo, ta vindo... vamos.
DINA: (SEGURANDO A MÃO DE MARIA) Vamos, amiga, você consegue.
CLOSE NO ROSTO DE MARIA QUE SOFRE DE DOR. ENTÃO SE OUVE UM CHORO DE CRIANÇA.
PARTEIRA: É uma menina, uma linda menina...
DINA: É linda, Maria, sua filha é linda!
MARIA CHORA E RI AO MESMO TEMPO. A PARTEIRA ENROLA A CRIANÇA E ENTREGA A MARIA. A MÃE ABRAÇA A CRIANÇA E SE EMOCIONA.
MARIA: (CHOROSA) Beatriz... Minha linda Beatriz, seja bem-vinda ao mundo, Bia.
A PARTEIRA E DINA FICAM EMOCIONADAS COM A CENA. CLOSE NO ROSTO FELIZ DE MARIA ABRAÇADA COM BEATRIZ.

CONGELA

FINAL DO CAPÍTULO





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