Do feitio de aldeia aos ares de cidade – a constituição do urbano no extremo oeste de Minas Gerais



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DO FEITIO DE ALDEIA AOS ARES DE CIDADE – A CONSTITUIÇÃO DO URBANO NO EXTREMO OESTE DE MINAS GERAIS
Sandra Mara Dantas
Doutora em História

Professora Adjunta UFTM



sandra.dantas@netsite.com.br

Desde o Renascimento, a cidade foi captando a atenção de diferentes estudiosos como poetas, teólogos, filósofos e tratadistas. Porém, foi, a partir do final do século XVIII e ao longo do XIX, que a cidade adquiriu maior notoriedade com estudos de historiadores, sociólogos, arquitetos e outros, preocupados em entender a especificidade do viver urbano, decifrando sua trajetória para compreender a variedade dos viveres, abrigados nas diferentes formações do urbano.

A cidade, que existe desde a Antiguidade, adquiriu, no mundo contemporâneo, novos sentidos e um deles foi o de ser denotativo da superioridade humana perante a natureza. E, mesmo não sendo criação do mundo ocidental, foi nele que o mundo urbano adquiriu notória importância. Durante o século XVIII, a cidade estava associada à cortesia e aos bons modos; no século seguinte, vinculou-se à idéia de civilização, que implica o resultado cumulativo de um processo de refinamento da maneiras e abrandamento dos costumes.

É nesse emaranhado de transformações que a cidade apareceu como elemento imprescindível no processo civilizador, como querendo dizer que um grupo humano só pode ser denominado civilizado caso suas experiências se desenrolem no mundo urbano, porque é nele que se manifesta a racionalidade, o planejamento, a ordenação, a capacidade criativa e inventiva.

A filósofa Françoise Choay (2000) afirma que o urbanismo se estruturou como campo de saberes no início do século XX e, diferentemente de outras preocupações com o urbano, possui um caráter reflexivo, crítico, que se autodenomina científico, uma tentativa de resposta aos problemas causados pela introdução da máquina no cotidiano do homem, isto é, decorrentes da industrialização.

O contraste entre as formas de vida no campo e na cidade adquiriu ambivalência com o advento do período moderno (meados do século XVIII), marcado pela racionalidade, pelo desenvolvimento do saber técnico-científico. Ora o campo é associado a uma forma natural de vida, fonte de subsistência, ora à limitação da ação humana, pois é atraso. Outrossim, a cidade é positivada como centro político, cultural e econômico, locus da história e da civilização; outras vezes, é negativada como o local do barulho, das ambições e disputas. E, como as experiências historicamente variadas, campo e cidade encerram não só práticas singulares, como também auxiliam a constituir outras; entretanto, a ambivalência é uma imagem persistente (WILLIAMS, 1989). Na cultura ocidental, a vida e o comportamento urbanos são aceitos como preferíveis para o homem. Este se educa e se civiliza na cidade, porque, de acordo com as bases dessa cultura, a natureza humana precisa ser moldada aos ditames da civilização. Se não for civilizado, pode entregar-se a práticas odiosas, retornando ao estado de natureza. A história se desenrola, preferencialmente, na cidade.

Sob essa argumentação, o homem citadino representaria o êxito da idéia de progresso. Está em contínua movimentação no ir e vir pelas ruas da cidade, buscando superar-se e construir sua realidade. E, conquanto seus contatos com outrem sejam mais freqüentes que os do homem do campo, suas relações tendem a ser superficiais; são relações econômicas, políticas, sociais para satisfazer determinados interesses e têm curta duração, sem estabelecer vínculos afetivos e duradouros.

Objeto intrigante, alvo da atenção de estudiosos de diversas áreas do conhecimento, como filósofos, arquitetos e urbanistas, sociólogos, geógrafos e historiadores, muitas são as abordagens a respeito de constituição e dinâmica da cidade nos múltiplos tempos e espaços, fato que se poderia denominar de um campo de teorias da cidade. Teorias, sim, no plural, porque não há teoria única capaz de explicar todas as cidades. Estas são produzidas pelas diferentes experiências dos homens; logo, são multifacetadas e desconhecem homogeneidade.

De acordo com a filósofa brasileira Bárbara Freitag (2006), a teorização a respeito da cidade pode ser remontada aos gregos e, a partir do século XVIII, é possível mapear quatro principais “escolas” que elaboraram teorias da cidade: a alemã, a francesa, a anglo-saxônica do Reino Unido e a anglo-saxônica americana. Tendo nomes como Georg Simmel, Max Weber, Walter Benjamin, a “escola” alemã privilegia a história e a cultura numa abordagem inter e multidisciplinar. Seu fundamento é que as cidades são formações históricas singulares que, em cada momento, formulam uma cultura específica. A “escola” francesa é pragmática, enfatiza a racionalidade e a utopia, preocupam-se com a ocupação, a produção e o espaço das cidades, sem se ater à sua evolução histórica. O grande nome dessa escola é Georges Eugène Haussmann. A “escola” britânica é mais pragmática e utilitarista, privilegiando o planejamento urbano, que auferiu êxitos nas metrópoles européias, no início do século XX, contribuindo para sanear e desarticular os movimentos sociais, evitando as revoluções, definindo espaços para as atividades e os grupos. A “escola” anglo-saxônica americana é bem contemporânea e se preocupa com os desenvolvimentos macroestruturais do século XX e início do XXI. O vocábulo escola é utilizado pela autora no sentido de reunir um conjunto de teóricos que pensam a questão urbana no contexto de sua cultura e de seu tempo, desenvolvendo pensamentos mais ou menos coerentes e convergentes.

Das “escolas” apresentadas por Freitag, a francesa foi a mais profícua no Brasil, durante o século XIX e a primeira metade do século XX. E dela podemos aventar que uma de suas heranças é o princípio de planejamento urbano como modo de articulação racionalidade – utopia. De um lado, os princípios racionais e técnicos, que envolvem o planejamento como traçado, demolição e construção, demandam profissionais que dominem conhecimentos científicos específicos; o que lhes assegura confiabilidade e os reveste de respeito. Por outro lado, o planejamento abriga a utopia de tornar a urbe ideal, tornar o indesejável desejável; o feio tornar-se belo; garantia de ordem, harmonia e adequação da natureza às necessidades do homem. Enfim, o planejamento urbano parece querer adequar o saber científico à utopia de edificar um paraíso humano na terra.

Ao discutir a constituição dos saberes históricos sobre a cidade, a historiadora Bresciani (2004) afirma que a ciência urbana, ou urbanismo, não é neutra ou definitiva. Desde seus começos, a cidade é lugar de tensão e o urbano se estrutura no e pelo debate político; o que quer dizer que, nos saberes urbanos, estão implícitos projetos. Viver na cidade, afirma a autora, contribuiu para a formulação de uma identidade e para o desenvolvimento de uma nova sensibilidade. Na cidade estão presentes possibilidades de ação que, diuturnamente, vão (re)construindo-a e, nas diferentes experiências de seus moradores, materializam-na, às vezes, de forma positiva, outras vezes, negativamente. Mesmo existindo um corpo de saberes e especialistas para pensá-la, a cidade não alcança o patamar do ideal porque os habitantes dela se apropriam diferentemente, de acordo com seus projetos, seus interesses e seus anseios; o que acarreta não apenas uma série de conflitos, como também uma nova paisagem e modos específicos de vivência.

A autora afirma que a cidade, por ter origens plurais, possibilitou a formação de um campo multifacetado de saberes e de poder; e é possível adentrá-la por portas conceituais como a questão técnica que diz respeito à apreensão do urbano a partir de dados sensíveis, para permitir a intervenção do Estado. A problematização da pobreza para criar mecanismos de controle abre a segunda porta, ao passo que a terceira e a quarta dizem respeito à formação das novas identidades sociais e às novas formas de sensibilidade para educar o cidadão. Ao dar voz aos diferentes sujeitos e ao modo como produzem os sentidos e sua realidade, está se referindo às últimas portas conceituais pelas quais se vislumbra que os problemas da cidade não são naturais, as soluções para eles são culturais, contextualizados e envolvem interesses diversos. E é preciso compreendê-la como espaço politizado, onde se instauram possibilidades de ação que vão se superpondo e estruturando o urbano.

Ao longo da história, é possível observar as diversas nuances do urbano, mas é a cidade moderna que se caracteriza como condição sine qua non para a civilização. Espaço de tensões tornou-se imprescindível a elaboração de um cabedal de conhecimentos para problematizar as diferentes dimensões da cidade – o que implica dizer que a questão urbana foi tomada como problema, isto é, a vida, na cidade, envolve problematização da vida dos homens para assegurar a consecução dos modos civilizados. Daí a ênfase nas práticas que visam ao planejamento para a construção da cidade ideal ou, pelo menos, sua aproximação. Como a cidade não é um fato novo, a inovação está na transformação que o fenômeno urbano propiciou à humanidade, a partir do século XIX, quando parecia abarcar todos os homens. E, doravante, o nível de desenvolvimento de uma sociedade passou a ser aferido de acordo com seu desenvolvimento urbano, podendo assim haver diferentes gradações civilizacionais. Havia, entretanto, certa esperança de universalizar o projeto de modernidade, de utilização da razão humana, suplantando os mitos e crendices e, com a modernização dos meios que garantem a subsistência, acreditava-se que o homem se tornaria moderno e civilizado.

O nascimento das cidades no Brasil está ligado ao relacionamento entre o Estado e a Igreja, esta que exercia um papel político e social, normativo e institucional. Geralmente, a aglomeração humana se dava ao redor de um templo ou capela, que era a garantia de auxílio mais próximo, de serviços institucionais (registros de nascimento, batismo, casamento) e eclesiásticos.

À medida que ocorria o reconhecimento das categorias eclesiásticas para uma construção, quais sejam capela, paróquia e matriz, o reconhecimento civil do povoamento era simultâneo, ou seja, a construção da capela sinalizava o povoado, a paróquia designava o arraial e, por fim, a matriz identificava a freguesia. Dessa relação Estado – Igreja na constituição da cidade no Brasil, o rural é instituído do urbano. As sesmarias, ao serem conferidas a donatários que dispusessem de meios para desbravar, povoar e colonizar o interior do país possibilitaram a formação do embrião do urbano. A construção da capela implicava o adensamento de população e a garantia de atenção do poder administrativo. Embora obtivessem o reconhecimento administrativo, os primeiros núcleos “urbanos” do país padeciam com o descaso das autoridades, ausência de infra-estrutura, sem preocupação com a configuração do espaço, predominando a tradição sinodal. Com o adensamento e crescimento desse primeiro núcleo “urbano”, a freguesia ganhava o status de vila.

A criação de uma vila teria que atender algumas exigências: ocupação anterior do território, a área assistida pela matriz deveria contar com outros arraiais comprovando não se tratar de um lugar ermo, delimitação das fronteiras, designação da sede do município, determinação dos logradouros públicos (cadeia, câmara, fórum). Após a legitimação da vila ou sede de comarca, a categoria almejada era cidade e esta obedeceu mais a razões geopolíticas que o crescimento e desenvolvimento urbanos.

Ao longo do século XIX, as transformações nos campos econômico e político, bem como no domínio cultural, coincide com o processo de constituição de uma rede de cidades no interior do país, como o extremo oeste de Minas Gerais, denominado Sertão da Farinha Podre.

Tradicionalmente é aceito que a paisagem natural da região esteve desconhecida até fins do século XVII; porém ganhou a atenção dos homens brancos, no contexto do processo de ocupação e exploração do interior brasileiro, realizado pelos bandeirantes. Pelos idos de 1680 as incursões bandeirantes, saídas da capitania de São Vicente, rumo aos rincões do território, buscavam não só ampliar os limites territoriais, como também expulsar os indígenas e também criar áreas de povoamento. Foi por essa época que a bandeira liderada por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera I, atravessou as paragens rumo a Goiás. No entanto, a efetiva exploração só se deu em meados do século XVIII, quando uma expedição penetrou o território com vistas a atingir a região aurífera de Goiás. A picada aberta pela expedição deu origem à estrada real que ficou conhecida como Estrada do Anhanguera. E, se inicialmente a região foi passagem para outra, o movimento de povoamento e ocupação não pode ser desvinculado do projeto de expansão de Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX.

Diante da paisagem um tanto inexplorada, chegaram ao território os primeiros geralistas, levas de homens vindos de outras paragens, interessados na concessão de sesmarias. Quando os primeiros deles atravessaram a região, em meados do século XVIII, perceberam a presença dos nativos caiapós pelas esparsas habitações, pelas áreas cultivadas e pelas queimadas, prática utilizada para preparar uma nova área de cultivo. Na estrada aberta pelos bandeirantes, houve a formação de aldeamentos para que servissem de defesa do território, pouso para os viajantes e rede de planejamento e expedição para incursões ao território para apresar os indígenas.

Os primeiros aldeamentos da região foram Santana do Rio das Velhas, Rio das Pedras1 e Piçarrão2. Das margens do rio Paranaíba ao Rio Grande, existiram 18 aldeias, a maioria delas nascidas nas proximidades de rios e córregos e/ou à beira de caminhos. E, além dos nativos, havia os quilombos que também ofereciam tenaz resistência, sendo o Quilombo do Ambrósio3, com uma população estimada em mil habitantes, o mais conhecido e temido.

Segundo Amantino (2001), durante o século XVIII, a então capitania de Minas Gerais era a região mais populosa e urbanizada da colônia e era necessário expandi-la como parte de um projeto mais amplo de tornar o Brasil um lugar civilizado, preocupação que se tornou mais evidente no século XIX. Nesse sentido, a ocupação e povoamento das várias regiões mineiras constituía um duplo movimento de busca de riquezas e legitimação dos valores da civilização, aqui compreendida como “padrão de conduta, um controle racional e emocional” (ELIAS, 1994, p.23) que, juntos, constituem o que se denomina civilidade.

Concordando com o argumento de que havia um processo civilizador em curso no Brasil, no sertão mineiro, considerado “área rebelde que precisava ser controlada e domesticada”, ele não se restringia ao aspecto racional, envolvia a conformação dos várias dimensões da vida dos indivíduos, não somente o aspecto pragmático; as subjetividades também deveriam ser civilizadas.

As terras da região conhecida como Sertão da Farinha Podre se inserem no sertão oeste mineiro a ocupação e exploração do território pode ser dividida em fases. A primeira delas é aquela que antecede a fixação do homem branco, quando os habitantes eram os indígenas e os quilombolas, fase que se encerrou por volta de 1746. A destruição dos quilombos e a expulsão dos caiapós marcariam as segunda e terceira fases com envio de homens para “domar” os oponentes e instituir um povoamento fixo. Por esse tempo, há indicações de que, por volta de 1736, foi fundado um povoamento em um chapadão chamado Tabuleiro, que não suportou o ataque dos caiapós, sendo destruído. Algum tempo depois, a 18 km dessa antiga povoação, fundou-se uma nova no lado esquerdo do Rio das Velhas, era o Desemboque.

Alguns sertanistas, vindos da região de Pitangui, colaboraram na criação do arraial Nossa Senhora do Desterro do Desemboque concomitante à descoberta de jazidas na cabeceira do rio das Velhas, por volta da década de 1730. Ele, entretanto, só alcançou vigor no final da década de 1750, com a expulsão dos caiapós e dos quilombolas adjacentes. Ergueu-se a igreja ao orago que deu nome ao povoado que cresceu significativamente alcançando quase 200 fogos; o que perfazia mais de 1.200 habitantes.

Vinculado à capitania de Goiás, o arraial de Desemboque teve seu apogeu entre os anos de 1764 e 1775 e, durante esse período, além do aumento de sua população e da movimentação em seu interior, atraiu inúmeros aventureiros, facilitando o contrabando do ouro. E o bloqueio da passagem para a capitania de São Paulo (1778) coincidiu com o início da decadência do arraial. A prosperidade do arraial não se deveu somente à exploração de suas jazidas auríferas. Embora a riqueza abundasse no povoado de Desemboque, sua população vivia às voltas com a violência e os desmandos dos homens ricos do lugar. Em carta ao governo da capitania, a índole da população local foi assim descrita:
Os habitantes do Rio das Velhas ou das Abelhas, sam e vivem desatados de todo os vínculos, as leis de obrigar entre eles nam tem fôrça nas consciências, nam tem recusos e por conseqüência nam tem fidelidade para com os Príncipes, nem votos para as promessas, nem lealdade para os juramentos, nem amor para com as familias, nem para o trato e civilidade, nem respeito para com Deus nosso Senhor.(PONTES, 1979, p.59)
A descrição permite intuir a preocupação com um padrão de comportamento e atitude que se esperava que os homens tivessem e que, no entanto, ainda não se tornara real. Os homens precisavam aprender as práticas civilizadas para com as autoridades, os negócios e a vida social e familiar. Não bastava a riqueza material, a edificação de um agrupamento de homens brancos; eram necessários os princípios da civilidade, do bem estar e do bem comportar-se.

O declínio da economia no Desemboque estancou a migração. Do decadente arraial, partiam expedições para outras áreas, buscando novas oportunidades. Nos primeiros anos do século XIX, algumas incursões de sertanistas foram realizadas a oeste, para averiguar as possibilidades de expansão do território e aquisição de terras de cultura. Nessas incursões, originaram-se povoamentos que se desdobraram em arraiais, outros em vilas e outros em cidades.

Na formação dos povoados, a contribuição das relações consangüíneas e de afinidade foi assaz importante. Os pioneiros chegavam à região para tomar posse da terra e demarcar os limites. Retornavam a seus lugares de origem para buscar a parentela e efetivar a colonização da área posseada. Aos poucos, esses primeiros habitantes incentivavam que outros parentes e amigos se transferissem para a região, constituindo, assim, os arraiais. A essa altura, os aldeamentos primitivos da região também estavam em vias de desaparecimento. E, por ocasião da transferência do território de Goiás para a jurisdição de Minas Gerais (1816), a população estava estimada em aproximadamente 3.900 habitantes e a notícia da fertilidade das terras atraiu famílias de outras regiões que foram adensando e se somando, não somente às terras, mas às esperanças dos que lá já se encontravam. E, à proporção que esses pioneiros iam se fixando, a identidade territorial e os grupos de vizinhança também se definiam. Na tentativa de dimensionar a efervescência que vivia a região, convém indicar que, entre 1820 e 1850, foram fundados os povoamentos de Dores do Campo Formoso, São José do Tejuco, Monte Alegre, Abadia do Bom Sucesso, Campo Belo, Brejo Alegre, Dores de Santa Juliana, Santa Rita dos Impossíveis e São Pedro de Uberabinha4.

A vida no sertão da Farinha Podre era majoritariamente vivida nas grandes fazendas. Seu desenrolar era caracterizado por visitas entre vizinhos e compadres, os sonhos casadoiros das sinhazinhas e posterior casamento entre os jovens (preparados pelos interesses dos pais), os cuidados e mandos das mulheres sinhás para ordem, asseio e disciplina de suas casas, a dedicação dos homens aos negócios com a lavoura ou com o gado. O cotidiano dos vários trabalhadores (escravos e livres), distribuídos em ofícios masculinos como a preparação para apresamento de gado bravio, os carreiros, os vaqueiros, os peões, os carpinteiros, os arrieiros; e em ofícios femininos como os trabalhos na casa e na cozinha, preparo de comidas e quitandas, cuidado com os afazeres dos quintais e galinheiro, as lavadeiras, as fiandeiras. Sem esquecer-se de outros agregados sem ônus para o dono das terras ou empregados contratados, a preparação de festas e as celebrações diversas.



No arraial, a movimentação ocorria aos finais de semana e dias santos. Embora possuísse uma população sedentária, de pequeno número, a maioria dos homens e mulheres do lugar passava a maior parte do tempo fora, empregada em trabalhos nas fazendas; e muitos desses indivíduos, de posses modestas, eram alfaiates, fiandeiros, ferreiros. Já os ricos proprietários, além de suas fazendas, possuíam casas no arraial e constituíam a população temporária. Entretanto, nos finais de semana, a população se reunia seja para ir à missa, vender produtos e víveres na praça, visitar os parentes e amigos, participar de festejos, articular e estabelecer parcerias políticas.
Domingo. O sino repicava desde o alvorecer a anunciar que havia missa. O aspecto era festivo, no trajo adomingado do povo. Os roceiros que chegavam para cumprimento do preceito, consoante as ligações de parentesco ou amizade, apeavam-se às portas dos ranchos de capim, amarrando os cavalos nas estacas ou árvores próximas. Antes do toque de entrada, os caminhos se povoavam de fiéis. Mulheres e crianças se agrupavam na nave, ajoelhadas ou sentadas no chão, à espera do ato devocional. (CHAVES, 1943, p.213)
A bucólica descrição do memorialista Camilo Chaves a respeito da agitação do domingo em um arraial do Sertão da Farinha Podre aponta certa morosidade no cotidiano, a persistência de modos rurais daqueles que habitavam o embrião urbano. Os povoamentos possuíam uma aparência rudimentar, quase perdidos no sertão, e, diante dos desafios, era fundamental demonstrar aos homens e mulheres que se arriscavam nessa parte do território mineiro, as vantagens econômicas ou de prosperidade social, tocando suas sensibilidades, movendo suas entranhas para que se sentissem partícipes no exercício de construção de um novo tempo, como demonstra o sermão dominical do padre do arraial de São José do Tejuco (séc.XIX), do qual desenvolveria a atual cidade de Ituiutaba:
__ Meus amados filhos. Aqui estamos reunidos na nossa igrejinha, para mais um ato de culto a Deus nosso Senhor. Bem modesto é o nosso templo, modesto como êste lugarejo, que surge no sertão a atestar o expandir desta grande pátria, no ato de posse do seu imenso território. Maiores desertos já percorri, (...) Hoje, aqui estou, mercê de Deus, a participar do ingente esfôrço que fazeis para levantar bem alto, como expressão e progresso, esta terra privilegiada na formação dêste país, primeiro sinal de posse e cultura, em todo centro povoado, é a igreja. (...) Um povoado tem a sua capelinha, uma vila terá a sua igrejinha coberta de telhas, a cidade já ostentará a sua matriz armada de tôrres, enquanto a capital eleva o céu as agulhas altaneiras das catedrais. É que a fé cresce com o povo, com o seu progresso. Bem humilde é, na verdade, o nosso arraial de São-José, onde se planta este minúsculo templo, mas um dia virá em que aqui se alinharão ruas edificadas de uma populosa cidade. Então, no lugar desta, levantar-se-á, altaneira, a matriz, à feição daqueles tempos gloriosos do futuro. Mas aquela realização, meus filhos, tem de ser empreendida por nós mesmos, no esfôrço conjunto e incessante de trabalharmos pelo progresso material da terra que habitamos. (...) A empresa é grande, na verdade, pois o nosso povoado nem sequer adquiriu forma. Vamos começar pelo alinhamento das ruas, para que se construam as novas habitações. (...) Esforçai-vos, pois, em colaborar comigo e melhorais as vossas habitações. (CHAVES, 1943, p.213)
Animar os homens, estimulando-os a não recuarem diante das dificuldades do cotidiano como o enfrentamento de remanescentes indígenas, a construção de habitações, a garantir o abastecimento de água, a aquisição de produtos manufaturados eram desafios que urgiam um planejamento e uma ação efetiva. Os arraiais ainda eram sertanejos no sentido de que hábitos rurais se mesclavam aos novos padrões de comportamento, de ser e de estar considerados urbanos, por isso mais civilizados. E só lentamente os novos hábitos foram se formando.

Nesse tempo, o Triângulo Mineiro era “boca de sertão”, isto é, zona de fronteira, que passava por período de inserção nos mores civilizados com a dizimação dos nativos e dos animais bravios, a derrubada de matas e escolha de áreas férteis para plantio, o provimento de víveres e abastecimento de água, as edificações para moradia e trabalho, a ereção de ermida para as práticas religiosas, a constituição do arremedo daquilo que viria a ser o mundo urbano. Estar à “boca do sertão” constituía uma ponta pioneira para avanço sobre regiões vazias, onde as possibilidades de riquezas pareciam se avolumar.

Como importantes pontos de expansão no processo de interiorização do país, as “bocas de sertão” foram os principais entrepostos comerciais de regiões desconhecidas da população litorânea. Ao longo do século XIX, o Sertão da Farinha Podre era uma “boca do sertão”, e, durante o Segundo Império, a região alcançou certa notoriedade. Várias de suas povoações se tornaram entreposto de comercialização de gado para os atuais estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A movimentação do lugar contribuiu para que, em 1874, a região tivesse seu nome alterado para Triângulo Mineiro, devido à sua forma geográfica se assemelhar a essa figura geométrica; e, por estar entre os rios Grande e Paranaíba. E objetivando validar suas percepções, os grupos sociais triangulinos lutavam para que em nada tivessem que invejar de outros.

A chegada da ferrovia carreou para três cidades da região – Uberaba, Uberabinha e Araguari – esperanças de progresso e inserção em mundo mais moderno. Interrompendo o isolamento e a distância da capital da província e do país, a inauguração da ferrovia representou a oportunidade de visibilidade perante outras localidades, também acrescentou população, movimentação comercial e, principalmente, rompeu com o significado negativo de sertão ermo. E, à medida que as transformações se acentuavam, o passado sertanejo perdia valor.

A ferrovia chegou ao Triângulo Mineiro pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, nascida em 1872, por iniciativa de um grupo de fazendeiros paulistas, para escoar a produção cafeeira. Inicialmente na província de São Paulo, a Companhia recebeu concessão para expandir seus trilhos por Minas Gerais e Goiás. Em 1889, os trilhos ferroviários foram inaugurados em Uberaba, seis anos depois em Uberabinha e, no ano seguinte, em Araguari.

A ferrovia foi deveras importante para a transformação dessas cidades. Porém não é possível atribuir exclusividade a esse fator. Primeiramente voltadas para a economia agropastoril, outros fatores também interferiram no processo de constituição do mundo urbano delas. Na trajetória de construção das experiências e das vivências, os moradores foram elaborando respostas para suas indagações e demandas; utilizando as ferramentas (materiais e simbólicas) para dar forma a seus anseios; compondo uma nova paisagem pela transformação do território; apropriando-se dos meios disponíveis, edificaram moradias, domaram animais, cultivaram o solo. E, nesse exercício de dar forma a seu mundo social, evidenciaram-se novas representações, novas práticas, escrevendo uma história de sentido peculiar para cada um deles.

Durante a formação dos arraiais na região, o maior ícone do progresso foi carro de boi visto que ele sobre as duas rodas em uma cantilena triste, os víveres e equipamentos de subsistência eram transportados para os vários locais para atender aos moradores. Ele transportava o material e o imaterial, as notícias e as novidades também chegavam pelo pisotear dos bois que arrastavam o carro. Entretanto, a ferrovia mudou esse quadro.

Criada na Inglaterra, para transportar o carvão das minas, a ferrovia transformou sonhos, hábitos, diminuiu as distâncias, tornou-se símbolo do mundo capitalista, deu concretude ao mercado mundial, tornou-se parâmetro para conferir o desenvolvimento de uma região, facilitou os processos de urbanização e modernização. No Brasil do final do século XIX, a ferrovia representou importante meio de interiorização e contribuiu para que muitas cidades surgissem nas pontas dos trilhos, acreditava-se que o país receberia maior impulso com a instalação de trilhos nos diversos pontos e regiões como “espectros de civilização e progresso”. Por onde o trem aportou, uma nova paisagem surgiu, novos hábitos sociais foram moldados, redefinindo o sentido de tempo; a chegada do trem marcava as horas, trazia as novidades, agregava um número de pessoas seja para a sociabilidade e lazer, seja para os negócios. Transportando mercadorias e pessoas, a ferrovia levou às vilas e cidades do Triângulo Mineiro, os sonhos de progresso e civilização, contribuindo para a transformação da paisagem. E, doravante as cidades ganharam novo impulso, também queriam se inserir na modernidade.

A modernidade aqui referida não designa um período cronológico, “é o que há de poético no histórico, de eterno no transitório”, situa-se na dimensão da cultura (LE GOFF, 2003, p.213) e adquire força no século XIX. É o sentimento de ruptura com o passado e instaura a oposição antigo/moderno, pela qual o primeiro reporta a um passado exemplar, mas já ultrapassado e o segundo se enreda na expectativa de crescimento contínuo. Diante de condições históricas aparentemente favoráveis, em que constantemente o homem se deparava com novidades, progresso, civilização, evolução e modernidade tornaram-se praticamente equivalentes.

Segundo Nestor Canclini (2003), a modernidade implica quatro projetos: emancipação, que envolve a racionalização da vida social e o individualismo; a expansão do conhecimento e do domínio sobre a natureza; a renovação, pela busca de aperfeiçoamento e inovação; a democratização, pela educação que garante a evolução racional e moral. Todavia, ela é contraditória porque a execução de um projeto pressupõe a anulação de outro. Daí seu hibridismo, em que o antigo e o novo convivem. A equivalência entre os conceitos pode ser visualizada na tentativa das elites brasileiras em construírem uma nova sociedade, desvinculada do passado escravista e colonial, na passagem para o século XX. Em clara adesão ao moderno, em sua materialidade e seu simbolismo, novos equipamentos e princípios foram implantados; porém, sem ameaçar seu poderio. Ou seja, dentre os projetos da modernidade, a democratização não seria incorporada.

A emancipação de inúmeras vilas brasileiras possibilitou não apenas visibilidade, significou o início de um processo de modernização do interior do país. Os capitais liberados, no último quartel do século XIX, especialmente na região sudeste, permitiram investimentos nas cidades e na estrutura que facilitam seu movimento: ferrovias, incentivo a atividades industriais, abertura de estradas, ampliação dos meios de transporte e aquecimento do mercado interno. Nas terras do Triângulo Mineiro, as vilas que se emanciparam também lutavam por se modernizar, processo que não se restringia aos aspectos objetivos, envolviam também as sensibilidades. A emancipação foi o primeiro passo, estava em curso um projeto de fabricação de uma cidade moderna.

Porém, aparentemente universalista, o projeto civilizador nas cidades do Triângulo Mineiro era excludente e não abarcou todos os grupos sociais. A entrada na modernidade, em meio às idéias de progresso e de civilidade como sinônimas, exigia a transformação dos hábitos, dos comportamentos e dos costumes. Como o espaço urbano estava segregado, havia regiões em que se concentravam a população pobre. Nesses locais, a falta de infraestrutura era flagrante e as vantagens da modernidade não chegavam. Os trabalhadores que residiam nessas regiões se dedicavam a diversos ofícios como a venda de latas de água, trabalhos domésticos, criação de animais e outros. Do outro lado, na zona urbana ou central, o urbano na concepção de espaço planejado, asseado e confortável ia sendo construído e inúmeros procedimentos utilizados para efetivar a construção. Não obstante, a modernidade tinha um aspecto sertanejo, em que o arcaico sobrevivia, principalmente pelas práticas herdadas do mundo rural.

Embora não estivesse na região história de Minas Gerais, mas na área denominada “boca do sertão”, os habitantes das cidades do Triângulo Mineiro não se consideravam característicos do sertão. Acreditavam se assemelhar à imagem construída sobre do povo mineiro: indivíduos honestos, trabalhadores, hospitaleiros, inclinados às ciências e às artes. Objetivando validar suas percepções, os grupos sociais triangulinos lutavam para que em nada tivessem que invejar de outros. Nos vinte primeiros anos do século XX, nas principais cidades da região, inúmeras foram as estratégias (políticas e discursivas) para divulgar uma imagem positiva e materializar as benesses da modernidade como sinônimo de urbanidade e civilidade.

REFERÊNCIAS

AMANTINO, Márcia. O mundo das feras: os moradores do sertão oeste de Minas Gerais – século XVIII. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. (Tese de doutoramento).

BRESCIANI, Maria Stella. “Cidade e história”. In: OLIVEIRA, Lúcia. L. (org). Cidade: história e desafios. Rio de Janeiro: FGV, 2002. pp. 16-35.

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1 Atuais cidades de Indianópolis e Cascalho Rico, respectivamente. A evolução de alguns aldeamentos indígenas para a condição de cidade pode ser explicada pela existência de uma população sedentária e de serviços especializados; o que lhes conferiu um caráter proto-urbano.

2 Aldeamento extinto.

3 O sítio onde existiu o Quilombo do Ambrósio fica no território da atual cidade de Ibiá. Destruído em 1746, renasceu sob o nome de Quilombo Grande ou do Tengo-Tengo e causava receios nos habitantes da região devido à sua organização social, econômica, pois, ao mesmo tempo que mantinha a coesão, facilitava os ataques a seus inimigos.

4 Atuais cidades de Campo Florido, Ituiutaba, Monte Alegre, Tupaciguara, Campina Verde, Araguari, Santa Juliana, Itumbiara e Uberlândia, respectivamente.




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